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terça-feira, julho 21, 2020

BECAPE DA MEMÓRIA


BECAPE DA MEMÓRIA 


 
Comentando com o autor







O escritor Herondes Cezar, nascido em Piracanjuba, berço de Léo Lynce e João Accioly, traz-nos um livro de memórias em que revive lembranças da infância na zona rural, até que a família se muda para a cidade. Estudante, comerciário, professor e bancário, bacharel em direito e crítico de cinema - tais vivencias vêm a ser ingredientes para o exercício perfeccionista da escrita. Devorei o livro em três ou quatro etapas, a poucas horas de intervalo e deliciei-me. 
Seguem, pois, para o autor, as minhas impressões, considerando que nascemos a intervalo de poucos dias e em municípios vizinhos, naqueles tempos do término da Segunda Guerra Mundial. 







Herondes, concluí a leitura! Excelente, meu amigo!

Suas memórias foram tão nitidamente registradas que nos passam, a todo passo, uma plasticidade incrível! Tanto nos cenários dominantes de sua infância quanto nas andanças por Nova Iorque, seu talento de narrador conduz o leitor pela mão, como um parceiro de cada aventura.

Solicitei-lhe o livro por dois motivos - a minha curiosidade em lê-lo e uma certa ansiedade por re-encontrar o nosso bom e velho amigo Zé ("Pinto às ordens", lembra disso?). Não resisti à tentação de ler para minha mulher a história dos livros emprestados.

São muitas e muitas passagens maravilhosas! Você tem um poder de realçar as pessoas... Bem, uma surpresa, que me encheu os olhos de lágrimas, foi o texto sobre mim. Fiquei entre rir e chorar, não consegui lê-lo em viva voz - passei o livro para Mary Anne, que gostou muito!

Minha mulher é filha de um locutor que marcou época em Goiânia, Antônio Gregório, conhecido na intimidade por Gorinho ou Gorim. Ele atuou em “O Azarento”, no qual você foi peça importante para viabilizar o set em Piracanjuba.

Um registro: no período de 1962 (ano em que entrou em vigor a LDB que tirou o Latim do ginásio e flexibilizou demais os currículos escolares) até 1972 (quando os militares impuseram uma reforma do ensino que uniu o primário ao ginásio, criando o Ensino de Primeiro Grau, e acabou com Científico e Clássico, pondo em seu lugar o Ensino de Segundo Grau), o nome Colegial saiu do circuito; só em 1996, com a nova LDB do FHC, foi que surgiram os nomes Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Dei boas risadas em alguns momentos... Especialmente na sua gafe com Ronaldo Cagiano, hehehehehehe. Emocionei-me com suas lembranças de fatos comuns em nossas vidas e com pessoas também comuns tanto na sua quanto na minha jornada, como Roberto Fleury Curado, Willy Pereira da Silva, Prof. Gomes Filho (prefaciou o meu primeiro livro), Prof. Hélio Furtado do Amaral, Taylor Oriente e tantas mais! A Magda, de sua mocidade em Piracanjuba, é a cantora Maguinha?

Você conta também do Concurso Sérgio Porto de Crônicas, em que o Roberto Fleury me colocou no júri. Notável como você descreveu o Roberto de um modo tão sucinto e pleno, ao mesmo tempo. A propósito, uma das vezes em que o Zé Pinto o citou para mim foi com a revista Ficção em mãos, que você lhe passou para que ele me entregasse. Ainda a tenho aqui nos meus alfarrábios.

E, moço, como você reuniu coragem para aquela "campana" no Pier 16, hem? Ah, eu não ficaria sozinho num lugar daqules, numa cidade desconhecida, jamais! Teria ido não só ao Cirque du Soleil, mas até ao Beto Carreiro!

E, enfim, seus artigos de crítica... Olha, eu gostaria muito de detalhar mais passagens, especialmente de sua infância, mas (poxa) estou falando com o autor e já o aborreço demais por realçar alguns momentos.

Seus artigos são, igualmente, de leitura gostosa, deslizantes - e cheia de visgo, pois prende-nos atá a última palavra. Aqui, quero dizer, nos artigos, sai de cena o cronista, o homem da narrativa, dando a vez (e a voz) ao crítico, o analista, o observador por excelência. Neste item, meu amigo, não tenho o que comentar, é seara em que sou estranho (e isto me lembra um provérbio da nossa infância, que você recorda na voz de sua mãe: Boi em pasto alheio berra como vaca). Não tenho envergadura para tal apreciação – já o Lucas, meu filho mais novo, é, como você, apaixonado por cinema.

