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sábado, outubro 31, 2009

O mico na crítica

O mico na crítica


Luiz de Aquino


Esta semana, passeei meu espírito por um Brasil especial, o Brasil das artes. O Brasil das bandas do interior e das escolas fundamentais e médias, com os tradicionais uniformes e a formação militar (as bandas, por algumas décadas, restringiram-se ao ambiente dos quartéis militares).

Em 1967, um moço mal entrado em sua faixa dos vinte anos, cantou num festival: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou / pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Esses versos, acasalados com a melodia num arranjo de metais e percussão, reconduziu a nação brasileira às bandas que, atualmente, tentam (e conseguem, felizmente) ressuscitar pelo Brasil afora. Mas “A Banda”, quando apareceu, sofreu um comentário infeliz de um dos críticos que, na época, constituíam o júri do programa de Flávio Cavalcante. Mister Eco (era o pseudônimo do crítico musical) condenou a música, arrematando com a frase: “Banda não canta. Banda toca!”.

Como se vê, o crítico não aceitava a metáfora. Mas, apesar dele e de sua frase, o Brasil inteiro virou banda e cantou coisas de amor. Éramos uma imensa banda de quase noventa milhões de músicos naqueles anos finais da década em que tudo mudou. Mas existem críticos e Críticos. E separá-los é uma função “crítica” que, nós, os mortais menores, temos de fazer, tornando-nos “críticos de críticos”.

Vejam o que contou o jornalista, professor de Literatura e cronista exemplar Sinésio Dioliveira:

“Outro dia li em um site as críticas de alguém sobre o filme “O curioso caso de Benjamin Button”, dirigido por David Fincher e que tem o ator Brad Pitt vivendo o papel de Benjamim. Tal filme é baseado num conto escrito em 1922 por F. Scott Fitzgerald. A mutamba do crítico comeu feio na parte do nascimento do protagonista da história: Benjamin, que nasceu velho, já com 80 anos de idade. Para esse alguém, “o nascimento fugiu da verossimilhança” 
(da crônica “Filme e livro possuem belezas distintas”, no DM, quinta-feira, 29 de outubro de 2009).

Curiosamente, tanto Mister Eco (em 1967) quanto esse “alguém” que Sinésio citou são pessoas que vivem disso, de criticar. É sua profissão, ou, ao menos, seu ofício diletante (e geralmente somos menos imperfeitos nos nossos ofícios diletantes do que no desempenho das nossas profissões). Alguns desses críticos são professores em salas de aula, ensinando errado.

Todos somos alvos fáceis da crítica. Basta-nos atuar na expor ideias e opiniões para, de imediato, sermos avaliados. Eu, que sou leitor há sessenta anos, (aprendi a ler aos quatro anos e nunca mais parei), seleciono, dentre o que leio, o que me agrada, o que me ensina e o me dá prazer.

Nunca procurei Cervantes, Camões, Castro Alves, Machado, Lins do Rego, Jorge Amado, Moacir Sclyar, Bernardo Élis, Lya Luft, Adélia Prato, Gilberto Mendonça Teles, Afonso Félix, Brasigóis Felício, Maria Helena Chein, Heleno Godoy, Décio Filho ou seja lá quem for dentre os meus preferidos para dizer-lhes o que escrever. Apenas os leio.

Mas há quem me procure para “me orientar”.

Gente, isso ofende. Dói, até! Em lugar de dizer-me o que escrever, essas pessoas deviam, sim, escrever sobre o que gostam. Estranhamente, são as pessoas que querem ler sobre as flores, o amor de olhares, a doçura da resignação religiosa. Rejeitam em mim o cidadão comum, o homem que cobra dos poderes e das instituições o procedimento que atenda àquilo de que a sociedade carece.

Fico mais para Geraldo Vandré. Eu falo das flores, mas mostro o canhão.


Luiz de Aquino é jornalista e escritor (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Goiânia, 76 anos

Entrevista que concedi a Michelle, da TBC/Cultura, Goiânia, no aniversário da cidade (ocorrido a 24 de Outubro).

terça-feira, outubro 27, 2009

Luiz Fernando Prôa: Pai!

Luiz Fernando Prôa: Pai!

Eu com o poeta Luiz Fernando Prôa,

em evento no Bar-Teliê, Ipanema.


Luiz de Aquino


O homem falando ao Fantástico chamou-me a atenção pela densidade do discurso. Era um pai em desespero, e meus olhos não acolheram a figura, somente meus ouvidos captavam a dor do homem. O dia seguinte, a segunda-feira, anteontem, 26 de outubro, marcou-se pelos comentários. Em todos os lugares, comentava-se do pai que chamou a policia.

Luiz Fernando Prôa é o pai do Bruno. Bruno, 26 anos, é músico. Há anos, depois de tomar gosto pelo álcool, experimentou outras drogas, entre elas as drogas “pesadas”. Consta que, no último sábado, ele matou, por asfixia, Bárbara Shamon Calazans, de 18 anos, sua amiga (ou namorada).

