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domingo, fevereiro 18, 2018

Folia pós carnaval (o direito de espernear)

Folia pós carnaval



Pronto! O mago do Planalto (o palácio, não a região central do país) mexeu a poção de seu nefasto caldeirão de maldades e surpresas desastrosas e a fumaça esverdeada revelou: intervenção verde-oliva no Rio de Janeiro (o Estado, não a cidade). O cenário foi adrede preparado: o governador pôs os pezões na salmoura e o bispo cricri, que ainda não compreendeu sua função na Prefeitura da capital, a decantada Cidade Maravilhosa, foi para o frio europeu para aprender segurança pública numa agência espacial....

Bem! O Pezão não sabia que haveria carnaval no Rio de Janeiro este ano, ninguém lhe comunicou. Então, ele não cuidou de um plano de ação para a segurança pública. Crivela se esqueceu de combinar com os austríacos – ou tentou combinar, mas o jeitão europeu não é dado ao nosso jeitinho – e não conseguirá, em momento algum como ele transportaria para a nossa tropicália os recursos de segurança da Europa Central – e também da Nórdica – se lá não há carnaval, não há crioulos nem mulatas dançarinos, não há sequer a ideia do que vem a ser o nosso carnaval e, ainda, lá não há favelas nem comunidades, marcas fortes da encantadora Belacap (esta eu saquei da memória distante, mas esse epíteto durou muito pouco na antiga capital do Império e dos tempos republicanos do Catete).

Então o mago Marum (sim, esperavam o Merlim?) inspirou seu colega Cotonete, ou Algodão Doce, que soprou ao ouvido do Drácula, que chamou o Abominável Homem tropical que não larga o osso e, como quem fizesse mágica, anunciou: “Vou decretar intervenção federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro”.

Cricri deve ter se estrebuchado todo! Afinal, o curso de Segurança que ele foi fazer em seis ou sete países em pouco mais de uma semana não lhe valeria nada! O líder Maléfico preferiu designar um general e fim.

Bom! Nenhuma crítica a tal medida que, no primeiro momento, pareceu-me a saída honrosa para o vexame que o temível inquilino dos palácios brasilienses passará se rejeitarem a reforma constitucional que transformará a previdência num tormento inigualável para os pobres. Ele vem perdendo alguns votos a cada dia e aqueles 28 que faltavam há algumas semanas hoje já se tornaram 40.

Então, como a emenda assim pareceu também a alguns parlamentares que não se alinham com o puxa-tapete (e também porque sua inseparável sombra, o banqueiro da Fazenda, deve ter ficado uma fera), ele anunciou, analisando: “Enquanto vigorar a intervenção, não se pode realizar qualquer reforma constitucional; por isso, assim que as bases me acenarem com os votos necessários para aprovar a reforma da Previdência vamos suspender a intervenção para proceder à votação, em seguida vamos reativá-la”.

Ora... isso teria de se aplicar à Câmara para as duas votações. Depois, o mesmo procedimento no Senado – ou seja, ele suspenderia a intervenção por duas vezes e a reativaria para cumprir o prazo previsto no decreto da última sexta-feira, dia 16/02/18, que se encerra no dia 31 de dezembro de 2018 – o último deste malfadado governo.

Não fui o único jornalista brasileiro a rir desse anúncio. Alguns recuperaram a compostura e falaram seriamente nas rádios e nas tevês, mas eu continuo rindo.

Para que, então, serve a Constituição? Ele quer reformá-la para piorar a Previdência dos pobres (a dos poderosos é imexível), mas esbarra num impedimentozinho à toa e anuncia que vai driblar a Carta Magna!

“Mon Dieu”, diria De Gaulle! “Que país é este?”, perguntaria Francelino Pereira, que presidiu a famigerada Arena e governou Minas. “O que dirá o Supremo?”, perguntarão milhões.

