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sexta-feira, março 17, 2017

As razões das dores

As razões das dores




Não tenho notícias de um companheiro há algumas semanas. Ligo, mais por curiosidade que saudade, só para perguntar “Olá, tudo bem?”, e ouvir de volta “Tirando os problemas, tudo bem”. Ora, tentei esclarecer, mas o que seria da vida sem problemas? Um tédio! A alegria de viver consiste em resolver problemas, superar obstáculos, vencer dificuldades e, enfim, erguer a mão fechada com um baita sorriso e gritar “Eba!”.

Sempre ouvi que, ao acordar, precisamos agradecer a Deus pelo dia a viver – em seguida, espreguiçar, como cães e gatos, e levantar para os primeiros passos e providências, desde a higiene até o ato de nos aprontarmos, com a indispensável vaidade e a ótima disposição para vencer etapas.

Pensava ainda no papo com esse conhecido quando, pelo Facebook, um companheiro de verso e prosa a quem não conheço pessoalmente, morador das lonjuras brasileiras, quer saber de mim o que leva um homem de quase 80 anos ao suicídio (aconteceu com alguém das relações dele, não sei se finalizou o ato ou se foi acudido a tempo).

Falou-me, esse parceiro, da vida vivida, a formação acadêmica, a profissão exercida a contento e as realizações no campo material, com boa casa, bons carros sempre, casa de veraneio na praia e um sítio na montanha. Muitas viagens e um casal de filhos, já beirando a casa dos cinquent’anos, cinco netos (dois adolescentes e três crianças).

– É o vazio – disse-lhe eu.

– Vazio... que vazio?

– Vazio no tempo, no horizonte e na vida. Imagina esse casal (sim, sua companheira da vida toda, apenas dois anos mais nova, também é triste) na casa de praia durante os dias da semana, esses a que acrescentamos “feira”. O que há na praia? Somente a areia e a espuma das ondas. E o mar, para eles também vazio, é metade de toda a paisagem. O mesmo se dá na chácara, quero dizer, no sítio da montanha. Há os pássaros e outros animais, como macacos, quatis... e mesmo as pessoas que eventualmente passam por eles são fatores reais, mas não lhes preenchem os dias e as emoções – como o eco numa caverna.

Nos tempos de moços, deixamos vazios os dias de nossos pais. Uns 25 ou 30 anos após, nossos filhos fizeram o mesmo conosco e hoje são os nossos netos a deixar foscos os olhos de nossos filhos. “Seus filhos filhos terão”, costumava repetir minha mãe, referindo-se ao fenômeno da autossuficiência que assola os jovens. Lá pelos 40 anos, costumamos retornar aos olhos e afagos dos pais – mas é essa uma fase de muito trabalho, de busca pela consolidação do patrimônio material, com medo de uma velhice triste e mal assistida, e não sabemos então que, na velhice, gostaríamos mesmo de ter tão-somente a proximidade dos que amamos.

Preocupa-me, sim, quando do “gesto tresloucado” (era expressão da imprensa policial de algumas décadas idas), em que a pessoa comete um dos dois graves crimes imperdoáveis. Mas, digam-me, como julgar? Por maior que seja o argumento religioso, angústias e ansiedades não se explicam nem se medem. As razões das dores, só as dores as conhecem.

Deus que se apiede...



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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, março 11, 2017

No Dia da Mulher: Questão de dignidade

Questão de dignidade



Não sei se os meus poucos, mas valorosos, leitores de poemas e crônicas – especialmente os das crônicas – notaram, mas eu evito abordar temas sobre as datas festivas. É que, ao fazê-lo, sempre corremos o risco de cometer erros bobinhos ou, pior ainda, gafes (que nós, brasileiros, preferimos chamar de “ratas”), como o fez o soleníssimo presidente desta malfadada República, o advogado e autor de obras jurídicas Michel Temer.