O fato mexeu profundamente comigo. Agradeço a Deus, todos os dias, por ter conseguido criar a Elia Maria, o Léo e o Fernando distantes das drogas e apegados a princípios morais embasados no respeito ao próximo. E todos os dias peço a Deus que mantenha o Lucas na mesma linha de conduta. Amém! Essas frases, ouço-as todos os dias de muitos amigos. E ouço também outros muitos amigos a pedir forças a Deus para que consigam trazer de volta alguma ovelha desgarrada.

Em todos os tempos, sabemos, houve o choque das gerações. Nós, os nascidos nas décadas de 1940 e 1950, pagamos caro por termos reagido com mais vigor. Realizamos a tal “revolução sexual”, com o inestimável apoio científico-tecnológico dos laboratórios farmacêuticos que nos deram a pílula anticoncepcional. Criamos novos ritmos, novas danças, novos costumes e acreditamos nos princípios revolucionários de Educação de Summerhill, rompemos, ao educar nossos filhos, com os limites tradicionais (e nada tínhamos para pôr no lugar). Agora, nossos filhos sentem que é preciso impor limites...

Bem, não é propósito desta tarde, momento de produzir a crônica de quarta-feira, chorar sobre o passado e as falhas. Todos falhamos: pais, amigos, educadores, executivos, operários, artistas, autores de textos e de músicas, médicos, policiais, membros da Justiça e do Ministério Público... Mas falharam mais ainda os governos, em todos os níveis e em todos os mandatos. O imediatismo das campanhas nos anos pares, a busca feérica pelo voto (e, mais ainda, pelas verbas sem saber de onde vêm) vendaram olhos e taparam ouvidos. Mas isso não é Brasil, gente! É mundo. Ou melhor, é Mundo! Esta geração de reis, de primeiros-ministros, de presidentes, de ditadores e até mesmo de religiosos com poder político é a grande culpada. Culpada por omissão.

E, assim, volto a tentar falar no motivo. Não quero buscar, na vida do Luiz Prôa, o momento do erro. O instante da omissão. O instante a mais de sono que possibilitou a fuga de Bruno. Prefiro recordar a emoção do Luiz ante a notícia da gravidez de seu primogênito, o momento em que se soube o sexo do bebê, as lágrimas do pai ante o choro do recém-nascido. Quanta emoção, meu poet’amigo! Quantos planos, quantos versos, quantos projetos de vida! Sei que muitos foram alcançados (afinal, Bruno é artista), mas num dado momento a luz piscou, fez-se um escuro ágil, quase imperceptível, e a escuridão marcou seu ponto. A gente, então, esquece os sonhos e planos. Arregaça as mangas e vai a luta, tenta trazer de volta o que se nos foge, como um pescador insistente a esticar e recolher a linha. Mas filho, meu Luiz Poeta-irmão, não é peixe... Nem sempre a nossa habilidade é vitoriosa. E, num momento de blecaute outra vez, acontece a tragédia.

Há alguns anos, troco informações e versos com Luiz Fernando Prôa. E um dia, há uns dois anos, tivemos um primeiro encontro, um sarau no Bar do Adão, em Botafogo, Rio de Janeiro. Alguém disse meu nome em voz alta, Prôa ouviu e reconheceu-me ali, ao lado. Anunciou-me para um poema e o poeta Cairo Trindade anunciou-me como “um poeta da Academia Goiana de Letras” (Cairo estava surpreso: não viu em mim o protótipo do poeta-acadêmico, sisudo e parnasiano).

Foi só o começo. Luiz Prôa conduziu-me a vários saraus poéticos pelo Rio afora: Santa Tereza, Teatro Gláucio Gil, o Bar-Teliê em Ipanema e ainda aquelas rodas de poesia em torno da estátua de Carlos Drummond de Andrade. Prôa é, de fato, um poeta e um ativista cultural incansável, sempre com a câmera em punho, fotografando e filmando, declamando e arregimentando o “poetariado” brasileiro para os saraus cariocas.

A dor, meu amigo, não é só sua. É nossa. É dos pais e mães que sofrem. É a dor dos pais e mães que perdem filhos por balas perdidas, por ação de ladrões, por efeito das drogas ou pelos acidentes de trânsito. É a dor dos que, como você, perdeu um filho para mais um subproduto da coca. A dor, meu querido Luiz Fernando, é nossa. É dor de poetas que se irmanam com você.

O triste é sabermos que a nossa dor não reduz a sua.


Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, outubro 24, 2009

O tempo e o tédio

O tempo e o tédio


Luiz de Aquino


A tarde levava o sol céu abaixo, lenta e persistente. O homem vinha de um almoço sem-graça, preguiçoso como a própria tarde. Não sorria, não via razão para isso; mas também não estava triste. Vivia, apenas. Esperando o dia que se arrastava para o próprio fim. O homem esperava a noite.

