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domingo, março 26, 2017

Meu sábado feliz em Caldas Novas





Este escriba entre a presidente Stella Fleury e a vice-presidente (e secretária municipal de Cultura) Gabriela Azeredo Santos

Sábado feliz em Caldas Novas


Os leitores que seguem meus pobres escritos no meu blog (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) ou na última página do DM (www.dm.com.br), na edição de domingo, hão de se lembrar que um vereador de Caldas Novas tentou me ofender, chamando-me de “escritor de boteco”. Essa coisa rendeu... Além de um publicitário improvisado em função de jornalista tentar dar veracidade ao edil, muitos dos caldas-novenses, nativos e adventícios, escolheram valorizar-me.

Como é da praxe, os exageros negativos que meus detratores tentaram listar não prosperaram – mas os meus simpatizantes foram além, proporcionando-me espaço e adjetivos altamente favoráveis.


Mulheres poderosas em Caldas Novas: Gabriela
A. Santos, Stella Fleury e Helena Carvalho. 


De tudo, valem-me as atitudes da musicista Stella Fleury, presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, e da bibliotecária Helena Carvalho, convidando-me para o aniversário da Biblioteca Prof. Josino Bretas, em 31 de janeiro. 

Depois, no sábado, dia 18 de março, Stella Fleury tomou posse, festivamente, na presidência da ALACAN, ocasião em que, ao lado de outros confrades acadêmicos e artistas notáveis de Caldas Novas e do Estado, fui agraciado com um Diploma de Mérito.

Alegria enorme no reencontro com confrades e conterrâneos. Dentre estes, a secretária de Cultura Gabriela Azeredo Santos, que é também vice-presidente da Academia. Gabriela, que é mestra em Literatura pela PUC Goiás, traz consigo a linhagem nobre do avô Oscar Santos, que se despediu na solenidade de um centenário de grandes serviços prestados à Caldas Novas e a Goiás. Foi dele a sugestão ao governador Leonino Caiado para a criação da Goiastur – o órgão oficial de turismo, criado para fomentar o turismo no Estado, e naturalmente com foco no nosso principal atrativo – as termas de Caldas Novas. Infelizmente, Caldas Novas jamais foi contemplada por ações da Goiastur, talvez por isso a cidade tenha crescido desordenadamente, do que resultam graves problemas urbanos.


Com Stella e Gabriela, na festa de posse da nova diretoria da ALACAN

Ex-secretária da Educação, secretária da Cultura e vice-presidente da ALACAN, Gabriela merece muitos votos meus de confiança, na construção de grandes feitos pela memória da sociedade a que pertenço pelo direito de nascimento e hereditariedade – um dos meus ancestrais, pela linhagem de minha avó paterna, é o descobridor das termas de Caldas Novas, Martinho Coelho de Siqueira.

Mas uma novidade encheu-me de alegria diferente, e achei-a num evento trivial para um jornalista e escritor com tantas décadas de vivência. Adriana – ou apenas Dri – pediu-me uma entrevista, ao vivo, na Rádio Gospel, às 9 horas da manhã do mesmo sábado. Acordei mais cedo em Hidrolândia e tomei a estrada. Pouco antes do combinado, lá estava eu – e o encontro, entre sorrisos e abraços, mostrou-me uma bela profissional, ao lado do marido e colega Tyrone, e da filha Mary, que também atua na equipe, além do “filho recente” Valdo.


Tyrone, Dri (Adriana) e Luiz de Aquino, sob o sol do novo Outono. 

Conversamos, por duas horas, sobre letras e notícias, mas sobretudo sobre Caldas Novas “das antigas” e dos tempos atuais. Família afinada, bem harmonizada nos sorrisos e no trabalho – coisa rara, nos tempos cibernéticos. Fizemos muitas fotos e vídeos, na manhã radiofônica e na noite de gala, marcada por mostra de artes plásticas e fotografias e autógrafos pelos escritores confrades.

A festa acadêmica foi possível graças ao apoio do hotel Ecologic Ville, disponibilizando-nos o hall e alguns salões. E minha terrinha natal, simples e acolhedora, brindou os hóspedes do suntuoso hotel com música clássica e popular, além de poesia.


