Visita ao ontem
Luiz de Aquino
De novo, a visita aos meus arquivos e a exposição de velhas falas. A crônica abaixo, publicada no DM, em 13 de abril de 2001,mexeu com minhas lembranças. E neste final das águas (que foram poucas), começo de uma nova estação de seca e de flores, gostei de reviver aqueles momentos.
Bem... Vou dar vez ao tempo:
Orgasmo de cor e beleza
Nas últimas semanas, estou dedicado à leitura e redação de uma monografia, exigência para o término de um curso que faço, à distância, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pois bem: viciado no tema, dificilmente converso sobre outra coisa. Vai daí, conheci a professora Jaires Bravim Vitorino, de Aimorés, Minas Gerais (incrível essa minha afinidade com Minas; terra de minha mãe, de estirpe italiana, mas orgulhosa do torrão de Tiradentes e Drumonnd). Deu para sentir que ela é “viciada” em educação. Em poucas palavras, deu-me inúmeras dicas, citou-me vários autores e passou-me uma breve bibliografia. Ênfase para Rubem Alves, educador respeitável, autor de inúmeras obras, tanto no âmbito da educação quanto da literatura infantil.
Numa livraria local, encontrei “Entre a ciência e a sapiência”. Jaires me enviou, pelo sedex e por empréstimo, alguns livros do guru. Agora, finalmente, achei o ponto de partida para a monografia e, com isso, meu feriadão da Semana Santa está compromissado, nada de Pirenópolis ou Goiás Velho, mas meu minúsculo escritório, dedos sobre o teclado e algumas dezenas de livros abertos, previamente demarcados, juntando conceitos e citações na montagem do texto final.
Os primeiros textos de “Entre a ciência e a sapiência” têm forma de cartas. Cartas a ninguém menos que Roberto Marinho, o todo-poderoso do sistema Globo. Vejam que pérolas, colhidas na primeira carta: “O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem flores e ejaculam sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza. Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra”.
Que coisa linda! A última frase deixa claro e indiscutível que, na natureza, não há incesto – as árvores plantam sementes no ventre da mãe-terra. Mas é também de incomparável beleza a imagem do orgasmo de cores que são as florescências não apenas dos ipês, mas de tantas outras árvores que, ao fim do outono, explodem de cores o marrom dos cerrados que só reverdecem quando a primavera permite as chuvas que vão marcar o verão.
Batista Custódio, o dono do Diário da Manhã, é fanático por natureza – haja vista o jardim que enfeita nossa sede e o tratamento que ele dá à sua fazenda em Baliza, lambida pelas águas do Araguaia e regurgitando de vida natural simplesmente porque ele decidiu que ali não se mata nem se extrai. Quando, há uns seis ou sete anos, Batista decidiu pelo jardim na sede do DM, contou-me de um diálogo com um peão na fazenda: “Não vou mais trabalhar pro senhor, minha mulher não quer”. Ele quis conhecer as razões da mulher do peão. “O senhor quer que eu mexa com flores, isso é coisa de fresco”.
Coitado! Jamais vai saber que as flores são a genitália das plantas...”.
Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com



















