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domingo, setembro 09, 2018

O que PX Silveira não disse


O que PX Silveira não disse



Li o artigo intitulado “Raquel Teixeira”, do ativista cultural PX Silveira. Gosto de ver suas críticas aos procedimentos das autoridades culturais, concordando com algumas delas e prevenindo-me ante outras. Contudo, nesse texto do último 5 de setembro ele falhou na apreciação dos feitos da professora Raquel Teixeira, especialmente no que toca à gestão do segmento cultural para o Estado.

A redução de vinte e tantas secretarias estaduais para apenas dez, no início do quarto mandato de Marconi Perillo (2015), foi um imperativo – ele, PX Silveira, bem definiu isso – ante a crise que já mostrava suas garras e urros em todo o país e resultou no quadro político dantesco que temos agora.

Sintetizando ao máximo: estranhei que, ao fim, o articulista bafejasse loas à ex-secretária da Educação, Cultura e Esporte justo após execrá-la como má gestora de Cultura – mas conclui admitindo que Raquel Teixeira terá seu voto nas eleições de outubro próximo e, caso seja da intenção dela, numa futura eleição para a Prefeitura de Goiânia.

Bem: ignorando o contraditório, e atento às críticas de PX à Lei Goyazes (não gosto desse nome, acho estranho esse plural e a grafia) e ao Fundo de Arte e Cultura, fui atrás. Corri ao Centro de Cultura Marieta Teles Machado e conversei com Sacha Eduardo Witkowski Ribeiro de Mello, o gestor do Fundo (não consegui falar com Vera Quixabeira, a atual gestora do programa de incentivo Lei Goyazes; ela estava em missão fora do prédio).

Deixo, então, informes sobre a lei de incentivo à cultura e destaco, aqui, o que colhi do competente Sacha. Não foi difícil nem demorado saber da realidade do FAC: ele é o “principal mecanismo de fomento e difusão da produção cultural do Estado”, o que permitiu um grande avanço na política cultural goiana, tornando-a mais democrática e plural.

O primeiro edital de fomento do Fundo Cultural ocorreu em 2013. De lá para cá foram 64 editais lançados, com 1.310 projetos aprovados, num montante de 108 milhões, 890 mil reais, atingindo mais de 100 municípios.

Vejamos o quadro das realizações antes que a Cultura passasse para a tutela da SEDUCE e os feitos sob a gestão de Raquel Teixeira:

Antes - 53 municípios atingidos; hoje - 108 municípios. Antes: 11 editais específicos; hoje: 22 editais específicos. Antes: pouco acesso da população; hoje: vários canais de atendimento e propagação (site próprio do FAC, reuniões sistemáticas e cinco e-mails para atendimento aos interessados, com média de 2.500 e-mails por mês). Antes: inscrição de projetos no módulo físico (papel); hoje: inscrição totalmente on-line, inclusive a prestação de contas.

Existe financiamento para toda a cadeia produtiva, desde o jovem artista inédito (edital de Novos Artistas) até o edital de Grandes Obras (Artistas Consagrados). Nos últimos dois anos, o FAC financia espaços culturais do interior e da capital: Moda, Gastronomia, Temática LGBT, Matriz Africana e vários outros. E somos o terceiro estado a ter Edital de Juventude.

E vem, então, o que o amigo PX Silveira cita como problema: o repasse é feito pela Secretaria da Fazenda, o que implica atrasos, conforme o fluxo financeiro. Mas, disse-me Sacha, “temos um olhar apurado para diminuir este impacto, e a SEDUCE determinou estudos junto à SEFAZ para propor um repasse nos moldes da Lei Goyazes – um fluxo mensal da verba que racionaliza a cobertura financeira”.

Sacha é artista da dança, produtor cultural e gestor. Formado em dança pela UFG, tem 20 anos de carreira na área. Iniciou na gestão cultural e pública no Colegiado Nacional da Dança e no Conselho Estadual de Cultura (GO). Ele conta: “Gestionei vários projetos e palestras sobre gestão cultural. Tenho amplo trânsito no setor cultural, tudo por causa da minha atuação no Conselho Estadual de Cultura”.

