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quinta-feira, dezembro 11, 2008

Saber Mais Sobre Santa Catarina

Saber mais sobre Santa Catarina


Quem me escreve é o poeta Raul Longo, excelente analista político e crítico bem centrado de costumes e falsetas. Os costumes, nós o sabemos, dizem respeito ao modo de ser das sociedades: as falsetas, estas competem aos que se arvoram de líderes e tornam-se políticos. Bem feito, para nós. Nós somos diretamente responsáveis pelas mazelas que os maus representantes causam à Nação. Tivéssemos nós a disposição de ir à luta nas campanhas e nas ruas e inibiríamos os mal-intencionados. Mas…

Pois é! Então? "Pois é" vem a ser expressão do meu tempo, substituída pelo advérbio de tempo "então" para significar que se vai expor uma conclusão. E haja rima em "ão"! Mas, eu ia dizendo, o poeta Raul Longo apela aos corações brasileiros e de alhures no sentido de entender o que se passou em seu estado sulino.

A missiva de Raul Longo é bem peculiar, tem a sua marca, leiam:

"Até que enfim alguém acordou. Valeu a cutucada!

Ajude a repassar a mensagem abaixo. Nela não se teve coragem de dizer, mas a verdade é que mais uma vez temos de consertar os erros da mídia nacional que, na busca de sensacionalismos, não consegue fazer como fez a imprensa internacional ao divulgar o Tsunami, demonstrando por mapas as exatas regiões atingidas.

Não há tragédia no oeste de Sta. Catarina. Não há tragédia no sul de Sta. Catarina. Não há tragédia nos 500 km litorâneos de Sta. Catarina. O que houve foi uma trágica imprevidência na ocupação desordenada e sem planejamento do Vale do Itajaí, a menor e mais povoada região do estado. Uma região belíssima, que recebe turismo internacional no mês de outubro, por ocasião das Oktoberfest.

Catarinenses agradecem a solidariedade de todos os brasileiros, mas pedem ainda que ajudem a salvar do tsunami de uma mídia irresponsável e sem profissionalismo, o que restou do Vale do Itajaí. Ajude-nos a acabar com mais esta febre-amarela, este caos áereo, esta crise de pânico criada pela mídia. Raul Longo".

E aí vem o panfleto "O que você não sabe sobre Santa Catarina":
"Santa Catarina foi castigada pelas fotes chuvas. ISSO VOCÊ JÁ SABE. Santa Catarina precisa da sua solidariedade. ISSO VOCÊ JÁ SABE.

O que você NÃO SABE é que o estado de Santa Catarina não está destruído. Muito pelo contrário, o estado continua a todo vapor e as indústrias trabalhando em ritmo forte. O que você NÃO SABE é que os principais atrativos de SANTA CATARINA como, belezas naturais, parques, restaurantes, hotéis e grande parte do comércio não foram afetados e que toda essa infraestutura funciona normalmente.


NÃO DEIXE QUE A ECONOMIA DE SANTA CATARINA VÁ POR ÁGUA ABAIXO!
Uma maneira de nos ajudar é continuar escolhendo nosso estado como destino para seus investimentos e suas férias.



SANTA CATARINA está preparada para continuar o seu desenvolvimento".

O apelo do poeta e articulista catarinense é bastante apropriado. Quem de nós, goianos nativos e adventícios, viventes aqui em 1987, não se lembra do que passamos quando do acidente com o Césio? Não houve, no Brasil, um movimento de solidariedade, de apoio e cuidados para com os goianienses e goianos das redondezas, mas, sim, um exarcebado preconceito, um medo injustificado e uma atitude mesquinha de aproveitamento da situação, pois vários empresários de outras terras pressionavam os fornecedores goianos a entregarem mercadorias a preço vil, sob uma ameaça em termos de chantagem: "Ou aceita o meu preço ou eu devolvo a mercadoria".






