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sábado, julho 08, 2023

Zé Celso, imortal



Ad imortalitatem

 

Nasr Chaul, historiador e compositor, gestor cultural e homem de letras-canções, amigo e confrade falou assim de Zé Celso (ante a leitura do texto de Ignácio de Loyola Brandão, amigo da vida inteira de seu conterrâneo Zé Celso):

Pra mim, Aquino, Zé Celso. Um Parangolé ambulante com a Tropicália de fundo musical. A Vida, um documentário de Glauber no Teatro Oficina! 


Sim, Chaul, estou com você. Com a passagem do Zé Celso para o Plano Superior, as reações em todo o país, em todos os segmentos e, em seguida, os vídeos em que vimos não um velório triste e choroso, mas uma festa popular nos espaços das ruas – o palco mais libertário que nos cabe – conseguiram, em mim, reerguer as esperanças que os últimos seis anos de descaso para com as coisas das artes e da função cultural ficaram adormecidos, repreendidos e acusados de tudo o que não presta. A morte do Zé Celso foi como um grito que só os ouvidos mais sensíveis perceberam: "Acorda, Brasil!".

Sou de um tempo em que se falava muito em Virgínia Lane e Luz Del Fuego, Cascatinha e Inhana, Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Cauby Peixoto e Ângela Maria, Marlene e Emilinha Borba... Daquele despertar da década de 1950 (os meus cinco anos) até agora, vi surgirem muitas estrelas e chorei seus apagares. A ditadura das elites (fardados e paisanos) calou nossas comoções, até que morreu JK e a juventude brasiliense realizou a primeira motociata de que tive notícias – ainda que não com esse nome – e não conseguiu nos calar ou parar quando fomos assustados com a notícia de que Elis, a Pimentinha, virou silêncio – mas Elis canta até hoje.

A pandemia nos assustou com os cuidados e logo após as mortes que doeram em nossos corações, começando com Aldir Blanc e chegando a Zé Celso sem que nos fosse fácil aceitar outros silêncios ou escurecimentos de imagens, como as de Flávio Migliaccio e Tarcísio Meira, Glória Maria e Elza Soares, Paulo Gustavo e...

Dores, luzes, cores e silêncios, flores e canções, uma nota fora do tom a atravessar a melodia de nossas existências tão parceiras. Daqui também nos despedimos, a contragosto, de Moema de C. e S. Olival e de Ana Braga, de Otávio Daher e Cláudia Garcia, de Silvinho Queiroz...

Não gosto de falar em perdas; até porque, quando assim falamos ante a transposição do limite inevitável, referimo-nos àquelas vidas que enriqueceram as nossas. Pessoas que, num dado momento, deixam-nos a mensagem de que "cansei" ou "o xou acabou". Restam-nos o aplaudir, o lembrar bem, o referir-nos a passagens mais marcantes. Então, penso eu, o correto não é lamentar a perda, mas agradecer por termos convivido, ou seja, vivido no mesmo tempo. Temos, sim, de preencher a ausência com a sensação do ganho, a de termos usufruído de suas artes e ensinamentos.


Ainda em tempo, a despeito da imediata mensagem oficial do Ministério da Cultura ante a passagem de Zé Celso, apesar de todas as manifestações de lamento até mesmo de algumas personalidades do segmento esportivo (geralmente, ignoram os vultos e os fatos da esfera cultural), esqueceu-se o governo brasileiro de decretar Luto Oficial. Mas até isso me pareceu desnecessário: a Nação, por inteiro, fez coro com aquela festa inusitada nas ruas em torno do Teatro Oficina. 

E Miguel Jorge - o autor mais versátil entre nós, complementa:

Junto minha voz e meus pesares às de Luiz de Aquino e Chaul, resta-nos o consolo de que Zé Celso viveu como quis e desejou, livre de preconceitos e de amarras, irreverente, criativo... quando você lê o Rei da Vela, de Osvald de Andrade, e depois assiste a montagem do Zé Celso, tem-se a impressão de que é outro o texto encenado. Há poucos dias o vi, sempre de branco, no programa da TV Cultura, Persona em Foco, discorrer sobre sua vida e receber os maiores elogios dos amigos e dos companheiros de cena. Pena que, agora, os palcos e os teatros do Brasil e do mundo permanecerão sem a presença vibrante desse ator, diretor, cantor, um dos mais ousados que conheci em minha vida.


* * *





Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

domingo, julho 02, 2023

Miguel Jorge, pra toda a vida

 

Miguel Jorge, autor de todos os gêneros.


Miguel Jorge, autor de todos os 


 

Era um domingo, 1977 (acho que outubro), quando um grupo de amigos apaixonados por contos e poemas formou-se nas imediações do BEG, na Praça do Bandeirante. Éramos Taylor Oriente (recém chegado de Paris, onde concluíra o Mestrado), Roberto Fleury Curado (que naquele ano estreara com o livro Cemitério de Gritos – contos), Miguel Jorge e outros. Acho que o artista plástico Gomes de Sousa estava nesse grupo; e havia também um jovem mal chegado à mocidade, isto é, pouco mais que adolescente, chamado Carlos DaCruz (ele, então, já emendava assim as partículas de seu nome e já se fazia conhecido, o DaCruz). 


L.deA., em 1977...

A conversa era muito, muito animada! Miguel revolucionava o meio artístico da cidade; ele vinha de ser o Secretário Geral da UBE – a nossa União Brasileira de Escritores em Goiás, quando o presidente era o jornalista (e poderoso empresário de comunicação) Jaime Câmara. Os impedimentos na agenda do presidente exigiam de Miguel muita dedicação e trabalho; ao término do mandado de “seu Jaime”, Miguel foi eleito presidente.


A entidade dos escritores de Goiás viveu, então, um rico período em sua existência. Miguel Jorge, farmacêutico, advogado e licenciado em Letras, vivia, como é de sua personalidade, tempos de muitas atividades: professor de Farmácia e de Letras, gestor cultural e autor – nós o temos na conta de um “autor de todos os gêneros”, considerando seu trânsito do teatro ao conto, da poesia ao romance, a ocorrência de obras suas levadas para o cinema e até mesmo para a ópera. Na década anterior (a de 1960), integrou o Grupo de Escritores Novos (o GEN) e foi, por duas vezes, seu presidente. Esse grupo marca a entrada definitiva das letras de Goiás nos tempos modernos – com um indiscutível atraso de 40 anos.

