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sábado, abril 21, 2018

Partitura bajo la Lluvia









Poesia à chuva e na madrugada

(Prefácio para o livro Partitura bajo la lluvia, da poeta colombiana Lyda Cristina López, cujo lançamento dacontece neste sábado, 21 de abril, em Bogotá. L.deA.)





Poesia não é somente a construção de versos emocionados e impactantes, como querem alguns. Poesia, para mim, é a alma das artes. É o sentimento humano – ou a capacidade humana de se emocionar ante algo.

Sei de mim e dos que me são próximos que as pessoas nascem poetas. Alguns se comprazem em descobrir sentimentos e sentidos para a vida – e se fazem poetas pela vida inteira. Outros se esquecem. Vejo poesia num improviso feliz do atleta e na exatidão matemática da dança. Ao meu modo, como qualquer outro poeta, saberei contar em versos o que me emociona.

Há, porém, poetas de variadas formas de dizer – ou de narrar. E cada um marca a sua poesia com tudo o que traz na alma e consegue realizar com a matéria corporal, seja escrevendo, seja cantando ou encenando em teatro, além de nos causar enlevo com a magia da música.

Descobri a poesia de Lyda Cristina Lopez em seu livro anterior, Carta para um hombre en el crepúsculo. Encantei-me de seus versos, seu modo simples e rico de conceber os versos e concluir com maestria os poemas. Ela sabe, como poucos, eleger seus temas e os desenvolve com talento e magia. Que doçura encontrei em

Vestirme de noche,
y visitarte enn la madrugada.
Llevar conmigo uma estrella
y salir a recorrer el mundo.
(in Días sin regreso)



Senti-me feliz quando a poeta Lyda Cristina surpreendeu-me com um convite: escrever um prólogo para seu próximo livro. Recebi, por e-mail, seus originais (devo dizer que não nos conhecemos pessoalmente, ainda) que li com a certeza de que estava, uma vez mais, diante de um livro de poesia excelente, límpida como noites de estrelas, translúcida como água da fonte que desce a montanha.


A cada verso, estrofe a estrofe, tentava adivinhar a pessoa atrás da pena, a mão sobre o teclado mas, especialmente, a cabeça e a alma que animam o corpo, define a mulher e determina a poeta. Nosso elo é minha prima Lucila - mulher de seu irmão gêmeo, Júlio - que me presenteou com o já citado livro anterior de Lyda Cristina. Lucila contou-me não só da pessoa poeta que faz brotar estes poemas, mas situou-a na Geografia de sua pequena cidade, Ginebra, ao pé da montanha, onde a vida segue seu curso sem pressa nem medos e onde a primavera se eterniza nas orlas dos caminhos. Voltei a ler – pela terceira vez – os poemas de Partitura bajo la Lluvia, agora, o saber da pessoa, além do sabor dos versos e dos poemas.



Intrigava-me o título. E me transportei para tardes e noites chuvosas em Ginebra, encontrei – sem que ela me notasse – a poeta a compor poesia como um musicista elabora sua escrita de colcheias e semibreves, de claves de Sol e Fá. Acredito que sei bem como fluem os elementos da criação, em música como em versos. Ao recorrer aos dicionários para elucidar alguns trechos, saboreei descobertas e me senti como que parceiro ou sócio da poeta. Tola pretensão, esta minha!

O fato é que me embriagaram a surpresa e o ambiente. A chuva constante, como nas narrativas de Gabo Garcia Marques, é como um instrumentista a oferecer compassos ao poeta.

Una gota se repite
y el sonido
del agua no se detiene,
va y viene.
..................
¿Dónde quedó la madrugada
cuando la lluvia interpretó su partitura
y convirtió la noche en puntos suspensivos,
las estrellas en interrogantes,
la luna en una coma
y el silencio en punto aparte?


Em momentos outros, em outros poemas, outros versos, encontrei-me como quem passeia com a poeta, pois também sou notívago como os lobos e as corujas. Contudo, sou apreciador de quem sabe, com competência, descrever situações que, em algumas circunstâncias, apenas nos inibem – e nos silenciam, como nesse poema:


Huellas


Por eso estoy aquí aventando palabras contra el cielo indiferente.
Manuel Scorza


Cada horizonte
congela en su melancolía una lágrima.

