Páginas

sábado, setembro 18, 2010

Cálidas Mineiras em Termas Goiás

(Poema meu ilustrado e divulgado com o carinho dos meus amigos poetas José Aloise Bahia e Silvana Guimarães, ambos mineiros. Vejam como fica bonito no "Germina": 

http://www.germinaliteratura.com.br/2010/ageneticadacoisa_luizdeaquino_set10.htm

O propósito: mostrar o texto e como foi concebido, daí o tema "A genética da coisa".


Carvão de Fernando Fiúza (1953-2009), artista mineiro.

cálidas mineiras em termas goiás
                                    por luiz de aquino




O poema



Morenas mineiras,
serenas sereias
de tetas pequenas
e nádegas plenas
(abundantes).

Sóbrias maneiras
de moças faceiras,
saudáveis mineiras
de além horizontes
(visitantes).

Nos clubes, nas ruas,
nos lençóis, à lua,
vestidas ou nuas
— é comê-las cruas —
(são suas?).

Em termas piscinas
as vejo meninas;
mineiras maneiras,
morenas apenas,
sereias serenas
louras vindouras
(gatinhas. São minhas?).

Negras, castanhas,
castas, me assanham:
discretas, insinuantes
— prefiro as mineiras,
sereias morenas
de tetas parcas e nádegas fartas —
(abundantes).






Razão



Esse poema foi concebido em Caldas Novas, minha cidade natal, em 1989 ou 1990. Como tudo o que temos no sul de Goiás, e tal como era até a década de 1970, nossos ancestrais tinham raízes em Minas Gerais. As famílias pioneiras de lá (Gonzaga de Menezes, Rodrigues da Cunha, Lopes de Morais e outras) vieram de Minas, tal como os hábitos e o modo de falar, especialmente do Triângulo Mineiro (que já integrou a Província de Goiás). Minha mãe nasceu em Minas (Conquista) e meu pai, que é goiano de Pirenópolis, tinha um avô mineiro (José Florentino Alves, de Bom Despacho). No decorrer da década de 1980, o turismo firmou-se em Caldas Novas e os finais de semana eram marcados por inúmeras excursões advindas de várias regiões brasileiras e, com farta frequência, também de outros países. As pessoas vinham conhecer "o maior manancial de águas termais do mundo" e deliciar-se nas piscinas dos clubes e hotéis.

E estava eu vivendo o conforto da minha década de quarenta. Não sei se o apelo vinha do DNA, mas o fato é que sempre me identifiquei, a partir da troca de olhares, com as mineiras. Costumava ir-me daqui, de Goiânia, para a minha terrinha logo após o término do expediente de sexta-feira; menos de duas horas de automóvel, já estava em casa (dos pais), aprontando-me para um circuito descontraído em torno das excursões chegantes, ou mesmo de pessoas vindas em minúsculos grupos, em carros particulares. Curtia, assim, aquilo que chamávamos de "namoro de final de semana", que melhor se caracteriza, nos conceitos de agora, como "ficar".

De alguns encontros assim restaram-me algumas paixões que ensejaram viagens (ora eu ia, ora a namorada vinha) e a distância, sim, foi obstáculo, em alguns casos, para consolidarmos um envolvimento de maiores raízes... Mas ficou, neste poema, o registro ao que me valeu como uns poucos, mas fortes e expressivos, encontros afetivos. Coisas memoráveis, sim!



Luiz de Aquino (Goiânia/GO) -  Jornalista, professor, articulista, poeta, contista e cronista do jornal Diário da Manhã, Goiânia, GO. Estudou no Rio de Janeiro e em Goiânia, onde reside com a família. Graduado em Geografia pela Universidade Católica de Goiás. Membro da União Brasileira de Escritores, da Academia Goiana de Letras e do Sindicato de Escritores do Rio de Janeiro. Na infância, preferia ouvir rádio, ler revistas em quadrinhos e livros de histórias que jogar futebol no meio da rua. Gosta de artes, literatura, informática, viagens, MPB, chorinho e a “bossa nova” da poesia moderna, por sua cadência e liberdade. Prefere as viagens de automóvel às de avião, mas o que gosta mais é de conversar sobre literatura e coisas do cotidiano. Publicou, entre outros, O Cerco (Contos, Editora Líder, Goiânia, 1978), Sinais da madrugada (Poemas, Editora Centauro, Goiânia, 1983), Isso de Nós (Poemas, Edições Consorciadas UBE/Kelps, Goiânia, 1990), Deu no jornal (Crônicas, Terra, Goiânia, 2000), A noite dormiu mais cedo (Poemas, Prêmio de Literatura Cora Coralina, Agepel, 2002), Sarau (Poemas, Editora Talento, Goiânia, 2003) e As Uvas, teus mamilos tenros (Poemas, Editora Talento, Goiânia, 2005, com ilustrações de Pollyanna Duarte, professora da Universidade Católica de Goiás). 