Porém, fora do livro, quero dizer, feito uma feliz pichação na parede de lado, aquela carta da Sevilha Nogueira para você. Um depoimento desses, meu caríssimo, vale por um diploma registrado no MEC! Meus parabéns!

E, ainda, devo dizer que senti falta do inestimável autógrafo! Mas não o cobro, o mimo daquele texto sobre o poeta de boa memória vale por ele (mas não sei porque acham que tenho boa memória).

Hidrolândia, 19 de julho de 2020  


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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras


quarta-feira, julho 08, 2020

E por falar em saudade











E por falar em saudade...


Há 40 anos o Brasil perdia Vinícius de Moraes. Costumo evitar a palavra perda quando da morte de algum grande vulto, mas se o desenlace acontece enquanto a pessoa vive uma fase produtiva, e dela seus admiradores e parceiros ainda esperam muita coisa – aí, sim, a sensação de perda é inevitável! Lembro que o genial Dorival Caymmi deixou a vida após os 90 anos e, ainda que a comoção nacional tenha sido intensa, conclamei meus amigos e leitores a agradecer ao céu, que o cedeu a nós por quase um século. Mas Vinícius de Moraes se foi “antes do combinado”, como costuma dizer Rolando Boldrin: tinha 66 anos, naquele 9 de julho de 1980.

Uma coincidência: 14 anos e cinco meses após, seu parceiro Tom Jobim finalizou a jornada terrena, aos 66 anos também.



Vinícius tornou-se conhecido antes de completar 20 anos, tido como um prodígio na poesia. A fama precoce, definiu o próprio poeta, não lhe fez bem: “Me deu uma certa soberba, eu achava que era um poeta genial, essas coisas. Mas depois – contou ele no que se tem como a última entrevista, ao jornalista Narceu de Almeida Filho –, uns dois ou três críticos me puseram no meu lugar, direitinho. Um deles foi João Ribeiro (professor no Colégio Pedro II). Ele me fez uma crítica muito boa, mas também muito severa, como quem diz: Olha, menino, trabalhe mais com o verso livre, os seus sonetos são muito bons!”.

O outro crítico era Manuel Bandeira – poeta e, como João Ribeiro, professor no Colégio Pedro II – que também foi severo ao analisar os poemas do jovem Vinícius. E num momento posterior, Otávio Tarquínio de Sousa “escreveu também um rodapé muito bom, me colocando em minha devida posição. O Mário de Andrade, igualmente, me deu umas porradas muito bem dadas. Isso tudo me ajudou muito”, declarou o poetinha.


Em outubro de 1939, a Grande Guerra eclodira na Europa. A Universidade de Oxford dispensou seus alunos, dentre eles o bolsista brasileirinho Vinícius de Moraes, que aguardou em Portugal o navio em que voltaria ao Brasil. E foi lá, em Estoril, que ele compôs o Soneto da Fidelidade:

         De tudo ao meu amor serei atento
         antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto...

Certamente, naquele tempo de espera o sonetista não imaginaria que os versos finais
Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”

seriam infinitamente repetidos tanto nas declamações em saraus e salas de aula quanto nas cantadas improvisadas e milhares de situações pelo mundo lusófono.

Tinha eu 10 anos de idade quando, recém chegado ao Rio de Janeiro, ouvi uma música surpreendente; o nome: A Felicidade; e os primeiros versos eram

                Tristeza não tem fim / Felicidade, sim.

A voz, salvo engano, era de Agostinho dos Santos. A canção, com melodia de Tom Jobim, tomou conta da cidade e veio a ser o primeiro sucesso internacional da dupla. E foi tema do filme Orfeu Negro, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e, ainda, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo o primeiro filme em língua portuguesa a ganhar um Oscar – em qualquer categoria!

Também naqueles anos de 1950, o poetinha Vinícius de Morais tomou por parceiro ninguém menos que J. S. Bach! A histórica Jesus, Alegria dos Homens ganhou ritmo de marcha-rancho e teve seu nome mudado para Rancho das Flores:

        Entre as prendas com que a natureza
        Alegrou este mundo onde há tanta tristeza
       A beleza das flores realça em primeiro lugar...


