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domingo, fevereiro 24, 2008

"Cuida bem dessa bola..."

Um boi pelo bife

Não é da minha lembrança qualquer referência à preservação dos recursos naturais antes de 1960 (aproximadamente, é claro!). Sei que, por essa época, alguns cartazes nos colégios falavam que o Rio Grande do Sul não teria nenhuma árvore em 1970, caso não cessasse já o desmatamento. Foi por essa época que o Paraná desbancou São Paulo como produtor de café e, em 1963, um enorme incêndio nas plantações deixou milhares de vítimas, tanto em desabrigo quanto em falência de suas lavouras. Como sempre, a população brasileira mobilizou-se solidária. Ser solidário é uma tradição nacional mais consolidada do que o futebol e o carnaval.


Um dos mais belos cartazes em defesa do Planeta, para mim, veio do governo de Santa Catarina, na primeira metade dos anos 70. Era um garotinho (branco sulista) brincando com uma bola, mas a bola era um globo terrestre. E a legenda: “Cuida bem dessa bola. Deus não vai fazer outra”.

Na última quarta-feira, representantes de várias cidades goianas da vertente do Rio Paranaíba reuniram-se na minha Caldas Novas. O propósito: cuidar do grande rio que, com o Rio Grande, forma o Rio Paraná, tributário importante do Rio da Prata. O complexo Paranaíba, Grande e Paraná detêm dezenas de reservatórios geradores de energia, sem dúvida, é um dos maiores e mais importantes do mundo. E, agora, parece-me, as autoridades goianas ligadas ao meio-ambiente acordaram para cuidar do rio.


Somente sobre o lago de Furnas-Itumbiara, debruçam-se 16 municípios goianos e 12 mineiros. Isso, como tributação direta, pois a bacia do Paranaíba, em Goiás, responde por 43% do território do Estado e por 76% da população goiana. Há uns quatro ou cinco anos, tomei conhecimento de reuniões dos municípios mineiros para debater cuidados com o Paranaíba. Goianos participaram, timidamente, como convidados. Pelo visto, só agora os da margem direita se preocupam. Será que há estímulo financeiro federal? É possível.

Mas as autoridades federais incumbidas de salvar o futuro... Sei não! Fico por entender como fazem vista grossa ante a expansão do plantio da soja; e, agora, vem aí um novo surto, o da produção de cana para produzir álcool combustível. O cerrado está se tornando uma saudade, apenas. E ninguém diz nada.

No Pará, uma cidade chamada Tailândia revolta-se maciçamente contra fiscais do Ibama e apedrejam a Polícia Militar. Tudo porque as autoridades, sempre em minoria qualitativa, tentaram conter o desmatamento desenfreado. Segundo a imprensa, os madeireiros (patrões) incitaram os madeireiros (empregados) a insurgir contra as autoridades. Penso que é hora de uma ação drástica... Na região, há mais de 30 anos, o Exército se mobilizou contra a guerrilha do Araguaia. Agora, penso eu, a ação é decisiva. Não se trata de combater oponentes do regime, mas uma quadrilha que se propõe a exterminar o futuro.


Na tevê, vejo propaganda de uma das maiores mineradoras do mundo contando vantagem sobre extrativismo desenfreado. Um geólogo me diz, indignado: “Dentro de 50 anos, o Brasil não terá nada mais no subsolo, porque essa gente (os da propaganda ufanista) vai extrair tudo!”.

E ninguém faz nada. Aliás, faz: faz propaganda, bate no peito feito torcedor de futebol festejando o mais recente troféu. Só que troféu esportivo se tem ao término de cada campeonato, mas as jóias do reino, armazenadas por Deus, há milhões de anos, nos cofres do subsolo, estas...

É hora de ações severas. A gente precisa esquecer um pouco o sistema de captação pecuniária das Fazendas Públicas e pensar no futuro. Uma carga tributária da ordem de quase 40% do PIB e a economia sob crescimento real são argumentos suficientes para nos permitir cuidar das reservas.

Ou vamos continuar vendendo um boi para comprar um hambúrguer?

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Entrevista a Ariadne Lima

Falando de jornalismo e literatura

Entrevista concedita em agosto de 2005 à jornalista Ariadne Lima (*)

de Belo Horizonte


1. Atualmente, onde mora? Goiânia?

Luiz de Aquino - Sim, moro em Goiânia. Nasci em Caldas Novas (15/09/45); em março de 1956, mudei-me para o Rio, fui morar com minha avó materna (Vó Ignez), em Marechal Hermes; concluí o primário e ingressei no Colégio Pedro II; em julho de 1963, voltei ao Planalto Central e, desde então, estou em Goiânia.