Honra ao mérito



Honra ao mérito


Vivi, esta semana, um dos mais felizes momentos, ao receber o título de Cidadão Goianiense, proposto pela vereadora Célia Valadão. Disse ela que isso é fruto de serviços prestados por mim à comunidade. Mas como trabalhar sem servir a comunidade? O que entendo é que houve uma gentileza da parte da cantora Célia Valadão (maravilhosa ao interpretar o Hino Nacional!) e, sendo vereadora, resolveu, por sugestão do secretário Kleber Adorno, prestigiar este poeta. Como nunca atuei sozinho, e induzido pela vereadora cantante, elaborei uma lista, ela citou outros nomes e os conciliamos. Daí veio, da parte dela, a ideia de conceder uma placa... Ah! Vejam vocês, leitores, os amigos que homenageamos e uma justificativa pra lá de resumida:

Maria Eugênia e Luiz Chafin


Da Música e afins
: Luiz Chafin (denominador comum no meio musical da cidade, nos últimos anos); Maria Eugênia (musa ou sereia? Voz maravilhosa!); João Marcelo (grande cantor e compositor, amigo de décadas);  Joaquim Jaime (maestro, guru e mentor de orquestras); Tânia Cruz (musicista, professora e abnegada formadora de artistas); Juraíldes da Cruz (genial compositor, cantor premiado, alma das nossas raízes); Vera Bicalho (bailarina, professora, mentora e alma do Quasar, o “nosso” balé); Carlos Brandão (sintetiza o valor do músico goianiense! Meu ex-aluno no Liceu, parceiro de quase todos os compositores desta terra, despojado e simples, embora tenha rompido as distâncias oceânicas).

Carlos BrandãoM. Eugênia e João MarceloJoaquim JaimeJuraíldes 


Das Artes Plásticas: Roosevelt de Oliveira (Ross é um dos mais perfeitos artistas do pincel e das cores; embelezou alguns dos meus livros com capas marcantes e belas); Gomes de Sousa (nome de respeito neste segmento; ao lado de M. Cavalcante, embeleza a sede do Legislativo goianiense com expressivos paineis, um deles com retratos de artistas locais, eu inclusive); Evandra Rocha (intérprete das cores das flores, vocacionada para a harmonia e a paz; uma líder).

Evandra Rocha RossGomes de Sousa


Da  Vida Acadêmica: Horieste Gomes (fui seu aluno na Católica; o mestre simboliza, aqui, os meus professores de todos os tempos na cidade); Rosary Esteves (professora de fotografia dos jornalistas que passaram pela UFG).


Das Letras: Maria Helena Chein e Lêda Selma (poetisas, contistas, professoras; amigas de altíssimo conceito no meu coração poeta); Eurico Barbosa (você precisa de alguém para chamar de amigo? É ele!); Marcos Caiado (poeta, marchand, ativista cultural, inquieto e irreverente).


Do Teatro: Hugo Zorzetti (autor, ator, diretor etc.; em Hugo Zorzetti, simbolizamos os feitos de Otavinho Arantes, João Bênnio e Cici Pinheiro).
UlissesBenevides



Do Jornalismo - Benevides de Almeida (o tipo humano que melhor representa um repórter; aprimoro esse conceito em trinta anos de convívio); Ulisses Aesse (dos poucos profissionais em dedicação integral e exclusiva ao ofício da notícia); Doracino Naves (produz e apresenta o programa Raízes – Jornalismo Cultural, na TV Fonte e já dispõe de importante acervo de personalidades e ideias dos fazedores de arte em Goiás); Nilson Gomes (irreverente, humorista, curioso, leitor compulsivo de qualquer coisa, jornalista inato).