Em 2015, o interior do Estado participava em pouco mais de 20% de todo o recurso. Hoje, essa faixa é de 45% dos recursos do FAC, por determinação do governador Marconi na época e efetivado na gestão atual. O FAC é um dos quatro maiores fundos de cultura do país.

Gostei do artigo de PX e gostei ainda mais de estar com Sacha. Obtive esses esclarecimentos e, sem dúvida alguma, posso assegurar que o maior mérito de Raquel Teixeira o PX não citou – a competência em montar sua equipe. Constato isso com a ação de Sacha no FAC e com a nomeação recente de PX Silveira para a Superintendência Executiva de Cultura – da qual ele renunciou em função da designação de seu irmão, o competente e sempre bem realizado Flávio Peixoto, para titular da SEDUCE.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, agosto 19, 2018

Ouvindo rádio


Ouvindo rádio



Aqueles tempos após a II Guerra Mundial trouxeram mudanças radicais, sim. Contavam os professores (era o meu tempo de criança, os professores tinham um papel importante na vida das pessoas) que as guerras ensejavam grandes mudanças na tecnologia, na medicina e nos costumes.

Partiu de escritores e artistas americanos, chamados de beatniks (neologismo originário do inglês beat em fusão com uma partícula russa – nik – que aparecia em termos como Sputnik, lunik e outros), o movimento que contaminou a juventude – e o mundo nunca mais foi o mesmo

Falei do Sputnik – o satélite artificial soviético que assustou o mundo com o seu bipbipbip captado nos observatórios do mundo. Aquele aparelho é o símbolo máximo das novidades da época, mas, pelas ruas, os rádios a pilha se espalhavam rapidamente – como as calças rasgadas preferidas da juventude de agora. Os primeiros rádios pareciam um tijolo, pela forma de paralelepípedo e pela cor ocre dos estojos de couro grosso que os revestiam. O minúsculo fone de ouvido, assessório importante, chegou para durar mais que os rádios.

Pois é! Ouvia-se muito rádio. O rock and roll conquistava o mundo e a bossa nova também entrou na onda; nos estádios, os rádios eram indispensáveis. Os modelos menores, na dimensão de um maço de cigarro, eram trazidos nos bolsos das camisas. Notícias, música e radionovelas eram os motivos mais expressivos para os aficionados.

Era também o tempo dos grandes locutores. Mulheres e homens de vozes envolventes, com ótima dicção e uma busca incessante pelas melhores formas de texto e fala, com correção gramatical e vocabulário apropriado, capazes de ampliar o conhecimento dos ouvintes sobre quaisquer assuntos.

O rádio ainda é uma força no segmento da comunicação, mas hoje divide esse papel – essa importância – com outros veículos. O lamentável, para quem conhece um pouquinho da história desses últimos 60 e poucos anos, é presenciar a decadência do nível de aprendizado e da qualidade profissional que temos hoje.

Os apresentadores, âncoras, repórteres e outras personagens do mundo radiofônico (podemos incluir os da tevê) são orientados por excelentes instrumentos de trabalho, como o Manual de Redação da CBN (que ganhei de presente do meu filho Lucas). Infelizmente, os profissionais da rede noticiosa não leem o livro. Ou, se o leram (ou os que o leram) não assimilaram nada!

Regras gramaticais das mais simples são ignoradas solenemente. O uso abusivo de “muletas” – como a partícula “aí” – é uma tônica constante, com repetições insistentes. Palavras como “inclusive”, “insistem” e “interativo” transformam-se em “enclusive”, “ensistem” e “interativo”; e é corriqueiro falarem “indentidade, por exemplo.

Um repórter tenteou quatro vezes e não conseguiu pronunciar “poliomielite” – no que foi auxiliado pela locutora-apresentadora que, justificando (?) o erro, finalizou com a frase “tudo bem, tá dado o recado” (ah! O verbo estar, para eles, perdeu a primeira sílaba). Outro repórter, com a ênfase que se aplica em notícias de política, destacou que um candidato seria entrevistado “entre as 14 até as 16 horas”.

