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sexta-feira, abril 29, 2011

Desquite intempestivo



Desquite intempestivo


Nepote ou nipote – palavras sinônimas italianas; valem tanto para sobrinho quanto para neto, e de dois gêneros, ou seja, aplica-se ao masculino e ao feminino; se fosse uma palavra portuguesa, o feminismo brasileiro cuidaria rapidamente de institucionalizar “nepota” e “nipota”. Conheço uma escritora que saúda os amigos enviando “abraças” e “beijas”.





Conta-se que o termo foi largamente usado por alguns papas ao nomear rapazes (apresentados como “nepotes” do Sumo Pontífice) nos honrosos postos eclesiásticos de bispos e cardeais. Esses “sobrinhos”, que a desconfiança de alguns davam como filhos dos santos-padres, geralmente eram jovens problemáticos, envolvidos em orgias e ócio; no meu tempo de rapaz, seriam transviados ou play-boys; hoje, certamente vagabundos drogados, que apenas os rótulos se modificam conforme a época.


Vem de lá, pois, a expressão “nepotismo”, tão em voga no noticiário destes dias. E já que falei em palavras, devo esclarecer as duas que uso no título acima; desquite é separação, e era o termo legal para os casais que desfaziam casamentos civis, antes do advento do divórcio, legalizado no Brasil em 1977. A outra, intempestivo, diz respeito a algo fora do tempo. Como uma decisão tomada fora do momento adequado ou, no caso em que a uso aqui, fora de seu próprio tempo.

E tudo isso está interligado. Há algumas décadas os políticos se referem a nepotismo, criticam-no quando estão na oposição e, em grande parte dos casos, praticam-no quando se integram ao poder. Por extensão, como se sabe, nepotismo refere-se a empregar parentes (consanguíneos ou afins, tanto faz) e é comum considerar nepotismo o envolvimento de familiares até o terceiro grau. Filho é primeiro grau, irmão é segundo e sobrinho, terceiro grau (consanguíneos); padrasto e enteado são afins de primeiro grau,cunhado é segundo etc.

O caso a seguir, ouvi-o de uma pessoa querida e próxima (parente meu em terceiro grau, isto é, primo), Luiz Antônio, que o colheu na leitura de um velho almanaque. Duvidei, ligeiramente, do que me contou o parente, senti que, no fundo, ele preservava alguém, talvez algum outro parente nosso, sei lá! E como ele diz ter lido num velho almanaque, aceito sua versão. 

Almanaque Capivarol, 1963...

...e o Biotônico, 1950.
Velho almanaque... desconheço almanaques novos; deviam existir, foram leituras gostosas de minha infância, adolescência e juventude; sei de publicações que homenageiam os antigos formatos, mas não chegam a ser réplicas dos mesmos. E se Luiz Antônio se refere a almanaque, vou pedir emprestado ao meu saudoso amigo e ídolo José J. Veiga seu país imaginário, Manarairema, para sediar a historinha.
Lá em Manarairema, um novo governo empossou-se e, como é da praxe naquela região, um governante que se despede procura deixar o máximo de problemas ao sucessor, desde que o sucessor seja seu desafeto ou ao menos adversário político. O novo mandatário reduziu gastos, renegociou dívidas, enxugou a folha de salários com reduções e dispensas e recomendou muita, muita seriedade. De começo, que se eliminasse o nepotismo na máquina pública.

Charge do meu amigo Jorge Braga
O administrador regional das antigas minas nomeara um cunhado, marido de sua irmã, para importante cargo de assessoramento; e, constrangido, chamou o pai de seus sobrinhos para a delicada conversa:
– Ramires – começou ele, demonstrando o rigor do colóquio; o nome de registro, dito assim, em lugar do apelido Mirim, dava o tom dramático – sabe o quanto te estimo e o quanto me dói lhe dizer isso, mas sou obrigado a te demitir; o chefe não quer saber de nepotismo.
Mirim foi firme. Parece até que esperava por tudo aquilo. E radicalizou:
– Saio não, siô! Um empregão destes! De jeito nenhum! Sabe d’uma coisa? Vou é “disquitá”.

E assim o fez. Correu ao cartório, formalizou o pedido de separação e em poucos dias tinha em mãos o documento, dando conta de que não era mais parente do chefe imediato. Mas continuou morando na mesma casa, custeando as mesmas despesas, dormindo com a mesma mulher e “ralhando” com os mesmos filhos.

