Páginas

sábado, janeiro 17, 2009

A estátua de Venerando



A estátua de Venerando

 Luiz de Aquino(*)

Houve um tempo em que administrar era a arte da autoridade a qualquer preço (e muitas vezes o preço era o grito do chefe , ou do patrão, contra a dignidade individual do empregado ou subordinado). Mas o mundo passou pela Revolução Industrial, pela Primeira Guerra Mundial, pela Segunda (duas décadas após, apenas) e os avanços tecnológicos nos deram os céleres avanços das ciências..

Encontrei-me com uma bela mulher, na faixa de idade em que já se é sogra, tarimbada em artes manuais (essas a que chamamos de artesanatos) e na gestão de instituições associativas e públicas. Desde o primeiro dia deste ano, titular de uma pasta na prefeitura de importante cidade turística de Goiás. Pois bem: bastaram-lhe menos de uma semana de trabalho para detectar uma série de más ações de seu antecessor, e isso já lhe vale narizes torcidos.

Esse encontro, e a conversa de poucos minutos que mantivemos sobre a nova realidade, mostrou-me o que pode ser a razão pela qual os novos administradores (e os moços empreendedores também) recusam-se a empregar os quarentões, os cinqüentões e os ainda mais velhos: é que nós, os tais de macacos-velhos, vislumbramos com muita facilidade as coisas malfeitas (bem como as más intenções tentadas, algumas realizadas).

Certo ou não, a realidade é que pessoas com mais experiência são não-gratas nas empresas. A gente grisalha sabe demais, e isso é um perigo! Então, a estes resta o canal estreito dos concursos públicos, que já não têm mais os limites de idade, como antigamente (em 1971, fui impedido de fazer concurso para o Banco do Brasil: estava velho, aos 26 anos). Mas aos velhos, quero dizer, aos que têm mais de quarenta anos, resta também o caminho das urnas, já que não se limita idade para se disputarem eleições.

O prefeito Iris é um exemplo de persistência na política. Às vésperas de completar 75 anos, reelegeu-se prefeito de Goiânia. E o fez sob a égide da renovação de idéias e ações.  É que, desafiado e cobrado pela comunidade cultural de Goiânia, ele respondeu escolhendo para secretário da Cultura o poeta Kléber Adorno, tarimbado gestor de cultura. E o que se viu foi novidade: em nenhuma de suas gestões anteriores (uma como prefeito de Goiânia, duas como governador de Goiás) Iris realizou tanto na área cultural. É dele um récorde  que imagino difícil de se superar, que foi a publicação, de uma só vez, de 71 livros de autores locais.

Ao término do mandato anterior, Iris entregou uma verba de trezentos e cinqüenta mil reais à Academia Goiana de Letras para aquisição da casa vizinha, possibilitando a ampliação da sede; e nestas primeiras semanas do novo mandato, inaugurou, nos jardins do Paço Municipal, a estátua de Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito da capital. A obra de arte leva assinatura do escultor Angelos Ktenas e a iniciativa da homenagem deve-se aos acadêmicos Ubirajara Galli e José Mendonça Teles, a quem os maledicentes certamente tacharão de “ubistas”, escritores com atividade na União Brasileira de Escritores (por certo, estou entre estes; não sou mais associado, mas já presidi a UBE de Goiás, com muito orgulho).

Iris, com isso, demonstra ser um bom exemplo de administrador que se renova. Ele assegurou, e na época eu escrevi que duvidava, que resgataria suas omissões nas gestões anteriores. Referia-se a meio-ambiente e cultura. E vem fazendo-o, sim. Falha gritante aconteceu com a remoção injustificada, pela Agência Municipal de Meio Ambiente, de pouco mais de trinta ipês da Avenida 85... Vale dizer que conclamei o titular da Agência a repor as árvores; sempre imagino que pessoas que realizam grandes feitos tendem a mudar de idéia e corrigir seus erros, como Iris Rezende vem fazendo, mas o presidente da AMMA preferiu ignorar os apelos, meus e de grande parte da população, ou seja, ele não segue o chefe. Por isso, recuso-me, agora, a escrever o nome dele.

