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sexta-feira, dezembro 10, 2010

Modo de fazer


Modo de fazer

Crônica lida na noite de 09/12/2010,
em que a Academia Goiana de Letras concedeu-me o Troféu Goyaze
s.


Na tarde de hoje, ao abrir o meu correio eletrônico, encontrei mais uma carta carinhosamente encaminhada pelo meu amigo dos tempos de menino, tempo longe, lugar também. Refiro-me ao coronel Paulo Pedro Pinto, da Força Aérea, com quem compartilho lembranças de Marechal Hermes, o bairro mais bonito do subúrbio carioca, pelo seu traçado harmônico e seus solenes sobrados quase centenários. Num desses sobrados eu vivi parte da infância e a adolescência…


Marechal Hermes, em fotos:
A estaçãoSobrados


Epa! Divaguei, perdoem-me! O ponto central é o conteúdo da mensagem de Paulo Pedro. Ele sempre me presenteia com belíssimas imagens de aeronaves e navios, veículos esportivos e ágeis, enfim, com novidades tecnológicas em geral, com notável predominância de aviões antigos ou novos, peças históricas ou futuristas. Desta vez, o presente foi uma apresentação do maestro holandês André Rieu e sua orquestra: http://www.youtube.com/watch?v=eky88KYlC4Q.

André Rieu


Nada de novo, talvez; afinal, o músico holandês já é tão conhecido em todo o mundo que, aos poucos, ele nos parece familiar, tal como era, para nós, Ray Conniff. Com expressão feliz e falando em inglês que me pareceu perfeito, a figura impoluta do artista disse que terminaria aquela tarde de modo sério... E anunciou a Quinta Sinfonia de Beethoven (Lucas, meu filho, traduziu para mim).


Zequinha de Abreu



Ato contínuo, surgiram as notas inicias da famosa peça. Súbito, ele (ao violino) e a orquestra transmudam para La Bamba. Claro, claro... Para alguém sexagenário, a vontade é cair na dança! Mas La Bamba marcou-se apenas por uns poucos acordes, tal como aconteceu com a Quinta Sinfonia; aí surgiu nada menos que nosso tão aconchegante Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Nesse momento, senti-me vestido a rigor, sentado disciplinadamente numa poltrona daquele teatro, e eu não sei que teatro era aquele, nem qual era a cidade onde acontecia o concerto. Um arrepio percorreu toda a minha pele, os olhos ficaram mais úmidos.


Antônio Olinto na AGl, 2007



A esta altura, ninguém mais, da platéia, estava sentado. A música foi tocada em seu inteiro teor, e após a última nota, sem perda do ritmo e da harmonia, uma das mulheres da orquestra, bela e atraente, destacou-se sacolejando um chocalho e soprando um apito de samba. Era a deixa para a entrada de nada menos que Aquarela do Brasil, do saudoso Ari Barroso! Imediatamente, lembrei-me de Antonio Olinto, o imortal da Academia Brasileira que, no dizer de Leda Selma, estrelizou-se há pouco mais de um ano.


Ary Barroso
Ari e Olinto eram conterrâneos, filhos de Ubá, Zona da Mata, Minas Gerais. O pai de Antonio Olinto tinha um cinema na pequenina Ubá, era o tempo do cinema-mudo; Ari era o moço que tocava piano no cinema para enfeitar as cenas sem som das fitas. E foi justamente Antonio Olinto, em sua última visita a Goiânia, quem contou, numa das maravilhosas conversas, que muita gente pela Europa afora, incluindo-se aí músicos maravilhosos, pensam que Aquarela do Brasil é o nosso Hino Nacional.


Bem! Eu só queria contar de como um filme como esse, uma apresentação do maestro André Rieu, atrelando canções brasileiras a nada menos que a Quinta Sinfonia de Beethoven, dizendo que era “um modo sério de terminar a tarde”...



Calçada do Grande Hotel, em dia de chorinho



Era como se eu estivesse na Calçada do Grande Hotel, ouvindo Karine cantar, acompanhada de Nonato, Danilo, Pato e outros bons instrumentistas. E isto se dá na véspera do aniversário de 100 anos de Noel Rosa!


