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domingo, julho 01, 2018

Questão de valores







Meu tio e o relógio 



Corria o ano da graça de mil novecentos e sessenta e não-me-lembro. Amigos leitores, esse introito aí foi feito para provocar o Ranulfo Borges, ele que me qualificou de saudosista, no melhor estilo do meu amigo José Mendonça Teles, hábil nas crônicas sobre a Campininha das Flores, que de cidade aceitou tornar-se o primeiro bairro de Goiânia; e eu exercitei a saudade ao recordar o Rio de eu-menino, antes do Estado da Guanabara, da fusão e do tráfico.

Mas era mil novecentos e sessenta e tantos e – lá vai mais saudade, Ranulfo! – e era Caldas Novas. 

Gente! Caldas Novas era muito mais bonitinha com as ruas de cascalho e as casas com fachadas personalizadas. Eu juro que era! Hoje, cada jardim virou um conjunto de três ou cinco lojinhas. A vida acontecia: os namoros, os fuxicos, os... Claro: acontecia o que a gente via e o que a gente sabia. Os fatos se davam na calada da noite. E a noite, então, era muito mais calada: os namorados não se beijavam diante dos outros e os moços não contavam ter beijado as namoradas; pais, mães, tios e avós vigiavam-nos todo o tempo e a falta de vigilância resultava, sempre, em desvirginamento precoce, o que só se sabia na hipótese de uma gravidez indisfarçável ou diante de um inefável flagrante.

Mesmo naquela época, o sexo proibido não era exclusividade dos moços e solteiros, não. O sexo doméstico – ou familiar – era tido como monótono, daí o nome “papai-mamãe”, que dispensa explicações. Havia os homens sem-vergonha, os que cometiam seus pecados com... com... Com moças pudicas ou recatadas senhoras da mais fina sociedade. Sim, que ninguém é besta de titular uma aparente donzela de galinha, ou uma mãe de família de vagabunda. Então, esses homens ímprobos, esses maridos infiéis, cometiam seus desatinos, dando vazão aos seus “instintos bestiais” com respeitáveis donzelas ou mães de família cujos maridos e filhos, obviamente, estavam na lida, na fazenda.

Um desses desavergonhados era meu tio. E, exercendo sem o saber o pecaminoso tráfico de influência, invadia o quintal da delegacia de polícia para saltar o muro e amancebar-se, furtivamente, às primeiras horas da noite, com uma senhora impecável e piedosa. 

Um dia, muito afoito (era a chegada), deixou cair o relógio de pulso e não notou. Mas gostava do relógio; tanto que pregou em sua loja um cartaz: “Perdi um relógio Mido, de pulso. Gratifico com mil cruzeiros” etc. Pouco depois, chega ao comércio do titio ninguém menos que Romano Crisóstomo, o delegado. Em silêncio, pôs o relógio sobre o balcão; olhava os olhos do meu tio e o cartaz na parede. Alguns dos presentes, mais amigos que fregueses, assistiam e teciam breves comentários. 

Era conhecida também como "abobrinha"...

O tio foi à gaveta, pegou uma nota com a cara de Cabral e indagou:

– Onde estava o relógio?

E Romano:

– Junto ao muro da casa da Dona...

Nem concluiu a frase! Meu tio devolveu-lhe o objeto e pronunciou, solenemente:

Não é o meu! – E guardou os mil cruzeiros. 

Preferiu perder o que lhe era um mimo para não expor a amada clandestina.

 (Fotos colhidas na Internet)


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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras

domingo, junho 24, 2018

Bancário há meio século

José Maria, o Kapitão: bancário há meio século!



José Maria Santos Leal:
50 anos de vida bancária

Eu presenciei seus primeiros passos no ofício!

Naqueles anos finais da década de 1960, no Banco do Estado de Goiás, eram “velhos” os colegas acima de 30 anos, muitos deles já com inacreditáveis dez anos de casa. Na média, erámos perto de 30 bancários na Agência Praça Cívica. E éramos felizes – e sabíamos – por nossa juventude, nossos sonhos de futuro e um estranho e oportuno espírito de equipe que nos marcava como o melhor grupo jamais montado no BEG até então. E essa tônica era contagiante: todos os que ali chegavam eram acolhidos com alegria e companheirismo, o que resultava em fortalecimento da equipe e na formação de novos bons bancários.