Un rayo de luz enciende una idea,
una estrella baña de mutismo las palabras.

Silencios que se albergan en diálogos,
abren puertas para nuevos milenios,
exorcizan lamentos,
desentierran cantos de viajeros olvidados
y dejan huellas de grandes sabios.

Aparece un ángel
y dibuja la paz entre ellos.




Recobro o fôlego e os sentidos, emocionado. Volto a ler, a reler seus versos, ó poeta Lyda Cristina, e fico a imaginar a obra finalizada, o livro pronto em volume solene. Sinto que será bonito e agradável, como o que ganhei de Lucila. E em forte calor, mesmo que sob um sonoro chuvisco, sinto-me, leitor, seu parceiro de escrita e sentimentos, perguntando-me com suas palavras:

¿Dónde quedó la madrugada
cuando dejé escapar las palabras?


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Luiz de Aquino
Poeta, da Academia Goiana de Letras
(Goiânia, Goiás, Brasil)


domingo, abril 15, 2018

Livros... crônica de abril, 2010.


Livros à mão cheia

(Crônica publicada nos primeiros dias de abril de 2010. Escolhi republicá-la para fixar um evento que precisa ser mais goiano, posto que tem por cenário um dos nossos mais belos sítios históricos – a secular Pirenópolis, enquanto revivo dois fatos que me simpatizaram – a do religioso católico que não quer o crucifixo cristão em ambientes políticos e o professor que recebeu um “desconvite”).


Encerrou-se a II Festa Literária de Pirenópolis (FLIPIRI. abril/2010). O evento homenageou a atriz que há mais de trinta anos escolheu viver entre os montes delineados pelo Rio das Almas, Eliane Laje. Sua vida confunde-se com a história do cinema brasileiro em muitos pontos, como se viu pelos filmes e fotografias. Escritores famosos pela grande mídia e preferidos das grandes editoras foram realce entre os menos cotados, estes que pontuam pelos vários brasis literários que teimam em existir. Uma festa digna de nota e de destino: ela vai se firmar como o grande evento das letras no Planalto Central, sob a batuta da Prefeitura de Pirenópolis.

Quatro dias depois de encerrada essa mostra, Goiânia sediou o que nos parece ser um récorde: o lançamento simultâneo de cento e trinta e seis (sim: 136) livros, entre autores contumazes e grande número de escritores inéditos. O fato andou despertando o sentimento de raposa em alguns, destacados entre os que o general João Figueiredo qualificou como “profetas da desgraça” (esse tipo de pessoa para quem “quanto pior, melhor”). Estes, olhando o imenso cacho de uvas na parreira, comentaram: “Estão verdes”. Mas a Prefeitura de Goiânia posou de farta palmeira e rendeu belos frutos, sim!

Em Santa Catarina, em 2005, formandos de vários cursos de uma universidade particular convidaram um dos professores dirigentes da instituição para paraninfo. Honrado e agradecido, o homem aceitou. Quando lhe estenderam o pires, o velho mestre ofereceu mil reais. Sim: o cheque, se é que era um cheque, estaria preenchido como na praxe: hum mil reais. A comissão de formatura oficiou-lhe um “desconvite”, usando mesmo esta palavra. O homem, com a humildade dos vitoriosos, respondeu com sabedoria, colocando aqueles estudantes em seus devidos lugares e lamentando, ao final, ter contribuído para formar pessoas tão desprovidas de caráter. Está certo: onde já se viu leiloar uma honraria? Mas é prática corrente nas universidades brasileiras. Esse fato é análogo ao que se deu em São Paulo, onde o Ministério Público determinou a remoção dos crucifixos em repartições. Um frade católico manifestou-se: 

Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de SãoPaulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas. Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada! Nunca gostei de ver a Cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas. Não quero ver a Cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas (pobres) morrem sem atendimento. É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres. Frade Demetrius dos Santos Silva - São Paulo/SP.

