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domingo, junho 10, 2018

Notas inusitadas






Notas inusitadas



A primeira veio de longe e já chegou traduzida: Funcionária de um lar de idosos, ninfomaníaca, é acusada de abusar sexualmente de moradores de ambos os sexos. A mulher é Giselle Horney, de 49 anos. A história se passa em Oklahoma, na América (Estados Unidos). Consta que ela abusou de homens e mulheres com idade entre 72 e 103 anos. Parkview Nursing Center

A acusação detalha que ela dava Viagra a muitos idosos que lá viviam e os forçava a fazerem sexo com ela. Elise Wood, gerente do lar, conta que começou a desconfiar quando os funcionários narravam que muitos dos velhinhos mostravam-se em “estado perpétuo de ereção”. As câmaras de vigilância confirmaram as suspeitas.

Segundo os funcionários, Giselle Horney não só dava Viagra aos internos, como fazia sexo com mais de 24 homens por dia. Alguns dos “abusados” declararam-se satisfeitos com a prática, pois houve um acordo consensual, mas outros reclamaram não ter gostado dos “brinquedos sexuais” e das “brincadeiras anais”. Um desses homens abusados por Giselle contou:“Ela foi a melhor coisa que me aconteceu desde a morte de minha mulher, há 35 anos, mas admito que ficar 16 horas por dia com uma ereção era um pouco aborrecido”.

Giselle Horney está detida e pode ser condenada a até 10 anos de prisão.

O amigo que me enviou essa notícia forneceu o site: http://tafeio.com.pt/funcionaria-um-lar-ninfomaniaca-acusada-dar-viagra-aos-idosos-os-forcar-sexo/ . E manifestou-se: “Descobri onde quero passar a velhice”.

A outra novidade partiu de um amigo meu, quarentão e solteiro, ou seja, um sujeito invejado por muitos dos de sua idade que, há anos, optaram por viver a vida a dois e multiplicar-se. Sem exageros, meu amigo é um homem feliz, mas, como é natural no ser humano, a felicidade pode doer. Então, ele se inquieta, em alguns momentos, pergunta-se se é essa uma boa escolha.

Os mais próximos são seus interlocutores quase confidentes. Ele diz que “é hora de encontrar uma companheira com quem compartilhar a vida”. Um dos amigos decidiu apresentar-lhe uma jovem culta e bela, moradora em plagas distantes (não vou mudar a palavra, não... quem não souber que procure no Aurélio – “plaga”. E, cuidado, não é “praga”). A tecnologia ajudou – Facebook, Instagram, WhatsApp etc. – e logo, logo os dois “trocavam figurinhas” na esteira da contemporaneidade das correspondências instantâneas.

Por razão que desconheço, algo impediu a vinda da moça a Goiânia para o esperado – e muito divulgado – encontro inicial. E o meu amigo, proseando com uma das amigas mais próximas, em tom de muita sobriedade, definiu o impasse:
– Não deu, ela não pôde vir e a coisa esfriou. E você deve saber, as pessoas são como os cachorros: para saber se se gostam, têm que cheirar o fiofó. 

(Claro... a amiga explodiu numa gargalhada, surpreendida com tal conceito, emitido em tom de grave circunstância).


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 03, 2018

Imprensa torcendo fatos

A mídia a serviço do mal


Só elogia uma ditadura quem dela se valeu, quem dela teve permissão para se locupletar – como, inclusive, alguns peemedebistas que, em público, esbravejavam contra o regime, mas na calada das noites e dos gabinetes recebiam ordens para votar assim ou assado, conforme o interesse do regime. Entendo o capitalismo e a democracia como escolhas menos ruins, já que tudo o que a humanidade experimentou traz imperfeições (algumas cruéis), e ainda não temos nada melhor.

Ditaduras são cruéis e burras. Cruéis pelo mal que causam à maioria das nações sob seu jugo, favorecendo um nicho de pessoas e grupos, como as empreiteiras que hoje estão investigadas rigorosamente pela operação Lava-Jato. Muitos não sabem que sua hegemonia empresarial e financeira vem dos anos de chumbo.

