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domingo, dezembro 04, 2016

De dores e livros

Os nossos livros: Família Jaime/Jayme, de Nilson
Jaime, e os gêmeos Amor em Dose Dupla, de Iuri
Godinho e Luiz de Aquino.



De dores e livros


Angústia e ansiedade são, sem qualquer dúvida, os sentimentos reinantes no meio político desta Nação. Estou seguro do que digo, no que tange ao lado passivo da política – o eleitor – nos intervalos de dois anos entre uma e outra votação para eleger um bando de párias que nos aprecem filhos da Pátria, mas...

Bem! O certo é que vivemos estes dias que nos abalam o emocional desde os tempos da campanha presidencial de 2014: de um lado, a incompetência comprovada tentando ficar – e ficou; do outro, a dúvida por feitos nababescos e gastos idem, aliados aos comentários sobre hábitos nada ortodoxos ante o que esperamos de quem se habilita para presidir o Estado, gerenciar o País, ser o elemento de confiança da Nação.

A semana mal começada sacudiu-nos em comoção com o terrível desastre que, ao que tudo indica, não foi acidente, mas a infindável crônica das mortes anunciadas. Um piloto empresário, antes militar, sediado em pátria de Evo, certamente simpático e envolvente, usando de meios que arriscamos imaginar, habilitou-se como preferido por algumas equipes de futebol desta América do Sul. Sugere-se que ele seduzia pessoas de determinados ambientes para conseguir contratos.

De repente, a Chapecoense se tornou mais notícia que o Corinthians e o Flamengo; de repente, a pequena Chapecó tornou-se a meca do futebol mundial; de repente, emocionamo-nos e todo o mundo se emociona com o que vimos acontecer em Medelín. E de repente, não mais que de repente, aconteceu o que todos temíamos – mas esperávamos. Os facínoras que elegemos para a Câmara Federal fizeram outro desastre.

Em que aqueles 300 e tantos deputados se diferem do piloto assassino da La Mia – a empresa de uma só aeronave, com sede na Bolívia e atendendo, de modo canhestro, clientes brasileiros? Cada deputado, desde o que apresentou aquelas malfadadas e espúrias emandas à proposta do Ministério Público até cada um dos que votaram a seu favor emendas, cada qual é um piloto Alejandro Miguel Quiroga.

Escrevo de véspera para que este texto saia no domingo, no Diário da Manhã. Neste domingo, é certo que acordo temeroso, preocupado com acontecerá no Brasil nas manifestações deste 4 de dezembro, pois não temos a conduta dos americanos que, em seus protestos, limitam-se a conduzir cartazes e cantar refrãos que traduzem indignações. Nossos protestos descambam-se para a baderna – o que a opinião pública repudia, a despeito legitimidade da causa.

No contraponto destas más-novas, vivi dias de intensa alegria ao mesclar a tristeza nacional com feitos do meu feitio – quero dizer, livros. Ao lado do meu amigo de infância (a dele, que é duas décadas mais jovem) Iúri Rincon Godinho, lancei Amor em Dose Dupla. Ou ele lançou Amor em Dose Dupla ao meu lado. É que, por ideia dele, assim denominamos, como perfeitos xarás, nossos novos livros de poemas sob a temática do amor e dos hormônios do sexo (quarta-feira, 30/11).

As capas, concebeu-as Alexandre Liah, artista de ponta: um corpo nu de mulher, que, dividido ao meio, foi aplicado em nossos livros, cabendo-me a parte inferior, posto que Iúri preferiu os fartos úberes. Nossos livros, a módicos 50 reais os dois exemplares, ou R$ 30 por um, estão à venda na Contato ( 62 3224-3737); ou comigo mesmo.

O dia seguinte, primeiro de dezembro, foi o da festa da Família Jaime/Jayme, de berço pirenopolino, expandida por todo Goiás (de sempre, contando o Distrito Federal e o Tocantins), Minas, Rio de Janeiro, São Paulo e todo o Brasil, além de meio mundo! Por esses cantos espalham-se os Jaime, Jayme e outros nomes consanguíneos, como Rattes, Mendonça, Lopes, Pina, Siqueira etc, etc. Loas ao autor, Nilson Jaime!

Que as próximas horas, bem como os próximos dias e meses, sejam de paz e juízo. Que os calhordas a que temos de dizer “excelências” se toquem, que se ajeitem e, principalmente, que se danem nas mãos da Justiça que eles, responsáveis pelas maiores mazelas, querem agora incriminar.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Família Jaime / Jayme

Comendador e padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, o patriarca.

Uma saga, muitas grafias

Jaime ou Jayme, uma só 

família e muitas linhagens


 Luiz de Aquino, especial para o DM


Enfim, o dia! Neste 1º de dezembro de 2016, vem à luz o livro FAMÍLIA JAIME/JAYME – GENEALOGIA E HISTÓRIA, de Nilson Jaime.

São 1,148 páginas. Capa de Luiz Gonzaga Jayme de Oliveira.
Depois de 16 meses de trabalho ininterrupto, em viagens e visitas, contatos e consultas, pessoalmente ou por telefone, especialmente o celular, e muitos e-mails trocados (há uma estatística, nesta página, em box), cerca de oito mil pessoas biografa- das, pesquisas em livros e internet, o autor Nilson Go- mes Jaime (literariamente, Nilson Jaime) fechou-se, nas últimas semanas, nos basti- dores da gráfica, isto é, no trabalho de edição da obra, que se concluiu com mais de 1.100 páginas em um só volume.

Nilson Jaime, o autor reunido com primos, coletando dados.


O engenheiro agrônomo, mestre e doutor, transmudou-se em pesquisador, historiador e genealogista para dar segui- mento à obra que o encantou no albor da juventude – Famílias Pirenopolinas, de seu parente Jarbas Jayme, em edição póstuma empreitada por seu filho José Sisenando Jayme, em 1973.

Nilson Jaime achou, talvez, um tanto tímida a abordagem da família Jaime (que, na segunda geração, começava a adotar o Y em alguns registros). Após a leitura, procurou conhecer pessoalmente José Sisenando Jayme para melhor se informar. Notou, por exemplo, que da segunda mulher do genearca coronel João Gonzaga Jaime de Sá, registrou-se, na fabulosa obra que o inspira, somente os nomes dos filhos, mas não se cuidou da continuidade dessa ala da descendência do “primeiro Jaime” – ou “Vô Jaime”, como a família se refere a ele.

Coronel João Gonzaga Jaime de Sá – o
primeiro Jaime.


Com o passar dos anos, a curiosidade e a vontade de continuar a obra só fez aumentar. Teoricamen-te, omitir a descendência de Leocá-dia Pereira era ignorar cerca de me-tade daquela descendência, pois o segundo casamento rendeu-lhe prole maior que o primeiro. A motivação, pois, é a que define o autor: resgatar os escritos de Jarbas Jayme e não deixar que se perdessem os dados publicados quanto a esta família. E suprir lacunas deixadas por Jarbas Jayme, como a linhagem afrodescendente.

Leocádia, que fora escrava, viu-se livre por iniciativa de João Jaime e tornou-se esposa do viúvo, ainda que os costumes de então lhes impedissem a união religiosa – e, posteriormente, civil. Este deve ser o detalhe que despertou Nilson Jaime a pesquisar incansavelmente toda a ramificação dos Jaime (e Jayme) que, a partir de Pirenópolis, radicam-se em Rio Verde e Palmeiras de Goiás (que já se chamou Alemão, Palmeiras e Mataúna).

Em poucas décadas, os Jaime e Jayme estariam também em Anápolis, teriam passagens pela antiga capital, alguns escolheriam Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo (capital) e Ribeirão Preto, marcando presenças em vários outros municípios brasileiros.

A construção da nova capital de Goiás trouxe Jaime/Jay-me também para Goiânia. Em seguida, a família seria  identi-ficada também no novo Distrito Federal, Brasília.

Desde que o mundo se tornou a “aldeia global” de que nos falava Marshall McLuhan, os Jaime e Jayme começaram a se espalhar também pelo mundo. A nova hégira coincide, ou tem excelente veículo justamente nisso, com as facilidades da formação acadêmica. Nas últimas décadas, muitos foram os que concluíram sua formação escolar com vistas a obter melhores condições profissionais. Em pouco tempo,  gradua-ção era pouco e as especializações surgiram, bem como as titulações mais elevadas do mundo acadêmico. Muitos des- cendentes alcançaram títulos de mestres e doutores e, consequentemente, imiscuíram-se no mundo das pesquisas e do ensino de graus elevados.

Hoje, o nome Jaime, em sua forma original ou com o pomposo Y, manda notícias de todos os cantos do mundo. Ou seja, podemos parafrasear o dístico britânico dos séculos anteriores, segundo o qual o sol não se punha jamais sobre terras do Império: O sol não se põe sobre o nome Jaime /Jayme.

A atitude do autor, Nilson Jaime, agora, é aguardar as críticas e comentários para, numa provável segunda edição, corrigi-las. O que mais sugere, porém, essa obra, é a conti- nuidade dos registros. Espera-se, também, que descendentes dos demais filhos do patriarca, o comendador Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, padre católico, jornalista, professor e político, que gerou outros filhos de sobrenomes igualmente ilustres e marcantes na vida pública (política, letras, artes, música, direito, medicina e tantos outros segmentos), sejam estimulados e tragam, também, suas histórias e genealogia.


   


 BOX 1 - Família Jaime/Jayme em números
Número de páginas: 1.148, equivalente a três livros de 380 páginas; 55.000 linhas; 15.000 parágrafos; 600.000 palavras; 400 fotografias; 8.000 biografados; 16 meses de trabalho; 5.760 horas de trabalho; 1.200 telefonemas (com duração de 10 minutos a 1 hora); 1.000 e-mails recebidos; 40.000 km rodados em automóvel.
 Período abrangido: 500 anos (1509 a 2016).
 Número de linhagens: 24; maior linhagem: Mendonça (980 membros ou 1.600 incluídos os cônjuges).
Maior número de filhos:
a) Major Frederico Jayme (de Rio Verde): 24 filhos, assim como o genearca, Coronel Jayme;
b) Sizenando Jaime: 23 filhos, com duas mulheres;
c) Maria da Conceição Lopes, 19 filhos, com um só marido.
Cidades com maior número de descendentes:
1) Goiânia
2) Pirenópolis
3) Anápolis
4) Rio Verde
5) Palmeiras de Goiás
6) Belo Horizonte, MG
7) Brasília, DF
8) Ribeirão Preto, SP
9) Uberlândia, MG.

FORMAÇÃO ACADÊMICA
Cerca de 88 mestres, doutores e pós-doutores.
POLÍTICA
Destaque:
- Luiz Gonzaga de Camargo Fleury: Membro da Junta Governativa Estadual (1822-24) e Presidente da Província de Goiás (1837-39).

 Luiz Gonzaga Jaime - desembargador, senador; foi
o primeiro Jaime a graduar-se
Senadores
- Luiz Gonzaga Jayme (desembargador), Senador por três mandatos (1909-21);
- Leoni Mendonça (6 meses, 1974-75);
- Max Lânio Gonzaga Jaime (6 meses, 1988-89).
Ligação afim, por casamento:
- Marconi Perillo (duas filhas Jaime) e Ronaldo Caiado (dois filhos Jaime).
Deputados Federais:
- Iturival Nascimento: deputado estadual por duas vezes e deputado federal por quatro mandatos;
- Tullo Hostillo Gonzaga Jayme: Deputado Federal, 1917-20;
- Geraldo de Pina: duas vezes Deputado Federal (1963-66 e 1968).
Ligação afim, por casamento:
Nion Albernaz (quatro filhos Jaime).
Deputados Estaduais:
- Major Frederico Gonzaga Jayme, duas vezes intendente de Rio Verde e três vezes deputado estadual (1909-20); Dr. Genserico Gonzaga Jayme (1935-37); Ronaldo Jaime, Altamir Mendonça, Plinio D’Abadia Gonzaga Jaime, Frederico Jaime Filho: todos 3 vezes. Ainda: Kepler da Silva, Alcyr Mendonça, José Mendonça, Iron Jayme do Nascimento e Olímpio Jaime (Presidente da Assembleia).
Prefeitos:
Mais de 50 mandatos, em Pirenópolis, Palmeiras de Goiás, Anápolis, Rio Verde, Jandaia, Petrolina de Goiás, Silvânia, Niquelândia, Britânia, Vila Propício, em Goiás, Arapoema - TO, e Araçuaí - MG.
Música:
Leo Jaime, Fernando Perillo, Debora de Sá, Tainá Pompeu e Maestro Joaquim Jaime.
Esportes: Carlos Jayme (Medalhista Olímpico) e Oswaldo Mendonça Júnior (bicampeão mundial de Karatê-Do).
Professores: Universidade de Colúmbia, EUA: Prof. Ph.D. Carlos Gustavo Vasconcelos de Moraes; Padre Josafá de Siqueira: Reitor da PUC Rio; Fernando Gonzaga Jayme: Diretor da Faculdade de Direito da UFMG; Prof. Dr. Cristóvam Mendonça Filhos, Ph.D, professor da USP; Patrícia Gonzaga Jaime, com pós-doutorado, professora da USP.
Literatura e história: Jesus de Aquino, Jayme Jarbas e José Sisenando Jayme, entre outros.





 BOX 2 - O autor

Nilson Jaime com o neto Miguel
 NILSON GOMES JAIME - Bisneto do “Vô Jaime” (o genearca da família Jaime), natural de Palmeiras de Goiás (15/04/1962). Engenheiro agrônomo, Mestre (M.Sc.) e Doutor (D.Sc.) em Agronomia pela UFG. Fez seus estudos primários na Escola Paroquial São Vicente de Paula (1968-1972) e o ginasial no Colégio Estadual de Palmeiras de Goiás (1973-1976).

Foi jornaleiro em sua cidade natal (1971-75), dos oito aos treze anos, vendendo os jornais Correio Brasiliense, Folha de Goiaz e Cinco de Março, período em que iniciou a formação de sua diversificada biblioteca pessoal. Ainda criança, não dispondo de livros e enciclopédias em sua casa, montou acervo com mais de seis mil recortes de jornais e revistas, principalmente sobre História, Geografia, Filosofia, Música, Artes e Ciências. Esse acervo era muito procurado por colegas para pesquisas escolares, na década de 1970. 

Estudou no Colégio Estadual Professor Pedro Gomes (1977) e no Colégio Objetivo (1978-1979). Foi aprovado em seu primeiro concurso vestibular, aos 17 anos, na Universidade Federal de Goiás (UFG) (1980), fez política estudantil e lutou ativamente pela derrubada da Lei do Boi (Lei nº 5.465, de 03/07/1968), que reservava 50% das vagas nas Universidades Federais a filhos de fazendeiros.

Graduou-se Engenheiro Agrônomo em 1984, aos 22 anos. No mesmo ano de sua formatura (1984) foi aprovado em concurso público, tornando-se Professor (1985-88) das disciplinas Tecnologia de Produtos de Origem Vegetal (TPOV) e Tecnologia de Alimentos, nos cursos de Agronomia, Nutrição e, posteriormente (2002-03), Engenharia de Alimentos, da UFG.

Foi Editor de Agropecuária do jornal Diário da Manhã (1988), colunista da revista Campo & Negócios, de circulação nacional, e sócio fundador da Academia Palmeirense de Letras e Artes (Apla, 2005), onde ocupa a Cadeira nº 5, patronímico do genealogista Jarbas Jaime. Em 2 de julho de 2016, por sugestão dos acadêmicos Luiz de Aquino Alves Neto e Fausto Jaime, teve seu nome aprovado para membro da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (Aplam), empossado no dia 27/08/2016, na cadeira nº 9, patronímico do Maestro Silvino Odorico de Siqueira.


O autor tem três filhas: Raquel, Sarah e Déborah. E um netinho – Miguel Jaime Cardoso (n. 29/10/2015).

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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, dezembro 03, 2016

Itaney Francisco Campos (posse na AGL)

Itaney Francisco Campos

Academia Goiana de Letras empossa

novo imortal

Luiz de Aquino, especial para o DM

A presidente da Academia Goiana de Letras entrega o diploma de Membro Efetivo ao poeta Itaney Francisco Campos

Em Sessão Magna de Posse, como prevê seu estatuto, a Academia Goiana de Letras, sob a presidência da escritora Leda Selma de Alencar, empossou o novo membro do sodalício – o poeta Itaney Francisco Campos. Ele foi eleito para a Cadeira 37, que se vagou com o falecimento do dicionarista e pesquisador Mário Ribeiro Martins.

Membros da Academia Goiana de Letras

Desde julho, a sede da Academia Goiana de Letras passa por reformas. Em virtude disso, e sendo o novo membro da AGL desembargador, a solenidade aconteceu no auditório do Pleno do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás.
Em bela peça literária, o acadêmico Eurico Barbosa dos Santos enfocou a biografia e a obra do poeta e historiador que, naquele momento, acolhia nos umbrais da AGL. Contou de seus estudos e do ofício de juiz, de seus autores prediletos e de sua poesia, mas discorreu também sobre a Casa – não a edificação, mas a entidade Academia Goiana de Letras. Para tanto, viajou aos primórdios da fundação, em 1939. Falou do modelo que inspira as academias de letras no Brasil – a Academia Brasileira de Letras e a casa mater, ou seja, a Academia da França.

Eurico Barbosa discursou recebendo o novo imortal

Eurico Barbosa exaltou a qualidade literária do admirado homem de leis, leu um de seus poemas e avaliou, com propriedade, o peso sóbrio do juiz no fazer poético, bem como do homem poeta no ofício do julgamento.
De minha parte, como escritor e jornalista, ao me propor à elaboração de uma matéria desta natureza, dispenso os procederes de repórter e vasculho a memória e algum papel, seja jornal, seja livro. Deixo de expor aos leitores uma reportagem, mas oferto-lhes as minhas impressões acerca de uma figura humana, um magistrado da nossa Alta Corte de Justiça no Estado – o desembargador Itaney Francisco Campos. Esse jurista, que assim se formou e aprimorou, é, porém, poeta – e isto ele o é de nascença, teima e muita leitura. Soube dele, pelas primeiras referências, em tempos idos há três décadas, quando a Assessoria Especial de Cultura da Prefeitura de Goiânia, na pessoa de sua titular, profª Yara Araújo de Souza, possibilitou a edição de seu livro Notícias Históricas do Bairro de Campinas (1985). Depois, muito tempo depois, fui agraciado com seu volume de poemas Inventário do Abstrato (2009, Prefeitura de Goiânia / PUC Goiás / Kelps) e, por último, alcancei Orações no Templo da Justiça (2015, Gráfica e Editora Bandeirante).
O poeta Itaney Francisco Campos, ao discursar tomando posse na Cadeira 37
O poeta e magistrado Itaney Francisco Campos nasceu em Uruaçu, no centro-norte de Goiás antes do desmembramento do território do Estado de Tocantins. Filho do promotor e, depois, procurador de Justiça Cristovam Francisco de Ávila. É de sua lavra um excelente compêndio intitulado A Família Fernandes e a Fundação de Uruaçu – Reminiscências. E seu irmão Ítalo Campos é poeta, morador de Vitória e membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Sua presença tem sido constante nos eventos artísticos-literários da cidade e, não raro, também no interior. Sua poesia é alvo preferido de tantos os que dela tomam conhecimento.



Leila Regina (mulher) e Raquel (filha), figuras proeminentes
na carreira e na obra do novo acadêmico.
A fala do novo acadêmico

Sugere a tradição acadêmica que o empossando discorra sobe o Patrono de sua Cadeira e, também, o último ocupante – mas é também da tradição discorrer sobre antecessores remotos. No caso da AGL, a Cadeira 37 tem por patrono Crispiniano Tavares, engenheiro e escritor, baiano de nascimento, formado pela Escola de Minas de Ouro Preto e que atuou por tempos em Goiás, falecendo em Rio Verde. Sua obra (contos) só foi publicada após sua morte precoce (envolveu-se num romance com a mulher de um auxiliar; o flagrante resultou na agressão do marido traído, que feriu de morte o rival; este, mesmo ferido, buscou uma arma e matou a tiros o agressor, falecendo horas após).
A Cadeira 37 teve, porém, apenas um ocupante, o Promotor e Procurador de Justiça Mário Ribeiro Martins, autor de vasta obras enciclopédicas sobre academias goianas e seus membros. Itaney Francisco Campos fez o histórico de seu patrono e o panegírico de seu antecessor, “como manda o figurino”, mas foi farto ao expor sua satisfação e seu agradecimento pela nova situação. E não esqueceu de valorar o empenho e a solidariedade em família, em especial de sua mulher, Leila Regina, e Raquel, sua filha e também escritora – sem, contudo, esquecer de se referir aos filhos distantes: Marlon, diplomata, servindo em Maputo (Moçambique), e Matheus e Ana Laura que, com o primeiro neto, Lauro Wollmer, vivem em Hamburgo (Alemanha).

Um poema do acadêmico Itaney Francisco Campos


Expressão espontânea de

 boas-vindas


Aidenor Aires, poeta e acadêmico da AGL, aposentou-se na seara das leis, tendo sido, tal como o pai de Itaney, Promotor e Procurador de Justiça. Apreciou com alegria incontrolável a festa de ingresso do irmão de versos Itaney F. Campos na Casa Colemar Natal e Silva. Eis o que ele postou nas redes sociais, horas após a solenidade: 

Aidenor Aires, poeta
e acadêmico.

"Entre tantos eventos dolorosos, entre tantas agressões à sensibilidade e às boas criações humanas, ontem, de tarde à noite, participamos de um momento de beleza e exaltação da vida. Foi a posse do poeta Itaney Campos na Academia Goiana de Letras. Itaney tem uma vida bem construída, educação e princípios invejáveis.
Em todo o tempo de nossa convivência, as vezes em que estivemos próximos sempre foi para mim de enriquecimento com sua inteligência e humanidade. É um escritor preocupado com a carpintaria do poema, adestrando versos e disciplinando palavras. Não obstante haver críticas (fundadas) às academias, algumas vezes o sodalício acerta em sua escolha. Este é um momento em que a AGL acerta o alvo.
Ytaney soma. Agrega seus atributos de pessoa excelente e de intelectual digno. Mais diria sobre ele. Longe de mim a rasgação de seda. Por isso, sua recepção foi concorrida no auditório do TJ, e depois, em um descontraído jantar, sem pompa ou ostentação, mas com a acolhida delicada e cortês dele e de sua família. Até seus colegas de profissão, que ali compareceram, deixaram suas sisudas togas para um momento de amável confraternização - alguns juízes e desembargadores.
Conheço todos que lá estiveram. Não citarei nomes para não dar à minha memória estragada a oportunidade de me pregar mais uma peça. Todos ficamos felizes com a festa de Itaney. Tenha ele vida longa. Não confie na imortalidade acadêmica. Produza muito. Produza bem. Assim se cava a longevidade literária”.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.





segunda-feira, novembro 28, 2016

A História e Fidel

A História e Fidel


Em Cuba ou na Mesopotâmia, na Gália ou no norte da África (depois, em todo o continente), nas lutas de independência e nos golpes sazonais (a Bolívia, por exemplo, tinha, até poucas décadas atrás, média de um golpe a cada ano-e-meio), nenhuma mudança se fez, na História da Humanidade, sem muitas perdas, muito derramamento de sangue. Até mesmo o símbolo maior do pacifismo Mahatma Gandhi encerrou seus dias de luta pacífica morto por um tiro.

Fidel Castro foi duro e cruel, sim, como soem ser todos os ditadores, mas sob a égide da democracia e "em defesa dela" muito se matou nestes tempos contemporâneos. Além do Vietnam, os líderes do Tio Sam inventam guerras onde as não houver, pois têm de assegurar os negócios de sua indústria bélica. Curiosamente, e até onde alcanço, sei de duas oligarquias que se anunciaram mas não se consolidaram na América – os Kennedy, da década de 60 dos século XX, e os Bush, belicosos da última década do século anterior e da primeira deste milênio.

Circula uma piadinha (inevitável, o ser humano tem várias reações ante qualquer fato) em que se diz que Fidel viveu suas nove décadas combatendo o capitalismo e morreu justo numa "black friday".

Circula também - e não a título de piada – que Bush (o filho, que prefiro chamar de Bushinho), por ter sido eleito com minoria de votos (fato que se repete com o atual maluco da vez, o Trump), teria negociado com Bin Laden aquele terrível atentado de 11 de setembro, em 2001, pois ele não tinha base popular para manter-se no governo e precisava fomentar os negócios de guerra. Ora, são muitas as contradições sobre aqueles atentados, o que se falou sobre o avião que foi lançado contra o Pentágono, só para citar uma das contradições, parecia não ter asas, pois o ponto atingido foi bem menor que a envergadura da aeronave (como se um caminhão carregado de bombas fosse a causa real).

Por outro lado, quantas mortes cuja conclusão policial mostra uma causa simples e fútil – mas que atendem a interesses fundamentais dos adversários (ou mesmo inimigos) dos mortos? O fato é que muitas perguntas sempre ficam sem respostas no andar da História. A proximidade geográfica, mais o elevado poderio financeiro, militar e de espionagem da América foram tolerantes com Fidel por quase 60 anos – por quê? Lembremo-nos de que, no momento em que o sistema de espias dos irmãos-do-norte se cansou de brincar de gato e rato, Bin Laden e Muamar Al-Kadafi foram mortos – como também Saddan Houssein.

Ou seja: não era interessante, para a América (o país dos Estados Unidos), a morte ensaiada de Fidel Castro; melhor seria esperar a morte natural. Os motivos de bastidores, ah! – desses eu não busco sequer imaginar! Apenas lembro que o Brasil destes anos se incomoda com as mortes misteriosas de petistas que contestaram diretrizes da cúpula partidária – mas nós, brasileiros, omitimo-nos diante de mortes "do outro lado" que também deixam no ar mistérios irrespondíveis.


Ou não?

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Acadêmicos de Pirenópolis

Acadêmicos de Pirenópolis



Era uma vez, mas asseguro-lhes que não é fantasia, nem ficção. Era uma vez, nos primeiros meses de 1994, tempo feliz em que, entre nós, agiam – e eram muito ativos – notáveis como Maria Eunice Pereira e Pina, Wilno Pompeu de Pina e seu irmão Cristóvão Pompeu (o popular Pompeu, famoso por sua incansável atuação em defesa das artes e do folclore da cidade), Arnaldo Setti e outras pessoas especiais, como Nazian, Isócrates de Oliveira, José Sisenando Jayme, o casal Ita e Alaor Siqueira, José Mendonça Teles, Natália Siqueira... Ah, éramos muitos, mais de vinte, imbuídos numa tarefa advinda de um sonho: criar em Pirenópolis uma Academia.

A 16 de abril daquele ano, numa noite de muita alegria e música, festejamos, no restaurante do Hotel Quinta Santa Bárbara, o início de nossas atividades, cada qual já de posse de sua cadeira numerada (em algarismos romanos) e com seu respectivo patrono. A mim, coube-me por patrono, inevitavelmente, o maestro Luiz de Aquino Alves, meu avô paterno.

Faltava a posse, que se deu com outra festa, em meses do finalzinho do ano. Lamentavelmente, os professores Joaquim Gomes Filho e José Sizenando Jayme já não estavam mais entre nós (faleceram em intervalo de 12 horas, respectivamente, às 23h30min de 3 de outubro e 7h30min de 4 de outubro). Quando começamos, éramos 28 membros efetivos da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música. Nestes 22 anos, muitos faleceram e poucos foram empossados. Num trabalho dedicado, o presidente atual, escritor Adriano Curado, cuidou de ocupar as Cadeiras vazias e, neste novembro de 2016, contamos com 38 membros empossados, ou seja, há duas vagas a serem ainda ocupadas, o que se dará sob a publicação de edital, aceitação de candidaturas, votação em Assembleia Extraordinária e a subsequente posse.

Um feito brilhante, sob a liderança de Adriano Curado, sem dúvida, com a valiosa colaboração da diretoria, com ênfase para a acadêmica Aline Santana Lobo, diretora-secretária. Como é da tradição local – e não seria diferente em sua Academia de Letras, Artes e Música – à posse solene (com entrega do Diploma Acadêmico), seguiu-se um belíssimo sarau musical, com acadêmicos antigos e novos, acompanhados de grupos musicais da cidade, apresentando-se com o vigor que marca a vida cultural pirenopolina.

Os novos imortais da tradicional Meia Ponte / Pirenópolis, empossados em duas ocasiões a seguir, são (com suas Cadeiras e Patronos):

Posse em 27/08/2016 - João Guilherme da Trindade Curado - Cadeira XXXVII Patrono: Joaquim Pereira Valle; Laurita Vitoriano da Veiga - Cadeira XL Patrono: Marlene Fleury; Nilson Gomes Jaime - Cadeira IX Patrono: Silvino Odorico de Siqueira; Ramir Curado - Cadeira XXII Patrono: José Luiz de Campos Curado; Sérgio Pompêo de Pina - Cadeira XXXIX Patrono: Cloves Roberto Gomes.

Posse em 19/11/2016 - Celina de Pina Fleury - Cadeira XXVIII Patrono: Joaquim Xavier Curado; Débora de Sá - Cadeira XXXV Patrono: Sebastião Pereira; Demétrio Pompeu de Pina - Cadeira XI Patrono: Sebastião Pompêo de Pina; Jerônimo Romerito Ribeiro Forzani - Cadeira V Patrono: Antônio da Costa Nascimento; Ronypeterson Morais Miranda - Cadeira XXIX Patrono: Agesilau de Siqueira; Telma Lopes Machado - Cadeira XIII Patrono: Antônio José de Sá; Thaís Valle Brito Curado - Cadeira XXXVIII Patrono: José Abadia de Pina; Waldetes Aparecida Rezende - Cadeira XVIII Patrono: José Assuero de Siqueira.

E agora, a casa cheia como era o propósito, com uma excelente troupe de escritores de vários gêneros, artistas plásticos e artesãos, e ainda musicistas de vários instrumentos e ilimitada inspiração, os ânimos e a autoestima encontram-se elevados. Estamos prontos para oferecer à cidade o préstimo das nossas artes.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da AGL e da APLAM, dentre outras academias.

segunda-feira, novembro 14, 2016

Rompante desnecessário

Rompante desnecessário


A sociedade anda mal: omissa, alheia, depressiva, arrogante, desinteressada, rude, pagã, mal-educada... E esse é o resultado do mal-estar que assola os indivíduos da espécie – insegurança, medo, desconfiança, avareza, egoísmo, mesquinhez... Obviamente que há grupos organizados com grandeza de propósitos, grupos esses em que, felizmente, predomina o afã pelo bem-fazer, pelo desejo de interação e a força da solidariedade – princípios esses que norteiam a caridade (não a caridade soberba de quem apenas oferece esmolas, mas de quem quer ver a melhoria latente em cada semelhante).

O ser humano, aqui e alhures, perdeu o discernimento, não se constrange por ser medíocre e não se peja por ser apanhado em mentiras, haja vista o tom dominante nos meios em que o dinheiro e a política – as mais expressivas faces de poder – regem os destinos de quase todos.

Tem sido assim nas campanhas políticas dos três níveis de governos, no Brasil, nas relações interpartidárias da velha Europa, nos comitês esportivos que “fazem chover” nas Copas do Mundo e nos Jogos Olímpicos. E foi assim nas mais recentes campanhas políticas em quase seis mil municípios brasileiros, mas nada como se soube, se viu e se leu quanto à sucessão de Barack Obama, nos “isteites”.

A América (o país) parece bastante familiarizada com as falsetas praticadas por Republicanos e Democratas. Suas campanhas lembram grandes encenações, eventos do faz-de-conta holyoodiano (engraçado isso de se produzir uma palavra com a raiz da língua inglesa finalizada por sufixos do nosso bom e familiar português). – Uma pantomima!

Volto aos nossos cenários o ambiente brasilis, com os flagrantes das falsetas da campanha presidencial de 2014. Aprendemos naquelas várias séries de fatos, de ambos os pretendentes ao Palácio do Planalto, que não se constrange mais quando se é flagrado em mentiras que não convencem sequer uma folha de papel em branco, onde nós, escribas, forjamos emoções, criamos personagens e fatos, inventamos verdades (sim, porque criar verdades é ofício de autores literários, roteiristas e teatrólogos, mas os políticos têm nos suplantado nisso).

E surgem Cunhas, Renans, Jucás e Falcões a lançar na mídia – essa mesma que eles dizem odiar e culpam-na pelas mazelas que deles somente noticiamos – suas bravatas inaceitáveis pelos ouvidos que formam a opinião pública, mas que se unem às más intenções de seus pares e essas safadezas acabam se tornando leis, que o Judiciário se vê obrigado a aplicar.

Talvez estimulado pelos maus exemplos do presidente do Senado, o alagoano Renam, o secretário goiano da Segurança Pública insurge contra ações da Polícia Federal que quis ouvir policiais suspeitos de formar e integrar grupos de extermínio o que o dr. José Eliton desmente com firmeza e fervor. Tudo bem, pode não haver grupos – mas há pessoas exterminando pessoas, mas as polícias estaduais não sabem quem são as que exterminam (sabem, sim, quem são os mortos).

Reação como aquela de veemente defesa de um oficial sob suspeita constrange-nos – a nós, goianos, que nos empenhamos por demais em melhorar esta terra, esta sociedade e a nossa imagem, tão avacalhada lá-fora. Recordo-me do ministro Henrique Hargreaves, da Casa Civil do presidente Itamar Franco, que se desligou espontaneamente do cargo para permitir a livre investigação.

O coronel comandante do Policiamento da Capital, pelo que se sabe, foi absolvido em alguns processos, mas outros há em andamento. Imagino que seja do interesse dele responder – e livrar-se – das demais suspeitas, sim! Mas a defesa ostensiva, com tom de mero corporativismo, isso não cai bem na opinião pública, sobretudo quando a nação em peso deposita esperanças na Polícia Federal com uma das principais ferramentas para se limpar as instituições públicas.

Torço, como bom goiano e bom brasileiro, para que os nossos policiais militares indiciados pela Federal provem inocência e reassumam seus postos, precisamos muito deles. Mas gostaria de ver as autoridades de nosso Estado contribuindo para essa tão sonhada depuração. Ainda que haja, em todo grupamento humano – e as instituições policiais não estão isentas – uma faixa de 5% de profissionais incorretos, tais instituições merecem nosso respeito, sim, e espero que não se detectem mesmo grupos de extermínio em nossas polícias.

A defesa prévia, ao meu ver, não é um procedimento que vem engrandecer nossas autoridades.

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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, novembro 06, 2016

Carta ao tempo

Carta ao tempo

(Crônica escrita em 30/01/2009, mas que se despertou feito nova na minha lembrança. Saudade, sem dúvida).

Leitores amigos, já notaram como as pessoas se dividem pelo modo como olham as coisas e a vida? Sim, há os que veem passado em tudo, enquanto outros enxergam o futuro até mesmo nos desenhos rupestres. Alguém, mais bem-dotado que os comuns, disse que o fundamental é vivermos o presente, mas quase todos agem apenas em função do passado e (ou) do futuro; assim, deixam de se ocupar do presente, de viver o momento.

Conhecemos, ainda, muitas senhoras que, enviuvadas ainda nos verdes anos, enclausuraram-se em vestes escuras e sóbrias e escolheram envelhecer antes que lhe chegasse sequer a idade adulta em sua plenitude. Vejam aí, entre as amigas e parentes de suas mães e avós, e verão que não exagero. E mesmo entre os moços e adolescentes ainda vemos os que cobram de pais e mães viúvos uma castidade desumana.

Convenhamos: viver o presente nos dá mais chances de felicidade, e esta não é um ponto de chegada, mas uma viagem (mais coisas ditas por algum outro pensador, talvez anônimo; mas conheço bem uns dois ou três escribas famosos que não têm escrúpulos em se apoderar das falas alheias). Sofremos muito pelas dores do passado ou pela ansiedade ante o futuro. Enquanto isso, a vida passa, a fila anda e o dia amanhece outra vez, e outra, e outra...

Ao contrário dos que se vem nos jovens, olho-os e enxergo o futuro. Não quereria, para mim, a viagem de volta, pois sei que cometeria os mesmos erros, sofreria as mesmas dores e as angústias se repetiriam. O mesmo se dá em mim quando perambulo nas ruas de ontem, como as do centro de Goiânia, que aos poucos vai se tornando História. Aquelas ruas de comércio pouco e variado e moradias várias tornaram-se um bazar oriental, com as calçadas entupidas de produtos e transeuntes anônimos.

O centro, hoje, é ponto essencial de passeio para os que já atingiram os cinquent’anos. Nada de criticar a mudança dos hábitos, mas de curtir saudade com a convicção de que, para os moços, as lembranças se formam agora. Na Rua 4, a poucos passos da Avenida Goiás, encontrei Martônio, velho amigo dos nossos tempos moços nas Ruas 96 e 97, quando até o quintal do Palácio das Esmeraldas parecia-nos vulnerável, especialmente em tempo de jabuticaba. Vinha de par com o pai, Antônio Pereira, a quem fiz uma cobrança sincera: “Siô Antônio, que desaforo! O senhor não vai envelhecer?”. Não, não vai... Ele prefere transformar as lembranças em escritos que, brevemente, vão virar livro.

Cinco minutos de prosa boa, saudade e esperanças renovadas. Dá-me vontade de falar ao tempo, escrevo, então, esta carta ao tempo... Ou melhor, um poema à mulher de amanhã, escrito num tempo que também já vai longe. Só que, de novo, faço o passado viajar ao futuro, num jogo de ir-e-vir como passos de dança. Algo assim:

Se eu voltar a viver nos teus sonhos

Se eu voltar a viver nos teus sonhos,
é certo que chegarei sem pedir licença.
Será um chegar na noite,
sem silêncio e sem luar
porque nada mais senão nós dois
deve existir.

Será um sonho em que a dor
há de valer
na suprema intensidade
do calor que brotar dos corações.

E será um sonho
que nos fará acordar suarentos,
porque estaremos juntos
antes que o galo anuncie a madrugada.

Se eu voltar a viver nos teus sonhos
vou sentir a mudança no cheiro das manhãs,
lembrando o tempo das flores
nas mãos que me afagavam.

Será o tempo de rever noites
tão nossas / e recordar teu cheiro em mim
 — o cheiro único
da única mulher em minha cama.

(A mulher na minha cama,
de cheiro exclusivo
e carinhos só dela,
não trazia o feitio
das noites vazias: era a essência
da minha carência
e promete outra vez
renascer
quando eu voltar a viver nos teus sonhos).

Meus amigos, pai e filho, se vão, mas não nos despedimos. A tarde, sim, despediu-se no tempo, porque ela, a tarde, é única. A cada fagulha do sol ou cintilar de estrelas infinitas renovamos nossos passos, nossos olhares. Sinto que tudo virá outra vez, mas da mesma maneira como Heráclito definiu o rio e o homem.

Tudo se faz novo.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.