Noel Rosa



Como se vê, sou brasileiríssimo, nativista, orgulhoso do País, da Nação e do nosso modo de vida, conjunto de coisas que entendo por Pátria. E o meu orgulho brasileiro se faz da soma de vivências minhas, participando ou absorvendo; e por participar e absorver, sei que crio algo também.






Dessa criação, dos meus textos publicados, resulta este mimo que recebo agora, o que me faz feliz. E mais feliz me sinto porque este mimo vem dos meus pares, meus confrades da Academia Goiana de Letras. Em respostas ao convite que distribuí pela Internet, tenho algumas dezenas de cumprimentos de amigos de todo o Brasil, cumprimentos esses que entendo serem para a AGL.

Escrever a mão... 
  ...ou à máquina. 



Agora, posso terminar. Queria lhes mostrar como escrevo. Estas emoções que contei aqui são os meus ingredientes. O modo de fazer é muito simples... Um teclado, um tempo para escrever e um jeito muito meu de sentir poesia. E aí, e então, nasce a prosa.




E a inscrição no pedestal








* * *



Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goina de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

domingo, dezembro 05, 2010

Fé na vida e na Pessoa


Fé na vida e na Pessoa
       




Divirto-me com alguns cálculos que aplico como futuristas. Explico exemplificando: se, num jogo de futebol de noventa minutos, o time A marcou dois gols até os dez minutos do primeiro tempo, projeto um resultado de 9x0 até o final do primeiro tempo e, logicamente, 18x0 ao término. Ao meu lado, um “pensador” corrige-me, afirma que muitos fatores acontecerão no decorrer da partida e o resultado poderá ser totalmente adverso, como a reação do time B, que transformará aquele resultado num 2x5...
                                              
Um terceiro, ouvindo nossa conversa, interfere:

– Futebol não tem lógica.

Tem, sim, e é como qualquer atividade humana. O “pensador” é quem está certo, apesar de sua casmurrice. Tudo o que vivemos depende não apenas das projeções matemáticas, mas de incontáveis fatores que podem surgir a cada instante.



Instante? O que é o instante? Tem medida, o instante? Pode ser alguns dias, umas tantas horas, um minuto ou o tempo de um flash.


Uma aula dura cerca de cinquenta minutos. Uma consulta médica, entre dez e cento e vinte minutos – depende da qualificação do paciente, se um pobretão que tem cobertura do SUS ou um poderoso com a carteira bem forrada de cédulas e saldos. Uma viagem... Aí são muitos os fatores a interceder em sua duração, e o fillósofo da arquibancada jamais compreenderá o “logos”.

Ilógico, para mim, é a inversão de valores. Leio na Internet uma mensagem assustadora, uma análise dos avanços tecnológicos. O autor associa os avanços cibernéticos, associados à velocidade da informação, e demonstra que tudo o que se aprende no primeiro ano será revogado antes que se atinja o quarto ano, e que o volume de informações obtidas (vou chutar) durante quarenta anos de vida vivida torna-se inferior ao que se pode acumular em poucos meses – e vai por aí afora...






Lógico é que surgirão fatores que conterão essas mudanças drásticas e trarão de volta o valor do ser humano. Mas...

Os pais não têm tempo para os filhos. Deixam para a escola toda a responsabilidade pela formação da prole. Os pais atuais estão ensinando grosserias aos filhos, passam-lhes valores negativos e formam pessoas desvinculadas de tudo o que se espera de um cidadão – e são esses mesmos pais que cobram dos governos equipamentos de cidadania, como equipamentos urbanos, saúde, educação e segurança. Muitas vezes sâo pais fumantes, alcoolicos, drogados ou portadores de outros males e fraquezas, mas fortes o bastante para influir negativamente no contexto social, ensinar violência e desrespeito.

Visitei, esta semana, o laboratório de informática de uma escola pública; gostei de ver dezenas de computadores, alguns ainda em modelos antigos (em informática, é antigo tudo o que existe há dois anos; ou menos). A professora encarregada daquele setor explicou-me o quanto é difícil preservar:


                 

    – Um aluno removia teclas e jogava-as nos colegas. Repreendi-o e ele me respodeu que isso é público, logo não tem dono.