Perdoem-me por divagar, e já retomo o tema. A festa desta manhã foi impecável: cerimônia simples e bonita, que emocionou não só os filhos, netos e bisnetos de Venerando de Freitas Borges presentes ao ato, mas também todos os que tiveram o privilégio de usufruir da presença e dos ensinamentos do velho contador, professor, jornalista, prefeito, vereador, maçom, escritor, ministro (conselheiro; ao tempo dele, o cargo era “ministro”) do Tribunal de Contas do Estado e um impecável contador de causos.

Ele visitava, a curtos intervalos, o Palácio das Campinas, sede do governo municipal. Gostava de conversar com os prefeitos, e estes aproveitavam para se aconselhar com o velho mestre. Dizia ter se afastado da política, mas que voltaria a ela caso os vereadores voltassem a ser gratuitos, ou seja, não remunerados (como era antes de o tal “regime militar” resolver pagar os edis). Eu era repórter da Assessoria de Imprensa da Prefeitura e quase sempre designado para cobrir suas visitas (quando não o era, tinha a iniciativa de fazê-lo, porque gostava).

Emocionei-me, é claro! Fiquei feliz, porque vi na festa muitos resgates num só momento... Acho que já os defini bem.

 

(*) E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Uma crônica de Leda Selma (propósito do Acordo Ortográfico)

TREMA DE RAIVA, SIM!

 

 

Lêda Selma (*)

 

 

            Trema de raiva, Lêda, o trema caiu! Aguenta, compreensão! Ah! que importante aquele “u”, feito lavadeiras emparelhadas, carregando na cabeça suas malas de roupa, com toda elegância, a despeito dos que não lhe davam trela ou, tampouco, lhe demonstravam simpatia! Pois é, até a tranquilidade, intranquila, perdeu sua referência, sequestrada, após anos e anos sob ameaça, num encher sem fim de linguiça: Portugal, Brasil e afins.  O Brasil tomou a dianteira, bateu o pé, e o Acordo acordou, saiu da gaveta e, desde 1º de janeiro último, começou atazanar o sossego de quase duzentos milhões de brasileiros, os grandes faladores e difusores da língua portuguesa.

 

            O Novo Acordo Ortográfico nasceu, cresceu, adolesceu e, depois de muita lereia, com pinta de paranoia, impôs-se aos lusófonos, sem cara de debiloides, mas com jeito de androides, depois de tanto diz-que-diz-que; tudo feito sem tramoia, juram. E nosso alfabeto, oficialmente, reintegrou as gringas k,y, w, usadas só em certas situações.

 

Soberana, mas nem estoica ou heroica, a unificação, permeada de exceções e de concessões, consumou-se, titubeante, tropeçando nos primeiros voos, com certo enjoo (quem sai ao vento, perde o acento!). Deem vivas os que veem como relevante essa panaceia ortográfica que, na verdade, unificou sem unificar! As pobres duplas “oo” e “ee”, se tomarem sol e chuva, paciência! Chapéu? Ih! nem pensar! De minha parte, não abençoo as novas regras, nem me magoo com elas; com ressalvas, perdoo Houaiss pela iniciativa.

 

Confesso: detestei a malfadada ideia! O resultado? Cefaleia! E tudo sem acento! Por quê? São paroxítonas com ditongos abertos e, por isso, perderam seu acompanhante, o acento agudo. Outra remodelada, isto é, desacentuada, pasmem, a feiura, que acabou ainda mais feia. Sina de todo “i” e “u” tônicos, precedidos pelos tais, os ditongos abertos. Já a viúva, benza Deus! manterá seu arremedo de falo, pois autônomo, o hiato salvou o “u” da viuvez. Também, as oxítonas terminadas em “éis”, “éu”, “ói”, “i” e “u”, mesmo pluralizadas, ficarão com o sinal gráfico em cima dos topetes. Arrebóis, lumaréus, tuiuiús, céu afora, ostentarão sua inteireza que, por sorte, não foi para o beleléu. Ah! as proparoxítonas? Resguardaram-lhe a integridade. Pródiga decisão!

 

A mesma sorte não teve a pera, que pela de medo dos pelos daquele bigode sobre a boca que a abocanha. Entenderam?! É, os conhecidos pares pára/para, pêlo/pelo, péla/pela, pólo/polo não têm mais diferencial, mas o “têm”, no plural, tem, como sempre. Duas duplas escaparam: pôde/pode e pôr/por. Já o circunflexo de fôrma é opcional, fica a gosto do usuário. Pôr lenha na fogueira, não quero; contudo, ninguém pôde me dizer se pode responder isto: qual a forma do bolo?