Como se não bastasse, registro também a elevada competência de Miguel Jorge como crítico literário e artes, com projeção – e o equivalente respeito – de que desfruta nos maiores centros de letras e de artes do país. 


O presidente da UBE, como era de se esperar, sabia obter espaços na mídia, na época, constante de alguns jornais impressos: Folha de Goiás, O Popular e Cinco de Março, os principais, pela ordem cronológica de seus surgimentos. O quadro de associados da UBE cresceu bastante, com o despontar de novos autores, especialmente contistas e poetas. E Miguel assustou a cidade, então com cerca de 400 mil ou 500 mil habitantes, com a realização de vários eventos. Dignos de maiores registros estão as exposições de poemas-cartazes e a criação do Troféu Tiokô. A palavra tiokô, da linguagem dos carajás, quer dizer “boneca”, e Miguel recorreu à artista italiana Dina Cogolli, radicada em Goiânia, que esculpiu a estatueta. O troféu passou a ser entregue a personalidades que se destacassem nas artes e na comunicação em Goiás.

Quanto às exposições de poemas-cartazes: o poeta aliava-se a um artista plástico e a dupla oferecia seu trabalho; o poema era transcrito no cartão, com a interpretação plástica do artista (esclareço, antes que me cobrem: não sou adepto do “português ideológico”, ou seja, aplico aqui o masculino como genérico).


Foi no tal domingo do inesquecível encontro que mostrei ao Miguel uma folha datilografada e lhe ofereci, indagando: “O que acha disto?”. O hiperativo presidente respondeu-me: “Um belo poema”. E, ato contínuo, passou-o ao jovem pintor: “Veja aqui, DaCruz, vocês podem fazer essa parceria” – foi o modo como ele nos inscreveu, a mim e ao moço artista, para a exposição que aconteceria dali a poucos dias num bar da avenida 24 de Outubro, em Campinas.


Nessa exposição, recordo-me, o poeta Ademir Hamu também estreou em eventos da UBE; e nos dias seguintes, Miguel nos ofereceu o formulário para que nos inscrevêssemos como escritores filiados à entidade. Desse mesmo evento, e estou quase certo de que sim, Ubirajara Galli também participou, posto que estreara, como Roberto Fleury, com livro em 1977 – Roberto com contos e Galli com poemas. No comecinho da década de 1990, Ubirajara Galli presidiu a UBE por dois períodos; hoje, preside a Academia Goiana de Letras.


No biênio 1996-98, sucedi Galli na presidência da UBE. Resgatei a outorga do Tiokô, interrompida por dificuldades financeiras que inviabilizavam quase tudo na esfera cultural, e, ao fazê-lo, tive o zelo de propor à diretoria dois contemplados: Eli Brasiliense, então já com limitações locomotoras, pelo Conjunto da Obra; e ao Miguel Jorge (que já fora contemplado com uma boneca carajá), mais um troféu do mesmo feitio, e justamente por ter sido o criador do que ele mesmo apelidou “o Oscar do cerrado”.


Conversando com a escritora – e confreira acadêmica da AGL – Maria Helena Chein, pedi-lhe uma referência ao Miguel. Lena (como gosto de chamá-la) foi – como bem cabe a uma autora talentosa – suscinta e ampla, neste texto:

– Miguel foi professor na Faculdade de Farmácia da UFG. De manhã mexia com cremes, pomadas, remédios e, à tarde, com poesia, prosa, livros. Depois que se aposentou, intensificou o trabalho nos vários segmentos da criatividade. Viajava a São Paulo e ao Rio de Janeiro, pelo menos duas vezes ao ano, para assistir a peças de teatro, ver exposições de artes plásticas e encontrar-se com escritores. Ainda hoje, mantém-se sempre atualizado no mundo cultural.


Sim, é isso mesmo! Somos, todos nós, os que tivemos o privilégio de conhecê-lo naqueles primórdios, testemunhas capazes de corroborar essa descrição da nossa amada Lena. Atrele-se a isso, ainda, as inegáveis, sempre, palavras de estímulo – e correção, quando necessário – que Miguel proporciona aos principiantes; ou mesmo a companheiros tradicionais, sempre que necessário.


Depois dele, e na ordem do tempo, presidiram a UBE Aidenor Aires, Luiz Fernando Valladares, Kleber Adorno, Brasigóis Felício, Coelho Vaz, Iuri R. Godinho, Ubirajara Galli, eu próprio, Coelho Vaz novamente, Maria Luísa Ribeiro, Edival Lourenço e o atual, Ademir Luiz. Acredito que estes (espero não ter pulado ninguém) concordem com o que proponho agora ao presidente Ademir, que certamente exporá o tema à Diretoria: acompanho os feitos de Miguel há exatas seis décadas continuadas de atividades literárias (sei que há alguns aninhos mais, pois estou falando do período em que o conheço) e pelo tanto que já proporcionou às letras e às artes de Goiás, uma homenagem especial: o título de Presidente Ad Vitam, da UBE de Goiás, ao incansável Miguel Jorge.


*  *  *


 










Luiz de Aquino, membro da Academia Goiana de Letras e ex-presidente da UBE Goiás.


* https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/miguel-jorge-autor-de-todos-os-generos-pra-toda-a-vida-503659/ 
(Jornal Opção, 02/07/23)

quarta-feira, junho 21, 2023

Ana Braga

 Faleceu ontem, 20/06/23, em Goiânia, a professora Ana Braga, aos 99 anos de idade (completaria o centenário no dia 29 de novembro próximo. Em sua homenagem, proferi, no dia 18 de maio passado, na Academia Goiana de Letras, onde éramos confrades, uma breve fala em sua homenagem, cujo teor transcrevo aqui. 