Ensinamento que veio de casa, é óbvio. Como o da menina de sete anos que jogou uma pedra na colega; a professora interpelou-a, em tom de censura. A criança, fazendo carinha de inocente e surpresa, indagou:

– O que foi, tia?

– Você jogou uma pedra na sua colega!

E a pequena, cinicamente, desafiou-a:

– Prova!


* * *


Luiz de Aquino é membro da Academia Goiana de Letras. 
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

sexta-feira, dezembro 03, 2010


Descaso municipal



Em 1994, quando me mudei para o Setor Bela Vista, informaram-me que, por decisão do poder público municipal, o edifício que escolhi alinhava-se sobre a última linha, no extremo sul da cidade, em que eram permitidas grandes edificações. Contudo, pouco a pouco, os edifícios foram se elevando, com alvará da Prefeitura, pouco se importando se causavam sobras eternas ou vedavam definitivamente a ventilação. E, para piorar a situação, o que parecia ser um breve descuido tornou-se norma e nos últimos seis anos, proliferam-se por toda a cidade as imensas torres (que já se chamaram espigões e, antes ainda, arranha-céus).
A prática mais costumeira, porém, é a dos puxadinhos.
Uma construção existente, sobretudo as habitações individuais ou de pequeno comércio, são aumentadas de modo improvisado, sem respeito às normas legais e técnicas, violando recomendações muito em moda, como a preservação de áreas para infiltração das águas. E por ser este um bairro “beneficiado” com o capeamento asfáltico sem os cuidados de uma rede de captação pluvial adequada, o resultado é o que todo mundo conhece: a enxurrada corre a céu aberto, carregando entulhos e sacos de lixo, obstruindo a minúscula rede instalada para tapear os financiadores das obras maiores desta região – a construção da Avenida T-63, no final da década de 1980, e do viaduto sobre a antiga Praça do Chafariz, na confluências da T-63 com a Avenida 85.
E os puxadinhos continuam acontecendo. Da minha janela, nota-se que alguns proprietários constroem na calada, ocultados por elevados muros e portões indevassáveis, e há até quem ocupe toda a área de seu lote, edificando sobrados nos fundos, em desrespeito ao código de edificações – e não é preciso ser profissional dos ramos das construções, da fiscalização ou do rigor das leis da cidade para saber que existe uma afronta nessas obras.
O que se sente, aliando-se a esses fatos o de que a arborização da cidade é danificada com mutilações e derrubadas sem critérios (enquanto alguns exemplares arbóreos ameacem algumas construções e o órgão competente se recuse a substituí-los). Carros de som poluem as manhãs, especialmente nos finais de semana, interrompendo o repouso; veículos em lava-jatos têm seus aparelhos de som indevidamente usados pelos lavadores; escolas (aqui mesmo no bairro) removem placas de “Proibido parar” e “Proibido estacionar” para “proteger” mamães que levam e buscam seus filhinhos barbados.
Em síntese: de pouco adianta eleger prefeitos e vereadores de siglas partidárias variadas, o “modus operandi” é o mesmo, ou seja, o do fingir que não se vê, pois há eleições a cada dois anos e tudo indica que os políticos gostam mesmo é de obter os votos dos que burlam as leis, em prejuízo dos eleitores corretos.


Luiz de Aquino

domingo, novembro 28, 2010

Bandidos Classe A e cartas de Natal



Bandidos Classe A 
e cartas de Natal


Que filhos deixaremos para o mundo, hem? Repito a pergunta que alguém lançou na Internet e nas mentes da gente, não há muito, diante da tradicional preocupação: “Que mundo deixaremos para os nossos filhos?”. Há tempos ouço que as crianças são o futuro. Mas ao falar em futuro, parece-me, sedimentou-se a rejeição ao passado. As pessoas tendem a pensar que o passado é de dores, guerras, frustrações amorosas, erros e muitos, muitos fracassos. E as vitórias e acertos, não contam?

Erra-se muito! Mas os acertos são, na verdade, o que deve ficar. Nas citações da História, lembro-me de ter lido que um jovem e invejoso cientista visitou o gênio Thomas Edson. Atencioso, Edson mostrava tudo ao visitante e este, olhando para um volumoso caderno, quis saber:

– Mestre, e este livro?

