A professora e o erótico
Luiz de Aquino
Quem não se lembra? Guimarães Rosa, o neologista João, publicou um livro chamado Primeiras estórias; foi o bastante para acender o estopim da vaidade modista e (ou) futurista de uns tantos escribas nacionais desavisados. Houve até quem dicionarizasse o termo – no que o lexicógrafo estava certo; o problema aí é que os aurélios e assemelhados registram, e os falsos intelectuais saem propalando como se o verbete fosse de uso corriqueiro do populacho nacional.
Histórias de cronópios e de famas, de Júlio Cortázar, é um livro peculiar – até porque cronópio nada tem a ver com o modus vivendi brasileiro, mas sim com o folclore argentino. Seria alguém traduzir Monteiro Lobato para o castelhano e o mundo hispânico entender que, “doravante, isso é coisa da nossa cultura”. Já vi muita gente boa falar, escrever e até pôr em títulos a palavra “estória”, buscando uma justificativa na lexicográfica do Inglês, que tem story e history.
Muito bem: “estórias” à parte, vamos à minha história de hoje. Já que falei nos cronópios de Cortázar, isso me ocorre que minha amiga Fátima Cerqueira, poeta e professora, comprou num sebo um exemplar desse tal livro do grande contista – versão Argentina do nosso José J. Veiga. Nas primeiras páginas, uma dedicatória datada de 8/5/83: Um homem assina “Do teu Irany”, para alguém muito especial: ele conta que desde 1970 procurava esse livro para presentear a Sônia e dizia estar duplamente feliz, pois que finalmente o encontrara e justo no Dia das Mães.
Linguagem simples de alguém que tem a Sônia como altamente especial. Mas Sônia, a ingrata, talvez não tenha sequer lido o livro, pois que foi parar no sebo. Claro que esse é um julgamento precipitado: ela pode ter perdido o livro; alguém o tomou por empréstimo e lhe deu esse destino. Ou Sônia é dessas pessoas magnânimas que, após lê-lo, pôs o livro na roda, ou seja, no sebo. Isso, porém é de somenos importância. Isto aqui não é nada além de uma historinha de gente que gosta de textos – e gostar de textos vai além de apenas gostar de livros.
Leda Selma – sem circunflexo porque não devo obediência a escrivães sem preparo – andou mostrando livros meus a professoras suas amigas. Uma dessas professoras censurou “Sarau”, um livro de poemas. Não me surpreende porque uma comissão de três acadêmicos mestres e doutores, na Bolsa Cora Coralina, também o refugou. A comissão achou o livro “desprovido de unicidade” e não sei o que isso quer dizer no jargão dos peagadeuses; a professora de segundo grau (Ensino Médio) entendeu que o livro “é pesado”, porque há poemas com forte apelo erótico.
O julgamento da comissão eu não discuto: os regulamentos de concursos costumam dizer que a comissão é soberana e quem entra em concurso sabe disso. Se vencemos, sentimo-nos belos, ricos felizes e cheios de razão; se perdemos, xingamos a comissão. Mas comissão julgadora está lá é para julgar e quem concorre tem de calar a boca. Eu me calo.
Já a professorinha não-doutora, coitada! Preciso conhecê-la. Numa conversa – que tanto pode ser numa alegre e descompromissada mesa de cafeteira ou nos bancos mais próximos a uma sacristia, eu lhe falaria de revistas abertas em bancas de revistas, em adolescentes namorados a passeio nos xópins ou em tevê – deixando de lado o cinema, que é... digamos: mais privativo. A tevê, puxa vida, desde a novela “Malhação” até as minisséries, vêm carregadas de um apelo além do erótico: beira a pornografia – coisa que, certamente, meu livro não tem.
E olhem que não citei as coberturas jornalísticas dos desfiles de carnaval, nem o especialíssimo biguibróder – este, além das cenas de total liberdade que dispensam comentários, têm ainda o poder de tornar famosas pessoas dotadas da antítese de todo e qualquer talento. Ou seja, tudo o que educador nenhum quer para seus alunos e filhos. Mas a professorinha vê impropriedades no meu livro, e não no quotidiano que a atinge, a seus filhos e a seus alunos.
Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço.














é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.