Ana Braga

Poema de Placidina Siqueira, da Academia
Feminina de Letras e Artes de Goiás, AFLAG.
(placidina.siqueira@gmail.com
)

 

 

Ana Braga,
    ah, Aninha!... 
parece real Bragança,
do Pedro Afonso,
ou Peixe do Tocantins ...

 

Ana Braga,
ah, Aninha!...
     não há Norte, sequer Sul
     que a desarme...
É e será sempre nossa mãe:

 

Estrela de Carne.

 

Ana Braga (acervo: UBE de Goiás).

Demonstrações de afeto são coisas que me emocionam. Em especial quando brotam de um coração mais moço, observador dos feitos que se tornaram meritórios na vida dos que nos antecedem. Neste caso, só não me surpreendo porque conheço a poeta Placidina Siqueira desde os meados da última década do século passado, ou seja, há quase 30 anos. Desde sempre, vi-a atenciosa e disposta a exprimir carinhos às pessoas à sua volta – ao seu saudoso João, aos filhos Júlia e Ocelo e, ainda, a nós outros, os que estivéssemos ao seu redor. É, pois, com indisfarçável emoção que renovo a admiração a essa mulher doçura que é a acadêmica Placidina. Aqui, ela sintetiza magistral e poeticamente o sentimento de que é tocada ante o exemplo de vida centenária e ações indeléveis de Ana Braga pela sociedade goiana, desde os tempos em que a goianidade era horizontalmente imensa – aquele gigantesco cenário que as condições da natureza e das pessoas conduziram à divisão geopolítica, multiplicando gentílicos: aquele Goiás de um quase distante ontem é, neste hoje, tocantinense, brasiliense e goiano.

Refiro-me ao foco dos sentimentos da Placidina Lemes de Siqueira, a intelectual, a professora, a vereadora e deputada, mãe de duas famílias – a da juventude e a da vida adulta, divididas pela viuvez. Em qualquer de seus estados civis, Ana Maria Braga expressou sua força individual como característica de caráter e de escolhas. Ainda criança, destacou-se como oradora na formatura do curso primário – e foi aquele o momento inicial do reconhecimento, por professores e colegas, da capacidade, do talento e da liderança que marcam sua vida até os nossos dias, vésperas de sua festa centenária.

A infância viveu cenários, primeiro em Peixe (então Goiás), depois em Descoberto (a atual Porangatu). Peixe, de Goiás, ainda é Peixe em Tocantins, na margem do grande rio que denomina o novo Estado instalado a 1° de janeiro de 1989; desse eixo provinciano daquela década de 1930, a menina Ana estendeu a vida nômade para outros aglomerados: conheceu Santana (hoje Uruaçu), Jaraguá e Corumbá; morou na católica Trindade, e de lá veio assistir ao despertar do futuro na poeira vermelha que brotava da sangria das artérias da moderníssima Goiânia.

O avô Joaquim Nunes Pinheiro alfabetizou-a aos cinco anos de idade; depois veio a escola primária, o ginasial (complementar) e, no Colégio Santa Clara, em Goiânia, diplomou-se Professora Normalista – em todos esses cursos, foi oradora da turma ao formar-se. Recebeu diploma de Catequista, das mãos do bispo Dom Emanuel; foi professora no Grupo Escolar Padrão (Modelo?) e no Colégio Santa Clara.

Em 1947 foi eleita vereadora em Goiânia; e em 1951, casou-se com seu primo Luís de Queiroz, com quem teve três filhas: Edetina Augusta, Ana Luiza e Efigênia Auxiliadora.

Parêntese: Filho é uma coisa que a gente coloca no coração e pergunta a Deus: Como será? Daí em diante, se vive em constante estado de alerta. Fechando parêntese. (Essa foi uma resposta de Ana Braga ao escritor Célio de Oliveira; está no livro Acima dos 80 rumo à velocidade da luz, de 2018, Kelps, 196 páginas).

Quatro anos depois, seu marido morreu num acidente na estrada que já se prenunciava como a Belém – Brasília – a BR-14, que hoje é a BR-153. Em 1956, bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Goiás (que viria a integrar, a partir de 1961, a Universidade Federal de Goiás), ano em que também obteve grau de Licenciada em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia – embrião da Universidade de Goiás (depois, Universidade Católica de Goiás e, hoje, a Pontifícia Universidade Católica de Goiás).

Elegeu-se, em 1959, deputada estadual; e em 1960, casou-se com o médico Trajano Machado Gontijo Filho, gerando outros quatro filhos: Antônio Paulo, Fernando, José Augusto, e Cláudio.

Logo após o casamento, mudaram-se para Tocantinópolis, onde, em 1962, Ana Braga elegeu seu marido prefeito municipal. Assim, além de deputada, ela era também primeira-dama. A família mudou-se para Porangatu, onde Trajano repetiu a façanha de Tocantinópolis: elegeu-se prefeito, após o casal construir o Hospital Nossa Senhora da Piedade.

Ana Braga desempenhava, ao longo de sua vida, incontáveis papéis na melhoria das condições de vida dos mais carentes. Inquieta e incansável, ei-la novamente em busca de mais uma profissão: a de Enfermeira, título obtido em 1963.

De sua lavra, vários foram os livros, incontáveis os artigos em jornais e revistas, múltiplos e variados, e sempre muito festejados, seus discursos em púlpitos das casas legislativas e eventos mil nos âmbitos acadêmicos e políticos, em cargos desempenhados na AFLAG, na AGL e na novel Academia Tocantinense de Letras, de que é, também, membro fundadora.

Apesar da época – os anos confusos da década de 1930, que resultaram na Segunda Grande Guerra; os quarenta do desfecho do conflito na Europa e na deposição de Vargas em seu Estado Novo; o pós-guerra ainda teimando em conservar costumes, com a hegemonia masculina nas sociedades... Enquanto tudo isso acontecia, Ana Braga brilhava com seus feitos e conquistas. Não deixou de ser mãe de família enquanto era vereadora e deputada, professora e agente de ações sociais, escritora e líder natural nas ocorrências culturais deste Estado em sua grandiosidade, antes do corte do quadrilátero Cruls e da separação Norte-Sul, colaborando, com seu poder feminino sagaz e persistente, para essas novas unidades federativas e a consolidação do poder que proporciona à mulher do Século XXI o albor da liberdade.