2. Desde quando é membro da Academia Goiana de Letras?

L.deA. – Fui empossado em março de 1997.

3. De quais outras instituições literárias ou jornalísticas faz parte?

L.deA. – Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Goiás; Associação Goiana de Imprensa; União Brasileira de Escritores (UBE) -Goiás (fui presidente no biênio 96/98; estou desligado desde o começo do segundo mandato da atual presidente); UBE-Rio; UBE-Paraná (fui membro-fundador, mas a entidade está adormecida); Casa do Poeta do Rio Grande do Sul; Sindicado dos Escritores do Rio de Janeiro; Academia de Letras e Artes de Caldas Novas (membro fundador); Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (membro fundador e ex-presidente); Academia Piracanjubense de Letras e Artes (membro correspondente); Lavourartes (instituição recém criada em Goiânia; neste sábado, 13 de agosto, discutimos o anteprojeto dos estatutos).


4. Já recebeu prêmios? Qual(is)?

L.deA. – Sim, recebi alguns, entre eles o prêmio Cora Coralina em prosa (edição e prêmio em dinheiro), em 2001, pelo meu livro de contos A noite dormiu mais cedo. Não é hábito meu participar de concursos.


5. Você se considera um “jornalista escritor” ou um “escritor jornalista”?

L.deA. – Olha, já me disseram que, entre os “jornalistas escritores” ou “escritores jornalistas”, em Goiás, sou o único que desenvolveu ambos os ofícios no mesmo passo. Os demais companheiros ficaram conhecidos ou como escritores que trabalham em jornal ou jornalistas que escrevem livros. Sob essa ótica, fui ambos; agora, tenho sido muito mais escritor, pois há três anos que me limito, em termos de jornais, a produzir crônicas.


6. O que surgiu primeiro em sua vida? Jornalismo ou Literatura? Se possível, cite datas.

L.deA. – Literatura. Dos trabalhos escolares e cartas aos pais (lembre-se que eu morei fora de casa e, dos 10 aos 15 anos, só me comunicava com meus pais por cartas), passei aos poemas. Meu primeiro texto em prosa para jornal se deu em 1967, em Anápolis. Desde então, passei a ser colaborador de jornais, pois exerci funções de assessoria de imprensa no Banco do Estado de Goiás e na Telegoiás, antes de me empregar efetivamente em um periódico (foi no Jornal Opção, que era diário, em 1979, e comecei como redator na editoria de política, que é onde todo mundo queria chegar). Desde então, tudo andou junto, pois, em 1978, saiu meu primeiro livro de contos – O Cerco.


7. No caso específico da literatura, como e porque ela entrou na sua vida?

L.deA. – Minha mãe lia muito. Minhas lembranças dela, quando fui morar com minha avó, eram sempre nesses ambientes: a cozinha, o quintal onde criava galinhas e nós brincávamos e a cama onde, por algumas horas, lia à tarde. E minhas dissertações e descrições, no ginásio, eram sempre alvo de apreciação mais demorada pela professora Maria Helena Silveira. E a poesia, atrevi-me a escrever aos 15 anos, na quarta série ginasial (nono ano, hoje).


8. Na sua opinião, por que é tão comum encontrarmos jornalistas que acabam
ingressando na literatura?

L.deA. – Suponho que boa parte dos jornalistas escolhe a profissão justamente por ser a que mais se aproxima da literatura (um detalhe: jornalistas que qualifico como “de meio alfabeto” têm ojeriza aos que trazem consigo pendores literários; isso é ruim). A diferença fundamental entre os escribas de jornal e os de literatura está na capacidade ficcional. Veja que são muitos os “jornalistas escritores” que só escrevem livros jornalísticos, biografias e fundamentos para a História − estes não são ficcionistas, mas são escritores; e se têm “molho”, isto é, se são dotados de (como diz Brasigóis Felício) ”magia”, farão literatura seja em livro, seja em texto de notícia.


9. Por favor, você pode fazer um breve currículo de sua carreira jornalística, citando as empresas pelas quais passou e as funções que já desempenhou? Atualmente, atua em algum veículo de comunicação? Qual veículo e qual função?

