Páginas

terça-feira, dezembro 08, 2020

No ano que vem, também

 


No ano que vem, também

 

E possível que eu pense outra vez em nós
ou conte até dez antes de fechar a cara.
É possível que eu olhe em teus olhos e jure
não mais ser ranzinza, não mais
te dizer coisas tristes e até
prometa sorrir todos os dias, mesmo antes
de dizer que espera atenções
que não me queres dar.
É provável que eu pense em Deus todas horas,
mas tu não o sabes e nem te quero convencer
dessas coisas tão íntimas, tão minhas
como meus hábitos antes de dormir
ou o que penso e o que gosto de imaginar.

 

É possível ainda, Amada minha, que eu te beije
os olhos de espanto
e sorria mais vezes que de costume.
É possível mais que eu pense em ti com doçura
e te queira bem, um bem maior que só te amar
porque amar é mais meu e te querer bem
é muito de teu.

 

(Minha mãe te manda um beijo
e manda dizer mais que te quer bem e te espera feliz
para o ano que vem. Eu também).


*&*


Poeta Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

domingo, dezembro 06, 2020

Luz

 


Luz

 

São os mesmos meus passos
e meus abraços
não mudaram.

 

São os mesmos meus beijos
e meus desejos
não deixaram
a tua imagem porque
não me encontro
sem que a luz das palavras
tuas
me iluminem.

 

São os mesmos desejos,
os mesmos beijos,
a mesma luz:
só me falta o teu jeito
de me falar de amor.


*&*

 Este poema, lá pelos idos de 1987, foi musicado e gravado em LP (vinil, pois) pelo talentoso e querido Gilberto Correia.

Luiz de Aquino, poeta, da Academia Goiana de Letras.

sábado, dezembro 05, 2020

O verbo tar

Os profissionais da comunicação estão avacalhando cada vez mais a Língua, fato que sempre comento com a professora e escritora Jô Sampaio, que anotou, no JN de ontem, 4 de dezembro: o bamba Willian Bonner trocou "eu" e "nós" por "a gente" umas seis vezes, em cerca de um minuto. E ressaltou o aleijamento do verbo Estar - o que me lembrou da minha crônica publicada em 24 de janeiro de 2016, no Diário da Manhã, Goiânia. 


O verbo tar (*)



A língua é dinâmica – alegam os preguiçosos e os que, tendo obtido (sabe-se lá como) um diploma de Licenciatura ou Bacharelado em Letras -  Língua Portuguesa, reinam em salas de aula como quem atua na feitura de uma nova língua. E já têm um nome para ela – a Língua Brasileira (felizmente, já estarei morto e bem morrido antes que essa coisa apareça por aqui).

Herdamos a língua com suas normas e regras há cinco séculos. Estudiosos (sérios e competentes) fixam no Século XVII (dezessete, para os que dizem “vamulá”) – outros chegam ao Século XVIII – a consolidação do Português como idioma – mas ainda há filólogos espanhóis que dizem ser a nossa língua um dialeto hispânico, como o Galego e o Castelhano. E nós, o populacho mal letrado, chamamos de Espanhol as quatro variantes faladas na Espanha.

Ultimamente, desaprendo o Português ouvindo rádios e tevês (tevê, corruptela para televisão; o simbólico TV, para mim, só deve ser usado nos nomes oficiais – ou marcas – das emissoras). Mas lendo jornais, também. A imprensa, que até há bem poucas décadas era um respeitável repositório da Língua no Brasil, é agora instrumento de deformação da mesma.

Ranzinza? Não... tenho boa memória. E sou do tempo em que jornalistas tinham que saber escrever – ou seja, exposição clara das ideias com bom domínio sobre o texto e a gramática. Era também o tempo em que locutores tinham de ter boa voz e flexionar bem as palavras, respeitando regência e concordância.

Não reconheço na imprensa a autoridade dos gramáticos e linguistas. Jornalistas não podem impor novas regras – como aplicar plural em siglas e abreviaturas, mas jornais e revistas andam cheios de coisas como “PMs, MPs, OSs e ONGs”, entre outras menos referidas. A imprensa não pode – e não pode mesmo – e por imprensa temos jornais e revistas, rádios e tevês – “criar” regras como a próclise em início de frases ou ênclise em verbos precedidos de pronomes, por exemplo – mas lemos e ouvimos muito “Se considera bem informado...” e “que mudou-se para...”.