Todos os regimes precisam dos meios de comunicação. As ditaduras também. Os governos de canalhas, também. A recente paralisação dos caminhoneiros foi transformada, a partir de – dizem – uma ordem do Palácio do Planalto, em ação demoníaca nas pautas das emissoras de rádio e tevê. As redes Record e Globo esmeraram-se no esforço de atribuir a eles, os manifestantes, até mesmo a eterna falta de insumos e medicamentos nos postos de saúde e hospitais (públicos). Num passe de mágica, tudo o que elas, as emissoras, noticiam todos os dias, em especial no campo da saúde pública, passou a ser culpa dos caminhoneiros, como se fossem personagens de uma ficção científica: sua ação de dez dias neste maio de 2018 foi responsabilizada pelo descaso dos governos nos últimos vinte anos.

E o desabastecimento nos supermercados e postos de combustíveis, além dos pontos de distribuição de gás de cozinha? Estranhamente, os grandes supermercados de Goiânia não registraram a crise de modo tão áspero como definiam os repórteres e âncoras das emissoras locais.

O jornalista e escritor Iuri Godinho observou, num paralelo, que nenhum de nós fica sem comida e suprimentos em casa por conta de dois dias de paralisação de caminhoneiros ou de supermercados fechados. As unidades de saúde sabem muito bem o que estocar e as casas comerciais administram bem suas reservas, mas as tevês e rádios, seguindo a ordem do governo federal, elaboraram pautas para difamar os manifestantes. Quando tudo parecia dar certo, registrou-se a infiltração criminosa para tumultuar, promover agressões e estabelecer o conflito.

Há uns 40 anos, Benevides de Almeida me recorda (éramos repórteres em pleno regime do arbítrio militar), achávamos meios de divulgar e analisar fatos. Várias vezes presenciamos policiais à paisana infiltrando-se nas passeatas e comícios estudantis; seu propósito era provocar baderna e, assim, justificar a ação dos fardados com seus escudos, cassetetes e bombas de gás de efeito moral. Desde 2013 surgiram os black bloks, os mascarados que chegam para tumultuar, agredir, incendiar, quebrar e, assim, facilitar a intervenção policial. Nenhum deles foi apreendido, preso, identificado pelas forças policiais estaduais e federais. Parece que são mais poderosos que o conjunto de forças da repressão, não fossem eles parte delas. Na minha opinião, são elementos das P2, a “inteligência” das polícias militares.

As forças de repressão sabem o que fazem e conhecem muito mais do que nos parece. A Polícia só não finaliza o que a política não deixa. Se dependesse da Polícia, o tráfico sequer teria se tornado a superempresa que entendemos como Crime Organizado – ligado por fortes correntes a várias outras atividades, como contrabando de armas, máfia dos combustíveis, roubo de cargas etc. e tal.

O que a Globo e a Record – bem mais que a Band – vêm noticiando é uma farsa que envergonha o jornalismo brasileiro.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, maio 26, 2018

Combustíveis, impostos e impostores

Fac-símile (by Elpídio Fiorda)  da publicação no DM deste sabado, 26 demaio.




Combustíveis, impostos e impostores


Os cínicos não perdem a pose!

Desde o ano passado, quando vivíamos a realidade da inflação "de dois dígitos", o desgoverno que se instalou com pompa e cara de pau decidiu adotar medidas cruéis e debochadas, como o anúncio descabido de uma inflação "abaixo da meta", em índices incríveis de 3% ou pouco mais. Preços de combustíveis e de energia elétrica não são computados. Como, de resto, alguns outros itens fundamentais são também esquecidos, pois a meta é falsear a meta.

Desde aquela marcante manifestação nacional de indignação ante as mazelas políticas em 2013, ocasião em que os blackbloks apareceram para badernar, os movimentos populares passaram a perder, gradativamente, a credibilidade. Coxinhas e mortadelas opunham-se em xingatórios e agressões físicas, mas nada se comparava aos mascarados.

Estranhamente, ninguém sabe de onde vinham, a que grupo se integravam, que propósitos tinham os tais blackbloks. Viajei ao passado, percorrendo 40 anos idos, ou quase isso. Era um tempo em que ainda vivíamos as restrições da ditadura implantada em 1964, mas um ano antes aplicara-se a anistia, permitindo o retorno dos brasileiros exilados e dos que viviam aqui mesmo, na clandestinidade, sob nomes falsos, ainda que “devidamente” documentados.