Noções de geografia e de história? Nada! Há poucos meses, na mesma CBN de Goiânia, uma repórter noticiou: “A polícia encontrou um corpo de mulher num córrego da Marginal Cascavel”.

Tudo isso poderia ser evitado se os profissionais respeitassem o que recomenda o Manual da própria rede. Ou que tivessem aprendido as regras ensinadas em sua formação escolar. Nas nada disso é levado em conta. Nem mesmo fato de, nas manhãs das segundas-feiras, um professor de Português prestar seus serviços à emissora.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



domingo, agosto 12, 2018

Avós são pais sem broncas


Avós são pais sem broncas


Era perto das 17 horas, isso de fim de tarde, e a única coisa a fazer até o pôr do sol era matar tempo. E matar tempo, quando se está nas ruas, sugere-nos os primórdios da humanidade. Ou seja, em lugar do bucólico banco de jardim, escolha prosaica de poucas décadas passadas, busquei a luminosa e colorida caverna das lojas sofisticadas – um xópin na Rua 9, no setor Oeste. Tomei café (caro demais para o tamanho da xícara), apreciei capas de livros, ouvi dos vendedores a linguagem das feiras-livres (vendedores de livros não entendem de livros – muito menos da linguagem esperada num ambiente de livraria).

Andei à toa, porque tinha de esperar o fim da tarde. Ocorreu-me comprar pães, que naquele empório são de ótima qualidade. Chamou-me a atenção uma linda menina em seus dez anos, devidamente assistida pela avó, que determinava à mãe da pequena (e filha dela, a avó):

– Dê-lhe cinco reais, ela quer sorvete.

Afastei-me – o assunto não era da minha conta, e não é de bom-tom ouvir conversas alheias. Porém, nos minutos seguintes passávamos pela caixa – atrás de mim, a mãe contestava:

-– Não vai tomar sorvete, isso não é bom.

E a avó:

– Ora, ela quer! E se ela quer, que mal há nisso? Você, nessa idade, tomava vários por dia. E comia dois big-mac de uma vez!

– Mas eu sofri muito, não lembra? Sofri muito para emagrecer – justificava a mãe da menina.

– Mas venceu, – tentava finalizar a avó, em defesa da neta – pois está aí muito bonita e magra!

Como se vê, não pude evitar... E não me limitei a ouvir. Dei logo um palpite, dirigindo-me à filha-mãe:

– Muito bem, você é mãe e lhe compete educar. Mas a avó, não, avó e avô existem para deseducar.

A vovó ficou feliz:

– Isso mesmo! Eu quero que minha neta não passe vontade, vamos lhe dar o sorvete!

A mãe, a essa altura, quase se dava por vencida, mas não ocultava o desagrado. Foi então que me senti intrometido e inconveniente, mas o riso era incontido e, parece-me, isso deixou a mãe mais aborrecida. Já não lhe bastava sentir-se mortadela de sanduíche, entre a própria mãe a e menina filha, aparecia este velho a se meter na questão.

Quando consegui dominar a risada, tentei me justificar:

– A senhora me perdoe dar pitacos e rir assim. Sinto que a pequenina vai ganhar a causa, pois tem a avó por advogada.

Paguei minha conta e me afastei impune. No íntimo, cuidava de fazer uma autoanálise e, obviamente, perdoava-me por entrar no que nem era da minha alçada – ou competência. Mas, principalmente, vestia a carapuça de avô – esse parente que tanto se faz feliz pelos netos.

E temos de continuar assim, sem dúvida! Afinal, em pouquíssimos anos, tantos os netos quanto os pais deles nos terão esquecido.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sexta-feira, agosto 03, 2018

Leodegária, poeta caldas-novense.



A poetisa caldas-novense Leodegária de Jesus, em crayon de Amaury Menezes.