Temer, contudo, é muito mais conhecido como político. E como é da moda atual, ele é muito mais hábil no jogo político do que com conceitos e palavras, motivo que faz dele o gafeiro-mor (ou rateiro-mor) desta triste República de Floriano.

Parêntese: o Segundo Império ia muito bem, obrigado, e o Terceiro Império, que teria como monarca a já testada e aprovada Princesa Isabel, já estava delineado. Contudo, alguns oficiais do Exército, aborrecidos com o butim da Guerra do Paraguai (dizem que menor do que sua esperança), liderados pelo machão truculento Floriano Peixoto engendrou essa República, que Deodoro, removido quase que à força do leito em que se prostrava doente, proclamou sem querer. Resultado: este festival de malfeitos desde 1889, que instituiu o pistolão e a corrupção. E o “marechal de ferro”, nosso primeiro ditador, impôs seu nome para a capital do Estado de Santa Catarina – e a história vingou-se dele, apelidando “sua” cidade, Florianópolis, de “Floripa”. Bem sugestivo. Fecho parêntese.

Esse presidente – que o PT jura ter escolhido “apenas” como vice, não para que assumisse a Presidência em qualquer hipótese – empenha-se em consolidar um pacote de malvadezas, no qual se insere a reforma da Previdência (a ponto de causar uma relação de quase escravidão, sob a falácia de um rombo financeiro fortemente questionado), o que se atrela a uma reforma da legislação trabalhista também voltada para instituir o trabalho análogo ao escravo.

Se alguém, fora do circuito de banqueiros e economistas liderados pelo tristemente goiano Henrique Meireles, acredita que isso vem com “boas intenções”, certamente não ouviu alguns conceitos sociais do presidente Temer, quando discursou no Dia Internacional da Mulher. Sua fala beirou o ridículo e encaixou-se na pista contrária das conquistas de direitos não só das mulheres – maioria na nossa população, mas tratada, por Temer e seus similares, como minoria simplesmente útil para criar “os filhos dos homens” e saber os preços nos supermercados.

Imagino como discursará o presidente em eventos sobre os pretos e mulatos, sobre os índios e os ciganos, os homossexuais e os artistas – levas humanas que, somadas, ultrapassam a expectativa desses políticos falsos e cheios de farsas. Aprendamos a votar, e substituiremos esses facínoras por gente da nossa espécie, das quais cobraremos, sim, a honestidade que falta a eles e nem por isso se envergonham!

No último dia 8 de março, quarta-feira, prestei minha homenagem à mulher da minha terra, do meu país e de qualquer origem com dois poemas da minha lavra – sem bajulação piegas nem canto ideológico-partidário, porque não acredito em nada disso. Acredito, sim, na mulher que aprendi a amar em minha mãe, avó e tias, irmãs e vizinhas e que, no desabrochar da adolescência, na mulher digna do meu afeto voltado para o futuro da espécie.

Essa mulher que conheço, que idealizo, que respeito e, acima de tudo, eu amo, ela não é a recatada-e-do-lar que “educa meus filhos”, não. Ela é a parceira para educar comigo, para compartilhar comigo, gastar comigo e aceitar meu carinho, dando-me em troca os mesmos sentimentos de respeito, de amor e atenção. Mas a exaltação, esta sou eu quem lhe dá, na humildade do homem “dependente e carente”, como cantou Erasmo.

Mas, parece-me, Temer e seus asseclas não gostam de mulher.



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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, março 04, 2017

O vazio de Pedro

O vazio de Pedro



Manhã de sábado, 4 de março deste 17. Em menos de dez dias, é a minha quinta visita ao Cemitério Jardim das Palmeiras para aquela despedida quase muda, aquele sentimento de dor resignada, sob o tempero da falta de palavras adequadas e de gestos esparsos. O abraço, este sim, simboliza energias permutadas, ou melhor, a comunhão das dores e do empenho na busca de conforto.

