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domingo, junho 07, 2015

A vida em nova fase

A vida em nova fase

Ao crepúsculo, em véspera de Lua Cheia, a casa branca ganha um tom suave de laranja. 

Depois de uma semana, eis que consigo dormir até as 8 horas. Foi muito estranho... Desde os tenros anos vivendo no turbilhão dos sons urbanos, eis que me vejo morador na paz do campo, com o canto dos pássaros nas horas de Sol e o silêncio quase total na madrugada (revivo o desejo das saudosas serenatas!). Nas primeiras noites, acordei entre as 3 e as 4 horas, estranhando o silêncio. E os primeiros albores despertavam-me de vez.

A casa, como tal (o espaço físico), é-me, já, o recôndito (essa é antiga!) do lar, meu doce lar. Ocupo-me de incontáveis pequeninos problemas, como uma torneira que não funciona a contento, algo de irregular na boia da caixa d’água, a regulagem da temperatura do chuveiro – coisinhas prosaicas de que não trata a nossa vã cinegrafia.

Recordo momentos mil dos últimos seis ou sete meses, desde os primeiros passos na burocracia do financiamento até o girar das chaves nas portas, o fechar das vidraças, a verificação das luzes... Empacotar livros e louças, utensílios mil de qualquer família, o exercício físico que nos estressa e causa alegria, o desfrutar das novas paisagens e o deslocamento constante ao centro urbano e as breves viagens a Goiânia...

Muita gente atuou (e atua) neste concerto de atividades e ações – a começar pela Taíssa, sobrinha arquiteta, planejadora e conselheira, pelos amigos da Caixa Econômica (Alex Siqueira em especial, mas sem me esquecer dos gerentes de negócios e tantos outros de contato).

Viajo uns meses mais no tempo, ou seja, a um passado maior, ainda que igualmente breve – o momento em que conheci o engenheiro Jonathas Carvalho. Ele acolheu minha proposta, abraçou a ideia e envolveu seu sócio Paulo Moura na causa – e, no caso, na casa – e logo, logo vi uma equipe de trabalhadores em ação, demarcando, rasgando o chão, ferindo-o em profundidade, fincando colunas de concreto e aço, aplicando armações metálicas, finalizando a estrutura; depois, a vedação, o aterro, o revestimento, as instalações... até o acabamento e os instantes a que me referi linhas atrás.

Elevo meu pensamento em ato de gratidão. Correu tudo bem, as coisas se deram a contento e pudemos nos mudar, Mary Anne e eu. Lucas não pôde, fica em Goiânia em função da universidade e do estágio, e a aventura da construção envolveu, de modo melhor, também os filhos mais velhos – Élia Maria, Léo e Fernando. Ah! E ainda tive o pequeno Gabriel, o segundo dos meus dois netos, como um dedicado fiscal de obra (o primeiro, Luiz Henrique, ocupa-se por demais com o trabalho e os estudos).

Em suma, é isso – vida nova em casa nova, muito o que fazer e solucionar, muito o que agradecer e referendar. Hoje, se alguém se arrisca a essa interessante experiência, fale comigo, pois tenho muitas dicas a dar. Especialmente no que se refere a indicar e recomendar os profissionais que me atenderam e citei acima, entre outros igualmente importantes e eficientes.

Deus lhes pague!

* * *

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da  Academia Goiana de Letras.


Proseando com o poeta


 







Salomão Sousa escreveu um belo poema, entre tantos outros belos, sob o título “Dar-se aos pregos e às léguas”. Deliciei-me das fincadas e andanças do vate da histórica cidade de Bonfim (que o mau-gosto de uns poucos, há mais de meio século, transmudou em Silvânia, sem que a bucólica cidade perdesse o encanto). Ele encerrou o poema com essa estrofe:

“...
perder-se para nascer
nas flores e nos olhos da terra
não ser o ferrolho inchado
o caruncho na madeira das íris”.