Como repórter, acompanhei uma manifestação de estudantes de medicina da Federal de Goiás. Os moços concentraram-se na Praça Universitária e dirigiram-se, num grupo de 100 ou 150 estudantes, ao ponto modal da época – a Praça do Bandeirante. Nas proximidades da Praça do Botafogo, a PM despejou, de alguns caminhões-choque, soldados de preto portando escudos, cassetetes, capacetes e máscaras contra gás, pela retaguarda. À sua frente, outra parede se formou, com policiais em fardas comuns, simulando uma ação pacífica, ainda que enérgica (como definiria o secretário da Segurança pouco mais tarde). Descendo a Avenida Anhanguera, um grupo de vinte ou trinta pessoas civis deslocava-se também. Numa calçada bem próxima, à frente de um edifício em construção, um monte de britas lhes pareceu oportuno – e aqueles civis, sem qualquer atitude dos fardados, passou a jogar pedras nos estudantes que, vendo-se cercados, sentaram-se todos no chão, em atitude previamente calculada. As pedras caíam sobre suas cabeças e eu, como outros colegas da imprensa, ouvi troca de frases entres os paisanos e fardados, como vozes de comando sobre lançar pedras e parar.

Aquilo foi o bastante para que os dois pelotões da PM – os de preto e os de cáqui, baixassem seus cassetetes com vontade. Entendi logo, os paisanos eram militares estrategicamente mobilizados para simularem uma ação civil contra os soldados, ainda que só atingissem os estudantes sentados no chão.

Claro: eram os blackbloks da época. Ou melhor, os blackbloks destes últimos anos são, imagino, os P2 de agora.

As últimas manifestações de massa nas ruas de todo o país foram marcadas por ações dos tais mascarados que depredavam, destruíam e saqueavam. Então, chegou a última segunda-feira, este 21 de maio, e as estradas nacionais foram marcadas pela paralização da frota de caminhões. Desde os primeiros momentos, cuidou-se de não prejudicar o direito de ir e vir dos veículos de passeio, dos ônibus de passageiros, dos transportadores de cargas vivas ou perecíveis e dos medicamentos.

E deu-se a coisa! Os do Planalto (o Palácio) incomodaram-se, mexeram-se, o presidente deu ordens, apareceu como se preocupado estivesse, orientou a pantomima toda, incluindo-se uma coletiva do presidente da Petrobrás, o Parente titular do apagão elétrico de 2001. Ouvi parte da entrevista, pelo rádio, e senti-me com “vergonha alheia” pelos colegas que, pela entonação, babavam ovos para o despótico presidente da petroleira.

Pernóstico e petulante, o presidente respondia com ênfase enjoativa. Torcia argumentos, reformulava conceitos, prometia grandezas irrisórias e, pareceu-me, até acreditava que faria alguém de idiota. Os líderes do movimento, é claro, rejeitaram a proposta ridícula e pretensiosa do executivo-mor da Petrobrás – um homem que ora integra esse governo coberto de acusações irrefutáveis e se formou de um monte de fichas-sujas, e antes integrou a equipe privatizadora de FHC.

Os noticiários do dia seguinte mostravam técnicos e tecnocratas áulicos a demonstrar preocupações para com o “equilíbrio das contas”, a “responsabilidade fiscal” e outros rótulos nada convincentes – o agravamento das contas do cidadão e das classes produtoras, da logística... do consumidor, enfim, tudo isso é de somenos importância para os nababos das equipes técnicas.

Pior ainda é o desemprenho teatralizado dos ministros. Pessoas que não se recomendam sequer ao dar bom-dia, discursando em frases breves ante as câmaras e dando a entender que suas falas eram dogmas.

O governo da União, mesmo sob a incredulidade de toda a nação, posou de irredutível. Os manifestantes não deixaram barato, reforçaram suas ações e determinação, endurecendo o argumento. Na tarde de quinta-feira, os produtores rurais começaram a engrossar o cordão de veículos parados, em notório apoio aos caminhoneiros.

Tanto se falou em contas, em preços internacionais e em cotação do dólar e os caminhoneiros exigiam um alívio nas alíquotas dos impostos. Estranhamente, e com o movimento atingindo mais de vinte estados, com mais de 200 pontos de ação, nenhum governador nem grupos de parlamentares estaduais apareceu. E é sabido que o ICMS é uma das maiores fatias de impostos nos preços dos combustíveis.