A imprensa não pode escrever nem falar “as pessoas que eu gosto são especiais”; não pode escrever nem dizer “O posto fica às margens da rodovia” ou “Aragarças, às margens do Rio Araguaia” (ora, se a cidade brasileira ficasse às margens do Araguaia, seria de dois Estados – e do outro lado, bem em frente, está Barra do Garças, importante cidade mato-grossense).

Vem daí essa mixórdia, esse linguajar esdrúxulo que tem como referencial maior um desletrado que lidera o meio esportivo da imprensa, famoso por gritar “Vamulá” e aplicar “Tamujunto” ou simplesmente “Tamosaí”.

E os linguistas sem fundamento dizer ser a língua viva! E Napoleão Mendes de Almeida insistia no estudo e na prática da hoje chamada “língua culta”. Aos que insistiam no domínio radical desse “dinamismo popular” sobre o vernáculo, aconselhava-os a aprender Português com estivadores, feirantes, lavadeiras. 

Era o tempo! Hoje, é comum encontramos feirantes com diplomas, expressando-se com correção, enquanto vemos jornalistas, professores e “operadores do direito” claudicando em regras elementares da Língua Pátria.




*****

(*) Este título, colhi-o da professora e escritora Jô Sampaio, que vê em “Estar” o mesmo processo ocorrido com “Vossa Mercê”  – que virou Você e agora caminha para o simples Cê.


Luiz de Aquino, escritor e jornalista, da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, dezembro 04, 2020

De mãos dadas com a Lua

 

De mãos dadas
com a Lua

 

A pureza das noites
eu as tenho nos olhos
nem sempre brilhantes,
nem sempre lúcidos
mas voltados pra dentro
da minha certeza
de ter teu carinho
nos copos curtidos
de cada rodada.

 

Se eu chegar em silêncio
ao escuro do quarto,
ignora-me a fraqueza,
pois que tenho nas mãos
a pureza das noites.

 

*&*

Poeta Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, dezembro 03, 2020

Quando amo

 


Quando amo

 

É meu este defeito
de me dar inteiro. Quando amo,
digo tudo (o que me passa)
ao ouvido da Amada: digo em forma
de poesia minha dor, minha alegria,
fatos simples e banais,
feito a pura fantasia
das crianças, dos quintais.

 

Penso nela (quando amo) o dia inteiro,
vejo flores e vitrinas, lingeries,
absorventes, analgésicos,
cosméticos. Lembro dela o tempo todo,
sonho estrelas e carinhos, mãos roçantes,
beijos longos, pés ingênuos se tocando.

 

            Quando amo dou-me tanto 
            que espanto a minha Amada.


*&*


Luiz de Aquino, poeta, da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, dezembro 02, 2020

Eu te amo

 

Eu te amo


...no jeito ingênuo
de te sentir boneca de pano
quando te acalento
cantando acalanto
para te fazer dormir de mentirinha.

Eu te amo de sonho
e esperança, te amo acordado
e enfeito de ti
minhas horas mais tristes
para que não mais sejam tristes.

Amo tua voz e teus olhos,
e tuas mãos de amiga,
de irmã que não quero,
de amante ternura,
carinho e tesão.

Eu te amo distante
na imagem-desejo
de estar sempre perto.

Eu te amo contando dias,
os dias que faltam
para ter-te real: em cores,
contato e odores.

Eu te amo demais.
Eu te amo mais.
Muito mais.


Luiz de Aquino (poeta brasileiro), da Academia Goiana de Letras.

terça-feira, dezembro 01, 2020

Promenade


 

 Promenade

 

Sonho acordado com seu beijo.
Mãos cruzadas na intimidade de um passeio ingênuo
ou a explorar nossos corpos, mutuamente.
As línguas procuram-se
na escuridão das bocas coladas.

 

Sem planejar nem combinar,
retomamos os passos sem pressa
no passeio livre e de ternura
pela tarde inconsequente.

 

Paramos outra vez.
As mãos unidas,  os corpos
da gente a somar coxas e peitos
e lábios quentes, sedentos...

 

Eu te quero, e te sinto; e me queres
e me sentes. Cálidos, fundimos hormônios
e humores. É o fulgor do amor
a despertar sementes.

 

*&*


Poeta Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.