Falei-lhe do meu encanto, e ele retrucou, em mensagem fraternal: “As nossas viagens são as mesmas, com as mesmas íris e o mesmo sol, o mesmo terreiro de chão goiano. O difícil, para nós, é abrir porteiras para fora de nosso rincão. Vamos manter viva a nossa infância, senão perdemos a nossa rebeldia”. Perdemos, não, poet’irmão! Não a perdemos, pois exercemos essa teimosia de menino birrento, daqueles a quem os castigos da sobremesa não atingem, porque havia os quintais de múltiplas frutas, nem o cerceamento da liberdade por algumas horas, porque os córregos da meninice estavam ali, “de grito” (*); a toxina dos defensivos ainda não exterminara as piabas que colhíamos em anzóis miúdos, em linhas curtas de varas de bambu. Nosso grito de pirralhos embirrados ecoa não no espaço entre paredões, mas na lonjura do tempo que enevoa nossos cabelos e esturrica nossas peles.


E que revéis, somos nós! Crescemos sob o tacão de um regime duro e cruel, mas não esmorecemos; não nos dobramos, como os caniços que nos valiam por varas de pesca, mas não enraizamos tanto que a ventania nos arrancasse do chão benfazejo. Altivos e livres, fechamo-nos por horas em leituras perigosas, mas capazes de nos fazer cidadãos. Cidadãos poetas, porque sem poesia não há liberdade (que o digam Agostinho, de Angola; José Martí, de Cuba; Federico G. Lorca, o espanhol; e Castro Alves, o nosso).

Vimos Godoy Garcia, José Décio Filho, Ieda Schmaltz e Afonso Félix de Sousa a gritar por nossa gente ante o arbítrio; vimos José J. Veiga e Bernardo Elis a prosear coragem na escuridão ante as idéias não permitidas. Deles herdamos a bússola dos inquietos, dos insatisfeitos e insurretos.

Temos sangue, Salomão, para a justiça decantada, sonhada e mal exercida; sangue que tinge nossos solos e põe sal no nosso suor de andarilhos das letras. Deixamos que os dias polvilhem de lembranças nossas almas doces e ingênuas, mas bravas o bastante para não se curvar. Temos as cores das areias da Serra Dourada, o vigor das pastagens na vertente do Piracanjuba e o calor termal da Serra de Caldas, acalentado em serenatas de Pirenópolis e dourado de pôr-do-sol de qualquer paragem Goiás. Comemos pequi e genipapo, ingá e guapeva; bebemos cachaça quilombola; dançamos pagode de roça, dançamos catira e, se deixarem...

Bem, se deixarem, contamos histórias de medo ao fogo do borralho, em noites de chuva. Mas não deixamos, não mesmo, de cantar poesia. Como não se fazer poeta sob o céu deste Planalto do cerrado, siô?

* * *

(*)Notas do autor: (1) “De grito”: expressão do sul de Goiás para dizer “é logo ali”. (2) Esta crônica foi publicada em junho de 2006. Republico-a em nome da nostalgia e da minha admiração ao poeta Salomão.


sábado, maio 23, 2015

Asfixia financeira e tiro-no-pé



Asfixia financeira e tiro-no-pé


Os três primeiros itens dos cortes orçamentários (ou sei lá que apelido os economistas dão a isso) superam 50% dos 69 bilhões e 900 milhões de reais anunciados na última sexta-feira, com a solenidade de quem sobe ao pódio para ostentar uma medalha de ouro. Essas poses, esses anúncios e essas profecias político-econômicas fizeram parte da vida brasileira desde os tempos do tal Milagre Brasileiro (1973). E os planos mirabolantes repetiram-se ene vezes até 1994, quando a equipe de Itamar Franco concebeu e pôs em prática o Plano Real – de que Fernando Henrique adotou autoria, indevidamente.

Vivemos estes vinte anos sob uma certa paz, no tocante à inflação. Houve, sim, muita falsidade, como aquilo de congelar salários de servidores públicos, incluindo-se aí até mesmo os bancários do BB, que é uma Sociedade Anônima. Houve aquele crescimento galopante do valor do Dólar face ao Real, houve as indisfarçáveis negociações interpartidárias para se instituir a reeleição dos executivos (que ensejou o mensalão, criado e mantido pelo sucessor).