Era 1968 ou 69 quando o José Maria Santos Leal – um garotão de 18 anos – chegou para incorporar-se ao time. Como era de praxe, o adventício logo, logo identificou-se como “um de nós” e cuidou, como todos, de bem assimilar o trabalho, aprendendo o passo-a-passo e o rigor das conferências e procedimentos, defendendo com galhardia nosso posto de “os melhores do BEG”.

Demorou-se pouco conosco. Em poucos anos, mostrou-se um profissional bem preparado e competente. Carregado de uma brancura justificada pelas invasões francesas lá por seus rincões maranhenses, fazia ecoar aquele sotaque típico, compartilhado com o também maranhense José Raimundo – este “goianizado” há mais tempo, pois já estava em Goiânia desde o final dos anos 1950. Logo, logo o Zémaria – só o chamávamos assim, abreviando o José e incorporando “Maria” numa só palavra – prestaria concurso para a Caixa Econômica Federal.

No nosso penúltimo encontro, numa agência da CEF na Rua 7 (Centro de Goiânia), ele me contou que já beirava os 40 anos de vida bancária e não pensava em aposentar-se. Há poucos dias, Zémaria me telefonou para contar como quem cobra: “Luiz de Aquino, está quase pronto o meu livro e você tem que escrever também, meu amigo! Você é testemunha da minha passagem pelo BEG da Praça Cívica”.

Pus os olhos p’ra dentro do crânio e fucei os arquivos da memória. Sorri prazeroso ao recordar coisas do Zémaria – o Kapitão da CEF – e achei mesmo muito dele essa teimosia de permanecer bancário por quase 50 anos! Certamente, só se aposentará quando a empresa o expulsar, por força de Lei. Mas, sem dúvida, terá vivido feliz, tal como o conhecemos nos ambientes do nosso trabalho bancário.

A importância da leitura


Sobre o ler e o escrever


Esta semana – terça-feira, dia 12 – estive no Colégio Vicare, em Hidrolândia (a minha cidade atual) para um bate-papo com professores, pais de alunos e estudantes, a convite dos dirigentes Sirlene Xavier e Luiz Fernando Martins. Ser apresentado à plateia, formada por vários amigos, tive de Luiz Fernando a graça de uma lição rica e feliz: a leitura (sintetizando) é a atividade que ativa todo o cérebro, desde a ação motora até a criatividade, com todas as etapas de tal caminho – se assim posso dizer.

Falei-lhes da minha própria experiência: os primeiros anos de vida, sendo acalantado pela voz da mãe que nos lia Histórias da Carochinha e os acordes do pai, ao violão ou ao bandolim, ao realizar saraus com os companheiros, ocasião em que eu aprendia a cantar canções maviosas – para usar uma expressão que poucos conhecem hoje.

O Vicare é um colégio dotado das mais modernas técnicas educacionais e equipado com tecnologia de ponta, sob o exemplo de instituições internacionais. Com as práticas de Meditação (publiquei matéria sob o título “Colégio adota meditação escolar”, em março de 2017).

É sempre muito bom, é salutar conversar com pais de crianças e adolescentes, e muito importante renovar com os professores esse tema, indispensável no processo de aprendizagem e, sem exagero, de melhorias nas práticas profissionais de quaisquer dos ramos das atividades humanas. Pessoas que leem relacionam-se melhor, compreendem melhor o próximo e, como resultado final, vivem melhor.

Ainda que, entre os menos esclarecidos, a palavra museu exerça certo mal-estar, insisto em contar que não há visita melhor a se fazer do que a esses verdadeiros templos que, ao pé da letra, significam “casa de musas” – e musas, qualquer néscio sabe bem, são as deusas que inspiram poetas e outros artistas. As bibliotecas são, ao seu modo, uma espécie de museu: museu dos livros e, naturalmente, museu das letras e das línguas faladas e escritas pelo mundo afora.