L.deA. – Alguma coisa já adiantei: as assessorias de imprensa, no BEG e na Telegoiás; depois, o Jornal Opção (em sua fase diária), o Cinco de Março (semanário), Diário da Manhã e Folha de Goiás (diários), O Estado de Goiás, Gazeta de Goiás, O Sucesso ((semanários) e várias revistas de duração efêmera. Nesses veículos, fui repórter, repórter fotográfico, redator, subeditor, editor setorial, editor executivo e editor geral. Em algumas ocasiões, fiz colunas sobre a cidade; noutras, cultura (literatura e artes). Uma das fases mais marcantes foi por um período de aproximadamente cinco anos em que atuei nas reportagens policiais. Colhi muita informação para o meu aprimoramento pessoal no convívio com tão variados tipos de pessoas (sou formado em Geografia e tenho muita facilidade para entender os processos sociais).

Atualmente, produzo duas crônicas por semana para o Diário da Manhã (segundas e quarta-feiras, e o endereço do jornal é www.dm.com.br). Este é um exercício que me dá muito bem o significado do jornalismo literário.

(Ressalva: atualmente, fevereiro de 2008, escrevo uma crônica para o DM, aos domingos. L.deA.)


10. Como é o ritmo da sua produção literária? (Contínuo, você estabelece rotina para isso, ou é aleatório, baseado na inspiração?).

L.deA. –Não uso agenda e não sou escravo de horários. Posso passar muitas e muitas horas ao teclado do computador − mas nunca tive LER, ou DORT. Eu me organizo ao meu modo, isto é, crio mentalmente o fluxo dos meus textos. E não sofro por isso, ou para isso. Posso armazenar textos inteiros ou frases soltas. Certa vez, guardei na memória um verso, sabia que, algum dia, ele comporia um poema; e o poema saiu dez anos depois de esse verso ser concebido.
Escrevo por inspiração, mas escrevo muito mais porque é preciso. Nunca atrasei as máquinas nem compliquei meu editor com atrasos. E tanto posso sintetizar um texto, se o espaço for mínimo, ou esticá-lo o bastante para atender a edição (ou editoração). E isso não é falsear nada: por exemplo, dizer que “numa operação digna de cinema, ladrões roubaram mais de 150 milhões de reais do Banco Central, em Fortaleza”; fizemos a tira de rodapé para o GloboNews ou a BandNews; mas se há uma página de jornal a se fazer, recorremos às fotos e aos textos, contaremos do túnel, da engenharia que resultou na perfuração do piso de concreto, dos meios usados para se tirar de lá tantas notas, etc.


11. Qual foi seu último livro? Quando foi lançado? Fale-me a respeito, por favor.

L.deA. – Bem, a minha mais recente festa literária foi em outubro de 2003. Festejei o jubileu de prata de O Cerco, lançando o livro em segunda edição; e lancei, na mesma noite, um novo livro de poemas – Sarau. Mas o último (e sempre no sentido de “derradeiro”) está em fase de gestação. Trata-se de As uvas, teus mamilos tenros – um livro de poemas eróticos, a ser publicado em dois idiomas – português e francês. E justamente hoje, faço a seleção e a montagem de mais um livro de poemas cujo título ainda não concebi (é que essa produção resulta em duas linhas de poemas e, ao separá-los, pois, estou produzindo dois novos livros; um deles virá a lume ainda este ano e o outro aguardará momento próprio).

(Esse livro foi lançado em novembro de 2005. L.deA).


12. Você tem previsão de quando sairá um próximo livro? Pode me falar a respeito dele?

L.deA. – Pois é, ao que tudo indica esse livro será lançado em outubro, na semana do aniversário de Goiânia (a data máxima da cidade é 24 de Outubro, dia em que se deu, em 1933, o lançamento da Pedra Fundamental da cidade; Goiânia “descende” de Belo Horizonte e, por sua vez, serviu de exemplo para que o presidente Juscelino Kubitscheck − um “goianeiro” − se atrevesse a construir Brasília (digo que JK é “goianeiro” porque, nascido em Minas, foi um dos mais importantes cidadãos de Goiás; sim, de Goiás! Ele foi senador pelo meu Estado).
Esse novo livro, de poemas, terá − pelo que agora estou sentindo dele − as minhas marcas (inevitavelmente): são poemas com pitadas de amor, farinha de erotismo e cobertura de sensualidade, com confeitos de breve humor. Acho que não trará nada de novo, não sei...


13. Em algum momento, você sentiu que as técnicas jornalísticas influenciaram negativamente sua inspiração artística?

L.deA. – Veja que coisa linda: disseram-me (eu não li isso) que Ernest Heminguay dizia não ser “verdade que o repórter mata o escritor em nós, desde que abandonemos o jornalismo antes que isso aconteça” − a frase seria mais ou menos assim. Eu diria que o jornalismo não estremeceu minha vocação literária. Ou a poética, ao menos. Trabalhava entre dez e 14 horas por dia, levantando matérias, fotografando, revelando, escrevendo, editando (houve uma época, o jornal em sua pior crise, em que eu era, sozinho, uma equipe: dirigia o carro, fotografava, redigia e editava) e, à noite, fazia poemas. Por outro lado, os fatos jornalísticos, vistos pela ótica minuciosa do repórter, tornam-se notícias, sim; mas a edição reduz tudo o que a gente sabe a um recado ao leitor. Então, aquela coisa − muita coisa − que não publicamos acabará virando literatura, pois virá a ser fato de nossos contos, poemas e romances.