– Ah!, - respondeu-lhe o inventor – são experiências fracassadas.

O moço, com um indisfarçável sentimento de inveja e vitória, vangloriou-se:

– Quer dizer que o senhor também erra! E se tanto erra, para que anotar tudo isso?

– Para que você, que é moço, as leia e não perca tempo repetindo-as.

Lembrei-me de tudo isso por constatar que está aí, entre os pais do momento, um erro gravíssimo: eles, que cometeram seus atrevimentos ao arrepio da autoridade dos pais, permitem que os seus filhos exerçam esse “esporte” adolescente de fazer de tudo. Repito: antes, os desatinos eram cometidos às escondidas; agora, os pais os permitem e até os estimulam – como a mãe de um dos agressores da Avenida Paulista (daquele caso dos jovens vândalos Classe A que quebraram lâmpadas fluorescentes no rosto de um estudante de jornalismo). A mãe do marginal de boutique justificou o ato do filho atribuindo à vitima uma provocação (que não houve).

Aproxima-se o Natal e, com ele, a péssima prática de incentivo desenfreado ao consumismo, uma variante de vício. Nada contra o ato de presentear, acredito mesmo que todos gostamos de presentear e de receber presentes; preocupa-me o estímulo ao “amor ao ter”, em lugar de se estimular o “ser”.

Há dois anos, e como é dos costumes, recebi um e-mail sugerindo-me ir a uma agencia dos Correios e escolher uma cartinha... Uma dessas que crianças carentes escrevem ao “bom velhinho” e enviam-na pela ECT. A empresa tem o capricho de deixá-las à disposição de quem queira presentear crianças que passam o Natal em brancas nuvens.

A Agência da Praça Cívica estava muito cheia. Uma moça da casa sugeriu-me ir a um xópin, havia postos avançados por lá. Fui ao Bougainville e achei o quiosque – uma árvore de Natal, em frente a uma loja de brinquedos, com as cartinhas dependuradas. Peguei a primeira... a segunda... a terceira... a enésima!  Saí de lá constrangido e contrariado: os petizes signatários das cartinhas só pediam brinquedos de alta tecnologia, bicicletas de muitas marchas, plei-estêichom etc. Nenhum brinquedo por menos de 150 reais!

Detalhe importante: uma cartinha era mais ou menos assim:

“Papai Noel, tenho apenas um aninho e oito meses, e  como não sei escrever pedi ao meu papai que escrevesse para o senhor. Eu quero ganhar um carrinho elétrico...” – e a carta continuava.

Esse é o pai que, daqui a alguns anos, terá um filho pichador de paredes, agressor de pederastas (se não se incluir entre os que se tornam alvos), usurpador de bens alheios, poluidor. O que deveria ser uma ação social em benefício de crianças carentes, agora é invadido pela Classe A que prefere poupar o seu e tentar “ganhar” dos desprevenidos. No mesmo alinhamento desses adolescentes agressores, podemos incluir aquela estudante de Direito (!) de São Paulo que sugeriu o extermínio de nordestinos por terem votado na Dilma Rousseff. Ou do âncora da RBS em Florianópolis, que atribui à Classe C, porque o “governo espúrio” lhes permitiu comprar carros, a culpa pelos acidentes rodoviários.

Ora... James Dean, Chico Alves, a princesa Grace Kelly, a princesa Diana, a cantora Maísa e tantos, tantos outros que morreram em acidentes de carro não foram atropeladas nem colidiram com os “Classe C” que o Lula beneficiou. Mas...



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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

sexta-feira, novembro 26, 2010

De flores e pichadores



De flores e pichadores




Tempo houve, no segundo governo municipal de Nion Albernaz, em que Goiânia se floriu inteira, petúnias e outras cores adornavam de amores e luzes luminosas as ruas e praças de toda a cidade!

Veio o governo petista de Darci Accorsi e mantiveram-se as flores e a beleza da cidade. Antes, na década de 1970, um cartaz afirmava que “Aqui, a Primavera tem 12 meses”. As flores da cidade murcharam-se apenas durante o retorno do PMDB, mas a proliferação dos parques e árvores compensou a mudança. Agora, com o prefeito Paulo Garcia, goianiense (há quantos anos não tínhamos um prefeito goianiense, hem?), as flores começam a reaparecer nos canteiros.