In Memoriam: Belkiss Spenciere Carneiro Mendonça – A nossa musicista eterna, símbolo maior de todos os artistas de Goiás. Estrelizou-se (como diz Leda Selma) em 2005, mas não morreu. 

Antônio Cupertino e Celestina Pereira, filhos de Luizita, com Célia Valadão e L.deA.

Luizita Pereira Craveiro –Simbolizo nela meu tributo aos familiares. Coração imenso, bondade de mãe, somos dezenas a lhe dever tanta graça, desde o apoio e o estímulo que resultaram em alguma forma de crescimento, até a orientação infalível para as realizações imediatas.  Deixou-nos em 1989, ficando um grande vazio nos nossos corações (no de Celestina, especialmente).


Especial: Kleber Branquinho Adorno (Poeta, acadêmico, presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás, secretário Estadual de Cultura, três vezes secretário Municipal de Cultura, professor; mas, principalmente, empreendedor dos mais expressivos projetos de cultura, como as coleções literárias que, no último evento, totalizaram 136 novos livros, além da “Revirada Cultural” que produziu mais de 1.200 eventos em apenas um mês.


Vereadora Célia Valadão e o secretário Kléber Adorno


* * *


Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. 

sábado, setembro 11, 2010

A língua por ofício

A língua por ofício


Manhã de todos os dias, segunda a sexta; pareço o marido da piada, que não abre mão do controle remoto da tevê. Jornal de manchetes numa, tanto no local quanto no nacional; mundo-cão goianiense, com ligeiras incursões ao interior, se a notícia contém tráfico, assassinato, estupro, roubo etc.; ênfase total para o futebol.

Um bom momento é a interferência de Alexandre Garcia a analisar fatos. Esta semana, ele foi excelente ao comentar a expansão do poder de consumo das classes “menos favorecidas”, mas destacou a questão da educação. E o fez muito bem, lembrando a Constituição de 1988 e o voto do analfabeto. Um vacilo oficial: deu-se ao analfabeto o direito de voto, quando o certo seria dar ao cidadão o direito à leitura e à escrita, permitindo-lhe o crescimento pessoal em suas várias nuanças.

Estendendo o comentário, Alexandre Garcia lembrou que, em 2006, a nação brasileira concedeu apenas 2% de seus votos ao candidato à Presidência da República que tinha a educação por bandeira (o senador brasiliense Cristóvão Buarque). E fez referência aos analfabetos funcionais – que uma jornalista conceituou como quem apenas desenha o próprio nome. Alexandre foi mais exato, sem ditar explicitamente os que sabem ler as palavras escritas mas não entendem o que lêem;  falou em “gente que não sabe a diferença entre isso, isto e aquilo”.

Acabei de acordar: tenho batido nessa tecla há anos! Ao definir assim o analfabeto funcional, Garcia atingiu pelo menos nove entre dez de seus colegas de tevê, sejam eles jornalistas (repórteres, âncoras, produtores, apresentadores etc.), atores e tantos mais quantos sejam os que aparecem na telinha. O mesmo acontece com os de rádio, e ainda (lamentavelmente) com os da escrita. Dia desses da semana passada, chamada de primeira página de um jornal diário continha cinco erros graves envolvendo ortografia, regência e concordância, em menos de quatro linhas em uma só coluna – o que deixa qualquer estilo sem qualidade alguma.

Oradores políticos e acadêmicos, em qualquer ambiente, resolveram adotar falas “politicamente corretas”, com um novo e antipático vocativo – “todas e todos”. Lembra o Sarney, quando presidente, dirigindo-se a “brasileiras e brasileiros”. Prefiro as falas de Getúlio Vargas, que se dirigia aos “trabalhadores do Brasil”. Sem se preocupar com desempregados e vagabundos, o vocativo do velho caudilho gaúcho (parece que caudilho gaúcho é redundância, não?) era um apelo para que todos trabalhassem.