Esta foi a vez de Pedro, um moço bonito, no esplendor dos 45 anos, inteligente e presente. Meu elo forte com ele e os irmãos é sua mãe, Eneida Pinto Vaz. Somos, ela e eu, liames traçados antes de nossos nascimentos – costumo dizer que tenho amigos escolhidos na adolescência e na fase adulta, tenho amigos de infância e tenho uma amiga de nascença: Eneida. É que nossos pais e mães conheceram-se adolescentes e consolidaram a amizade pela vida afora (dos quatro, resta apenas Dona Célia, mãe de Eneida).

Casamo-nos muito jovens – Eneida alguns meses antes de mim – e acompanhamos os nascimentos de nossos filhos, e estes tiveram, também, a amizade de infância e adolescência. Foi com os nossos pais, Zé Pinto e o meu velho Raé (José Pinto Neto e Israel de Aquino Alves) que acompanhei, aos quatro anos, a primeira serenata, com a missão de cantar ante as janelas amigas, naquela prosaica e bucólica Caldas Novas, pelo começo de 1950.

Já adulto, herdando de meu pai a amizade com Zé Pinto, fizemo-nos, ele e eu, parceiros de músicas, como a canção Sentimento Pirenopolino (ou Manhãs Alegres), entre outras. Ele era, na década de 1970, meu primeiro leitor e grande incentivador para que eu estreasse em livros – e surgiu O Cerco e Outros Casos, que ofereci a ele.

Vida e tempo que nunca param... em fevereiro de 1991, em pleno carnaval, morreu o Zé Pinto. A dor, é claro, densa e forte, plantou-se no coração da Eneida – mas havia o parceiro escolhido, Delermando Vaz, para lhe oferecer conforto. E o tempo, com suas múltiplas intempéries, levou-se o parceiro de décadas, pai de seus quatro filhos, pelos meados de 2011.

Agora, e dias após ser internado, sob um AVC e já em coma, o caçula Pedro despediu-se da vida. Dominaram-no os distúrbios do metabolismo – isso que causa a obesidade (ou decorre dela, não sei). O trajeto daqui à sala do velório, a concentração inevitável, inevitavelmente preenchida de boas lembranças evoca as já citadas dores. As falas ao pé do corpo inerte fortalecem a personalidade agradável e querida do menino Pedro e tornam-se um canteiro para a saudade prenunciada. O peito parece pequeno para tantos sentires, que comprimem a bolsa das lágrimas e forçam-me a sair quando alguém comenta sobre fechar a urna. Sinto o Zé Pinto, o Lindolfo e o Padre Belizário, filhos da tão querida Dona Joana, e os imagino ali, acolhendo o moço que lhes fora tão amado.

Faço coro com todos os que procuram entender a não-aceitação desse evento triste, de uma mãe sepultar o filho. Imagino o vazio da ausência, o lapso de amor e carinho, da voz e das queixas – essas coisas de filhos ante a mãe – e também das carícias, aquilo de impor a cabeça ao colo da mãe, de abrir o coração para as confissões sinceras que só pedem compreensão e conselhos, perdão e muitos afagos de mãos e de beijos.

Segue em paz, querido Pedro! Você não estará só. E os que ficam lamentam sua ausência, sim, mas hão de sempre fortalecê-lo com suas lembranças e preces.



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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, fevereiro 25, 2017

Ao mestre, com carinho

De falácias e maldades

ou:

Ao mestre, com carinho



Essa coisa a que chamamos de previdência surgiu no Brasil ainda no século XIX (19, para os novos e os pouco curiosos), com a construção das estradas de ferro. Tratava-se de um fundo ou caixa para amparar as viúvas dos operários das ferrovias, por razões fáceis de se entender. Os funcionários do Banco do Brasil, ao ver aquela importante providência, cuidaram de aprendê-la e criaram a sua caixa (ou fundação), a PREVI, em 1904.