Mostrei aos ouvintes fotografias de duas grandes bibliotecas instaladas no Rio de Janeiro – o Real Gabinete Português de Leitura e a Biblioteca Nacional. E vali-me de estar em Hidrolândia, berço de José Mendonça Teles, recentemente falecido, e de Marieta Teles Machado, que se foi em 1987, precocemente. Ela foi a pioneira da biblioteconomia em Goiás, deixou-nos um legado de livros de excelentes histórias e a lembrança de um tempo feliz, enriquecido pelo sorriso sempre presente num rosto amigo e muito amado. Infelizmente, o atual prefeito hidrolandense mandou encaixotar os livros da Biblioteca Marieta Teles Machado, prejudicando a saúde intelectual da cidade e a boa formação das crianças locais. Em compensação, em Goiânia ela é uma escola estadual, a biblioteca municipal da Praça Universitária e um Centro Cultural na Praça Cívica – uma das primeiras três arquiteturas goianienses, ao lado do Palácio das Esmeraldas.

Enfatizei, para professores e pais, bem como para os alunos ali presentes, a importância do exemplo a se dar. Pais que leem estimular, por seus atos, os filhos no bom caminho. Professores que usam livros para ilustrar suas aulas e mostrar aos pequenos como se pesquisa, estes se tornam os mestres inesquecíveis, e um aluno que assim se desenvolva será, no futuro, um bom exemplo para filhos, discípulos e “tutelados”.

Destaquei algumas frases: “Uma casa sem livros é um corpo sem alma” (Cícero, orador e senador romano); “Um país se faz de homens e livros” (Monteiro Lobado, escritor paulista); “Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e faz o povo pensar; o livro caindo n’alma é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar” (Castro Alves, poeta baiano); e, ainda, “Ler é mais importante que estudar” (Ziraldo, escritor e humorista mineiro).

Despedi-me a contragosto, pois o tempo era, naturalmente limitado e eu diria mais, muito mais, por tudo o que gosto de contar e pela alegria de estar novamente entre professores amigos e alguns alunos remanescentes dos poucos dias em que atuei ali, no Colégio Vicare. Contudo, a vida se repete sempre, ainda que em novas cores, ambientes e sentimentos – e hei, sim, de renovar bons sentimentos sempre, se cercado de pais, mestres e estudantes.

Obrigado, Sirlene e Luiz! Até já, professores queridos!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 10, 2018

Notas inusitadas






Notas inusitadas



A primeira veio de longe e já chegou traduzida: Funcionária de um lar de idosos, ninfomaníaca, é acusada de abusar sexualmente de moradores de ambos os sexos. A mulher é Giselle Horney, de 49 anos. A história se passa em Oklahoma, na América (Estados Unidos). Consta que ela abusou de homens e mulheres com idade entre 72 e 103 anos. Parkview Nursing Center

A acusação detalha que ela dava Viagra a muitos idosos que lá viviam e os forçava a fazerem sexo com ela. Elise Wood, gerente do lar, conta que começou a desconfiar quando os funcionários narravam que muitos dos velhinhos mostravam-se em “estado perpétuo de ereção”. As câmaras de vigilância confirmaram as suspeitas.

Segundo os funcionários, Giselle Horney não só dava Viagra aos internos, como fazia sexo com mais de 24 homens por dia. Alguns dos “abusados” declararam-se satisfeitos com a prática, pois houve um acordo consensual, mas outros reclamaram não ter gostado dos “brinquedos sexuais” e das “brincadeiras anais”. Um desses homens abusados por Giselle contou:“Ela foi a melhor coisa que me aconteceu desde a morte de minha mulher, há 35 anos, mas admito que ficar 16 horas por dia com uma ereção era um pouco aborrecido”.

Giselle Horney está detida e pode ser condenada a até 10 anos de prisão.

