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segunda-feira, agosto 29, 2016

Bares e saudade







Bares e saudade



Houve o tempo da juventude, em especial os tempos de solteirice jovem, porém responsável, em que minhas noites equivaliam ao período das 20 ou 21 horas até as primeiras das solenes madrugadas, quando o corpo pedia cama e a responsabilidade, o despertar antes das 7 horas para o batente bancário.

Houve o tempo do magistério, mesclado com a universidade em curso e o período bancário entre 12 e 18 horas, com aulas matinais e noturnas e por pelo menos nove horas-aulas de sábados – este foi um tempo de sóbrio hiato, evidentemente. Mas o período de maior ocorrência nas lides jornalísticas era da boemia inevitável, pois o jantar se dava nas chamadas altas horas, quando todas as matérias já eram “descidas”, páginas fechadas, situação geral checada com diagramação, composição e a certeza de que as impressoras estavam lubrificadas, ajustadas e já ligadas para os cadernos previamente fechados (como o de Cultura, de finalização precoce).

A cidade não oferecia outro lazer senão o bar, a esquina, alguma festa em comemoração a aniversários, casamentos e outros afins. E os bares eram a marca mais evidente de Goiânia nas décadas de 70 e 80 daquele século em que nascemos nós todos com mais de 16 anos neste 2016. Os bares eram a nossa sala de visitas, o ambiente familiar e festivo de moças e rapazes – a ponto de acontecer, de modo pacífico e ordeiro, pelas ondas da Tamandaré e adjacências, um movimento de viva voz – mas em tom de conversa, não de protesto – em busca de “um bar para maiores de 30 anos”.

Numa movimentação “evolutiva”, o agito da Tamandaré com seus bares e restaurantes, que ao se fecharem davam vez aos pegas de carros e motos, migrou para outros pontos. Surgiu uma espécie de “footing” motorizado na extensão da bela avenida Ricardo Paranhos – nome de poeta catalano, visual de cedros e as luzes da noite feliz dos que não tinham medo das madrugadas, pois que andar em grupos inibia os raros assaltantes.

Ah, os ladrões da noite! Eram muito diferentes dos punguistas dos ônibus. Eu, repórter com missão específica de cobrir as delegacias naqueles anos finais de ditadura, conhecia praticamente todos os praticantes do que hoje simbolizamos com um duplo Perdeu!. Eles circulavam os pontos das cercanias dos bares e abordavam bêbados sem-noção e namorados distraídos. Tomavam dinheiro e joias, casacos e calçados e, às vezes, levavam documentos, cheques e cartões de crédito – naqueles tempos, pouco usuais.

Aquela juventude, hoje, chega perto dos 60 anos ou já passou dos 70 e mesmo 80 primaveras. Mas há as lembranças, as saudades e, para a alegria de agora, alguns reencontros para papos memoriais! Éramos grupos quase que definidos, alguns com afinidades – como jornalistas e escritores, poetas e pintores, músicos e poetas e, circulando entre todos, uma lista infinda de admiradores das artes, cantores de mesas (que faziam coro a muitas das canções de época, com nítida preferência para Andanças e O Bêbado e a Equilibrista, sucessos que interrompiam conversar, beijos e desatenções para fazer backvoice, respondendo ao cantor na parte de entoar o refrão 

– Amor... Me leva, amor...

... ou, no “hino da anistia”, participando em uníssono 

– E um bêbado com chapéu coco 
 fazia irreverência mil...




Pois é, meu amigo Roos de Oliveira! Saudade de Bira Galli ainda cabeludo, de Tagore vivo, de Marieta Teles Machado com aquele sorriso contagiante, Yeda refinando um verso, Aidenor saboreando um gole e exaltando a poesia, Gustavo Veiga cantando De Dois, Fernando Perillo, Pádua, Bororó, Fafá (ela sumiu!)...

Roos! Já não há mais bares como os do nosso tempo... Mas esta lágrima, ah! É como as que nos benziam o rosto na esperança da Liberdade!