Para mim – garoto sensível e com o agravamento da saudade dos pais e irmãos, que ficaram em Caldas Novas – as surpresas não acabavam. Uma das mais marcantes foi, em 1959, quando João Gilberto gravou Chega de Saudade, ostentando no rótulo de um setenta-e-oito-rotações o gênero “bossa nova” pela primeira vez.



Àquela altura, nos meus 14 anos incompletos, descobri que, por mais encantadoras que fossem as canções de Vinícius, não deveria mais me surpreender.


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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, maio 13, 2020

A Poesia e a dor

Líliam Maial e eu

A Poesia e a dor

Luiz de Aquino

Bumba, o morro dos detritos

Estava no Rio de Janeiro há poucos meses, tinha dez ou onze anos. De Caldas Novas, trazia a lembrança de apenas uma grande cheia, quando o Córrego das Caldas avolumou-se e segurou em seu leito um automóvel que o atravessava... A ponte, de madeira, caíra uns dias antes e uma torrente inusitada, proveniente da retenção das águas por galhadas, fez parar o veículo. A família ocupante foi salva por uns ciganos acampados ali perto.

Ruas cheias, isso eu nunca vira. Afinal, a minha pequenina cidade estava, naquela época inteirinha na crista divisora das pequenas vertentes. E a rua cheia, para a minha descoberta, lá em Marechal Hermes, subúrbio da Central do Brasil, era a Jorge Schimidt, que cobre um pequeno caudal . Nunca entendi porque as prefeituras fazem ruas nas beiras dos córregos, canalizam-nos e depois os cobrem para que a Natureza, exigente, reclame seu espaço e dê vazão às tragédias.

Massa de lixo que virou usina de gás e chorume

Ando chorando demais, este ano. Minas e São Paulo, o Sul e Angra dos Reis, Nordeste e Baixada Fluminense, tanto Brasil mais sob a ação punitiva das chuvas e das cheias. Agora, a Belacap, como a chamávamos ao tempo de JK, é o alvo das ressacas do mar e do açoite das chuvas, ponto de convergência da quente umidade provinda da Amazônia e da massa fria que veio do Pólo Sul. Chuvas descomunais, ondas grandes e ameaçadoras, o chão encharcado, os morros de granito, a lama deslizante, o susto, a lágrima, a dor.

Agora, as chuvas molharam cenários da minha lembrança, chicoteando os ares e o chão, alagando tudo, obstruindo túneis e estradas, isolando bairros e praias, atravessando a grande ponte sobre a Baía de Guanabara. As águas tinham um acerto de contas com Niterói e redondezas. Dezenas de casas desmontadas e soterradas, vidas desaparecidas, sobreviventes e heróis apalermados, em choque.

Foi aí que veio a poesia, ou seja, a linguagem da alma humana. E veio de lá, do Rio de Janeiro, da lavra de poetisa Lilian Maial envia-me o seu pranto versejado:

Eu Tenho um Rio

eu tenho um rio que brota de dentro

e traz à tona o que foi sedimentar

tenho margens estreitas, correnteza furiosa

sem escolhas, apenas desaguar

invado e erodo, aliso cascalhos

até escorregar no limo do verbo

eu tenho um rio que leva as paredes

que se erguem em meio ao lixão da poesia

e soterra a palavra viva

eu tenho um rio de inundadas faces

e chovo poemas de sangue

eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado

e expio a falta da lembrança do teu rosto

Eu acabara de ver o noticiário, a lama preta no Morro do Bumba, em Niterói. Meus olhos já se habituaram às lágrimas ante a dor de tantos. Se já sentia aquele mal-estar que é a impotência ante o trágico, emocionou-me o poema de Lilian, e cuidei de lhe responder assim:

Lama e Lágrima

Brotava de mim um poema choroso,

de chuva de letras e lágrimas vírgulas.

Um veio de triste manchava meus olhos

à lama escura de um lixão esquecido.

Chorei plástico e lata, indefinido orgânico,

e fiz brotar o chorume na raiz das casas.

Eu não chorei um rio, mas o Rio de tantos

corações e janeiros, desde Sá e Araribóia.

