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quarta-feira, maio 13, 2009

CNH: quase tudo normalizado

Luiz de Aquino


Ah, essa intocável burocracia! Saudade de Hélio Beltrão, ministro de João Figueiredo com a meta soberana de eliminar, nos sistemas da administração pública brasileiros os entraves de fluxo papéis e de procedimentos. Infelizmente, o ministro saiu do governo e tudo aquilo que se simplificou voltou ao emaranhado dos carimbos de autenticação, de reconhecimento de assinaturas, de voltar ao começo porque algum espírito de porco resolveu cometer um ligeiro desvio no andamento do processo...

Digo isso por conta do intrincado problema de emissão de carteiras de motoristas em Goiás. Sonho de todo adolescente, carência de um sem-número de profissionais, documento hábil para o exercício quase amplo do solene direito de ir-e-vir, a Carteira Nacional de Habilitação tornou-se o tormento de alguns, em Goiás. Mas esses “alguns” não são poucos, assim. Desde o começo do problema, no comecinho de março, cerca de noventa mil cidadãos do nosso Estado tiveram problemas. Destes, cerca de quinze mil ainda sofriam, na semana passada, pela falta do documento.


Tudo por conta da migração de um sistema (que armazena somente informações no âmbito estadual) para outro, que integra os Detrans de todo o Brasil no acesso aos dados dos condutores habilitados.

Entre sábado e segunda-feira últimos, o Detran de Goiás expediu mais de dez mil carteiras (em renovação). Restam agora menos de quatro mil documentos a serem expedidos pelo sistema, a Binco (Base de Identificação Nacional de Condutores). Aliás, a migração da Binco (o sistema anterior) para a nova base de dados, chamada de Binco Ampliada, foi a causa do entrave. A rigor, todas a unidades federativas tiveram problemas, algumas conseguiram solucionar em tempo menor e nós, goianos, ainda reclamamos.



E com razão. Imagina um cidadão ter de encostar seu automóvel porque a segunda via de sua CNH, devidamente renovada conforme exigem as práticas legais, ainda não foi expedida! E se a CNH é de alguém que a usa para o trabalho, como motoristas de caminhões e ônibus, de táxis, de veículos de emergência etc.? Hoje, a defasagem é inferior a cinco por cento das carteiras renovadas no período. Mas é transtorno. E, infelizmente, essa é a imagem que fica para o usuário dos serviços do Detran. Infelizmente, a interpretação da opinião pública tende à generalização.

E aí, corro atrás de notícias, tento informar-me bem sobre o problema. Isso me toca diretamente, e não só por razões profissionais, mas porque, lá em casa, nossas carteiras devem ser renovadas este ano. Piadas à parte, busco tranqüilizar meu leitor – o Departamento Nacional de Trânsito, em nota datada do último dia 7 de maio, dirigida ao Diretor Técnico do Detran de Goiás , Horácio Mello, informa que o problema de Goiás estará solucionado até o final desta semana.

Boa notícia, enfim. Isso quer dizer que as pouco mais de quatro mil carteiras retidas no sistema estarão disponíveis aos seus donos. Enquanto isso não acontece, o Detran de Goiás fez expedir uma declaração a cada condutor vítima dessa anormalidade. A declaração, como me esclarece Horário, não substitui a CNH: “Nada substitui a Carteira Nacional de Habilitação; essa declaração deve ser apresentada junto com a carteira vencida e visa a justificar, perante os agentes e as autoridades de trânsito, que o condutor está regular, mas que este problema específico impediu-nos de emitir o documento tal como exige o Código de Trânsito Brasileiro”.

Acho que o impasse dá uma advertência e uma lição ao Denatran e aos Detrans: só se substitui um sistema quando se tem certeza do pleno funcionamento da nova base. Ou ficaremos todos a pé. Sem trocadilho.



Luiz de Aquino
é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

segunda-feira, maio 11, 2009

Uma crônica de Leda(ê) Selma

Lêda Selma

Ave, Marias!