Lá mesmo pelas terras do Sul (São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), para onde viajei em novembro de 1987, em automóvel, fui alvo de olhares temerosos e frases ameaçadoras quando preenchia um cheque. É que meu carro tinha placas de São Caetano do Sul, SP , e, como é natural, eu pagava a conta ao sair de um hotel ou restaurante. Então, eu invertia a chantagem: "Sim, sou de Goiás, mas já estou de saída; ou você aceita meu cheque, ou meu dinheiro, que também pode estar contaminado, ou eu me vou sem lhe pagar.


Detalhe: todos, sem exceção, aceitaram o cheque ou o dinheiro.

Agora, é a vez de Santa Catarina mostrar à Nação e ao mundo que a vida existe fora do Vale do Itajaí. A garra daquela gente já foi muitas vezes provada e em breve as belíssimas cidades do Vale voltarão a acolher turistas de vários sotaques e de vários idiomas.

Aos governos, pedimos que restaurem ao menos as rodovias. O resto, o povo catarinense, com a solidariedade de um Brasil inteiro, fará por si. Os brasileiros somos assim: um povo bom, ordeiro e vitorioso. Apesar de votarmos errado, muitas vezes.



Luiz de Aquino é jornalista é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com










domingo, dezembro 07, 2008

Minha mão ao outro

Minha mão ao outro

Pesquisando escritos antigos, achei o texto abaixo, que suponho não ter sido publicado. E achei-o oportuno para estes dias em que Santa Catarina não nos sai dos olhos, da memória e das dores:


“Sai, cada dia, de ti mesmo, e busca sentir a dor do vizinho, a necessidade do próximo, as angústias de teu irmão e ajuda quanto possas. Não te galvanizes na esfera do próprio eu” (Emanuel).


Ao perdermos uma pessoa querida, dói-nos a dor da ausência prenunciada. Damos de nós a angústia, um sentido de solidão que nos assola e um teor de remorso pelo não-dito, pelo não-feito, pelo não-vivido sobre o amigo, irmão, filho ou pai.
Mas Jesus nos deixou dito: “Que os mortos enterrem seus mortos”. A frase, como tantas outras da Divindade, chega-nos misteriosa, enigmática, mas aos que estudam a doutrina espírita explica-se: aos que passam para o plano espiritual, cabe o cuidado dos que lá estão; a nós, os que restamos em matéria na Terra, compete-nos o zelo pelos que aqui estão.
Não por acaso, chegou-me, há poucos minutos, uma mensagem em texto bem escrito, ornada de cenas em fotos, dando conta da humanidade em miséria: 54,7% dos que estão vivos vivem em extrema miséria. E, todos os dias, morrem de fome e inanição cerca de vinte mil pessoas.
A informação é insuspeita: vem da Agência Central de Inteligência, o órgão de informação e segurança dos Estados Unidos, e resultou de estudos (no ano de 2000) relacionados com a globalização da economia − um eufemismo cínico para a consolidação da hegemonia do capital estadunidense perante a humanidade.
Se isso não bastasse, há um agravante: o custo para se manter essa globalização está integralmente atribuído aos mais pobres.
Cumpre-nos a tomada de consciência, pois, sem ela, nenhuma ação acontecerá em favor da solidariedade ao próximo. Ao capital compete gerar emprego e renda com o intuito de minimizar a dor do outro; e ao indivíduo, ação de caridade a acatamento ao próximo. Fechar-se na armadura do conforto cego e da omissão cínica é ir de encontro à lei natural.

* * *

O texto acima tem uma data: 22/11/06. Ou seja, dois anos passados. O aniversário do meu pequenino texto coincidiu com o segundo dia de dilúvio em Santa Catarina. As chuvas ainda ocorrem por lá, mas em intensidade bem menor; é o momento de se contabilizarem as perdas, de pessoas e de bens. E os prejuízos morais e emocionais, como a perda daquelas coisinhas que se somam à memória para se chamar “a nossa história de vida” (pequenos objetos, livros, quadros, fotografias, escritos etc.).