Também são muitas as praças a ganhar ornamento de jardinagem. Uma rótula na confluência da Avenida T-2 com a Avenida T-8 (essas vias merecem nomes reais, não acham?) ganhou um monturo de terra, muitos caminhões; surgiu ali uma colina e esperávamos algo surpreendente. Ficou apenas o monte nada discreto, embora pequeno, porque afronta o visual sem outros atrativos.

Em conversa com os colegas mais bem informados, soube que a praça ganhou o nome do Dr. Gilberto Jardim, neto de Veiga Valle, nosso maior santeiro. E o morrote que ali se formou seria ornamentado com esculturas de Fogaça em louvor à bossa-nova.

E então, contaram-me que as esculturas, em metal e solda, representando instrumentos musicais, foram rejeitados pelos descendentes do médico. Alegaram que ele nada tinha a ver com bossa-nova e que preferiam uma escultura de Maria Guilhermina (grande artista, também! Engrandece-nos). Uma visita ao então prefeito resultou na dispensa do trabalho de Fogaça, que acabou instado na minipraça da Avenida T-9 como a Avenida 85 (quanto número, meu Deus! Goiânia é uma tábua de logaritmos), sem qualquer explicação aos moradores e transeuntes do lugar.

Junto com “os violões”foram também instalados, ali, prismas com as placas em que 77 vultos da cidade impuseram suas mãos. O evento causou alguma estranheza... Não se via afinidade entre os instrumentos simbolizados e pessoas que não tivessem ligações com a música (agora, sabe-se a razão). E, a esse tempo, a indagação: mas aquilo é uma praça ou um simples canteiro no encontro das avenidas?

Enfim, lá estão as palmas com seus respectivos nomes e profissões, e também os “violões”. E, agora, com um triste adereço: a marca dos pichadores.

Pichadores, para mim, são marginais. Atuam na madrugada, em bandos (quadrilhas), costumam congregar filhos da Classe A com jovens sem berço, numa promiscuidade elogiável, se acontecesse em torno dos estudos, da arte ou da mera convivência harmoniosa. Só que a liga entre eles é a prática da agressão ao patrimônio, seja ele público ou privado.

Quando secretário da Segurança Pública, o senador Demóstenes Torres conseguiu limpar a cidade dos pichadores e das pichações. Por que seus sucessores não deram continuidade à repressão?


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Luiz de Aquino
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Entrevista ao programa Outra Conversa / TV Brasil Central, Goiânia

Amigos,

Aqui está a entrevista que concedi ao programa Outra Conversa, no sábado 20/11/2010, da TV Brasil Central (Goiânia):

http://vimeo.com/17105147

Aguardo seus comentários, se acharem por bem (ou por mal, tanto faz).

L.deA.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Outra carta ao DM

Se, acaso, for necessário voltar a este tema, hei de fazê-lo sem essa conotação de protesto e indignação (esse tom nos textos estressa-me!). Havia dito que o assunto estava encerrado, mas tive de retomá-lo por conta das próprias circunstâncias e, assim, inseri informações que vão se tornando históricas. L.deA.





Homenagens inconsistentes



Em 1979, era eu repórter do semanário Cinco de Março e cobria a Câmara Municipal de Goiânia. Não era a minha única função: gostava mesmo de reportar coisas das ruas, problemas e situações urbanas, de modo que noticiar os trabalhos do legislativo municipal era um complemento às demais tarefas da semana.

Recordo-me bem do clima de festa ante a ocorrência da Anistia, seguida da “permissão”, pela ditadura (então já em agonia), para a criação de cinco partidos, substituindo o MDB e a ARENA, de triste lembrança; a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) não renovava nada, sequer equivalia a um campo de conflito, já que o conflito era armado e nas ruas. Desde a ação mais truculenta, institucionalizada pelo general Emílio Garrastazu Médici, então no plantão da Presidência da República, a luta era armada somente do lado deles.