14. Jornalismo e literatura trabalham com a mesma matéria-prima: a palavra. Sendo assim, na sua opinião, técnicas jornalísticas podem beneficiar a literatura e/ou vice-versa? Como?

L.deA. – Eu acho, Ariadne, que respondi isso na pergunta anterior. Acho, sim. Concordo plenamente e atrevo-me a dizer − como digo sempre que falo a estudantes, especialmente estudantes de jornalismo − que qualquer repórter, de qualquer área, pode redigir com espírito literário. O bom senso lhe dará o limite, que é tênue. Assisti, ontem, à colação de grau de novos colegas; em seu convite, uma frase bonita: “Sabe quando descobri que queria ser jornalista? Quando perguntei pela primeira vez à minha mãe: por quê?”. Mas permito-me discordar. Aprendi, e era moço ainda, que um repórter deve perguntar “como, quando, onde, quem?”, mas deve evitar perguntar “por quê?”, pois, a partir daí, ele deu o primeiro passo na literatura.

15. Em algum momento da sua carreira, jornalística ou literária, você se permitiu entremear os gêneros?

L.deA. – Acho que sempre. Meu primeiro livro, O Cerco, de 1978, recebeu do escritor e crítico literário Miguel Jorge a observação de que, em meus contos, eu desviava, muitas vezes, para a linguagem da crônica. E nos jornais, sempre me deram como um redator com propensão à literatura. Acho que essa “mistura” foi alvissareira, para mim: os leitores gostaram, eu gostei...

16. Você acha que os fatos vivenciados pelo jornalista podem inspirar o trabalho do escritor (ou o contrário)?

L.deA. – Pois é, já me antecipei também a essa pergunta. Aliás, chego a pensar − sem querer ser pretensioso, que represento bem o escritor que se vale da vivência jornalística, bem como o jornalista que se privilegia por ser escritor. No fundo, eu gostaria muito − tenho dito isso, repito, a tantos estudantes − que essa mistura beneficiasse todos os que elegeram o ofício de jornalista por profissão. Tenho certeza de que nossos veículos ganhariam muito em qualidade. Um exemplo disso ocorreu hoje mesmo, no Bom Dia, Brasil: o apresentador de esportes, Tadeu Schmidt descreveu com filigranas literárias a atuação de Robinho no jogo de ontem. A propósito, os colegas do esporte são os que mais se aventuram nos meandros da literatura, já notou? Eles são a amostra de que literatura e jornalismo podem − e devem − andar juntos.


17. No primeiro século de jornalismo no Brasil, a presença de escritores na imprensa era muito mais expressiva. Para você, o que explica a redução de escritores no jornalismo?

L.deA. – Isso é fruto do processo de evolução social. Conheci escritores aqui, não forjados em ofícios profissionais regulares, que vieram ter às redações justamente para oferecer seu talento com as palavras. E não é difícil, já que o escritor é um observador detalhista de fatos. O perigo está justamente no risco de se fazer da notícia uma peça de ficção − mas isso, como temos visto, a política faz sempre...
Mas, respondendo objetivamente, não existe escola para escritor; existe escola para jornalistas. Escritores somos todos e qualquer um pode vir a sê-lo: qualquer profissional, qualquer desocupado. Quantos presidiários não se tornaram escritores? Um dos principais elementos para o jornalista é a formação ética. Claro que o conhecimento amplo da língua é fundamental e uma bagagem de conhecimentos gerais é indispensável, mas a ética é
conditio sine qua non. Lidamos, ao elaborar as notícias (coletar dados, redigir e divulgar) com a intimidade das pessoas e a segurança da sociedade, entre outros fatores; e, em jornalismo, não vale dizer que “qualquer semelhança é mera coincidência”.


18. Você acha que o ensino das técnicas jornalísticas nas faculdades (lançando um profissional essencialmente técnico no mercado) contribui para essa diminuição?

L.deA. – Digo mais ainda, Ariadne. Esse profissional técnico pode inverter a situação − e parece-me que é isto o que acontece: antes, era o escritor que vinha trabalhar nos jornais; hoje, é o jornalista que se torna escritor. Essa ligeira metamorfose é, no meu modo de entender, uma excelente chance para o nosso crescimento pessoal.