– Quando esse governo acabar, eu volto a ser casado – filosofou ele.


* * *

Luiz Henrique, 15 anos, meu neto. Não temos como
exercer o nepotismo
.


terça-feira, abril 26, 2011

À Educação o que lhe é devido

O pioneiríssimo Lyceu: a Prefeitura abandonou a obra da
calçada e não dá explicações.



À Educação o que lhe é devido


Há cinco anos, escrevi nas páginas deste jornal crônicas e artigos sobre a Educação; alguns desses textos incomodaram estudantes e professores, mas incomodaram menos a quem devia efetivamente incomodar: as autoridades da Educação.

Detectei, em conversa com professores e dirigentes escolares, uma “epidemia” pela militarização dos colégios. É que muitos pais sentiam-se mais seguros com seus filhos submetidos a uma disciplina rígida, digna dos quartéis, acreditando que os colégios da Policia Militar evitariam que seus filhos se envolvessem com drogas e tivessem uma conduta social mais adequada. Ou seja, os pais, que em toda e qualquer sociedade devem ser os primeiros educadores, acharam-se aliviados ao transferir de vez suas obrigações para a escola.

Senti que havia uma inversão de funções e de valores. Lembro-me de ouvir, quando criança, que as pessoas educadas firmavam-se por si próprias; as outras dependeriam da polícia. Um tio meu, oficial da Marinha de Guerra, dizia com certa severidade que quem apanha de pai e mãe não apanhará de polícia nas ruas. Meu tio estava ligeiramente enganado; muitos de nós, bem educados e devidamente escolarizados, apanhamos da polícia nas ruas, porque as ditaduras não gostam de pessoas pensantes independentes.

Não quero falar das ditaduras. Nem opor a Educação às instituições militares. Quero respeito às definições e aos papéis institucionais de cada órgão. Nos meus textos de cinco anos atrás, denunciei trabalhos de bastidores com vistas a transferir escolas históricas para a Polícia Militar. Os professores – civis – de tais escolas queriam isso, pois ganhariam gratificação de 100%, e muitos deles interpelaram-me até por artigos em jornais, numa espécie de confissão pública de que lutavam por fazer crescer seus salários, contrariando seu juramento na colação de grau.

Sempre estranhei a falta de recursos para manutenção, adequação e reforma de prédios escolares da Secretaria da Educação; e faltam também recursos para custear os projetos extra classes. Mas na Polícia Militar acontece o contrário: assim que se transferiu a Escola Polivalente para a PM, toda a estrutura foi renovada.

Escola Evangelina, em Marechal Hermes,
1957: uniforme indispensável.

Outra coisa que muito estranho é a desordem, a desorganização nas escolas estaduais sobre uniformes. Todo educador sabe da importância do uniforme, por isso deixo de comentar sua validade. Mas existe decisão de juiz de direito impondo aos colégios a tolerância sobre a falta do mesmo. Notem, leitores, que esse foi o primeiro item em destaque logo após o massacre da Escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro. Mas aqui, aluno barrado por falta de uniforme dirige-se à Secretaria ou ao Conselho Estadual da Educação – isso quando não se  acionam delegacias policiais e Ministério Público.

As escolas estaduais ficarão sem computadores e bibliotecas? 

Não bastassem essas mazelas, comenta-se na rede estadual que é ordem superior: bibliotecas e laboratórios de informática serão desativados. Devo comentar isso ou apenas cobrar uma resposta do secretário Tiago Peixoto?

Outra – e tão grave quanto as outras excrescências – diz respeito ao Instituto de Educação de Goiás. Estabelecimento tradicional, formador de professoras primárias, os prédios do IEG estão  às moscas. Salas sem portas, telhados comprometidos, rachaduras etc. E nenhuma providência se toma.


Banda do Instituto de Educaçao de Goiás pronta
para sair; ao fundo, o prédio histórico.


Há cinco anos sugeri que o solene e tradicional IEG, no propósito de salvar sua vocação como formador de educadores, deveria passar ao domínio da Universidade Estadual de Goiás; ali funcionaria um Centro de Excelência Pedagógica, incluindo a formação de educadores e pesquisas na área.



Consultei um amigo dos tempos de Liceu, figura importante nos meios políticos e educacionais do Estado; contou-me ele que, à boca miúda, corre um triste ”bochicho”: há estruturas hercúleas de olho naquela área; pretende-se mesmo que os prédios se deteriorem ao máximo e, sabe-se lá por que via (suponho que escusa), aquele magistral terreno seja o berço de um complexo de torres residenciais, com jardins e piscinas, etc. e tal.