E o momento dessas análises chega junto com um sem-número de críticas. Como a de um amigo meu de infância, que cobra ações da parte de instituições e entidades ligadas ao social, como a União Nacional de Estudantes, os movimentos de Sem-Terras, dentre outros (estes foram nominalmente citados). Ouvi calado porque, conhecendo meu velho amigo, sei que não se dará por vencido: mas eu lhe digo, por estas linhas, que o silêncio das entidades estudantis se dá por nossa culpa. Nós, que fomos forjados em lutas sociais em grêmios e na resistência à ditadura militar, não precisamos ser provocados para dizer “presente”; mas criamos uma geração de omissos, de jovens egoístas cuja paisagem não vai muito além do próprio umbigo (grande parte deles ornados de pírcins).


Como a belíssima moça que, na última quinta-feira, cobrou-me por furar a fila no banco. Disse-lhe a minha idade, e um senhor dois anos mais velho que eu declarou-se disposto a permanecer na fila, abrindo mão de seu direito legal; e a moça entender ser aquilo uma forma de apoio, “aconselhou-me” a nunca sair de casa para ir a bancos ou a qualquer lugar onde há filas, porque, segundo ela, “nem toda lei é justa”.


Respondi à altura, principalmente quando ela disse que poderia mentir que estaria grávida para não ficar na fila, ou seja, para se beneficiar da lei, ela poderia mentir. Será que ela me achou com cara de jovem? Sugeri-lhe estudar cidadania.


Essa moça, belíssima e muito jovem, talvez massageie a própria consciência depositando alguns reais em contas de assistência aos flagelados de Santa Catarina. Mas jamais sujaria as bem tratadas unhas dos belos pezinhos na lama que a Natureza usou na revanche às agressões humanas.


Que Deus se apiede daquela moça e lhe permita vir a ser uma sexagenária. Talvez, então, ela venha a entender o que é viver em sociedade.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Falas infantis


Falas infantis

Nas últimas semanas, que não são poucas, tenho ouvido e lido muitos comentários a propósito da minha condição de avô de novo. Explico, para quem ainda não sabe: meu primeiro neto, o Luiz Henrique, já se aproxima do 13º aniversário; e o outro, Gabriel, tem apenas seis meses, completados neste dia 2 de dezembro. E aí, ostentei minhas páginas de Internet com fotos do rebento de Ethel e Léo. E não faltam frases carinhosas, na linha de “Olá, vô coruja” ou “Vô babão!”, ao que sempre respondo feliz: se a paternidade nos enche de alegria e apreensão, o avonato nos traz muita alegria. Em ambos os estágios, as emoções vêm à flor da pele.

Mas não é de baba de avô que quero falar, não; é da minha paixão por crianças. Isso me acompanha desde as minhas mais remotas lembranças. Com o tempo, a experiência de ser pai muito moço e de ter escolhido ser professor dotou-me de peculiaridades muito apropriadas no trato com os pequenos. Tenho um prazer enorme em provocar as inteligências tenras e virgens, forçar-lhes maquinações admiráveis, ver os petizes (puxa! Essa palavra veio de graça... pincei-a no fundo dos arquivos da memória) cometendo deduções e, muitas vezes, criando palavras com a sua lógica muito própria.


Quando Lucas era pequenino, aí pelos três anos, proferiu sua primeira bronca contra o sobrinho, apenas oito meses mais novo: “Luiz Henrique, sai da minha atrás”. Tentei corrigi-lo, mas ele defendeu seu pensamento: “Se ele estivesse aqui (mostrou uma posição imaginária) era a minha frente; então, é minha atrás, sim”. E Luiz Henrique, por sua vez, ali pelos seis anos, viu-me curtindo antigos discos LP: “Ó, vô, onde você arrumou esse cedezão preto?”.
Quando não são palavras novas, são situações. Minha sobrinha Leda, mãe da  Giovana, ficou grávida. Isso enche a filha única (por enquanto) de alegria; Giovana não se separa do resultado do exame de ultra-som, mostra-o até ao carteiro e ao entregador de gás: “Olha o meu irmão aqui”, diz ela.

Mas a Bárbara... Bem, a Bárbara tem excelente raciocínio e muita fluência verbal. Conta casos, inventa histórias, argumenta de modo irretorquível, impõe-se e convence, apesar de ainda contar apenas três anos. Obviamente, já se desponta com certa liderança na escola, qualifica os coleguinhas, define personalidades... Não dos amiguinhos da escola, mas dos pais.