Um rio de cá, o outro de lá e Itaipu.

Não era um céu, mas meus olhos; o verso,

um claro de lama e pedras sem verde.

E um rastro de sal na lama e na lágrima.

A bênção, Bumba (meu morro)!

Resgate: heroísmo e solidariedade

Ficam assim, nossos poemas, no modo que sugeriu Noel Rosa, em “feitio de oração”. Leiam-nos também, caso queiram, nesse endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/duetos/2185711.

E queiram, ainda, emprestar seus gestos gentis de solidariedade, enviando o que for possível a cada um em auxílio às vítimas desse infortúnio.

Deus lhes pague!

Fale comigo: poetaluizdeaquino@gmail.com

domingo, maio 10, 2020

A milícia da bandeira


A milícia da bandeira



Ricardo Kotscho começou assim seu artigo "O Jair que há em nós": Bolsonaro dá voz ao que há de pior nos brasileiros
 Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!’ Apoplético, Bolsonaro já desceu do carro aos berros nesta terça-feira, chacoalhando um exemplar da Folha nas mãos, e partiu para cima dos jornalistas no ‘cercadinho’ do Alvorada, o seu palanque permanente para falar aos devotos da seita e atacar a imprensa” (veja mais em  https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2020/05/05/o-jair-que-ha-um-nos-bolsonaro-libera-o-que-ha-de-pior-nos-brasileiros.htm/).

Muita coisa aconteceu nos quatro dias entre a terça-feira e este final de manhã domingueira em que paro para formalizar um tiquinho do que pensei estes dias, ante uma avalanche de bobices e trapalhadas do “mito” e de seu rebanho fiel e cego.

Órgãos de investigação localizaram quem-é-quem na “cabeceira” do gado – aquele que se disse detentor de três graduações, que morou “no país dessa bandeira aí” (dos EUA ou de Israel? Pelo grau de ignorância, é bem provável que na terra do Tio Sam, a preferida pelos ignorantes que se embriagam da alegria de “subservir”, atuando em atividades nas quais os americanos nativos não põem as mãos nem os pés). E ficou sabido que o homem, um tal Renan Sena, era remunerado no ministério da Mulher e Direitos Humanos, sob as ordens de Dona Damares. Outra, aquela da foto em que pareceu ser a imagem “consagrada” da Morte, uma tal Marluce, empresária de Palmas (TO) que, ante a situação de total inadimplência e negativação, abandou seus afazeres e foi para Brasília assumir papel de agitadora no séquito bolsonarista – e, na primeira ocasião após o 1° de Maio em que agrediu verbalmente enfermeiros em manifestação, foi mentir para o presidente no cercadinho do Alvorada.

Outra das lideranças desse acampamento é Sara Winter, “ex feminista” que defende bandeiras neonazistas. Na Avenida Paulista, paisagem obrigatória paulistana, um grupo apresentava um esquete, há pouco, neste domingo 10 de maio, ridicularizando as mortes que enlutam onze mil famílias e dezenas de amigos das vítimas irreversíveis desta pandemia, com apologia ao líder “nosso presidente”.

No meio, a malfadada performance da atriz ex global Regina Duarte, ora num emprego temporário na cúpula federal como titular da subpasta da Cultura, agregada ao ministério do Turismo. A propósito, manter a Cultura atrelada ao Turismo é algo como fazer de cada segmento uma paisagem e de cada ator da diversidade cultural brasileira uma árvore, um pássaro, um jacaré ou boto, pirarucu ou mico-leão-dourado... Coisas de que o Sinistro do Meio Ambiente odeia, tanto quanto o presidente e o Sinistro da Economia também odeiam.

A eterna namoradinha do Brasil, diante dos anos acumulados – tantos quanto os meus – tornou-se numa espécie de ressaca moral (os notívagos irresponsáveis e, algumas vezes, carentes nas madrugadas entendem bem do que estou falando). Ou: “Regina não é mais aquela, tarilaralarilaaaa...”. Isso quanto à aparência da senhora-propaganda de “arroz e feijão Cristal, pureza em forma de grãos”.

Aliás, seguindo as boas práticas de propaganda, a indústria goiana devia mudar tudo, ainda que a protagonista atual, a filha de Regina, não esteja – ao menos até agora – comprometida com as desditas da famosa mãe.