Não posso assegurar que seja verdade, nem que exista, de fato, um Frade Demétrio dos Santos Silva. Mas, se não existe, saúdo com dignidade quem o inventou, porque essa é, de fato, uma atitude nobre. Tão nobre quanto a do professor Rubens Araújo de Oliveira (a julgar serem também verdadeiros o fato e a pessoa). Em ambos os casos, sinto que faltaram dois elementos primordiais na formação dos que levianamente assumem atitudes de desconvidar e (ou) de remover símbolos de fé. Faltaram família e livros.

Sou frequentador contumaz de escolas dos quatro níveis (agora, surgiu um nível preliminar, a pré-escola) e sei que as famílias, irresponsavelmente, atribuem à escola as suas obrigações como educadora, mas já vi pais pondo dedos (sujos, é claro) nos narizes de professores, com uma legenda nojenta: “Sou eu quem paga o seu salário”. E vejo a distorção do uso das mídias, com a criançada sofrendo desvios, os livros substituídos por videogames e pelas drogas. O resultado é esse aí: formandos que escolhem paraninfos pelo poder de doação de grana e promotores que preferem anular a fé, em lugar de permitir que se use um símbolo, seja ele uma cruz com Cristo, uma cruz sem Cristo, uma Estrela de Davi ou um Quarto Crescente.

Viva o professor Rubens! Viva o Frade Demétrio! Viva Castro Alves, que exalta os que semeiam livros!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, abril 07, 2018

A despedida de Marconi



Marconi despede-se com louros



A segunda-feira, dia 2 de abril, foi especial nos alfarrábios da memória. Foi nesse dia, há exatos 50 anos, que ministrei minha primeira aula. O local, um Ginásio Orientado para o Trabalho, o Dom Abel, no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia. A diretora, Maria Isabel, entrevistou-me, supôs que eu “levava jeito” e conduziu-me à última sala do pavilhão – se não estou enganado, era o 1° B.

Em poucos anos, atuei em outras escolas, como o Instituto Presbiteriano de Educação e o Liceu de Goiânia, além de alguns cursinhos. Mas caí no desgosto que marca a inveja. Os desafetos tentaram rotular-me “subversivo” para que a repressão me pegasse.

Tive de deixar o ensino. Eu era um crítico sério da reforma do ensino aplicada a partir de 1971, quando se extinguiu o Exame de Admissão “para democratizar o ensino” e instituíram-se os “cursos profissionalizantes” em lugar do Colegial. O aprendizado perdeu, aos poucos, o conteúdo. E distanciou-se da realidade. Em 1996, entendeu-se que aquele sistema estava falindo e implantou-se um novo – que já nasceu falido. A meta, com a mudança de nomes (Ensino Fundamental, em duas fases, e Ensino Médio, em três anos) passou a ser somente “passar no vestibular”.

Num momento feliz, um de meus alunos – Wilmar Alves, jornalista conceituado – empregou-me como redator no jornal em que trabalhava. Em poucas semanas, já me sentia aceito e reconhecido pelos novos colegas. O tempo e as cãs foram sábios mestres. Já não mais sou ressentido pela perseguição mesquinha que me tirou do Ensino. Se o grande sonho não pôde acontecer, supri-o na atividade paralela ao grande sonho. E consegui sonhar maior e dar passos mais amplos, felizmente.

Neste 2 de abril, a segunda-feira passada, tive a alegria de encontrar o Joaquim, um dos meninos daquele inesquecível 1° B. Dei-lhe um abraço e continuei a comemorar, no meu íntimo, estes 50 anos em que, bafejado pelo destino, substituí o ofício do Ensino pelo de Comunicador e escritor de versos e prosa vária.