Em meio a tantas notícias, recebi o vídeo de uma entrevista com o coordenador de um dos sindicatos de petroleiros – o de Minas Gerais. O moço declarou que os petroleiros organizam uma grande greve nacional, contra várias medidas em torno dos combustíveis, envolvendo também os altos índices dos impostos e, pior ainda, a ordem interna da diretoria da Petrobrás para que se refine o mínimo de óleo nacional – quer dizer, é para negociar somente o óleo importado. O propósito é o que sabemos, ou seja, o reajuste diário com base nos custos internacionais e na cotação do dólar.

Resumindo: Pedro Parente é hábil e eficaz quando se trata de promover um apagão. Em 2001 ele deixou o país no escuro; agora, em pane seca.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, maio 12, 2018

Meia Ponte do Rosário - ou, simplesmente, Pirenópolis


Poema que compus à beleza de Pirenópolis. 



Esta cidade, rodeada de montanha...
(Crônica escrita em março de 2003. Republico-a por gostar e querer, de coração. L.deA.)


Foi Isócrates de Oliveira quem cantou: “Minha cidade é rodeada de montanha / tem um rio que a banha / murmurando sem parar”. Eu, quando cantei, evoquei “manhãs alegres / sol dourado junto ao rio / e um desafio a que acompanham violões”. 

Como não evocar manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites alegres e madrugadas românticas nesta Meia-Ponte das minas de Nossa Senhora? A do Rosário, dos Brancos e dos Pretos. A dos Pretos ruiu sob os desgastes do tempo e a fraqueza das bolsas, minguadas de recursos naquele tempo dos anos de 1940, quando os bancos faliam ante a chamada moratória pecuária. 

A dos Brancos, incendiada sob o signo de Virgem naquele fatídico 5 de setembro de 2002. E a lembrança de mim, embriagado na Festa do Divino, procissão com banda-de-couro. Inerte e bêbado, quase impedi o retorno da procissão, deixado na soleira da porta lateral, do lado da Rua Direita. 

“Manhãs de festas / acordando Meia-Ponte / ao pé do monte seus antigos casarões”. Meu canto é de saudade; saudade de mim menino, ou de mim mais moço. O murmurante Rio das Almas... “Rio das Almas / vai levando as minhas mágoas / em meio às águas / a rolar, buscando norte”. 

Foi na Ramalhuda, verão em 1952, que me afoguei pela primeira vez. Um homem gordo tirou-me do poço fundo e seu sorriso me deixou confiante. Afoguei-me muitas vezes mais, porém sem medo. Em quantos poços, quantos copos me afoguei? 

Poção da ponte, de tanta memória! Música eterna das águas velozes... Meia-Lua, Pedreiras, Lajes... Tempo matado sem pressa em tardes e manhãs de férias. Vô Luiz, meu xará de Aquino Alves, maestro e seresteiro, não se banhava em casa – só nas águas do Rio das Almas. 

Meia-Ponte Pirenópolis de serenatas e cerveja muita, cachaça e lua de prata. Meu primeiro porre... acho que foi no Bar do China, irmão de Pérsio Forzani, no casarão que, caído, deu lugar à atual Casa de Justiça. 

Antes dos porres, os amores são a mais doce lembrança. Amores furtivos às margens do rio, amores inebriantes atrás das igrejas, ao sopé dos montes, no pico do Frota entre as antenas de tevê (o som da cidade, a cidade lá longe, o ar fresco da noite e a poesia emergente). 

Serenata de metais e cordas na noite serenada. Caju batizado na casa de Wilno. Alexandre, o maestro, era um menino que tocava na banda. Meu Vô Luiz tirava notas carinhosas de um trombone e eu volitava, rumo ao passado, para encontrar meu tio Ismael, o da clarinete, e Dito de Melani, o do pistom.  

“Ai, que saudade / de acordar ao som do pinho / cá no meu ninho / e sentir a lua cheia / na serenata / que dá vida à noite calma / e leva a alma / à viola que ponteia”. Meu canto de versos ganhou roupa nova na canção de José Pinto Neto. Zé Pinto, o de Caldas Novas, meu parceiro musical, também se foi mais cedo. Foi encontrar os meia-pontenses idos antes, como meu Vô.  

E Pirenópolis, a das verônicas do Divino, das congadas e dos doces cristalizados, a do licor de jabuticaba e vinho de caju, a Pirenópolis dos meus sonhos e minhas saudades, essa que não dorme... Essa, a cidade rodeada de montanha, encimada na paisagem pelas três colinas aniladas dos gigantes Pireneus, ah, essa!... 

