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| Anatole Ramos, em foto colhida na Internet |
Lembrando
Anatole Ramos
Daqui
a poucos dias, festejarei um jubileu de prata. Há alguns anos tenho me dado ao
luxo de festejar coisas assim: aniversários marcantes. É prêmio divino da
longevidade que, ainda incipiente, anuncia-se para mim. Morrer, só se for por
acaso. Vamos ao texto:
Acabei de ler teus Poemas Selecionados e “diria de ti” (trecho de um dos poemas) que és o poeta do amor nas madrugadas. Deus te conserve, para mais
poemas nos dares desse amor que anda tão raro e dessas madrugadas que andam tão
desertas, porque essa é a hora em que os bandidos trabalham e os assaltantes
cavam o seu dinheirinho. Por falar nisso, como consegues atravessar as “horas
neutras da madrugada”, como dizia Rubem Braga, incólume? Tens, por acaso,
acordo com os marginais ou ficas invisível?
Você revive, em seus poemas, o velho tema
e não consegue ser chato nem demodê. Com isso consegue provar que sempre haverá
uma forma nova de se dizer coisas antigas de maneira agradável, gostosa de se
ler. Tem muito poeta por aí que
tem medo de fazer isso, para não sofrer críticas de vanguardeiros de araque,
cabotinos copiadores de – no meu modo de ver as coisas – vigaristas da
literatura, que abrem caminho a
cotoveladas e outras audaciosas manobras.
“Nosso bosque sem mais vida”deveria ser
lido em todas as escolas, em aulas de fundo cívico, para fazer a meninada
pensar e se formar na ideia de respeito ecológico.
Tenho certeza de que teus versos serão
apreciados muito pelos novos leitores que conquistares. E vais conquistar
muitos, especialmente leitoras.
Um abraço do ... (e
a data: 17/02/87).
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Semanas
antes, entreguei ao mestre Anatole Ramos um punhado de poemas – alguns inéditos, outros divulgados em livros e
jornais. Pretendia publicá-los numa brochura que integraria coletânea de uma
editora gaúcha. A ideia foi de um jovem poeta dos pampas, Antônio Ioris, cujo
pai era, na ocasião, produtor de soja no Sudoeste Goiano. O título, viu-se
acima, seria “Poemas Selecionados”. Anatole, no pedestal de sua ampla
experiência, adivinhou que, além da impecável revisão, eu queria dele um
prefácio – para mim, o modo de inserir o amigo na festa que sempre é um livro:
ele seria o convidado especial.
Ao entregar-me a folha datilografada, ele
riu:
- Usei dois tratamentos só para incomodar os
chatos.
Esse
livro não saiu. O poema “Nosso bosque sem mais vida”, destacado por ele, fora
publicado no jornal O Estado de Goiás,
onde marquei presença como
repórter e articulista, tendo por patrão o saudoso Nelson Raphaldini e por
editor o amigo querido, poeta inspirado e profissional competente Valdivino
Braz.
Parênteses.
Certamente, Anatole Ramos diria de Valdivino Braz o mesmo que falou de mim com
relação a um comportamento honesto na produção literária; é que Valdivino e eu,
entre uns raros outros, já naquela época éramos alvos das pedras da inveja,
disparadas contra nós justamente pelos tais “vanguardeiros de araque” ou
“vigaristas da literatura, que abrem caminho a cotoveladas e outras audaciosas manobras”.
Mês
que vem, esse texto completa 25 anos. Vale dizer que, naquelas décadas de 1960,
70 e 80, raríssimos escribas goianos deixaram de contar com os conselhos e
orientações do Mestre Anatole, um dos mais legítimos intelectuais que esta
terra de Leodegária de Jesus e José
J. Veiga conheceu. Os que não tiveram um prefácio escrito por ele foram
agraciados com suas crônicas impecáveis.
Se
Goiânia fosse uma cidade reconhecida e grata aos seus valores humanos, Anatole
certamente seria patrono de uma rua, praça ou escola, especialmente no Bairro
Feliz, logradouro que ele dividiu com a também inesquecível poeta Yeda Schmaltz
– outra a quem a municipalidade deve uma honraria (aliás, os débitos são
incontáveis, apesar da história ainda incipiente da cidade).
Somente
agora publico este texto, festejando, com as minhas amigas filhas e netas do
meu padrinho literário, a lembrança que não deixamos morrer.
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