A esta Academia Goiana de Letras, chegou por eleição, em 2006, ocupando a Cadeira 31, que tem por patrona Eurídice Natal e Silva; a primeira ocupante foi Rosarita Fleury, sua parceira, em 1969, ao lado da também saudosa Nely Alves de Almeida, na criação da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, a AFLAG, sodalício que se consolida em breve tempo e representa, com altivez e dignidade, a criatividade feminina cerceada, por quase um século, pelas academias de letras – tanto a Academia Brasileira de Letras quanto as regionais.

A propósito, esse lado de pioneira na personalidade de Ana Braga revela-se também quando, ao lado de Liberato Póvoa e outros, atuou para criar a Academia Tocantinense de Letras.

Nesta Casa, ela foi apresentada, formalmente, em data de sua posse, pelo então presidente Geraldo Coelho Vaz e recepcionada pelo acadêmico Ney Teles de Paula. Coelho Vaz pinçou datas e vínculos da sempre promissora vida política e social de Ana Braga; e Ney Teles de Paula situou-a, geográfica e historicamente, na realidade ancestral da nossa novel confreira, bem como em sua riquíssima biografia, com evidências para pessoas notáveis de seu convívio.

 

*  *  *

 

O carinho com que foi acolhida nesta Academia expressa-se além dos discursos do presidente Coelho Vaz e do orador oficial Ney Teles de Paula, num belo poema, da lavra inspirada de outro confrade, nosso também ex-presidente Getúlio Targino Lima:


SAGA

 

Veio
para vencer
a dor,
o amor,
o fenecer.

 

Veio
para inovar,
na vida,
no ser,
no ar.

 

Veio para crer
mais na força
do que na fraqueza,
mais na dor
do que na moleza.

 

Veio ser.
Ser mulher,
mas valente,
destemida,
desbravadora
de novos caminhos,
a conquistar alturas
impensáveis,
vencendo espinhos.

 

Veio ser mãe,
na ternura do seio
maternal,
e pai,
na fortaleza
do ombro seguro,
largo e puro.

 

Política,
creu em ideias
e praticou ideais.
Carregou laurel,
a que fez jus,
mas ombreou
a cruz.

 

Veio para dizer
que o bem se faz,
não se propala;
e que o mal se enfrenta,
não apenas
se fala.

 

Veio para durar,
durar o tempo
que o exemplo precisa
para ficar.

 

Veio dizer,
falar,
fazer,
mostrar
que, ao fim
e ao cabo,
valeu a pena
amar.

(Para Ana Braga, Ano Cultural de 2015 da Academia Goiana de Letras, GTL).

 

Neste ano de centenário, Bariani e Ana Braga são focos das nossas homenagens: as minhas entidades – a União Brasileira de Escritores em Goiás, na pessoa do presidente Ademir Luiz; a Academia Goiana de Letras, presidida pelo confrade e velho amigo Ubirajara Galli, e o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, sob a liderança do profícuo historiador Jales Mendonça – empenham-se em honrá-los com a dignidade de que se fizeram merecedores, não só pela longevidade, mas por suas vidas profícuas, dinâmicas, criativas e benfazejas.

Agradeço à Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás pela oportunidade que me ofereceu, recentemente, de homenagear tão queridos confrades; confesso-me feliz por participar dessas homenagens – que são também promovidas aqui, entre tão queridas confreiras. E rendi-me ao convite do presidente da AGL, Ubirajara Galli, por designar-me o orador para esse preito de honra à nossa centenária Ana Braga, a despeito das minhas limitações naturais e intelectuais para tão grandioso momento.

Aos confrades da AGL, às confreiras da AFLAG e aos amigos convidados que aqui se fazem presente, muito obrigado!

 

* * *

 

Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras, Cadeira n° 10.



terça-feira, junho 13, 2023

AGL, Cadeira n° 4




Profa. e Acadêmica Moema de Castro e Silva  Olival, que se despediu a 20/03/21m vagando a Cadeira 4


AGL, Cadeira n° 4

 

Em recente decisão para alteração do Estatuto, a Academia Goiana de Letras mudou os critérios para a eleição de novos membros. O critério em vigor, nos moldes anteriores, exigia que, ainda em segunda votação, o eleito apresentasse 19 votos, ou a eleição seria anulada (na hipótese de ninguém atingir esse índice mínimo). E em algumas eleições em anos recentes, sequencialmente, vários sufrágios foram anulados e as novas chamadas para a mesma Cadeira vaga impediam os postulantes não vitoriosos. O fato é que as regras foram flexionadas, de modo a permitir, in fine, um resultado positivo.

Há um bom tempo que se espera preencher a única vaga na Academia, e é justamente a da Cadeira 4, antes ocupada pela Professora Moema de Castro e Silva Olival. O prazo para inscrição de candidatos começa amanhã, 14 de junho, e se estende até o dia 4 de julho. Os candidatos devem preencher as exigências do Edital – a principal delas é que seja autor de ao menos um livro. Os critérios outros serão apreciados, primeiro, por uma comissão especialmente designada, entre os membros atuais, devendo, ao término, emitir parecer que será apreciado pelo plenário da AGL; em seguida, com a eleição marcada, a entidade reúne-se para escolher, em votação secreta e direta, o novo ocupante da Cadeira.

O Edital foi publicado no jornal eletrônico A Redação, conforme divulga o jornalista Jales Naves; e de imediato, dizendo estar com a documentação preparada para apresentar amanhã, dia 14 (como foi dito, o primeiro para as inscrições), ligou-me o poeta e biógrafo Ademir Hamu. 

Habituei-me, há 26 anos, a declarar publicamente o meu voto e, em raras ocasiões, aguardei o andamento das movimentações para definir minha escolha. Este, porém, é um momento especialmente diferente, já que o meu convívio literário com Ademir Hamu remonta às primeiras escritas do ano de 1980 – somos admiradores mútuos: ele curte meus poemas e minhas prosas, e eu me delicio com seus versos e biografias. Entre nós, versos e cervejas foram chamariz e visgo, e cuidamos muito bem de, também na linguagem oral, trocar histórias e opiniões, além do compartilhamento de vários amigos da escrita e das tintas, dos palcos e das canções.