Minha, nossa, eterna cidade de Nossa Senhora do Rosário! Não há fogo nem enchente que te apague de nossas almas.


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Luiz de Aquino, escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


Eleições na AGL


Vagas acadêmicas



A Academia Goiana de Letras realizará eleições – duas – para preenchimento de vagas. Duas delas em breve, sendo que uma já encerrou o prazo de inscrições, a outra ainda acolhe interessados. Uma terceira será anunciada, em data a ser ainda escolhida, quando acontecerá a Sessão da Saudade pelo desenlace de José Mendonça Teles.

Explico: as academias de letras são clubes fechados, com número de vagas limitados (o padrão é de 40 cadeiras, segundo os critérios da Academia Francesa, que se usou por modelo para a criação da Academia Brasileira de Letras). As vagas ocorrem quando do falecimento de membros. Os acadêmicos apreciam os candidatos, avaliando suas obras – é condição sine qua non para a candidatura – e assim definem suas preferências.

Recentemente faleceram os acadêmicos Eliézer José Penna, José Fernandes e José Mendonça Teles. Eliézer era o ocupante mais recente da Cadeira n° 5 e José Fernandes, da Cadeira n° 21. São essas as vagas declaradas, ato que se dá quando da respectiva Sessão da Saudade, quando um dos membros acadêmicos, por escolha do presidente da Entidade – hoje, a acadêmica Lêda Selma de Alencar – profere o panegírico ao confrade falecido.

Dentre os escritores que se apresentaram candidato, já me decidi pela professora Maria de Fátima Gonçalves Lima na Cadeira 5 e, ainda com o prazo de inscrições aberto, comprometi-me, de coração também, com o poeta e crítico literário Adalberto de Queiroz. Ambos são amigos da minha predileção, a quem admiro pelo trabalho desenvolvido na literatura praticada em Goiás.

As exigências formais da AGL são simples, tanto pelas condições pessoais do candidato (ser goiano residente no Estado ou aqui viver por pelo menos cinco anos, ser autor de livro), mas a sua relação com o meio literário e, obviamente, com o quadro acadêmico, definirão o gosto dos eleitores. De minha parte, finco pé no critério seletivo em que busco votar naquele que mais compromissos demonstra com o meio literário – como a sua produção, a qualidade de seu texto, a criatividade, a prática constante nos procederes da Educação e da Cultura, o amor à causa, à Academia e a Goiás.

O candidato deverá também demonstrar bom conhecimento da língua pátria, exercê-la com competência e defendê-la sempre. Na esfera social, costumo me informar sobre a atuação do candidato na aproximação com os jovens, buscando desenvolver neles o gosto pela leitura e o interesse pelos autores locais. Entendo também ser de boa referência o candidato à “imortalidade literária acadêmica” demonstrar que cultiva a boa prática de orientar e auxiliar jovens escritores. A imortalidade não é algo que se tenha por “imorrível”, como bem gosta de dizer a presidente Lêda Selma, mas isso se faz pela continuidade. Gosto de lembrar que na nossa juventude – aqui faço alusão aos septuagenários e sexagenários de agora – tivemos escritores veteranos que muito nos ajudaram, como Anatole Ramos, Carmo Bernardes, Yeda Schmaltz, Joaquim Machado de Araújo e muitos outros. Esses saudosos amigos já nos deixaram, mas cabe-nos continuar o seu empenho de assegurar a prática das letras, como autores e leitores, para a posteridade.

Voltarei ao tema, sempre. E espero voltar em breve, quando se iniciar o trabalho de sucessão à Cadeira n° 32, que teve José Mendonça por Primeiro Ocupante. Espero que nomes de realce nos quesitos acima referidos se apresentem e que eu possa escolher o autor da minha preferência para estar conosco. Por enquanto, votarei em Fátima e Adalberto, esperançoso em suas vitórias.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


domingo, abril 29, 2018

Liceu de Goiânia, 80 anos!

O Liceu de Goiânia, em bico-de-pena do talentoso artista vila-boense Di Maralhães




Sempre sob a Águia



Dedico esta fala, muito especialmente, ao poeta e acadêmico Emílio Vieira das Neves, com quem compartilhei os bancos liceanos a partir de 1963.