O amigo que me enviou essa notícia forneceu o site: http://tafeio.com.pt/funcionaria-um-lar-ninfomaniaca-acusada-dar-viagra-aos-idosos-os-forcar-sexo/ . E manifestou-se: “Descobri onde quero passar a velhice”.

A outra novidade partiu de um amigo meu, quarentão e solteiro, ou seja, um sujeito invejado por muitos dos de sua idade que, há anos, optaram por viver a vida a dois e multiplicar-se. Sem exageros, meu amigo é um homem feliz, mas, como é natural no ser humano, a felicidade pode doer. Então, ele se inquieta, em alguns momentos, pergunta-se se é essa uma boa escolha.

Os mais próximos são seus interlocutores quase confidentes. Ele diz que “é hora de encontrar uma companheira com quem compartilhar a vida”. Um dos amigos decidiu apresentar-lhe uma jovem culta e bela, moradora em plagas distantes (não vou mudar a palavra, não... quem não souber que procure no Aurélio – “plaga”. E, cuidado, não é “praga”). A tecnologia ajudou – Facebook, Instagram, WhatsApp etc. – e logo, logo os dois “trocavam figurinhas” na esteira da contemporaneidade das correspondências instantâneas.

Por razão que desconheço, algo impediu a vinda da moça a Goiânia para o esperado – e muito divulgado – encontro inicial. E o meu amigo, proseando com uma das amigas mais próximas, em tom de muita sobriedade, definiu o impasse:
– Não deu, ela não pôde vir e a coisa esfriou. E você deve saber, as pessoas são como os cachorros: para saber se se gostam, têm que cheirar o fiofó. 

(Claro... a amiga explodiu numa gargalhada, surpreendida com tal conceito, emitido em tom de grave circunstância).


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 03, 2018

Imprensa torcendo fatos

A mídia a serviço do mal


Só elogia uma ditadura quem dela se valeu, quem dela teve permissão para se locupletar – como, inclusive, alguns peemedebistas que, em público, esbravejavam contra o regime, mas na calada das noites e dos gabinetes recebiam ordens para votar assim ou assado, conforme o interesse do regime. Entendo o capitalismo e a democracia como escolhas menos ruins, já que tudo o que a humanidade experimentou traz imperfeições (algumas cruéis), e ainda não temos nada melhor.

Ditaduras são cruéis e burras. Cruéis pelo mal que causam à maioria das nações sob seu jugo, favorecendo um nicho de pessoas e grupos, como as empreiteiras que hoje estão investigadas rigorosamente pela operação Lava-Jato. Muitos não sabem que sua hegemonia empresarial e financeira vem dos anos de chumbo.

Todos os regimes precisam dos meios de comunicação. As ditaduras também. Os governos de canalhas, também. A recente paralisação dos caminhoneiros foi transformada, a partir de – dizem – uma ordem do Palácio do Planalto, em ação demoníaca nas pautas das emissoras de rádio e tevê. As redes Record e Globo esmeraram-se no esforço de atribuir a eles, os manifestantes, até mesmo a eterna falta de insumos e medicamentos nos postos de saúde e hospitais (públicos). Num passe de mágica, tudo o que elas, as emissoras, noticiam todos os dias, em especial no campo da saúde pública, passou a ser culpa dos caminhoneiros, como se fossem personagens de uma ficção científica: sua ação de dez dias neste maio de 2018 foi responsabilizada pelo descaso dos governos nos últimos vinte anos.

E o desabastecimento nos supermercados e postos de combustíveis, além dos pontos de distribuição de gás de cozinha? Estranhamente, os grandes supermercados de Goiânia não registraram a crise de modo tão áspero como definiam os repórteres e âncoras das emissoras locais.

O jornalista e escritor Iuri Godinho observou, num paralelo, que nenhum de nós fica sem comida e suprimentos em casa por conta de dois dias de paralisação de caminhoneiros ou de supermercados fechados. As unidades de saúde sabem muito bem o que estocar e as casas comerciais administram bem suas reservas, mas as tevês e rádios, seguindo a ordem do governo federal, elaboraram pautas para difamar os manifestantes. Quando tudo parecia dar certo, registrou-se a infiltração criminosa para tumultuar, promover agressões e estabelecer o conflito.