 

09/05/2009

 

 

Parênteses: com esta crônica reverenciei, ano passado, todas as mães e, em especial, a minha. Há três dias, um leitor brasileiro, residente em Rovigo, Itália, enviou-me um e-mail com o pedido: “Por favor, Lêda, republique aquela crônica em homenagem às mães, porque quero presentear as que me ‘adotaram’ aqui com o seu texto no qual está inserido um poema que muito me emocionou. Por uma pane no computador, lamentavelmente, perdi tudo. Atenda-me. Obrigado”. Então, à crônica, Samuel:

 

Nome-símbolo, Maria. Assim como o segundo domingo de maio. Clichês que criaram raízes e se consolidaram na tradição. Para alguns, puro apelo comercial, esperteza de empresário; para tantos, não mais que simples simbologia; para outros, simbologia que pode se converter em reflexão, em descobertas e redescobertas, em encontros e reencontros, em manifestações de carinho. Sim, e por que não?

 

Clichês, apelo comercial... certo, mas e daí? Mãe é mãe, não importa se domingo, segunda... de janeiro a dezembro, oitenta e seis mil e quatrocentos segundos por dia. Portanto, para ela, tudo é válido. Até um presente em forma de carinho ou um carinho com cara de presente. Lembrança e presente são fundamentais. Se revestidos de carinho, claro!

 

Também, hoje, escolho Maria, nome-símbolo para mãe. E para todas as marias, santas ou não. Maria parideira, Maria das dores, Maria descalça, Maria da vida, Maria das ruas, Maria do mundo, Maria da noite, Maria dos tanques e dos fogões, Maria da mendicância, Maria da fila do SUS, Maria das cadeias, Maria das enfermarias. Maria sem rumo, sedenta, repleta de fomes. Maria de filhos sem sonhos, feitos em série, de pais sem nomes. Maria cheia de raça, mas nem sempre cheia de graça. Maria da maternidade violentada pela perda de um filho e, irreversivelmente, sentenciada à dor eterna. Maria das noites insones, dos pedregulhos na alma e de tantas vias-crúcis. Maria de sonhos espoliados, mas de fé inabalável. Maria das lutas, dos lutos, dos tombos, das buscas intermináveis. Maria rainha, sem coroa e cetro, Maria menina, Maria marias...

 

A você, mãe, que teve o infortúnio de ver um filho preso; a você que gerou um filho deficiente ou fruto do estrupro; a você que acolheu com amor o filho alcoólico ou drogado; a você esquecida pelo filho distante ou magoada pela ausência do filho tão próximo (quem disse que “Ser mãe é padecer no paraíso?); a você que escolheu ser mãe do filho abandonado, da cria alheia, curvo-me: é em seu peito que reside a dimensão maior da maternidade.

 

A você, mãe, mais uma Maria estigmatizada pelo destino ou pela vida; a você que divide com seu filho esperanças débeis e sonhos murchos; a você que faz da coragem trincheira na luta contra a violência e a impunidade, minha homenagem.

 

A você que foi escolhida para colocar a dignidade, o amor e o desvelo acima de qualquer fraqueza, de qualquer medo, de qualquer recuo, eu me penitencio. E o faço com a humildade da mãe que não conseguiu superar suas fragilidades e, por isso mesmo, ainda se encasula na própria dor, como se a sua fosse a maior de todas.

 

Maria, marias, autênticas mulheres, genuínas mães, legítimas santas. Heroínas sem medalhas. Invólucros da própria vida. A elas empresto, neste dia, um poema dedicado à minha mãe, uma jovem de oitenta e oito anos bem-vividos e bem-sofridos, mulher aguerrida, devota de Nossa Senhora de Fátima, frequentadora assídua da Capela Santa Mônica, paróquia Nossa Senhora de Fátima, mãe dedicada, baiana corajosa e arretada. Sua bênção, minha mãe!

 

Mães são manhãs

a colher lembranças

pousadas nas frestas

de tantos silêncios.

São fios de noites

a cerzir saudades

nos beirais do vento.


No rosto, travessuras do tempo

que esconderam dores

e acolheram folias.

E na fundura do peito,

apesar do cansaço,

inda pulsa e reluz,

feito sonho indomado,

um enorme sol

de infinitas pétalas.