*****



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, agosto 24, 2016

A boa ação do Lanterninha




Benevides de Almeida (*)





A BOA AÇÃO DO

 LANTERNINHA


(Subsídios campineiros para o depoimento do meu amigo Luiz de Aquino sobre os cinemas antigos de Goiânia)










Nos anos 50, o Cine Tocantins, que ficava na Praça Coronel Joaquim Lúcio, passou a compartilhar a sala de projeção com os programas de auditório da Rádio Difusora, que funcionava no andar de cima.

Não tinha o mesmo luxo dos Cine Eldorado, este intensamente clareado pelas 55 sofisticadas (para a época) luminárias que destacavam o vermelho forte do tapete que pavimentava os corredores entre as poltronas; e do Cine Campinas. Ambos exigiam o uso do paletó dos frequentadores, como acontecia no Cine Casablanca e no Cine Teatro Goiânia.

Em tudo, Campinas queria ser igual Goiânia, até nisso. O Cine Campinas era o preferido pelos campineiros por causa da seleção mais apurada dos filmes que exibia. Tinha uma clientela mais elitizada e somente depois de alguns anos é que aboliu a obrigatoriedade do paletó, seguindo decisão semelhante tomada pelos cines de Goiânia. Essa frescura de paletó nunca foi exigida no Cine Tocantins, frequentado mais pelos moradores da região de influência da Praça da Matriz e das proximidades da Joaquim Lúcio. Ele também exibia os grandes clássicos de Hollywood. Foi lá que assisti, por exemplo, o primeiro filme Maria Antonieta, produzido em 1938, estrelado por Tyrone Power e Norma Shearer.

Lembram-se da figura do lanterninha, o funcionário encarregado de encontrar poltronas vazias para os que chegavam depois que a sessão já havia iniciado e de vigiar a conduta dos espectadores, com poder de chamar a polícia para retirar o bagunceiro pra fora?




Pois bem, o Cine Tocantins contratou um jovem cheio de boa vontade para esta missão. A primeira recomendação do gerente ao novo funcionário foi: tratar o público com educação, mesmo os barulhentos e, se possível, até mesmo resolver algum problema, como troca de lugar porque uma madame de coque alto sentada da frente estava atrapalhando a visão ou indicar o banheiro, os mais comuns numa sala de cinema.

O lanterninha cumpria à risca a orientação do chefe. Ele sempre ficava junto à porta de entrada da sala de projeção, encostado na mureta que isolava o corredor de circulação das poltronas. 

Um dia, numa sessão com pouca gente, estava sendo exibido um filme em que a atriz Ester Willians se insinuava sensualmente em algumas cenas. O lanterninha escutou perto dele os gemidos sussurrantes de um único espectador sentado na última fila de poltronas, justamente a que ficava encostada na mureta onde se encontrava. Discretamente, acendeu a lanterna para baixo, e em seguida virou o foco para a cadeira ocupada pelo rapaz solitário e deparou-se com ele masturbando enquanto fixava os olhos para as coxas de Ester Willians de maiô numa piscina. 

O lanterninha lembrou-se da orientação do gerente: "Trate bem o público. Ajude-o no que estiver ao seu alcance". Discretamente, ele foi até o homem e disse que precisava falar com ele. Pego em flagrante na prática onanista, o desconhecido acedeu sem nenhuma reação e acompanhou o funcionário, que o levou ao banheiro masculino. Sem dizer nada, o lanterninha baixou as calças e virou o trazeiro para o indignado sujeito. Foi quando falou:

– Use e abuse.

É claro que o cara não perdeu a oportunidade. Mandou ver.
Praticada a boa ação, o lanterninha levou o assistente de volta à mesma poltrona e lhe explicou:

Não pense que sou viado. O que fiz foi apenas cumprir uma norma da casa.