Mas as semanas virão e o garotão que preside a Câmara, aquele que não sorri nunca, conferirá o termômetro das vontades parlamentares. O jeito é esperar.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, fevereiro 11, 2018

De novo a GO-225 e o descaso da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas

Foto em matéria da jornalista Carla Borges / jornal O Popular


GO-225: Agetop destaca Eunício 

Oliveira e omite José J. Veiga


Há três semanas, em matéria curta e objetiva, contei nas páginas deste Diário da Manhã da minha sugestão, acolhida pelo saudoso deputado Professor Luciano, de nomear o trecho pavimentado da GO-225 (Pirenópolis – Corumbá de Goiás) como Rodovia Estadual José J. Veiga. A proposta virou lei, ou seja, foi aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador, em dezembro de 1998, poucos dias antes da posse de Marconi Perillo para seu primeiro mandato.

Esta denominação se deu por força de lei - mas a Agetop prefere bajular o presidente do Senado.
Em 2010, dei por falta das placas em que aparecia o nome do homenageado. Cobrei isso da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop), que não me atendeu. Aguardei a mudança de governo, com o retorno do governador Marconi Perillo, mas o titular da Agência de Obras, sr. Jayme Rincón, bem ignorando solenemente meus pedidos. Não nos conhecemos, nunca tive um contato direto com ele, mas vali-me de intermediários importantes (membros do atual governo) que o presidente da citada Agência rejeito, também.

Colegas jornalistas publicaram minhas súplicas ao engenheiro Jayme Rincón – debalde! E a minha cobrança mais recente teve chamada de capa no DM – mas o que vejo como reação foi uma notícia publicada em O Popular – o outro trecho da GO-225 – de Corumbá de Goiás a Alexânia – leva o nome do presidente do Senado, Eunício Oliveira, que é proprietário de uma fazenda à margem da rodovia em questão. E o nome do senador, que é investigado pela Justiça por malfeitos na vida pública, está solenemente entronizado nas placas.

Ou seja, o sr. Jayme Rincón deixa claro sua preferência por um político poderoso em troca de cumprir o que determina uma lei estadual e homenageia o representante de outra unidade federativa. Mas o escritor goiano que levou o nome de nosso Estado a mais de 40 países de pelo menos 17 idiomas é omitido, ignorado e lançado na vala dos comuns.

Levarei, nos próximos dias, esta inquietação ao seio das principais entidades culturais de Goiás, como a Academia Goiana de Letras, a União Brasileira de Escritores, a Associação Goiana de Imprensa e ao Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Um servidor público, ainda que na solenidade de uma presidência, deve respeito às leis e satisfações ao povo. Um artista consagrado e divulgado, como o foi José J. Veiga, é um símbolo intocável de nossa história, de nossa identidade, de nossa cidadania. O poder momentâneo é rapidamente olvidável, mas as marcas das artes, não. Quem era a grande autoridade das obras públicas em Londres nos anos de vivência de William Shakespeare, naquele distante Século XVI? O nome de Da Vinci e Michelangelo ecoam muito mais através dos séculos do que o do Papa que encomendou a este último os afrescos da Capela Sistina.

Ou seja, José J. Veiga vai muito além de Eunício Lopes de Oliveira, caríssimo Jayme Rincón! E finalizo com o mesmo parágrafo derradeiro com que encerrei a matéria aqui publicada em 20 de janeiro último:

“Bem! Resta-me implorar uma vez mais ao governador Marconi Perillo que determine a reposição dessas placas. O homenageado deixou seu nome fortemente marcado em nossa história e recuso-me a aceitar o descaso do Sr. Jayme Rincón”.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Cais do Valongo








"Aqui sambaram nossos ancestrais"