E, agora quase concluindo, vimos que os drones são instrumentos de grandes revelações. Manifestações do sábado, 9 de maio, figuraram-se nas cenas dos drones como uns raros gatos pingados tentando sensibilizar os incautos contumazes. Debalde...

A bandeira do Brasil, tão bela e amada em grandes momentos de nossas vidas, no esporte e no civismo, foi rebaixada a papel de bombom. Sim, aquele papel celofane, brilhante e colorido, sedutor aos olhos da criançada que adora doces.

E, de fato, cores e brilhos são sempre um grande atrativo. Desde a minha infância, os invólucros coloridos dos bombons associavam visual a sabor – coisas irresistíveis, como tremular “verde-louro dessa flâmula”. Contudo, a julgar pelos propósitos confessos em seus estandartes e faixas, o que se propunha eram coisas em indiscutível afronta à Carta Magna – fechamento do Congresso e da Justiça, golpe militar com Bolsonaro – e, de quebra, em algumas faixas era expressa a vontade bolsonarista de exterminar a esquerda. Para eles, que sequer sabem o que é comunismo, toda pessoa que se lhes oponha ou que não manifeste falas e atitudes favoráveis ao “mito” é “comunista”.

Enfim, o triste de tudo isso: embrulham-se em belíssima embalagem, a nossa bandeira, e se sentem bombons. E, com isso, maculam nosso lábaro duas vezes – ao fazer dele a sua capa, quando não passam de bombons de merda!


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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.


domingo, maio 03, 2020

Nada de polícia...


Nada de polícia, nem um mísero apito
da segurança que fica na Praça dos Três Poderes”

A pobreza do vocabulário levou toda uma horda, milhões de pessoas de pouca leitura – ainda que alguns detendo boa parte da fortuna brasileira concentrada no pico da pirâmide social – a confundir “herói” com “mito”. Em boa parte, a culpa é da tevê, em especial dos jornalistas esportivos, que chamam de heróis um bom centroavante, um zagueiro oportunista que “confere” finalizações ou ainda um goleiro que impede o êxito dos adversários.

A História do Brasil nos dá conta de muitos heróis – pessoas que lutam por uma causa nobre, um objetivo em favor de sua comunidade, de sua nação. Vejamos uns poucos:

- Tiradentes, ao ser condenado à forca por seu papel na tentativa da Inconfidência Mineira, declarou: “Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria”.

- À margem do Riacho Ipiranga, o Príncipe Regente Pedro de Alcântara proclamou: “Independência ou morte!”.

- Cândido Rondon, marechal, herói que levou a comunicação telegráfica aos sertões e às matas, contendo o ímpeto de um jovem tenente que apontava o fuzil contra um grupo de índios, determinou: “Morrer se preciso for; matar, nunca!”.

- “Deus poupou-me do sentimento do medo”, presidente Juscelino Kubitschek.

Esses foram, de fato, heróis. Porém, o presidente Jair Messias Bolsonaro bradou: “E daí?”, consagrando-se como Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

Mas esses jornalistas, como os “ativistas” ou “militantes” da claque de Bolsonaro, não sabem nada de heróis. São como membros de “torcidas organizadas”, os primeiros por não disporem de um bom vocabulário (coisas que se consegue com muita leitura de obras boas) e os outros por não conhecerem de política como ciência social (coisa que se aprende também com muita leitura de obras boas).

Esses jornalistas de pouco alfabeto e grandes ambições, contemplados com remunerações astronômicas, em contraponto à paga que se dá aos repórteres de outras áreas do ofício, coincidentemente alinham-se com a militância que se embrulha na Bandeira do Brasil nas ruas – como se o nosso Pavilhão fosse o xale da vovó ou a capa de Robin, o menino-prodígio, o zero-dois do Batman.

Nos últimos dias de abril, um desses comentaristas esportivos também de pouca leitura – como os demais, ainda que um dos expoentes da TV Globo – censurou o craque Raí, um dos ícones da Copa do Tetra (1994), por ter criticado Bolsonaro. Esse jornalista, agora em função de cartola, devia se valer dos altos ganhos e tirar algumas horas diárias para a leitura – desde que orientada – para aprimorar-se como pessoa. Se assim o fizer, descobrirá que houve, sim, ditadura no Brasil e que foi sangrenta, censora, repressora e, ao contrário do que afirmam seus acólitos, corrupta. 