Bárbara sabe, por exemplo, que o pai, responsável direto pela sua eloqüência oral, é aquele a quem ela domina. Dele, consegue praticamente tudo, até mesmo um passeio ao zoológico com amigas, a quem o pai tem de buscar e levar de volta, em percursos (de ida e volta) de uns trinta ou quarenta quilômetros. A pequenina tem tanta certeza do domínio sobre o pai que, em seus programas (sim: ela é quem estabelece aonde ir), seleciona: “Mamãezinha, você vai não; só o papaizinho e eu, tá bom?”. Pois é... e tem o “tá bom?” ao final das frases. Dia desses, Lucas conversava com o papaizinho dela; Bárbara não gostou e deu a bronca: “Lucas! Vai conversar com o seu papai, tá bom?”.

Há algumas semanas, a família (são só os três; acho que Bárbara, como a Giovana, está na hora de ganhar um irmãozinho) foi à Cidade de Goiás. Bárbara saiu de casa emburrada, não queria a mãe por perto, e isso se explica facilmente: o pai lhe faz todas as vontades, enquanto a mãe tenta impor limites. Muitos minutos de travessia da cidade, cerca de cinqüenta quilômetros de rodovia, o pai lhe diz:

– Bárbara, estamos em Itauçu.

A miúda menina destrinchou a palavra em duas, tal como ouviu:

– Itaú (e girou a mãozinha, lembrando a propaganda do banco na tevê, desenhando um i com uma linha em torno da letra).

E repetiu:

– Itaú-çu. Ó, papaizinho, onde fica Itaú-norte?


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

domingo, novembro 30, 2008

Quixote de botequim







Quixote de botequim



Muito já se falou (e se escreveu) sobre o peso das palavras. Principalmente sobre as palavras escritas, porque entendemos de conceituar como documento a palavra escrita, seguida da assinatura de quem escreveu, dando ao texto no papel o valor das idéias. Bonito, isso. Mas há muita coisa também, escrita e falada, a respeito da palavra apenas falada; é aquilo que nossos pais e avós diziam a propósito de honra. Nesse particular, cometia-se uma injustiça para com as mulheres e os infantes, por serem imberbes, pois a honra era associada à barba (para a mulher, e segundo aqueles velhos conceitos, a honra não estava nos pelos do rosto, mas... ah!, é melhor não entrar em detalhes; basta dizer que era mais um conceito injusto).

Daquele tempo, ficou-nos um valor. É certo que este é o tempo de se derrubarem valores morais, mas ainda são muitos os que os defendem. E é possível preservá-los mesmo sem as pinceladas machistas das décadas idas. A honra de quem faz uso das palavras não é mais, portanto, algo que se atrele à barba. Inúmeras são as mulheres que superam o universo dos homens no tocante à dignidade que se preserva. Quanto aos jovens imberbes, podemos dizer o mesmo, até porque nada é tão valioso quanto aquela frase que já vai se tornando um provérbio: “Canalha também envelhece”.