A História do Brasil, se comparada a um quadro de arte, tem na moldura molhada de oceano muito mais que um tronco estrutural, mas igualmente a alma que anima os corpos. A tela, propriamente, tem breves marcas, como as invasões de bandeirantes e as corridas em busca de ouro e outras riquezas do subsolo. E nessa alongada borda alguns pontos têm um chamamento maior, que seu verniz se adensa em faixas do Nordeste e nesgas do Sul, com o foco maior nas cercanias da Baía de Guanabara, isto é, na cidade do Rio de Janeiro. |Nome bonito e sonoro, atribuído a um erro do almirante Américo Vespúcio, que, pensando tratar-se a baía da voz de um rio, assim o chamou. Mas não é bem assim. Vespúcio deve ter usado a palavra "ria", a grosso modo um feminino de '"rio". "Ria" vem a ser "braço de mar", só isso.

Era pouco menos de dez horas quando desembarquei no Aeroporto Santos Dumont. A pista está a apenas 25 metros, por uma ponte, da Ilha de Villegagnon, onde está a Escola Naval - a academia da nossa Marinha de Guerra, centro formador de oficiais da Armada. A paisagem, pois, já me faz viajar na história. À minha espera, a amiga de um tempo remoto, os anos ginasiais, Rosália Perissé, que me surpreende: vamos guardar sua bagagem e dar um passeio especial.

Tomamos um VLT e fomos até a zona portuária. O passeio incluiu o Museu Histórico Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura (isso há de merecer outras crônicas), mas quero falar do complexo dos antigos portos. Constitui-se de vários armazéns​ desativados, restaurados há poucos anos, num projeto arrojado e amplo que resultou em museus surpreendentes. Dentre eles, o Museu do Amanhã, de arquitetura arrojada e recursos da moderna tecnologia para uma viagem ao tempo vindouro.

Se o tema fosse o dia de passeio pelos museus do centro do Rio, renderia uma pequena série de matérias para o DMRevista, a nossa editoria cultural. Mas o espaço de hoje é curto, as emoções vividas são intensas e profundas - como a energia fantástica das excelsas estantes do Gabinete Português de Leitura ou as peças expressivas e tocantes, de canhões a vestimentas, do Brasil Colônia e Império, no Museu Histórico, ou mesmo um rápido lanche na Confeitaria Colombo. E ainda o contagiante encontro com o futuro no Museu do Amanhã, que feito uma língua adentra as águas da Guanabara como quem saboreia o passado - sem o qual não se faz futuro.


E não muito longe, expostas a céu aberto, estão as pedras do Cais do Valongo, que ganhou proteção do governo brasileiro por uma lei - de número 3.924, de 1961 - e desde 2013 reconhecido pela Unesco como Sítio de Memória do projeto Rota do Escravo - Resistência e Liberdade.

Uma placa conta que, ao longo de três séculos, cerca de quatro milhões de africanos entraram no Brasil, trazidos com o propósito precípuo do trabalho escravo - mais da metade deles entraram pelo Rio de Janeiro. Os livros de História na escola são, naturalmente, a nossa primeira fonte sobre o tema, mas muito se tem feito, em letras e artes, sobre a deprimente prática escravagista, que permaneceu legal durante a colônia e por quase todo o império. Na música, muito se fala, em lamentos e exaltação. Do fundo da memória, colho várias canções e, delas, realçam-me estes versos de Chico Buarque de Holanda no samba Vai Passar: 

Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações

E estes mais, De Aldir Blanc, em Mestre-Sala dos Mares, na melodia de João Bosco:

Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais
(Mestre-Sala dos Mares).


Tudo isso vivido em poucas horas, na quinta-feira que é o primeiro dia de fevereiro deste 2018 de incertas esperanças. É também nesta quinta-feira que a Academia Goiana de Letras começa as atividades deste ano civil, empenhada em, até o próximo dezembro, prestar todas as homenagens possíveis ao nosso confrade Eurico Barbosa - jornalista e advogado, autor de obra importante sobre a história contemporânea e caprichoso crítico literário. Por conta desta viagem, inadiável, não me faço presente à sessão inaugural deste período, mas sinto expandir sentimentos nobres de amizade, respeito e admiração ao notável colega e amigo, filho de Morrinhos - portanto, vizinho geográfico da minha Caldas Novas que, nos idos de 1911, emancipou-se da decantada Cidade dos Pomares.