Em 1923, Eloy Chaves criou a previdência aberta ao trabalhador brasileiro, e em 1931, Getúlio Vargas, meses após instalar-se no Catete, comoveu-se com aquela medida (e todo aquele dinheiro) e decidiu que o governo federal não podia deixar todo o trabalhador brasileiro sem aquele benefício – e encampou a previdência.

Nos primeiros anos da ditadura por revezamento instituída em 1964, o primeiro plantonista, marechal Castelo Branco, entendeu que deveria fundir todos os Institutos de Previdência (eram por categorias profissionais; eu era filiado ao dos Bancários, o IAPB) em apenas um. Mas a iniciativa inaugurada por Getúlio (não a previdência, mas o hábito de sacar grana do fundo previdenciário) continuou e, pasmem, consta que apenas um presidente não meteu a mão naquele mar de grana – José Sarney!

Nos últimos anos, ou seja, nestes mesmos da redemocratização, inventaram-se muitos impostos e taxas agregados à previdência, mas o volume arrecadado não chegou aos cofres do seguro social, pois foram alocados sob outros títulos contábeis. Isso, associado aos saques desenfreados “justificados” por vários argumentos, criou outra figura – o rombo da previdência.

Agora, vem a nós o canto da sereia das maldades. Um pacote a que Temer e seus 40 (ministros e assessores; são 40 ou mais, pois até mesmo o gabinete de Ali Babá, se existisse hoje, teria algumas centenas de áulicos) intitulam Reforma da Previdência.

Isso não é reforma! Esse pacote é pura armação contra o povo contribuinte – cada vez mais contribuinte e menos povo, menos assistido – sem o constrangimento de quem age contra quem os sustenta. Os governos são formados, sempre, aqui e em qualquer lugar, por ninhos de serpentes sem memória, seres capazes de picar para matar quem os alimenta.

Os professores, talvez a classe mais atingida por esse pacote de maldades, serão os mais prejudicados. A Nação brasileira sabe de como são tratados os mestres no Japão, sabem da dignidade com que são referenciados os professores na França – enfim, em muitas partes do mundo os educadores são vistos com respeito e tratados com dignidade. Menos aqui. Haja vista a prática generalizada, em todas as unidades federativas, de se mandar que a Polícia Militar espanque professores em seus movimentos reivindicatórios – mas ninguém mandou nem os comandantes tiveram iniciativa de espancar as mulheres dos amotinados no Espírito Santo, dias atrás. E os policiais militares, geralmente mal remunerados também, conseguem melhor tratamento do que os da Educação. O projeto dessa malfadada reforma destaca os militares com alguns privilégios (os federais – mas esses benefícios chegarão às Polícias e aos Bombeiros Militares, é de justiça).

Agora, os mestres brasileiros, das redes públicas e dos estabelecimentos privados, irão às ruas contra a proposta de emenda que escravizará os mestres de todas as nuanças empregatícias, públicos e particulares.

A PM vai, de novo, bater nos professores – é assim em todo o país. E alguns serão feridos, poderão ter sequelas ou coisa pior – algo que não aconteceu com “as mulheres dos policiais militares”, as porta-vozes do motim capixaba. Mas o presidente Temer tem agido com habilidade, agradando os partidos de sua base de apoio e conta com a inequívoca aprovação da reforma.

Meu receio é de que estejamos à beira de uma segunda Queda da Bastilha. E a nossa Bastilha pode ser qualquer dos palácios brasilienses, sei não.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, fevereiro 18, 2017

Assédio moral

O tal assédio moral


Há uns 40 anos, ou pouco mais, um amigo presenteou-me com um livro que achei muito interessante: Relações Humanas na Família e no Trabalho, de Pierre Weil (a edição nova custa algo em torno de 60 reais, mas as antigas estão pelos sebos por preços a partir de R$ 4,00). A época em que li essa obra ainda era marcada, nas empresas e órgãos públicos, por uma hierarquia rígida que, em alguns casos, beirava o trato desumano – e muitas vezes abusivo, por parte de chefes e patrões.