Nós, os do ofício da escrita, somos os mais visados quanto à coerência, ou melhor, quanto a valores morais. Não é de boa referência estamparmos uma imagem na escrita e não corresponder a ela nas nossas ações e palavras faladas. Dia destes, li num importante jornal local uma crônica que me deixou estarrecido: o autor tecia loas exageradas (como é de seu feitio; nisso, ele é coerente) a uma pessoa sobre a qual, há bem poucos anos, me disse exatamente o contrário. E tenho testemunhas. Na peça, em gênero de crônica, exaltava os feitos da pessoa que escolheu homenagear exatamente em obra por ele antes questionada.
Poderia dizer aqui: não entendi. Só que eu entendi, sim. O autor é dado a homenagens dessa natureza quando o alvo de sua pena é detentor de poder de pecúnia ou de política, ou ainda se é capaz de bom tráfico de influências (e era o caso), ou ainda se lhe poderá render vantagens (e era, de novo, o caso). Nas entrelinhas, ele, o escriba, aproveitou para espinafrar escritores locais que, segundo ele, encastelam-se em suas igrejinhas e fazem pouco dos que não lhe são caros ou próximos. De novo achei engraçado: o autor definiu-se, de modo reflexivo, sim, senhor! Ele, sim, é useiro e vezeiro da prática, mas não se constrange em abusar dos telefonemas para pedir, aqui e alhures, artigos que o louvem. Sim, senhor, de novo: o homenzinho chega a orientar o companheiro a quem faz a encomenda: “Diga aí que eu sou isso e aquilo, que já fiz isso e aquilo etc. e tal”. Ele só não traz o artigo pronto para que o “amigo” assine porque não tem disposição física para isso. E aqui grafei entre aspas a palavra porque é bastante questionável o conceito que ele tem de amigo. Pelo menos, não bate com o meu conceito.
O leitor que tenha tido a paciência de chegar até aqui há de ter dois pensamentos: o primeiro (no caso de o leitor não ler entrelinhas) vem no sentido de entender que compro encreca (são muitos os que me qualificam assim, mas são esses os que mais me sugerem temas, quase sempre em proveito de algum interesse pessoal deles próprios); o segundo, dos que vêem mais longe, é na linha de questionar por que eu não pus nomes, aqui, como é do meu feitio.

Respondo: não tenho constrangimento algum em cometer denúncias, e quando as faço, costumo, sim, dar nomes. Mas a este coleguinha não darei o privilégio de pôr seu nome em letra de forma (aprendi com Carmo Bernardes que letra de forma não é para qualquer um; há que a merecer) porque ele é dos que só escrevem os nomes dos que pretende bajular. Aliás, isso me remete a 1990, época do presidente Fernando Collor. Lembro-me bem que ele se elegeu com uma bandeira: combater os marajás (mas não deu nome algum, e ninguém vestiu essa carapuça); depois, acusou um tal de “sindicato do golpe”, só não disse onde ficavam, nem quem eram seus membros e dirigentes (e de novo ninguém vestiu a carapuça).

A diferença é que o escriba em questão não teria, jamais, a coragem de Collor. O ex-presidente fazia figuras literárias, e se não era muito feliz nas figurações, é porque nunca foi literato; o escriba quer fazer política, e se não a faz bem, é porque não é do ramo.

Por que, então, escrevo estas linhas? Só para dizer que estou dormindo. Se for necessário, e se o colega insistir no mesmo diapasão, direi nomes e darei as minhas razões. E, nessa hipótese, o leitor será juiz.


Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

quarta-feira, novembro 26, 2008

Rito de passagem




É novembro que se vai... ou se esvai. A gente conta a vida pelas medidas formais das semanas, e estas, como os dias, repetem-se sem muitas novidades. O que pesa são os meses, que nos dão os efeitos das estações do ano, e os anos, por determinarem estágios em nossas vidas. Pelos anos, dizemo-nos crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos. E a velhice nos chega com os eufemismos em moda nas últimas décadas.


Marcos indeléveis nas nossas vidas são as escolas. Elas equivalem ao momento em que o mundo deixa de ser apenas o de nossa casa para estender-se aos amigos, esses parentes externos que elegemos, em lugar de os recebermos como o “kit” família. Essa primeira escola fica na memória como cores esparsas, bem como a que se estende no que se convenciona como as cinco séries que sucedem à alfabetização. Depois vêm os anos que, para mim, eram os ginasiais. São os quatro que equivalem à primeira fase da adolescência e quando as amizades mais se consolidam. É então que as pessoas fortalecem seu direito de escolha e traçam, de vez, o seu futuro em torno da personalidade que passa pela efervescência das informações. E é então que, num momento inexplicavelmente não anunciado, dão-se as perdas. Obviamente, numa turma de trinta e cinco ou quarenta alunos, os grupos de amigos para toda a vida fecham-se em quatro ou cinco. Mas como valem esses quatro ou cinco!