A você, acadêmico Eurico Barbosa dos Santos, a minha homenagem que não nasce agora, nem se finda antes da minha (espero que distante) viagem eterna.



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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, janeiro 27, 2018

Pirenópolis




Incomparável!

Esta cidade, rodeada
de montanha...

(Crônica escrita em 2003 e publicada em meu livro Meia Ponte do Rosário, Pirenópolis)



Foi Isócrates de Oliveira quem cantou: 

Minha cidade é rodeada de montanha
tem um rio que a banha
murmurando sem parar.


Eu, quando cantei, evoquei

manhãs alegres
sol dourado junto ao rio
e um desafio a que acompanham violões.

Como não evocar manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites alegres e madrugadas românticas nesta Meia Ponte das minas de Nossa Senhora? A do Rosário, dos Brancos e dos Pretos. A dos Pretos ruiu sob os desgastes do tempo e a fraqueza das bolsas, minguadas de recursos naquele tempo dos anos de 1940, quando os bancos faliam ante a chamada moratória pecuária. A dos Brancos, incendiada sob o signo de Virgem naquele fatídico 5 de setembro de 2002. E a lembrança de mim, embriagado na Festa do Divino, procissão com banda-de-couro. Inerte e bêbado, quase impedi o retorno da procissão, deixado na soleira da porta lateral, do lado da Rua Direita.

Manhãs de festas
acordando Meia-Ponte
ao pé do monte seus antigos casarões.

Meu canto é de saudade; saudade de mim menino, ou de mim mais moço. O murmurante Rio das Almas...

Rio das Almas
vai levando as minhas mágoas
em meio às águas / a rolar, buscando norte.

Foi na Ramalhuda, verão em 1952, que me afoguei pela primeira vez. Um homem gordo tirou-me do poço fundo e seu sorriso me deixou confiante. Afoguei-me muitas vezes mais, porém sem medo. Em quantos poços, quantos copos me afoguei?

Poção da ponte, de tanta memória! Música eterna das águas velozes... Meia Lua, Pedreiras, Lajes... Tempo matado sem pressa em tardes e manhãs de férias. Vô Luiz, meu xará de Aquino Alves, maestro e seresteiro, não se banhava em casa – só nas águas do Rio das Almas.

Meia Ponte Pirenópolis de serenatas e cerveja muita, cachaça e lua de prata. Meu primeiro porre... Acho que foi no Bar do China, irmão de Pérsio Forzani, no casarão que, caído, deu lugar à atual Casa de Justiça.

Antes dos porres, os amores são a mais doce lembrança. Amores furtivos à margem do rio, amores inebriantes atrás das igrejas, ao sopé dos montes, no pico do Frota entre as antenas de tevê (o som da cidade, a cidade lá longe, o ar fresco da noite e a poesia emergente).

Serenata de metais e cordas na noite serenada. Caju batizado na casa de Wilno. Alexandre, o maestro, era um menino que tocava na banda. Meu avô Luiz tirava notas carinhosas de um trombone e eu volitava, rumo ao passado, para encontrar meu tio Ismael, o da clarineta, e Dito de Melani, o do pistom.

Ai, que saudade
de acordar ao som do pinho
cá no meu ninho
e sentir a lua cheia
na serenata
que dá vida à noite calma
e leva a alma
à viola que ponteia.

Meu canto de versos ganhou roupa nova na melodia de José Pinto Neto. Zé Pinto, o de Caldas Novas, meu parceiro musical, também se foi mais cedo. Foi encontrar os meia-pontenses idos antes, como meu Avô.