Saberá, também, que existe, sim, uma pandemia, um mal que assola toda a humanidade sensível e perceptiva – vasto segmento humano a que esse moço não pertence – e que, no Brasil, ao contrário do que tenta provar Jair Bolsonaro, já vitimou mais de seis mil pessoas. Raí traz a verve no DNA: é o irmão mais novo do saudoso Sócrates e aos pés de ambos Caio Ribeiro jamais chegou como jogador e, tudo indica, não chegará como cidadão.

* * *

Nada de polícia - Na praça dos Três Poderes, em Brasília, um grupo de profissionais da Saúde manifestava-se – silenciosamente e a distância segura, como dizem as regras de distanciamento social ante a pandemia – quando, súbito, surgiu um sujeito enorme, ou seja, de altura superior à mediana e largura física proporcional à sua grossura – melhor dizendo, sua nada fina educação. Aos berros, trajando o tradicional uniforme da “torcida canarinho”, xingava os manifestantes e cuspia em seus rostos, buscando reação para justificar a agressão física. Tratava-se, tal sujeito, de Renan Sena, conhecido pela brutalidade ostentada nas manifestações em torno da lenda, ou seja, o “mito”.

O Pavilhão Nacional ora é desfraldado, ora serve de capa e até mesmo de lenço ou guardanapo para limpar a baba ou os perdigotos. Foi então que surgiu aquela bonita jovem, pedalando sua bicicleta. Acenou para os manifestantes – parados e silentes, distantes entre si – demonstrando apoio e simpatia. Foi o que bastou para o troglodita bolsonariano acercar-se dela, aos gritos. A menina saltou da bike e partiu para cima do valentão, aplicando safanões e tapas.

Seguranças dos palácios do Planalto e da Justiça observavam de longe. Mais tarde, questionados, responderam que nada podiam fazer senão observar, pois sua missão era apenas “proteger o palácio”. A moça – identificada por um amigo como Sabrina Nery Maia – foi acudida pelos manifestantes pacíficos, que a afastaram antes que a tropa de choque do presidente, furiosa como uma “organizada” de futebol, a trucidasse.

“Gente, e minha amiga simplesmente não levou desaforo pra casa e partiu pra cima dos bolsominions safados (isso tudo porque os bolsominions estavam destratando os médicos que estavam fazendo protesto). Sabrina Nery que orgulho de você!”, registrou o amigo. No Instagram.

“Nós podemos ser heróis, nem que seja por um dia”, lembrou Kiko Nogueira, do DCM – Diário do Centro do Mundo (https://www.diariodocentrodomundo.com.br/salve-sabrina-nery-a-ciclista-que-encarou-os-fascistas-que-agrediram-enfermeiros-por-kiko-nogueira/). E acrescentou: “Sabrina, heroína por um dia — como o haitiano que foi à casa do inimigo dizer que ele não é mais presidente. Dada a repercussão das cenas nas redes, ela criou uma conta no Twitter. Explicou seu ato:

– Sou estudante de medicina, ele estava totalmente agressivo, batendo nos enfermeiros, que estavam no seu direito de manifestar”.

Sim: como já é sabido, grande parte das Polícias Militares de todo o país alinha-se cegamente com o “capitão” (entre aspas, já que ele não faz jus ao posto) e jamais aparece quando a balbúrdia é cometida pelos bolsominions, travestidos de bombons de merda e, como blasfêmia, embrulham-se no nosso glorioso “Pendão da Esperança, símbolo augusto da paz” (conforme Olavo Bilac).

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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

sábado, maio 02, 2020

Evocadores do arbítrio


Evocadores do arbítrio


Uai! As massas de carrões e motos de luxo arquivaram seus uniformes de torcida, parece! Esta semana não foram às ruas para exigir o fim do isolamento, pregar intervenção militar e fechar o Congresso e os Tribunais. Bastou lembrar que a exigência por um “endurecimento de regime” é crime previsto na Constituição, informação essa seguida do pito pela inconveniência de se fazer comício diante dos portões de quartéis – e, mais ainda, que prevalecer-se da autoridade outorgada pelo Povo para usar o pórtico do Quartel General do Exército é um desrespeito à própria Força para recolherem seus “ideais exóticos”.

