Flipiri
– o autor na lateral
Na noite de quinta-feira, 3, deu-se a abertura da IV
Flipiri – Festa Literária de Pirenópolis. O evento vem se realizando, pois,
desde 2009, promovido por uma empresa de Brasília e, embora conte com o apoio pleno da Prefeitura, os autores
goianos vinham sendo discriminados: não foram convidados para a primeira festa;
na segunda, incumbiram-me de formar um grupo para atuar no evento, e o fiz
(nosso evento ficou isolado na programação, sendo o último item do programa, no
mesmo horário em que se procedia à apoteótica sessão de encerramento, noutro
local; na terceira, houve um convite para participarmos de um momento de
autógrafos – sob o sol das onze horas, à sombra tórrida de uma tenda ao lado de
onde se montou a livraria – exclusiva dos promotores, cobrando dos autores
goianos uma comissão de 50%. E a participação em debates, como o que fizemos
sobre a vida e obra de José J. Veiga, bem como de um sarau. Este ano...
Este ano o convite para a participação enfatizou apenas
o evento das 11 horas de sábado, dia 5. O convite, na voz do secretário de
Cultura do município, ao telefone, veio com o regozijo por terem conseguido
patrocínio da Petrobrás. Na contracapa do folheto com a programação, constam
ainda patrocínios de Governo de Goiás, por alguns de seus órgãos, bem como do
BNDES e dos Correios. Mas não se fala em remuneração aos autores locais, nada
de aquisição de livros... Ao que fui informado, livros adquiridos só mesmo os
indicados pela promotora do evento – mas há rumores de que tais livros não
chegam às escolas, ainda que adquiridos na proporção de um livro por aluno – e
por titulo – porque a Prefeitura não os encaminha. E goianos não vendem livros
lá. A não ser a venda de mão em mão.
Não se inserem goianos na “itinerância”, que é o ciclo
de palestras nas escolas. Essa função é da exclusividade dos autores que
integram o grupo da promotora, mas também estes são vilipendiados: seu cachê é
da ordem de R$ 100,00 por palestra, o que rende a um autor, ao longo de seis
dias, algo próximo de R$ 600,00 (pagos com atraso de meses). Mas autores de
projeção nacional, estes são pagos na razão de R$ 2.000,00 e até mais por
palestra! Goianos, não. (No ano passado, Elisa Lucinda foi gratificada com R$
10 mil por apenas uma palestra e exigiu que só daria um autógrafo por pessoa,
para não estender o tempo de permanência previsto em contrato).
Por essas razões, embora meu nome já constasse da
programação, ao lado de outros escritores goianos, sem mesmo termos sido
consultados antecipadamente, respondi que não compareceria. Mas, à última hora,
fui designado pelo acadêmico Getúlio Targino Lima, presidente da Academia
Goiana de Letras, para representá-lo e a entidade no evento de abertura. Fui.
Fui, mas não participei. Retirei-me do recinto da solenidade
nos primeiros minutos. Um jovem bem apessoado, muito bem vestido, desconhecido
e desprovido de condições mínimas para a função, fazia o cerimonial. E tentou
pronunciar “Pirenópolis”, só o conseguindo na terceira arrancada. Depois, referiu-se
ao vigário católico como “parôco” (pároco). E, ao anunciar o representante da
Academia Goiana de Letras, acertou apenas no nome da entidade: definiu que a
primeira partícula do e-mail de
Getúlio Targino era o nome do presidente da AGL e que seu representante seria o
próprio.
Dirigi-me ao prefeito, reclamando da confusão que o
apresentador fazia. Ao lado do alcaide estava a moça promotora do evento. Ouvi
de Nivaldo Mello que “ele não é daqui, não sabe nada de nós”, mas isso não
satisfazia: o moço é, no mínimo, um analfabeto funcional – mas ganha a vida
como se profissional fosse.
Aos autores, nada!
Retirei-me, sob as tentativas de José Mendonça Teles e
Aidenor Aires para que não o fizesse. Recusei-me a legitimar aquela pantomima.
Se o moço é despreparado, a culpa cabe a quem o contratou. E não foi a primeira
vez que, lá mesmo em Pirenópolis, ouvi apresentador chamando padre de “parôco”
e complicando-se ao ler nomes próprios.
Finalizando, reproduzo a seguir trechos da fala da
ministra Ana de Holanda no Senado da República, há poucos dias, sobre o
tratamento que se dá aos autores no Brasil:
“Eu fico assustada quando vejo uma campanha pelo
retrocesso em relação a essas conquistas. Essas campanhas sempre partiram dos
grandes grupos econômicos, como agora também, em que estão fazendo uma
campanha. Não, não! O autor... O autor não vive de vento; o autor vive do seu
trabalho; ele escolheu essa profissão; estudou para isso; ele vive do seu
trabalho. Quer dizer, podemos pensar, sim, temos que pensar no consumidor. E o
autor não faz nada para pôr na gaveta, é claro. O criador faz para mostrar,
para apresentar, para entregar ao público. Então, é fundamental que ele tenha
acesso, seja pelos meios de comunicação tradicionais, seja pela Internet, seja
pelos meios digitais mais modernos, mas ele tem que viver do seu direito
autoral”, ressaltou.
“Muitas vezes me acusam de ser uma pessoa presa ao
passado. Não, não sou presa ao passado. Eu sou presa aos direitos conquistados
com muita dificuldade, ao direito à dignidade, às conquistas e direitos
sociais, trabalhistas e humanos que existem” (Ana de Holanda, ministra da
Cultura).
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