Esse “todas e todos”, porém, não é doença brasileira, não. Recebi uma gravação em voz feminina, enviada pelo poeta Rubén Cesar Reyna (argentino) em que a locutora tenta ensinar que “todas e todos” exclui pelo menos os “gays” eventualmente presentes na plateia, bem como lésbicas, transexuais etc. e tal. E daí a moça descamba para outra anomalia que eu pensava ser nacional – inventar uma forma feminina para palavras terminadas em “ente”, “ante” e outras parecidas. Lá, como aqui, andam dizendo “presidenta”, violando as regras do bom castelhano, tal como se estupra aqui o bom português. A moça exemplifica dizendo que ninguém fica “dementa” nem se é “estudanta”, muito menos “eleganta”. Aproveito a rima e chamo de anta (com licença do maior mamífero da América do Sul) quem assim tenta mudar a língua pátria.

Na tevê e no rádio, no Brasil, nossos colegas confundem isso e isto, falam circuito como se escrevêssemos cirqüito (com trema) e fazem uma salada de salmão com feijão preto cozido e arroz-doce quando se trata de regência e concordância; isso é exclusividade dos jornalistas esportivos, principalmente os que têm salários maiores. E aí, a raia miúda, formada dos mal-pagos e maus estudantes, os que se formaram com vistas apenas a analisar jogos de futebol, seguem os “mestres” como se estes tivessem a envergadura de um Celso Cunha ou um Evanildo Bechara.

Por estas e outras críticas, já fui alijado de alguns canais de informação daqui e de outros cantos (as pessoas com preguiça de estudar têm muito tempo e disposição para a vingança). Mas não gosto de cantor fanhoso nem instrumento desafinado, logo dispenso, também, os que vivem da voz e das escritas e não respeitam o seu principal instrumento de trabalho (e de sobrevivência, pois). Daí o meu aplauso a Alexandre Garcia, que sabe onde está a ferida e não receia remover a casca necrosada.

Espero que as direções das emissoras tenham mais critério ao escolher profissionais, preferindo os que tragam melhores qualidades do que apenas “animar uma galera”. E que, uma vez empregados, esses profissionais tirem tempo para se aprimorarem no conhecimento da língua, bem como na dicção, já que vivem disso.

Célia Valadão e eu


Finalizo convidando os amigos, especialmente os leitores, para a solenidade do dia 16 próximo, na Câmara Municipal de Goiânia, quando receberei da vereadora Célia Valadão um título que me é muito valioso: o de cidadão goianiense. Afinal, vivo aqui há 47 anos...


* * *


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. 

quinta-feira, setembro 02, 2010

Academias e acadêmicos


Academias e acadêmicos



Agosto, 2010. Um mês de marcas fortes, como os ventos e, nos rincões sem boa cobertura de vegetação, os redemoinhos que erguem aos céus um cone giratório com muita, muita poeira e dejetos, tal como se vê. Mas as avós do meu tempo infante contavam coisas de horror, como o Saci que viajava nos redemoinhos e induzia crianças às peraltices (ou traquinagens; as avós tinham um vocabulário engraçado...). O Saci costumava, com isso, levar as crianças a situações embaraçosas. Era preciso ter muito cuidado, o melhor a se fazer, quando desses ventos giratórios que manchavam o céu de tons avermelhados, era proteger-se em casa.

As plantas de cerrado estão pálidas, como que tristes. Algumas enviam muito ao fundo as raízes, buscam água para preservar o verde das folhas, mas a poeira teima em tingi-las de ocre. Amarelo de ipê, tons de cores várias de primaveras ponteiam na paisagem. Mas nada de chuva, ainda! O ar, dizem na tevê, contém apenas entre 10% e 15% de umidade.

Peles ressecadas, narinas e olhos ardentes. Mas é sábado e é manhã, pego a estrada. Acompanho o poeta Gabriel nascente, o desembargador e acadêmico Ney Teles de Paula, o jornalista e também membro da Academia Goiana de Letras Hélio Rocha. Em Piracanjuba, os membros da Academia Piracanjubense de Letras e Artes preparam uma recepção carinhosa para o imortal Domício Proença Filho, da Academia Brasileira de Letras. Domício chegou na véspera, veio com a esposa, a professora Rejane Godoy; falou a juristas, no Tribunal de Justiça, e demonstrou, com competência, o indispensável elo entre a literatura e o texto das leis e do ofício das leis.

O imortal Domício foi ciceroneado pelo presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Paulo Teles. É agradável, para as pessoas das letras, os novos fatos que marcam o nosso Tribunal: eventos literários, exposições de arte e de fotografia, muitas novidades nos campos da informática e do aperfeiçoamento funcional e profissional, novos e expressivos itens de melhoria pessoal dos servidores – essas coisas que se resumem em “qualidade de vida”. O líder de tudo isso é o presidente Paulo Teles, que entusiasma os colaboradores e proporciona, aos magistrados da mais alta corte, com reflexões valiosas em todo o Poder Judiciário, o bem-estar a que fazem jus.