Nestas condições, as de jornalista e escritor, encerrei a semana testemunhando algumas das atividades do governador Marconi Perillo, que se despedia do cargo para atribuir ao atual titular da Casa Verde, o governador José Éliton, a missão da continuidade. Nestes 20 anos de seu período áureo – duas vezes governador, uma vez senador por quatro anos e novamente duas vezes governador – Marconi Perillo impulsionou Goiás em vários segmentos da vida pública e social, multiplicando muitas vezes o PIB, realizando obras marcantes, ampliando muito a rede viária e também a rede hospitalar estadual e ainda reclassificandopara melhor, com a inestimável competência da professora Raquel Teixeira, a qualidade do Ensino Público Estadual.



Raquel Teixeira e Marconi Perillo - resultados felizes na Educação e na Cultura.

Na Cultura, porém, está a maior gama de feitos. Digo isso porque nenhum de seus antecessores realizou tanto no incentivo à produção literária, artística (plástica), teatral, cinematográfica e musical. Ele abriu espaços para as apresentações e fortaleceu as entidades culturais, facilitou o ativismo cultural com a Lei Goiases e o Fundo de Cultura. Nestes dias de despedidas, testemunhei várias manifestações de dedicação e de gratidão ao líder, que se prepara para outros voos em sua vida pública.

Que seja vitorioso e possa continuar a jornada de grandes feitos. Uma jornada como a de Marconi Perillo certamente registra alguns percalços – afinal, somos todos humanos e passíveis de erros –, mas o balancete em duas colunas mostra resultados elevados na rubrica dos acertos.



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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



domingo, abril 01, 2018

Frederico Jayme Filho, 50 anos de vida pública

A capa: o biografado, na visão do genial retratista Amaury Menezes.





Frederiquinho Jayme em livro



O escritor Nilson Jaime, mestre e doutor em Agronomia, tem como forte marca da puberdade a prática da entrega de jornais de casa em casa na sua bucólica e histórica Palmeiras de Goiás. Quando estudante universitário, praticou com indiscutível paixão a política estudantil, opondo-se ao regime militar, que já anunciava estertores naquele final da década de 1970.

Praticou o jornalismo e o ensino em escolas médias, antes de se graduar nas ciências do campo – de que também foi professor. Estimulado por adultos com pendores para a melhor formação de meninos e jovens, descobriu valores de realce na própria família, levando em conta o peso do nome Jaime, instituído como sobrenome pelo patriarca de sua grei, o padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury.

Rememorando: o padre Luiz Gonzaga foi o primeiro jornalista de Goiás: era o redator e editor da Matutina Meiapontense (era assim que se escrevia, mas o termo certo, hoje, é “meia-pontense”), jornal pioneiro em todo o Centro-Oeste brasileiro, informativo oficial das províncias de Goiás e Mato Grosso. Manteve com Sá Genu (Genoveva Maria da Soledade) uma relação amorosa pelo tempo suficiente para gerarem sete filhos – o primogênito foi João Gonzaga Jaime de Sá.

Nilson Jaime intrigou-se, quando adolescente ou mesmo nos tempos de jornaleiro, com o fato de seu parente Jarbas Jayme, um dos maiores genealogistas brasileiros, ter omitido a descendência mestiça da segunda família do “Vô Jaime”, o primeiro Jaime. Decidiu-se por corrigir essa falha do registro histórico e nos trouxe, no final de 2016, o seu volumoso Família Jaime/Jayme – genealogia e história, do qual me orgulho por ter participado como revisor e prefaciador (assumo os erros de revisões, pois não pude fazer sequer uma segunda leitura, em virtude do tempo, e de um errinho bobo no prefácio, quando disse que entre mim e os Jaime/Jayme não havia parentesco. Descuidado, confesso que não sabia que o primeiro dos Aquino de Pirenópolis, Luiz Tomás de Aquino, meu trisavô, era irmão de Sá Genu – Genoveva Maria da Soledade – a mãe de “Vô Jaime”.

Frederico Jayme Filho e o primo (e autor) Nilson Jaime, num dos encontros para a feitura do novo livro. 





Encantei-me, desde o início, com a tenacidade, o senso criterioso da pesquisa, a dedicação impecável e o propósito gigantesco do primo Nilson Jaime: ele arrolou pouco mais de oito mil e quinhentos descendentes do Vô Jaime! E compreendo hoje, um ano e quatro meses após trazer a lume a história dos Jaime/Jayme, o que motivou Nilson a pesquisar, escrever e publicar esta nova obra: Frederico Jayme Filho – 50 anos de vida pública.