O capitão, desprovido de seus galões há mais de 30 anos, ostentando a condição de comandante-em-chefe não conseguiu se conter e decidiu se exibir. No resto daquele domingo, há oito dias, e certamente pela madrugada adentro, o bom senso acendeu uma pequenina lâmpada no cérebro do mais alto mandatário desta Nação e ele amanheceu numa segunda-feira com opiniões divergentes da que marcou seu malfadado discurso na tarde anterior.

Mas o hiperativo não se conteve. O sabor da vitória sobre o cargo de Mandetta – vitória de Pirro, diga-se – e a alegria de ter entronizado na Saúde um amigo de fé, um médico que se tornou empresário e depois consultor, no Ministério mais importante neste tempo de pandemia estimulou-o a tirar de cena outro auxiliar cuja popularidade, tal como a de Luiz Henrique, ofuscava-o na altíssima cota percentual de rejeição.

E assim, Sérgio Moro caiu.

Caiu do cargo, claro. E ao cair, saiu atirando e levou consigo o staff de seu gabinete e uma importantíssima peça-chave, o diretor geral da Polícia Federal. E Bolsonaro, que tinha em Moro, agora, não um fiel escudeiro (e, convenhamos, Moro se postou bem como um fiel Sancho Pança ao omitir-se diante de vários desarranjos do chefe), mas sim um vulto que crescia e o ofuscava. Tinha de se livrar dele – e o fez com o devido estardalhaço, rachando a força popular de que disponha.

Um autêntico tiro no pé para alguém que tanto gosta de armas!

Os três filhos portadores de cargos eletivos e vedetes de seu governo regozijaram-se. E o presidente, que sentiu sobre si a forte luz dos holofotes, aproveitou o ensejo para evidenciar mais um filho, o Zero-Quatro, rapazote sorridente e feliz e, segundo o próprio pai, um terrível pegador que sequer precisa sair do condomínio para entediar-se das conquistas.

E a claque atenta aos aboios, essa que se traja de verde-amarelo para tecer loas à ditadura, não apareceu mais. Algumas frustradas tentativas não surtiram efeitos. E os bonecos humanos embrulhados no Pavilhão Nacional trouxeram-me à memória os versos imortais de Castro Alves, no seu antológico Navio Negreiro:


Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!...


E concluo estas divagações sobre o momento nacional, triste ante os riscos da nefasta peste, ainda mais combalido pelas incessantes decepções que me traz o noticiário. E volto a emprestar-me de Castro Alves, agora os versos finais desse Canto VI de seu poema-libelo abolicionista:

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!



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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras

terça-feira, abril 21, 2020

Idealismo e torcida. Serão a mesma coisa?


Bolha verde-amarelo


“Bolha” já foi gíria para 
designar “bobo”. Aprendi, nas 
experiências de repórter, que 
“bobo é quem segue o bobo”.




Ao longo daqueles 21 anos da ditadura, havia um rigor quanto ao uso dos símbolos nacionais. Existe lei específica que define quais são esses símbolos – bandeira, brasão, selo e hino - e como usá-los, porém o foco popular é para com a Bandeira do Brasil e o Hino Nacional Brasileiro.

Havia um rigor para se cantar o Hino e também para se portar ou hastear a Bandeira. Porém, o povo nas ruas desde aquele comecinho de 1984 popularizou tanto nosso Pavilhão quanto o nosso Hino. Desde a campanha pelas Diretas-Já, que mostrava a nossa vontade de votar para Presidente a bandeira ganhou simpatia popular – e o PCdoB chegou à Praça dos Três Poderes, num daqueles eventos, com uma imensa flâmula verde e amarelo sob a qual centenas de pessoas passeatavam festejando a perspectiva da democracia e da liberdade, que nos foi negada desde aquele primeiro de abril de 1964.

Houve uma passeata em que o Presidente Fernando Collor pediu que nos vestíssemos de verde e amarelo para demonstrar apoio a ele – mas trocamos as cores nacionais pelo preto, numa evidência de que não o queríamos mais – e isso foi como a “turma da pipoca” atrás das tropas que desfilaram naquele 7 de setembro, em 1991. Não demorou para que o processo de impeachment fosse apreciado no Congresso.