 

            Preparem-se para perder os cabelos, pois a questão do hífen continua problemática e tumultuando paciências. Houve até separação de casais que viviam em perfeita união. Infernizaram, ou melhor, hifenizaram tanto a vida deles que, agora, estão ligados por uma ponte: micro-ondas, anti-inflacionário... Os que fazem essa dobradinha que o digam, coitados! 

 

Seguindo a rotina de antes, os antagonistas além/aquém, pré/pós e, ainda, “ex”, “sem”, “recém”, “vice”, “pró” permanecem separados de seus companheiros pelo hífen. Portanto, se seu ex-amor partir para além-mar, pós-rompimento, fique sem-chão, pois algum recém-chegado deve estar cobiçando aquele coração pró-romance novo.

 

Bem, se tanto faz contato ou contacto, acadêmico ou académico e outras liberações, houve unificação? Incontáveis dúvidas, muitos pontos controversos fomentarão, por muito tempo, essa polêmica que tem ainda um longo caminho...

* * *

Leda Selma é poetisa, contista, cronista, professora de Língua Portuguesa e Literatura, membro da Academia Goiana de Letras e publica crônicas, aos sábados, no Diário da Manhã, de Goiânia. E-mail: poetaledaselma@hotmail.com

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Assassinato a esmo e sexo objetivo

Assassinato a esmo e sexo objetivo

Luiz de Aquino

 

Ando muito triste com Goiânia. Não com a cidade em si, mas com os rumos que toma a faixa que, em muito poucos anos, dirigirá nosso destino como comunidade. Refiro-me, é claro, a essa faixa que vai dos vinte aos trinta anos de idade, justamente a que contém os moços que se envolveram numa briga na Boate Santa Fé, na Avenida T-1, no Bueno, que resultou na morte do estudante Higor Bruno.

Sou dos maiores entusiastas desta cidade. Gosto de contar que ainda podemos viver com alegria e que as ocorrências de violência ainda não causaram, aqui, a paranóia que cerca algumas metrópoles brasileiras. Consciente, porém,  não me atrevo a repetir o que dizem algumas publicidades institucionais que qualificam a nossa capital como “ecologicamente correta”. Uma cidade ecologicamente correta não mata seus rios e córregos nem erradica belas árvores de flores, como se fez há poucas semanas na Avenida 85.

É triste constatarmos que as drogas proibidas e o álcool consentido estão causando a média de 1,9 assassinatos por dia na Grande Goiânia. Se computarem as mortes por conta da embriaguês ao volante, esse número passaria, certamente, da marca de duas mortes diárias.

No Jardim América, desde dezembro, está aberta uma grande loja, com fachada em apelos berrantes, que oferece artigos ligados às práticas sexuais, ou seja, um sexy-xópin. Nada demais, se a casa não estivesse bem em frente ao Colégio SESC Cidadania, ao lado de três outras lojas voltadas para a atividade estudantil (lanchonete, livraria e uniformes), bem como de um quiosque de lanches, desse que o costume goianiense chama de “pitidog” (coincidentemente, o comerciante de artigos pornôs é o mesmo do “pitidog”).

Voltando ao caso da boate, Gedeilson Rodrigues disparou vinte vezes, sem especificar seu alvo. Atingiu de raspão um dos rapazes e matou Higor. Gedeilson tem passagens anteriores pela polícia, inclusive por homicídio, mas, como ainda não foi sequer julgado pelos três crimes de que (ainda) é suspeito, está qualificado como “primário”e, assim, tem direito de responder em liberdade. Agora, tem mandado de prisão contra si. Espera-se que fique preso, porque ele dá evidências de que continuará matando.

Vislumbram-se aí distorções no processo de educação desse rapaz. Que cabeça de pai formaria um filho para ser um livre-atirador? Que tipo de pai se orgulharia de ter um filho indiciado por cometer crimes variados? Ora, estamos acumulando registros, aqui e nas demais unidades federativas, de maus policiais que matam, com intenção ou não. Mas será que um pai policial, bom ou mau policial, fica orgulhoso de ver seu filho cometer essas vilezas?