Existe isso de se esperar alguém, ou um outro tempo. A tarde, pensava o homem, não lhe traria nada. O jeito, pois, era esperar a noite.

– A noite é promissora. Alvissareira. A noite, ainda que solitária, é benfazeja. Já o dia, não. O dia é falso de princípios. Traiçoeiro. O dia é o tempo em que chegam as contas a pagar, os entregadores mal-humorados, os telefonemas de negócios. A noite é o tempo da bonança, tempo das mulheres enfeitadas, das boas músicas, das luzes coloridas. A luz do sol é um tédio – pensava o homem.

E assim, desinteressado das horas quentes da tarde sem-graça, saiu de casa. No carro, não ligou o rádio, driblou o tráfego das ruas e alcançou a rodovia. Fazia isso sempre que achava a vida sem atrativos. Ou os momentos em que a vida não lhe dava alegria. Tomou a pista à direita e, menos de um quilômetro depois, retornou e rumou ao norte.

Lembrou que aquele era um hábito antigo, dentre os vários que cultivava. Mas há tempos não o praticava. Viajar aqueles quarenta e dois quilômetros era o que fazia todas as vezes em que se sentia só. Ou seja, todas as vezes em que brigava com a mulher. Meia hora e lá estava ele, ao pé de Silvana, carinhoso e malemolente, cheio de palavras escolhidas e carinhosas. A moça retribuía as falas e carícias, desmanchava-se em dengos e, satisfeito, o sujeito tomara a estrada de volta.

Viveram seis anos assim. Seis anos e quatro filhos. Filhos que ele nunca registrou, alegava a situação de casado, impedido por lei de registrar filhos ultra-leitos. Silvana acreditava. Para ela, ele era um homem sábio, cheio de receitas e leis. Até um dia, porém. É que, certa vez, enquanto ele viajava com a família em férias, curtindo litoral, uma das filhas (eram dois casais) adoeceu.

Silvana costumava acioná-lo nessas ocasiões, e ele sempre cuidava de tudo. Mandava que levasse a criança ao médico, ele chegaria logo, logo, nada faltaria às crianças. Nada, a não ser a existência oficial do pai. O registro. O nome para constar nas carteiras de identidade.

O jeito foi ir ao posto de saúde pública.

A atendente conhecia a moça e as crianças. Sabia de sua história de vida. Pediu cartão, certidão, qualquer coisa assim. E só então soube que aquelas crianças não eram registradas. Silvana explicou que o pai não podia, etc. A moça da recepção fez uma cara de muxoxo. Em seguida, informou a Silvana que desde há muitos anos essa coisa tinha sido revogada, que qualquer pai podia, sim, registrar seus filhos.

Conversas mais, detalhes surpreendentes, orientações várias e Silvana saiu dali decidida. Buscou a Justiça, conseguiu registrar os quatro filhos e sumiu da vida do sujeito. Agora, vítima do marasmo de uma tarde de novembro de sol, lá vai ele. Sabe onde chegar... Vai ver Silvana. Sabe como conquistá-la, reconquistá-la. Certamente, teriam algumas horas de amor. Desta vez, não descuidará. Tomará cuidados para não engravidar a moça outra vez.

Chegou. Consultou tudo em volta. Viu luzes na casa. Chamou. Ninguém atendeu. Insistiu na campainha. Uma vizinha saiu à porta, reconheceu-o e contou, Silvana viajou pela manhã, a luz estava acesa para disfarçar. A moça e as crianças só voltariam daqui e alguns dias.

O homem foi embora. Um anjo chegou primeiro.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Goiânia: argamassa, asfalto e livros

Goiânia: argamassa, asfalto e livros


Luiz de Aquino


O poeta Guido Dutra, brasiliense de Anápolis, envia-me um apanhado de fotos da Normandia. Não são fotografias comuns, mas flagrantes colhidos nos dias que se seguiram à ocupação, aquele que passou à História como “O Dia D”. O capricho está nas tomadas atuais, focando os mesmos cenários, nos mesmos ângulos das imagens de maio de 1945.

Senti-me triste. É que, nestes 46 anos de presença em Goiânia, cidade que festeja 76 anos de sua Pedra Fundamental (e há 72 anos tornou-se a sede do governo estadual), vi muitos prédios demolidos sem qualquer respeito ao que, no nosso caso, formaria a História visual da cidade. Pedro Wilson, quando prefeito, reconstruiu os jardins da Avenida Goiás, devolvendo a Goiânia uma de suas mais belas imagens. Na década 1970, o coreto da Praça Cívica foi transformado num monstrengo inexplicável, mas o prefeito Rubens Guerra o restaurou, recobrando a forma original. Penal que os vândalos o depredam várias vezes ao ano, e a Prefeitura tenta preservá-lo.