É incrível constatar que ainda há pessoas – e entre elas que seguram o pau da bandeira apenas por ouvir dizer, e ouvem de um só lado – que manifestam saudades do arbítrio. E mais incrível ainda é constatar que essa gente expressou seu mais legítimo apoio a José Serra, esquecendo que ele presidiu a UNE, que a UNE nunca foi da direita, que o moço presidente da UNE discursou ao lado do Presidente Jango no famoso comício da Central do Brasil que foi apontado como o estopim do golpe de 1º de Abril de 1964.

Alinham-se entre estes saudosistas da tortura gente como aquele capitão deputado – uma espécie de reencarnação do deputado (e repórter mau-caráter) Amaral Neto. E, fora do parlamento, residentes em Goiânia, os que reclamam do excesso de homenagens a Pedro Ludovico em Goiânia.

Já ouvi esse conceito (o do excesso de  homenagens) de pessoas de serviço em vários governos, desde os tempos em que atuei como jornalista da Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Goiânia, na década de 1980, até os que há pouquíssimas semanas insistiam que a estátua de Pedro Ludovico estava muito bem nas costas da praça que leva seu nome.

Pergunto, fazendo coro a uma jovem com quem conversei sobre isso, se é digno aplicar-se uma comenda nas costas do homenageado. A moça respondeu-me que não, que lugar de medalha é no peito. E riu-se da analogia por mim sugerida entre o tórax humano e a praça.

Vá lá: de fato, são muitas as homenagens a Pedro Ludovico em Goiânia. Uma delas é uma avenida que começa no Setor Sudoeste e vai terminar no ponto em que a avenida (nesse trecho, com quatro pistas, sendo duas centrais e duas laterais) passa do domínio do Município para o do Dnit – a BR-060, trecho Goiânia-Guapó.

Tinha o Estádio Olímpico, que se chamava Pedro Ludovico (e o nome sumiu); tinha o Parque Agropecuário, que também era Pedro Ludovico (e de novo o nome sumiu). E naquele 1979, na Câmara Municipal, o nosso querido primeiro prefeito, Professor Venerando de Freitas Borges, pelejou com todas as palavras e premissas Possíveis para demover os dezessete vereadores (sim, eram só 17, mas hoje são 35; o quantitativo dos táxis, porém, continua o mesmo). Contou o velho mestre e político que Dr. Pedro não gostaria de ter seu nome na Praça, pois já demovera o arquiteto projetista da cidade, Atílio Correia Lima, de apor seu nome na principal avenida da cidade; o próprio interventor teria sacado sua caneta, riscado o nome “Avenida Pedro Ludovico” e, com uma frase definitiva, impôs o nome que perdura:

– Vamos homenagear minha cidade.

E escreveu na planta “Avenida Goiás”.

De nada adiantou: a edilidade goianiense forçou a barra. Nós, os jornalistas que a tudo assistimos, tentamos, por nossas notas, levá-los a rejeitar a proposta e acatar o que dizia o Professor Venerando. Pedro falecera em agosto e naquele final de ano a Praça Cívica recebeu seu nome, enquanto a Rua 26, a do endereço do fundador, ganhava o nome de sua mulher: Avenida Dona Gercina.

Após o incêndio no Centro Administrativo, o governador Marconi Perillo, ao reinaugurar o prédio começado por Mauro Borges e concluído por Leonino Caiado, pôs nele o nome de Pedro Ludovico.

Então, são três as homenagens ao fundador: uma praça, um palácio administrativo e uma avenida.

Sobre o Palácio, devo dizer que algumas fotos o enfeitam, no térreo. E em torno das fotos, um texto ufanista, bem na medida do necessário, porém cheio de erros de datas. Certa vez, nos últimos meses do governo de Marconi Perillo, mostrei ao coronel PM que administrava o edifício aqueles erros; marquei-os e passei-lhe às mãos, sugerindo as correções. Fui chamado por um auxiliar direto do governador que me “explicou”:

– Não vamos corrigir, por enquanto, porque o arquiteto Fulano vai se sentir ofendido.