19. Da mesma forma, antigamente os jornalistas-escritores respondiam pelas diversas editorias de um jornal, com destaque para as editorias de polícia, política e de gerais. Hoje, a maioria se concentra em cadernos e suplementos de cultura. A que você atribui essa mudança?

L.deA. Suas perguntas já contém a resposta. Mas, veja um exemplo nacional: Carlos Heitor Conny é um “escritor jornalista” ou um “jornalista escritor”?


20. João do Rio questionava a contaminação entre arte e técnica, no caso de jornalismo e literatura. Ele questionava se a prática de um poderia influenciar negativamente a prática de outro. O que você pensa a respeito disso?

L.deA. – Eu apenas tiraria a palavra “negativamente”. Médicos escritores só escrevem sobre medicina? Não, eles se valem do que ouvem e vêem em seus pacientes, no ambiente social que atende. A. J. Cronin, escritor e médico inglês, produziu muitos romances cujos protagonistas eram médicos. E, ao escrever romances, não o fazia em forma de receitas nem relatórios médicos. Agora, imagine: se João do Rio, que morreu em 1920, pensava assim, o que não pensaria ele hoje, quando nossas vidas são muito menos contemplativas? Vou fazer 60 anos e vivi muitas diferenças, desde 1945 − comecei a escrever com as prosaicas penas que molhava num tinteiro − e, por isso, posso muito bem distinguir esse tempo que, hoje faz de um estudante de ensino médio alguém mais ocupado que um juiz de direito de 1950. Duvido muito que, naquele tempo, a técnica jornalística atrapalhasse o escritor (e vice-versa), até porque, naquele tempo, a diferença técnica era, ainda, muito menor do que hoje.


21. Você acha que o jornalismo é capaz de provocar o chamado “bloqueio criativo” do escritor?

L.deA. – Ah, é hora de outra confissão... Claro que falo por mim e isso não pode ser tomado como regra geral. Quando era, sozinho, uma equipe de reportagem e edição, eu me realizava muito no trabalho. Saber dos fatos, ouvir policiais e presos, encontrar-me com bandidos em “mocós” e horários por eles escolhidos superavam muito da minha vontade de escritor: era, também, uma realização pela aventura, ou seja, eu me tornava aquele personagem oculto em muitos textos literários − o narrador. Assim, a minha produção poética aumentou muito, mas eu não escrevia prosa. Foi preciso voltar ao emprego no banco, onde era obrigado a cumprir horário em ação burocrática, para retomar o gosto pela prosa de ficção − a prosa não-jornalística.


22. Você acredita que hoje é possível abandonar o jornalismo e viver apenas de literatura? Alguma vez você pensou em fazer isso?

L.deA. – Muito difícil. Viver de literatura, no mundo todo, mas muito especialmente no Brasil é quase impossível. Quantos vivem, além dos gráficos, editores e comerciantes de livros? O Paulo Coelho... Acho que só, pois Jorge Amado já morreu. Os outros, mesmo que desfrutando de um grande nome, têm outras profissões que sustentam a literatura do profissional; e são eles, quase todos, jornalistas: Fernando Sabino, Conny... ou funcionários públicos (o melhor exemplo é Drummond).


23. O que a literatura representa na sua vida hoje? Está mais próxima do prazer ou da profissão?

L.deA. – Do prazer, sempre. Houve época em que, premido pelas circunstâncias, levei meus livros diretamente aos leitores, ocasião em que me chamaram de “andarilho da poesia”, expressão que traduzi por “camelô literário”. Pude notar que o brasileiro adora poesia, mas não entende que precisa comprá-la − a máquina do márquetim não ensinou isso ao povo brasileiro. Como essa mesma mídia oferece auto-ajuda, auto-ajuda vende; mas poesia, não. E romance... O romance brasileiro tem de competir com os clássicos − porque não há que se pagar mais direito autoral − e com os enlatados; o livro traduzido já tem a propaganda feita, não é mesmo, Harry Potter?


24. E no caso do jornalismo?

L.deA. – Desde que me aposentei no Banco do Estado de Goiás, exerci o jornalismo, como empregado, por três ocasiões, totalizando pouco mais de dois anos; aí, o jornalismo estava atrapalhando o meu tempo de escritor. Aposentei-me para ter mais tempo para ler e escrever.


25. Você acredita que o jornalismo pode ser uma alavanca para a carreira literária ou que, ao contrário, a literatura pode ser uma alavanca para a carreira jornalística?