E Pirenópolis, a das verônicas do Divino, das congadas e dos doces cristalizados, a do licor de jabuticaba e vinho de caju, a Pirenópolis dos meus sonhos e minhas saudades, essa que não dorme... Essa, a cidade rodeada de montanha, encimada na paisagem pelas três colinas aniladas dos gigantes Pireneus... Ah, essa!

Minha, nossa, eterna cidade de Nossa Senhora do Rosário! Não há fogo nem enchente que te apague de nossas almas.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras


domingo, janeiro 21, 2018

Língua e Livros



Língua e livros



Gosto muito de tudo o que ouço, vejo e leio sobre a nossa língua. Isso inclui, também, os pontos de intercâmbio, a influência de outras línguas na acepção de palavras estrangeiras, bem como o peso inevitável do falar dos imigrantes de todo o mundo. E nós, no Brasil, que já absorvíamos palavras dos idiomas autóctones, ganhamos ainda com os três séculos da participação africana.

Excelente trabalho de Sérgio Rodrigues


Foi dessa miscelânea que herdamos a “língua brasileira” (prefiro dizer “esta”, pois que é a que me serve integralmente), ou Português do Brasil, com seu vocabulário muito, muito maior do que o conteúdo geral da língua-mãe, o Português Europeu (português, obviamente). E tenho cá comigo alguns livros excelentes sobre a nossa língua, em escrita e fala. Dentre outros títulos, encantei-me com Viva a Língua Brasileira, de Sérgio Rodrigues. Este trouxe à luz um trabalho bem elaborado, de fôlego e seriedade.

Mas tenho também uma obra, Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta que, para mim, não mereceu nascer. O autor, Alberto Villas, tomou nota de expressões e palavras, com ênfase para gírias e modismos, e cometeu alguns disparates, como citar por atuais alguns dizeres que lá pelas décadas de ‘1950, 60 e 70 eram correntes – esqueceu-se ele de que a moda que se repete não é só a das roupas, mas a do falar, também.

Um amontoado de equívocos
São da minha infância, há uns 60 anos, expressões que repetimos com facilidade – como chamar de gata ou gato a pessoa amada. Nas leituras, encontrei “pitéu” (décadas de 20 e 30), “chuchu”, “broto” (já estava em desuso quando a Jovem Guarda, movimento musical de 1964 e anos seguintes, a trouxe de volta).

Engraçado (só para exemplificar): ele afirma que “emérito” era uma referência somente em discursos para exaltar algum figurão. E realça que nenhum pé-rapado seria, jamais, chamado de emérito. E arremata o verbete dizendo que hoje o emérito virou senhor. Será isso mesmo?

Outra: ele ressuscita casca-grossa, epíteto para alguém rude e mal-educado, e traduz para o que ele diz ser expressão de hoje – “casca-grossa é um cavalo”. Ora, qualquer pessoa grosseira, em qualquer lugar deste continente Brasil, pode ainda ser chamado de cavalo (ou égua, já que se enfatiza tanto a questão de gênero).

Mas a gafe mais esdrúxula, nas 105 páginas que teimei em ler (o livro tem 302, mas o folhear aleatório deixou claro que as mancadas se repetiam), a “cereja do pudim” foi sobre o curso Colegial, que era dividido em dois tipos (Científico e Clássico) e que se tornou, lá por 1971, Segundo Grau e, em 1996, Ensino Médio.

Ele começa com o verbete “Científico”, definido como “Curso de três anos entre o ginásio e a universidade”. Essa definição já me pareceu uma localização geográfica. E a bobagem foi redigida assim:

Os meninos quando terminavam o ginásio passavam para o científico. As meninas, antes da revolução feminista, faziam o normal ou o clássico. Era no científico que os estudantes começavam a aprender química, física e biologia. Essas três matérias eram a cara do científico. Quem fazia o científico queria seguir a carreira universitária, ser engenheiro, médico, advogado. Ser doutor. (...) Hoje o CIENTÍFICO virou ENSINO MÉDIO” (sic).

