A Academia Goiana de Letras realizou, na quinta-feira (05/03/2026) uma Sessão Especial em homenagem à mulher pelo seu Dia Internacional. Escalado pela presidente Lêda Selma, assim me expressei em cumprimento da tarefa:
A
Mulher nas Letras
(na
Academia Goiana e em Goiás)
Ainda
que muitos, não só pelo Brasil afora, como também aqui mesmo, entre nós, vejam
Goiás como um rincão de atrasos e inadequações, a história costuma nos mostrar
o contrário. Vejam só: hoje, 5 de março, é o dia que já deveria estar
consagrado como O Dia da Imprensa goiana, posto que nesta data, em 1830,
circulava o primeiro número do jornal Matutina Meia-Pontense (na grafia
da época, ‘Meiapontense’), que tinha como redator o padre Luiz Gonzaga de
Camargo Fleury, patrono da nossa Cadeira 3, hoje ocupada pelo querido confrade
Nasr Chaul, poeta sensível, cancionista prolífero. O marcante Matutina
Meia-Pontense, editado e impresso na então Meia Ponte (que em 1890 passou a
se chamar Pirenópolis), logo se fez veículo oficial das províncias de Goiás e
Mato Grosso.
O
saudoso José Mendonça Teles, que se empenhou ao lado do também confrade José
Luiz Bittencourt (na época, vice-governador na gestão do, hoje, confrade
Irapuan Gosta Júnior) deliciava-se sempre que descobria “mais um número” do
jornal pioneiro, até completar a coleção, publicada em quatro volumes. E
regozijava-se com o que descobria na leitura das variadas notas escritas pelo
padre Gonzaga, notável intelectual que chegou a presidir a Província de Goiás.
Dentre seus comentários, sempre destacava ações de mulheres já numa luta pela
valorização do gênero, bem como da oferta, pelo comendador Joaquim Alves de
Oliveira, de abrigo seguro aos portugueses que se sentissem perseguidos por
razão da Independência, ocorrida poucos anos antes.
Ao
final daquele século, em Vila Boa (capital – assim chamada até 1918), as
mulheres de Goiás davam mostras indefectíveis de sua luta. Em 1904, na capital
de Goiás, Eurídice Natal – mãe de Colemar Natal e Silva – fundara a Academia de
Letras de Goiás. E em 1906, a adolescente Leodegária de Jesus, aos 17 anos
incompletos, inaugurava a presença das poetisas goianas em livro, com a publicação
do seu Coroa de Lírios. Foi dela, também, o segundo livro de versos – Orquídea
–, em 1928.
| Leodegária de Jesus |
A
segunda goiana a lançar um livro de versos foi Regina Lacerda – Pitanga
(1954). Das primeiras folclorista em nossa terra, ela foi pioneira, também, ao
apresentar-se candidata à Cadeira 16 da Academia Goiana de Letras, vaga com a
morte de Zoroastro Artiaga, em 26 de fevereiro de 1972.
| Regina Lacerda |
Regina
Lacerda teimou em abrir os portais da AGL às mulheres. Até então, esta Academia
era um sodalício masculino, seguindo o exemplo da Academia Brasileira de
Letras. Regina foi empossada em 29 de julho de 1973: um ano e cinco meses após
a vacância. Essa demora decorreu, sem sombra de dúvida, da resistência da
maioria dos acadêmicos ante a entrada de uma mulher em seus quadros.
Curiosamente, era ele, Zoroastro Artiaga, o mais radical opositor ao ingresso
das mulheres na AGL. Certamente, o nosso notável historiador se esquecia da
força das mulheres já citadas – e não eram elas as únicas a mostrar talento,
perseverança e força na conquista de espaços naquele mundo machista.
A terceira poeta a marcar a produção livresca de versos em Goiás foi Yeda Schmaltz, com o seu Caminhos de Mim (1964). E no ano seguinte, mais uma mulher estreava com o seu livro de poemas – era a quarta poetisa goiana em livro: Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que o mundo conhece por Cora Coralina. Seu livro de estreia: Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais (1965) frutificou-se em vários outros e seu nome ganhou o Brasil a partir de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, que a qualificou como “a pessoa mais importante de Goiás”.
Como
se vê, a mulher – em Goiás e no mundo – já se postava pronta a lutar pela
igualdade desde há muito tempo. Em épocas mais recentes, tivemos a eleição de
Berenice Artiaga para deputada na Assembleia Legislativa de Goiás, inaugurando
a presença feminina na nossa Casa de Leis, onde permaneceu por duas
legislaturas. Em 2006, ano em que festejou seu nonagésimo aniversário, Berenice
Artiaga publicou sua obra poética – Poentes Interiores (2006).
Voltemos
à vila-boense Regina Lacerda. Ela viveu e estudou no Rio de Janeiro. Publicou o
seu livro de poemas, mas depois de Pitanga fixou-se no segmento que mais
lhe aprazia – o folclore. Ocupou diversos cargos em instituições oficiais do
Estado, inclusive a direção do Museu Goiano, criado por Zoroastro Artiaga, que
se tornou, após sua morte, o Museu Zoroastro Artiaga.
Vale
lembrar: Rachel de Queiroz, a primeira mulher aceita na Academia Brasileira de
Letras, foi eleita no dia 4 de agosto e empossada em 4 de novembro de 1977 –
quatro anos depois que a AGL quebrou a hegemonia masculina em seu quadro.
Depois
de Regina Lacerda, aqui foram acolhidas – e muito bem acolhidas – as escritoras
Nelly Alves de Almeida, Cora Coralina, Maria do Rosário Cassimiro, Rosarita
Fleury, Belkiss Spenziere Carneiro de Mendonça, Lygia de Moura Rassi, Moema de
Castro e Silva Olival, Lêda Selma de Alencar, Augusta Faro Fleury de Melo,
Maria Augusta de Sant’Ana Moraes, Ana Braga Machado Gontijo, Lena Castelo
Branco Ferreira, Maria de Fátima Gonçalves Lima, Adelice da Silveira Barros,
Maria Helena Chein e Maria Abadia Silva.
E,
encerrando, reverencio esse belíssimo elenco de magníficas damas de nossas
letras, assim:
VOZES
DECISIVAS!
A vós foram negadas
as letras e as delícias
das leituras solitárias.
De vós ocultaram
a imensidão do mundo,
fazendo crerdes em limites
mesquinhos de horizontes restritos.
Mas não vos prenderam
nos silêncios estéreis, pois que
encontrastes alturas de céus
e quebrastes os espartilhos,
criastes as asas de sonhos inéditos
a desvendar versos e violar dogmas.
De vós nasceram novidades
inalcançáveis aos limites masculinos.
De força e doçura, fizestes novos tempos
e nos dobramos ao vossos saberes.
Festejamos vossos
projetos
e feitos e vos acolhemos,
ora temerosos, ora felizes
posto que a imagem e o sonho
não conseguiram proibir.
E se temíamos o despertar
de mentes e presenças,
de textos e vozes, fizemo-nos felizes
ante a força inovadora
que transforma realidades
e cria novos saberes,
novas cores e abranda dores
desde que vos temos
em presença e igualdade.
* * *
de prosa e verso. Membro da
Academia Goiana de Letras, da
UBE Goiás e do Instituto
Histórico e Geográfico de Goiás.