L.deA. – Sim, isso pode acontecer nos dois sentidos. Penso, sim, que é saudável − mais ainda para o jornalismo que para a literatura; mas o profissional jornalista, bem como o escritor diletante (escritor, no Brasil, é sempre diletante) há de saber separar as coisas e entremeá-las sem que uma coisa prejudique a outra.



26. Na sua opinião, qual o perfil do jornalista escritor da atualidade?

L.deA. – Esse perfil está em muitos... Rui Castro é um excelente escritor e, nessa condição, escreve como excelente jornalista, ou vice-versa. Livros como as biografias de Garrincha e de Nelson Rodrigues e Carnaval no fogo são excelentes! Fernando Morais: suas obras são grandes reportagens travestidas de romances − Olga, Chatô.... Conny já citei...
Há muitos, e atuais, que dignificam tanto a profissão do jornalista quanto o ofício do escritor.


27. No começo de sua carreira literária, algum “jornalista-escritor” serviu de inspiração para você? Qual(is)?

L.deA. – Pergunte-me por antes ainda... Era um guri de dez anos, no Rio (Marechal Hermes) quando comecei a ler, com prazer de gourmet, Adalgisa Néri, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Nelson Rodrigues, José Louzeiro... Arthur da Távola, também. Sempre gostei dos textos de Fernando Sabino e de Adolfo Bloch. Destes dois copiei o modo de redigir entrevistas não como um pingue-pongue, mas expondo tudo o que se falou com o entrevistado numa crônica jornalística. Cheguei a publicar um livro, em 2000, com 17 entrevistas, das quais apenas uma saiu com perguntas e respostas, e sempre disse que trabalhei naquela técnica à sombra de Fernando e Adolfo.


(*) Dessa entrevista, ao lado de outras 12 com jornalistas escritores de vários pontos do País, Ariadne Lima montou excelente matéria para a edição do final de ano (2005) da revista PQN (Pão de Queijo News, BH-MG).

A matéria na PQN pode ser lida em http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=944

sábado, fevereiro 16, 2008

Vereador goianiense quer "destronar" o Anhangüera


Futuro é fumaça


Também já fui bobinho o bastante para entender que os bandeirantes não mereciam ser chamados de heróis ou terem assento nas páginas da História do Brasil, pois eram homens truculentos que chacinavam índios. Também já entendi que os generais de toda a História, os imperadores e reis, os bispos e protestantes reformistas eram pessoas movidas por causas mesquinhas, ou seja, não mereciam ser chamados de heróis.

O que me movia era a crença em um dos lados da religião, o lado da bondade ingênua, o da santidade piegas. Demorei a entender que o ser humano é feito de todas as têmperas: no homem cabe o bem e o mal, e bem e mal são conceitos diferenciados conforme a moral vigente e os interesses dos governos e das religiões (duas coisas tão próximas quanto craques e cartolas, diplomatas e espiões, médicos e coveiros).

Vejo aí, nos jornais, a iniciativa de um vereador no sentido de remover do centro histórico de Goiânia a estátua de Bartolomeu Bueno, o filho, desbravador destas terras e fundador de “Vila Buena”, que traduzimos por Vila Boa e que o mau-gosto da repetição impôs com o simplório “Goiás”, em detrimento do nome espontâneo de origem. Goiás é nome bonito, mas já era o nome do Estado; que se conservasse, pois, o nome original.

A primeira vez que ouvi esse disparate, concordei com ele; depois, envergonhei-me do meu analfabetismo funcional e me recompus. O Brasil inteiro reverencia Rui Barbosa, o jurista impecável, o escriba de textos impecáveis, mas político falho que, no Senado (vale lembrar: é tido como o maior dentre os maiores senadores nestes quase dois séculos), repreendeu o presidente Hermes da Fonseca por receber Chiquinha Gonzaga no Palácio do Catete. Disse ele que a dignidade da Presidência da República era contaminada pelo “bodum das senzalas”, referindo-se ao corta-jaca, um ritmo afro-brasileiro que a grande musicista divulgava.

Futuro é fumaça; passado é sólido. Não se muda o passado.

Heróis são pessoas. E as pessoas agem conforme sua época. Expulsar da praça pública, em terras goianas, a memória de Bartolomeu Anhangüera é expulsar Pedro Ludovico do Palácio das Esmeraldas; é expulsar Hipócrates e Pasteur dos hospitais; Platão das academias; e, pior e mais emblemático, é expulsar Jesus Cristo das igrejas, inclusive a do vereador, que é pastor evangélico.