*****

(*) Benevides de Almeida, jornalista precoce (desde a década de 1950), repórter-referência cheio de talento e competência, além de grande ser humano, por seu caráter e qualidades excepcionais de amigo e parceiro. Enfim, alguém que qualquer de nós se orgulha de chamar de amigo.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Campinas, Goiânia (crônica da cidade-mãe)

Meu amigo Benevides de Almeida emociona-me com esta crônica, que recebi como um primeiro passo dele no sentido de nos proporcionar um livro de memórias de sua experiência de cidadão e jornalista histórico. Ele se refere a um vídeo que pode ser visto em https://www.facebook.com/conhecagoiania/videos/1809948369239774/?pnref=story). Obrigado, Bené!
L.deA. 




A Campininha que o meu amigo Luiz 

de Aquino não conheceu

Benevides de Almeida (*)


Li o post do amigo Luiz Aquino falando da nossa Goiânia dos anos 60/70 -https://www.facebook.com/conhecagoiania/videos/1809948369239774/?pnref=story - período em que ela atingiu o maior percentual de crescimento físico com a antiga empreiteira Encol salpicando o centro da cidade de prédios que não ultrapassavam os 15 andares. O goianiense estufava o peito de orgulho. Afinal, isto aqui estava virando cidade grande. Quando foi anunciada então a construção do edifício Aquarius Center (Av. T-63, Setor Bueno), fora do triângulo do Manto de Nossa Senhora – formado pelas avenidas Paranaíba, Tocantins e Araguaia, com a Praça Cívica no vértice - que chegou à marca dos 20 andares, o goianiense foi à loucura. Está consolidado: ninguém mais segura Goiânia.

Mas isto é do tempo que tem como referência a chegada do Luiz de Aquino a Goiânia, que o acolheu como filho adotivo e ele correspondeu como filho legítimo. Luiz não é como um desses bastardos que aportaram por aqui para ficarem ricos e receberam títulos de cidadania, passando a ocupar posições de destaque nas galerias dos grandes vultos goianienses no lugar dos verdadeiros heróis da epopeia da nova Capital: os construtores – serventes e pedreiros. Estes foram arregimentados pessoalmente por Pedro Ludovico para a edificação dos primeiros prédios públicos e que aqui ficaram ao final de suas jornadas profissionais. Eles sim, tornaram-se goianienses não por lei elaborada nas conveniências de interesses políticos, mas por mérito que não precisa de citação num papel emoldurado pendurado na parede. A grande homenagem que se presta a eles vai durar milênios. Está personalizada pelos chamados “negrões da praça Cívica”, monumento dedicado às três raças que participaram o erguimento de Goiânia.

É claro que há exceções neste contexto das concessões de cidadanias, algumas das quais chegaram a ser rejeitadas pelos homenageados devido a nuanças de trivialidade que adquiriram por passarem a ser distribuídas como milho dentro do galinheiro. Os que fizeram jus à honraria de serem agraciados com o gentílico goianiense merecem todo nosso respeito por terem sido, realmente, comprometidos com o desenvolvimento desta cidade. Conheço alguns.

O repórter Benevides na 24 de Outubro, que ainda terminava na Praça Joaquim Lúcio (era o tempo de Fusca, Vemag, Simca...).


Eu quero falar mesmo é da Campininha, a Chacrinha, como a chamavam os esnobes de Goiânia que o Luiz não conheceu, bem antes de 1963, época em que ela começou a se confundir com o perímetro urbano de Goiânia em todo o delineamento da fronteira oeste da Capital. Foi quando a prefeitura impregnou a cidade com o jargão na propaganda oficial do município: "Goiânia constrói cinco casas por dia".