A festa no Salão Dona Gercina, no Palácio das Esmeraldas, reuniu uma multidão de escritores, políticos e, inevitavelmente, membros das famílias Jaime/Jayme e outras afins. Poeta e político, Fausto Jayme observou: “O Nilson juntou aqui segmentos da direita e da esquerda”, obviamente referindo-se a si mesmo e a opositores históricos, com o ex-governador Irapuã Costa Júnior. O governador Marconi Perillo, ao saudar as autoridades, enfatizou a própria esposa – Valéria Jaime Peixoto Perillo – e não vacilou em dirigir-se aos Jaime e Jayme presentes como “meus queridos primos”.

Frederico Jayme Filho não ocultava a alegria redundantemente feliz – sorria e distribuía atenções e abraços. Orgulhosamente, seu pai também festejava o momento, e sem o perceber liderava a alegria de tantos parentes naquele destacado salão de eventos culturais – desta vez compartilhado também pela comunidade política.

Colhi o autógrafo do autor; não consegui o do biografado, mas irei ao seu encontro para, após concluir a leitura, depositar o livro em lugar de honra na estante. Afinal, a vida de Frederiquinho Jayme – como a ele se referem os parentes – confunde-se com a história de Goiás no último meio século, e Nilson conta, na obra, como foram os governos de nosso Estado desde 1947.



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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, março 25, 2018

Educação em Goiás



Notícia positiva na  
"grande imprensa"


Goiás foi notícia, no dia 23 de março, no jornal Folha de São Paulo. Mas, desta vez, não se falou em mortes nas filas dos postos de saúde, em chacina passional, mortes em conflitos polícia-bandidos nem ocorrências alusivas à super onda de lama que assola o meio político-empresarial.

Também não se tratou do surpreendente surgimento de uma nova dupla da moderna música sertaneja, nem do provável título de cidadã honorária a uma cantora que encanta as massas menos exigentes. O grande jornal da maior cidade brasileira noticiou avanços positivos na rede pública estadual de ensino, dirigida pela competente gestora Raquel Teixeira, pela segunda vez na Pasta. 

Sinto-me muito à vontade para reconhecer e destacar os feitos de Raquel Teixeira. Acompanho-a desde longa data, quando atuava no Departamento (hoje Faculdade) de Letras da Universidade Federal de Goiás. Participamos, em parceria, de alguns projetos nas esferas da cultura e da Educação e testemunhei, à pouca distância, suas vitórias no primeiro mandato de Marconi Perillo (1999/2002), quando assinou convênio com a Fundação Airton Senna e trouxe ajuda para a área da Educação em Goiás, com resultados bastante satisfatórios.

Sobre esse período, a Folha assim se referiu:
Era ela também a responsável pela pasta no início dos anos 2000, quando Goiás apresentava um dos mais altos índices de repetência e evasão do país e tinha apenas 32% dos docentes com curso superior. Numa parceria à época com o Instituto Ayrton Senna, a gestão conseguiu acelerar o fluxo e implementar um programa de licenciatura aos docentes.

Desde então, o estado se tornou referência em alguns parâmetros de educação. No último resultado do Ideb – indicador que une o percentual de aprovação e médias de desempenho na Prova Brasil – a rede garantiu a 2ª colocação nos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º anos), a primeira nos anos finais do fundamental (6º ao 9º anos) e o segundo lugar no ensino médio.

Acompanhei, questionei, divergi e concordei quando se discutiu a implantação das organizações sociais na Educação, considerando a experiência vivida na esfera da Saúde (hoje, nossos hospitais estaduais são referência em todo o país), mas a adequação exige, como era esperando, adequações que implicam mudanças e cuidados - especialmente no que tange à proteção do professor da rede, vítima eterna do reconhecimento nem sempre à altura de sua importância e, nos últimos tempos, figura exposta a riscos jamais antes imaginados, como as ameaças e agressões sofridas no ambiente escolar. E testemunhei também as atitudes corajosas e desafiadoras da professora Raquel sempre que se fez necessário defender os corpos discentes de todo o Estado. Por sua ingerência e por seu trabalho sempre bem reconhecido pelo governador Marconi Perillo, foi a Educação, em alguns momentos, o primeiro dos setores da vida pública goiana a receber alguns benefícios.