Dia do Poeta caldas-novense



O poeta, a poeta. Há algumas décadas, os praticantes de poesia, mulheres e homens, acataram o conceito de Cecília Meireles que rompeu o rigor dos gêneros em “poeta, poetisa”. Ela escreveu essa pérola, que o cantor e compositor cearense Fagner vestiu de belíssima melodia: “Não sou alegre nem sou triste, sou poeta”.

De posse dessa senha, as poetisas brasileiras adotaram, em sua expressiva maioria, o masculino como comum de dois gêneros e temos “as poetas” em profusão, coma legitimidade de o termo masculino, com a terminação em “a”, permitir a posse do termo. Muitas são as poetas que preferem dizer-se poetisas, alegando sua força feminina. E as que adotam a forma que antes era restrita aos machos, alegam o mesmo direito. A poeta Leila Miccolis justifica: “Poeta. / Que em poetisa / todo mundo pisa”.

Esse preâmbulo é só para dizer que eu, poeta caldas-novense (como o adventício José Teófilo de Godoy, o saudoso Celso de Godoy, a franciscana Yashira e o premiadíssimo confrade Delernando Vieira), orgulho-me de contar que também é de Caldas Novas – nascida semanas antes do golpe que nos privou do Império – Leodegária de Jesus, a primeira mulher de Goiás a produzir poesia e publicar seus livros.


Sustentando meus argumentos nos trabalhos da professora e poetisa Darcy França Denófrio e do professor Basileu Toledo França, incomodei autoridades e acadêmicos de Caldas Novas para que nos manifestássemos com o mesmo orgulho para contar de nossa ilustre conterrânea. Assim, a presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, a musicista Stella Fleury, e a secretária de Cultura do município, professora Gabriela Azeredo Santos, apoiaram-me e pudemos contar com a simpatia dos vereadores Léo de Oliveira, Geraldo Pimenta e Saulo Inácio.

Resumindo, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade e o prefeito sancionou a Lei, que institui o Dia Municipal do Poeta em Caldas Novas – poeta para os dois gêneros – e a Comenda Leodegária de Jesus, a ser concedida por ocasião da data de 8 de agosto de cada ano, a partir deste 2018. O evento inaugural se dará, portanto, na próxima quarta-feira, 8 de agosto, às 19 horas, em sessão solene da Câmara.


A “memória curta” é algo que nos trai, sempre: não fossem os professores acima citados, Darcy e Basileu, a poeta Leodegária teria caído em esquecimento. A mídia contemporânea, despertada em 1965, quando Cora Coralina estreou com um livro de poemas, era a quarta poetisa goiana a fazê-lo. Ela foi antecedida, respectivamente, por sua amiga desde a adolescência Leodegária (com dois livros, em 1906 e 1928), a vila-boense Regina Lacera (1954) e a impecável Yeda Schmaltz (1964). Por isso enfatizo os autores que a biografaram, por suas obras de profunda pesquisa.


Dos arquivos da professora Darcy, destacam-se as cartas trocadas com Doralice, filha adotiva da nossa primeira poetisa, esclarecendo pontos que, por algum tempo, significavam dúvidas na vida de Leodegária, como um intenso e frustrado amor que motivou sua primeira obra, peça essa que recebeu críticas de vários pontos do país. Até mesmo Osório Duque Estrada expressou-se sobre Coroa de Lírios. 

Nos bastidores, evoco a lembrança de quem primeiro me falou sobre a poeta: o intelectual (músico, poeta, contista e ensaísta) José Pinto Neto; a jovem poetisa e assessora parlamentar Naftali Gomes; a bibliotecária Helena Carvalho, diretora da Biblioteca Municipal Professor Josino Bretas, ao lado dos membros da Academia local, em especial o escritor e jornalista Cristiano de Jesus.

Tanta informação – ou divagação – para tornar público esse evento, ao mesmo tempo em que provoco o público de Caldas Novas para comparecer e saber um pouco da nossa História e dos vultos que contribuem na construção da base cultural de nossa amada terrinha.