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Luiz de Aquino é jornalista, professor e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sexta-feira, março 24, 2017

Hidrolândia: Colégio adota meditação escolar


Hidrolândia:






Colégio adota meditação escolar


A experiência tem início na Escola Robert W. Coleman, em

Baltimore, nos EUA. Em lugar de deter o aluno ou aplicar-lhe suspensão, escolheu-se encaminhar o aluno para uma sessão de meditação.


Trata-se de um programa escolar chamado Holistic Me, uma iniciativa em parceria com a ong Holistic Life Foundation que reúne meditação de atenção plena com profissionais especialistas em comportamento. O resultado foi tão impressionante que, desde que implantou o projeto há dois anos, a escola de Baltimore não realizou uma única suspensão” (revista Galileu, no endereço: http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/09/esta-escola-substituiu-detencao-por-meditacao-e-o-resultado-foi-incrivel.html).


Muitas escolas brasileiras adotaram esse procedimento, inclusive o Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro. Mas o destaque, para nós, é o Colégio Vicare, em Hidrolândia, na região metropolitana de Goiânia). Em seu segundo ano de funcionamento, a escola vem realizando inovações continuadas em benefício da melhor qualidade de socialização e aprendizagem, proporcionando excelente projeção para a “cidade das jabuticabas”.




A iniciativa é da diretora Sirlene Gonçalves Xavier (foto), psicóloga e psicopedagoga, que escolheu, no leque de práticas de meditação, o mind fulness, isto é, mente plena, com vistas a atingir o propósito “menos estresse, mais saúde”. Segundo ela, o propósito é “estar presente no que se faz”, pois, a “atenção plena é a conexão com o que se faz agora”.



O procedimento, nas escolas brasileiras, é mais amplo do que o experimentado na escola de Baltimore, pois não se limita, aqui, a encaminhar para meditação um aluno indisciplinado ou desatento, mas aplicar a meditação a todo o corpo discente. A aceitação tem sido generalizada, e a reação mais comum está na iniciativa de cada aluno no sentido de chegar à sua escola com a antecedência necessária para participar da meditação.


No Vicare, em Hidrolândia, onde a fase infantil (escola maternal) tem nenéns com meses de vida, ou seja, com idade inferior a um ano, a assistência personalizada já inclui também esses pequeninos seres, de modo que as novas práticas pedagógicas ocorram, para a criança, de modo absolutamente natural – e o propósito é facilitar, cada vez mais, os processos de ensinamento e aprendizado.


Percebe-se, aos poucos, o quanto a escola pode ser, de fato, o segundo lar do alunado. Atrativos como instalações renovadas, arejadas, confortáveis e acolhedoras associam-se ao procedimento de professores e funcionários, tudo voltado para o bem-estar do estudante e a facilitação do aprendizado por todos os métodos utilizados – e o Vicare se destaca, ainda, pelo uso apropriado da mais moderna tecnologia da informação.

Assim, o ensino acadêmico está aliado às práticas esportivas e de artes e cultura – como música, teatro, desenho e pintura, futsal, vôlei, basquete e outras práticas, sob a orientação entusiasmada do médico Luiz Fernando Martins, que cuida, também, da realização mensal de palestras variadas das quais alunos e familiares participam, assistindo a explanações de vultos notáveis, de Goiás e do Brasil, além das rotineiras reuniões de pais e mestres.







Meditação
Caminho para o equilíbrio

Muito se fala quanto às práticas conservadoras nas escolas brasileiras. Os mais radicais teimam em afirmar que os métodos são, hoje, os mesmos de 400 anos atrás (se houvesse escolas no Brasil há quatro séculos) e muito pouca coisa se agregou às metodologias que, a rigor, não passam de teorias que se estudam para obter o grau de professor, mas, na prática, tudo aquilo é esquecido até mesmo na retórica.

Nas últimas décadas, com o advento da tecnologia de ponta, os celulares e computadores assumiram a rotina na vida nacional, mas esses aparelhos e suas variantes são apenas os terminais de uma ciência que se transforma a cada instante, a ponto de tornar-se obsoleto qualquer aparelho após poucos meses, tantas são as inovações e as ofertas da indústria especializada.