Há uns 40 anos, Benevides de Almeida me recorda (éramos repórteres em pleno regime do arbítrio militar), achávamos meios de divulgar e analisar fatos. Várias vezes presenciamos policiais à paisana infiltrando-se nas passeatas e comícios estudantis; seu propósito era provocar baderna e, assim, justificar a ação dos fardados com seus escudos, cassetetes e bombas de gás de efeito moral. Desde 2013 surgiram os black bloks, os mascarados que chegam para tumultuar, agredir, incendiar, quebrar e, assim, facilitar a intervenção policial. Nenhum deles foi apreendido, preso, identificado pelas forças policiais estaduais e federais. Parece que são mais poderosos que o conjunto de forças da repressão, não fossem eles parte delas. Na minha opinião, são elementos das P2, a “inteligência” das polícias militares.

As forças de repressão sabem o que fazem e conhecem muito mais do que nos parece. A Polícia só não finaliza o que a política não deixa. Se dependesse da Polícia, o tráfico sequer teria se tornado a superempresa que entendemos como Crime Organizado – ligado por fortes correntes a várias outras atividades, como contrabando de armas, máfia dos combustíveis, roubo de cargas etc. e tal.

O que a Globo e a Record – bem mais que a Band – vêm noticiando é uma farsa que envergonha o jornalismo brasileiro.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, maio 26, 2018

Combustíveis, impostos e impostores

Fac-símile (by Elpídio Fiorda)  da publicação no DM deste sabado, 26 demaio.




Combustíveis, impostos e impostores


Os cínicos não perdem a pose!

Desde o ano passado, quando vivíamos a realidade da inflação "de dois dígitos", o desgoverno que se instalou com pompa e cara de pau decidiu adotar medidas cruéis e debochadas, como o anúncio descabido de uma inflação "abaixo da meta", em índices incríveis de 3% ou pouco mais. Preços de combustíveis e de energia elétrica não são computados. Como, de resto, alguns outros itens fundamentais são também esquecidos, pois a meta é falsear a meta.

Desde aquela marcante manifestação nacional de indignação ante as mazelas políticas em 2013, ocasião em que os blackbloks apareceram para badernar, os movimentos populares passaram a perder, gradativamente, a credibilidade. Coxinhas e mortadelas opunham-se em xingatórios e agressões físicas, mas nada se comparava aos mascarados.

Estranhamente, ninguém sabe de onde vinham, a que grupo se integravam, que propósitos tinham os tais blackbloks. Viajei ao passado, percorrendo 40 anos idos, ou quase isso. Era um tempo em que ainda vivíamos as restrições da ditadura implantada em 1964, mas um ano antes aplicara-se a anistia, permitindo o retorno dos brasileiros exilados e dos que viviam aqui mesmo, na clandestinidade, sob nomes falsos, ainda que “devidamente” documentados.

Como repórter, acompanhei uma manifestação de estudantes de medicina da Federal de Goiás. Os moços concentraram-se na Praça Universitária e dirigiram-se, num grupo de 100 ou 150 estudantes, ao ponto modal da época – a Praça do Bandeirante. Nas proximidades da Praça do Botafogo, a PM despejou, de alguns caminhões-choque, soldados de preto portando escudos, cassetetes, capacetes e máscaras contra gás, pela retaguarda. À sua frente, outra parede se formou, com policiais em fardas comuns, simulando uma ação pacífica, ainda que enérgica (como definiria o secretário da Segurança pouco mais tarde). Descendo a Avenida Anhanguera, um grupo de vinte ou trinta pessoas civis deslocava-se também. Numa calçada bem próxima, à frente de um edifício em construção, um monte de britas lhes pareceu oportuno – e aqueles civis, sem qualquer atitude dos fardados, passou a jogar pedras nos estudantes que, vendo-se cercados, sentaram-se todos no chão, em atitude previamente calculada. As pedras caíam sobre suas cabeças e eu, como outros colegas da imprensa, ouvi troca de frases entres os paisanos e fardados, como vozes de comando sobre lançar pedras e parar.