Como disse, são os irmãos eleitos. Eles não têm o nosso sangue, não cresceram no nosso ambiente de casa, trazem peculiaridades que nos surpreendem (e nos atraem). No fundo, completam-nos. Mas chega um certo ano em nossa vida, um certo novembro, a gente adolescente sequer se liga que está chegando o Natal e o Ano-Novo, ocupa-nos apenas a certeza de que o que muda é a série em que nos matriculamos todos os anos. Só que, desta vez, vamos nos espalhar, como se a mão de um poder invisível nos distribuísse por aí, distanciando-nos.


Antes, naquela minha geração, os pais dificilmente iam às escolas. Era comum que nos matriculassem na primeira série do ginásio e, a partir do primeiro dia de aula, coubesse a nós próprios o caminho e o tempo, a renovação da matrícula a cada ano e, quando muito, os pais viriam para colher o boletim. Ou quando chamados por alguma transgressão de nossa parte ao código de disciplina.


Hoje, esta última semana de aula afeta até mesmo pais e mães, esses marmanjos que, por questão de segurança ou da má qualidade do transporte coletivo, comparecem ao portão de alunos duas vezes ao dia. A última semana de aula distancia-os também dos outros pais e mães, habituados que ficaram com os encontros de todos os dias, há quatro anos. Na quinta-feira, há o culto ecumênico, uma espécie de Ação de Graças pela etapa vencida; no sábado, o indefectível baile de término de curso. E, no ano que vem, o Ensino Médio, talvez uma nova escola, certamente novos colegas, novos professores, novos temas e novo ritmo de trabalho. Os meninos da fase que antes chamávamos de ginasial chegam agora ao que já foi colegial. É a transição para o terceiro grau, a universidade: o trampolim para as profissões. Queira-se ou não, a meninice ficou para trás. Ainda há os sorrisos, mas surgem as preocupações: a vida passa a ser ainda mais competitiva, daqui a três anos acontecerá o vestibular (esse processo virtual de cotoveladas em busca do próprio lugar, um salve-se-quem-puder selvagem e anônimo).




A tudo isso, juntem-se as transformações biológicas desses meninos e meninas, os hormônios em fúria, a ansiedade, a pressa, a incerteza e uma busca angustiada por algo que não se sabe exatamente o que é, o que virá a ser.


Para muitos, pode parecer algo como uma tarde de sábado ou a transposição de um dia 30 para o primeiro dia do mês seguinte. Para os que exercem esse rito de passagem, a angústia pode ser silenciosa; ou não. Mas no coração, na mente, nos sentidos ou no mais profundo dos sentimentos de cada um acontecerá um instante de dor que jamais será esquecido. Os olhos olharão cada rosto, cada sorriso, os ouvidos ouvirão as frases e os tons de vozes. Haverá uma vertigem, uma sensação de “déjà-vu”. É quando cai a ficha... A separação, jamais prevista, está acontecendo. Começou a acontecer.




Será muito bom se estes, os que agora são os mais queridos, fiquem cada um na vida do próximo como alguém muito importante. Que se tornem isso que, quando a gente acumula décadas, passa a chamar de amigo de infância. Sem eles, a vida seria muito sem-graça.

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

sábado, novembro 22, 2008

A escrita, a ética e o regozijo

A escrita, a ética e o regozijo



O adolescente médio brasileiro comunica-se com um vocabulário de cento e vinte palavras. Sim: cen-to-e-vin-te. Apenas. Não mais que isso. Mas, dizendo assim, parece que apenas o jovem é limitado. Isso é injustiça, das grossas. Conheço gente fina com diploma de universidade e alcunha de doutor que não entende a diferença entre “mais” e “mas”. E “pescosso”, “frauda”, “oço” e “recurço” em lugar de pescoço, fralda, osso e recurso aparecem em textos de próprio punho de alguns profissionais de roupa branca, desses que incorporam o título, religiosamente.


Ah, que saudade! Na faculdade, no meu tempo, era comum um aluno corrigir o colega que pronunciasse ou escrevesse erroneamente. Como era comum, também, formarem-se grupos de estudos em que ao menos um dos membros tivesse bom domínio da Língua Portuguesa e um outro fosse bamba na disciplina específica; assim, todos aprendíamos naquele intercâmbio de conhecimentos (ou de sede de saber). Mas eram outros tempos... Tempos caretas, dirão os moços estudantes de cento e vinte vocábulos.