Mas em junho de 2013 começou uma nova moda – o verde e o amarelo nas ruas. A ideia inicial era evitar as bandeiras de partidos, tentando mostrar que queríamos soluções independentemente da hipocrisia das tais agremiações fisiológicas. E em lugar dos partidos, surgiram algumas organizações “patrióticas” que prometiam coisas por um Brasil melhor, “livre da esquerda” e dos riscos de “se tornar Cuba ou Venezuela”. Com isso, Cuba virou a Bruxa Madrasta e a Venezuela, o Lobo Mau.

E a massa ignara deixou-se seduzir pelo canto das sirenes, ops! Sereias! Abriram-se as gavetas e as camisetas que se vestiam em dias de jogos da Seleção tornaram-se uniformes de campanha.  E, de repente, essa gente que não sabe sequer o que é um conceito político ou diretrizes partidárias entendeu que tudo o que levava vermelho era “coisa de comunista” – e assim o PT também deixou de ser “trabalhista”.

Neste domingo, 19 – Dia do Índio e, para os militares, Dia do Exército – os torcedores do presidente trapalhão saíram às ruas. Curiosamente, e coincidentemente, nas cidades onde aconteceram carreatas em prol do fim do isolamento para se conter a expansão do Coronavírus dirigiram-se a uma unidade do Exército – em Brasília, sem constrangimentos, a escolha recaiu no Quartel General. E também coincidentemente foi para lá que o presidente Jair foi, após almoçar com os três filhos na casa do zero-três Eduardo. Saudou os presentes e resolveu discursar, usando como palanque uma caminhonete da PMDF.

Sem modéstia, o PR (como gosta de escrever o FHC, ex PR) falou como se reagisse a algumas faixas – todas iguais, sugerindo que foram confeccionadas numa mesma origem – que pediam “Intervenção Militar com Bolsonaro no Poder”. Outras propunham “AI5 Já” – e Bolsonaro não as contestou. Preferiu dizer que estava com eles, que queriam o melhor para o Brasil, que os três poderes precisam entender que são submissos ao povo e que não queria negociar nada!

Claro, claro... A massa em carrões de luxo foi ao delírio, entendendo que o presidente se comprometia com suas propostas – a de intervenção militar com Bolsonaro no poder e AI5 já! A massa em verde-amarelo absorvia os perdigotos de seu líder, que tossia e se limpava com os punhos e palmas das mãos – e estendia mãos aos do povo e também a militares e assessores, constrangendo-os (talvez).

De São Paulo, um vídeo de quase 30 minutos, de um grupo chamado Jornalistas Livres, mostrava a luta “democrática” de mauricinhos da década de 1980 e “patricinhas” da década de 1970. Os propósitos “da luta” eram os mais “democráticos” – a volta ao trabalho para tirar os “vagabundos” das suas casas e “movimentar” a economia, porque “essa desculpa de Coronavírus não cola mais” e outras pérolas do gênero.

Uma das primeiras entrevistadas usava máscara com a inscrição AI5 JÁ e admitia ter álcool em gel no carro. E as duas últimas estavam sem máscaras, mas admitiam que as usariam caso saíssem do carro: “Estamos aqui lutando pelo Brasil” diziam elas, e a que dirigia ainda valorizava “Meu filho não sabe que estou aqui, seria um problema”.

E tome verde-amarelo!

As reações, mesmo durante as carreatas, não demoraram: panelaços em todas as cidades onde elas ocorreram e mesmo em outras, justo nos instantes em que a televisão – ou as redes sociais – mostravam o que se passava. Pelas redes sociais, começou a circular o chamado “Fora, Bolsonaro”. As reações, em todos os quadrantes, não foram nada simpáticas. 

Resumindo: os patriotas de verde-amarelo que fazem carreatas pró-Bolsonaro e contra a quarentena da Covid-19 são, sem dúvida, empresários em defesa de seus interesses diretos, sem qualquer preocupação com a classe trabalhadora – essas pessoas que, trabalhando, enchem as burras dessa “classe”. Mas atrás deles há outros, igualmente vestidos com uniformes de torcida e, algumas vezes, embrulhados na bandeira do Brasil como se o manto pátrio fosse um xale da vovó. Esses são os imbecis que se alinham aos magnatas pensando que, assim, se confundem com os “poderosos”.


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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.