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Luiz de Aquino, jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras e da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas.
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domingo, julho 29, 2018

O tempora! O mores!


Em tempo de valores morais



Conversava com o escritor Edival Lourenço sobre coisas deste quotidiano – isso que entendemos ser o nosso tempo. Mas, claro, uma vida já vivida não se faz, nos conturbados anos desencadeados pela Revolução Industrial, de um só tempo. Nós, que nascemos nos anos 40 e 50 do século passado, sabemos bem das incríveis transformações da nossa curta existência terrena.

Fomos criados (ou seja, o tempo da nossa infância) sob a batuta de indiscutíveis e fortes valores morais. Coisas como lealdade, respeito, confiança e compromisso eram quase que sólidas, palpáveis – e tinham peso! Tínhamos sonhos de realizações materiais, porém as de cunho axiológico eram-nos mais importantes.

Num tempo mais adiante, fizemo-nos jovens. Não crescemos mais, os pelos no rosto exigiam um cuidado diário para “preservar a boa aparência” e cuidávamos de ter roupas adequadas para o trabalho e para o lazer – cada coisa a seu momento. Cuidávamos também das palavras a usar – afinal, temos um riquíssimo vocabulário à disposição e saber usá-lo fazia (naquele tempo) de cada qual um tipo bem definido.

Éramos cheios de ideais. A origem humilde no campo ou nas pequeninas cidades fazia de nós-moços pessoas crentes naquilo que nossos chefes ou patrões nos diziam. Edival e eu fomos bancários – e éramos convictos de que trabalhávamos em favor da sociedade, iludidos na cantilena doutrinária dos manuais e da “cultura” de nossas empresas.

Ao nos despedirmos do emprego, uns 30 anos após a alegria do primeiro dia, já sabíamos que não era bem assim. A experiência nos demonstrou que servíamos para explorar a sociedade que pensávamos beneficiar.

Sim, somos do tempo em que era dever da criança e do jovem, quando estudantes, respeitar os professores. Não se tratava de uma postura de vã disciplina, mas de procederes que deviam se multiplicar em sociedade pelo restante da vida. Aos pais e avós pedíamos bênçãos – e aos tios também. Aos vizinhos, oferecíamos bons-dias e sorrisos amigos, aos amigos oferecíamos fraternidade.

Contudo, as sementes do mal já existiam, é claro! Só não sabíamos que se multiplicariam de modo tão rápido e insidioso. Os tempos de agora abrigam pessoas da nossa mesma “safra”, mulheres e homens de muitas vivências e, acredito com segurança, formados na mesma doutrina que concebemos. Mas os sóis que raiaram para nós, nestas décadas de grandes transformações parecem diferentes. Ou não teríamos notícias tão decepcionantes nos noticiários de todos os dias, com trapalhadas e mazelas muito bem tramadas na calada da noite ou entre as paredes sólidas (e nem sempre mudas e surdas) dos gabinetes.

A conversa com o confrade Edival deixou-me pensativo: a nação brasileira espera, com ansiedade e confiança, atos de nobreza dos gabinetes do Judiciário, na antítese dos atos escandalosos que advêm dos palácios do Executivo e do Legislativo. Mas a cada novo habeas-corpus a fé nas togas cai alguns pontos.

A confiança se torna menor ante as “tratativas” dos três poderes, em Goiás, na arquitetura de mais um penduricalho judiciário, esse que presenteia os magistrados goianos com licença-prêmio – prêmio estranho para uma classe que já desfruta de dois meses de férias e oportunos recessos, sem considerar os salários nababescos e outros arranjos (como o tal auxílio-moradia, o auxílio-livros e a bolsa de estudos dos filhos).

Quando ainda esperávamos respostas a esse pacto harmonioso, a tevê e as rádios, secundadas pelos jornais e revistas, contam-nos da sanha despudorada, inescrupulosa, do tal Doutor Bumbum, que cobra cerca de 20 mil reais para aplicar silicone nas bundinhas magras de vaidosas insatisfeitas.