Já passou, e ainda bem que passou, a crise que causou constrangimentos e até agressões de alunos a professores e funcionários, gerando casos em que também os pais causaram situações constrangedoras, desautorizando ainda mais os já desvalorizados profissionais da Educação. A saída foi proposta com a mesma rapidez que marca as reações da cibernética – não havendo como impedir o celular nas escolas, a melhor escolha é adotá-lo como mais um instrumento pedagógico auxiliar.

São muitas as escolas que assim procedem e, como era de se esperar, as transformações demoram a acontecer nas redes públicas de ensino, haja vista a enorme burocracia e a endêmica e inacabável falta de recursos. O fato é que o quadro didático, que já se chamou quadro-negro, e os mapas impressos passam à condição de memórias museológicas, dando lugar a projeções por instrumentos da tecnologia da informação.

O que não mudava, então? O modo de se relacionarem professores e funcionários com o corpo discente, ou seja, os alunos. Em poucas décadas, desapareceu a roupagem formal dos professores, e o popularíssimo jeans-com-camiseta assumiu os cenários. A linguagem tornou-se mais acessível – mas era preciso buscar novo instrumento de motivação e convivência. E, ainda, algo que os professores de todos os tempos tentavam, mas não encontravam a solução – obter a concentração dos alunos ante os temas e assuntos explanados.


 Atenção e Leitura

Situação comum na relação entre professor e aluno é a desatenção súbita. Ainda que o aluno seja o alvo central de uma resposta, o professor percebe, no olhar do aprendiz, o desvio da atenção. Como se alguma palavra sugerisse uma viagem imaginária, os olhos se fixam no além e o pensamento voa...

O mesmo acomete um aluno assim quando, em casa, numa leitura de estudo (ou mesmo de lazer) continua com os olhos a passear sobre o texto, mas o cérebro já está em outra dimensão. Há pessoas já fora do universo escolar há anos que admite perder grande parte de suas leituras por esse desvio de atenção. A ciência, parece, tem isso na conta do que abreviam como TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Isso, porém, é uma das descobertas mais recentes e tem auxiliado bastante nos processos de ensino e aprendizagem. E muitos são os alunos de tempos anteriores, hoje pessoas grisalhas e mesmo enrugadas, que somente agora descobrem que algumas de suas dificuldades escolares decorriam de um transtorno então desconhecido – esse badalado TDAH.




– Meu filho sabe de tabuada, de contas e medidas, mas se tirarmos as laranjas do cesto e as colocarmos numa caixa, ele não consegue “matar” o problema – disse a mãe a um professor de reforço.


O professor sorriu e abriu o livro de matemática. E pediu ao aluno que buscasse o livro de leituras (naquele tempo havia um livro de leituras na fase ginasial). Abriu num conto de Machado, leu um período e pediu ao aluno que o explicasse. A mãe não entendeu, mas acompanhou o que fazia o mestre.

Em quinze ou vinte minutos, discutindo aquele pequenino texto, aluno e professor começaram a se entender. O menino começou, pois, a não levar em conta detalhes que o levavam a dispersar-se, como o cesto e a caixa. Ao término daquela hora de aula, com a mãe observando tudo – e esperando que o professor lhe permitisse entrar na conversa – veio o “veredito”, ou “diagnóstico”.

– Dona Zenóbia, incentive-o à leitura. Comecemos por gibis de caubói, de super-heróis e mesmo os infantis, os de Disney e da Luluzinha.

E o professor de reforço, ainda que de matemática, passou a gastar os minutos iniciais da aula para um aquecimento interessante – conversar sobre as leituras e o lado divertido, estimulando a imaginação. E arrematou:

– Entenda, você resolverá qualquer problema quando o compreender. O que lhe faltava era a capacidade de atenção



Indisciplina e agressão

A disciplina sempre foi um dos itens mais fortes num processo de aprendizagem – e um desafio constante para os professores. E nas novas gerações o direito dos adolescentes fala muito alto - o quê, quando aliado a um fortuito alheamento dos pais, complica a vida escolar. Muitos são os pais de crianças, atualmente, que não castigam os filhos – mas os induzem a “pensar no que você acabou de fazer”. O método tem demonstrado eficácia. Há o caso de uma menina que, aos quatro anos, ouviu do pai – que se senta no chão para que a criança não tenha de erguer a cabeça – que fosse até o quarto, pensar no que fizera de errado. Minutos depois, o pai a libera: “Pode sair, Marina!”, e a menininha responde que “ainda não, papai, não acabei de pensar”.