Em novembro de 2017, o Liceu comemorou 80 anos de sua chegada a Goiânia, O colégio, fundado em 1847 pelo presidente da província de Goiás, Barão de Ramalho, mas a população da antiga capital exigiu do governo que se restabelecesse a escola, o que se fez. Dividido geograficamente, o Liceu continuou sua História – lá e aqui.
Propus à Academia Goiana de Letras uma visita ao Colégio para festejar a efeméride, mas o adiamento foi inevitável. Na quarta-feira da semana que se encerra, 25 de abril, estivemos lá e coube-me saudar os estudantes, professores e a História, o que fiz aproximadamente no teor seguinte: 



Barão de Ramalho, fundador do "Liceo Goiano", em 1846.














Esta visita ao braço goianiense do centenário Liceu de Goiás é dos nossos planos desde o último novembro, quando este templo de ensino e formação de cidadãos festejou 80 anos. Ficam as minhas desculpas, justificadas pela agenda um tanto comprometida. Felizmente que o nosso jovem diretor compreendeu e ajustou esta data, em conveniência dupla.

O Liceu chegou a Goiânia como Ginásio Oficial de Goiás, dirigido pelo professor Iron Rocha Lima. E para cá trouxe não só o acervo escolar desde os meados do Século XIX, mas o ímpeto idealista da liberdade, ainda que fosse aquele o ano da instalação do Estado Novo – eufemismo para a consolidação do período arbitrário de Getúlio Vargas.

Há dez anos, aqui viemos, pela primeira vez, festejar os 70 anos. Naquela ocasião, fui incumbido pelo presidente Modesto Gomes para saudar o Liceu de Goiânia e sua história, o que fiz de modo a demonstrar que a nossa história vem da respeitável Vila Boa de Goiás e somos, sim, o ramal efluente do digno Liceu de Goiás, idealizado e criado pelo Barão de Ramalho por lei de 20 de junho de 1846.

Em 1963, matriculei-me no segundo semestre do primeiro ano do curso Clássico, a versão humanística do Colegial, onde fui colega do querido confrade professor Emílio Vieira, poeta e ensaísta admirável, dentre outros que marcam fortemente nossas lembranças.

Em 1969 e 1970, lecionei aqui Geografia e também Educação Moral e Cívica para os cursos Clássico e Científico – o que hoje é o Ensino Médio. Para mim, o Liceu era, legitimamente, a continuidade do Colégio Pedro II, criado no Império ao tempo do príncipe herdeiro, na mesma data de seu décimo primeiro aniversário, ou seja, nove anos antes da criação do Liceu – o décimo segundo estabelecimento criado no Brasil após aquele pioneiro Imperial Colégio de Dom Pedro II. Todos os demais tiveram suas atividades interrompidas, alguns retomaram suas atividades anos ou décadas após – somente o Pedro II e o Liceu Goiano mantiveram-se em funcionamento sem solução de continuidade.

A História inteira do colégio goiano, desde os tempos de seu surgimento, registra a passagem por suas salas de inumeráveis vultos de nossas letras, das ciências e da vida pública goiana e nacional. Leopoldo de Bulhões, aluno brilhante, teve ilustre carreira pública, chegando a ministro da Fazenda nos primeiros anos da República, após governar Goiás. Seu irmão Félix de Bulhões foi poeta notável, professor no Liceu e é patrono da Cadeira 4 da nossa Academia Goiana de Letras, hoje ocupada pela professora Moema de Castro e Silva Olival.

Bernardo Elis, um goiano na ABL.
Na antiga capital, foram notáveis alguns mestres, como Vicenzo Moretti Foghia – ao seu tempo, o único professor capaz de substituir qualquer outro, de qualquer disciplina – e os diretores Joaquim Ferreira dos Santos Azevedo e Alcide Ramos Jubé; o idealizador de Goiânia, Pedro Ludovico, e seu filho Mauro Borges, ambos ex-governadores; e escritores como José J. Veiga e Bernardo Elis (dois dentre os mais notáveis contistas brasileiros) e o artista plástico Octo Marques foram alunos na velha capital.
O contista José J. Veiga, autor goiano traduzido em 40 países.


Prof. Francisco Ferreira
O professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo – agrimensor, professor de Matemática – destacou-se, além do ofício de professor, por ser o autor de um Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, obra essa publicada após o seu falecimento. Orgulha-me partilhar da amizade de dois de seus netos – Antônio Celso e Geraldo F. Júnior.

Aconselho a vocês, que me ouvem, visitarem o Liceu em Goiás, a antiga capital. Verão aquela arquitetura histórica que nos toca e desperta a curiosidade natural ante a história. E a emoção virá quando lerem no alto dos portais, os nomes das salas, evocando sentimentos e valores, em lugar de frios números. Visitem a biblioteca, de livros valiosos e raros, bem como o espaço museológico Viva e Reviva, agora em fase de montagem.

Em Goiânia, também, grandes vultos da nossa história, nas mais variadas atividades – da ciência à política, das letras aos negócios – aqui passaram, como o artista plástico e professor Amaury Menezes, o governador, deputado e senador Irapuan Costa Júnior (o aluno liceano, em toda a história, recordista em notas) e dois ex-presidentes do Banco Central do Brasil – Gustavo Loyola e Henrique Meireles (mais tarde, ministro da Fazenda). E, também, o recentemente falecido professor Nion Albernaz, ex-aluno e ex-professor desta Casa, ex-prefeito de Goiânia em três mandatos.

Prof. Nion Albernaz, aluno e mestre no Liceu de Goiânia.

Entre nós, membros da Academia Goiana de Letras, somos muitos os ex-alunos e ex-professores, para nosso orgulho. E orgulhamo-nos, todos, por destaques como, por exemplo, os médicos Zacarias Kalil, Luiz Fernando Martins e Ciro Ricardo, entre tantos outros!

Amaury Menezes, artista plástico, também liceano na nova capital.

Na parede frontal do nosso prédio histórico, junto ao pórtico, há uma placa em vidro com nomes de ex-alunos. Não sei porque razão, o meu nome é o primeiro nessa lista – juro que não participei disso, foi coisa dos organizadores da Casa Cor, que ocorreu aqui em 2009. Somos centenas de milhares de ex-alunos desta casa dupla, este Liceu de 80 anos, desmembrado do eixo vila-boense – hoje às vésperas de seus 172 anos. Há dez anos, eu aqui cheguei com um paletó cinza e uma gravata que removi ao término da minha fala e mostrei-me com o uniforme dos meus tempos aquele da calça bege e da camisa branca, a águia bordada no bolso sobre o coração.

Eu, em 2010, devidamente
uniformizado como em 1963.
Hoje, troco o uniforme emblemático por um texto – um poema que escrevi em 2011, para atender ao pedido de um querido ex-aluno, o médico Pedro Dimas. É este:


Esses meninos sob a Águia

Era um tempo de homens rudes,
mulheres doces – seres severos…
Tempo de nós muito jovens.

Sonhamos crescer, lutar... quem sabe?
Alcançar liberdade – palavra perigosa,
vigiada e guardada a chave.

Meninos grandes de uniforme bege e branco;
jovens mestres de jaleco, pastas, livros
e giz ante o quadro escuro...

Quadro negro, quase sempre verde...
Lousa, massa e cimento
berço de textos e contas – lições.

Calça cáqui, sapatos pretos, saias medianas;
Meninas de meias brancas, muito alvas
– um rigor religioso, aquele!

No peito, a águia! Vigia solene,
asas abertas ao voo
viagem no tempo a vir!
E o sentimento de fé e sonhos. Marcamos:
– sine die, seja sábado e noite,
mas em quarenta anos (ao menos).

* * *

Luiz de Aquino, moço professor de 1970, feliz outa vez entre vocês!

sábado, abril 21, 2018

Partitura bajo la Lluvia









Poesia à chuva e na madrugada

(Prefácio para o livro Partitura bajo la lluvia, da poeta colombiana Lyda Cristina López, cujo lançamento dacontece neste sábado, 21 de abril, em Bogotá. L.deA.)





Poesia não é somente a construção de versos emocionados e impactantes, como querem alguns. Poesia, para mim, é a alma das artes. É o sentimento humano – ou a capacidade humana de se emocionar ante algo.

Sei de mim e dos que me são próximos que as pessoas nascem poetas. Alguns se comprazem em descobrir sentimentos e sentidos para a vida – e se fazem poetas pela vida inteira. Outros se esquecem. Vejo poesia num improviso feliz do atleta e na exatidão matemática da dança. Ao meu modo, como qualquer outro poeta, saberei contar em versos o que me emociona.