Tentei não comentar esses casos. Vivi a vida driblando dificuldades, superei problemas de várias naturezas e algumas vezes perdi o equilíbrio. Pensei que virava as páginas desses fatos e atos, imaginei que para cada mau médico dispomos de centenas de bons doutores. Mas... E a cúpula do Judiciário? Ficou claro, nas matérias jornalísticas, que a proposta fora aprovada, lá entre eles, por unanimidade. Contudo, para ser viabilizada, há que se tornar lei – e vamos ver se a Assembleia Legislativa será unânime. A sabedoria popular afirma que os deputados aprovarão, sim, por maioria.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Mundos Paralelos







Memórias de dois mundos


(Texto de apresentação para o livro
Mundos Paralelos
que saiu do prelo na últim
quinta-feira, 19/07/18, pela Kelps Editora).



Sei de mim, ou por mim, como a vida nos é servida em ciclos, em fases que atravessamos em seu próprio tempo. Minha infância foi povoada de feitos mil, aliás, os feitos possíveis numa minúscula cidade do interior de Goiás. Minhas lembranças remontam ao final da década de 1940, a época em que me tornei estudante para ser alfabetizado no colo da professora. E nunca me esqueci de muitos fatos – mas as contações orais de histórias nas noites, na rabeira dos borralhos, esses saraus marcam fortemente minha memória.

Vem de longe o meu gosto pela leitura e pelas canções. Esses gostares, aliados aos saraus a que me referi, são as bases do homem maduro que me tornei e acredito mesmo que posso ser, num futuro mediano, um velho contador de causos. Sim, um velho (daqui a alguns anos), porque contador de causos já o sou e isso se arrasta por um bom tempo.


Pois foi esta minha faceta que me prendeu a uma das histórias contadas, nas páginas das mídias sociais da Internet, por Bete França Jufer. Ela narra com candidez e ternura histórias de suas lembranças, coisas de uma jovem capital bucólica, uma Goiânia que, no decurso de sua infância e adolescência, marcava pouco mais de 20 anos desde a escolha do sítio onde se concretizou.

Bete França, feito moça, casou-se com Hanz e se tornou cidadã suíça. Gerou três filhos e, já iniciada no requintado ciclo do avonato, associou predicados ao aprendizado em casa e na escola, os bons exemplos dos pais professores, a experiência de mãe e mestra em terra nova-pátria para desaguar toda essa afluência num novo ofício – o da escrita em narrativas adoráveis!

Costumo dizer que só se é bom cronista quem tem a competência de “temperar” a narrativa com pitadas de poesia. E poesia, no caso, não se resume à forma, mas sim à essência do texto. Poesia, num conceito melhor elaborado, é a alma das artes – e dos feitos humanos. Bete Jufer é escritora de bom fôlego e refinado talento – isso o leitor descobrirá em pouco, mal inicie a leitura deste Mundos Paralelos. Ela sabe bem dar ao texto de suas narrativas os toques suaves da essência, como o alecrim nos assados ou o ponto ideal das ervas finas no bom molho.

As lembranças da vida nos anos de 50 e 60 (essas referências, em todo o livro, remontam, obviamente, ao século passado) unem-se às vivências e observações da autora ao ambiente de sua vida nos últimos 30 e poucos anos – as montanhas e bosques da Suíça, inevitavelmente pontilhados de gente: um povo de muitas marcas admiráveis por sua história, sua cultura variada e bela, seus costumes saudavelmente amadurecidos e que hão de nos servir de exemplos.

Estes aspectos, que me encantaram, hão de agradar também os leitores – entre os quais, eu sei, estarão amigos de infância e de juventude da autora, bem como os familiares... Enfim, os goianienses, nativos ou adventícios, que viveram a nossa cidade daqueles tempos de Cine Goiânia, Jóquei Clube, Rua 8, Ateneu e Liceu, Campinas e Setor Oeste, Instituto França e IEG... Ora, um emaranhado de locais e fatos que constituem a nossa saudade.