O jornal paulista conta algumas novidades no nosso sistema da educação pública estadual: 
OLHAR LOCAL Tratar dentro de casa e com os profissionais de casa os problemas que são de casa. Essa foi a fórmula encontrada para engajar os 23,5 mil docentes da rede ao uso da que é considerada a principal ferramenta pedagógica: os cadernos Aprender + (Aprender Mais).
O material é distribuído a cada bimestre com ênfase no conteúdo em que os estudantes mais apresentam dificuldade. O livro dos alunos traz um compilado de atividades e o do professor, as expectativas de aprendizagem e todos os exercícios resolvidos.
“Quando decidimos produzir o Aprender +, havia uma preocupação em relação a como professores e diretores entenderiam a iniciativa’, afirma o superintendente de Gestão Pedagógica da pasta, Marcelo Jerônimo. ‘Concebida pelos próprios pares, o resultado foi o engajamento de mais de 90% dos nossos professores”.

Minha esperança é no sentido da manutenção dessas vitórias. Infelizmente, a mudança da gestão – como costuma acontecer nas trocas de governos – pode resultar em abandono dos novos critérios. E as novidades neste atual período de Raquel Teixeira na Educação (atualmente, acrescida das áreas de Cultura e Esportes) foram assim reportados na Folha:
Gleyson Souza da Costa, 17 anos, aproveitou o material para estudar para o vestibular. Morador de Rio Verde, município a 230 km de Goiânia, ele cursou a educação básica na rede pública e foi aprovado no fim do ano passado no curso de engenharia do Instituto Federal Goiano.
– Como o material é muito prático e deixa bem explícitas as competências a serem trabalhadas, o professor consegue acelerar os conteúdos – afirma o estudante.
A secretaria enxerga essa percepção de Gleyson como uma resposta positiva a um projeto que prevê “uma escola que faça sentido ao jovem”. 

A superintendente de Integração Tecnológica da Informação, Rosana Cerosino, explica:
“A escola não pode ficar distante da realidade que os meninos vivem”.
Sob a batuta dela é que foi desenvolvido o aplicativo Palma da Mão, disponível a partir deste ano letivo. O objetivo é que pais e alunos tenham acesso a informações gerais, como boletim escolar, faltas, cardápio, quadro de avisos e até compartilhamento de material didático.

Volto ao início: enfim, Goiás é notícia na grande imprensa, mas desta vez o motivo não é coisa do mundo-cão.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, março 16, 2018

Marielle Franco


Eufemismo inaplicável



Estado democrático de direito. Alguém com bom senso, ao menos, pode me explicar o que as três palavras, assim juntadas, significam? O noticiário impresso, o eletrônico e as redes sociais estão abarrotados de notícias terríveis, redigidas em péssimo estilo, pronunciadas com total ignorância de regras básicas da Língua e até mesmo em frontal menosprezo aos conhecimentos básicos que, até há bem pouco tempo, eram indispensáveis aos que tiveram o privilégio da escolaridade ao menos mediana.

Já nas primeiras horas do dia, uma frase ecoa na rotina: “Mais um policial foi morto...”. Só no Rio de Janeiro, até a sexta-feira, 16 de março, a estatística era de 27, somente neste ano de 2018. A morte de civis inocentes, vítimas de balas perdidas ou alvos de assaltantes, não foi informada.