Pouco abaixo, ele cuidou disso:

clássico (sic)
Curso intermediário entre o ginásio e a universidade (sic).
Acabava o ginásio existia um curso de três anos antes de prestar o vestibular. O estudante optava pelo curso científico, pelo normal ou pelo clássico. O clássico era um curso meio chique, meio indefinido, meio espera-marido. Fazer o clássico era muito elegante e só. Mas não podemos confundir com aquele que fazia curso de violão clássico. Aí é outra história” (sic).

Ora! Para cursar Direito na universidade, o  menino cursava o Clássico, não o científico. 

Cuidei de transcrever esses trechos sem corrigir nada. Vê-se que o rapaz escreve, mas jamais fez o Clássico ou o Normal. Se tivesse feito um desses, pelo menos erraria menos ao escrever.

E assim é que, mesmo em Minas Gerais, se forma um jornalista nestes tempos pós-Clássico.


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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, janeiro 20, 2018

Agetop omite homenagem a José J. Veiga

As placas da Rodovia GO 225 omitem a homenagem ao escritor que expandiu Goiás para além dos oceanos

O Diário Oficial publicou a Lei (em 4/12/1999)


Rodovia José J. Veiga: Agetop não cumpre lei
Luiz de Aquino, especial para o DM


Em 1999, a placa foi colocada. Sumiu cerca de 10 anos após.


Veiga em sua última visita a Goiânia (1998)
Quando presidi a União Brasileira de Escritores de Goiás, solicitei ao saudoso deputado Professor Luciano que propusesse a homenagem ao autor de Sombra de Reis Barbudos dando seu nome ao curto trecho rodoviário entre Corumbá e Pirenópolis. A Assembleia Legislativa aprovou e o governador Helenês Cândido sancionou a Lei n° 13.361, de 1° de dezembro de 1998, publicada no Diário Oficial do Estado no dia 4 seguinte.

Fato é que, na última página da edição de 2 a 8 de maio de 1999 do extinto jornal Gazeta de Goiás (Ano II, n°. 95), publicou-se (o editor de Cultura era o competente jornalista, artista plástico e professor Sálvio Juliano) matéria que tomou quase toda a página – “Rodovia José J. Veiga” (era o título). Coube ao governador Marconi Perillo, em maio de 1999, mandar instalar as placas nas duas margens da rodovia, com o nome oficial do trecho.


Busto de José J. Veiga por Neuza Morais

Por volta de 2009, as placas desapareceram. Encaminhei pedidos à Agencia Goiana de Transportes e Obras Pública - Agetop, envolvi alguns secretários de Estado para apoiarem-me e recorri ao próprio governador da época, Alcides Rodrigues, mas, pelo visto, suas ordens já não eram mais cumpridas.

Com o retorno de Marconi Perillo ao governo, em 2011, voltei a insistir, e continuei sem respostas. Mobilizei espaços do DM (Ulisses Aesse publicou pelo menos duas vezes o mesmo pedido), recorri a pessoas ligadas ao presidente da Agetop, Jaime Rincón, mas de nada adiantou.

Bem! Resta-me implorar uma vez mais ao governador Marconi Perillo que determine a reposição dessas placas. O homenageado deixou seu nome fortemente marcado em nossa história e recuso-me a aceitar o descaso do Sr. Jayme Rincon.


José J. Veiga e eu, em 1982.

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Em 2018, 80 anos de Bariani em Goiás




Lembretes para 2018



Mesmice. É o que se vê em todos os janeiros... O rádio, veículo preferido da grande massa, está contaminado pela impressionante falta de exigência no recrutamento de profissionais. Assim, teima em preconizar que “o ano só começa após o carnaval”. E nesse diapasão corre atrás de novos “cientistas”, os que se identificam como autores de autoajuda para o segmento empresarial. Esses novos gurus, em português deprimente, recomendam (com propriedade) que quem deixar para agir após o carnaval surpreender-se-á com o concorrente que acreditou noutra coisa: ano começou algumas semanas antes do réveillon.