Aquilo foi o bastante para que os dois pelotões da PM – os de preto e os de cáqui, baixassem seus cassetetes com vontade. Entendi logo, os paisanos eram militares estrategicamente mobilizados para simularem uma ação civil contra os soldados, ainda que só atingissem os estudantes sentados no chão.

Claro: eram os blackbloks da época. Ou melhor, os blackbloks destes últimos anos são, imagino, os P2 de agora.

As últimas manifestações de massa nas ruas de todo o país foram marcadas por ações dos tais mascarados que depredavam, destruíam e saqueavam. Então, chegou a última segunda-feira, este 21 de maio, e as estradas nacionais foram marcadas pela paralização da frota de caminhões. Desde os primeiros momentos, cuidou-se de não prejudicar o direito de ir e vir dos veículos de passeio, dos ônibus de passageiros, dos transportadores de cargas vivas ou perecíveis e dos medicamentos.

E deu-se a coisa! Os do Planalto (o Palácio) incomodaram-se, mexeram-se, o presidente deu ordens, apareceu como se preocupado estivesse, orientou a pantomima toda, incluindo-se uma coletiva do presidente da Petrobrás, o Parente titular do apagão elétrico de 2001. Ouvi parte da entrevista, pelo rádio, e senti-me com “vergonha alheia” pelos colegas que, pela entonação, babavam ovos para o despótico presidente da petroleira.

Pernóstico e petulante, o presidente respondia com ênfase enjoativa. Torcia argumentos, reformulava conceitos, prometia grandezas irrisórias e, pareceu-me, até acreditava que faria alguém de idiota. Os líderes do movimento, é claro, rejeitaram a proposta ridícula e pretensiosa do executivo-mor da Petrobrás – um homem que ora integra esse governo coberto de acusações irrefutáveis e se formou de um monte de fichas-sujas, e antes integrou a equipe privatizadora de FHC.

Os noticiários do dia seguinte mostravam técnicos e tecnocratas áulicos a demonstrar preocupações para com o “equilíbrio das contas”, a “responsabilidade fiscal” e outros rótulos nada convincentes – o agravamento das contas do cidadão e das classes produtoras, da logística... do consumidor, enfim, tudo isso é de somenos importância para os nababos das equipes técnicas.

Pior ainda é o desemprenho teatralizado dos ministros. Pessoas que não se recomendam sequer ao dar bom-dia, discursando em frases breves ante as câmaras e dando a entender que suas falas eram dogmas.

O governo da União, mesmo sob a incredulidade de toda a nação, posou de irredutível. Os manifestantes não deixaram barato, reforçaram suas ações e determinação, endurecendo o argumento. Na tarde de quinta-feira, os produtores rurais começaram a engrossar o cordão de veículos parados, em notório apoio aos caminhoneiros.

Tanto se falou em contas, em preços internacionais e em cotação do dólar e os caminhoneiros exigiam um alívio nas alíquotas dos impostos. Estranhamente, e com o movimento atingindo mais de vinte estados, com mais de 200 pontos de ação, nenhum governador nem grupos de parlamentares estaduais apareceu. E é sabido que o ICMS é uma das maiores fatias de impostos nos preços dos combustíveis.

Em meio a tantas notícias, recebi o vídeo de uma entrevista com o coordenador de um dos sindicatos de petroleiros – o de Minas Gerais. O moço declarou que os petroleiros organizam uma grande greve nacional, contra várias medidas em torno dos combustíveis, envolvendo também os altos índices dos impostos e, pior ainda, a ordem interna da diretoria da Petrobrás para que se refine o mínimo de óleo nacional – quer dizer, é para negociar somente o óleo importado. O propósito é o que sabemos, ou seja, o reajuste diário com base nos custos internacionais e na cotação do dólar.

Resumindo: Pedro Parente é hábil e eficaz quando se trata de promover um apagão. Em 2001 ele deixou o país no escuro; agora, em pane seca.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, maio 12, 2018

Meia Ponte do Rosário - ou, simplesmente, Pirenópolis


Poema que compus à beleza de Pirenópolis. 