Atirar a esmo no decorrer de uma briga, arriscando-se a ferir e matar, caracteriza a intenção, ou seja, faz do autor, neste caso, um homicida doloso. Sabemos que não se criam filhos sem que eles tomem conhecimentos de sexo e violência, mas pais e educadores sabem como falar de violência e sexo sem incitar crianças e adolescente ao crime ou à concupiscência. Quem instala ou autoriza uma loja pornô diante de uma escola de crianças e adolescentes age com o mesmo grau de responsabilidade que o atirador sem pontaria. Ou com a mira voltada para um grupo previamente visado.

Pergunta-se, em todos os cantos da cidade e na mídia nacional, se as boates se organizam de modo a oferecer segurança aos seus clientes, e se as autoridades policiais também cuidam da prevenção com vistas a evitar fatos como a morte de Higor. Não tivemos tempo para entender a morte de Diogo Ranhel, atingido por uma bala disparada por um policial militar que (de novo) mirou no pneu... A gente se pergunta se as pistolas 380 da PM estão com seus canos desviados, mas eis que Gedeilson, portando provavelmente a arma da PM confiada ao seu pai, disparou a esmo e, também, acertou a nuca de Higor.

Estará a PM lenta ou tolerante? Ainda não temos notícias das investigações sobre a morte de Pedro Henrique (o PM mirou no pneu e acertou a nuca dele), e outro PM mira o pneu a atinge a nuca de Diogo. Agora, o filho do cabo da PM acerta a nuca do estudante...

E na Prefeitura de Goiânia? Quem liberou o alvará para a loja de objetos de luxúria em frente ao colégio? Que medidas as famílias, que pagam muito caro por educação, saúde e segurança, terão do poder público em seu favor, hem?

 



 

sábado, janeiro 10, 2009

Régua e relógio


Régua e relógio

Luiz de Aquino

Por que será que, ao longo da vida, em praticamente todos os nossos instantes, somos levados a tomar medidas? Medem-nos desde a concepção até o momento derradeiro, sob as várias visagens e os vários conceitos de que se reveste nossa existência... A começar do fato de que o início de uma vida se dá quando as que  a  concebem estão, teoricamente, a meio de seu tempo. E medem-se o tempo e o espaço, sob os variados conceitos que se faz de espaço e de tempo.

Curiosamente, as medidas estão, quase sempre,

 emparelhadas, próximas, muitas vezes integradas. Dificilmente agimos no espaço sem considerar o tempo, e vice-versa.  História e Geografia, a par e a passo, integradas, tal como, por uns tempos, se formavam professores com vistas aos ditos “estudos sociais” identificando o homem em seu tempo e situando-o em seu espaço.

Medir, avaliar, considerar: coisas que, se desprovidas de sentimentos, são chamadas de técnicas; mas se à métrica, ao sopeso e ao cronômetro atrelarmos a sensibilidade humana, a coisa vira ciência. Ou poesia.

A saudade, palavra que já foi, inúmeras vezes, dita a mais bonita da “última flor do Lácio, inculta e bela”(Ih! Bilac morreria outra vez com esta reforma... Mas não falarei de reforma ortográfica hoje. Hoje é dia de eu tentar medir  sentimentos)... A saudade, eu dizia, é um produto da medida do tempo e da distância.  Certa vez comentei sobre essa crença tão nossa, povos lusófonos, de que “saudade”só existe em Português, e Arthur de Lucca, amigo atento e culto, corrigiu-me em delicada e bem sustentada carta. Sim, é claro... O sentimento da saudade é universal, mas a exclusividade da palavra é igual à de tantas outras. Por exemplo, a terminação “ao”, esta sim, é exclusiva da nossa língua. É possível, sim, que sejamos os povos que mais se escoram na saudade... Sim! O que seria da  poesia sem a saudade, hem?

Ah, a poesia! Ainda existem os amantes de poesia que só a entendem se vier carregada de métrica e rima. Rimar e metrificar não é difícil, isso se pode conseguir com técnica e prática. Difícil é produzir poesia em frases e expressões. Isso é privativo dos poetas. Sendo assim, poetizar é uma coisa, versejar é outra. Bom versejador há de ser bom poeta, ou será um produtor de meras frases de efeito, com medidas em silabas e tonicidade, mas sem o “molho” bem temperado do ritmo envolvente, do resultado sentimental, da almessência a que chamamos de poesia.