Num lado extremamente oposto, em famílias com estrutura grupal menos estruturada, temos pais que ignoram as ações dos filhos e acreditam que cabe à escola educar suas crianças (talvez o engano provenha do nome Educação para o processo público de ensino). E a autoridade dos professores quanto à disciplina foi minimizada ao extremo, ao ponto de atos de violência de crianças e jovens contra professores ter se tornado notícia comum.

Uma experiência de Baltimore, nos Estados Unidos, e adotada em algumas escolas brasileiras tem mostrado resultados excelentes – a meditação. A prática ocupa poucos minutos na semana ou no dia e é estimulada para que as crianças e adolescentes a pratiquem em casa. O exercício mental organiza o pensamento, relaxa a mente e o corpo, prepara para a atenção e o aprendizado.

Uma breve pesquisa na internet mostra que os colégios que adotaram a prática registram uma novidade, de iniciativa dos próprios alunos – eles passaram a chegar mais cedo para os momentos de meditação. As escolas preparam-se para isso, reservando espaços, adaptando as salas para que cada qual escolha a melhor posição e, súbito, os alunos estabelecem para si mesmos a disciplina indispensável para atingir suas metas.

Alunos com o dr. Luiz Fernando Martins, idealizador entusiasta,
apoia os métodos aplicados no Colégio Vicare.


sexta-feira, março 17, 2017

As razões das dores

As razões das dores




Não tenho notícias de um companheiro há algumas semanas. Ligo, mais por curiosidade que saudade, só para perguntar “Olá, tudo bem?”, e ouvir de volta “Tirando os problemas, tudo bem”. Ora, tentei esclarecer, mas o que seria da vida sem problemas? Um tédio! A alegria de viver consiste em resolver problemas, superar obstáculos, vencer dificuldades e, enfim, erguer a mão fechada com um baita sorriso e gritar “Eba!”.

Sempre ouvi que, ao acordar, precisamos agradecer a Deus pelo dia a viver – em seguida, espreguiçar, como cães e gatos, e levantar para os primeiros passos e providências, desde a higiene até o ato de nos aprontarmos, com a indispensável vaidade e a ótima disposição para vencer etapas.

Pensava ainda no papo com esse conhecido quando, pelo Facebook, um companheiro de verso e prosa a quem não conheço pessoalmente, morador das lonjuras brasileiras, quer saber de mim o que leva um homem de quase 80 anos ao suicídio (aconteceu com alguém das relações dele, não sei se finalizou o ato ou se foi acudido a tempo).

Falou-me, esse parceiro, da vida vivida, a formação acadêmica, a profissão exercida a contento e as realizações no campo material, com boa casa, bons carros sempre, casa de veraneio na praia e um sítio na montanha. Muitas viagens e um casal de filhos, já beirando a casa dos cinquent’anos, cinco netos (dois adolescentes e três crianças).

– É o vazio – disse-lhe eu.

– Vazio... que vazio?

– Vazio no tempo, no horizonte e na vida. Imagina esse casal (sim, sua companheira da vida toda, apenas dois anos mais nova, também é triste) na casa de praia durante os dias da semana, esses a que acrescentamos “feira”. O que há na praia? Somente a areia e a espuma das ondas. E o mar, para eles também vazio, é metade de toda a paisagem. O mesmo se dá na chácara, quero dizer, no sítio da montanha. Há os pássaros e outros animais, como macacos, quatis... e mesmo as pessoas que eventualmente passam por eles são fatores reais, mas não lhes preenchem os dias e as emoções – como o eco numa caverna.

Nos tempos de moços, deixamos vazios os dias de nossos pais. Uns 25 ou 30 anos após, nossos filhos fizeram o mesmo conosco e hoje são os nossos netos a deixar foscos os olhos de nossos filhos. “Seus filhos filhos terão”, costumava repetir minha mãe, referindo-se ao fenômeno da autossuficiência que assola os jovens. Lá pelos 40 anos, costumamos retornar aos olhos e afagos dos pais – mas é essa uma fase de muito trabalho, de busca pela consolidação do patrimônio material, com medo de uma velhice triste e mal assistida, e não sabemos então que, na velhice, gostaríamos mesmo de ter tão-somente a proximidade dos que amamos.

Preocupa-me, sim, quando do “gesto tresloucado” (era expressão da imprensa policial de algumas décadas idas), em que a pessoa comete um dos dois graves crimes imperdoáveis. Mas, digam-me, como julgar? Por maior que seja o argumento religioso, angústias e ansiedades não se explicam nem se medem. As razões das dores, só as dores as conhecem.

Deus que se apiede...



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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, março 11, 2017

No Dia da Mulher: Questão de dignidade

Questão de dignidade



Não sei se os meus poucos, mas valorosos, leitores de poemas e crônicas – especialmente os das crônicas – notaram, mas eu evito abordar temas sobre as datas festivas. É que, ao fazê-lo, sempre corremos o risco de cometer erros bobinhos ou, pior ainda, gafes (que nós, brasileiros, preferimos chamar de “ratas”), como o fez o soleníssimo presidente desta malfadada República, o advogado e autor de obras jurídicas Michel Temer.

Temer, contudo, é muito mais conhecido como político. E como é da moda atual, ele é muito mais hábil no jogo político do que com conceitos e palavras, motivo que faz dele o gafeiro-mor (ou rateiro-mor) desta triste República de Floriano.

Parêntese: o Segundo Império ia muito bem, obrigado, e o Terceiro Império, que teria como monarca a já testada e aprovada Princesa Isabel, já estava delineado. Contudo, alguns oficiais do Exército, aborrecidos com o butim da Guerra do Paraguai (dizem que menor do que sua esperança), liderados pelo machão truculento Floriano Peixoto engendrou essa República, que Deodoro, removido quase que à força do leito em que se prostrava doente, proclamou sem querer. Resultado: este festival de malfeitos desde 1889, que instituiu o pistolão e a corrupção. E o “marechal de ferro”, nosso primeiro ditador, impôs seu nome para a capital do Estado de Santa Catarina – e a história vingou-se dele, apelidando “sua” cidade, Florianópolis, de “Floripa”. Bem sugestivo. Fecho parêntese.

Esse presidente – que o PT jura ter escolhido “apenas” como vice, não para que assumisse a Presidência em qualquer hipótese – empenha-se em consolidar um pacote de malvadezas, no qual se insere a reforma da Previdência (a ponto de causar uma relação de quase escravidão, sob a falácia de um rombo financeiro fortemente questionado), o que se atrela a uma reforma da legislação trabalhista também voltada para instituir o trabalho análogo ao escravo.

Se alguém, fora do circuito de banqueiros e economistas liderados pelo tristemente goiano Henrique Meireles, acredita que isso vem com “boas intenções”, certamente não ouviu alguns conceitos sociais do presidente Temer, quando discursou no Dia Internacional da Mulher. Sua fala beirou o ridículo e encaixou-se na pista contrária das conquistas de direitos não só das mulheres – maioria na nossa população, mas tratada, por Temer e seus similares, como minoria simplesmente útil para criar “os filhos dos homens” e saber os preços nos supermercados.

Imagino como discursará o presidente em eventos sobre os pretos e mulatos, sobre os índios e os ciganos, os homossexuais e os artistas – levas humanas que, somadas, ultrapassam a expectativa desses políticos falsos e cheios de farsas. Aprendamos a votar, e substituiremos esses facínoras por gente da nossa espécie, das quais cobraremos, sim, a honestidade que falta a eles e nem por isso se envergonham!

No último dia 8 de março, quarta-feira, prestei minha homenagem à mulher da minha terra, do meu país e de qualquer origem com dois poemas da minha lavra – sem bajulação piegas nem canto ideológico-partidário, porque não acredito em nada disso. Acredito, sim, na mulher que aprendi a amar em minha mãe, avó e tias, irmãs e vizinhas e que, no desabrochar da adolescência, na mulher digna do meu afeto voltado para o futuro da espécie.

Essa mulher que conheço, que idealizo, que respeito e, acima de tudo, eu amo, ela não é a recatada-e-do-lar que “educa meus filhos”, não. Ela é a parceira para educar comigo, para compartilhar comigo, gastar comigo e aceitar meu carinho, dando-me em troca os mesmos sentimentos de respeito, de amor e atenção. Mas a exaltação, esta sou eu quem lhe dá, na humildade do homem “dependente e carente”, como cantou Erasmo.

Mas, parece-me, Temer e seus asseclas não gostam de mulher.



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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, março 04, 2017

O vazio de Pedro

O vazio de Pedro



Manhã de sábado, 4 de março deste 17. Em menos de dez dias, é a minha quinta visita ao Cemitério Jardim das Palmeiras para aquela despedida quase muda, aquele sentimento de dor resignada, sob o tempero da falta de palavras adequadas e de gestos esparsos. O abraço, este sim, simboliza energias permutadas, ou melhor, a comunhão das dores e do empenho na busca de conforto.

Esta foi a vez de Pedro, um moço bonito, no esplendor dos 45 anos, inteligente e presente. Meu elo forte com ele e os irmãos é sua mãe, Eneida Pinto Vaz. Somos, ela e eu, liames traçados antes de nossos nascimentos – costumo dizer que tenho amigos escolhidos na adolescência e na fase adulta, tenho amigos de infância e tenho uma amiga de nascença: Eneida. É que nossos pais e mães conheceram-se adolescentes e consolidaram a amizade pela vida afora (dos quatro, resta apenas Dona Célia, mãe de Eneida).

Casamo-nos muito jovens – Eneida alguns meses antes de mim – e acompanhamos os nascimentos de nossos filhos, e estes tiveram, também, a amizade de infância e adolescência. Foi com os nossos pais, Zé Pinto e o meu velho Raé (José Pinto Neto e Israel de Aquino Alves) que acompanhei, aos quatro anos, a primeira serenata, com a missão de cantar ante as janelas amigas, naquela prosaica e bucólica Caldas Novas, pelo começo de 1950.

Já adulto, herdando de meu pai a amizade com Zé Pinto, fizemo-nos, ele e eu, parceiros de músicas, como a canção Sentimento Pirenopolino (ou Manhãs Alegres), entre outras. Ele era, na década de 1970, meu primeiro leitor e grande incentivador para que eu estreasse em livros – e surgiu O Cerco e Outros Casos, que ofereci a ele.

Vida e tempo que nunca param... em fevereiro de 1991, em pleno carnaval, morreu o Zé Pinto. A dor, é claro, densa e forte, plantou-se no coração da Eneida – mas havia o parceiro escolhido, Delermando Vaz, para lhe oferecer conforto. E o tempo, com suas múltiplas intempéries, levou-se o parceiro de décadas, pai de seus quatro filhos, pelos meados de 2011.

Agora, e dias após ser internado, sob um AVC e já em coma, o caçula Pedro despediu-se da vida. Dominaram-no os distúrbios do metabolismo – isso que causa a obesidade (ou decorre dela, não sei). O trajeto daqui à sala do velório, a concentração inevitável, inevitavelmente preenchida de boas lembranças evoca as já citadas dores. As falas ao pé do corpo inerte fortalecem a personalidade agradável e querida do menino Pedro e tornam-se um canteiro para a saudade prenunciada. O peito parece pequeno para tantos sentires, que comprimem a bolsa das lágrimas e forçam-me a sair quando alguém comenta sobre fechar a urna. Sinto o Zé Pinto, o Lindolfo e o Padre Belizário, filhos da tão querida Dona Joana, e os imagino ali, acolhendo o moço que lhes fora tão amado.

Faço coro com todos os que procuram entender a não-aceitação desse evento triste, de uma mãe sepultar o filho. Imagino o vazio da ausência, o lapso de amor e carinho, da voz e das queixas – essas coisas de filhos ante a mãe – e também das carícias, aquilo de impor a cabeça ao colo da mãe, de abrir o coração para as confissões sinceras que só pedem compreensão e conselhos, perdão e muitos afagos de mãos e de beijos.

Segue em paz, querido Pedro! Você não estará só. E os que ficam lamentam sua ausência, sim, mas hão de sempre fortalecê-lo com suas lembranças e preces.



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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, fevereiro 25, 2017

Ao mestre, com carinho

De falácias e maldades

ou:

Ao mestre, com carinho



Essa coisa a que chamamos de previdência surgiu no Brasil ainda no século XIX (19, para os novos e os pouco curiosos), com a construção das estradas de ferro. Tratava-se de um fundo ou caixa para amparar as viúvas dos operários das ferrovias, por razões fáceis de se entender. Os funcionários do Banco do Brasil, ao ver aquela importante providência, cuidaram de aprendê-la e criaram a sua caixa (ou fundação), a PREVI, em 1904.

Em 1923, Eloy Chaves criou a previdência aberta ao trabalhador brasileiro, e em 1931, Getúlio Vargas, meses após instalar-se no Catete, comoveu-se com aquela medida (e todo aquele dinheiro) e decidiu que o governo federal não podia deixar todo o trabalhador brasileiro sem aquele benefício – e encampou a previdência.

Nos primeiros anos da ditadura por revezamento instituída em 1964, o primeiro plantonista, marechal Castelo Branco, entendeu que deveria fundir todos os Institutos de Previdência (eram por categorias profissionais; eu era filiado ao dos Bancários, o IAPB) em apenas um. Mas a iniciativa inaugurada por Getúlio (não a previdência, mas o hábito de sacar grana do fundo previdenciário) continuou e, pasmem, consta que apenas um presidente não meteu a mão naquele mar de grana – José Sarney!

Nos últimos anos, ou seja, nestes mesmos da redemocratização, inventaram-se muitos impostos e taxas agregados à previdência, mas o volume arrecadado não chegou aos cofres do seguro social, pois foram alocados sob outros títulos contábeis. Isso, associado aos saques desenfreados “justificados” por vários argumentos, criou outra figura – o rombo da previdência.

Agora, vem a nós o canto da sereia das maldades. Um pacote a que Temer e seus 40 (ministros e assessores; são 40 ou mais, pois até mesmo o gabinete de Ali Babá, se existisse hoje, teria algumas centenas de áulicos) intitulam Reforma da Previdência.

Isso não é reforma! Esse pacote é pura armação contra o povo contribuinte – cada vez mais contribuinte e menos povo, menos assistido – sem o constrangimento de quem age contra quem os sustenta. Os governos são formados, sempre, aqui e em qualquer lugar, por ninhos de serpentes sem memória, seres capazes de picar para matar quem os alimenta.

Os professores, talvez a classe mais atingida por esse pacote de maldades, serão os mais prejudicados. A Nação brasileira sabe de como são tratados os mestres no Japão, sabem da dignidade com que são referenciados os professores na França – enfim, em muitas partes do mundo os educadores são vistos com respeito e tratados com dignidade. Menos aqui. Haja vista a prática generalizada, em todas as unidades federativas, de se mandar que a Polícia Militar espanque professores em seus movimentos reivindicatórios – mas ninguém mandou nem os comandantes tiveram iniciativa de espancar as mulheres dos amotinados no Espírito Santo, dias atrás. E os policiais militares, geralmente mal remunerados também, conseguem melhor tratamento do que os da Educação. O projeto dessa malfadada reforma destaca os militares com alguns privilégios (os federais – mas esses benefícios chegarão às Polícias e aos Bombeiros Militares, é de justiça).

Agora, os mestres brasileiros, das redes públicas e dos estabelecimentos privados, irão às ruas contra a proposta de emenda que escravizará os mestres de todas as nuanças empregatícias, públicos e particulares.

A PM vai, de novo, bater nos professores – é assim em todo o país. E alguns serão feridos, poderão ter sequelas ou coisa pior – algo que não aconteceu com “as mulheres dos policiais militares”, as porta-vozes do motim capixaba. Mas o presidente Temer tem agido com habilidade, agradando os partidos de sua base de apoio e conta com a inequívoca aprovação da reforma.

Meu receio é de que estejamos à beira de uma segunda Queda da Bastilha. E a nossa Bastilha pode ser qualquer dos palácios brasilienses, sei não.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, fevereiro 18, 2017

Assédio moral

O tal assédio moral


Há uns 40 anos, ou pouco mais, um amigo presenteou-me com um livro que achei muito interessante: Relações Humanas na Família e no Trabalho, de Pierre Weil (a edição nova custa algo em torno de 60 reais, mas as antigas estão pelos sebos por preços a partir de R$ 4,00). A época em que li essa obra ainda era marcada, nas empresas e órgãos públicos, por uma hierarquia rígida que, em alguns casos, beirava o trato desumano – e muitas vezes abusivo, por parte de chefes e patrões.

Era o meu tempo no departamento de treinamento do Banco do Estado de Goiás e buscávamos aprender e apreender práticas inovadoras nas relações no ambiente de trabalho, mas esbarrávamos na má vontade dos chefes – aqueles velhos de 40 anos ou mais, porque para nós, pessoas de 20 a 30 anos, todo aquele que percorria a trilha etária dos “enta” era velho.

Atravessando a Praça do Bandeirante, havia o Banco Real. Ali, ganhou fama de cidadão educado um “contador” (como eram chamados não propriamente os contadores, mas os gestores internos das agências bancárias) que oferecia um tratamento cortês e lhano com a clientela, mas ríspido e intransigente com seus subalternos. Ficou famosa a sua iniciativa de colocar uma pequenina mesa de datilografia ao lado da sua para, ali, instalar-se um escriturário que tinha “o péssimo hábito de conversar com clientes” ou, pior ainda, “de ser visitado por amigos” – bem, este segundo item foi alegado pelo tal contador, mas houve dúvidas quanto à legitimidade do argumento.

O chefe bancou o bedel do funcionário por uma semana, ou melhor, pelos cinco dias (ditos úteis) da semana. Nenhuma tarefa foi entregue ao empregado e nenhuma pessoa, colega ou cliente, podia dirigir-se a ele. O contador registrou, dia a dia, os horários de entrada do empregado, os 15 minutos diários permitidos para o café da tarde – mas o fez em horário diferente do geral a fim de não permitir contato de oralidade com nenhum outro colega. Na sexta-feira, o moço pediu demissão.

O contador foi festejado por alguns adeptos da disciplina rigorosa, e houve até quem sugerisse que o caso fosse divulgado para ser mostrado em cursos de administração de empresas etc., mas o moço, ainda que conduzido àquele desfecho, recebeu orientação e procurou a Justiça do Trabalho, no que foi vitorioso em virtude da pressão psicológica sofrida.

A isso, hoje, dão o nome de “assédio moral”.

E há também o tão badalado “assédio sexual” – destes, tenho muitas histórias, mas é tema para outro dia. Ainda que já se tenha um conceito legal para essas práticas abusivas, assemelhadas a atitudes comparadas com o que se fazia nos pátios e nas senzalas até 1888, ainda há chefes que não respeitam sequer licenças médicas de seus colaboradores. Num caso recente, vi uma amiga, com um membro imobilizado em virtude de tratamento ortopédico, ter de se deslocar até o órgão público em que presta o seu trabalho porque o chefe (quase que eu disse o cargo) não entende que quando um trabalhador se ausenta, pelas múltiplas razões amplamente definidas em leis, seu trabalho deve ser desenvolvido por outro funcionário.

Não discorrerei sobre os detalhes, estes interessam pouco. O lamentável é que o funcionário em questão tem o salário (como sempre) aquém de sua competência e do serviço que oferece, mas seu chefe imediato e o mandachuva do gabinete são agraciados com rendas mensais nababescas – mas não conseguem desenvolver providências inadiáveis e abusam da humildade ou do receio que tem a pessoa de perder seu emprego, nestes tempos bicudos.

Paro por aqui, antes que me traia e diga nomes e endereços.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.