Quero lembrar a Campininha do Atlético de Fabinho, Epitácio e Pitinho. A Campininha do bar do Chiquinho de Castro (mais tarde prefeito de Goiânia); do Bar do Chico, quase em frente ao primeiro, na 24 de Outubro; do Bazar Paulistinha rodando os rocks doidos do Little Richard, também na 24 de Outubro; da paquera dos adolescentes em frente ao Colégio Santa Clara, do meio dia à uma hora, quando as meninas saíam das aulas, com destaque para as lindas filhas vestidas de azul e branco do José Luiz Bittencourt, que veio a ser governador de Goiás; das jardineiras-de-bico fazendo lotação na linha Campinas - Goiânia; do ônibus papa-fila levando as normalistas para o Instituto da Educação na Vila Nova; do cine Tocantins; dos prostíbulos da Avenida Bahia; da rádio Difusora; do Campinas Palace Hotel; do coreto em estilo colonial (parece) da Praça Coronel Joaquim Lúcio; do Mercado Municipal; do Cine Eldorado com suas 55 luminárias afixadas no teto; do vai-e-vem dos engraxates nos fins de semana; do 5º. Distrito Policial, cuja guarnição composta de alguns policiais militares conhecia todo mundo (quem, dos campineiros antigos, não se lembra do soldado Jorge, que pegava os menores zanzando pelas calçadas dos prostíbulos da avenida Bahia e os entregava aos pais?); da velha matriz em frente o Santa Clara; do Lindomar Castilho(era Cabral na época) e do Josaphat Nascimento soltando a voz nos bares da cidade-mãe ou no programa "A Hora da Sineta" apresentado pelo Omar Barbosa, no auditório da Rádio Difusora; do Zé da Folha, figura popular que executava Violetas Imperiais assoprando folhas de ficus, comuns na arborização das ruas; das acanhadas dependências do Sesc de Campinas antes de ir para a rua Rio Grande do Sul; da menina Rosa, por quem me apaixonei aos 12 anos e ela por mim, mas ambos tínhamos vergonha de nos revelarmos um ao outro, o que era motivo de risadas e chacotas pelo resto da turma: Adilson, Antônio, Edson, Waldir, Edvaldo, Donato, Silvinho, Alair, Dete, Waltinho, Jurandir, Osterninho, Petrônio e muitos outros; do campo do Vasquinho, quase no final da 24 de Outubro; do raspadinho paulista; do pirulito na tábua; dos hipnotizadores de araque que todos os anos se apresentavam nas novenas da Praça da Matriz e a molecada fingia que estava sob o controle deles, que acreditavam nisto, para delírio dos adultos; do Posto Guimarães, que durou meio século ou mais na 24 de Outubro; dos ensaios da fanfarra do Liceu de Campínas para disputar com a do Liceu de Goiânia na Parada da Independência...


Paro por aqui, viu, Luiz? É coisa demais para se lembrar! Um ano de Campinas dá para se escrever um livro. Essas reminiscências tiraram minhas emoções do sério!


*****


(*) Benevides de Almeida é jornalista, aposentado, testemunha viva da história desta cidade. 

domingo, agosto 14, 2016

Mulher – ícone da espécie!



Mulher – ícone da espécie!


Agosto de seca e ventos, redemoinhos tubos avermelhados ocre terracota do chão ao céu, razão de susto, medo e beleza. Menos maléficos que as queimadas que dizimam o cerrado, atingem as matas e só agradam aos que, sem escrúpulos, almejam lucros de exportação de soja cana et cetera e tal, transformando o cenário, empobrecendo a natureza com a erradicação biológica de plantas e animais e, pior que tudo o mais, minguando as nascentes neste Planalto Central das Águas Emendadas...

É isso, meu amigo Altair Sales Barbosa! “A força da grana que ergue e destrói coisas belas” extrapolou a metrópole que encantou Caetano Veloso. Os ventos do Sul trouxeram os excedentes da extinção das matas das serras sulinas e fez das araucárias imagens de saudade em folhinhas e cartões postais – coisas também extintas pelo advento temerário da tal tê-í, ou seja, a tecnologia da informação, produto imediato da cibernética portátil e popularizada, como o automóvel popular, o celular e a falta de educação.