Na terra de Léo Lynce, João Acioli e Ney Teles, a presidente da Academia local, Gláucia Maria da Cunha e Silva Souza, tendo ao lado a presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Piracanjuba  (AFLAP),Sandra Maria Pereira de Araújo, chamou a professora Neidia Maria da Costa, da Escola Serra Negra, na zona rural do município, e os alunos Marcela dos Santos Machado (de oito anos) e Márcio Vinícius Gonçalves Ribeiro (treze anos) para uma apresentação. A menina declamou um belo poema e o garoto contou um “causo” do saudoso Geraldinho de Bela Vista, ambos com excelente desempenho.


Hélio Rocha, Des. Ney Teles, L.deA., Domício Proença Filho, 
Gláucia Maria, Des. Paulo Teles e Gabriel Nascente


Ex-prefeito e presidente da sociedade dos orquidófilos, Wilson Borges, benemérito da APLA, destacou-se entre os conterrâneos, os acadêmicos Pedro de Paula Borges, Marlene Iris Pontes, José Divino Alves, Laeste Antonio de Souza, Valdir Brasil dos Santos e Ney Teles de Paula, além de Marilene Ferreira Alves, Maria de Fátima da Silva Marçal e Zuléia Maria da Silva (da Academia Feminina). Foi Wilson o líder político que, atendendo aos apelos dos intelectuais da cidade, concedeu à Academia a sede definitiva, possibilitando, desde então, o seu crescimento, o seu constante papel no processo de aprimoramento da vida intelectual de Piracanjuba. Um exemplo a ser seguido, é certo!

Na véspera, tal como informei neste espaço na semana passada, também a Academia de Letras e Artes de Caldas Novas promoveu um momento festivo. Um grande evento para registrar o vigésimo aniversário, com homenagens especiais a dois dos decanos da entidade: Israel de Aquino Alves (meu pai) e Maria Isabel de Albuquerque Lima.

Também os membros-fundadores da entidade, hoje em número restrito, foram agraciados com uma placa. A escritora e acadêmica Marília Núbile, de atuante participação no esforço de restauração da ALACAN, disse-me ter sido, sem dúvida, uma das mais belas festas já realizadas em Caldas Novas. O evento teve o apoio da Câmara Municipal, mas de minha parte devo dizer que, do Poder Executivo, somente Antônio Sanches, prefeito à época da fundação, foi o único a enxergar algum valor na iniciativa, ao contrário do que se vê em Piracanjuba.

Impor-se no cenário de Caldas Novas é um desafio para o presidente atual, o acadêmico Francisco Albery Mariano, e os idealistas Marília Núbile Barros e Alejandro Mejia. Nós, os remanescentes das primeiras iniciativas, sentimo-nos derrotados pelos que, convidados mas desprovidos do espírito das artes, decidiram por usar um nome e uma marca apenas para compor currículos.


* * *


Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.

sexta-feira, agosto 27, 2010

De Gomes Filho e Domício Proença Filho

De Gomes Filho e Domício Proença Filho


Aprendi com as leituras que o abraço é o gesto mais próximo da definição ideal das relações humanas. Ao abraçar alguém oferecemos uma energia e recebemos o mesmo da pessoa que nos motivou. Então, um abraço é troca. E o valor dessa troca está justamente no fato de que cada corpo, de qualquer natureza, é portador de energias próprias.




Eu e Dona Nenzinha



Sendo assim, esclareço essa foto: a bela senhora que eu abraço, e que me devolve o carinho em tempo e densidade simultâneo e equivalente, é Dona Nenzinha, viúva do agora centenário Professor Gomes Filho (para os goianos com mais de meio século, recordo que é o mesmo que marcava presença em todos os números do “Café de Esquina”, o suplemento de humor do semanário “Cinco de Março”).