Da saudade, aprendi ainda moço, devemos extrair o que é bom – o que dói, há de permanecer nos umbrais dos arquivos a serem esquecidos.

Orgulha-me ter sido dos primeiros entre os privilegiados, isto é, os que puderam conhecer antecipadamente estas narrativas de Bete França Jufer. Obrigado, Bete! Você é bem-vinda a este mundo de escribas sonhadores, de saudosistas conscientes – e felizes!


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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

domingo, julho 01, 2018

Questão de valores







Meu tio e o relógio 



Corria o ano da graça de mil novecentos e sessenta e não-me-lembro. Amigos leitores, esse introito aí foi feito para provocar o Ranulfo Borges, ele que me qualificou de saudosista, no melhor estilo do meu amigo José Mendonça Teles, hábil nas crônicas sobre a Campininha das Flores, que de cidade aceitou tornar-se o primeiro bairro de Goiânia; e eu exercitei a saudade ao recordar o Rio de eu-menino, antes do Estado da Guanabara, da fusão e do tráfico.

Mas era mil novecentos e sessenta e tantos e – lá vai mais saudade, Ranulfo! – e era Caldas Novas. 

Gente! Caldas Novas era muito mais bonitinha com as ruas de cascalho e as casas com fachadas personalizadas. Eu juro que era! Hoje, cada jardim virou um conjunto de três ou cinco lojinhas. A vida acontecia: os namoros, os fuxicos, os... Claro: acontecia o que a gente via e o que a gente sabia. Os fatos se davam na calada da noite. E a noite, então, era muito mais calada: os namorados não se beijavam diante dos outros e os moços não contavam ter beijado as namoradas; pais, mães, tios e avós vigiavam-nos todo o tempo e a falta de vigilância resultava, sempre, em desvirginamento precoce, o que só se sabia na hipótese de uma gravidez indisfarçável ou diante de um inefável flagrante.

Mesmo naquela época, o sexo proibido não era exclusividade dos moços e solteiros, não. O sexo doméstico – ou familiar – era tido como monótono, daí o nome “papai-mamãe”, que dispensa explicações. Havia os homens sem-vergonha, os que cometiam seus pecados com... com... Com moças pudicas ou recatadas senhoras da mais fina sociedade. Sim, que ninguém é besta de titular uma aparente donzela de galinha, ou uma mãe de família de vagabunda. Então, esses homens ímprobos, esses maridos infiéis, cometiam seus desatinos, dando vazão aos seus “instintos bestiais” com respeitáveis donzelas ou mães de família cujos maridos e filhos, obviamente, estavam na lida, na fazenda.

Um desses desavergonhados era meu tio. E, exercendo sem o saber o pecaminoso tráfico de influência, invadia o quintal da delegacia de polícia para saltar o muro e amancebar-se, furtivamente, às primeiras horas da noite, com uma senhora impecável e piedosa. 

Um dia, muito afoito (era a chegada), deixou cair o relógio de pulso e não notou. Mas gostava do relógio; tanto que pregou em sua loja um cartaz: “Perdi um relógio Mido, de pulso. Gratifico com mil cruzeiros” etc. Pouco depois, chega ao comércio do titio ninguém menos que Romano Crisóstomo, o delegado. Em silêncio, pôs o relógio sobre o balcão; olhava os olhos do meu tio e o cartaz na parede. Alguns dos presentes, mais amigos que fregueses, assistiam e teciam breves comentários. 

Era conhecida também como "abobrinha"...

O tio foi à gaveta, pegou uma nota com a cara de Cabral e indagou:

– Onde estava o relógio?

E Romano:

– Junto ao muro da casa da Dona...

Nem concluiu a frase! Meu tio devolveu-lhe o objeto e pronunciou, solenemente:

Não é o meu! – E guardou os mil cruzeiros. 

Preferiu perder o que lhe era um mimo para não expor a amada clandestina.

 (Fotos colhidas na Internet)


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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras