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sábado, maio 12, 2018

Meia Ponte do Rosário - ou, simplesmente, Pirenópolis


Poema que compus à beleza de Pirenópolis. 



Esta cidade, rodeada de montanha...
(Crônica escrita em março de 2003. Republico-a por gostar e querer, de coração. L.deA.)


Foi Isócrates de Oliveira quem cantou: “Minha cidade é rodeada de montanha / tem um rio que a banha / murmurando sem parar”. Eu, quando cantei, evoquei “manhãs alegres / sol dourado junto ao rio / e um desafio a que acompanham violões”. 

Como não evocar manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites alegres e madrugadas românticas nesta Meia-Ponte das minas de Nossa Senhora? A do Rosário, dos Brancos e dos Pretos. A dos Pretos ruiu sob os desgastes do tempo e a fraqueza das bolsas, minguadas de recursos naquele tempo dos anos de 1940, quando os bancos faliam ante a chamada moratória pecuária. 

A dos Brancos, incendiada sob o signo de Virgem naquele fatídico 5 de setembro de 2002. E a lembrança de mim, embriagado na Festa do Divino, procissão com banda-de-couro. Inerte e bêbado, quase impedi o retorno da procissão, deixado na soleira da porta lateral, do lado da Rua Direita. 

“Manhãs de festas / acordando Meia-Ponte / ao pé do monte seus antigos casarões”. Meu canto é de saudade; saudade de mim menino, ou de mim mais moço. O murmurante Rio das Almas... “Rio das Almas / vai levando as minhas mágoas / em meio às águas / a rolar, buscando norte”. 

Foi na Ramalhuda, verão em 1952, que me afoguei pela primeira vez. Um homem gordo tirou-me do poço fundo e seu sorriso me deixou confiante. Afoguei-me muitas vezes mais, porém sem medo. Em quantos poços, quantos copos me afoguei? 

Poção da ponte, de tanta memória! Música eterna das águas velozes... Meia-Lua, Pedreiras, Lajes... Tempo matado sem pressa em tardes e manhãs de férias. Vô Luiz, meu xará de Aquino Alves, maestro e seresteiro, não se banhava em casa – só nas águas do Rio das Almas. 

Meia-Ponte Pirenópolis de serenatas e cerveja muita, cachaça e lua de prata. Meu primeiro porre... acho que foi no Bar do China, irmão de Pérsio Forzani, no casarão que, caído, deu lugar à atual Casa de Justiça. 

Antes dos porres, os amores são a mais doce lembrança. Amores furtivos às margens do rio, amores inebriantes atrás das igrejas, ao sopé dos montes, no pico do Frota entre as antenas de tevê (o som da cidade, a cidade lá longe, o ar fresco da noite e a poesia emergente). 

Serenata de metais e cordas na noite serenada. Caju batizado na casa de Wilno. Alexandre, o maestro, era um menino que tocava na banda. Meu Vô Luiz tirava notas carinhosas de um trombone e eu volitava, rumo ao passado, para encontrar meu tio Ismael, o da clarinete, e Dito de Melani, o do pistom.  

“Ai, que saudade / de acordar ao som do pinho / cá no meu ninho / e sentir a lua cheia / na serenata / que dá vida à noite calma / e leva a alma / à viola que ponteia”. Meu canto de versos ganhou roupa nova na canção de José Pinto Neto. Zé Pinto, o de Caldas Novas, meu parceiro musical, também se foi mais cedo. Foi encontrar os meia-pontenses idos antes, como meu Vô.  

E Pirenópolis, a das verônicas do Divino, das congadas e dos doces cristalizados, a do licor de jabuticaba e vinho de caju, a Pirenópolis dos meus sonhos e minhas saudades, essa que não dorme... Essa, a cidade rodeada de montanha, encimada na paisagem pelas três colinas aniladas dos gigantes Pireneus, ah, essa!... 

Minha, nossa, eterna cidade de Nossa Senhora do Rosário! Não há fogo nem enchente que te apague de nossas almas.


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Luiz de Aquino, escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


Eleições na AGL


Vagas acadêmicas



A Academia Goiana de Letras realizará eleições – duas – para preenchimento de vagas. Duas delas em breve, sendo que uma já encerrou o prazo de inscrições, a outra ainda acolhe interessados. Uma terceira será anunciada, em data a ser ainda escolhida, quando acontecerá a Sessão da Saudade pelo desenlace de José Mendonça Teles.

Explico: as academias de letras são clubes fechados, com número de vagas limitados (o padrão é de 40 cadeiras, segundo os critérios da Academia Francesa, que se usou por modelo para a criação da Academia Brasileira de Letras). As vagas ocorrem quando do falecimento de membros. Os acadêmicos apreciam os candidatos, avaliando suas obras – é condição sine qua non para a candidatura – e assim definem suas preferências.

Recentemente faleceram os acadêmicos Eliézer José Penna, José Fernandes e José Mendonça Teles. Eliézer era o ocupante mais recente da Cadeira n° 5 e José Fernandes, da Cadeira n° 21. São essas as vagas declaradas, ato que se dá quando da respectiva Sessão da Saudade, quando um dos membros acadêmicos, por escolha do presidente da Entidade – hoje, a acadêmica Lêda Selma de Alencar – profere o panegírico ao confrade falecido.

Dentre os escritores que se apresentaram candidato, já me decidi pela professora Maria de Fátima Gonçalves Lima na Cadeira 5 e, ainda com o prazo de inscrições aberto, comprometi-me, de coração também, com o poeta e crítico literário Adalberto de Queiroz. Ambos são amigos da minha predileção, a quem admiro pelo trabalho desenvolvido na literatura praticada em Goiás.

As exigências formais da AGL são simples, tanto pelas condições pessoais do candidato (ser goiano residente no Estado ou aqui viver por pelo menos cinco anos, ser autor de livro), mas a sua relação com o meio literário e, obviamente, com o quadro acadêmico, definirão o gosto dos eleitores. De minha parte, finco pé no critério seletivo em que busco votar naquele que mais compromissos demonstra com o meio literário – como a sua produção, a qualidade de seu texto, a criatividade, a prática constante nos procederes da Educação e da Cultura, o amor à causa, à Academia e a Goiás.

O candidato deverá também demonstrar bom conhecimento da língua pátria, exercê-la com competência e defendê-la sempre. Na esfera social, costumo me informar sobre a atuação do candidato na aproximação com os jovens, buscando desenvolver neles o gosto pela leitura e o interesse pelos autores locais. Entendo também ser de boa referência o candidato à “imortalidade literária acadêmica” demonstrar que cultiva a boa prática de orientar e auxiliar jovens escritores. A imortalidade não é algo que se tenha por “imorrível”, como bem gosta de dizer a presidente Lêda Selma, mas isso se faz pela continuidade. Gosto de lembrar que na nossa juventude – aqui faço alusão aos septuagenários e sexagenários de agora – tivemos escritores veteranos que muito nos ajudaram, como Anatole Ramos, Carmo Bernardes, Yeda Schmaltz, Joaquim Machado de Araújo e muitos outros. Esses saudosos amigos já nos deixaram, mas cabe-nos continuar o seu empenho de assegurar a prática das letras, como autores e leitores, para a posteridade.

Voltarei ao tema, sempre. E espero voltar em breve, quando se iniciar o trabalho de sucessão à Cadeira n° 32, que teve José Mendonça por Primeiro Ocupante. Espero que nomes de realce nos quesitos acima referidos se apresentem e que eu possa escolher o autor da minha preferência para estar conosco. Por enquanto, votarei em Fátima e Adalberto, esperançoso em suas vitórias.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


domingo, abril 29, 2018

Liceu de Goiânia, 80 anos!

O Liceu de Goiânia, em bico-de-pena do talentoso artista vila-boense Di Maralhães




Sempre sob a Águia



Dedico esta fala, muito especialmente, ao poeta e acadêmico Emílio Vieira das Neves, com quem compartilhei os bancos liceanos a partir de 1963.


Em novembro de 2017, o Liceu comemorou 80 anos de sua chegada a Goiânia, O colégio, fundado em 1847 pelo presidente da província de Goiás, Barão de Ramalho, mas a população da antiga capital exigiu do governo que se restabelecesse a escola, o que se fez. Dividido geograficamente, o Liceu continuou sua História – lá e aqui.
Propus à Academia Goiana de Letras uma visita ao Colégio para festejar a efeméride, mas o adiamento foi inevitável. Na quarta-feira da semana que se encerra, 25 de abril, estivemos lá e coube-me saudar os estudantes, professores e a História, o que fiz aproximadamente no teor seguinte: 



Barão de Ramalho, fundador do "Liceo Goiano", em 1846.














Esta visita ao braço goianiense do centenário Liceu de Goiás é dos nossos planos desde o último novembro, quando este templo de ensino e formação de cidadãos festejou 80 anos. Ficam as minhas desculpas, justificadas pela agenda um tanto comprometida. Felizmente que o nosso jovem diretor compreendeu e ajustou esta data, em conveniência dupla.

O Liceu chegou a Goiânia como Ginásio Oficial de Goiás, dirigido pelo professor Iron Rocha Lima. E para cá trouxe não só o acervo escolar desde os meados do Século XIX, mas o ímpeto idealista da liberdade, ainda que fosse aquele o ano da instalação do Estado Novo – eufemismo para a consolidação do período arbitrário de Getúlio Vargas.

Há dez anos, aqui viemos, pela primeira vez, festejar os 70 anos. Naquela ocasião, fui incumbido pelo presidente Modesto Gomes para saudar o Liceu de Goiânia e sua história, o que fiz de modo a demonstrar que a nossa história vem da respeitável Vila Boa de Goiás e somos, sim, o ramal efluente do digno Liceu de Goiás, idealizado e criado pelo Barão de Ramalho por lei de 20 de junho de 1846.

Em 1963, matriculei-me no segundo semestre do primeiro ano do curso Clássico, a versão humanística do Colegial, onde fui colega do querido confrade professor Emílio Vieira, poeta e ensaísta admirável, dentre outros que marcam fortemente nossas lembranças.

Em 1969 e 1970, lecionei aqui Geografia e também Educação Moral e Cívica para os cursos Clássico e Científico – o que hoje é o Ensino Médio. Para mim, o Liceu era, legitimamente, a continuidade do Colégio Pedro II, criado no Império ao tempo do príncipe herdeiro, na mesma data de seu décimo primeiro aniversário, ou seja, nove anos antes da criação do Liceu – o décimo segundo estabelecimento criado no Brasil após aquele pioneiro Imperial Colégio de Dom Pedro II. Todos os demais tiveram suas atividades interrompidas, alguns retomaram suas atividades anos ou décadas após – somente o Pedro II e o Liceu Goiano mantiveram-se em funcionamento sem solução de continuidade.

A História inteira do colégio goiano, desde os tempos de seu surgimento, registra a passagem por suas salas de inumeráveis vultos de nossas letras, das ciências e da vida pública goiana e nacional. Leopoldo de Bulhões, aluno brilhante, teve ilustre carreira pública, chegando a ministro da Fazenda nos primeiros anos da República, após governar Goiás. Seu irmão Félix de Bulhões foi poeta notável, professor no Liceu e é patrono da Cadeira 4 da nossa Academia Goiana de Letras, hoje ocupada pela professora Moema de Castro e Silva Olival.

Bernardo Elis, um goiano na ABL.
Na antiga capital, foram notáveis alguns mestres, como Vicenzo Moretti Foghia – ao seu tempo, o único professor capaz de substituir qualquer outro, de qualquer disciplina – e os diretores Joaquim Ferreira dos Santos Azevedo e Alcide Ramos Jubé; o idealizador de Goiânia, Pedro Ludovico, e seu filho Mauro Borges, ambos ex-governadores; e escritores como José J. Veiga e Bernardo Elis (dois dentre os mais notáveis contistas brasileiros) e o artista plástico Octo Marques foram alunos na velha capital.
O contista José J. Veiga, autor goiano traduzido em 40 países.


Prof. Francisco Ferreira
O professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo – agrimensor, professor de Matemática – destacou-se, além do ofício de professor, por ser o autor de um Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, obra essa publicada após o seu falecimento. Orgulha-me partilhar da amizade de dois de seus netos – Antônio Celso e Geraldo F. Júnior.

Aconselho a vocês, que me ouvem, visitarem o Liceu em Goiás, a antiga capital. Verão aquela arquitetura histórica que nos toca e desperta a curiosidade natural ante a história. E a emoção virá quando lerem no alto dos portais, os nomes das salas, evocando sentimentos e valores, em lugar de frios números. Visitem a biblioteca, de livros valiosos e raros, bem como o espaço museológico Viva e Reviva, agora em fase de montagem.

Em Goiânia, também, grandes vultos da nossa história, nas mais variadas atividades – da ciência à política, das letras aos negócios – aqui passaram, como o artista plástico e professor Amaury Menezes, o governador, deputado e senador Irapuan Costa Júnior (o aluno liceano, em toda a história, recordista em notas) e dois ex-presidentes do Banco Central do Brasil – Gustavo Loyola e Henrique Meireles (mais tarde, ministro da Fazenda). E, também, o recentemente falecido professor Nion Albernaz, ex-aluno e ex-professor desta Casa, ex-prefeito de Goiânia em três mandatos.

Prof. Nion Albernaz, aluno e mestre no Liceu de Goiânia.

Entre nós, membros da Academia Goiana de Letras, somos muitos os ex-alunos e ex-professores, para nosso orgulho. E orgulhamo-nos, todos, por destaques como, por exemplo, os médicos Zacarias Kalil, Luiz Fernando Martins e Ciro Ricardo, entre tantos outros!

Amaury Menezes, artista plástico, também liceano na nova capital.

Na parede frontal do nosso prédio histórico, junto ao pórtico, há uma placa em vidro com nomes de ex-alunos. Não sei porque razão, o meu nome é o primeiro nessa lista – juro que não participei disso, foi coisa dos organizadores da Casa Cor, que ocorreu aqui em 2009. Somos centenas de milhares de ex-alunos desta casa dupla, este Liceu de 80 anos, desmembrado do eixo vila-boense – hoje às vésperas de seus 172 anos. Há dez anos, eu aqui cheguei com um paletó cinza e uma gravata que removi ao término da minha fala e mostrei-me com o uniforme dos meus tempos aquele da calça bege e da camisa branca, a águia bordada no bolso sobre o coração.

Eu, em 2010, devidamente
uniformizado como em 1963.
Hoje, troco o uniforme emblemático por um texto – um poema que escrevi em 2011, para atender ao pedido de um querido ex-aluno, o médico Pedro Dimas. É este:


Esses meninos sob a Águia

Era um tempo de homens rudes,
mulheres doces – seres severos…
Tempo de nós muito jovens.

Sonhamos crescer, lutar... quem sabe?
Alcançar liberdade – palavra perigosa,
vigiada e guardada a chave.

Meninos grandes de uniforme bege e branco;
jovens mestres de jaleco, pastas, livros
e giz ante o quadro escuro...

Quadro negro, quase sempre verde...
Lousa, massa e cimento
berço de textos e contas – lições.

Calça cáqui, sapatos pretos, saias medianas;
Meninas de meias brancas, muito alvas
– um rigor religioso, aquele!

No peito, a águia! Vigia solene,
asas abertas ao voo
viagem no tempo a vir!
E o sentimento de fé e sonhos. Marcamos:
– sine die, seja sábado e noite,
mas em quarenta anos (ao menos).

* * *

Luiz de Aquino, moço professor de 1970, feliz outa vez entre vocês!

sábado, abril 21, 2018

Partitura bajo la Lluvia









Poesia à chuva e na madrugada

(Prefácio para o livro Partitura bajo la lluvia, da poeta colombiana Lyda Cristina López, cujo lançamento dacontece neste sábado, 21 de abril, em Bogotá. L.deA.)





Poesia não é somente a construção de versos emocionados e impactantes, como querem alguns. Poesia, para mim, é a alma das artes. É o sentimento humano – ou a capacidade humana de se emocionar ante algo.

Sei de mim e dos que me são próximos que as pessoas nascem poetas. Alguns se comprazem em descobrir sentimentos e sentidos para a vida – e se fazem poetas pela vida inteira. Outros se esquecem. Vejo poesia num improviso feliz do atleta e na exatidão matemática da dança. Ao meu modo, como qualquer outro poeta, saberei contar em versos o que me emociona.

Há, porém, poetas de variadas formas de dizer – ou de narrar. E cada um marca a sua poesia com tudo o que traz na alma e consegue realizar com a matéria corporal, seja escrevendo, seja cantando ou encenando em teatro, além de nos causar enlevo com a magia da música.

Descobri a poesia de Lyda Cristina Lopez em seu livro anterior, Carta para um hombre en el crepúsculo. Encantei-me de seus versos, seu modo simples e rico de conceber os versos e concluir com maestria os poemas. Ela sabe, como poucos, eleger seus temas e os desenvolve com talento e magia. Que doçura encontrei em

Vestirme de noche,
y visitarte enn la madrugada.
Llevar conmigo uma estrella
y salir a recorrer el mundo.
(in Días sin regreso)



Senti-me feliz quando a poeta Lyda Cristina surpreendeu-me com um convite: escrever um prólogo para seu próximo livro. Recebi, por e-mail, seus originais (devo dizer que não nos conhecemos pessoalmente, ainda) que li com a certeza de que estava, uma vez mais, diante de um livro de poesia excelente, límpida como noites de estrelas, translúcida como água da fonte que desce a montanha.


A cada verso, estrofe a estrofe, tentava adivinhar a pessoa atrás da pena, a mão sobre o teclado mas, especialmente, a cabeça e a alma que animam o corpo, define a mulher e determina a poeta. Nosso elo é minha prima Lucila - mulher de seu irmão gêmeo, Júlio - que me presenteou com o já citado livro anterior de Lyda Cristina. Lucila contou-me não só da pessoa poeta que faz brotar estes poemas, mas situou-a na Geografia de sua pequena cidade, Ginebra, ao pé da montanha, onde a vida segue seu curso sem pressa nem medos e onde a primavera se eterniza nas orlas dos caminhos. Voltei a ler – pela terceira vez – os poemas de Partitura bajo la Lluvia, agora, o saber da pessoa, além do sabor dos versos e dos poemas.



Intrigava-me o título. E me transportei para tardes e noites chuvosas em Ginebra, encontrei – sem que ela me notasse – a poeta a compor poesia como um musicista elabora sua escrita de colcheias e semibreves, de claves de Sol e Fá. Acredito que sei bem como fluem os elementos da criação, em música como em versos. Ao recorrer aos dicionários para elucidar alguns trechos, saboreei descobertas e me senti como que parceiro ou sócio da poeta. Tola pretensão, esta minha!

O fato é que me embriagaram a surpresa e o ambiente. A chuva constante, como nas narrativas de Gabo Garcia Marques, é como um instrumentista a oferecer compassos ao poeta.

Una gota se repite
y el sonido
del agua no se detiene,
va y viene.
..................
¿Dónde quedó la madrugada
cuando la lluvia interpretó su partitura
y convirtió la noche en puntos suspensivos,
las estrellas en interrogantes,
la luna en una coma
y el silencio en punto aparte?


Em momentos outros, em outros poemas, outros versos, encontrei-me como quem passeia com a poeta, pois também sou notívago como os lobos e as corujas. Contudo, sou apreciador de quem sabe, com competência, descrever situações que, em algumas circunstâncias, apenas nos inibem – e nos silenciam, como nesse poema:


Huellas


Por eso estoy aquí aventando palabras contra el cielo indiferente.
Manuel Scorza


Cada horizonte
congela en su melancolía una lágrima.

Un rayo de luz enciende una idea,
una estrella baña de mutismo las palabras.

Silencios que se albergan en diálogos,
abren puertas para nuevos milenios,
exorcizan lamentos,
desentierran cantos de viajeros olvidados
y dejan huellas de grandes sabios.

Aparece un ángel
y dibuja la paz entre ellos.




Recobro o fôlego e os sentidos, emocionado. Volto a ler, a reler seus versos, ó poeta Lyda Cristina, e fico a imaginar a obra finalizada, o livro pronto em volume solene. Sinto que será bonito e agradável, como o que ganhei de Lucila. E em forte calor, mesmo que sob um sonoro chuvisco, sinto-me, leitor, seu parceiro de escrita e sentimentos, perguntando-me com suas palavras:

¿Dónde quedó la madrugada
cuando dejé escapar las palabras?


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Luiz de Aquino
Poeta, da Academia Goiana de Letras
(Goiânia, Goiás, Brasil)


domingo, abril 15, 2018

Livros... crônica de abril, 2010.


Livros à mão cheia

(Crônica publicada nos primeiros dias de abril de 2010. Escolhi republicá-la para fixar um evento que precisa ser mais goiano, posto que tem por cenário um dos nossos mais belos sítios históricos – a secular Pirenópolis, enquanto revivo dois fatos que me simpatizaram – a do religioso católico que não quer o crucifixo cristão em ambientes políticos e o professor que recebeu um “desconvite”).


Encerrou-se a II Festa Literária de Pirenópolis (FLIPIRI. abril/2010). O evento homenageou a atriz que há mais de trinta anos escolheu viver entre os montes delineados pelo Rio das Almas, Eliane Laje. Sua vida confunde-se com a história do cinema brasileiro em muitos pontos, como se viu pelos filmes e fotografias. Escritores famosos pela grande mídia e preferidos das grandes editoras foram realce entre os menos cotados, estes que pontuam pelos vários brasis literários que teimam em existir. Uma festa digna de nota e de destino: ela vai se firmar como o grande evento das letras no Planalto Central, sob a batuta da Prefeitura de Pirenópolis.

Quatro dias depois de encerrada essa mostra, Goiânia sediou o que nos parece ser um récorde: o lançamento simultâneo de cento e trinta e seis (sim: 136) livros, entre autores contumazes e grande número de escritores inéditos. O fato andou despertando o sentimento de raposa em alguns, destacados entre os que o general João Figueiredo qualificou como “profetas da desgraça” (esse tipo de pessoa para quem “quanto pior, melhor”). Estes, olhando o imenso cacho de uvas na parreira, comentaram: “Estão verdes”. Mas a Prefeitura de Goiânia posou de farta palmeira e rendeu belos frutos, sim!

Em Santa Catarina, em 2005, formandos de vários cursos de uma universidade particular convidaram um dos professores dirigentes da instituição para paraninfo. Honrado e agradecido, o homem aceitou. Quando lhe estenderam o pires, o velho mestre ofereceu mil reais. Sim: o cheque, se é que era um cheque, estaria preenchido como na praxe: hum mil reais. A comissão de formatura oficiou-lhe um “desconvite”, usando mesmo esta palavra. O homem, com a humildade dos vitoriosos, respondeu com sabedoria, colocando aqueles estudantes em seus devidos lugares e lamentando, ao final, ter contribuído para formar pessoas tão desprovidas de caráter. Está certo: onde já se viu leiloar uma honraria? Mas é prática corrente nas universidades brasileiras. Esse fato é análogo ao que se deu em São Paulo, onde o Ministério Público determinou a remoção dos crucifixos em repartições. Um frade católico manifestou-se: 

Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de SãoPaulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas. Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada! Nunca gostei de ver a Cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas. Não quero ver a Cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas (pobres) morrem sem atendimento. É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres. Frade Demetrius dos Santos Silva - São Paulo/SP.

Não posso assegurar que seja verdade, nem que exista, de fato, um Frade Demétrio dos Santos Silva. Mas, se não existe, saúdo com dignidade quem o inventou, porque essa é, de fato, uma atitude nobre. Tão nobre quanto a do professor Rubens Araújo de Oliveira (a julgar serem também verdadeiros o fato e a pessoa). Em ambos os casos, sinto que faltaram dois elementos primordiais na formação dos que levianamente assumem atitudes de desconvidar e (ou) de remover símbolos de fé. Faltaram família e livros.

Sou frequentador contumaz de escolas dos quatro níveis (agora, surgiu um nível preliminar, a pré-escola) e sei que as famílias, irresponsavelmente, atribuem à escola as suas obrigações como educadora, mas já vi pais pondo dedos (sujos, é claro) nos narizes de professores, com uma legenda nojenta: “Sou eu quem paga o seu salário”. E vejo a distorção do uso das mídias, com a criançada sofrendo desvios, os livros substituídos por videogames e pelas drogas. O resultado é esse aí: formandos que escolhem paraninfos pelo poder de doação de grana e promotores que preferem anular a fé, em lugar de permitir que se use um símbolo, seja ele uma cruz com Cristo, uma cruz sem Cristo, uma Estrela de Davi ou um Quarto Crescente.

Viva o professor Rubens! Viva o Frade Demétrio! Viva Castro Alves, que exalta os que semeiam livros!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, abril 07, 2018

A despedida de Marconi



Marconi despede-se com louros



A segunda-feira, dia 2 de abril, foi especial nos alfarrábios da memória. Foi nesse dia, há exatos 50 anos, que ministrei minha primeira aula. O local, um Ginásio Orientado para o Trabalho, o Dom Abel, no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia. A diretora, Maria Isabel, entrevistou-me, supôs que eu “levava jeito” e conduziu-me à última sala do pavilhão – se não estou enganado, era o 1° B.

Em poucos anos, atuei em outras escolas, como o Instituto Presbiteriano de Educação e o Liceu de Goiânia, além de alguns cursinhos. Mas caí no desgosto que marca a inveja. Os desafetos tentaram rotular-me “subversivo” para que a repressão me pegasse.

Tive de deixar o ensino. Eu era um crítico sério da reforma do ensino aplicada a partir de 1971, quando se extinguiu o Exame de Admissão “para democratizar o ensino” e instituíram-se os “cursos profissionalizantes” em lugar do Colegial. O aprendizado perdeu, aos poucos, o conteúdo. E distanciou-se da realidade. Em 1996, entendeu-se que aquele sistema estava falindo e implantou-se um novo – que já nasceu falido. A meta, com a mudança de nomes (Ensino Fundamental, em duas fases, e Ensino Médio, em três anos) passou a ser somente “passar no vestibular”.

Num momento feliz, um de meus alunos – Wilmar Alves, jornalista conceituado – empregou-me como redator no jornal em que trabalhava. Em poucas semanas, já me sentia aceito e reconhecido pelos novos colegas. O tempo e as cãs foram sábios mestres. Já não mais sou ressentido pela perseguição mesquinha que me tirou do Ensino. Se o grande sonho não pôde acontecer, supri-o na atividade paralela ao grande sonho. E consegui sonhar maior e dar passos mais amplos, felizmente.

Neste 2 de abril, a segunda-feira passada, tive a alegria de encontrar o Joaquim, um dos meninos daquele inesquecível 1° B. Dei-lhe um abraço e continuei a comemorar, no meu íntimo, estes 50 anos em que, bafejado pelo destino, substituí o ofício do Ensino pelo de Comunicador e escritor de versos e prosa vária.

Nestas condições, as de jornalista e escritor, encerrei a semana testemunhando algumas das atividades do governador Marconi Perillo, que se despedia do cargo para atribuir ao atual titular da Casa Verde, o governador José Éliton, a missão da continuidade. Nestes 20 anos de seu período áureo – duas vezes governador, uma vez senador por quatro anos e novamente duas vezes governador – Marconi Perillo impulsionou Goiás em vários segmentos da vida pública e social, multiplicando muitas vezes o PIB, realizando obras marcantes, ampliando muito a rede viária e também a rede hospitalar estadual e ainda reclassificandopara melhor, com a inestimável competência da professora Raquel Teixeira, a qualidade do Ensino Público Estadual.



Raquel Teixeira e Marconi Perillo - resultados felizes na Educação e na Cultura.

Na Cultura, porém, está a maior gama de feitos. Digo isso porque nenhum de seus antecessores realizou tanto no incentivo à produção literária, artística (plástica), teatral, cinematográfica e musical. Ele abriu espaços para as apresentações e fortaleceu as entidades culturais, facilitou o ativismo cultural com a Lei Goiases e o Fundo de Cultura. Nestes dias de despedidas, testemunhei várias manifestações de dedicação e de gratidão ao líder, que se prepara para outros voos em sua vida pública.

Que seja vitorioso e possa continuar a jornada de grandes feitos. Uma jornada como a de Marconi Perillo certamente registra alguns percalços – afinal, somos todos humanos e passíveis de erros –, mas o balancete em duas colunas mostra resultados elevados na rubrica dos acertos.



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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.