Será?

De novo,  deixo de comentar; prefiro aguardar uma resposta do secretário Tiago Peixoto.

Ignorar o IEG e relegá-lo a um papel secundário é violentar
a história da Educação em Goiás.

Teimo na minha ideia de transferir o Instituto de Educação de Goiás, mantendo até mesmo este nome, para a Universidade Estadual. Algo precisa ser feito com urgência na defesa das escolas públicas. A primeira delas é o respeito à história. Que concluam o calçadão do Lyceu; que restaurem os edifícios do IEG; que valorizem os professores para que possamos lhes cobrar mais qualidade; que se restabeleçam as fanfarras, as bibliotecas e os laboratórios vários; que a informática seja vista como peça e ferramenta da Educação, e não como um cantinho onde se encoste um professor desagradável.

Será que mereço respostas? Que os leitores as cobrem, não de mim, mas das autoridades do Ensino Público.


* * *


Ainda acredito no uniforme escolar, coisa que o
próprio poder público em Goiás vem desprezando.
(Luiz de Aquino, jornalista e escritor).

sábado, abril 23, 2011

Bilhete de saudade

Bilhete de saudade


As lembranças, sempre que provocadas, despertam-se como os pássaros quando a árvore que lhes é poleiro recebe os primeiros beijos do sol. E feito pássaros, essas lembranças ruflam asas e abrem os bicos em variadas melodias naturais, festejando a sobrevivência. Sei bem o que sinto nesses momentos; e sei bem decifrar os sorrisos silenciosos que põem luz nas faces e um brilho denso nos olhos, enquanto os lábios arqueiam-se em meia-lua, as extremidades afinadas, alongadas, felizes... É a poesia ganhando espaço e mais luz; o coração da gente parece um dínamo a produzir energia forte, e algum cientista vem me dizer que é serotonina, endorfina e outros possíveis hormônios expandindo-se em nossos corpos. A mente, então, é de fato feliz!

O botão acionado em mim, nesta manhã de Quinta-Feira Santa, foi um e-mail muito breve, em linguagem coloquial goiana, assim: “Luiz, cadê ocê? Abraços, jcarlos”. Neste caso, jcarlos é como se apelida meu velho amigo José Carlos Barbosa. Conheci-o numa manhã de fevereiro, em 1965, quando o país vivia  horário de verão por decreto de Castelo Branco, o primeiro ditador por revezamento. Fomos aprovados num concurso para o Banco do Estado de Goiás; aquele foi um dos últimos concursos para admissão em órgãos do Estado de Goiás, coisa instituída aqui pelo governador Mauro Borges; ele foi deposto por Castelo Branco em novembro de 1964 e em poucos meses toda contratação ou nomeação nos poderes públicos de todo o país só se daria por escolha da ditadura e de seus prepostos.

As primeiras semanas do nosso trabalho consistiam em aulas para entendermos o ofício de bancários. Aprendíamos os termos da profissão, noções de contabilidade bancária, conhecíamos o conjunto de impressos utilizados na empresa (e, com eles, o fluxo de papéis), ética bancária e, ainda, Noções de Língua Portuguesa (e redação). Curiosamente, o BEG daqueles tempos era respeitado por expedir redações impecáveis – se não no que tocava a estilos, ao menos na correção ortográfica e gramatical; o notável que cuidava disso era o saudoso e muito amado Professor Alfeu Medeiros.

A marca...


Nesse período “escolar”, José Carlos Barbosa e eu nos tornamos amigos; começou ali esse convívio que se interrompeu com as nossas aposentadorias e, desde então, limitamo-nos a trocar e-mails e, dentro deles, algumas críticas a fatos e costumes, já que ninguém é de ferro. Mas retorno ao tempo passado para lembrar-me do Zé Carlos, que já era contador (naquele tempo, formavam-se contadores no ensino médio; depois veio o curso superior específico) e destacou-se nesse importante segmento de qualquer empresa, mormente nos bancos. Chegou a inspetor ou auditor, não sei exatamente porque num dado tempo essas funções se fundiram.

Juntos, vivemos momentos de apreensão profissional (como dizia o Edivaldo, trabalhar em banco estadual é difícil porque a cada quatro anos temos de provar que somos bons de serviço), com subidas e descidas na escala das funções; crescemos – e isso ninguém nos tiraria, porque o crescimento é intrínseco do funcionário – e mostramos, cada qual em seu espaço, do que éramos capazes. Mas não fomos capazes de conter os desmandos (coisa que hoje se apelida de “má gestão”) que provocaram os resultados “colimados” pelos que, no afã de agradar ao governo que reinava em Brasília, conduziram a empresa à bancarrota.

O edifício-sede do BEG: projeto de Elder Rocha
Lima, obra do governo de Mauro Borges
Pois é, Jcarlos, estou aqui! Escrevendo, como sempre; como já fazia naqueles tempos de 1965; como faço quase todos os dias; e ao escrever revivo a vida em detalhes. Vivi essa vida passada com tropeços e felicidade – afinal, enquanto era bancário fui também estudante colegial e universitário, professor e escritor, jornalista e ativista cultural. A cada dia de agora, reencontro, nas ruas e nos xópins, velhos camaradas do BEG, e somos todos aqueles mesmos meninos, agora de cabeças brancas, ou de cabelos pintados, ou sem cabelos. Mas trocamos os mesmos tipos de informações, apenas atualizadas pelos fatos contemporâneos e valendo-nos do que a tecnologia dos celulares e computadores nos oferecem.

Mas uma coisa, meu caro Zé Carlos, continua igual: a capacidade que temos de sorrir, de rir e de sentir saudade. E sei muito bem que, no peito de cada um de nós, existe aquela alegria de termos conhecido um banco com 16 agências que, em 30 anos, passaram de 150 filiais e vários postos de atendimento. Da derrocada fomos vítimas, apenas.

* * *
Luiz de Aquino, bancário, 1965.




sexta-feira, abril 22, 2011

Achamento da terra fértil em mar de calmaria





Este poema, escrevi-o em abril de 1999 para  ilustrar  matéria jornalística 
que, no jornal  em que trabalhava à época (Gazeta de 
Goiás), abria o tema 500 Anos de Brasil.(Imagens: Internet).
 L.deA. 




Achamento da terra fértil 

em mar de calmaria





Mar ignoto, mar de tormentas,
mar de esperanças, mar de outros sonhos.
Mar de trazer especiarias,
mar de fazer calmaria
e o porto que fica onde fica Maria.





O mar está calmo,
a esquadra se deixa a oeste,
sem medo e sem ventos
(em Tordesilhas de Espanha
a herança do mundo
fica de meio para Portugal).




















Vera Cruz, Santa Cruz,
gentios de pele morena,
uma gente pequena,
altiva e sem roupas,
vergonhas à mostra...
Ah, Maria que ficou no porto, no Tejo!
São tantas as semanas
de mar e de homens,
e são dóceis as gentes
nas terras ingentes...







Uma ilhota em mar próximo,
uma cruz de Jesus,
o grão capelão e a Missa Sagrada
sagrando o achado
da grande ilha de Vera Cruz.
(os gentios, lá longe). 



























Outra Missa haverá. Aos índios,
água benta e batismo
e a forte mão portuguesa
de El-Rei Dom Manuel,
Primeiro e Venturoso.







A terra, "em nela se plantando,
tudo dá", e nelas, nas índias,
também se há de plantar.















Mas havemos de ir, descobrir outras terras,
converter outros povos
e volver à mãe-pátria,
trazendo alforjes com especiarias
e muita saudade
de novas marias
.




 * * *


Luiz de Aquino, poeta e jornalista


sábado, abril 16, 2011

Cadernos inacabados



 Cadernos inacabados


Sabem a expressão “pinto no lixo”? Pois é, sou eu neste cantinho de sete metros quadrados que apelidei de “Sala José J. Veiga”, com placa e caricatura do homenageado, assinada pelo talentoso Almir. A este espaço, Mary Anne chama de escritório; Francisca, a moça que nos assiste em casa, evita até mesmo entrar aqui, deixando por minha conta os cuidados menores com a organização (?) e a limpeza dos livros e objetos que entulham este quartinho que os arquitetos apelidam de “reversível”. Pois bem! Há dois dias, resolvi reorganizar três prateleiras com discos (cedês) de músicas, fotos e textos. O resultado...