A França buscou restaurar a Normandia, após a Guerra Mundial, respeitando os prédios bombardeados, devolvendo-lhes as condições de habitação e proporcionando, outra vez, um belo visual. Em Goi... Desculpem! No Brasil, essa vontade fica apenas nos corações dos poetas e arquitetos sensíveis, porque existem os que preferem demolir tudo para construir outra vez, modernizando para enriquecer-se. Dói-me ver que uma propriedade do Exército Brasileiro, a casa onde viveu o marechal Cândido Rondom, no Rio (Rua Mata Machado, em frente ao Maracanã) é, agora, um esqueleto totalmente abandonado, quando devia ser um patrimônio histórico.

Se a memória física (patrimonial) não é preservada, a gente briga e se esforça para manter a história das pessoas. Como me empenhei no sentido de fazer valer a memória do contista José J. Veiga, que, vivendo fora de Goiás desde os seus vinte anos, deixou clara a sua vontade de ser lembrado na própria terra. E coube ao SESC de Goiás acolher e preservar seu acervo, a meu pedido. Antes, porém, amigos da desgraça tentaram destruí-lo. Os livros, móveis e objetos, depositados num cômodo de confortável e significativa casa no centro de Goiânia, foram parar no porão, para serem destruídos pela umidade e as traças. O SESC restaurou tudo.

Livros, livros... Já tivemos valiosas livrarias na cidade.Na Rua 4, o Bazar Municipal, da família Scartezini; na Rua 8, a Figueiró, dos Figueiroa; na Rua 2, e depois na Rua 3, a Livraria Brasil Central, depois a Universitária, a Planalto... Mas o Bazar Oió foi, seguramente, o mais emblemático. Era a livraria de Francisca Hermano e Olavo Tormin.

Lá pelo final de 2007, recebi e-mail de uma jovem, Lúcia Tormin Mollo, de Brasília. Neta do casal Francisca e Olavo, a moça concluía Jornalismo e desenvolveu o seu trabalho de conclusão no resgate da história da livraria, a única no Brasil que a famigerada ditadura dos generais linha-dura fechou no Brasil. Lúcia veio a Goiânia várias vezes, visitou escritores e ex-funcionários, ouviu professores e inúmeros amigos de seus avós. O trabalho ficou muito bonito, estimulei-a a publicá-lo, e o livro já está em ponto de lançamento, editado pela competência de Iuri Godinho, da Contato Comunicação.

Enquanto espero o lançamento, sigo minha rotina de escriba e futriqueiro das coisas de letras. Publiquei mais um livro, trabalho na conclusão de outros dois e tenho mais dois em andamento, enquanto sonho mais e mais. E atendo a quem me procura: escolas, veículos de notícia, colegas escritores, professores, curiosos...

Na terça-feira, 20, deste outubro, ou seja, ontem, a TBC, ou, como prefiro dizer, a TV Brasil Central publicou entrevista minha à bonita e ágil Michelle, repórter competente. Falei de escritores e procedimentos literários de uma Goiânia antiga. Antiga? Coisas de sessenta ou cinquenta anos passados, apenas. Goiânia atravessará alguns séculos para ser chamada de antiga. Entrevistas são ocasiões em que o entrevistado fala muito e acaba dizendo pouco. Por exemplo: citei dezenas de grandes escribas desta cidade, mas a edição não tem como publicar tudo. E, fatalmente, posso ter esquecido alguns nomes importantes – tal como posso, nesta crônica, omitir livrarias de peso na vida da cidade –, mas penitencio-me sem culpa. Outros cobrirão minhas falhas.

Nestes dias de festa, a semana em que o 24 de outubro se insere, presto humilde e individual homenagem à cidade que invadi naquele agosto de 1963, com uniforme do Liceu. Beijo seu cenário e seu passado de valorosos construtores, sejam eles de casas e ruas, de educação e finanças.

Ou ainda de poesia, música, pincel e tinta. Livros!



Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

sábado, outubro 17, 2009

Canto de Véspera

Canto de Véspera


Luiz de Aquino

Era o primeiro ano deste século. Cuidava eu dos afazeres, como um livro de contos, outro de poesia, um curso de especialização (nenhuma necessidade... No dizer da professora Maria do Rosário Cassimiro, passamos a vida tentando fazer um bom currículo e, quando o conseguimos, estamos aposentados; era o caso) e outras ocupações talvez desnecessárias.

Dênia Diniz de Freitas presenteou-me com alguns ótimos livros. Entre eles, “Oráculo de Maio”, de Adélia Prado, poetisa mui amada, alma das Alterosas e das boas letras. Livro belíssimo, como tudo de Adélia. Meu tempo de leitura foi de doce torpor: a alegria do aprendizado na poesia mágica de quem nasceu fada. Motivado, escrevi alguns poemas, pensei publicar um livro chamado “Canto de Véspera”, mas limitei-me àqueles poucos poemas que, enfeixados sob esse título, inseri no volume poético “Sarau”, que publiquei em 2003 para festejar o jubileu de prata da minha estréia em livros: “O Cerco”.