 

 

 

 

 

Lêda Selma é escritora e membro da Academia Goiana de Letras. 

sábado, maio 09, 2009

Dois poemas pelo Dia das Mães

O primeiro é meu, escrito há uns dez anos:


Mãe


Luiz
de
Aquino

Tristes não, nem saudosos. Alegres, talvez.
Apenas certos de estender aos anos
alcatifas de coradas flores.

Não cúmplices, mas pedaços
de uma vida, a mesma, entrelaçados
por fecundo sêmen, no estertor de legítimo gozo
de humores a fluir com força:
momento de evocar-me à luz.

À luz, à luz... como vim
e vi-me feito à imagem
de Deus, dizem os crentes;
do Homem, é o que diz Deus.

Há, sim, o entendermo-nos sempre.
Refazer das carnes após o amor de hormônios,
multiplicar de genes, gestar com paciência,
parir entre dores, odores, suores
e as sempre lágrimas.

Deu-me o plasma, e o sorvi como a vida;
deu-me formas, palavras, cores, paladares,
música, dimensões, poesia
e o sentir,
que não se é poeta
impunemente.

De risos, lágrimas, sucessos,
e de tristes, felizes, esperanças
e de entes queridos ou distantes,
a fé no verbo te eterniza em mim.

(Do livro “Sarau”, 2003)










O segundo, de uma bela policial militar do Estado de São Paulo, circula pela Internet como de autoria desconhecida. Já perdi a conta das vezes em que escrevi de volta aos disseminadores de textos sem citação de autor, tentando corrigir a falha. E, agora, faço um pouco mais. Publico o poema, com a identificação da autora.

Meu nome é Mulher

Fátima Aparecida Santos de Souza


No princípio eu era Eva

Nascida para a felicidade de Adão

E meu paraíso tornou-se trevas

Porque ousei libertação!

Mais tarde fui Maria

Meu pecado remiria

Dando à luz Aquele

Que traria a salvação!

Mas isso não bastaria

Para eu encontrar perdão!

Passei a ser Amélia

“A mulher de verdade”

Para a sociedade!

Não tinha a menor vaidade

Mas sonhava com igualdade!

Muito tempo depois decidi:

“Não dá mais!

Quero minha dignidade,

Tenho meus ideais!”

Mas o preconceito atroz

Meus 129 nomes queimou

Então o mundo acordou

Diante da chama lilás!

Hoje não sou só esposa ou filha;

Sou pai, mãe, arrimo de família;

Sou ourives, taxista, piloto de avião,

Policial feminina, operária em construção!

Ao mundo peço licença

Para atuar onde quiser!

Meu sobrenome é Competência

O meu nome é Mulher!

Autora: PÉROLA NEGGRA

FÁTIMA APARECIDA SANTOS DE SOUZA

POLICIAL MILITAR EM MAUÁ/SP/BRASIL

perolaneggra@yahoo.com.br

(011) 9409-0630

Milca, a vitoriosa

Milca, a vitoriosa

Luiz de Aquino

A secretária Milca Severino, da Educação, tem muito a comemorar com a II Bienal do Livro. Agregou escritores, juntou estudantes de todas as idades, mobilizou professores e o povão anônimo também disse presente. Com os percalços naturais de qualquer evento, a feira cumpriu seu papel.

Não pude ser mais presente, tive coisas de casa a resolver, de modo que vivi momentos poucos no Centro de Convenções, mas bastante proveitosos. Como o papo rápido, mas enriquecedor e feliz, com o poeta Carlos Nejar, imortal da Academia Brasileira de Letras, e o reencontro com Fausto Rodrigues Valle, Leonardo Teixeira, Miguel Jorge, Moema de Castro, Ivanor Florêncio, Brasigóis Felício, Edival Lourenço, Doracino Naves, Leda Selma, Danilo Gomes, Maria Helena Chein...

Volto ao tema, com alegria quase infantil. Confesso que a feira, que ainda chamaram de Bienal do Livro, chegou-me como uma surpresa, pois faltou a edição de 2007, o que me levou a crer que a iniciativa ficaria no passado, tal como a I Bienal de Artes, realizada sob o patrocínio da então poderosa Caixa Econômica Estadual de Goiás, “falida” pela conveniência política. Mas ela veio, aconteceu, marcou presença e, espero que para muitos outros, deixou saudade.

Gostei de ver a alegria da secretária Milca. Ela reúne o que se tem de bom em Goiás como educadora e gestora pública. Mostrou eficiência em dois mandatos (eleitos) como reitora da Universidade Federal de Goiás e assegura à Educação estadual os procedimentos corretos na política educacional. Ao realizar a II Bienal, ela deixa claro que a Educação não se limita às salas de aulas, como Cultura não pode resumir-se a reformas de edifícios.

Já disse, e reafirmo, que entendo ser necessário, no Brasil, uma guinada na filosofia das feiras de livros. Os que me lêem, e os que me ouvem, precipitam-se em torcer o nariz antes do final do texto ou no meio da minha exposição verbal. Eu preciso dizer que nos falta, aos autores de textos que, muitas das vezes, resultam em livros, que o foco principal deveria voltar-se mais para os autores literários. Os consumidores de livros não são, necessariamente, leitores de literatura. E as feiras, usando-nos como ameixa de pudim, fazem dos escritores adornos de seu prato principal – vender papel impresso encadernado.

Inúmeros estandes traziam exclusivamente livros religiosos. Outros, de auto-ajuda e os indefectíveis técnicos. O público infantil passa a ser quase que o único a quem se oferece literatura. O envolvimento de autores literários locais é igualmente restrito e repetem-se, a cada nova feira, os mesmos nomes de sempre, em prejuízo dos menos lembrados, ou dos nunca lembrados (incluo-me, sem constrangimento, entre os ilustres esquecidos, convidam-me para ser claque dos que estão sempre em destaque). Tudo bem, tenho consciência de que não sou simpático aos olhos dos que têm esse poder de escolha.

Entendi insuficiente a divulgação, mas isso não é culpa da Secretaria da Educação: material de notícia houve, e bastante. Infelizmente, temos em Goiânia jornais e tevês que proíbem destaque para as notícias de cultura. E o balanço geral é positivo. Editores e comerciantes estão felizes, como felizes estão também os que foram alvos de homenagens e convidados para momentos de autógrafos.

Cumprimento, pois, a professora Milca Severino e sua equipe de auxiliares. E abraço o governador Alcides Rodrigues, que simboliza o patrocínio oficial ao evento. Que venham outras iniciativas, Governador! Os artífices goianos das letras agradecem.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

terça-feira, maio 05, 2009

A Língua em que se faz samba (*)

A Língua em que se faz samba (*)

Luiz de Aquino

Continuo no tema da Língua Portuguesa. A Língua Portuguesa no Brasil, claro. Ou alguma comparação entre o que falamos e o que se fala em Portugal. E as Línguas Estrangeiras influindo no quotidiano. Tolerem-me, leitores, que terei assunto pelos próximos trinta anos; após esse tempo, não escreverei em jornal – vale como aviso prévio, Batista: quando fizer 85 anos, aposento-me.

Se vamos brincar ou trabalhar, há sempre um líder (leader, do Inglês); se temos fome, tomamos um lanche (lunch, Inglês); antes de namorar, temos o flerte (novamente do Inglês, flirt); se pegamos um táxi, tem lá um chofer (do Francês chauffeur); se dominamos uma tecnologia, temos know-how; se levamos jeito para alguma coisa que exige mais criatividade ou malemolência, temos savoir-faire.

Mas, já se nota, aportuguesamos as palavras estrangeiras ou elas se perdem. Sabe-se que o idioma de Shakespeare, atualmente, tem cerca de três quartos de seus vocábulos originários do Latim – por isso, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, estuda-se o Latim; aqui, não precisamos (!?), mas os portugueses não abrem mão da língua dos antigos romanos. As línguas ocidentais flexionam seus verbos em seis pessoas – isso vem do Latim. Mas uma malfadada Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro de 1961 e posta em prática imediatamente, a partir de março de 1962, mudou tudo. Sem transição. E ficamos alheios a uma das mais importantes ferramentas para o pleno domínio do idioma – daí o português de quem falei ontem afirmar que nós escrevemos muito mal.

Já disse nestas crônicas que me recuso a comprar de quem promove “sale” em vez de liqüidação, que não aceito “delivery” em lugar da entrega a domicílio e não como “fast food” em vez de – em Goiás não dizemos assim, mas no Rio era o que líamos nas lanchonetes (agora, palavra inglesa com metamorfose francesa...): “Refeições à minuta” (herança do Francês “à la minute”).

Publicitários, mais que jornalistas, fazem concessões permissivas, como que um estupro à Língua – escrevo em maiúsculas, para não dar duplo sentido à frase. “Muda Brasil” em vez de Muda, Brasil!” tomou conta do país nos anos de 1980, junto com o “Vota Brasil” (seria “Vota, Brasil!”). Órgãos públicos como secretarias de Educação e de Cultura e instituições responsáveis (será?) como academias de letras engolem o que a mídia – publicidade e imprensa – impõem. Emissoras de rádio e televisão cometem coisas agressivas à estrutura da língua – já viram como, nas novelas e nos telejornais, a expressão “há anos atrás” se tornou “correta”? Seria correto, mas redundante, dizer que “há ânus atrás”.

O “economês” chega a irritar. Inclua-se aí publicidade, comércio de varejo, área de investimentos, bancos, indústrias, bolsas de valores etc. Mas o Ivair Lima, competente repórter, psicólogo e poeta sensível, não teme esse tipo de coisa e me tranqüiliza: “Lula (por que ele me chama assim?), esse dialeto não vinga, só existe no meio empresarial. Enquanto houver escola de samba, o Português do Brasil estará salvo. Em que outra língua seria possível se compor um samba?”.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

(*) Esta crônica foi publicada no Diário da Manhã em 19 de junho de 2001. Relendo-a, diverti-me a ponto de querer republicá-la. A foto também é da época...



sexta-feira, maio 01, 2009

Sem pânico, por favor!


Sem pânico, por favor!

Luiz de Aquino

 

Estamos todos assustados ante as notícias da "gripe suína". Não é para menos. Vejamos: tenho 63 anos e lembro-me bem que, na infância, éramos obrigados a nos vacinar contra varíola e tifo - condição "sine qua non" para nos matricularmos em qualquer escola etc. Nossos avós, os avós dos anos 50 do século passado, falavam ainda da febre amarela, combatida e praticamente erradicada pelo jovem doutor Osvaldo Cruz (esse merece o título de doutor com todas as letras), na primeira década do Século XX. Depois veio a gripe espanhola, coincidindo com a Primeira Guerra Mundial, na segunda metade da década de 1910. Um tio meu contava que as carroças (puxadas a burro) do Serviço de Limpeza Urbana da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, ostentavam as letras PDF (Prefeitura do Distrito Federal), e o humor carioca traduzia-as como "pede-se defunto fresco", pois elas passaram a recolher, nas ruas os corpos das vítimas da gripe.

Na década de 1970 (aí, eu já era um jovem adulto) surgiu a meningite. A tecnologia, o sistema de comunicação e de transporte, em todo o mundo, ainda eram incipientes diante do que temos hoje (mais ainda no Brasil, gigantesco e ainda concentrado nos chamados "grandes centros"). Pois as autoridades brasileiras da época conseguiram driblar a possível pandemia, e em pouco tempo despreocupamo-nos com o problema.

A imprensa mundial está centrada na questão da "gripe suína". Faz bem, imprensa existe é para isso mesmo – comunicar e informar. Não cabe à imprensa resolver o problema, mas manter a comunicação e renovar as informações. Com isso, os governos de todo o mundo cuidam de proteger seu território e sua população. É o que vemos.

Nesta manhã (hoje é quinta-feira, 30 de abril), na tevê, ouvi de um médico, David Uip, que as máscaras cirúrgicas, já em falta nas farmácias de todo o mundo, não têm a eficácia esperada, pois elas vencem em apenas duas horas, impregnadas de saliva. E não há indústria, em lugar algum do mundo, capaz de suprir a necessidade de reposição que se exige.