Leninha, obra poética de Ademir Hamu

Marquei, já, uma pequena e discreta rodada – claro, claro: irei de táxi, porque aceito, acato e respeito as regras de trânsito – para conversarmos sobre a campanha, posto que os propósitos eu já sei, bem como sei da base das exigências para o ingresso no sodalício maior (por sua natureza) das letras em Goiás.

Eu poderia, dirão alguns, esperar mais alguns dias para, em confronto com os demais nomes, manifestar a minha preferência; por duas vezes, fiz isso e não me dei bem: havia candidatos de igual estima e, na primeira ocasião, viajei, deixando de votar – numa outra, não marquei ninguém, posto que eram apenas dois e os dois me eram queridos por demais.

Assim, haja quem houver na disputa, o meu voto já tem marca e compromisso: é do poeta Ademir Hamu. Acaso surjam outros amigos, igualmente dignos de um espaço vitalício na Casa Colemar, merecerão igual delicadeza e atenção num próximo pleito. E é bom que fique claro: os meus mais-queridos precisam de, quando for o momento, apressar-se com os papéis, os livros a apresentar e o indispensável (e apressado pedido) para que, de igual maneira, eu declare o meu voto, evitando que outros candidatos percam tempo à minha procura.

 

*  *  *

Luiz de Aquino – Cadeira 10 da
Academia Goiana de Letras.



 

terça-feira, maio 02, 2023

José Xavier de Almeida Júnior (Xavier Júnior, poeta)

  Na Sessão Solene de 27 de abril de 2023, em que comemoramos 84 anos de criação da Academia Goiana de Letras, o presidente José Ubirajara Galli Vieira lançou duas antologias, uma em que biografamos os patronos de cada Cadeira do sodalício, outra em que focamos nos presidentes da Casa. 



PRESIDENTE JOSÉ XAVIER DE

ALMEIDA JÚNIOR 

De 26/10/1953 a 29/10/1957


A meu encargo, dados biográficos e considerações
sobre a obra de Xavier Júnior.

 

José Xavier de Almeida Júnior, o poeta Xavier Júnior, nasceu no Palácio Conde dos Arcos, na Cidade de Goiás, no dia 20 de outubro de 1902, filho de Amélia Augusta de Morais e Almeida e de José Xavier de Almeida, então governador de Goiás. Cursou o primário em Morrinhos e, como aluno interno, o Ginásio Diocesano de Uberaba. Na Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro), na capital federal, formou-se em Medicina. Antes, pensou em cursar Direito, talvez por sua vocação natural para as letras. Casou-se aos 39 anos com Domitila dos Santos Fleury de Almeida e teve quatro filhos.

Praticou a medicina por pouco mais de vinte anos. Uma queda de retina afastou-o da clínica, provocando uma aposentadoria precoce – e, assim, dedicou-se ele mais ainda à poesia e, mais tarde, também à crônica e à crítica literária.

Foi membro da Academia Goiana de Letras, membro fundador da Cadeira 13. Ocupou a presidência do sodalício no período de 26/10/1953 a 29/10/1957.

Em seus primeiros meses de vida, a família se transferiu para Petrópolis (RJ) e depois Juiz de Fora (MG), vindo a família a morar em Morrinhos, onde Xavier Júnior começou os estudos e, por conta disso, viveu outros ares até se formar, no Rio de Janeiro. A par dos estudos, dedicou-se à Poesia desde 1920. Viveu, portanto, um período de intensas transformações no Brasil e no mundo: as novidades do após-guerra, a partir de 1918; o golpe que afastou o presidente Washington Luís e impediu a posse do presidente eleito (Júlio Prestes), dando início à “era getulista”, que se estendeu por 15 anos, terminando ao mesmo tempo em que alemães e japoneses se rendiam aos aliados na Segunda Guerra; viveu as grandes inovações tecnológicas – o rádio, o cinema sem sonoridade e até as imensas telas coloridas do “cinemascope”, a televisão, a conquista do espaço, a miniaturização que possibilitou a popularização dos computadores e da telefonia celular.

Inevitável, pois, seria a evolução de sua literatura desde os primeiros versos, antes que completasse vinte anos, até as vésperas de seus últimos dias. E, ainda assim, por integrar a Academia Goiana de Letras e (mais ainda) a sua presidência, sofreu discriminações e críticas desairosas de uma geração mais nova.

A obra, porém, aí está. Sua obra e sua vida. Ao alcance dos críticos que, imagino, silenciam-se pelo arrependimento – mas tal rejeição está em A Poesia em Goiás (segunda edição em 1983, pela Editora da UFG), (pág. 112) do poeta e crítico literário Gilberto Mendonça Teles, o mais antigo membro da AGL (empossado em 11/03/1961).

Obra

Cesareana Segmentar (estudo estatístico) – Tese de doutoramento. Rio, Tipografia Leuzinger,1927.

A Viagem de Frei Trapie – Uberlândia, Tipografia Alvina, 1931.

A Canção do Planalto (poemas) – Rio, Tipografia Emiel, 1942.

Leituras e lembranças – Goiânia, Editora Oriente, 1971.

Apreciações sobre a poesia de Xavier Júnior e, em especial, sobre A Canção do Planalto
(Do livro A Poesia em Goiás , de Gilberto Mendonça Teles, segunda edição em 1983, pela Editora da UFG)

A Canção do Planalto fora publicado em 1937, em edições do jornal Voz do Sul, de Anápolis, sob o título À Margem da Vida. São poemas datados de 1920 a 1942, ano da nova publicação, obviamente, com o acréscimo de poemas publicados entre 1937 e o ano da nova edição.