Preciso contar, porém: a Prefeitura de Pirenópolis, por sua Secretaria de Cultura, resolveu homenagear pirenopolino ilustres. Nesse propósito, o casal Ita e Alaor Siqueira, tradicionais violinistas seresteiros, estrearam a série. Em seguida, foi a vez de Pérsio Forzani, o pintor da cidade e de seus casarões históricos. Depois, meu pai, Israel de Aquino Alves, quando de seu aniversário de 88 anos. E então, por palpite meu, marcamos para 20 de agosto, sob um luar impecável, a três noites do plenilúnio, para reverenciar a memória de Joaquim Gomes filho.

Regina Jardim e Luiz Antônio


Gomes Filho (foto ao lado) é meu padrinho literário. Orientou-me quando da edição do meu livro de estréia, O Cerco e Outros Casos (1978) e estreou comigo nesse livro, redigindo o prefácio. E assim, com as presenças de Dona Nenzinha (Reginalda Fleury Gomes) e suas filhas Ana Maria, Helena e Maria Helena,  realizamos o sarau, com os músicos Zezé Catirina, Jerônimo Forzani, Sérgio de Almeida Prado e Luiz Antônio Godinho. Registre-se ainda a voz marcante, afinada e bela de Regina Jardim, da estirpe de Veiga Valle (o santeiro meia-pontense que se mudou para a Capital Vila Boa e deu origem às famílias que ostentam seu sobrenome).

Regina Jardim e o Regional


Coube-me o privilégio de conduzir o evento, e contei com as falas enriquecedoras do vereador Manoel Inácio d’Abadia Aquino e Sá Filho (o nosso Eli de Sá) e do secretário extraordinário e ex-prefeito Altamir Mendonça. Lembrar a vida de estudos e trabalho do velho mestre, suas atuações como deputado constituinte (1947/51) e seus impagáveis trocadilhos rendeu lembranças, saudades e muito riso. Daí o estímulo para esse abraço carinhoso em Dona Nenzinha.

L.deA., Dona Nenzinha e Eli de Sá

A semana reservou-nos mais, muito mais. Na quarta-feira passada, 25, o Conselho Regional de Medicina deixou de lado suas funções ásperas de guardião da ética e das correções legais da prática médica e promoveu um lançamento múltiplo – nada menos que quinze médicos escritores autografaram livros, numa noite memorável. Entre eles, o presidente da Academia Goiana de Letras, Hélio Moreira, e o estreante Alejandro Mejia, que clinica em Caldas Novas há mais de uma década. Uma festa quase impecável, com justo tributo ao falecido Carlos Fernando Magalhães, mas faltaram reverências a Fausto Rodrigues Valle, um dos mais expressivos poetas goianos (embora nascido em Araxá, Minas).

Em meio a tudo isso, os eventos da Revirada Cultural promovida pela Secretaria Municipal de Cultura (de Goiânia). São cerca de quarenta eventos todos os dias, desde balé e acrobacia até comícios poéticos. Uma pena que a mídia local e os órgãos oficiais de turismo não reconheçam esse esforço de centenas de artistas de elevada qualidade!
Na sexta-feira, 27, o poeta Gabriel Nascente, recém eleito para a Academia Goiana de Letras, recebeu, com o apoio de outros escritores, Domício Proença Filho , da Academia Brasileira de Letras. O imortal veio falar sobre literatura e direito, no auditório do Tribunal de Justiça do Estado. No sábado, foi homenageado na Academia Piracanjubense de Letras e Artes e, de lá, foi conhecer e curtir as termas da região de Caldas Novas.

Ah, e para concluir! Também na sexta-feira, 27, a Academia de Letras e Artes de Caldas Novas festejou, com pompas e honrarias, seus vinte anos de existência. (Parece que foi ontem!).



* * *



Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.



quinta-feira, agosto 19, 2010

Chorinho e civilidade


Chorinho e civilidade



Eu e a cantora Karine Serrano no calçadão do Grande Hotel





Era 1984 e o Brasil se agitava: queríamos as “diretas, já!”, que algum redator publicitário achou lindo divulgar sem pontuação: Diretas já. Para mim, a grafia não passava a emoção que o momento espalhava, mas… Certa noite, como repórter da Folha de Goiás, fui cobrir um movimento no centro de Goiânia; um secretário da Comunicação do governo estadual e seu chefe de gabinete colavam cartazes no coreto da Praça Cívica. Disse eu ao chefe de gabinete que deviam poupar os prédios e monumentos públicos, que aquilo parecia coisa de vândalos. O homem, orgulhoso de ser da esquerda, respondeu-me enfático:

- Aquino (não gosto de ser chamado pelo sobrenome, mas uns poucos ainda insistem nisso), democracia é isso, é tudo sujo. Cidade limpa é do facismo, não vê nos filmes? Berlim...

