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segunda-feira, maio 10, 2021

Plateia

Plateia




Muitas as bundas

em jeans e moletons,

perirribalta de ouvir poemas.



Sensuais

vozes e bocas de ritmos e rimas

de me encantar muito demais.

 


            Ah, saudáveis mulheres

            de me acender 

            desejos! 



Poeta Luiz de Aquino

*   *   *


domingo, maio 09, 2021

As mães em nós

 

As mães em nós

 

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu.
(David Nasser e Herivelto Martins)

 

A quadra em epígrafe é da canção “Mamãe”, dos talentosos David Nasser e Herivelto Martins. Ouvi-a pela primeira vez em Niterói – era maio de 1956, justo o dia em que eu soube existir aquele segundo domingo voltado para festejarmos as mães. Acho que decorei música e letra de imediato, pois estava habituado a isso pelas cantorias frequentes em casa, em Caldas Novas, até dois meses antes...

“Quando o dei à luz, não foi só ele que nasceu, mas eu também, pois naquele momento eu nasci mãe”. Não sei que mãe foi essa que conceituou o primeiro parto de modo tão real, sincero e sentido – sem dúvida, uma poetisa (ou mulher poeta, como conceituamos desde que Cecília Meireles permitiu-se assim). Sei bem, de tanto ver, ouvir e sentir o quanto o amor de mãe é diferente, denso e essencial – por isso, eterno.

Habituei-me a publicar, uma ou duas vezes ao ano, um poema que produzi ainda a tempo de submetê-lo ao rigor do gosto de Da. Lilita (que sempre foi Elia Borgese mas, no meu registro de nascimento, o escrivão Melquíades, de Caldas Novas, distraído, acrescentou o H da grafia portuguesa, em lugar do original italiano).

Existirá, no mundo, até estes tempos pandêmicos, poeta que não tenha reverenciado a mãe em pelo menos uma peça? Eu menino, desde as primeiras cantigas aprendidas, cantava o que ela escolhia; meu pai solava a melodia, ela me ensinava os versos e a canção nascia para, algumas vezes, percorrer as ruas de terra batida de Caldas Novas em memoráveis serenatas. A partir do segundo semestre dos meus dez anos, minha devoção à mãe era formulada em cartas quinzenais ou semanais, desde a casa da avó Inês, em Marechal Hermes (Rio), onde morei até as vésperas dos 18 anos.

Henfil com Dona Maria


Essas cartas tinham o toque da relação familiar. Eram, pois, diferentes das que, nas décadas de 1970 e 80, o cartunista Henfil (Henrique Sousa Filho) publicava na última página da revista IstoÉ, como uma coluna, sob o título Cartas à Mãe. Um retratinho de Dona Maria ficava no alto, ao lado do título, e o cartunista ilustrava a missiva semanal, sempre curta, com seus tratos inconfundíveis, arrematando o texto de crítica política ferino, porém em linguagem de filho para mãe, como qualquer de nós sabe identificar – desde que filhos de mães amadas, já que, para os filhos, a melhor mãe do mundo tem o nosso mesmo endereço.

Henfil viveu pouco – faltavam 32 dias para completar 44 anos, em 4 de janeiro de 1988. Foi vitimado pela Aids, contraída em transfusão de sangue (ele e seus dois irmãos homens trouxeram na herança genética a hemofilia; os três morreram pela trágica doença que virou peste na década de 1980).

Outro artista que magistralmente reverenciou a própria mãe com sua arte deixou-nos nesta semana – o autor e ator comediante Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros. Ele completaria 43 anos em outubro e vinha se destacando como humorista e comediante nesses espetáculos solitários tão em voga nos últimos anos, mas após uma criação sob o título “Minha mãe é uma peça”, o sucesso em palcos sugeriu a produção em mídia para a grande massa: um filme. E vieram, depois, duas novas versões, sempre com picos de bilheteria. 


Paulo Gustavo com Dona Dea 
  

Como Henfil, que contraiu Aids há 30 anos, Paulo Gustavo foi contaminado pelo Coronavírus, a praga deste tempo. E não conseguiu vencer a doença nos 50 dias em que lutou com força, assistido pelas mais recentes técnicas médicas. Dona Déa, sua mãe (que se tornou “Dona Hermínia”), certamente passa o pior de todos os seus Dias das Mães, confortada pela comoção nacional em torno do filho que sempre significou alegria e carinho para seus admiradores.

De minha parte de filho, sempre retribuí à minha mãe uma espécie de energia que, dizia meu pai, herdei dela – a persistência em defender meus pontos de vista e saber demonstrar opinião. Já na minha fase escritor, esbocei referências de amor e teimosia em meus textos em prosa. Ensaiei muitos poeminhas, de quadras a peças maiores, que rasguei por constatar que repetia outros poetas. Um dia, porém, consegui finalizar um poema personalista, de mim para ela, no modo que eu a sentia e sentia a nossa relação. Fiquei feliz quando ela levantou os olhos do papel e, com um beijo precedido de um olhar amoroso e diferente, os lábios se esticando num sorriso, ela puxou para si a minha cabeça e beijou-me a testa, naquele jeito incomparável.

Foi assim:

 

Mãe

 

Tristes não, nem saudosos. Alegres, talvez. 