Gilberto Mendonça Teles, na obra acima citada, refere-se a Xavier Júnior como “um dos principais poetas desse tempo” – referindo-se ao período pré-modernista em Goiás. Escreveu GMT: “Nesse livro, que revela um poeta também eclético, com acentos parnasianos, simbolistas e modernistas, Xavier Júnior nos dá bem as dimensões de sua arte, zelosamente construída em qualquer dos rumos ecléticos que se propunha. Ali encontramos pela primeira vez em Goiás a divulgação do haicai, o menor poema de forma fixa, de origem japonesa, de que se tem notícia nas literaturas. Uma análise estética de A Canção do Planalto nos confirma as influências apontadas, as quais, (...) longe de lhe diminuir a obra, dão-lhe uma natureza dinâmica que é afinal de contas o inconformismo, a preocupação com novos roteiros a seguir. Assim, o poema que dá o título ao livro, com arroubos épicos, lembra, pela concepção temática, o ‘Caçador de Esmeraldas’. A linguagem vocabular de muitos poemas corroboram ainda essa aproximação parnasiana, bastando lembrar o verso Sacode o corpo todo ao brônzeo duende, em que, a par de ‘corpo’ e ‘brônzeo’, há toda uma contenção de forças, cuja célula é o ditongo imperfeito de ‘brônzeo’, transmitindo ao verso uma como intensa vibratibilidade plástica, idealizada pelos parnasianos. Há, ainda, palavras como ‘argonautas’, títulos de poemas como ‘Holocausto da Volúpia’, ‘Salamandra’, ‘Pantápole’, e tantos outros que não deixam dúvida quanto à sua filiação literária”.

Gilberto discorre mais sobre o poeta Xavier Júnior: “Os acentos verdadeiramente modernistas são poucos e se encontram nos poemas citados na Antologia” (refere-se à seleção feita por ele próprio, GMT, sob os títulos As Chuvas de Ouro e Coração Vazio). E cita A. G. Ramos Jubé, que escreveu: “Xavier Júnior, ao lado de José Lopes Rodrigues, comandou o grupo de reação ao movimento modernista de 1942”.

Em seguida, traz o que publicou Vítor de Carvalho Ramos ao referir-se a Xavier Júnior: “No seu livro não dita velharias, sonetinhos inexpressivos, de temas banais, ao alcance de qualquer vate medíocre. Nada de monotonia e vulgaridade dos passadistas. Seus poemas, num ritmo novo, são espontâneos, palpitantes de emoção e tomam, por vezes, a cadência épica. Se, em algumas de suas poesias, o sentimento predominante é o da tristeza e do pessimismo, todavia esse sentimento é resignado e compreensivo, sem as exclamações e desespero dos retóricos. O lirismo de Xavier Júnior é em tom menor, sutil, emotivo, às vezes elegíaco. Sua musa é mais descritiva. Prefere refletir algo da graça e da ternura da alma da natureza”.

Também Leo Lynce, no jornal Araguaia, escreveu: “Xavier Júnior, que é, sem favor, a mais completa expressão da cultura literária goiana desses nossos dias de absorventes utilitarismos, dá-me a impressão que tive de Afrânio Peixoto e tenho de José Lins do Rego: mesmo com o consultório a transbordar de clientes e mesmo escrevendo sobre medicina, o doutor passa para o segundo plano e é sempre o escritor que interessa. A ideia da pena e não a da agulha de injeção é que perdura”.

Prosa ficcional

Ponta de Linha (romance) é obra pulicada postumamente pela família quando do centenário de nascimento do autor (2002). Escrito nos primeiros anos da década de 1940, permaneceu inédito, pois, por cerca de 60 anos. Xavier Júnior valeu-se, certamente, da chegada dos trilhos a Anápolis, em de 1937, onde viveu de 1935 a 1952.

A concepção do romance acontece ao tempo em que se construía Goiânia, que substituía a antiga capital de Goiás. O texto, de ótima linguagem e criatividade ficcional, prende o leitor até o final da trama, com uma história de amor e amancebamento de um jovem médico com uma fazendeira, numa pequenina cidade à beira do trem.

Leo Lynce (outra vez o nosso primeiro modernista) assim se expressou sobre Ponta de Linha:

(...) romance que tive a fortuna de ler em forma datilográfica e sem cuja publicação “desaparecerá, sem dúvida, nas diluições da tradição oral” uma das fases mais curiosas da vida goiana, ou melhor, da vida Anapolina (...)

O romance de Xavier Júnior, como o título está a indicar é um depoimento pessoal (desculpada a expressão jurídica), um documento filmado em tecnicolor, todo ele palpitante de vida e de interesse humano, a fixar o milagre operado pela via férrea, ou seja, a transformação da antiga Sant’Ana das Antas em moderna urbe, capital econômica e meca política do Estado – a portentosa Anápolis de hoje.

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Ainda nos anos de 1940, a obra, em seu original, recebeu críticas e louvações dos companheiros escritores da época; e ao ser lançada, mereceu referências exaltadas de um ex-aluno de Xavier Júnior – o escritor e também acadêmico José Asmar, bem como comentários favoráveis de tantos quanto tiveram acesso ao livro – eu inclusive. 

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Luiz de Aquino, membro da AGL,
 Cadeira 10.



Moisés Augusto de Santana

 Na Sessão Solene de 27 de abril de 2023, em que comemoramos 84 anos de criação da Academia Goiana de Letras, o presidente José Ubirajara Galli Vieira lançou duas antologias, uma em que biografamos os patronos de cada Cadeira do sodalício, outra em que focamos nos presidentes da Casa. 




MOISÉS AUGUSTO DE SANTANA
Patrono da Cadeira 10 da Academia Goiana de
Letras, assento de jornalistas literatos.


Coube-me a missão de discorrer sobre
Moisés Augusto de Santana.



Ainda pranteávamos Carmo Bernardes da Costa, falecido em abril de 1996, aos 80 anos completados em dezembro do ano anterior, quando a Academia Goiana de Letras, na época presidida pela mestra Maria do Rosário Cassimiro, procedeu à Sessão Magna da Saudade, com a Declaração de Vaga da Cadeira n° 10. Eleito em outubro daquele ano, vim a ser seu terceiro ocupante.