Manhã de sábado, um médico dá entrevista a um programa matinal na Globo. No patamar dos setent’anos, envergonho-me ao ver um médico – antes, profissionais privilegiados pela detenção de admirável bagagem cultural – expressar-se com dificuldade, sem compreender as funções das preposições e conjunções em seus devidos lugares.

E por falar em médicos, que beleza esse time feminino de futebol que – agora, sim – enverga com dignidade o manto canarinho do que aprendemos a chamar de “a nossa Seleção”! Os rapazes, encantados e seduzidos, contaminados mesmo, pelos salários astronômicos e a fama nas mídias, restituíram-se sem escrúpulos. Mas a equipe de Marta fez valer um valor esquecido nos meios esportivos em que a pecúnia vale mais que o propósito definido em estatutos – a dignidade pessoal, o respeito à nação torcedora e o compromisso com os símbolos desta nação.
Marta, cinco vezes a Melhor do Mundo. O que ela faz não é trabalho?
A vitória nos pênaltis, no comecinho da madrugada deste sábado, foi emocionante! Algo que a rapaziada da CBF perdeu há anos, mas que as meninas da mesma Confederação Brasileira de Futebol assumiram, tal como vemos, com naturalidade, as mães assumirem papel de mãe-e-pai ante a fuga dos machos covardes que não sabem ser responsáveis.

E vem aquele outro médico (foi desse que me lembrei) dizer que os homens trabalham mais que as mulheres. Fico por entender esses profissionais, que se creem semideuses, a proferir tanta idiotice sem lastro de informações indispensáveis! Sou de um tempo em que um cidadão era chamado para ser ministro por deter condições sociais (políticas ou classistas) adequadas e conhecimentos específicos e gerais que os tornassem aptos. Hoje, a coisa advém de trocas mesquinhas e inconfessáveis – como isso (os da imprensa sabem sempre...) de se nomear agiotas com poderes suprapartidários, alguns com condições “morais” sobre o chefe a ponto tal de “responder” por todo o governo – como uma espécie de primeiro-ministro informal.


O ministro da Saúde não sabe o que faz uma mulher com esses brinquedinhos...

Esse doutor Ministro da Saúde deve ter sido criado e forjado numa estrutura de mãe, avós, tias e irmãs dondocas de pouca utilidade num contexto social – até mesmo no núcleo familiar. Deve ser dos que acreditam que as empregadas domésticas que conheceu não passam de fêmeas animais – ensinamentos que os oligarcas transmitem aos filhos como aprendizados de avoengos escravistas, escravagistas.

Deve ser dos tais que perguntam a alguém:

– Mas você só leciona? Não trabalha?

Sim, porque profissionais desse naipe adoram ser chamados de “professores”, mas não reconhecem o mestre-escola como peça fundamental de seu crescimento – afinal, ele é semideus!
Madre Tereza de Calcutá, que Deus nos cedeu por 87 anos. Ela nunca trabalhou, também?

E este escriba, pai e muitas vezes avô por via de meus filhos e sobrinhos, vale-se deste Dia dos Pais para homenagear a mulher atleta, a mulher mãe, a mulher trabalhadora, dona de casa, matriarca, namorada, parceira no lar e na sociedade, bem como as incontáveis e sempre incompreendidas amantes!

Viva a Mulher! Abaixo os conceitos irracionais!


*****



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Mulher – ícone da espécie!



Mulher – ícone da espécie!


Agosto de seca e ventos, redemoinhos tubos avermelhados ocre terracota do chão ao céu, razão de susto, medo e beleza. Menos maléficos que as queimadas que dizimam o cerrado, atingem as matas e só agradam aos que, sem escrúpulos, almejam lucros de exportação de soja cana et cetera e tal, transformando o cenário, empobrecendo a natureza com a erradicação biológica de plantas e animais e, pior que tudo o mais, minguando as nascentes neste Planalto Central das Águas Emendadas...