Poesia é língua, com todos os seus apetrechos. E é História, é Geografia, é Ciência e Sentir, tudo assim, com iniciais maiúsculas.

Dia desses aí, há bem poucos dias, produzi esse poeminha despretensioso, cheio de sonho e saudade, que chamei de 


Três rainhas, Zona Oeste


A pedra tem seu peso

 e pesa, nua. Mas aos olhos,

 parece-me, flutua.

 

A forma é ímpar: alva Gávea

de saltos ousados: voa-se leve

para se pousar na praia.

 

Folhas filhas de amendoeiras

enfeitam as fotos onde em cima

reina um morro ainda de pelos,

 

(Os verdes pelos perdidos

 para acolher moradias favelas:

tristeza dos nossos dias).

 

Paisagens de sábado, dia feliz, 

três lindas queridas,  olhares sorrisos

de me encantar. Luiz.

 

Talvez não devesse dizer, mas é saudade de longe (na Terra e no ontem).

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E mail: poetaluizdeaquino@gmail.com



terça-feira, janeiro 06, 2009

Às favas com a reforma

Às favas com a reforma

Luiz de Aquino

 

Toda mudança implica resistência. Isso é uma máxima a que se apegam os técnicos de administração ávidos por transformar o que funciona em algo experimental. Claro, há administradores que administram e buscam adequar a realidade aos objetivos, de modo a se conseguir procedimentos e fluxos que facilitem o alcance dos ditos objetivos. Mas há os que, à falta de condições para se tornarem evidente, propõem mudanças. Mudanças só para mudar algo.

Isso acontece em vários setores das atividades humanas. Gestores públicos adoram fazer mudanças. Não raro, são eles lembrados como heróis cujas mudanças foram acertadas, e raramente são citados como os que fizeram “aquela cagada”. Mas os políticos de todos poderes deveriam bolar leis que responsabilizassem os autores das más mudanças, fazendo-os patrocinadores finais de tais coisas, de modo tal que o erário possa, em caso de fracasso, cobrar do inventor. Mas...

Claro, sabem os leitores que estou disposto a falar outra vez na reforma da ortografia. Vi na tevê o quanto esperneiam os portugueses. Mais do que nós, e parece-me que os contestadores lusos são, também, em maior percentagem do que os insatisfeitos daqui, das terras a que os de Camões chamavam de ultramarinas. Gostei de saber que Saramago foi taxativo, dizendo que continuaria a escrever como sempre o fez e que deixaria aos editores o problema da adaptação às novas regras.

Fabricantes e comerciantes de livros que os têm em estoque, de cá e dos demais países lusófonos, esperneiam ante a perspectiva do prejuízo iminente. E a mídia brasileira enfatiza a reforma como algo irreversível, taxativo, chegou para ficar. É mesmo?

Hora de questionar. Se o Código de Trânsito Brasileiro, instituído há mais de dez anos, ainda não fui cumprido em sua íntegra sequer pelos poderes públicos, a escrita vai funcionar como querem os governos? Aqui em Goiás, há cerca de quarenta anos, a Assembléia Legislativa aprovou, e o governador da época sancionou, uma lei que obrigava o estudo de literatura  goiana nas escolas do Estado. Ninguém a cumpriu. Ainda no capítulo da leis da Educação, a reforma do ensino de 1971 foi dada como uma panacéia para a cura de todos os males do setor, mas tão-logo foi publicada no Diário Oficial da União vislumbrou-se o seu fracasso.

Uma reforma drástica é sempre rejeitada naturalmente. Ainda existem milhões de analfabetos em todo o mundo, e uma parcela muito maior dos que, sabendo ler e escrever, ignoram as ortografias de suas línguas escritas, as regências e concordâncias (políticos, artistas, jornalistas... enfim, todos os que têm realce nas mídias, em todos os recantos do mundo, são provas inequívocas disso).

Se o propósito era a unificação da Língua Portuguesa escrita, deviam, em lugar de forçar todos os povos lusófonos a engolirem tais mudanças, ter instituído as diferenças. Ou seja, em qualquer país da Língua, tanto faz que se escreva “afeto” ou “afecto”, tal como se faz, no Brasil, com “quotidiano e “cotidiano”. Como escrevi antes, ninguém vai nos enfiar uma “linguissa” goela abaixo.