Albatênio Caiado de Godoy, advogado e jornalista, homem público e escritor, ocupara a Cadeira 10 desde a criação da AGL, em 1939. O sodalício foi das primeiras instituições culturais surgidas na nova capital, onde já se sediava o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, transferido da antiga capital e instalado em edificação própria na chamada Rua 82, que divide o Centro do Setor Sul, em Goiânia.

Ao criar-se a nossa Academia de Letras, coube à Cadeira 10, como Patrono, o nome do jornalista, professor, advogado e poeta Moisés Augusto Santana Neto, nascido no dia 7 de fevereiro de 1879 na capital do Estado – hoje, a Cidade de Goiás.

Aos 15 anos, quis ser militar. O temperamento irrequieto e a índole de homem livre fizeram-no andarilho. Sua biografia, sintética e muito clara no texto de Humberto Crispim Borges, no livro Retrato da Academia Goiana de Letras, ou a homenagem que lhe prestou o mesmo Crispim em discurso nesta Casa, mostra-nos um jovem autêntico, capaz de vaiar o Presidente da República e o Ministro da Guerra, fato que o afastou do corpo de alunos do Preparatório para a Escola Militar. É aceito depois, para novamente ser desligado por novo ato de indisciplina, sendo integrado à tropa e mandado para o Nordeste, tornando-se combatente aos fanáticos de Antônio Conselheiro em Canudos. Após o fim dessa campanha, dá baixa do serviço do Exército e torna-se escrivão de polícia em São Paulo.

A partir de então, sua vida é uma infindável sequência de registros anuais. Em 1898, inicia o curso de Direito e torna-se jornalista, restaurando o periódico A Nação, mas em 1899 já se realiza nova mudança de moradia ao transferir-se para Belém do Calvário, no interior de São Paulo.

Em 1900, depois de algumas andanças, retorna a Goiás, fixando-se em Santana das Antas, onde foi Procurador de Partes, casou-se com Cassiana Alves de Sousa e se fez professor e secretário do Conselho Municipal, chegando a exercer o cargo de Intendente. É dele a autoria de notas em jornais pelo novo nome do logradouro, após sugestão do deputado Abílio Wolney: Anápolis. Criou uma seção no jornal Lavoura e Comércio, de Uberaba, com o título de Vida goiana. Elegeu-se deputado por Pirenópolis, Corumbá, Antas e Bela Vista, mas não exerceu o mandato.

Em 1905, mudou-se para Vila Boa. Interinamente é Procurador da República e começou, então, um ritmo de vida que o faz mudar de cidade a cada ano, sempre envolvido nas lides jornalísticas. Em Catalão, fundou o Sul de Goiás. De volta à capital do Estado, assumiu a Secretário de Polícia, mas deixou o cargo e mudou-se para Curralinho (Itaberaí); depois, Morrinhos, onde advogava e codificava as leis municipais. Foi morar em Inhumas — vale registrar que é dele o novo topônimo da antiga Goiabeira —; de volta à capital, colaborou no jornal A Imprensa. Depois, foi diretor do Estado de Goiás e iniciou uma sistemática campanha contra o presidente Urbano Gouveia dos Santos, que acabou renunciando. Moisés foi também, nessa ocasião, Promotor Público da capital e professor de Pedagogia e Metodologia na Escola Normal. Voltou a morar em Catalão e, em seguida, Uberaba, onde lançou o Brasil Central.

A partir daí, ele morou em: Barbacena, Uberabinha (hoje, Uberlândia), de novo Barbacena, outra vez Catalão, outra vez mais Uberaba, Ribeirão Preto, Sacramento, Santa Rita do Paranaíba (a atual Itumbiara) e Bonfim (que hoje é Silvânia). Nesse período, que vai de 1913 a 1921, criou, dirigiu e colaborou em vários periódicos, fundou o que se pode chamar de o embrião do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás — a Sociedade Goiana de Geografia, em Santa Rita do Paranaíba, em 1918; com o nome de Sociedade Goiana de Geografia e História, instalou-a em Bonfim, em 1921; e, nesse mesmo ano, a 22 de outubro, a Sociedade ganha sede também no Rio de Janeiro.

Em 1922, volta a morar em Uberaba, onde foi nomeado bibliotecário da Câmara. Por ter publicado versos de sua autoria, mordazes, alusivos ao presidente da Câmara, o médico João Henrique Sampaio Vieira da Silva, foi por este interpelado na redação do Lavoura e Comércio. João Henrique, em atitude covarde, surpreende o jornalista, ferindo-o a bala. Essa tragédia aconteceu três dias após a nomeação, pelo mesmo João Henrique (médico, presidente do Conselho e Intendente Municipal interino, exercendo uma gestão marcada por irregularidades). Moisés Augusto de Santana faleceu na noite do dia seguinte.

 

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Meu primeiro contato com referenciais de Moisés Santana, além das evidentes homenagens para a posteridade, como nome de logradouros e estabelecimentos de ensino, se deu em 1965, ao ter seu neto homônimo como colega de trabalho, tanto como agentes de venda do livreiro Paulo Araújo quanto como aprendizes de bancários, admitidos por concurso, ao tempo em que essa era a prática para admissão nas instituições do Estado de Goiás. Moisés Santana Neto vinha de ser punido pelo Ato Institucional número 1, o que lhe interrompeu a carreira de oficial da Polícia Militar. Mais tarde, juiz de direito, seria alvo do Ato Institucional número 5, para depois ser reintegrado e tornar-se o mais polêmico de todos os que usaram a toga da magistratura de Goiás, repetindo a sina do avô, sempre afrontando o arbítrio pela Lei e a Justiça. Depois, eu já bancário, por várias ocasiões atendi o desembargador Paranaíba Pirapitinga Santana – filho do jornalista e pai do juiz – na agência do Banco do Estado de Goiás na Praça Cívica.

No prefácio ao livro Moisés Santana, vida e obra, obra já citada, Anatole Ramos escreveu:

No princípio (aqui em Goiás) era o Verbo. E o Verbo era Moisés Santana. Isso está, sans dire, neste livro de Humberto Crispim Borges, escritor de pulso (...) e pesquisador paciente e consciente. Moisés Santana não foi um jornalista qualquer, como as muitas figuras inexpressivas, que militaram na nossa incipiente e insipiente imprensa de fins do século passado e começo deste (refere-se aos séculos XIX e XX). Ele foi O Jornalista modelo, o padrão, para todos nós, profissionais desse ofício, hoje e sempre.