Houve os quatro anos primeiros de Dilma – o período maravilhoso que ela diz ter acontecido e que lhe rendeu a reeleição – apertada, na realidade – mas, já nas primeiras semanas, a reeleita revelou-se falsa como uma nota de R$ 3, isto é, mentiu muito e prometeu coisas impossíveis. A confissão se deu nas primeiras semanas após sua “re-posse” e fechou o libelo da campanha estelionatária com o anunciado corte de quase 70 bilhões – sendo R$ 17,23 bilhões (de R$ 31,74 bilhões para R$ 14,51 bilhões, 54%) no Ministério das Cidades, R$ 11,77 bilhões (de R$ 103,27 bilhões para R$ 91,5 bilhões, 11,3%) na Saúde e, ainda, o coroamento do projeto Pátria Educadora - R$ 9,42 bilhões (de R$ 48,81 bilhões para R$ 39,38 bilhões, 19,3%) na Educação.

Enquanto isso, o ídolo da presidente Dilma Rousseff, o presidente venezuelano Nicolás Maduro aprovou na última terça-feira, aumento de 50% para professores do país e autorizou discussões para adiantar contratações da categoria (confira o artigo original no Portal Metrópole: http://www.portalmetropole.com/2015/05/maduro-aprova-50-de-aumento-salarial.html#ixzz3ay3V6mqy.

Desabafo da professora goianiense Heliany Wirta:

– Na "pátria educadora" cortam-se verbas da Educação, retira-se o FIES, espancam-se professores que lutam, retiram-se os poucos direitos dos trabalhadores... Tudo isso num governo que se elegeu com discurso de esquerda e libertário de um partido que se diz dos trabalhadores!

Os economistas sabem muito bem dar nomes ao dinheiro conforme sua origem, sua posse, o modo como é protegido e seu destino. Ele pode ser chamado de faturamento, renda, féria, poupança, produto, salário, jeton, honorário, imposto, arrecadação, receita, juro, emolumento, taxa, poupança, investimento, despesa, propina, gorjeta, gasto, aplicação e muitos, muitos outros nomes mais. O curioso é que a imprensa (nem sempre especializada) qualificou a reduzida verba da Educação como “gastos”.

Até onde se entende, em todo o mundo, os “gastos” da Educação são sempre “investimentos”.

Mas volto ao terceiro parágrafo destas linhas. Os três ministérios mais afetados – Cidades, Saúde e Educação, em ordem decrescente de sacrifício – simbolizam bem o descaso para com a qualidade de vida. O ministro da Fazenda já qualificou a farra com as verbas, no período anterior, como uma “brincadeira”, e foi repreendido publicamente pela presidente.

Resumo de tudo isso: se não foi brincadeira, foi algo muito pior! E a bomba explode no colo de quem provocou isso aí.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Educação, ciência e amor

Educação, ciência e amor


Manhã de sábado, apronto-me para ouvir uma palestra. O tema, “Neurociência e aprendizagem”, confiado à competência da psicóloga Kandy Gifford, especializada em psicologia infantil, pioneira em Goiânia. Ela demonstra, desde as primeiras frases, sua familiaridade com as crianças: as relações em família e em sociedade, as posturas e percepções dos pequeninos – enfim, um conjunto de coisas que entendo ser a Educação Infantil. Convidada (o termo melhor é intimada) pelo neurologista Luiz Fernando Martins, diretor de Ensino e Pesquisa do Hospital de Urgências de Goiânia (foi no auditório do HUGO que se deu o evento), explicou que recebeu o tema mas resolveu mudar o título para “Feridas que não cicatrizam”.

Ora: a Neurociência, diz a Wikipedia, “é o estudo científico do sistema nervoso”. E sob essa definição simples, acha-se a extensão de sua importância como “uma ciência interdisciplinar que colabora com outros campos como a educação, química, ciência da computação, engenharia, antropologia, linguística, matemática, medicina e disciplinas afins, filosofia, física, e psicologia”.

Gostei muito! Uma palestra que precisa ser estendida a professores e pais, os responsáveis diretos pela formação das novas levas de humanidade que em breve, muito breve, traçarão os rumos do mundo e produzirão para assegurar a vida e sua qualidade, a sobrevivência e sua conveniência. Educação, enfim – um item tão desprezado pelas autoridades nacionais nos três níveis de governo.