Já falei sobre o ofício de escriba de jornal. Escrevemos de véspera e, ao dizermos “hoje” referimo-nos, realmente, ao amanhã. Então, e quando é o caso da crônica, posso esclarecer que o hoje é verdadeiro, e não a data do jornal. Hoje, por exemplo, é 15 de outubro, Dia do Professor. O jornalista Luiz de Aquino, estimulado pelo poeta Luiz de Aquino, naquele 2001, tentou por mais de três meses, todos os dias, entrevistar a poetisa mineira que Carlos Drummond de Andrade mostrou ao mundo. Debalde: ela poetisa-musa não tinha tempo para os da província.

Este, porém, não é o móvel destas linhas. Conto de livros outra vez, porque são eles a minha principal cachaça. Livro é vício, e vício bom. O incômodo são os ácaros. Vivo cercado de livros. Uso-os todos os dias, ainda que não seja naquela cena de alguém a ler. Consulto-os sempre, para matar curiosidades ou subvencionar um texto, ou ainda para orientar-me. Não me bastasse a familiaridade com eles, há os que arranco de mim e espalho até onde os posso enviar. São dezesseis títulos de própria lavra, edições de terceiros e muitas antologias, em prosa e verso. Duas vezes por semana, escrevo crônicas e avolumam-se os originais em memória de computador e recortes de jornais. Aos poucos, transformo-as também em novos livros.

Acabo de festejar trinta e um anos como autor . Comemorei com mais um livro, no mesmo cenário que me acolheu em outubro de 1978: Pirenópolis. Mal o tive pronto, voltei às pesquisas, organizei um novo livro de poemas, a que me dedico estes dias. Aguardo a revisão de outra obra, com textos sobre a Língua. E já cuido de mais dois livros (crônicas outra vez). No plano dos planos, outros dois: um de cunho histórico, em linguajar jornalístico, e o outro, um documentário. Tudo bem, Luciene! Sou sonhador, sim, mas não sei parar. Se paro, durmo; ou fico triste.

Isto que lhes conto, meus leitores, repete os afazeres de 2001. É o meu “modus vivendi”. Certa vez, quis fazer doutorado, mas fui desmotivado por um professor-doutor que não poderia ser outra coisa senão (s)ociólogo. Sim, Rosário Paranhos: há sociólogos e (s)ociólogos, e o demônio que me atendeu na Universidade era desta categoria. Saí de lá aliviado: doutorado para quê? Não preciso mais de currículo, professora Cassimiro!

Mas continuo fazendo textos, em prosa e poemas, sempre cercado de livros vários, e variados. E justo neste hoje, Dia do Professor, no país que dá aos mestres piso salarial de um terço do que se paga ao soldado de polícia, trabalho sobre estes livros e faço pausa para esta crônica domingueira.

É o meu Canto de Véspera...



Eu, velho professor, entre professoras do Liceu.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Livros dos outros


Luiz de Aquino


Meus amigos, ando de boca torta de tanto falar em livro. Sim, em livro, e não em livros. Ando falando muito no meu mais novo, de crônicas ao redor e no meio de Pirenópolis, minha amada Meia-Ponte (juro que preferiria chamá-la sempre assim, ao modo antigo). Mas resolvi, hoje, engavetar meu umbigo e olhar em torno e para o alto. E é olhando para o alto que me coloco, sempre, no meu lugar: mais embaixo. Ou no “baixo clero”, como me defini, há alguns anos, com relação aos notáveis da Academia Goiana de Letras.

“Baixo clero” é como a imprensa, e os próprios, referem-se aos deputados de menor destaque no Congresso Nacional. Parece-me que o termo não se aplica a senadores, talvez por serem em muito menor número. Na AGL, com apenas quarenta membros, não seria o caso, mormente por se entender que, ao chegar ao sodalício (palavra de pouco uso nas ruas e na mídia, mas muito comum entre academias de letras), o escriba já tem, ao menos em seu meio de ofício, alguma notoriedade por conta de seus méritos literários.

Na prática sabemos que a retórica não equivale ao que o público e a crítica conceituam. E aí há um caso raríssimo de coincidência, críticos e populacho se entendendo. Há poucos anos, o público leitor brasileiro estranhou a eleição de um escritor que, no discreto rigor do consumidor de letras, não reúne qualidades. Antes, esse mesmo público rejeitara a eleição de um empresário jornalista, de um cirurgião famoso e, antes ainda, de alguns políticos de altíssimo coturno (literalmente, para um deles), desde a década de 1930. Mas, fazer o quê? Academias são clubes fechados, com pouquíssimos eleitores. Estes é que escolhem quem quer para chamar de “pares”. Raramente são ímpares...