Anatole Ramos defende, nesse texto, que se tenha estátua de corpo inteiro, em pedra ou bronze, de Moisés Santana em praças, e que ele deveria estar presente “em todas as formaturas de jornalistas (...) em qualquer gênero de homenagem”. E cobra, a quem de direito (ou de dever) que se cuide de publicar tudo o que escreveu o maior dos nossos comunicadores: “Há tanta coisa ainda para se divulgar do que Moisés Santana escreveu que em valia, agora, editar-se tudo dele, do mais simples dos bilhetes ao mais longo dos discursos num tribunal de júri. Eis o que qualquer inteligente (modéstia à parte) há de desejar” (ao término da leitura da obra de Humberto Crispim Borges).

Em magnífica palestra, quando do centenário de nascimento de Moisés Santana, o acadêmico Jerônimo Geraldo de Queiroz foi lapidar:

Precoce ou prematuro, até mesmo para morrer – qual Hugo de Carvalho Ramos, Alceu e Higino Vitor Rodrigues, Gastão de Deus, Urbano Berquó, Egerineu Teixeira, Americano do Brasil, Joaquim Bonifácio, Antônio Félix de Bulhões Jardim – aos nove anos já era Moisés Augusto de Santana aprovado nos exames de primeiras letras; aos treze, em Instrução Religiosa, Português e Francês; aos 15 já é praça no 20° Batalhão de Infantaria; aos 16, já na Escola Militar da Praia Vermelha, donde é removido para o 5° Batalhão de Infantaria, no Recife, daí para a Bahia, daí para Canudos; aos 19, já jornaleia em A Nação, da capital paulista, e inicia o curso de Direito; aos 20 anos, procurador de partes em Goiás; aos 22, casa-se em conceituada família da então Vila Rica de Santana das Antas, hoje Anápolis. Daí por diante é jornalista habitual, professor público, Secretário do Conselho Municipal da Intendência de Antas, Escrivão de Órfãos, deputado estadual depurando antes da posse, Procurador interino da República, advogado, codificador das leis de Antas, Catalão, Morrinhos, Santa Rita do Paranaíba, hoje Itumbiara; Secretário de Polícia, Promotor Público, Procurador Fiscal, fundador, editor e diretor de jornais e mais jornais; escreve livros, colabora em revistas e periódicos de vários Estados – vindo a falecer em 21 de maio de 1922, pelo médico maranhense João Henrique Sampaio Vieira da Silva, por vermitagem do médico jornalista e político Boulanger Pucci, e lacaísmo do jornalista João de Minas e dobrez sérpea de Monsenhor Inácio, justo por ter tido sempre o despavoro de opugnar as autoridades arbitrárias e desonestas, e de testemunhas sempre a verdade, como dever sagrado do orador e do jornalista autêntico.

A visita do conselheiro (em termos atuais, vereador) e intendente (prefeito) à redação, com o propósito de interpelar Moisés Santana sobre uma nota, em versos, sobre questionável gestão de verba (João Henrique era acusado – e Moisés estava seguro quanto à veracidade do fato – de desviar nada menos que 12 contos de réis). Num poema, o nome Henrique surge, em modo de disfarce, trocado por Henriqueta, o que incomodou de tal forma o edil e médico maranhense. Insuflado por um colega médico, Boulanger Pucci (que era também jornalista e político), pelo jornalista João de Minas e o religioso católico Monsenhor Inácio Xavier da Silva, o ofendido sacou de um revólver e começa a disparar. O diretor do jornal, Quintiliano Jardim, tentou impedir o atentado, atracando-se com o agressor; Moisés Santana, mesmo atingido, conseguiu desarmar João Henrique que, no entrevero, acabou disparando contra si próprio, involuntariamente. O jornalista foi bem assistido por uma equipe médica de Uberaba, cujos membros se revezavam na missão, mas seus esforços apenas adiaram, por pouco mais de 24 horas, o desfecho trágico: Moisés Augusto de Santana faleceu às 21h39min do dia seguinte, domingo, 21 de maio de 1922. “O criminoso, julgado a 21 de junho de 22, foi absolvido, em decisão política. Juiz: Carlos Ferreira Tinoco; Promotor: Cartomano Coelho; Advogados de Defesa: Leopoldino de Oliveira e Tancredo Martins” – como consta do referido livro de Humberto Crispim, nas páginas, 53 e 54.

 

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Menos de uma semana antes, o escritor Coelho Neto esteve em Uberaba, onde proferiu palestra a 15 de maio. Sobre Moisés Augusto de Santana, informado do desenlace por Quintiliano Jardim, o autor de Esfinge e Os Pombos respondeu: “Que desgraça! O telegrama atordoou-me e mais desolado fiquei depois que li, no seu jornal, a minuciosa descrição do crime”.

No entender de Coelho Neto, Moisés Santana "foi o polemista mais audaz e vigoroso de seu tempo". O encontro dos dois autores, como se vê, deu-se às vésperas da dramática morte do mais notável dos jornalistas goianos. Ao término de seu lamento pela morte do amigo, o criador do epíteto Cidade Maravilhosa (para o Rio de Janeiro) pediu um exemplar do jornal, com toda a notícia do atentado e fatos envolventes, entre outros interesses, encerrando assim: “Quero conservá-lo como lembrança do formoso episódio que aí achei em pleno fulgor. Deus o tenha...”. (*)


 

(*) A referência era a um belíssimo texto de Moisés sob o título Taipoca, o nome tupi para o nosso ipê branco. O artigo – uma elegia à solene árvore de folhas brancas – saiu em seguida. Itaipoca é uma palavra indígena que define uma árvore da família das Bignoniáceas, com o nome científico de Tabebuia Odontodiscus, também chamada de ipê branco, taipoca e taipó. Itaipoca, em tupi-guarani significa, literalmente, “planta que estala – ou racha”. L.deA. 



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