O vereador promete arregimentar líderes como o presidente da Funai e outros mais “ligados” à causa indígena. Ora: povos diferentes, num mesmo espaço, são antagônicos. Tanto era violento o branco europeu por aqui quanto o índio nativo. Sangrentos eram ambos. Como árabes e judeus, hoje, nas disputas pelo território. Mascarar a verdade com a chancela de “minorias qualitativas” é cínico; é inoportuno; é feminismo de dondoca.

Em lugar de tentar burlar a História, o pastor vereador deveria voltar à escola. Falta-lhe filosofia para melhor analisar os fatos e falta-lhe, certamente, melhor conhecimento. Ou ele tenta a fama a qualquer custo? Isso é ruim.

Em lugar de remover estátuas, vereador, Vossa Excelência devia, isto sim, pugnar pelos esgotos pluviais de Goiânia. Ou pelo nivelamento das calçadas do alto dos setores Bueno e Bela Vista. Quanto à estátua, oferecida a Goiânia pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, da tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, trazida para Goiânia por ninguém menos que Cunha Bueno, Jânio Quadros e Ulisses Guimarães, já basta a violência de que foi vítima pela malfadada reforma da Avenida Anhangüera, em 1998.


Sim: cuide da cidade, vereador. Sei que Vossa Excelência tem amor por esta terra, tal como eu; sua juventude dota-o de ímpetos, mas o bom senso recomenda comedimentos, e não seria bom que, em duas ou três décadas, sua consciência o recriminasse por esta medida.

domingo, fevereiro 10, 2008

Arte, pecado, preconceito...



Tríduo momesco

Estranhamente, Goiânia já foi melhor durante o carnaval. A cidade ficava pacífica por demais, o trânsito quase que desaparecia, as ruas ganhavam uma paz como as das noites nos cemitérios. Este ano, penso que muita gente deixou de viajar. Os índices de acidentes, alarmantes; os preços nos locais de destino (predominantemente as cidades do interior, os tais pólos turísticos) dignos da exploração do turista (em vez do turismo); as notícias escandalosas sobre a febre amarela... Sim, deve ter sido tudo isso.

Em Caldas Novas, a Prefeitura divulgou que havia 150 mil turistas na cidade... Executivo de hotel contesta: “Mentira! Não tem dez mil”. Menos mortos nas estradas, ao menos.


Quarta-feira de cinzas é sempre igual... Aquilo de dormir até tarde, de amargar na boca a bile processada em desigual, o corpo cansado e a mente limpa. Afinal, houve o carnaval, que hoje tem duração variada, de acordo com o lugar onde acontece ou a disposição do folião. Houve um tempo em que era chamado “entrudo”. Palavra feia... E lembro-me de ouvir algum locutor (certamente, um locutor esportivo) chamá-lo de “tríduo momesco”.


A uma amiga pernambucana, pergunto à guisa de bom-dia, minutos após o meio-dia: “Acordando agora?”. Não, não... ela não gosta de carnaval. É o que me diz, mas concluo que o não-gostar está mais ligado a ditames religiosos pentecostais do que propriamente às escolhas dela. Digo-lhe que já gostei muito, mas que a idade vai nos afastando. O carnaval é uma festa grandiosa, cheia de arte, desde a música até a plasticidade de formas e alegorias e cores. Não deve ser orgia grupal, como se vê em muitos lugares. Curiosamente, no Rio de Janeiro a festa volta a ser o que sempre devia ser: uma festa. Gosto de ver o calor e a alegria do frevo no Recife, a adaptação do Boi Bumba em Manaus... Salvador aparece (penso eu) como sério apelo turístico, uma fonte de emprego e renda, sem perda de seu pendor artístico. Mas é ingênuo pensar que nesses quatro dias não ocorra violência e, para desespero (ou desencanto) dos moralistas de fachada, nem excesso de sexo.

Bem, vou resumir. Ou tentar. Carnaval, apesar de tudo, ainda consegue ser mais inocente que uma hora na casa do BBB. Sexo é bom. É o meio de perpetuação de todas as espécies vivas. No nosso caso, Deus nos premiou com o prazer, mas deturpamos tudo. Um flerte, uma paquera, um toque ou mesmo um beijo fortuito fazem parte das alegrias da vida e vivemos, todos nós, em função da reprodução. Daí coisas maravilhosamente inexplicáveis, apenas sentidas, como amor aos pais e aos filhos e o investimento total de nossas vidas inteiras em prol das gerações futuras, como educação, patrimônio, moral, religião etc.

Por isso nos embelezamos; cuidamos da saúde, da pele, do bem-estar psicológico, da vaidade, inventamos a moda... mostramo-nos belos para o sexo oposto. Mas pôr a própria carne num varal, como açougue de feira... Aí, não! Adoro sexo; mas a dois, e com sentimentos superiores ao desejo apenas. Fui claro?