Tenho visto professores desprovidos de conhecimentos mínimos das matérias que ensinam; então, pergunta-se: ensinam o quê? Cartazes possíveis de serem lidos por aí: “Todos clientes têm estacionamento grátis” (devia ser “Todos os clientes...”); “Descontos à partir de...” ou “Tudo apartir de 1,99” – não se sabe a razão pela qual não escrevem “a partir”. E aí, por manterem dúvidas sobre o português, muitos comerciantes preferem “10% off” a “Descontos de 10%”, ou, em vez de “Liquidação” ou “Queima”, oferecem “Sale”. Como se vê, é muito mais fácil para nós, brasileiros, aprender e entender inglês do que o “brasileirês”. E eu, que tenho um indispensável bloqueio à grafia de palavras estrangeiras, prefiro escrever “De náite is a xiudrem”, que dizem-me conter um erro de concordância, porque o singular seria “xiude”, e não “xiudrem”.



E o que quer dizer mesmo “estacionar dentro das imediações”? Pelo que li (é uma notícia de jornal), a intenção era dizer “no pátio”, mas o autor do texto não sabe o que quer dizer “imediações” – apenas achou bonita a palavra.




Erros de linguagem à parte, triste mesmo é o erro de conduta. Num seminário de saúde acontecido em Goiânia, na semana que se encerra, secretária da Saúde de Minas Gerais, Helidea (coitada! Mais uma vítima da criatividade dos pais em confronto com o bom-gosto) disse, como quem defende as pretensões de seu chefe, que “quem governa Minas pode governar o Brasil”. Que idéia, dona Helidea! Qualquer Estado brasileiro tem condições de oferecer bons (ou maus) presidentes à República. De minha parte, e pelo que nos demonstra a História, evito os gaúchos. É que Getúlio Vargas apaixonou-se tanto pelo poder que lá ficou por quinze anos ininterruptos e ainda voltou para outros quatro. E de 1964 a 1985, tivemos aquele revezamento de generais, dos quais um era cearense, mas estudou no Rio Grande do Sul, e outro, carioca, apenas nasceu no Rio de Janeiro – sempre foi ligado ao lindo e valoroso Estado dos pampas e das serras.


Mas, gafes e ratas à parte, regozijo-me com meus confrades da Academia Goiana de Letras, na pessoa do presidente Luiz Augusto Sampaio, pela Sessão Magna da Saudade em memória de José Luiz Bittencourt. E rendo graças e loas a Antônio Almeida, o nosso Antônio da Kelps, por acatar minha humilde sugestão e ter produzido um livro com cento e quatorze páginas com os artigos e crônicas escritos em homenagem ao grande homem que foi Bittencourt. Mais de duzentos exemplares postos à disposição dos presentes não foram o bastante. Coube-me selecionar os textos e apresentá-los para a impressão; portanto, o único erro fui eu a faze-lo, e tenho de ser crítico de mim: alguns dos artigos saíram num só bloco, como que sem parágrafos, em virtude da transposição de “software” (ou sófiti-uér), em que a separação de parágrafos não se cumpriu. Mas o efeito foi dos melhores. Se me for dada outra oportunidade, cuidarei de me corrigir, porque sou um eterno estudante. Só que nos moldes do meu tempo, ou seja, sempre com vontade de aprender algo mais.


Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

quarta-feira, novembro 19, 2008

A nova face da Polícia Federal

A nova face da Polícia Federal



Vi na tevê que em três localidades de Goiás (Goiânia, Anápolis e Jataí) serão plantadas pouco mais de oitocentas mudas características do cerrado, em cabeceiras de córregos. Minha primeira reação foi de alegria; a segunda, de frustração; a terceira, de surpresa. A alegria dispensa comentários; a frustração... Só isso? Oitocentas e algumas mudas, apenas, divididas em três locais? Ou seja, menos de trezentas mudas em cada lugar? O cerrado não apenas merece, mas carece de muito mais que isso. E aí, veio a surpresa: o projeto tem a Polícia Federal como uma das que se empenham para o reflorestamento.