Com a eliminação dos assuntos diferenciais em 1971, os cariocas passaram a pronunciar “pôça” em lugar de “póça”, e os paulistanos falam “avêssas” em vez de “avéssas”. Por uma razão que não entendo, paulistanos dizem “éstra” em lugar de “êxtra” (e nós, goianienses, que somos gente advinda de todos os rincões do país, estamos começando a falar errado o nome do hipermercado). Ora, a gente sabe que paulistanos tendem a fechar o som das vogais. Com o fim do assento em algumas palavras, em breve ouviremos jornalistas, atores, cantores e políticos da metrópole paulista a dizer “jibôia, paranôico e idêia”.

De minha parte, solicito ao Fleurymar e à Sabrina, editores de opinião do DM, que publiquem esta crônica revoltada na linguagem escrita que me foi ensinada nos anos de 1950 e 60, reformada em 1971. É que escolhi cometer desobediência civil diante da reforma, pois seus autores não ouviram os intelectuais dos países atingidos.

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Ao primeiro sol do dia

Ao primeiro sol do dia

 

 Luiz de Aquino


  Vontade de olhar o mar, mas preciso olhar o mar

do alto, buscando algo que escape ao algoz

de qualquer instante.

  

Há sempre alguém que segura a corda

pela ponta, e faz um laço de nó grosso

ou gordo, e dói...

  

Olhar o mar é aspirar a liberdade

e sonhar grande, ainda que sob estrelas, e estrelas

parecem pequenas, sempre.

  

Acho que te dou a mão sob o céu e o sol

de uma manhã em João Pessoa.

É que estou te amando.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Ano-Novo feliz! (*)

Ano-Novo feliz! (*)

 

Luiz de Aquino

 

Percorri, com paciência, meus escritos em prosa nos últimos trinta meses. Trinta? Sim, nada de cabalístico, apenas o período em que passei a publicar um “blog” e que soma, para minha alegria, mais de quarenta e duas mil visitas.

Reli minha mensagem de Ano-Novo ao final de 2006 e entendi que devia repeti-la, sem perda do sentimento de amor e esperança de que nos imbuímos a cada mudança no calendário. Meu amigo Nilson Gomes dirá que estou publicando coisas já publicadas, cobrando-me novidades. Respondo-lhe, e aos que concordarem com ele, que os músicos sempre repetem, em seus xous, as composições que fizeram sucesso.

Não sou tão pretensioso... Vou repetir aquela crônica porque gosto dela, ainda que não esteja nas paradas, e com ela mando um beijo de alma a todos os que gastam tempo lendo meus escritos. O tema era o sete, mas nossa imaginação há de criar desenhos mágicos com o nove...

 

* * *

 

Um Ano-Novo é novo até que o jornal do primeiro dia fique

velho. E isto acontece poucas horas após o despertar do

sujeito, em ressaca ou não. Mas um Ano-Novo é um marco

de recomeço, de renovação instintiva do Ser Homem, fêmea

ou macho, ainda que o ano não nos traga

um número de referencial.

Como este, por exemplo.

 

 

As luzes e os estouros vários

e fogos ao céu, em escuro de fundo,

sugerem: em dez segundos, seremos nós

a contar na ordem inversa. É como se de tudo

se fizesse o novo e novos rumos e portas ressurgem.

 

Não é nova a década que vem.

Nem o ano é novo de todo, porque

adiamos decisões, acertos, e faltam-nos

coisas muitas: rever pessoa amada, recomeçar

os planos e trazer de ontem apenas a cor da saudade.

 

 

É novo o ano, e chega a ser referencial de fé: nove é

bom de cabala. Que nos lê sorte, sem mistério.

Mas dois mil e sete.. Mas não é, sequer,

simétrico, como o é dois mil e dois.

Não é, mesmo, espelhado.

 

Mas há certa mente capaz de bom desenho, a fazer,

do sete, um dois invertido. Aos zeros, no meio,

dá-se de certo o que é inverso aos iguais e,

aí, sim, um visual grato aos olhares

faria do Ano (Novo) bonito.

 

...Que lhe deseja
este Aquino, Luiz

 

 

 

Luiz de Aquino  é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail,com