Parece que sim. Como disse, minha amiga é apegada a princípios religiosos, e a religião, sustentada em princípios de moral judaico-cristã, restringe-nos com a idéia de pecado. Eu sou dos que recusam a idéia de pecado; mas sei que a religião é um embasamento sólido na formação do cidadão. Só que... Alguém há de me explicar a razão pela qual grande parte dos que se dizem ateus são justamente os que nos dão melhores exemplos de comportamento cristão. Ou melhor: o que é ser ateu? Deve ser apenas a auto-definição dos que se recusam a admitir um Criador nos moldes das exigências dogmáticas.


Seria Jesus ateu?

domingo, fevereiro 03, 2008

Bebidas, adrenalina, trânsito e má educação



O Código e a lei-seca





Governo, imprensa e meios tidos como esclarecidos comemorou os dez anos do Código Brasileiro de Trânsito, dia desses. Co-memorar, ou seja, lembrar junto, nem sempre é festejar. Até porque, parece-nos, apenas o governo tem o que festejar. E, convenhamos, festejar dez anos desse Código é algo meio macabro. Não tenho números, apenas sei que são muito elevados: para a sociedade brasileira, um prejuízo irreversível de famílias enlutadas, reduzidas de modo dramático e drástico; para a indústria, uma explosão de vendas e faturamentos elevadíssimos, no que, inevitavelmente, vêm de reboque os segmentos comércio e serviços (seguro, oficinas de consertos etc.) e, o que eu ainda não disse (mas todos sabem): os cofres públicos, nos três níveis de governo, abarrotados com a arrecadação das multas e taxas.

Fala-se, agora, na elevação das multas. Certo: o condutor irresponsável só mudará de atitude quando essas multas lhes comprometerem seriamente o orçamento. Claro, existe uma fina camada da população, aquela no topo da pirâmide econômico-social, para quem as multas não pesam. Como aquele sujeito que, movido a bebidas e drogas, comete rachas na ponte, derruba postes e mata pessoas. Gente assim não liga para o dinheiro miúdo das multas... Muito menos para a vida humana, desde que não seja a dele.

Nestes dez anos, os poderes públicos não cumpriram sua parte de responsabilidade que ele próprio, o poder público, estabeleceu no Código. E esse Código não se fez a partir da massa popular, mas de gente do próprio governo. O equipamento público continua tão ruim (ou pior, em alguns casos) que antes; não se cuidou, nestes dez anos, de instituir algo com que a nação brasileira sonha desde os anos 50, que é inserir na grade curricular de ensino a disciplina Trânsito; condutores de moto continuam transportando passageiros e, com a certeza da impunidade, crianças menores de dez anos.

Há medidas fáceis e não tão onerosas que ficam no esquecimento. No caso particular de Goiânia, isso de os sinais luminosos serem instalados além do cruzamento ensejam um acréscimo expressivo no número de batidas nos cruzamentos. A regra sugere os postes de sinais antes do cruzamento, com é da praxe. Por outro lado, a frota de automóveis exige o alargamento das pistas de rolamento, mas aqui se tem muita calçada para pouco pedestre e pouco asfalto para muito automóvel.

Não bastasse tudo isso, vem aí, e já está em vigor neste domingo de carnaval, a lei-seca. Ela já funciona em São Paulo, onde se concentram as melhores rodovias do país. Mas como se controlará isso em Goiás? Aqui, por exigência de prefeitos e comerciantes, as rodovias desaparecem nas cidades; o tráfego se mistura ao movimento urbano do interior. Em Terezópolis de Goiás, a meio caminho entre Goiânia e Anápolis, o balconista de um botequim de beira de estrada sorriu desafiante para a câmera e o repórter de tevê: “Deixa a lei chegar; vamos ver como é que fica”. Ou seja, ele confia na impunidade costumeira e, assim, já vê a lei como letra-morta.

Bom: o carnaval anda a meio; as rodovias estão cheias de automóveis cheios de condutores cheios de cachaça, cerveja e outros dópins. Entristece-me não me sentir estimulado a uma pequena viagem neste feriado, mas o desafio das estradas me dá preguiça. Ou medo. E Goiânia é um paraíso de paz nestas folgas alongadas no calendário.

Verei desfiles pela tevê; lerei um ou dois livros; farei alguma visita... E esperarei pelo noticiário após, com as inevitáveis estatísticas de acidentes. Vamos ver quantos deles seriam evitados se efetivamente a mistura álcool e volante fosse evitada.