Apenas certos de estender aos anos 

alcatifas de coradas flores.

 

Não cúmplices, mas pedaços 

de uma vida, a mesma, entrelaçados 

por fecundo sêmen, no estertor de legítimo gozo 

de humores a fluir com força: 

momento de evocar-me à luz.

 


À luz, à luz... como vim 

e vi-me feito à imagem 

de Deus, dizem os crentes; 

do Homem, é o que diz Deus.

 


Há, sim, o entendermo-nos sempre. 

Refazer das carnes após o amor de hormônios, 

multiplicar de genes, gestar com paciência, 

parir entre dores, odores, suores 

e as sempre lágrimas.

 


Deu-me o plasma, e o sorvi como a vida; 

deu-me formas, palavras, cores, paladares, 

música, dimensões, poesia 

e o sentir, 

que não se é poeta 

impunemente.

 


De risos, lágrimas, sucessos; 

e de tristes, felizes, esperanças; 

e de entes queridos ou distantes, 

a fé no verbo te eterniza em mim. 


*   *   *

Poeta Luiz de Aquino com a mamãe Lilita

 

sábado, maio 08, 2021

Israel, terra e povo


Israel, terra e povo



Trouxe as mãos de plantar um pinho.
Do pinho se faz violão
de cantar canções, encantar corações,
afagar saudades.
Ouvi doutores, vi lugares;
o sagrado, sempre presente.


Provas de incontáveis milagres: 
naveguei na Galileia, 
molhei-me em águas do Mar Morto. 
Senti Jesus.


Com o adeus,
deixo o canto destes versos:
fulgores do coração
agradecido.

(Jerusalém, 13/04/97)

*   *   *
Poeta Luiz de Aquino



sexta-feira, maio 07, 2021

Porque não quero

 


Porque não quero

 

 

Vez em quando
sou dado a chuvas e trovoadas.
Feito o tempo.

 

Vez em quando
sou dado a cataclismos.
Feito o mundo.

 

Vez em quando
sou dado a mortes.
Feito a vida.

 

Agora, dá licença:
deixa que o sol me beije.
Quero silêncio.


*   *   *
Poeta Luiz de Aquino


 

quinta-feira, maio 06, 2021

Isso é bom!

 Isso é bom!



 

O que é bom começa no olhar 
que vai e encontra o outro olhar, 
que atrai feito ímã,

 

prende feito visgo 
e condena-nos a um bem-estar único 
ao toque das peles.


Então, há as mãos que nos unem, 
tateiam e despertam lábios 
que se buscam e sugerem

 

a saliva misturada, a língua 
a invadir a boca próxima 
e parceira, cúmplice.

 

E excitam, e nos prendem 
a sugerir que há amor 
e vontades. Isso é bom!

 

*   *   *

Poeta Luiz de Aquino

quarta-feira, maio 05, 2021

Única...

Única...


 

Não lhe deixei minhas mãos
de calor e carícias,
eu as trouxe, sim. Mas ficaram as marcas
dos meus dedos em seu corpo
e os gestos de amor em sua lembrança,
por isso me cobra a distância.

 

Não lhe deixei gravadas
as falas de amor e aconchego
mas ecoam elas em sua lembrança
como eu quis, como sonhei
e como é.

 

Não lhe deixei um adeus.
Eu trouxe comigo o tempo
que foi nosso e intenso
porque me cabe voltar e refazer
em segredo e completo
o amor que descobrimos.

 

Agora, somos unos.


 *   *   *

Poeta Luiz de Aquino



terça-feira, maio 04, 2021

Achamento da terra fértil em mar de calmaria


Este poema, escrevi-o em abril de 1999 para  ilustrar  matéria jornalística 
que, no jornal  em que trabalhava à época (Gazeta de 
Goiás), abria o tema 500 Anos de Brasil.(Imagens: Internet).
 L.deA. 




Achamento da terra fértil 

em mar de calmaria



Mar ignoto, mar de tormentas,
mar de esperanças, mar de outros sonhos.
Mar de trazer especiarias,
mar de fazer calmaria
e o porto que fica onde fica Maria.






O mar está calmo,
a esquadra se deixa a oeste,
sem medo e sem ventos
(em Tordesilhas de Espanha
a herança do mundo
fica de meio para Portugal).



Vera Cruz, Santa Cruz, 
gentios de pele morena, 
uma gente pequena, 
altiva e sem roupas, 
vergonhas à mostra...


Ah, Maria que ficou no porto, no Tejo!
São tantas as semanas
de mar e de homens,
e são dóceis as gentes
nas terras ingentes...



Uma ilhota em mar próximo,
uma cruz de Jesus,
o grão capelão e a Missa Sagrada
sagrando o achado
da grande ilha de Vera Cruz.
(os gentios, lá longe). 



Outra Missa haverá. Aos índios,
água benta e batismo
e a forte mão portuguesa
de El-Rei Dom Manuel,
Primeiro e Venturoso.


A terra, "em nela se plantando,
tudo dá", e nelas, nas índias,
também se há de plantar.



Mas havemos de ir, descobrir outras terras,
converter outros povos
e volver à mãe-pátria,
trazendo alforjes com especiarias
e muita saudade
de novas marias.


 *   *   *

Luiz de Aquino, poeta e jornalista