Bem, o resultado foi bom; essas pranchas – duas em vidro e uma em madeira e fórmica, ganharam um ar de organização e localizei, ao mudar muitas peças de lugar, nada menos que dezessete blocos e cadernos de anotações, todos eles parcialmente usados. Não incluo nessa conta as agendas de endereços, que tal como estão, já se constituem, por si mesmas, em arquivos valiosos. Mas esses blocos e cadernos, ah! Quanta surpresa, quanta lembrança boa! Anotações de reportagens, de entrevistas, de compromissos a cumprir, de pagamentos a fazer e alguns feitos, muitos poemas... Sobre poemas, são cadernetas em brochura ou espiral, a maioria delas instrumentos indispensáveis nas viagens, pois, quando a leitura me cansa, troco o livro pelo caderno. Alguns desses poemas integram livros já publicados, outros aguardam afinidades para livros futuros.

Indispensáveis nas viagens
E os nomes? Nomes e telefones, e-mails e endereços físicos, muitos de pessoas queridas que, de um contato simples por qualquer razão, tornaram-se amigos de muitas ocorrências, encontros, alegrias e confidências. Mas aqueles de quem são nos lembramos, dos quais esquecemos totalmente o motivo da anotação; e geralmente nenhum esforço mental traz de volta o momento que nos esclareceria a dúvida.

Ao folhear os vários cadernos e blocos e descobrir tantas maravilhas do passado, busquei separar os que vão para a estante, ao lado de outros quase tantos similares, e sobre a mesa, ao lado do monitor, os que voltarão a ser utilizados no quotidiano. Ficaram treze para este uso, os demais alinharam-se aos que para mim já são história. Um registro digno: de todos, apenas quatro foram comprados; os demais chegaram-me como brindes ou presentes.

Brindes sempre bem-vindos...


E justo no dia seguinte, participei de uma reunião em que discutimos vários tópicos de um projeto de trabalho; um dos itens foi justamente que brinde oferecer; a decisão, unânime, foi por bloco de anotações – coisa indispensável a qualquer profissional. Evidência incontestável: apesar dos “note books” ligados, todos tínhamos blocos e cadernos em que anotávamos o que achávamos necessário.


E, o principal nisso tudo aí, para mim, é constatar que a tecnologia pode evoluir o quanto for possível, nossos lápis e caderninhos serão sempre indispensáveis. Cadernos não carecem de tomadas e pilhas, lápis não ressecam o grafite, não estouram nos bolsos, permitem que apaguemos os erros, não dependem da gravidade como as canetas esferográficas. E se nos são indispensáveis, eles são, entre si, companheiros inseparáveis. Daí a lembrança de sugerir, sempre, brindes como canetas esferográficas, lápis e... caderninhos (repórteres adoram blocos verticais, em espiral, com espessura farta o bastante para durar; e que, em brinde, venham preferencialmente em dupla).

Muitas anotações, mas até as páginas em branco
sugerem saudade; ou novas notas...

Ih, eu falava dos cadernos inacabados e, como sempre, divaguei! E retomo o tema para confessar duas coisas: a primeira delas é que sempre me preocupo em tomar nota do que acho necessário; em pelo menos metade das vezes deixo de anotar. E do que anoto, boa parte fica nas páginas desses cadernos que se confundem com livros na estante. Certa vez, porém, buscava um livro e deparei-me com um envelope grande, cheio de folhas avulsas; eram contos e começos de contos, dos tempos ainda da máquina de escrever. Ao digitá-los para salvar em disquetes (era 2001), acabei por reescrevê-los, já revisando; nasceu aí meu livro “A noite dormiu mais cedo”, premiado na Bolsa Cora Coralina (prêmio literário anual que desapareceu na Agepel da gestão passada), com prefácio do saudoso Antônio Olinto (da Academia Brasileira de Letras) e apresentação de Brasigóis Felício (da Academia Goiana de Letras.

Capa de "A noite dormiu mais cedo"
A outra confissão é, talvez, mais grave: em 1988,comprei um gravador para, quando em viagem, anotar as ideias que tinha sobre textos enquanto dirigia; jamais fiz isso. Desde então, tive três gravadores, dois deles de microfitas (um desapareceu misteriosamente) e um eletrônico – que jamais usei, está aqui sobre a mesa, ao lado dos indispensáveis cadernos inacabados.

Leitores, isso não define a importância entre objetos tecnológicos e tradicionais; mostra apenas o meu modo de ser. Concordam?


* * *

Luiz de Aquino, jornalista e escritor.