Parei para pensar. Dia desses, em linhas dos meus escritos nestes espaços de jornal, eu disse que “há pessoas lendo na Polícia Federal”. E, agora, tenho mais uma confirmação disso. E me alegro outra vez: a Polícia Federal, desde seu surgimento e por duas décadas, era um dos tentáculos do sistema de repressão da ditadura. Eu e todos os da minha idade, os que tínhamos a consciência (e o sonho) da liberdade, temíamos os rigores da tortura, e a PF alinhava-se fielmente na máquina do terror oficial (sim, não se enganem; se aos que lhe faziam oposição os do governo aplicaram a pecha de terroristas, os deles praticavam o terror de Estado, prendendo e seqüestrando, exercendo a tortura e, por “acidente de trabalho” ou por nítida intenção, matando, às vezes).





Agora, temos uma nova Polícia Federal. Uma polícia mais preparada, tanto na formação acadêmica quanto nas técnicas de investigação e, melhor ainda, com o pensamento em um futuro mais seguro. E segurança não se faz só de investigação e armas.


Investigação é um capítulo à parte. Tanto as instituições policiais quanto as militares têm seus departamentos de inteligência. E inteligência não se faz como no tempo da ditadura, prendendo e arrebentando, não. A esse propósito, a imprensa nacional já mostrou, muitas vezes, incontáveis atos de burrice dos “sistemas de inteligência”. Hoje, já não se aplica mais a antiga piada (daqueles tempos de rigidez do regime): um policial aborda um bêbado na porta do boteco; o bêbado não se mostra intimidado, ao que o policial reage mostrando distintivo, arma e argumenta: “Eu sou da polícia!”. O bêbado, impassível, arremata: “Bem feito, quem mandou não estudar?”.

Em suma, aos poucos a sociedade brasileira começa a confiar na polícia. E é bom que comece justamente pela Polícia Federal, pelas razões que já citei. Não se quer mais uma polícia apenas truculenta, quer-se uma polícia honesta e inteligente. Uma polícia da sociedade, de Estado (e não de governos). Uma polícia que respeite e proteja o sistema de saúde, o sistema educacional e que se una aos segmentos que constroem o futuro. Preocupar-se com as plantas, com o reflorestamento e a qualidade ambiental dos tempos vindouros é um excelente começo, um compromisso que não deve ser mudado.





Por falar em plantas, quero contar. No meu minúsculo apartamento num oitavo andar, tenho uma floreira junto à sacada. Menos de um metro quadrado. E ali, planto plantas de flores e até uma pimenteira feliz e alegre, se não lhe falta água. E com alguma intenção furtiva, cuspi no canteiro sementes de melancia, que fizeram brotar a ramagem bonita e rasteira (agora já dá flores). Minha mulher questiona-me: “Vai deixar crescer? Tá maluco? Melancia nesse mini-canteiro?”. É, ainda não decidi remover a ramagem. Vamos ver no que dá...



Enquanto isso, minha amiga Ana Maria Taveira conta-me que, na casa de seu irmão, Francisco, meu colega de Liceu (o sonetista secreto, como gosto de me referir a ele), tem uma jabuticabeira, plantada por seu pai, o Dr. Taveira, de boa lembrança para os mais antigos moradores de Goiânia. E Francisco, o tabelião, elege um dia, todos os anos, para “inaugurar” a jabuticabeira em profusão de frutas maduras.

Dia desses, Ana Maria invadiu a sombra da fronde e arriscou-se a colher, aqui e ali, algumas bolotas negras (a maioria ainda não estava madura), no que foi severamente repreendida pelo zeloso irmão.


“Ranzinza, ele”, disse-me Ana Maria. Dei razão ao meu amigo, mas não o disse à Aninha, que cometeu o perdoável crime de curiosidade feminina, antecipando o evento que o irmão anfitrião programa todos os anos.


Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letas. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com