Era o meu tempo no departamento de treinamento do Banco do Estado de Goiás e buscávamos aprender e apreender práticas inovadoras nas relações no ambiente de trabalho, mas esbarrávamos na má vontade dos chefes – aqueles velhos de 40 anos ou mais, porque para nós, pessoas de 20 a 30 anos, todo aquele que percorria a trilha etária dos “enta” era velho.

Atravessando a Praça do Bandeirante, havia o Banco Real. Ali, ganhou fama de cidadão educado um “contador” (como eram chamados não propriamente os contadores, mas os gestores internos das agências bancárias) que oferecia um tratamento cortês e lhano com a clientela, mas ríspido e intransigente com seus subalternos. Ficou famosa a sua iniciativa de colocar uma pequenina mesa de datilografia ao lado da sua para, ali, instalar-se um escriturário que tinha “o péssimo hábito de conversar com clientes” ou, pior ainda, “de ser visitado por amigos” – bem, este segundo item foi alegado pelo tal contador, mas houve dúvidas quanto à legitimidade do argumento.

O chefe bancou o bedel do funcionário por uma semana, ou melhor, pelos cinco dias (ditos úteis) da semana. Nenhuma tarefa foi entregue ao empregado e nenhuma pessoa, colega ou cliente, podia dirigir-se a ele. O contador registrou, dia a dia, os horários de entrada do empregado, os 15 minutos diários permitidos para o café da tarde – mas o fez em horário diferente do geral a fim de não permitir contato de oralidade com nenhum outro colega. Na sexta-feira, o moço pediu demissão.

O contador foi festejado por alguns adeptos da disciplina rigorosa, e houve até quem sugerisse que o caso fosse divulgado para ser mostrado em cursos de administração de empresas etc., mas o moço, ainda que conduzido àquele desfecho, recebeu orientação e procurou a Justiça do Trabalho, no que foi vitorioso em virtude da pressão psicológica sofrida.

A isso, hoje, dão o nome de “assédio moral”.

E há também o tão badalado “assédio sexual” – destes, tenho muitas histórias, mas é tema para outro dia. Ainda que já se tenha um conceito legal para essas práticas abusivas, assemelhadas a atitudes comparadas com o que se fazia nos pátios e nas senzalas até 1888, ainda há chefes que não respeitam sequer licenças médicas de seus colaboradores. Num caso recente, vi uma amiga, com um membro imobilizado em virtude de tratamento ortopédico, ter de se deslocar até o órgão público em que presta o seu trabalho porque o chefe (quase que eu disse o cargo) não entende que quando um trabalhador se ausenta, pelas múltiplas razões amplamente definidas em leis, seu trabalho deve ser desenvolvido por outro funcionário.

Não discorrerei sobre os detalhes, estes interessam pouco. O lamentável é que o funcionário em questão tem o salário (como sempre) aquém de sua competência e do serviço que oferece, mas seu chefe imediato e o mandachuva do gabinete são agraciados com rendas mensais nababescas – mas não conseguem desenvolver providências inadiáveis e abusam da humildade ou do receio que tem a pessoa de perder seu emprego, nestes tempos bicudos.

Paro por aqui, antes que me traia e diga nomes e endereços.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Duas crônicas

Hoje, trago dois textos, um com notícia literária, o outro com um desabafo em torno de feitos mal-feitos desta semana, no Brasil e... na Rússia.





1) Os últimos dias – primeiro 
passo de Bela Dias


Ando triste com certas coisas da moda.

Como os gêneros musicais que, à custa de elevados e mal-intencionados financiamentos, removeram das mídias a MPB, oferecendo produtos de consumo rápido e descartáveis. Ou a linguagem péssima que toma conta da fala das novas safras de profissionais de nível superior, e ainda as doenças provocadas pelo aedes aegypti.

Ah, sim! Mas, infelizmente, temos ainda o câncer. Que está na moda há alguns anos – ao lado da dengue, da zika e da chikungunya (e, não bastassem os receios, medos e desesperos, volta também a famigerada febre amarela). O câncer atua, nestes tempos, tão intensamente que não conseguimos mais, numa parada para relembrar, quantificar os parentes e amigos que perdemos pela doença arrasadora, incontrolável.

Mas é assim que caminha a humanidade – convivendo com as maldades, como as guerras e os jogos sujos da política (em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo – e não apenas no Brasil, como pensam os que costumam ter preguiça de pensar).

Além das maldades, convivemos também com o mau uso da inteligência – daí as críticas constantes às pessoas que atropelam a linguagem, a gramática e o bom senso em suas falas. E esta, infelizmente, é uma praga que, nos últimos anos, assolou o Brasil e ouvimos descalabros verbais a todo instante, pronunciados por bacharéis de alta graduação, de professores, de profissionais da comunicação e até mesmo do próprio ensino.

Bela Dias, a jovem autora de Os últimos dias.
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Vem daí a alegria que me invade quando converso com jovens de boa fala e informações salutares – como as que resultam em textos admiráveis, na oralidade e na escrita. Imagine-se, pois, o prazer que experimentei quando recebi, com um pedido de comentários, o livro Os últimos dias, da escritora Bela Dias. Falo de uma jovem que ainda não chegou à marca dos vinte anos, ou seja, se fosse atleta seria qualificada como “subvinte”.

Bela Dias trabalhou um tema da moda (não imaginam como sofro ao aplicar esta expressão para algo funesto como as doenças) – o câncer. Não bastasse, ela nos traz uma história de um menino e uma adolescente acometidos do mesmo mal, ambos em tratamento num hospital especializado. Mas, boa escritora (ou, como ela diz de si mesma, uma contadora de histórias), trouxe-nos a adolescente rebelde, solitária em seu gosto pelos estudos e intransigente com as pessoas comuns. Conhecer uma criança dez anos mais nova, de personalidade diametralmente oposta resultou no fortalecimento da menina para encarar o tratamento e, também, para processar mudanças drásticas em si mesma.

O livro de Bela Dias: vale a pena lê-lo!
Fiquei, sim, feliz com o que li, compreendi que “estou vendo” o nascer de uma estrela das letras – como outros que vi nascerem também e que, hoje, marcam sua presença na galeria das pessoas dotadas de bom texto. Bela Dias sabe captar histórias, absorvê-las, cuidar delas e modifica-las para, enfim, traduzi-las para a grafia, gerando certamente contos e novelas, romances e – não duvido nada – alguns outros gêneros literários, como a crônica, a poesia, o roteiro etc.!

Gostei de perceber a capacidade dessa jovem autora em criar a personagem, dar-lhe características físicas e psicológicas, dotá-la de procedimentos e falas marcantes, como fez com a Princesa Jujuba e seu Pequeno Príncipe. E a movimentação das personagens, o andamento da história, a riqueza de informações em diálogos simples e ágeis – tudo evidenciando sua mente criadora e ansiosa, sem dúvida!

Antevejo essa escritora – caso não tome desvios – crescendo muito rapidamente, trazendo-nos novas e excelentes histórias em quaisquer das linguagens literárias. E hei de procurar sempre saber de Bela Dias e de seus novos escritos.


Luiz de Aquino 


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2) A História na contramão


Motim na PM do Espírito Santo; na Rússia, o Congresso aprova uma lei que autoriza maridos a agredir fisicamente suas mulheres. E o presidente Temer sequer se constrange em repetir Dilma e tenta nomear um cidadão sob suspeita para seu ministério.

Poxa! Se pensávamos que a casa da mãe joana era o ápice da esbórnia em todos os sentidos é porque não sabíamos nada dos bastidores das nossas casas legislativas, dos arranjos nos palácios executivos e por confiarmos cegamente nos incumbidos do cumprimento das leis.

Claro, claro! Assim como creio que há oficiais policiais militares que não concordam com a quebra total da disciplina no Espírito Santo, bem como sei haver políticos confiáveis e procuradores e magistrados que levam muito a sério sua função, creio também que nem todo marido russo bate na mulher, mesmo com uma lei escorchante como essa – e, pasmem!, consta que foi apresentada por uma mulher e obteve aprovação quase unânime (apenas um voto contrário e 300 e tantos a favor).

Mas o que nos interessa são dois pontos – o primeiro é o motim capixaba, o outro o forfait no Planalto.

Aquela cena de um comandante chegando ao portão do quartel e perguntando às mulheres se elas permitiriam a saída da tropa... que ridículo! Cena ensaiada e mal interpretada. Essa é a PM que, lá ou aqui, no Paraná e no Amazonas, em Pernambuco e em Rondônia não mede circunstâncias para descer a mutamba em professores, médicos, garis etc. – qualquer trabalhador, público ou privado, em manifestação. Mas suas doces mulheres, como que treinadas em atividades de guerrilha urbana, respondem categóricas que não, e o comandante, submisso, retorna à caserna, como que vencido.

Cadê o spray de pimenta, as balas de borracha, as bombas de efeito moral? Ah, contra “as de casa”, não... Isso é para o contribuinte que se desespera com os impostos cada vez mais escorchantes e os salários defasados – mas se a dor de barriga é dentro de casa, aí a polícia se faz inoperante, bola um motim sem honra nem glória, pois envolve suas companheiras – aquelas que, machismo à parte, mas romantismo à flor da pele, prometemos (os homens de bem) guarda, proteger, honrar e respeitar.

Uma declaração pareceu-me cheia de fundamentos: o governador capixaba Paulo Artung, ora licenciado por questões de saúde, qualificou essa operação de chantagem, algo que deixa a população refém da omissão policial e da ação criminosa.

Aliás, digam-me: entre os mais de 120 mortos até a manhã da sexta-feira (10/02) havia algum policial militar? Ou algum parente próximo, como cônjuge ou filho? Mas dentre os civis, as pessoas anônimas – essas que na imprensa, até a década de 80, chamávamos de “populares” – sim. E as casas de comércio saqueadas, o governo as indenizará? Não é justo, a conta virá para o contribuinte outra vez, esse ser que constitui a massa popular sem rosto, mas com os sacrificados bolsos sendo saqueado pelas autoridades para cobrir seus desmandos.

Não bastasse todo esse constrangimento e essa falta de vergonha na cara, configurado no empenho dos militares policiais em atribuir às suas mulheres a responsabilidade pelo movimento, conduzindo-as a propor negociação com o governo, um advogado desses militares pleiteou “anistia para os militares envolvidos” – o que, sem dúvida, configura confissão do grupo policial militar quanto à responsabilidade dos oficiais maiores no motim.

E virão os que se intitulam de militantes pelos direitos humanos propor que se exaltem as mulheres dos fardados e que elas não sejam punidas. Claro, claro... elas não são professoras nem enfermeiras, portanto hão de ser, sim, poupadas da ação truculenta dos profissionais repressores que, imagino eu, são doces maridos, carinhosos e compreensivos, muito ao contrário de como se postam nas ruas.

Afinal, nossos policiais militares não são russos.

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Luiz de Aquino é jornalista, professor e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, fevereiro 04, 2017

41 anos da Biblioteca Prof. Josino - Caldas Novas

O bâner comemorativo do aniversário da Biblioteca Prof. Josino Bretas, inaugurada em 1976, em  Caldas Novas.

Combinação de ideias
em Caldas Novas


Não é qualquer evento que me leva à minha amada terrinha natal, a (antes) bucólica e aprazível Caldas Novas, no sopé (banda oeste) da Serra de Caldas (na realidade, um dos domos que integram um ciclo vulcânico de milhões de anos no Planalto Central Brasileiro), que os menos avisados chamam de “vulcão”. Mas o evento se marcava, muito significativo: o aniversário de 41 anos da Biblioteca Professor Josino Bretas – pai do nosso muito amado professor Genesco Bretas.

Josino, também mestre, era construtor. Nesse misto de ensinante e pedreiro, edificou, na década de 1920, o Grupo Escolar de Caldas Novas, que, no final da década de 50, foi transferido para um novo local, em prédio especialmente edificado, tornando-se o velho grupo sede da Prefeitura e, mais tarde, o fórum da comarca.

Vale lembrar, também: a escola construída pelo professor Josino ocupava parte de um terreno onde era, até então, o cemitério da cidade e, quando criança, brincando entre ruínas de velhos túmulos, muitas vezes encontrei pequenos ossos humanos e dobradiças de caixões. No local, atualmente, está a agência do Banco do Brasil (responsável pela triste demolição do prédio),

O antigo Grupo Escolar é, hoje, a Escola Estadual de Caldas Novas. O Colégio Estadual é o antigo Ginásio, que se instalou em 1963 com o nome do ministro Júlio Sambaqui, da Educação – mas seu nome foi apagado e sua placa inaugural removida, em abril de 1964, pois os militares não aceitavam homenagens a membros do governo de Jango.

Genesco Bretas, o notável professor (formado na primeira turma da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ), é o autor da História da Instrução Pública em Goiás e do fabuloso Memórias de um Botocudo. Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, diretor do Instituto de Educação de Goiás e do Liceu de Goiânia, na década de 1960, professor da UCG, da UFG e, antes de tudo isso, diretor regional dos Correios em Goiás, cargo de que se demitiu para ser exclusivamente professor.

Naftali, Stella Fleury, Helena Carvalho, Marcos Barbosa, Sônia Prado e Luiz de Aquino.

Pois bem, a bibliotecária Helena Carvalho, responsável pela ressurreição da Biblioteca Municipal da cidade, marcou a festa. A presidente da Academia já citada, musicista Stella Fleury, associou a ALACAN à festa de Helena e convidou-me. E eu, juntamente com o confrade Cristiano, ladeamos nossa presidente para integrar a ALACAN ao evento da Biblioteca.

Gostei de ver não apenas o secretário da Educação do Município, o jovem professor Higor, com seu chefe de Gabinete, referendando a iniciativa da diretora da Biblioteca. Mas principalmente gostei de ver que o público leitor, usuário da Casa, respondeu ao chamado e compareceu para demonstrar a importância da Biblioteca na vida da cidade.

Não bastasse isso, e nas águas (termais?) da sugestão de que sou um escritor de boteco, a presidente Stella convidou-nos a visitar um novo bar – o “Meu Boteco”, de um casal aficionado pela leitura – Valquíria e Flávio. Muito apropriado o nome! Mormente para mim, seresteiro (com meu pai e o amigo José Pinto Neto) desde 1950, aos quatro anos, como cantor em serenatas e, a partir dos 15 (num tempo em que não se fiscalizava tanto), assíduo frequentador de bons botecos, desde os pés-sujos da periferia até aqueles que, a partir dos anos 70 do meu século, ofereciam-nos o luxo do som ao vivo, a saudoso “banquinho e violão” pelos quais a Música Popular Brasileira veio a ser, em suma, o que de melhor se fez no âmbito social da geração dos nascidos nas décadas de 40 e 50.

Voltarei lá, brevemente! Quero ver nascer o Café com Letras – projeto do casal dono do Meu Boteco – e, com eles e meus confrades, com meus leitores e amigos de infância, meus conterrâneos de ontem e de hoje (dentre os quais sei de muitos forasteiros do bem, em contraponto aos do mal, que só visam à especulação turística), com essa gente quero falar poemas cantarolar boas canções e festejar a vida.

Ao lado, sempre de Helena e de Stella, que fazem ressurgir valores onde parecia ter-se expandido a erva daninha.

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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.