Há quem duvide da eficiência das autoridades médicas, considerando a constante ameaça da dengue. O mesmo médico rejeita a comparação, já que a gripe se contrai pela respiração, enquanto a dengue tem um vetor (o mosquito). E a gente ouve dizer, conversando com funcionários do complexo da saúde, que as tais autoridades municipais não têm interesse em erradicar a dengue, pois o trabalho de combate permite captar expressivas verbas do governo federal. Será? Eu, hem!

O que fazer? Cuidar de manter em alta o sistema imunológico, e isso implica alimentar-se bem, consumir doses razoáveis de vitamina C, dormir bem, não cometer excessos que causem desgastes físicos e emocionais (isso reduz nossas defesas). Essa é a nossa parte, ou seja, é o que podemos e devemos fazer.

De resto, e como em tudo na vida, é contar com a sorte e a proteção dos anjos, emissários de Deus para nos cobrar juízo, de vez em quando.

 

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço. 

E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com..com.

terça-feira, abril 28, 2009

Eu quero mais ministros de cor


Luiz de Aquino

 

Vez em quando, ouço de alguém aparentemente bem-formado (quero dizer, gente que cursou universidade) que a solução para os nossos problemas está na volta do regime militar. Nesses momentos, sinto uma dor no estômago e algum hormônio ruim invadir-me o corpo, chego às raias da depressão. Mas reajo, ciente de que, para o nosso bem, essas pessoas não conseguem dar eco a suas vozes. A não ser por esparsos momentos, como aquele jornalão paulistano a decretar, em seu editorial, que o Brasil, de 64 a 85, viveu uma “ditabranda”.

Sim, leitor, a Folha decretou. Aliás, a Folha aprendeu a decretar justo nos tempos em que reinava a “ditabranda”. Não foi à toa que disseram que, naqueles tempos, era a Folha o jornal de “maior tiragem” no país. A referência não era ao número de exemplares rodados e distribuídos, mas, sim, ao número de “tiras” nos quadros de sua redação.

Por um tempo, os resquícios da ditadura militar foram chamados de “entulho democrático”, como se os aceitássemos como sobras de construção que enfeiam e incomodam. Alguns idiotas qualificam a ditadura como “militar e civil”; nunca vi nada mais insensato, pois os civis que participaram do golpe foram logo alijados do processo e só tiveram vez os baba-ovos, eternos mariposas da luz do poder, como ACM, Sarney e outros menos expressivos.

Mas o triste é que o entulho continua por aí. Os oportunistas, os agregados eternos do poder não soltam o osso. Empoleram-se ao poder como mariscos na rocha. Mamaram na ditadura até o fim e, com a boca torta pelo hábito, mamaram na era Sarney, no curto reinado de Collor, na regência de Itamar e no império de FHC. E continuam apegados nos mandatos de Lula.

Os mais espertos conseguiram empregos vitalícios. E nesses cargos “ad vitam” existem, felizmente, os que trazem consigo o lastro do conhecimento intelectual e técnico indispensável. Falo do ministro Joaquim Barbosa, em realce desde o instante em que, semana passada, afrontou o presidente do Supremo com a coragem dos que nada têm a temer. Ou perder.

Certo, o ministro! Felizmente que outros há de sua estirpe. Infelizmente, uns outros preferiram alinhar-se ao duvidoso presidente, dono de atitudes corajosas, mas inexplicáveis ao bom senso, como teimar em manter em liberdade autores de graves lesões à Pátria, escudados no poder do dinheiro e da influência que a pecúnia exerce sobre alguns. De imediato, nada menos que oito ministros alinharam-se com o presidente – mas a Nação Brasileira alinhou-se com Joaquim Barbosa.

Está certa, a Nação. Temos de nos alinhar com os nossos iguais. E a Nação, neste caso representada pela sua maioria pensante e trabalhadora, esta que tem vergonha na cara, enxerga no homem mestiço, símbolo da nossa identidade maior, aquilo com que sonhamos para o nosso Congresso e as assembléias legislativas e câmaras municipais. Ele agiu do modo como esperamos dos Executivos dos três níveis. Ele agiu, enfim, como queremos que ajam os ministros dos nossos tribunais.

 

 

 

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.