Este primeiro lembrete vem, pois, para o empresariado. O que se mostra “novo” somente após o carnaval é o lado mais falso de outro segmento – o político. Na moita, na calada das noites, na surdina ou ainda a portas fechadas e com os telefones desligados, os políticos maquinam sempre suas ações de autodefesa e de assaltos ao Erário, tudo de modo a bem ludibriar o contribuinte e o eleitor que, a rigor, são sempre a mesma pessoa – o cidadão brasileiro anônimo. Este é outro lembrete, pois – que nos lembremos disso na hora de votar.

Um outro aviso vai para os jovens. E é, também, repetitivo, justo por ser inevitável: acreditem em si mesmos, apostem na sua capacidade de descobrir e aprender, escorem-se nos bons conselhos de pais e avós, pois a vida já começou, o processo de formação do futuro se faz a cada segundo e vocês já estão nele há muito tempo. A vida conta conosco (todos nós) e pode bem exigir muito, sempre. Se bem atendermos às exigências, construiremos para o próximo e para o futuro, e o passo seguinte é a vitória, os louros e se colher. Só não podemos comemorar por muito tempo, o período da ressaca já nos deixa atrasados para as novas iniciativas. É aquela velha história de se matar um leão por dia.

De cada um a vida cobra algo – e a cobrança é diretamente proporcional e orientada para o que escolhemos fazer. Em suma, cada um de nós sabe o caminho dos nossos feitos e cria metas a atingir. Como não somos de ferro nem infalíveis, paremos para festejar e interagir, para sorrir e desfrutar das cores e das luzes. São direitos de todos nós e se bem nos renovarmos após cada conquista melhor estaremos na próxima empreitada.

De minha parte, sou dos que fazem muitos planos. Dedico-me a alguns deles – os que se mostrarem mais viáveis. Nem sempre alcanço bons resultados em todos os empreendimentos, mas sei bem que desistir de algum projeto é algo a se fazer em tempo hábil. E como todo “animal social” aristotélico, tenho parceiros e colaboradores, bem como atendo igualmente a vários chamados. Certo ou errado, foi assim que cheguei a esta etapa da vida.

E antes que me esqueça, existe um lembrete para mim mesmo, que levarei aos 38 confrades da Academia Goiana de Letras já na primeira reunião deste novo 2018: sinto que devemos comemorar os 80 anos, em Goiânia, do bom e velho Paulistinha – o escritor e pesquisador de folclore Waldomiro Bariani Ortêncio.

Ele chegou a Goiânia em 1938. Tinha de 14 anos e no primeiro domingo por aqui, após o almoço, ouviu foguetes e sons de muitas vozes não muito longe da nova morada, no bairro de Campinas. Saiu de casa e chegou a um campo de futebol, era o “palco” do Atlético Clube Goianiense. O técnico do time era um fotógrafo apelidado de Parateca, que mais tarde foi prefeito da nova capital.

Parateca (que se chamava João de Paula Teixeira Filho) queixava-se por não poder contar com o goleiro, que amanheceu doente.

– Eu sou goleiro, posso jogar no seu time? – Ofereceu-se o adolescente chegante:

– Quem é você? De onde vem? – Indagou o técnico. O menino respondeu:

– Sou Waldomiro e vim do interior de São Paulo” – e Parateca o aceitou dizendo:

– Dá a camisa-um pro Paulistinha aqui.

O menino fechou o gol, o Atlético venceu o jogo e ganhou um goleiro que atuou na equipe por mais de dez anos; a cidade ganhou um comerciante que nominou sua loja com o novo apelido (Bazar Paulistinha); e Goiás ganhou o escritor e acadêmico a quem quero homenagear pelos seus 80 anos de goianidade.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.