É isso, meu amigo Altair Sales Barbosa! “A força da grana que ergue e destrói coisas belas” extrapolou a metrópole que encantou Caetano Veloso. Os ventos do Sul trouxeram os excedentes da extinção das matas das serras sulinas e fez das araucárias imagens de saudade em folhinhas e cartões postais – coisas também extintas pelo advento temerário da tal tê-í, ou seja, a tecnologia da informação, produto imediato da cibernética portátil e popularizada, como o automóvel popular, o celular e a falta de educação.

Manhã de sábado, um médico dá entrevista a um programa matinal na Globo. No patamar dos setent’anos, envergonho-me ao ver um médico – antes, profissionais privilegiados pela detenção de admirável bagagem cultural – expressar-se com dificuldade, sem compreender as funções das preposições e conjunções em seus devidos lugares.

E por falar em médicos, que beleza esse time feminino de futebol que – agora, sim – enverga com dignidade o manto canarinho do que aprendemos a chamar de “a nossa Seleção”! Os rapazes, encantados e seduzidos, contaminados mesmo, pelos salários astronômicos e a fama nas mídias, restituíram-se sem escrúpulos. Mas a equipe de Marta fez valer um valor esquecido nos meios esportivos em que a pecúnia vale mais que o propósito definido em estatutos – a dignidade pessoal, o respeito à nação torcedora e o compromisso com os símbolos desta nação.
Marta, cinco vezes a Melhor do Mundo. O que ela faz não é trabalho?
A vitória nos pênaltis, no comecinho da madrugada deste sábado, foi emocionante! Algo que a rapaziada da CBF perdeu há anos, mas que as meninas da mesma Confederação Brasileira de Futebol assumiram, tal como vemos, com naturalidade, as mães assumirem papel de mãe-e-pai ante a fuga dos machos covardes que não sabem ser responsáveis.

E vem aquele outro médico (foi desse que me lembrei) dizer que os homens trabalham mais que as mulheres. Fico por entender esses profissionais, que se creem semideuses, a proferir tanta idiotice sem lastro de informações indispensáveis! Sou de um tempo em que um cidadão era chamado para ser ministro por deter condições sociais (políticas ou classistas) adequadas e conhecimentos específicos e gerais que os tornassem aptos. Hoje, a coisa advém de trocas mesquinhas e inconfessáveis – como isso (os da imprensa sabem sempre...) de se nomear agiotas com poderes suprapartidários, alguns com condições “morais” sobre o chefe a ponto tal de “responder” por todo o governo – como uma espécie de primeiro-ministro informal.


O ministro da Saúde não sabe o que faz uma mulher com esses brinquedinhos...

Esse doutor Ministro da Saúde deve ter sido criado e forjado numa estrutura de mãe, avós, tias e irmãs dondocas de pouca utilidade num contexto social – até mesmo no núcleo familiar. Deve ser dos que acreditam que as empregadas domésticas que conheceu não passam de fêmeas animais – ensinamentos que os oligarcas transmitem aos filhos como aprendizados de avoengos escravistas, escravagistas.

Deve ser dos tais que perguntam a alguém:

– Mas você só leciona? Não trabalha?

Sim, porque profissionais desse naipe adoram ser chamados de “professores”, mas não reconhecem o mestre-escola como peça fundamental de seu crescimento – afinal, ele é semideus!
Madre Tereza de Calcutá, que Deus nos cedeu por 87 anos. Ela nunca trabalhou, também?
E este escriba, pai e muitas vezes avô por via de meus filhos e sobrinhos, vale-se deste Dia dos Pais para homenagear a mulher atleta, a mulher mãe, a mulher trabalhadora, dona de casa, matriarca, namorada, parceira no lar e na sociedade, bem como as incontáveis e sempre incompreendidas amantes!

Viva a Mulher! Abaixo os conceitos irracionais!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Mulher – ícone da espécie!



Mulher – ícone da espécie!


Agosto de seca e ventos, redemoinhos tubos avermelhados ocre terracota do chão ao céu, razão de susto, medo e beleza. Menos maléficos que as queimadas que dizimam o cerrado, atingem as matas e só agradam aos que, sem escrúpulos, almejam lucros de exportação de soja cana et cetera e tal, transformando o cenário, empobrecendo a natureza com a erradicação biológica de plantas e animais e, pior que tudo o mais, minguando as nascentes neste Planalto Central das Águas Emendadas...

É isso, meu amigo Altair Sales Barbosa! “A força da grana que ergue e destrói coisas belas” extrapolou a metrópole que encantou Caetano Veloso. Os ventos do Sul trouxeram os excedentes da extinção das matas das serras sulinas e fez das araucárias imagens de saudade em folhinhas e cartões postais – coisas também extintas pelo advento temerário da tal tê-í, ou seja, a tecnologia da informação, produto imediato da cibernética portátil e popularizada, como o automóvel popular, o celular e a falta de educação.

Manhã de sábado, um médico dá entrevista a um programa matinal na Globo. No patamar dos setent’anos, envergonho-me ao ver um médico – antes, profissionais privilegiados pela detenção de admirável bagagem cultural – expressar-se com dificuldade, sem compreender as funções das preposições e conjunções em seus devidos lugares.

E por falar em médicos, que beleza esse time feminino de futebol que – agora, sim – enverga com dignidade o manto canarinho do que aprendemos a chamar de “a nossa Seleção”! Os rapazes, encantados e seduzidos, contaminados mesmo, pelos salários astronômicos e a fama nas mídias, restituíram-se sem escrúpulos. Mas a equipe de Marta fez valer um valor esquecido nos meios esportivos em que a pecúnia vale mais que o propósito definido em estatutos – a dignidade pessoal, o respeito à nação torcedora e o compromisso com os símbolos desta nação.
Marta, cinco vezes a Melhor do Mundo. O que ela faz não é trabalho?
A vitória nos pênaltis, no comecinho da madrugada deste sábado, foi emocionante! Algo que a rapaziada da CBF perdeu há anos, mas que as meninas da mesma Confederação Brasileira de Futebol assumiram, tal como vemos, com naturalidade, as mães assumirem papel de mãe-e-pai ante a fuga dos machos covardes que não sabem ser responsáveis.

E vem aquele outro médico (foi desse que me lembrei) dizer que os homens trabalham mais que as mulheres. Fico por entender esses profissionais, que se creem semideuses, a proferir tanta idiotice sem lastro de informações indispensáveis! Sou de um tempo em que um cidadão era chamado para ser ministro por deter condições sociais (políticas ou classistas) adequadas e conhecimentos específicos e gerais que os tornassem aptos. Hoje, a coisa advém de trocas mesquinhas e inconfessáveis – como isso (os da imprensa sabem sempre...) de se nomear agiotas com poderes suprapartidários, alguns com condições “morais” sobre o chefe a ponto tal de “responder” por todo o governo – como uma espécie de primeiro-ministro informal.


O ministro da Saúde não sabe o que faz uma mulher com esses brinquedinhos...

Esse doutor Ministro da Saúde deve ter sido criado e forjado numa estrutura de mãe, avós, tias e irmãs dondocas de pouca utilidade num contexto social – até mesmo no núcleo familiar. Deve ser dos que acreditam que as empregadas domésticas que conheceu não passam de fêmeas animais – ensinamentos que os oligarcas transmitem aos filhos como aprendizados de avoengos escravistas, escravagistas.

Deve ser dos tais que perguntam a alguém:

– Mas você só leciona? Não trabalha?

Sim, porque profissionais desse naipe adoram ser chamados de “professores”, mas não reconhecem o mestre-escola como peça fundamental de seu crescimento – afinal, ele é semideus!
Madre Tereza de Calcutá, que Deus nos cedeu por 87 anos. Ela nunca trabalhou, também?
E este escriba, pai e muitas vezes avô por via de meus filhos e sobrinhos, vale-se deste Dia dos Pais para homenagear a mulher atleta, a mulher mãe, a mulher trabalhadora, dona de casa, matriarca, namorada, parceira no lar e na sociedade, bem como as incontáveis e sempre incompreendidas amantes!

Viva a Mulher! Abaixo os conceitos irracionais!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, julho 31, 2016

Muro de ódio em Hidrolândia

Muro de ódio em Hidrolândia


Quando escolhi viver em Hidrolândia, sabia bem que não escolhia o paraíso – mas um local onde pudesse tentar criar o meu próprio paraíso, com a natureza possível (e cada dia menos natural) e o próprio propósito de viver melhor. Sabia bem que teria o convívio da paz sempre ameaçada, pois as cidades crescem de modo incontrolável e todos estamos sujeitos a pessoas e seus feitos nem sempre amistosos.

Não estou falando de políticos já carimbados com as suspeitas do eleitorado e da população mal servida, mas de atitudes de violência velada, de intolerância ou de uma discriminação humilhante.

Refiro-me, especificamente, à “nova direção” de um posto de combustíveis, distante um km ao norte da principal entrada de Hidrolândia, isto é, em direção a Goiânia, na BR-153. Em breve, com as exigências do surpreendente crescimento da cidade, o ponto a que me refiro será a Entrada Norte de Hidrolândia.

Pois bem! Desde quando, há pouco mais de dez anos, adquiri o terreno onde moro, o ponto de acesso era esse, onde um empreendedor construiu o posto citado. Contudo, os preços de gasolina e etanol não eram convidativos, escolhíamos abastecer na cidade ou num outro posto, nas imediações do condomínio Terra do Boi, a meio caminho até Aparecida de Goiânia.

A “nova direção” teve, de imediato, uma atitude simpática – reduziu os preços – a gasolina caiu de R$ 3,99 para R$ 3,68, e o etanol, de R$ 2,97 para os suportáveis R$ 2,45. Mas foi só! A referência para os amigos era simplesmente essa: Entre no Posto Ale / Emaús e percorra um quilômetro para chegar à entrada do condomínio (moro no Estância da Águas).

Há uns dez dias, fomos surpreendidos com a construção em pouquíssimas horas de um muro impedindo-nos chegar ao Posto, de onde acessamos a BR-153. Ficou claro e indiscutível que não éramos bem-vindos ao estabelecimento comercial. A um dos membros do Conselho do nosso condomínio o gerente argumentou que nossos carros faziam muita poeira.

Ora! Estamos na seca, somos poucos os veículos a fazer poeira e já nos tornáramos clientes de seu posto – mas o nosso pouco dinheiro não interessa ao moço, que só quer mesmo os caminhões de pernoite em seu pátio.

O que me pergunto é: a prática contumaz do percurso não caracteriza serventia ou servidão? O condomínio e a via que percorremos para ali chegar já existia bem antes do posto. A alternativa que temos é um trecho de uns 50 metros entre o muro do posto e o da Copac – empresa que ocupa um vasto terreno ao lado – mas a alça de acesso a essa via carece de adaptação, bem como há que se remover um imenso totem do próprio posto, mal colocado justo no trajeto dessa via.

Não vimos ação da fiscalização municipal. Há que se admitir o direito de um estabelecimento comercial cercar-se de muros – mas não é comum em postos de serviços a veículos. Ou esse gerente pensa em murá-lo todo, instituir cancelas de controle para inibir pequenos consumidores, como o famoso Postão Aparecida (que ainda assim acolhe bem aos que lá adentram)?
Ao prefeito Paulinho, de Hidrolândia, deixo um apelo. Que ele mande vistoriar a malfadada obra do muro e, caso se admita a permanência daquele péssimo item de marketing da empresa Kurujão (a nova direção do posto), que se regularize o acesso entre a Copac e o posto – mas, indispensavelmente, e para não levantar poeira para o sensível nariz do gerente, por favor, mande asfaltar a pequena estrada. São apenas 1.600 metros.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.