Há, porém, poetas de variadas formas de dizer – ou de narrar. E cada um marca a sua poesia com tudo o que traz na alma e consegue realizar com a matéria corporal, seja escrevendo, seja cantando ou encenando em teatro, além de nos causar enlevo com a magia da música.

Descobri a poesia de Lyda Cristina Lopez em seu livro anterior, Carta para um hombre en el crepúsculo. Encantei-me de seus versos, seu modo simples e rico de conceber os versos e concluir com maestria os poemas. Ela sabe, como poucos, eleger seus temas e os desenvolve com talento e magia. Que doçura encontrei em

Vestirme de noche,
y visitarte enn la madrugada.
Llevar conmigo uma estrella
y salir a recorrer el mundo.
(in Días sin regreso)



Senti-me feliz quando a poeta Lyda Cristina surpreendeu-me com um convite: escrever um prólogo para seu próximo livro. Recebi, por e-mail, seus originais (devo dizer que não nos conhecemos pessoalmente, ainda) que li com a certeza de que estava, uma vez mais, diante de um livro de poesia excelente, límpida como noites de estrelas, translúcida como água da fonte que desce a montanha.


A cada verso, estrofe a estrofe, tentava adivinhar a pessoa atrás da pena, a mão sobre o teclado mas, especialmente, a cabeça e a alma que animam o corpo, define a mulher e determina a poeta. Nosso elo é minha prima Lucila - mulher de seu irmão gêmeo, Júlio - que me presenteou com o já citado livro anterior de Lyda Cristina. Lucila contou-me não só da pessoa poeta que faz brotar estes poemas, mas situou-a na Geografia de sua pequena cidade, Ginebra, ao pé da montanha, onde a vida segue seu curso sem pressa nem medos e onde a primavera se eterniza nas orlas dos caminhos. Voltei a ler – pela terceira vez – os poemas de Partitura bajo la Lluvia, agora, o saber da pessoa, além do sabor dos versos e dos poemas.



Intrigava-me o título. E me transportei para tardes e noites chuvosas em Ginebra, encontrei – sem que ela me notasse – a poeta a compor poesia como um musicista elabora sua escrita de colcheias e semibreves, de claves de Sol e Fá. Acredito que sei bem como fluem os elementos da criação, em música como em versos. Ao recorrer aos dicionários para elucidar alguns trechos, saboreei descobertas e me senti como que parceiro ou sócio da poeta. Tola pretensão, esta minha!

O fato é que me embriagaram a surpresa e o ambiente. A chuva constante, como nas narrativas de Gabo Garcia Marques, é como um instrumentista a oferecer compassos ao poeta.

Una gota se repite
y el sonido
del agua no se detiene,
va y viene.
..................
¿Dónde quedó la madrugada
cuando la lluvia interpretó su partitura
y convirtió la noche en puntos suspensivos,
las estrellas en interrogantes,
la luna en una coma
y el silencio en punto aparte?


Em momentos outros, em outros poemas, outros versos, encontrei-me como quem passeia com a poeta, pois também sou notívago como os lobos e as corujas. Contudo, sou apreciador de quem sabe, com competência, descrever situações que, em algumas circunstâncias, apenas nos inibem – e nos silenciam, como nesse poema:


Huellas


Por eso estoy aquí aventando palabras contra el cielo indiferente.
Manuel Scorza


Cada horizonte
congela en su melancolía una lágrima.

Un rayo de luz enciende una idea,
una estrella baña de mutismo las palabras.

Silencios que se albergan en diálogos,
abren puertas para nuevos milenios,
exorcizan lamentos,
desentierran cantos de viajeros olvidados
y dejan huellas de grandes sabios.

Aparece un ángel
y dibuja la paz entre ellos.




Recobro o fôlego e os sentidos, emocionado. Volto a ler, a reler seus versos, ó poeta Lyda Cristina, e fico a imaginar a obra finalizada, o livro pronto em volume solene. Sinto que será bonito e agradável, como o que ganhei de Lucila. E em forte calor, mesmo que sob um sonoro chuvisco, sinto-me, leitor, seu parceiro de escrita e sentimentos, perguntando-me com suas palavras:

¿Dónde quedó la madrugada
cuando dejé escapar las palabras?


*****


Luiz de Aquino
Poeta, da Academia Goiana de Letras
(Goiânia, Goiás, Brasil)