Kandy Gifford falou das vantagens e das inquietações do pensar e enfatizou que “o nascedouro do aprender está na relação mãe-bebê” (como sou goiano e antigo, prefiro neném). Essa frase remeteu-me à Encíclica Mater et Magistra (Mãe e Mestra), do Papa João XXIII, divulgada ao mundo católico em 1961 (algum ato falhou fazia-me crer que era de um século atrás, mas são apenas 54 anos). E lembra que o segundo passo inclui o pai.

Aprendi muita coisa. É certo que revivi muitos conceitos e aprendizados anteriores, mas muita coisa nova veio a mim, que me orgulho de ser um eterno aluno, um sujeito disposto a acrescentar sempre na minha sempre incipiente sacola de conhecimentos. E a palestrante traz uma riqueza de belas frases, frases eficientes no conceito de criança, no entendimento de pai e mãe – de educadores. E uma que marquei como das mais importantes é: “Agressão verbal faz tanto mal quanto agressão física”, à qual ela acrescenta outras de excelente efeito, como: “Educar é um ato amoroso”, para arrematar com essa máxima chocante: “As feridas da alma não aceitam remédios nem ataduras”.

Anotem aí, leitores queridos, mais algumas:

“A criança é uma pessoa, não uma réplica da mãe ou do pai”

“Estamos com tendência de medicar a vida” – e destaca o modismo de diagnósticos, dos quais muitos são precipitados e, por isso mesmo, inadequados. E ilustra magistralmente: “Tanto se fala em TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)... mas se chegamos a uma escola na hora do recreio, todas as crianças ali estarão com TDAH”.

Os diagnósticos, diz a especialista, devem ser emitidos em análises interdisciplinares. E destaca o quanto é fundamental respeitar as crianças, respeito esse resulta do amor – e finaliza com a frase que absorvi sem disfarçar a emoção:

“Tudo na vida há de ser dosado, contido; mas amar é algo que se pode fazer com abundância. O único excesso que se pode ter na vida é o amor”.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, maio 15, 2015

Educação, no lar e na escola


Educação, no lar e na escola



Por quatro dias, a fuga de um menino de 15 anos e de sua namorada (da mesma idade) – ele de Goiânia, a mocinha de Brasília – tomou conta dos noticiários. Polícia mobilizada, pai e mãe do mocinho chorando diante das câmeras, apelando ao filho que voltasse logo...

Na manhã de quinta-feira, o fujão e seus pais expuseram-se no noticiário da tevê, ao vivo. A mãe e o pai eram só alegria pelo fim da aventura em que o filho decidiu encontrar a namorada pela terceira vez (apenas) e levou consigo o carro da família. O reencontro foi de alegria e felicidade, pai e mãe chorando – mas o menino, indiferente.

O fato é emblemático. Pais, dos que se sacrificam mesmo pelos filhos e, nesse empenho, deixaram de estabelecer limites. Há tempos que o professorado brasileiro reclama das famílias, que agem como quem despeja os filhos nos portões das escolas e esperam chegar ao fim da adolescência como adultos bem educados... Pelos professores!

Não é bem assim. Cabe à família proporcionar essa faceta da Educação que equivale ao respeito que cada qual há de ter por seu próximo – e os próximos mais próximos são os pais e os irmãos, obviamente! Se o aluno chega à escola com uma boa educação de origem, pode-se apostar num adulto apto a se relacionar bem em qualquer nível. Se não...

Uma das evidências da falta de limites ficou clara no fato de o menino pegar o carro. O pai admitiu que ele dirige há alguns anos, por ser apaixonado por carros. Já o namoro teve o terceiro encontro marcado por essa fuga romanesca – e isso parece dizer que também a menina desfruta dessa liberdade precoce concedida por pais sem limites.

Uma boa educação, de casa, implica forjar o cidadão com a consciência de que existe um tempo para cada coisa – e para todas as coisas. Isso de combinarem uma fuga, ainda que com tempo marcado para durar, com o furto do carro dos pais dele e o descaso de ambos para com os pais demonstra o tipo de pessoas que estamos oferecendo ao futuro. Mas, é claro, o que vimos desses pais, mais especificamente dos pais do garoto, deixa claro que também os avós desse adolescente falharam.

E a escola? O que podemos esperar das escolas em que alunos adolescentes chegam armados, ameaçam e agridem professores e funcionários, promovem lutas corporais? Em alguns casos há, também, o apoio dos pais a essas extravagâncias – ou crimes.