Láureas à parte, tenho aqui, nas mãos e ante os olhos, alguns livros deliciosamente belos. Não me refiro ao esmero editorial, que acho muito importante também, mas ao sabor, ou seja, ao conteúdo de seus textos. Sim: conteúdo de textos. Porque um livro contém textos, mas textos podem ou não conter qualidade. Estes os têm, sim. Refiro-me a “Minha Perna e Maria”, de Ivair Lima, misto de psicólogo e repórter, meu amigo dileto. Não digo que ele é bom por ser meu amigo, mas podem apostar que por ser bom é que ele é meu amigo. Gosto, sim, de pessoas com qualidades. Qualidades artísticas, mas principalmente qualidades morais (e não me refiro a duvidosas qualidades morais, como as de falsos religiosos; refiro-me a um cidadão de bem e a um escritor primoroso na condução dos fatos imaginários, na construção de personagens marcantes e na feitura de versos contagiantes).

Tenho também estes do arquiteto, professor etc. e tal Elder Rocha Lima: “Apologia das mãos” explora um tema por demais tratado em teatro, poesia, conto, romance e manuais de medicina, mas o poeta do imagético arquitetônico brinda-nos até mesmo com a bênção: “A imposição de mãos é um gesto que praticamos sobre outra pessoa para aliviá-la de algum sofrimento físico...”, e se essa abordagem incomoda a alguns fundamentalistas do cristianismo, pois o autor registra que o ato tem origem na Índia e no Tibete, ele destaca a Bíblia Sagrada, com registros dos evangelistas sobre o modo de Cristo abençoar. Outro livro dele na minha cabeceira é “Utopia - o discurso e a prática”. E, por último, o que mais me chama a atenção para a leitura imediata: “Guia Afetivo da Cidade de Goiás”. Este, além do conteúdo de texto em que o título, por si, recomenda a obra, há ilustrações de bico-de-pena pelo autor, talentoso e competente artista plástico. Uma obra de referência, sem dúvida, e um livro que enriquece qualquer estante e consciência.

Por fim, o “Fuso de prata”, de Alcione Guimarães. É um livro indispensável para os amantes do conto. Do bom conto, aliás. Há contistas de todos os matizes neste país continental. Em cada Estado, os escritores constituem-se num pequeno universo que traduz a alma telúrica, o ambiente social, o “habitat” dos nativos cuja cultura se mescla de boa comida, figurino adequado e letras e artes possíveis. Alcione destaca-se, nas últimas décadas, como das mais expressivas e talentosas artistas dos pincéis e cores. Há poucos anos, surpreendeu-nos com “Zuarte”, um livro de poemas que me convenceu de que um artista tem, sim, duas linguagens (ou mais!). Os poemas e os trabalhos de pintura, no mesmo número, significavam a expressão da autora em duas linguagens. Todos aprendemos muito com ela, naquele livro. E “Fuso de Prata”... Bem, é um belo livro, eivado de passagens poéticas, como nessa pequenina definição do encontro inevitável e forte: “Seus olhos e os meus... nossos olhos... falam. Perdidos em uma lembrança imperceptível como se se conhecessem e se esperassem há longos anos”.

Diante desses livros, lendo-os, parando para deliciar-me de cada frase, fica em mim a eterna pergunta: porque os leitores de Goiás, quando perguntados sobre o que estão lendo, respondem sempre com obras traduzidas e, lá de vez em quando, produzidas nas regiões nacionais de maior expressão econômica?

Os goianos precisam ler mais goianos. E deixar de lado a vergonha besta de admitir que é possível gostar do que fazemos.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Inteligência ou silicone

Inteligência ou silicone


Luiz de Aquino


O noticiário, em vários veículos eletrônicos e impressos da mídia brasileira, dão-nos conta de que o Brasil, hoje, é o segundo país do mundo em cirurgias plásticas, perdendo apenas, e obviamente, para os Estados Unidos. Existem páginas na Internet que difundem com otimismo a prática e buscam estimular as pessoas a aumentarem seios e bundas, modificar narizes e pálpebras e outros procedimentos no gênero.

E dá certo! Já são mais de setecentas mil cirurgias ao ano. Silicone se vende em dez suaves prestações no cartão de crédito e o sonho de uma cara ou pernas bonitas justificam o sacrifício na conta do supermercado. Ou a eliminação de itens “dispensáveis”, como os custos com a educação.

Pois é! Nada de escola, porque livros custam caro. Nada de leitura, porque jornais e revistas custam caro. Nada de aprender, porque aprender é chato. Então, vamos fazer um consórcio, ou uma conta de poupança, vender o carro 2003 e comprar um 1997 e pagar a cirurgia. Riscos cirúrgicos? Ah, que bobagem! O doutor Caron foi cassado, condenado etc. e os outros não são como ele.

Nariz adunco é do pai ou da mãe; o “meu”, este ficará fino, arrebitado... Pena que não se faz isso diretamente no DNA. Olhos? A gente muda a cor com lente de contato. Peitos caídos ou pequenos? Silicone neles. Bunda murcha? Silicone de novo. Pernas finas? Silicone. Sulcos na face? Botox. Feito isso, a madame (ou o garanhão, porque tem muito macho cuidando de se transformar também, com cirurgia plástica e depilação a lêiser) se sente estrela! Mas sequer pode sorrir. E, se sorri, fica apenas o som, a expressão facial é a mesma com que a tal (ou o tal) saiu da cirurgia. Na tevê existem muitas (os) a confirmar o que digo.