Na quarta-feira, a maldade foi posta à mesa da Câmara de Vereadores de São Paulo – uma reforma previdenciária para “punir” o funcionalismo municipal da desvairada pauliceia, elevando até a 14% dos salários acima de cinco mil e poucos reais – os mais pobres não seriam poupados, não: para estes, 11% de desconto para a previdência municipal (era 14 de Março, aniversário de Castro Alves e, por isso mesmo, o Dia Nacional da Poesia – o tradicional, pois a presidente Dilma Rousseff instituiu, por ato autocrático, o aniversário de Carlos Drummond de Andrade como mais um Dia Nacional da Poesia, e o “poetariado” nacional acatou, enriquecido com mais uma data festiva).

Os professores municipais da maior cidade brasileira manifestaram-se. E foram “normalmente” reprimidos com porradas e “cassetetadas” pela zelosa Guarda Civil Metropolitana, coadjuvada pela gloriosa e tradicional Força Pública – nome antigo da atual Polícia Militar paulista. Professoras ensanguentadas, professores feridos e “engravatados”, vidraças quebradas e o prefeito Dória, a quem a competente Guarda Metropolitana obedece, cinicamente, discursou a sua não-convincente discordância à violência praticada.

Na quinta-feira, dia 15, juízes federais, com os reforços dos procuradores de justiça também federais, entraram em greve: buscavam pressionar o Supremo Tribunal Federal a manter o antiético Auxílio Moradia. E deram andamento a essa malfadada iniciativa justo no dia seguinte ao assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro – o palco “mais glamoroso” para o esporte mais praticado no país, a pistolagem urbana. Covardemente, a moça foi alvejada quatro vezes na cabeça. O objeto que se mostra era o de calar a voz que se erguia contra a discriminação pela cor da pele, pela origem favelada, pela condição feminina... E ainda em defesa dos homossexuais, contra a matança sistemática, pela polícia, de meninos pretos que, por serem pobres e favelados, têm sido alvos das armas oficiais – não bastassem a discriminação, as limitações escolares, o convívio muito próximo com o tráfico de drogas, o contrabando de armas e os conflitos inevitáveis entre policiais e criminosos.

A nação brasileira estarreceu-se ante a violência. O fato atravessou fronteiras e mares, provocou instituições e nações, sacudiu até mesmo o Parlamento Europeu e o Alto Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas – mas os juízes realizaram sua greve, sem que nenhuma Polícia Militar ou Guarda Metropolitana espancassem juízes ou lançassem gases contra os procuradores.

A vereadora carioca – jovem e mãe, preta e pós-graduada, política e corajosa – foi velada e sepultada. Muitas vozes se ergueram ante o silêncio que se tentou impor. Eram vozes do protesto lamurioso, da revolta instalada. Eram vozes em poemas e canções, em notas musicais e contextos sociológicos e jurídicos – claramente avisando aos algozes que a voz silenciada foi a da moça guerreira, mas seu pólen espalhou-se por milhares ou milhões de outras pétalas.

Nas redes sociais, o grito e a solidariedade, à causa e à família, aos amigos e à filha da vítima. Mas também textos de ódio e discriminação, por pessoas sem a coragem contagiante da vereadora, pessoas que destilam suas invejas e frustrações, escudando seus argumentos na prosaica forma de serem contra a esquerda a que a moça morta se integrara.

Ridículas reações, estas. A intolerância política, na esquerda e na direita, como na massa trabalhadora e nos portadores do capital, nas religiões e nas torcidas esportivas, essa intolerância é a semente dos ódios, sim. Respeitem-se as ideias contraditórias – desde que sejam mesmo ideias e não somente a repetição enfadonha e burra de lemas abusivos e desgastados.

Então, volto a perguntar: o que vem a ser, dentro da nossa realidade destes dias tristes, esse tal de “estado democrático de direito”? É o direito de matar quem pensa e se pronuncia contrário? É o conforto de xingar “comunista” aos que reclamam seu direito à saúde e à escola? A segurança se estremece quando o aparato policial espanca quem reivindica ou mesmo atira, de tocaia, com armas e munições do patrimônio público ou das sociedades clandestinas da bandidagem para calar desafetos.

E à sombra dessa morte, muitas outras desafiaram o Estado brasileiro, em ameaça ostensiva à Democracia e na indisfarçável intenção de não permitir o exercício pleno do Direito.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.