Esta cidade, rodeada de montanha...
(Crônica escrita em março de 2003. Republico-a por gostar e querer, de coração. L.deA.)


Foi Isócrates de Oliveira quem cantou: “Minha cidade é rodeada de montanha / tem um rio que a banha / murmurando sem parar”. Eu, quando cantei, evoquei “manhãs alegres / sol dourado junto ao rio / e um desafio a que acompanham violões”. 

Como não evocar manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites alegres e madrugadas românticas nesta Meia-Ponte das minas de Nossa Senhora? A do Rosário, dos Brancos e dos Pretos. A dos Pretos ruiu sob os desgastes do tempo e a fraqueza das bolsas, minguadas de recursos naquele tempo dos anos de 1940, quando os bancos faliam ante a chamada moratória pecuária. 

A dos Brancos, incendiada sob o signo de Virgem naquele fatídico 5 de setembro de 2002. E a lembrança de mim, embriagado na Festa do Divino, procissão com banda-de-couro. Inerte e bêbado, quase impedi o retorno da procissão, deixado na soleira da porta lateral, do lado da Rua Direita. 

“Manhãs de festas / acordando Meia-Ponte / ao pé do monte seus antigos casarões”. Meu canto é de saudade; saudade de mim menino, ou de mim mais moço. O murmurante Rio das Almas... “Rio das Almas / vai levando as minhas mágoas / em meio às águas / a rolar, buscando norte”. 

Foi na Ramalhuda, verão em 1952, que me afoguei pela primeira vez. Um homem gordo tirou-me do poço fundo e seu sorriso me deixou confiante. Afoguei-me muitas vezes mais, porém sem medo. Em quantos poços, quantos copos me afoguei? 

Poção da ponte, de tanta memória! Música eterna das águas velozes... Meia-Lua, Pedreiras, Lajes... Tempo matado sem pressa em tardes e manhãs de férias. Vô Luiz, meu xará de Aquino Alves, maestro e seresteiro, não se banhava em casa – só nas águas do Rio das Almas. 

Meia-Ponte Pirenópolis de serenatas e cerveja muita, cachaça e lua de prata. Meu primeiro porre... acho que foi no Bar do China, irmão de Pérsio Forzani, no casarão que, caído, deu lugar à atual Casa de Justiça. 

Antes dos porres, os amores são a mais doce lembrança. Amores furtivos às margens do rio, amores inebriantes atrás das igrejas, ao sopé dos montes, no pico do Frota entre as antenas de tevê (o som da cidade, a cidade lá longe, o ar fresco da noite e a poesia emergente). 

Serenata de metais e cordas na noite serenada. Caju batizado na casa de Wilno. Alexandre, o maestro, era um menino que tocava na banda. Meu Vô Luiz tirava notas carinhosas de um trombone e eu volitava, rumo ao passado, para encontrar meu tio Ismael, o da clarinete, e Dito de Melani, o do pistom.  

“Ai, que saudade / de acordar ao som do pinho / cá no meu ninho / e sentir a lua cheia / na serenata / que dá vida à noite calma / e leva a alma / à viola que ponteia”. Meu canto de versos ganhou roupa nova na canção de José Pinto Neto. Zé Pinto, o de Caldas Novas, meu parceiro musical, também se foi mais cedo. Foi encontrar os meia-pontenses idos antes, como meu Vô.  

E Pirenópolis, a das verônicas do Divino, das congadas e dos doces cristalizados, a do licor de jabuticaba e vinho de caju, a Pirenópolis dos meus sonhos e minhas saudades, essa que não dorme... Essa, a cidade rodeada de montanha, encimada na paisagem pelas três colinas aniladas dos gigantes Pireneus, ah, essa!... 

Minha, nossa, eterna cidade de Nossa Senhora do Rosário! Não há fogo nem enchente que te apague de nossas almas.


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Luiz de Aquino, escritor, membro da Academia Goiana de Letras.