Em Goiás, ao menos, sentimos que grande parte dos pais e mães desejam que o governo transfira escolas para a gestão da Polícia Militar, pois assim a disciplina funciona e os meninos se comportam. Mas também é notório que grande parte dos ex-alunos, quando adultos, rejeitam a disciplina militar e as fardas (como acontecia, também, nas gerações anteriores, com padres e freiras impondo o rigor religioso que resultou em solenes ateus, mas com boa base acadêmica e de valores morais).

A escola pública civil, hoje, é povoada, em grande parte, por meninos advindos de famílias problemáticas, com pais e mães (quando os há) sem tempo nem condições psicológicas, intelectuais e mesmo morais de promover a educação dos filhos. E são estes os que põem os dedos nos narizes dos professores, muitos deles abnegados, exigindo que “deem um jeito” nos seus monstrinhos.

O tema é inesgotável, extenso, complexo e demanda muita conversa, muita discussão. Mas algo há que se fazer, e com urgência! No noticiário do rádio, ouço que “se o Brasil oferecer hoje uma boa escola aos estudantes de 15 anos, aproximadamente, em breve terá o PIB aumentado sete vezes”.

Mas... Nem assim! Nem mesmo alegando melhores rendimentos pecuniários, provando por 2+2 ou a+b, conseguimos convencer os governos de que a Educação é o instrumento de solução de todos os nossos problemas.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, maio 08, 2015

Em compasso de mudança






Em compasso de mudança



Há três anos, isto é, em 2012 (era maio, também), eu colhia caixas grandes nos supermercados e outras lojas onde poderia conseguir esses... dejetos. Sim, que o comércio dejeta essas coisas que os coletores de recicláveis juntam com critério. E eu me alistava entre tais coletores, mas com mais critério na seleção, pois procurava caixas em bom estado.

Estou outra vez nesse empenho. E a dedicação volta a ser a mesma, pois tenho de condicionar cerca de cinco mil livros para a mudança de casa, outra vez. Tomara que não faça isso mais vezes – afinal, estou para inaugurar nova fase, abandonando a condição de sexy-agenário para estrear o estágio dos hepta... Septuagenário, corrige-me o dicionário eletrônico.


Aos poucos, transfiro meus livros, uma coleção infindável iniciada há mais de 60 anos, para o novo espaço. Valho-me das incontáveis viagens desde este apartamento alugado até a casa financiada, conduzindo-os como as formigas transportam folhas. Pretendo evitar o que aconteceu há três anos, quando os transportadores despejaram muitas dezenas de caixas na sala, que se tornou um ambiente pós-terremoto (ou tsunami), numa balbúrdia que me ocupou por uns quinze dias, apenas para transpor os livros, um a um, com alguma coerência, para as estantes.

Móveis, roupas e utensílios pouco me incomodam. Mas livros... Os operários de mudanças sabem bem cuidar de louças e porcelanas, de espelhos e mobiliário, de pratos e copos que chegam intactos ao destino, mas tornam-se vândalos-mascarados quando o objeto é livro. Por que o livro desperta tanto ódio, hem?

Durante os primeiros anos da ditadura, os trogloditas autorizados a portar armas invadiam casas, jogavam todas as estantes ao chão, chutavam livros, listavam os de capas vermelhas e os de títulos suspeitos e, na dúvida, estraçalhavam tudo e muitas vezes os queimavam. Foram mais inimigos de livros do que os frades da Idade Média, que cuidaram de ocultá-los dos possíveis leitores para que estes não se contaminssem com as ideias... subversivas. Mas cuidaram de trancafiá-los em arquivos secretos e estes cruzaram o mar das trevas que foi aquele período.

Os inquisidores das décadas de 60 e 70 do século passado, no Brasil, foram mais cruéis com as publicações. E sua ojeriza aos livros contaminou os preguiçosos mentais (hoje mesmo uma ex-colega de trabalho “confessou”-me que não lê textos logos – algo como dez linhas na tipologia do Facebook – e a partir dela entendo que devo perdoar os que rasgam livros por não entender o que alguém quer fazer com isso (os livros). Vai daí, estou eu próprio dedicado a evitar prejuízo como o de 2012.