Enquanto isso, a qualidade da pessoa continua a mesma. O miolo, o conteúdo, o conjunto de informações e processamento é o mesmo de antes, dos tempos do peito caído, do nariz enorme, das pernas finas e da bunda minguada.

Não é radicalismo, gente! Sei que há casos em que é indispensável a cirurgia que transforma o visual, mas o modismo e a elevadíssima incidência é o que me preocupa. Se as pessoas pensassem, cuidariam do próprio interior. É muito melhor estudar, aprender, atualizar-se, envolver-se com novas e velhas gerações, enfim, aprender. O enriquecimento interior possibilita o embelezamento externo. E, melhor, sem perda das referências genéticas. Um feio vai continuar feio após a cirurgia, e somente o sujeito se vê mais bonito (ele/ela e os puxa-sacos que elogiam o novo visual apenas para agradar o amigo ou parente que gastou tanto por nada). Todos estamos familiarizados com o belo e o feio, e acabamos juntando muitas informações sobre as pessoas para qualificá-las de feios ou bonitos. Uma pessoa que bem sabe usar a própria inteligência, essa parecerá sempre bela, sem dúvida.

Mas, infelizmente, acha-se, hoje, muito mais importante que se pareça bonito do que efetivamente mostrar-se belo. As pessoas que dão prioridade às mudanças apenas aparentes sempre serão feios e feias. E, infelizes com a própria existência, depois escolherão migrar-se para outras terras e, já que nada deu certo, praticar seu esporte favorito: falar mal do Brasil.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.



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terça-feira, outubro 06, 2009

Pirenópolis, Meia-Ponte, outra vez...


Luiz de Aquino


Dia de recapitular a vida, ou, pelo menos, parte dela…

Para a publicação de hoje, escrevo ontem, é claro! Quero dizer que hoje é quarta-feira, dia 7 de outubro, data em que Pirenópolis foi fundada, em 1727. Então, ontem é o hoje da minha escrita, dia 6 de outubro de 2009, dia em que festejo 31 anos...

Calma, Leda(ê) Selma! Eu, pessoa, tenho 64 anos, desde aquelas vésperas de Primavera, em Caldas Novas, manhã de sábado “et cetera”, como já escrevi em várias versões. Meu aniversário de 31 anos não é virginiano, mas libriano. Foi no 6 de outubro, em 1978, que estreei em livro. Meu “primogênito”, que se chamou “O Cerco e Outros Casos”, veio a lume com revisão, prefácio e discurso inflamado e belíssimo na noite de autógrafos pelo talento do saudoso Professor Gomes Filho.

Quando escrevo aqui Professor em inicial maiúscula, faço-o em louvor a três dispositivos: o primeiro deles, porque a missão do professor reveste-se de um sacerdócio sagrado, daí o meu sentimento de sacralidade ante o termo; o segundo, em respeito ao que dispõe o acordo que tenta unificar a grafia nos países lusófonos, permitindo-nos enaltecer em maiúsculas algumas profissões e ofícios. Por fim, refiro-me a Gomes Filho, o Joaquim, em quem a palavra Professor entrou em lugar do prenome, com justiça e carinho.


Hoje, feriado e festa na vetusta Meia-Ponte do Rosário; ontem, dia 6, momento da minha escrita. E ao escrever, cumpro duplamente o silêncio destes minutos, com o segundo plano funcionando feito auto-homenagem. Se às pessoas comuns isso nada significa, os escribas me compreendem. Os leitores aficionados, estes entendem-me mais nitidamente. Sabem bem que parir um livro dói. É dor de concepção e gestação, alegria, emoção, surpresa, expectativa, encontro. Encontro do ego com o mundo externo. Um parto, mesmo. E quem são os pais e mães que se furtam de festejar os aniversários dos filhos?

Festejar “O Cerco” (que teve segunda edição em 2003, com o nome assim reduzido, para festejar o Jubileu de Prata) é festejar o desvirginamento. Não a quebra de um metafórico hímen, de fora para dentro, mas o rasgar da trava de dentro para fora. É uma imagem legítima, essa: o autor tira de dentro de si para expor ao mundo possível.

Em 1978, tive o amparo do prefeito Altamir Mendonça, que patrocinou parte do meu tímido livro de estreia; agora, tenho o apoio decisivo de Nivaldo Melo e Eli de Sá, prefeito e presidente da Câmara de Pirenópolis. Decisivo, também, foi a atuação do meu primo Luiz Antônio Godinho, eterno apaixonado por coisas de cultura (principalmente quando se trata de Pirenópolis) e do secretário de Cultura, Gedson de Oliveira.

