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sábado, julho 22, 2017

O amor ante a morte




O amor ante a morte (*)


A semana foi de amores e mortes. Considere-se a semana desde a noitinha da sexta-feira, 13 de julho, e termino-a algumas horas antes de se fecharem as 168 horas dos sete dias, até porque não preciso de todas essas horas (no intervalo, muitas foram as horas gastas com ocupações menores ou não-afins). Nas primeiras horas, o belo de cores e arte, de história e alegorias, de música e de movimento ora calculado, ora espontâneo; em meio a tudo, a vaia.

E vieram os jogos do PAN do Rio, uma festa de Brasil e Américas. Mas vieram as cores terríveis do choque e do fogo: a expectativa da chegada feliz deu lugar ao espanto e vez ao susto, à dor e ao desespero: não havia como morrer. A tragédia vaiava a vida.

O senador Antônio Carlos Magalhães, satélite de todos os poderes nos últimos 50 anos da vida política brasileira, não estava naquele avião; mas também deixara a vida a poucas horas do fim da semana. Alguém me fala em “fecho de um ciclo”; discordo, porque esse ciclo já começava a se fechar desde quando ele teve de renunciar para não ser cassado. De novo evoco o belo e a poesia... Sem texto, não há poesia; e a beleza, não existiria se o homem não a concebesse, não tentasse sempre recriá-la.

A morte do homem público diz respeito à história; as mortes de centenas de passageiros do avião da TAM causam comoção nacional, ainda mais quando vemos as chamas do querosene espalhado a expandir-se por papéis e outros inflamáveis. A dor é única, é brasileira, ecoa em cada família e em cada grupo de trabalho ou de passeio, de esporte e de ócio. É uma dor que cala fundo no peito da gente, mas é social.

Dor individual fica por conta dos parentes e amigos dos que se foram. Como a dor que se espargiu entre filhos e netos de Dona Valeriana, a octogenária mãe dos meus amigos Aidenor e Hildenor Aires. A mulher simples que, nos anos 50 do século passado, deixou o sertão oeste da Bahia e chegou à emergente capital nova de Goiás, onde trabalhou como pôde para educar seis filhos.

Daquela prole emergiram filhos dignos. E bem definiu o poeta Aidenor, à beira do sepulcro, ao evocar a vida de lutas árduas de que resultaram os filhos vitoriosos: “Ela foi como as mães e avós de muitos de nós aqui”, disse o poeta, “mulheres que não precisaram de cesta básica nem das esmolas dos governos para criar seus filhos com dignidade e honra”.


Dona Valeriana é daquela geração da década de 20, frutos de um severo após-guerra; a mesma leva que se viu buxa-de-canhão da II Guerra Mundial, os homens conduzidos aos “fronts”, as mulheres obrigadas aos sacrifícios inerentes aos estúpidos conflitos bélicos.

Bélico... de “bello”, guerra em latim; o mesmo latim que nos deu belo, de “belle” (adjetivo “lindamente”). Não há morte bela, ela sempre nos traz o trágico, a dor e um inarredável sentimento de solidão. E saudar a morte é ofício dos vivos. Dizem que a morte só dói entre os que ficam. Mas os que ficam, quando têm os conceitos que Aidenor conhece bem, entendem que a vida tem seu tempo, e o tempo de Dona Valeriana fechou-se na noite de quinta-feira, 19 de julho, 2007. Teve tempo de ver a cidade que escolheu para viver e criar os filhos render-se aos méritos de Aidenor.

E ela, agora, se apresenta ao criador com a simplicidade de Irene, preta e boa, de Bandeira. Pela vida que viveu, certamente ouvirá de Deus: “Você não precisa pedir licença”.


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(*) Esta crônica foi publicada em 22/07/2007, neste meu espaço no DM. Escolhi repeti-la para comparar os tempos em uma década e, a um só tempo, homenagear meus amigos (filhos de Dona Valeriana). 




Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, julho 15, 2017

Caminhada Ecológica: Dona Maria do Uru





Da. Maria de Lourdes Rodrigues, ou... (Foto: álbum de família)


Dona Maria do Uru



Enquanto escrevo, um grupo de apaixonados pela natureza cuida dos últimos detalhes para a 26ª Caminhada Ecológica – a marca de 310 km de Goiânia a Aruanã, capitaneada pelo professor Antônio Celso Ferreira Fonseca. São 29 caminheiros, alguns assíduos desde a primeira ocorrência de um evento que já se tornou constante em todos os meses de julho, referência importante do que nós, goianos, entendemos ser a “temporada do Araguaia”.

O grande rio, divisa natural entre Goiás e Mato Grosso e Goiás e Pará – antes da divisão territorial de 1989 – é tão importante para nós quanto a pamonha, o pequi e o cerrado. Essa Caminhada Ecológica é um feito sociocultural dos que marcam um povo e um tempo. E é sempre bom e agradável conversar com pessoas que se dedicam a causas como essa, que envolvem muitos fatores – como a prática esportiva, o gosto turístico, a defesa de um ideal como a preservação ambiental e, por decorrência, o sabor indescritível das descobertas de feitos e atos tão significativos como o que ouvi do mestre Antônio Celso.

Conta-me o professor que, numa das realizações da Caminhada, ele foi atraído pela imagem de uma senhora à janela de uma casa, sede da Fazenda Uru, à beira do rio do mesmo nome – divisa natural dos municípios de Itaberaí e Goiás (a antiga capital). Parou e foi à casa, bem à margem da rodovia, e dirigiu-se àquela senhora, que o acolheu com um belo sorriso de boas-vindas.

Era Dona Maria. Dona Maria do Uru, como ficou conhecida. Ele se apresentou, contou da Caminhada, foi convidado para adentrar e experimentou uma bela conversa... Enfim, aquela visita não programada era a semente de uma amizade e de novas marcas para os caminheiros, os “andarilhos da natureza” – como na canção de Matão e Monteiro. Dona Maria serviu-lhe pipoca e café e acolheu o grupo que faz, todos os anos, aquele percurso. A travessia do Uru corresponde ao período de almoço dos atletas na quarta-feira, o segundo dia de andança.

A partir de então, o ponto de almoço passou a ser a Fazenda de Dona Maria. Ela os recebia com ansiosa alegria e os brindava sempre com uma farta mesa de quitandas e café, além da pipoca – que se tornou referência e que ela, aos punhados, lançava sobre aqueles atletas, como que os abençoando em nome de Deus.

Foram dez anos ou mais. Nesta segunda-feira, e com um novo ponto de partida – a cidade de Trindade –, a Caminhada tomará sua trilha e chegará ao rio Uru na manhã de quarta-feira, onde realizará o almoço – mas agora sem a alegria marcante de Dona Maria do Uru. Ela se despediu da vida material em abril passado. Agora, seus beija-flores – como ela se referia aos caminhantes do Araguaia – estarão lá, mas recebidos pelos filhos da matriarca Dona Maria do Uru.

Antônio Celso, atento a todos os detalhes (como convém a um líder de tão legítimo evento), recorda o detalhe de um beija-flor do último abril, no dia em que, na mesma casa da beira do rio e da estrada, velava-se o corpo inerte de Dona Maria. A pequenina e esperta ave entrou pela janela, a mesma onde o professor vira Dona Maria pela primeira vez, esvoaçou por rápidos segundos sobre o corpo e desapareceu. E ficou a sensação de que ela combinara com o pássaro aquela visita, pois, ao lado da janela, dois dos andarilhos, com as camisetas do evento, sentavam-se como vigilantes.

Dona Maria não é mais presença física no Uru, mas sua alma de bondade ali aguardará sempre seus “beija-flores caminhantes”.

Numa canção, esses atletas eram ditos "caminheiros da natureza", mas Dona Maria os chamava de "os beija-flores".
(Foto: Internet)



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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, julho 09, 2017

Sob a Espada de Dâmocles

Michel Temer nos traços de Jorge Braga (O Popular).






Sob a Espada de Dâmocles



Vão-se mais de dez dias da escolha, pelo presidente Michel Temer, da subprocuradora Geral da República Raquel Elias Ferreira Dodge para suceder o procurador geral Rodrigo Janot, o que colocou a Espada de Dâmocles sobre a cabeça do ocupante da principal cadeira desta malfazeja república de Floriano.

Nada de errado ao escolher o segundo nome mais votado, senão pelo compromisso espontâneo que assumiu de respeitar a escolha maior dos procuradores. Mas essa opção, perfeitamente legal e moral, não oculta a rejeição ao preferido de Janot, o subprocurador geral Nicolao Dino (que é irmão do governador do Maranhão, Flávio Dino, que se opõe a Temer). Ou seja, a mudança da promessa não compromete a escolha, apenas equivale a uma confissão de receios vários (ao que tudo indica).


Rodrigo Janot e Raquel Dodge (foto folhapolitica-org)

Sobre a conduta de Temer, duas vezes vice de Dilma Rousseff na Presidência da República, muito se ignorava, muito se especulava e as dúvidas não o recomendavam bem. É sempre inevitável compará-lo com Itamar Franco que, quando presidente, tinha por braço direito o ministro Henrique Hargreaves (da Casa Civil no governo de Itamar). O ministro, exposto em suspeita, afastou-se do cargo e declarou fazê-lo para facilitar as investigações, após as quais, sendo inocentado, retomou o posto.

Nos últimos dois anos e meio, essa história foi por demais lembrada, tantos foram os nomes de auxiliares do governo postos em evidência por suspeitas – e provas. E veio então a público a gravação de Joesley Batista, deixando à luz um pouco dos segredos de Michel Temer – não um ministro (como Geddel Vieira, Eliseu Padilha e Moreira Franco), mas o próprio presidente da República.

Ora, ora... Sempre me mantive respeitoso ao cargo e seu ocupante, ainda que discordante da linha política, dos feitos administrativos e do que nos chega como “o caráter” do homem público. Mas como respeitar o cargo quando seu próprio titular legal não o respeita? É o que nos passa o “rei da mesóclise”, o do discurso refinado dos primeiros meses (agora, seus discursos andam recheados de rancor, mágoas e ódios contra os que tomam conhecimento de suas malfadadas medidas com o dinheiro sujo das propinas e das barganhas, em prejuízo do Erário).

Em meio ao turbilhão dos fatos e das provas, ensaia Temer discursos alinhados com seu advogado Mariz, com seu assecla Marum (parecem nomes de dupla sertaneja) e outros áulicos. Viaja à Alemanha sob a borrasca das denúncias e novas ameaças, como a possível confissão, em pacto de colaboração premiada, de ninguém menos que o ex-deputado (e correligionário) Eduardo Cunha, reforçada pela mesma intenção do doleiro Lúcio Funaro, enquanto o ex-ministro Geddel Vieira se esperneia para tentar escapar da prisão.

No meio de tudo, há que se recordar o malfadado jantar com o ministro Gilmar Mendes, do STF, durante o qual – pelo que foi divulgado – escolheu-se o nome de Raquel Dodge para suceder a Rodrigo Janot. A escolha, está claro, é legítima, não fosse um leve indício – a preparadíssima subprocuradora geral costuma manifestar-se contrária a alguns atos ou medidas do procurador geral. Contudo, há mais a se considerar.

Raquel Dodge, goiana de Morrinhos, traz um belo currículo de formação escolar e práticas profissionais. O fato de discordar do chefe não faz dela alguém suspeita, alinhada com os erros que ultimamente marcam fortemente os inquilinos dos palácios brasilienses. O que se viu nos noticiários parecia apresentar ao Brasil uma pessoa capaz de alinhar-se com propósitos escusos, já que “caiu nas graças” de figuras antipatizadas pela opinião pública.

Mas que não se enganem! Ela detém uma biografia consolidada, cheia de feitos que bem a recomendam. Caso sobreviva aos feitos da Câmara dos Deputados e, talvez, do próprio Supremo Tribunal Federal, Michel Temer haverá de se decepcionar com uma profissional de sólida formação jurídica e moral. E o Brasil precisa muito de pessoas assim.

Essa é, parece-me, a Espada de Dâmocles sobre a cabeça de Temer.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, julho 01, 2017

Em tempo de total descrença

Quem tem medo do Lobo Mau?


Muito se fala sobre o foro privilegiado para detentores de mandato eletivo. Parlamentares são os que detém para si a gama maior de privilégios, pois podem lucubrar verdades factoides e ferir a honra e a dignidade dos cidadãos comuns sem que, por isso, sejam contestados judicialmente – como chamar os desafetos de bandidos, por exemplo. 

Os mandatários de cargos do Executivos nos três níveis são alvos da nossa constante irritação por tudo o que nos falta ou nos é tirado em nome da escassez de recursos ou da “necessidade” do aumento de impostos – bandeira essa com que o todo-poderoso ministro da Fazenda nos ameaça a cada palestra.

A Internet – essa nova “casa” (da mãe-joana) instituída em âmbito mundial – deu voz aos que, até vinte anos atrás, não sabiam onde dizer nada, onde reclamar de nada. E, com isso, nota-se que o repúdio à classe política, hoje, está se tornando uma nova unanimidade.

Dois dos juízes do maior patamar da Justiça – Teori Zavaski e Edson Facchin – foram além da letra metálica da Lei e feriram seriamente o Legislativo. O primeiro afastou do cargo e mandou prender um senador; o segundo afastou do cargo e limitou drasticamente os movimentos de outro senador – mas somente o primeiro teve, efetivamente, seu mandato cassado e suas vantagens ceifadas drasticamente. Já o segundo mereceu o retoque caprichoso de um terceiro alto magistrado, Marco Aurélio Mello. Ele “corrigiu” o “abuso” (não usou essa palavra nem se referiu diretamente a Facchin, mas não foi necessário) do colega e, ao “aplicar a lei” em respeito “aos votos do povo”, embasou seu discurso em exaltação aos méritos (?) políticos e pessoais do neto de Tancredo.

Se Facchin pecou em sua decisão, o bom senso sugere que a questão poderia ser corrigida no colegiado – ou seja, na apreciação pelo plenário de 11 ministros, e não na contestação pura e simples de um de seus iguais. Ou será que, também lá, uns são mais iguais que seus iguais?

Há incontáveis acusações contra a cúpula do PT, partido que se rege não por essa cúpula, mas pelas orientações autocráticas de um só líder. O juiz Sérgio Moro condenou o tesoureiro Vaccari, mas o regional o absolveu, limpando-lhe totalmente a ficha. Parece que o prêmio não foi bem absorvido na mídia ou nos comentários das redes sociais, mas é um indício de perdão geral para os petistas – e, pelas novas notícias, também aos do PMDB, do PSDB etc.

Fala-se que Lula, hoje, torce para que Temer continue no cargo – ele seria um anti-herói, um presidente que tenta emplacar medidas antipáticas, antipopulares, e assim pavimentar o caminho de seus adversários. Acredito, também.

A popularidade de Michel Temer, na faixa de 7%, é uma das mais baixas de que se tem notícia em todo o mundo. Ele não suportaria sequer o boato de uma consulta popular, agora. O Brasil carece de líderes. As duas casas do Congresso, as 27 assembleias estaduais e as mais de cinco mil câmaras municipais do país colecionam fatos e atos criminosos contra si – e há o consenso de que nenhuma delas escapa a uma auditoria.

O mais triste é saber que a cara de pau, hoje, não tem limites. Antes, há algumas décadas, havia um ligeiro pudor até mesmo entre esses corruptos que deixaram o seu legado para os filhos e netos (as oligarquias são as mesmas sempre, transmitem-se de pai para filho e, não raro, agregam novos segmentos familiares porque os casamentos existem para isso também). O triste é constatar que antes era tudo igual, mas o populacho não tinha acesso às informações.

E ante tudo isso, ainda há quem venha, no turbilhão de tantas más notícias, pregar a honestidade dos ditadores.

Isso é pior do que acreditar no Saci Pererê.


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Luiz de Aquino é escritor de prosa e verso, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, junho 24, 2017

Leodegária, a primeira poetisa de Goiás

Leodegária de Jesus, sob o crayon do mestre Amaury Menezes.


Leodegária de Jesus - II


Recentemente, a professora e poetisa Darcy França Denófrio conclamou-me a insistir em divulgar a poetisa Leodegária de Jesus, caldas-novense como eu, pioneira em Goiás no ofício dos versos e a primeira goiana a publicar livros de poesia (1906 e 1928). Lembrava-me de uma crônica... Ah!, é de fevereiro de 2013 e transcrevo-a aqui:


Cecília Meireles proclamou-se poeta, aplicando o masculino como genérico ou comum de dois, ao versejar 

Eu canto porque o instante existe 
e a minha alma está completa. 
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

 (Motivo, o poema). Não sei se a autora de Canteiros (os dois poemas ganharam músicas de Fagner) valeu-se apenas da liberdade poética para manter o ritmo e valer-se da rima, ou se, ao chamar-se de poeta, levantou uma bandeira feminista. O fato é que muitas poetisas, poetas e críticos de ambos os gêneros, em todo o Brasil, adotaram a forma.

 Leila Micolis poetizou, a respeito de si mesma: 

Poeta. 
Que em poetisa 
tudo mundo pisa.


Darcy França Denófrio, poetisa e pesquisadora

Quero contar aqui de uma poetisa goiana do Século XIX, Leodegária de Jesus. Nasceu em Caldas Novas, cerca de 100 dias antes que substituíssem o Império por esta República confusa que temos agora. Por isso, e porque a minha terra natal ainda não fora emancipada, não existe registro de seu nascimento lá, e os livros da paróquia tomaram rumo incerto. Ela própria é a fonte que afirmava ser caldas-novense, como o poeta Delermando Vieira. E a professora Darcy França Denófrio é a maior estudiosa – portanto, autoridade indiscutível – sobre a vida e a obra da primeira poetisa de que se tem notícias em terra goiana.

Leodegária foi também a primeira mulher a publicar livro em Goiás – Coroa de Lírios, em 1906 –, quanto tinha apenas 17 anos (incompletos). E ao lançar seu outro livro, 22 anos depois – Orquídeas –, nenhuma outra mulher o fizera, também! Outra poetisa goiana surgiu em livro somente em 1954 – Regina Lacerda, com Pitangas.

As poetisas, ou mulheres poetas, despontaram p’ra valer, em Goiás, a partir da década de 60 do século passado, especialmente no Grupo de Escritores Novos – Yeda Schmaltz, Edir Guerra Maragoni, Maria Helena Chein – e muitas outras, entre elas a própria professora Darcy. E já na década seguinte o preconceito de gêneros era um item a desconsiderar-se solenemente – afinal, vivia-se a chamada “revolução sexual” advinda dos ventos pós-guerra na segunda metade dos anos quarenta, o rock and roll mudava costumes, a conquista espacial reforçava o avanço tecnológico e a pílula anticoncepcional oferecia uma nova era.


 
Basileu Toledo França,
Esses avanços, entretanto, não favoreciam a memória. As inovações – coisas que encantam os moços – contribuem para o esquecimento dos feitos anteriores: costumo dizer que quando jovens pensamos que Deus criou o mundo no dia em que nascemos. Leodegária é citada na obra de Gilberto Mendonça Teles – A Poesia em Goiás (1964). Depois, foi a vez de Basileu Toledo França (escritor, pesquisador - foi membro da Academia Goiana de Letras) publicar Poetisa Leodegária de Jesus (1996). Esse livro coincide, em sua feitura e publicação, com o incansável trabalho de Darcy, que me presenteou com três obras muito especiais: um exemplar de Orquídeas (1928, já citado; a grafia da época é Orchideas); Letras em Revista (do ICHL/UFG, Cegraf, 1992), em que se acha um belíssimo ensaio de sua lavra: Entre “Lyrios” e “Orchideas” o Pássaro Ferido); e sua obra Lavra dos Goiases III – Leodegária de Jesus (Cânone Editorial, 2001).

Fica patente que, dos esforços de Darcy França Denófrio, a obra e a memória de Leodegária – a mulher mais importante de Caldas Novas e uma das mais expressivas figuras goianas de todos os tempos – começam a ser notadas na vida acadêmica brasileira. É a justiça dos tempos acontecendo – mas, há que se dizer, graças ao empenho hercúleo de uma Quixote de saia (sem desmerecer o empenho feminista, mas sobretudo exaltando a garra e a tenacidade femininas).


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Luiz de Aquino é membro da Academia Goiana de Letras


De novo - o jeito de se fazer crônica

A crônica, modo de fazer.


(Republico esta crônica, escrita há quase dois anos, para atender ao pedido de um bom amigo)



Escrevo neste sábado, 31 de outubro, em 2015. Estou nas primeiras semanas de uma nova idade, muito feliz por ter vencido a surpreendida década dos 60 e, pelo óbvio, chegar à marca dos 70. Portanto, sou um septuagenário que dá graças a Deus e aos competentes anjos que tão bem me guardaram para atingir este feliz estágio.

No dia anterior, dia 30, por convocação da mui querida Maria de Fátima Gonçalves Lima, coordenadora do Mestrado em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, participei de uma mesa-redonda para falar de crônica. Comigo, o guru Luiz Augusto Paranhos Sampaio, um homem de muitos títulos de professor (Português, Francês, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Literatura Francesa, algumas disciplinas de Direito no ensino superior, vereador e presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Subprocurador Geral da República, assessor de destacados governadores e ministros etc. e tal, tal e tal! E também a poetisa e cronista Maria Lúcia Félix, que entre suas referências pessoas, acrescentam-se as ligações sanguíneas com uma nobilíssima família de letrados (o pai Domingos, os tios Aída, Afonso e Manoel – respectivamente crítico literário, contista, poeta e compositor, mas todos eles com incursões nos demais gêneros literários – referi-me aos que mais se destacaram em cada um deles).

Falamos para uma plateia de estudantes e professores da PUC, sob a mediação do jornalista (e mestre e doutor em Letras) Rogério Borges. O colega, que por muitos anos atuou em O Popular, sempre com destaque na cobertura literária, é também professor na PUC. E em cada um de nós a alegria de discorrer sobre o ofício da escrita e o inexplicável prazer da crônica, da concepção, escrita, publicação e até a leitura, eis que somos todos dedicados leitores dos que registram o quotidiano e suas impressões várias.

Uma das mais indagadas questões ao cronista diz respeito à escolha dos temas. Acontece, às vezes, que algum leitor nos sugira ou mesmo peça algo sobre determinado assunto, mas até mesmo essa sugestão ou pedido implica não um desejo de ver o tema publicado – mas especialmente a opinião do escriba (Jô Sampaio, excelente cronista, além de poetisa, professora, crítica literária e contista, não gosta deste termo, acha que enquadra o escritor num time de maus escrevedores – mas acho eu que isso não nos diminui, não...). E é a opinião do escritor de sua escolha – razão porque sempre atendemos com alegria.

O ponto alto do nosso encontro ficou por conta justamente do meu confrade acadêmico Luiz Augusto P. Sampaio. Ele estreou no gênero em 1958. Foi ele o primeiro cronista de Goiânia a publicar um livro de crônicas e o fez num elevado respeito à jovem capital, pois o seu livro teve por título (e cenário) justamente o ponto alto da vida sócio-política de então: “Café Central”. 

Em Goiânia das primeiras cinquenta décadas, o Café Central (esquina da Rua 7 com a Avenida Anhanguera) estava para a capital como o Vaticano para Roma. Em lugar de tentar definir isso, sugiro ao leitor que procure ler esse livro, que saiu a lume em 1964 (há 51 anos, pois!) mas tem segunda edição publicada na Coleção Goiânia em Prosa & Verso, que era realizada pela Prefeitura mas o atual prefeito demonstrou seu carinho para com as Letras e a História encerrando sua existência de modo arbitrário, como uma confissão de ignorância intelectual. 

Luiz Augusto teve o mimo, ou o capricho, de delinear uma classificação para as crônicas, e as intimistas (e piegas) foi o degrau da escala (ou escada) que mais me intrigou. Sim, que a crônica, tida por acadêmicos de menor alcance de inteligência como um “gênero menor” ou mesmo um “subgênero”, é um segmento da escrita que resulta na narrativa curta e leve, muito próxima do conto – mas este pede mais profundidade ou peso – e praticada por quem tem, no mínimo, uma forte sensibilidade ante a história, o quotidiano, o social e o psicológico. Ou seja, não é para qualquer um! Conheço bons poetas e contistas aqui mesmo entre nós que se dobram de inveja dos que a praticam – e não o fazem por total incompetência, por lhes faltar a sensibilidade mínima e, em alguns casos, mais ainda, a verve poética.

Ninguém é bom cronista se não for, ao menos no íntimo, um bom poeta.

E aos incautos e precipitados, eu afirmo, com o coro dos de bom-senso: não existe gênero menor. O que existe – no romance, na crítica, na poesia, no conto e na crônica – é escritor não qualificado.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, junho 10, 2017

Mulheres de versos



Gilberto Mendonça Teles, 56 anos de imortalidade na Academia Goiana
de Letras.





Mulheres de versos



Uma festa de prazer e justiça – a sessão da Academia Goiana de Letras em homenagem ao poeta e crítico literário Gilberto Mendonça Teles, filho de Bela Vista de Goiás (sim, não é só Geraldinho, o contador de causo, que abrilhanta a pequenina urbe nas cercanias de Goiânia), estudante e mestre em Goiás e referência de destaque internacional, com moradia no Rio de Janeiro, a eterna Belacap.

O mais destacado dentre os intelectuais goianos vivos está no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, expulso deste Planalto Central por força das perseguições do sistema de repressão da ditadura, acionado – sem dúvida – por falsos amigos, colegas invejosos.

Profa. Dra. Fátima Lima, uma das palestrantes,

O mal que lhe quiseram fazer transmudou-se em benefícios imensuráveis. E aquele moço que, em 1961, empossou-se imortal na árcade goiana, é hoje o nosso decano. Para homenageá-lo, reunimo-nos (seus confrades e amigos), com uma expressiva participação de amigos literatos e mestres das letras.

GMT, este cronista e o prof. José Fernandes, outro palestrante da noite na AGL.

Gostei particularmente da manifestação da poetisa Beth Abreu, editora, há alguns anos, da Oficina Literária que se dá todos os domingos, com poemas e ilustrações por notáveis artistas. Membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), Beth Abreu lembrou que GMT é, também, por escolha daquela confraria feminina, o Príncipe dos Poetas goianos – e, nesse momento, a presidente Leda Selma, da Academia Goiana Letras, reagiu com inefável felicidade:

– E as princesas?
Escritora Leda Selma, presidente da AGL.
Isso disparou na minha pobre imaginação uma fila bela e expressiva, puxada pela primeiríssima poetisa goiana, a caldas-novense Leodegária de Jesus, pouco lembrada por tantos do meio das letras e ignorada pela mídia, bem como pelas escolas.

Findo o ato solene, puxei de lado a querida confreira Beth Abreu e lhe sugeri, com um monte de palpites mais, que se institua uma premiação às poetisas goianas com o nome da autora de Coroa de Lírios (1906) e Orquídeas (1928). Afinal, esses dois livros da lavra de Leodegária são os primeiros na hoje imensa lista da produção poética das mulheres goianas. A ela seguiram-se Regina Lacerda (1954) e Yeda Schmaltz (1964) – e as demais seguiram-lhes as pegadas.

Disse-lhe mais – que leve meus pitacos, aprimorados pela sua cuidadosa capacidade criadora, às confreiras aflagueanas. Antevejo os louros legítimos às poetisas de ontem, mas sobretudo e especialmente, o reconhecimento temporal às mulheres (não são poucas, não!) que enfeitam nossas vidas com seus versos.



Poetisdas Beth Abreu e Rosy Cardoso com Gilberto Menonça Teles

Grande será, obviamente, a alegria das poetisas conterrâneas, as de nascimento e as adventícias. E são senhoras da minha geração, mescladas às moças de ontem e anteontem, bem como as meninas que despontam com seus conceitos atuais da poesia – a gente as vê nas escolas, nas livrarias, nas bibliotecas... E muitas são as mulheres já portadoras das cãs do tempo (quase sempre cobertas com as tinturas que também lhes dão encantos) que se demoraram a revelar-se autoras, além de musas.

Que a presidente Alba Dayrell, da Aflag, acolha esta minha humilde ideia, que ganhará o primor dos tratos de Beth Abreu, e que também a nossa AGL, capitaneada pela também poetisa Leda Selma, irmane-se às autoras membros da Casa de Rosarita, Nelly e Ana Braga para, então, promovermos algum certame ou evento sob a tutela imortal de Leodegária de Jesus e possamos, a cada ano ou biênio, sei lá, eleger as princesas dos versos nesta terra dos goiases!


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.