Num próximo momento, hei de levar também, e já, uma cadeira que minha mãe chamava de espreguiçadeira – estrutura de madeira, que podemos abrir e fechar, com um pano a servir de assento e encosto. E quando estiver distribuindo livros no novo espaço, os momentos de repouso serão curtidos a folhear algum exemplar e, talvez, um cochilo oportuno.

Quem sabe o coador, a rabinha e pó para o café? Ou a geladeira, com algumas garrafas de água de coco – ou cerveja – e um queijo para o tira-gosto? O celular emite e recebe bem, mas ainda não me lembrei de providenciar telefone fixo e banda-larga para a Internet.

Se puder dispor dos itens arrolados (uma “locutriz” da CBN/Rio falou “arraolados”; imaginei que ela pedirá ao redator que troque essa palavra difícil por “elencados” – que eu abomino). Ih, divaguei, mas já volto: se eu tiver os itens arrolados no parágrafo anterior, acho que fico de vez por lá, hem? É que em Hidrolândia a Lua nasce mais bela, os pássaros cantam livres, minhas árvores prometem mangas, abacates, pequis, barus e jabuticabas, e muitas outras coisas de que, eu sei, vou gostar muito!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 

sábado, maio 02, 2015

​Pátria Educadora é isto?


​
Pátria Educadora é isto?



Ah, Pátria Educadora! Sim, esta que sofreu, de imediato, corte de sete bilhões de reais no orçamento, essa cujas universidades federais tiveram de retardar em até um mês o reinício das aulas e passam por agruras indescritíveis. Pátria Educadora que paga mal aos profissionais da Educação, que delega a estados e municípios parte das responsabilidades gerais com a Educação, possibilitando desvios de verbas e que permite escolas rurais funcionando ainda em salas multisseriadas, em taperas de pau-a-pique, sem espaços decentes nem carteiras, sem merenda nem respeito à dignidade de professores e alunos!

Essa Pátria Educadora que organiza o caos na concessão do crédito educativo – o FIES – de modo a não atender a demanda de estudantes pobres, carentes do crédito que pague seus estudos em escolas particulares – e a Constituição determina à União que proporcione o ensino superior.

Uma Pátria Educadora que há duas décadas protela organizar o Ensino Médio, esse período de três anos entre o fundamental e o terceiro grau perdido por ensinamentos desnecessários à vida prática, estressando estudantes com o excesso de disciplinas, tudo com vistas apenas aos vestibulares (agora, o ENEM).

E a Pátria Educadora estimula as escolas de nível médio a castigar seus estudantes com até 12 horas diárias de aulas em sete dias letivos na semana, com mais de vinte disciplinas! Nesta Pátria Educadora, o professor de escola privada é admirado e paparicado, mas se se apresenta como da rede pública, é discriminado e tratado como um pária. Eu sequer devia abordar tal tema.

Toda a nação brasileira e incontáveis localidades estrangeiras acompanharam o tratamento dispensado por governantes aos mestres que tentavam obter melhores salários e condições de trabalho, e o resultado foi o espancamento de professores pela Guarda Metropolitana de Goiânia, que “justificou” a violência por que os mestres não agendaram audiência; e uma batalha sangrenta em Curitiba, com a PM ferindo mais de 200 professores.

Na Pátria Educadora o orçamento sofreu cortes em quase todas os repasses, com ênfase para as obras públicas, a Saúde e a Educação – mas a verba dos partidos políticos foi triplicada!

Como a Pátria Educadora convencerá as nações amigas de que somos uma Nação séria? Esses últimos dias de abril, com o sistemático espancamento e a descarga de bombas de gás de efeito moral, gás de pimenta e balas de borracha visando os professores da rede pública simbolizaram bem o trato que os três níveis de governo oferecem aos Educadores.

É que a ação começou com a administração municipal de Goiânia (PT) espancando professores, continuou com a batalha campal de Curitiba (PSDB) e completou o quadro oferecido pelo governo da União (PT) que, por lhe faltar assunto ou temer as críticas, não houve, pela primeira vez na História deste país, desde 1930, o Dia do Trabalho ocorreu sem o tradicional discurso do Presidente em cadeia de rádio e tevê.

Ela, dizem, preferiu postar três discursos nas redes sociais da Internet...


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.