A estes, o meu abraço de gratidão e a minha homenagem simples nestas linhas. Nossa terra, Pirenópolis, merece nosso empenho e nosso sacrifício. Na última segunda-feira, visitei o Centro de Dcomentação (CEDOC) do jornal “O Popular”, onde localizei alguns dos meus primeiros escritos. Lá, encontrei uma crônica louvando meu reencontro com meu pai, o “Véi Raé”, após cinco anos de ausência minha (esse reencontro, na véspera do Natal dos meus 15 anos). Achei também alguns contos meus e, particularmente, um dos meus primeiros textos sobre Pirenópolis: “Tem maromba, ronqueira e banda-de-couro”. Era agosto de 1974.

E foi também entre os colegas de “O Popular” que pincei o Jorge Braga para ilustrar “O Cerco”. Assim, e sem querer, meu livro debutante marcou outros estreantes. Foi o primeiro livro ilustrado por Jorge Braga. E na próxima sexta-feira, depois de amanhã, dia 9 de outubro, o cartunista mais festejado de Goiás receberá, junto comigo, o título de Cidadão Pirenopolino.

Mais um brinde, velho Jorge!



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, outubro 03, 2009

Livro, palavra que dá medo

Livro, palavra que dá medo

Luiz de Aquino


Há alguns meses, poucos, Batista Custódio produziu um artigo interessante, diferente, questionador. Refiro-me àquele em que o jornalista estranha o fato de a Casa Verde, ou seja, o Palácio das Esmeraldas, não dispor de uma biblioteca. Verdade: a residência oficial do governador de Goiás (e, por longo tempo, também a repartição principal do Poder Executivo) carece de livros.

No citado artigo, o editor-geral do DM buscou envolver os membros da Academia Goiana de Letras e outros escribas literários de Goiás, chamando-os a se movimentarem no sentido de demonstrar ao governador Alcides Rodrigues que ler é muito importante. E que uma biblioteca serviria não só a ele, governador (bem como aos que o sucederem), mas também a seus auxiliares e familiares (enquanto durar o inquilinato na Casa Verde).

O texto despertou discussões. Eu mesmo escrevi sobre ele, e argumentei que um político com boa bagagem de leitura pode vir a ser um homem mais humano, tal como gostaríamos que fossem os mandatários de cargos de realce. Um jornalista amigo contestou-me, recordou que Mussolini e Lênin eram bons leitores, logo os letrados (disse ou insinuou ele) tornam-se sanguinários ditadores. Será? Foi assim o Imperador D. Pedro II? E Juscelino Kubitschek? Deduzi que o colega de ofício, leitor compulsivo, felizmente não é político: viria a ser (em sua própria lógica) um ditadorzinho odiento. Por isso, continuo preferindo políticos com boa leitura. Haja vista, por exemplo, Demóstenes Torres.


Curiosamente, ao ler aquele artigo, entendi que os políticos iriam ignorá-lo, e os intelectuais cuidariam de reagir. Estranhamente, ouvi de alguns intelectuais que um governo não precisa de biblioteca, pois tem assessores etc. e tal... Ah, mas tenho de admitir e confessar: os intelectuais que assim se expressaram já viveram mandatos (uns por voto direto, outros pelo modo “biônico” que caracterizava a “democracia relativa”, assim qualificada pelo “presidente” general Ernesto Geysel).

Pois é... Se é livro, que se jogue fora. Que se pise. Rasgue. Queime.

Uma amiga radialista conta-me que o Ministério da Educação teria emitido um documento a professores de Ensino Fundamental, orientando-os (?) a serem pouco rigorosos quanto a ortografia, regência, concordância e outros itens. Ilustrava dizendo que se o aluno escrever “mensaje”, que o professor considere certo, pois a “mensaje” foi dada. Se isso for verdade, o MEC está nos conduzindo de volta aos ideogramas. Ou às pinturas rupestres.

Em breve, teremos o linguajar esportivo da rádio e da tevê como padrão da Língua. Isso, para não se falar na língua-presa, que se torna coisa oficial. Uma repórter de rádio, comentando as negociações em torno da Celg, citou a estatal federal de energia como “Eletobrás”, em lugar de “Eletrobrás”. E um secretário de Estado também pronuncia assim a mesma palavra.

Faz mal não; eles passaram a “mensaje”. E segundo o escritor ex-político, a política dispensa o bom aprendizado e não quer leitura. De minha parte, insisto no aprendizado, no livro, no bom texto. Rejeito profissionais que não falam corretamente. Sou dos que entendem que quem aprende a Língua, aprende qualquer coisa. E faço valer a antítese.

Com estes argumentos, tenho conclamado personalidades a um debate saudável e sem antagonismos. Quero destacar o valor da informação, do aprendizado, do processamento cerebral dos dados com a finalização no conhecimento. Penso, pois, que o Palácio do Governo deve ter a sua biblioteca (e que seja usada).

Acho que sou bobinho. Ainda acredito que Platão estava certo.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.