- Kremlin... – acrescentei.

Sexta-feira, 13 de agosto, calçadão do Grande Hotel: o secretário Kleber Adorno cumpria uma promessa feita a mim e muitos outros “chorões”, levando de volta as rodas de instrumental e vozes de finíssima música popular. Em pouco, o trecho entre a Rua Três e a extinta Praça do Bandeirante era todo tomado pelos sons de harmonia e doçura, além de centenas de pessoas. Um moço cuidava de uma caixa de isopor e aproximei-me, queria uma latinha, já trazia cinco reais na mão. O rapaz respondeu-me que era de “uso particular” e agradeci, pedindo desculpas. Ao me voltar, deparo-me com a candidata que prega democracia mas tenta censurar jornais, como Chávez faz na Venezuela. A moça, que usa a mesma sigla do chefe de gabinete do evento de 1984, acabou de tomar uma cerveja e, sem qualquer cuidado, jogou a lata no chão. E quer ser governadora.

Deixo tudo pra lá. Atravesso a pista, paro no canteiro central onde, na década de 1970, reuniam-se intelectuais diante do Grande Hotel. Olho a parede térrea, recordo as inúmeras lojas instaladas: a Vasp, duas filiais da livraria do Paulo Araújo, a agência de turismo do Valdir Frausino, o “Enroladinho”...

Diante das lembranças, nenhum lugar seria mais apropriado para curtirmos chorinho. Talvez a gente consiga, em breve, realizar retretas no citado Coreto. Lembro os tempos de tantos sonhos, as conversas com João Batista Zacariotti, Carmo Bernardes, Aidenor, Brasigóis e tantos, tantos mais; no final daquele década, Taylor Oriente voltou de Paris e uniu-se ao grupo. Roberto Fleury Curado e eu preparávamo-nos para estrear em livro.




Por falar em livro, já notaram que algumas vezes ganhamos mais de um exemplar do mesmo livro, ofertado pelo autor, com autógrafo? O carinho é retribuído não só pelo retorno de algum exemplar de obra nossa, mas pelo ato de preservamos o livro,que se faz personalizado, na estante. Recentemente, Leda Selma dizia que a estante lhe ficava pequena e os livros em duplicata ocupam lugar que poderia abrigar outra obra. Estiquei o assunto com amigos escribas e leitores, todos pensam da mesma forma e quase todos indagam:

-  Fazer o quê? Não vamos abandonar um livro nem menosprezar o autor por um lapso perdoável de memória.



Bem, nem todos os escritores têm esse comportamento. Aprendi com Anatole Ramos e, por longo tempo, visitava sebos e manuseava livros de autores conhecidos. Encontrei dezenas, centenas até, de obras autografadas, com dedicatórias carinhosas que algumas pessoas desprezavam. Da minha própria lavra, comprei dezenas de exemplares. Mas comprei também autógrafos de autores amigos; presenteava-os com tais livros, mostrando-lhes os leitores que não davam valor ao autógrafo. Leda Selma, ela própria, publicou uma crônica, em 1992, desancando um escriba local que vendeu, num sebo, livros que ela lhe dera dias antes. O poeta perdeu a eleição para vereador e adotou uma nova técnica: passa o estilete na página com autógrafo e continua a vender os livros que ganha – assim, não precisa de mais espaço em casa, mantendo sua biblioteca com menos de mil exemplares.

Relíquia: autógrafo de José J. Veiga


Um outro amigo, escritor, disse-me ter solucionado a questão das dedicatória dobradas:

- Se tenho livro repetido, recorto a página de autografo, guardo-a dentro do livro que contém a data mais antiga e presenteio algum amigo. Assim, preservo a honraria e ajudo o autor a divulgar seu trabalho.


 
Doracino Naves, Marley C. Leite e Kléber Adorno


Volto ao Grande Hotel (que, agora, é nosso, é da cidade) e mando beijos para a Márcia e a Marley, duas ferrenhas defensoras daquele festival de choro e de saudade.


* * *



 Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.  E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.