Ah, é?! As tais “razões de Estado”, muitas vezes, não têm qualquer razão... E, assim, o erro ficou lá. Ainda está, confiram! Dentre outros, diz (o texto) que a construção teve início em 1965, no governo Mauro Borges. Ora, cheguei a Goiânia em agosto de 1963 e subi três lances de escadas para ver uma exposição de fotos da história da jovem cidade. E Mauro Borges foi deposto pelo Marechal Castelo Branco em novembro de 1964. Logo...

Quanto à avenida, devo dizer que ela começa justamente entre os setores Sol Nascente, Sudoeste e Conjunto Romildo Amaral; segue em direção à Cidade Jardim, vira à esquerda e bate no paredão do sobrado que contém as salas de aulas do Centro Universitário Anhanguera. Além das faculdades, também o SESC e o SESI obstruem o que seria o leito da Avenida, que ressurge com esse nome na Vila Canaã, naquele ponto de comércio de ferro-velho.

Finalmente, a Praça Cívica; o povo, trinta anos após a Câmara sacralizar o nome de Pedro Ludovico, continua dizendo Praça Cívica.

O tal de Monumento às Três Raças, em que pese o talento de Neusa Morais (impecável em sua arte), foi encomendado justamente para que de lá se removesse o obelisco – foi uma das primeiras agressões do Poder ao fundador. Hoje, parte dos moradores da cidade acham aquele monumento mais importante até do que a memória de Pedro Ludovico.

O interessante de se notar é que, em 1979, os dezessete vereadores teimaram, forçaram a barra – na melhor das intenções, é bom que se diga – para homenagear o fundador com a Praça do Governo. Hoje, apenas um dos trinta e cinco vereadores preocupa-se em que não se menospreze o ídolo.

– Ah, mas é homenagem demais!

A frase do então secretário ainda me dói nos tímpanos. Ele, o então secretário, sabe bem que, em Cuba, uma figura dos tempos da independência é multi-homenageado, também. Refiro-me ao jovem poeta José Martí, que lá é nome de rodovia, avenida, escolas, aeroporto e mais um não sei quantas coisas. José Martí morreu em combate aos vinte e oito anos!

No Brasil inteiro, toda corrutela tem uma rua, ou avenida, ou escola com o nome de Presidente Vargas. Ou de Rui Barbosa – notável pelo domínio da Língua e do Direito, discutível no proceder político. Aliás, os adeptos do “politicamente correto” precisam conhecer um pouco mais desse homem. Ele mandou incinerar o arquivo relativo à escravidão, alegando ser indispensável “apagar da memória” aquele mancha. Anos depois, em discurso no Senado, após ser derrotado pelo Marechal Hermes da Fonseca na disputa pela Presidência, acusou o vitorioso rival de tolerar, nos jardins do palácio, o “bodum das senzalas”, referindo-se ao grupo de dança da musicista Chiquinha Gonzaga (obviamente formado por negros).

Enquanto isso, Goiás peca por não homenagear Juscelino Kubitschek, o presidente que interiorizou o Brasil. Peca também por permitir que generais truculentos, mandantes de perseguições e assassínios, sejam nomes de escolas, pontes, ruas... Peca ao inserir em seus endereços nomes de barões e marqueses – Goiás não teve entre seus filhos ninguém agraciado com as honrarias do Império senão quando aqui já chegavam com seus títulos.

Felizmente, a malfadada inauguração do dia 18 passado não aconteceu. As carpideiras do efeito das urnas lamuriam pelos cantos, repudiam os descendentes do fundador, atribuem a Mauro Borges uma carta que dizem ter sido assinada por ele (é possível; mas certamente não foi redigida por ele e conseguiram envolvê-lo em intenções não muito bem explicadas), carta essa em que o ex-governador, filho de Pedro, indicava a Serrinha como local para se instalar a estátua.

Agora, é conseguir do próximo governo a sonhada edificação de um Memorial do Pioneiro. José Mendonça Teles, que realizou ampla homenagem aos primeiros habitantes da cidade, tem esses nomes. As famílias estão aí para colaborar, fornecendo dados e material (documentos, fotografias etc.). E certamente não faltarão quando se fizer a festa de entrega da obra ao povo, e junto com ela a fixação da estátua em lugar de honra. No meio da praça. Feito uma medalha no meio do peito.

Luiz de Aquino
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras.