Domingo, Dezembro 06, 2009

Parque Carmo Bernardes

Parque Carmo Bernardes


Luiz de Aquino


Maestro Joaquim Jaime, regente da Orquestra Sinfônica de
Goiânia, na inauguração do Parque
.


Estive duas vezes, nos dias 27 e 29 de novembro, no Parque Carmo Bernardes, obra municipal que valoriza substancialmente o Parque Ateneu. Em ambas, fui acolhido com a gentileza do presidente da Agência Municipal do Meio Ambiente, Clarismino Júnior. A imprensa, alvo daquele primeiro encontro, a dois dias da inauguração oficial, noticiou com fartura os dados, imagino que só faltou o número de árvores existentes (as de replantio, certamente foram notícia).

Não me cabe fazer ressoar a estatística. Prefiro a análise emocional do cidadão anônimo e a emoção do poeta. Imaginem: privei da amizade de Carmo Bernardes, fiz dele meu exemplo a seguir, dei ouvidos a sugestões suas e candidatei-me duas vezes a uma vaga na Academia Goiana de Letras: na primeira, disse-me ele, iria lá votar em mim, mesmo doente, caso seu voto me fosse indispensável.

Vislumbrei que Isócrates de Oliveira me derrotaria e não insisti com meu ídolo. À vaga seguinte, não concorri; preferi ver Eurico Barbosa ascender à imortalidade e obtive dele apoio para a próxima ocasião, e essa veio-me de modo triste: faleceu Carmo Bernardes. E fui eleito para a Cadeira 10.

Em meus arquivos, encontro dezenas de textos em que cito o velho mestre. São passagens em matérias jornalísticas, crônicas e outros relatos. Resumo recordando que, quando lecionava no Colégio Estadual Dom Abel, entre 1968 e 1970, fui professor de três de suas cinco filhas. Isso nos aproximou e concedeu-me a liberdade de, declarando-me seu leitor, comentar os artigos, contos e crônicas de sua lavra publicadas no semanário “Cinco de Março”.

Eu e Clarismino, presidente da AMMA.


No dia do meu aniversário, este ano, enviei a Clarismino Júnior o texto que me foi pedido para ser inserido na lápide sob o busto do escriba patureba (sim: Carmo nasceu em Patos de Minas, mas veio para Goiás antes dos cinco anos de idade e tornou-se um dos nossos mais legítimos regionalistas). Costumava dizer-me ele que não era bom ficcionista, nem sentia falta do esforço da imaginação, pois a vida vista e vivida eram munição bastante para muitas vidas, se lhe fossem permitidas, de farta produção literária. E foi ele, certamente, dos mais ricos detentores de palavras e falas dos nossos camponeses.

Parênteses: explico aos mais moços a palavra “camponês”: é o mesmo que sertanejo, caipira ou roceiro. A expressão era relativamente comum no nordeste, mas no período democrático entre 1945 e 1964, surgiram por lá as tais “Ligas Camponesas”, um dos alvos dos golpistas da “revolução”, carimbadas pelos caçadores de bruxas como comunistas. Por ter sido proibida ao longo de vinte e tantos anos, a palavra caiu em desuso, apesar de sua bonita sonoridade.

Se Deus me der vida, escreverei ainda muito mais sobre Carmo Bernardes, além das minhas crônicas, meu discurso de posse na AGL e as matérias de jornais em que enfoquei o grande goiano nascido em Minas (aliás, são muitos e muitos milhares os grandes goianos nascidos em Minas... Minha mãe inseriu-se aí). Prefiro, agora, repetir o que escrevi para o busto de matuto letrado:

“Carmo Bernardes, intelectual profundo.

Carmo refutava o academicismo que “não mergulha”, aquele que “só faz análises de superfície”. É ele o escritor de todas as águas – as límpidas e as turvas, as profundas e as do espelho de céu e nuvens, as plácidas e as de cachoeira. Perfeccionista na linguística e na gramática, aplicava com maestria as regras do bem-escrever ao linguajar simples e vasto das gentes e lides do campo. Enfim, um homem denso e simples, rico e despojado.

Luiz de Aquino Alves Neto

(Sucessor de Carmo Bernardes na Cadeira 10 da Academia Goiana de Letras)”.

A população do Parque Ateneu e adjacências está feliz. E de parabéns. O mérito, porém, é das equipes do prefeito Iris, especialmente a do ambientalista Clarismino.

O busto de Carmo, a placa e eu, envaidecido pela

oportunidade de homenagear meu amigo e antecessor.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Fotoema de Sinésio

Sinésio Dioliveira é jornalista, professor de Língua Portuguesa e Literatura, poeta, cronista e alguns outros itens de realce, como excelente fotógrafo. Como se não bastasse fotografar, faz poesia; e como se fosse pouco poetizar, congela a imagem (ou o tempo).
Deliciem-se com esse "fotoema"de Sinésio. (L.deA.)






Dois poemas inéditos

Dois poemas meus, inéditos, foram postados pelo jornalista Nilson Gomes em sua coluna no blog do Senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Copiei, e colo a seguir, a publicação. O endereço é http://demostenestorres.blogspot.com/2009/11/coluna-poesia-por-nilson-gomes.html?



TERÇA-FEIRA, 24 DE NOVEMBRO DE 2009

Coluna Poesia - por Nilson Gomes

Luiz de Aquino é um poeta brasileiro nascido em Caldas Novas-GO. Autor de livros de contos, crônicas, história e, principalmente, poesia. Os poemas a seguir, inéditos e exclusivos para o site do senador Demóstenes, são da obra “De amor e pele”, seu próximo lançamento.




Acre, ácido; abrasivo.


Não seja este, talvez, o tempo
de se plantar amores, carícias
e outras flores
do mesmo feitio. Tenho visto que murcham
as pétalas de afago mal semeadas:
terra imprópria, tempo seco,
solo árido, talvez.


Vali-me de boa semente,
revolvi entre as rochas;
pensei achar solo de bom húmus;
plantei em pétalas
e pólen de bom aroma.


Soprava leve a brisa. Virou vento,
fez-se forte. Trouxe chuva e granizo,
vergou-se caule broto
de folhas virgens e murchou-se a muda
dos meus zelos.


Debalde! Desisto da flor
e dos amigos.
Quem sabe eu ganhe uns dinheiros
e passe a comprar silêncios?


Rés do chão, ao olhar
O táxi, a chuva, madrugada,
o tempo, pessoas e a vontade.
Havia um quê de estranho.

É sempre assim a vez primeira,
um estar insistente e tenso
– tensão, tesão e medo.

Hormônios em êxtase e ávidos,
peles e pêlos ostensivos, nus.
Bocas sedentas, secas, quentes.

A noite anda, e aviva a chuva.
Há o ar de espera e ansiedade...
A mão diz adeus, a boca assente.

A pele, não; espera. E acerta
um dia além, futuro e breve:
o mérito é mútuo.

Chiado de rodas no asfalto,
longe e líneo. Olhar frustrado
e baixo: é linha de terra.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

VIDA

O poeta Francisco Perna pinçou esse meu poema do portal de poesia de Antônio Miranda, poeta também, e buscou no Orkut do poeta e fotógrafo Sinédio Dioliveira a fotogratia do sanhaço para ilustrar...

Ah, só sei que fiquei muito feliz!

Luiz




Luiz de Aquino




Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Goiás, em 1945. Estudou no Rio de Janeiro e em Goiânia, onde reside. Graduado em Geografia pela Universidade Católica de Goiás. Poeta, contista, cronista, é autor de muitos livros. Membro da União Brasileira de Escritores, da Academia Goiana de Letras e do Sindicato de Escritores do Rio de Janeiro.



VIDA




A força da corda

não força a sorte

nem corta o cachaço.


Na força da corda

o corte da forca

não solta o sanhaço.


Na lida e no eito

a liça e o feito

enfeitam o que faço.


No peito, o cio,

a vida no fio

que escorre frio

e morre no leito.




In. Antônio Miranda

Foto by Sinésio Dioliveira - Poeta - Todos os Direitos reservados.

Sábado, Novembro 28, 2009

Oió, a livraria

Oió, a livraria




Beatles, blues e ieieiê. Para quem gostava de vogais, tinha também AI-1, AI-2 a sequência, sendo o “cinco” o mais famoso deles. A tal de “revolução”, que se anunciou no dia primeiro de abril de 1964, gostou do poder e resolveu ficar, “elegendo” o segundo presidente pela via indireta e deixando indícios de que ficaria por muito tempo, ainda.

Costa e Silva, o marechal que chamei aí em cima de “segundo”, idealizou o tal de AI-5 e reinou até ser deposto (por uma doença ou pelo triunvirato que fez a ponte para Médici). Ao mostrar sua maior obra ao ministério, colheu do coronel Passarinho essa pérola: “Às favas com os escrúpulos”. E, assim, passaram eles à História.

Ainda não tínhamos, no Brasil, um sistema eficiente de comunicação à distância, felizmente. Se o tivéssemos, talvez a coisa ficasse bem pior. Mas o sistema tinha seus títeres e lambe-botas. Estes, como o bem e o mal, estavam em toda parte. Os de Goiânia já haviam dedurado muita gente. Daí, a prática do beija-mão ante os coturnos sem alguém a quem entregar na bandeja que já contivera a cabeça de Salomé.

Numa reunião (sim, meus jovens, não são só os petistas que gostam de reunião... os caça-bruxas também gostavam), alguém citou, “en passant”, o Bazar Oió. Alguém mais no grupo, certamente mais à direita que o próprio embaixador norte-americano que financiou o golpe de 1964, resolveu indignar-se: o Bazar Oió, a charmosa livraria de Olavo Tormin, parecia-lhe um reduto de esquerdistas, terroristas e comunistas, um acinte ao regime e à gloriosa Revolução redentora.

Claro que essa tal reunião é imaginária. Mas tudo indica que tenha havido, sim. Afinal, numa outra, ainda em 1964, e pelo mesmo grupo (é bom frisar que o grupo era constituído de civis simpatizantes à ditadura), decidiu-se por eliminar a tiro um dos companheiros. E o escolhido para morrer (obviamente ausente à reunião) era um jornalista adversário do governador Mauro Borges. Assim, acusariam o inquilino do Palácio das Esmeraldas de assassinato e a “revolução” o apearia do poder. Por coincidência, na noite em que o jornalista seria morto, Castelo Branco, o marechal presidente, assinou a destituição de Mauro.

Pois bem: como não foi necessário matar um dos seus, o grupo, feliz com as medidas do arbítrio, resolveu partir contra o Bazar Oió. Fuxicaram uma história de corrupção, de apropriação do dinheiro público, e acusaram-no, envolvendo outras pessoas igualmente de bem. E o Bazar Oió, que ponteou a vida goianiense desde 1953, acabou fechado definitivamente em 1974. Os bens de Olavo e de sua família foram sumariamente tomados e incorporados ao patrimônio da Caixa Econômica Federal. A família preservou a unidade, apesar da desgraça a que foi condenada para o prazer mesquinho de uns poucos que (estes, sim) locupletaram-se ao longo das duas décadas de ditadura.

Esta é a minha visão de um fato, de uma instituição cultural e de uma família. É incompleta, portanto não equivale à verdade exata, mas esta, a meu ver, é algo utópico, inatingível. E uma boa parte dessa história é contada no livro “Bazar Oió – a ditadura contra a livraria”, da lavra de Lúcia Tormin Mollo, neta de Olavo e de Dona Francisca Hermano Tormin.

Na mesma noite, lancei, em Goiânia, o meu "Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis, ao lado da jovem e talentosa Lúcia Tormin Mollo (Foto: Sinésio Dioliveira).


O livro, lançado na Academia Goiana de Letras na sexta-feira, 27/11, tem o poder de nos conduzir aos bons (primeiramente) e, depois, aos tristes anos das décadas de 1950 e 60. Depois, veio a fatídica idade-média de Médici. E as alegres vogais de antes deram lugar ao canto duro e linear da tal de ordem-unida, seguida do som horripilante dos cascos juntados em obediência ao terror de Estado.


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com)

Nota do autor: Mantive, neste texto, os hífens na conformidade da antiga regra, pois tenho dúvidas sobre os ditames do acordo unilateral ortográfico. L.deA.



Terça-feira, Novembro 24, 2009

Vide!

Luiz de Aquino

Uvas densas, tenras,
sumo rico
a buscar solo fértil.

Cheiro da terra
úmida, agridoce,
fonte de vinho e mel.

Galhos de videira: mãos.
Caule: falo ávido de chão
promessa de flor e fruto.

Primavera! Momento nosso
de parir em versos
o gozo das vides.




Do livro De amor e pele, a sair brevemente pela Coleção Verso e

Prosa, da Secretaria Municipal de Cultura (de Goiânia).

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Novembro de letras

Novembro de letras


Luiz de Aquino


Novembro , novembro... Mês do golpe de Deodoro contra seu protetor Pedro II; mês da “intentona” comunista de 1935 (há quem diga que aquele golpe foi um factóide getulista para justificar o plano do Estado Novo), mês da tentativa dos militares da linha-dura contra a posse de Juscelino, em 1955. Para alguns supersticiosos, novembro é “um agosto retardado”. Para mim, mês de bons e maus acontecimentos, mormente se levarmos em conta que o que me parece mau é bom para os que pensam do outro lado do círculo.

Tenho grandes e queridos amigos nascidos em novembro, e isso nos enseja momentos festivos e felizes. Novembro 19, aniversário de Iná (minha prima e primeiro amor quando sequer chegara à adolescência), de Paulo Fernando (irmão escolhido) e de Gisele , linda e cronista. Dia em que a República abriu mão da bandeira que usou por quatro dias e que se tornou símbolo do meu Estado, Goiás. Foi num 19, há quatro anos, que publiquei o meu “As uvas, teus mamilos tenros”, pura poesia erótica.

Infelizmente, dois dias antes, a pianista professora compositora e mulher maravilhosa, a mais importante dentre todas as pessoas nascidas nesta terra mesopotâmia Brasil Central, Belkiss Spenziere, fechou os olhos, negando-nos sua luz. Mas cuidou muito bem, e muito antes, de legar-nos sua arte e seus exemplos de Ser Humano que merece ser referida com iniciais maiúsculas.

Felizmente, há o 18, data de Dona Lousinha, professora-símbolo que há seis décadas é referencial da Educação em Goiás. Claro está que, nos últimos vinte anos, tendo feito por merecer, Dona Lousinha dispensou o giz e as coordenadorias, as diretorias e os horários, mas continuou a ensinar-nos valores de vida, como é da praxe de quem faz jus ao título. Dona Lousinha, este ano, concluiu o seu 89º ano de via, ou seja, já exerce o nonagésimo, no modo como deveríamos contar a idade. A ela, que gerou tantas pessoas encantadoras, o meu beijo de agradecimento. E bem lhe premiou Deus com tais filhos, com quem festejo essa preparação para a fase nonagenária, resumindo-os na pessoa da poetisa Leda(ê) Selma.

E já que me despedi dos fatos tristes, festejo mais aniversários. Meu primo, Antônio Cupertino, e a comadre mui querida Celestina, ambos do dia 13; o poeta, professor, publicitário e doutor em Literatura, Goiamérico Felício, dia 11; meu sobrinho-afim e afilhado em Deus, Rafael Granja, 28; e seu pai Cícero, 22, o mesmo dia da prima e comadre Teresinha Craveiro... Vou parar, porque não tenho cacoete para colunista social e já fico injusto com aqueles a quem não citei. Como não consigo falar nem escrever sem citar minhas paixões, cá estou de volta ao mundo das letras.

Dia 26, meu conterrâneo caldas-novense e irmão de ofício Delermando Vieira tomará posse na Cadeira 26 da Academia Goiana de Letras. O poeta, o mais premiado na história das letras de Goiás, com mais de uma centena de vitórias em diplomas, troféus, medalhas e pecúnia, talentoso e competente, deveria estar na AGL há muitos anos. Mas foi, muitas vezes, “aconselhado” por falsos amigos a adiar sua pretensão em favor de outros, alguns sem os quesitos óbvios para integrar um sodalício de Letras, mas preferidos por seus papéis de realce no meio político e social.

Enfim, o dia de Delermando! Ele é muito bem-vindo à Casa de Colemar.

Ah! Também lá, no casarão da Rua 20 com a Rua 15, na sexta-feira, 27, às 20 horas, farei dobradinha com a jovem e talentosa Lúcia Tormin Mollo. Ela vai lançar seu livro de estréia, “Bazar Oió – A ditadura contra a livraria”. E eu, devo autografar o meu novo livro, “Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis”. Esperamos lá todos os meus leitores, os de livros e os de jornal.



Luiz de Aquino – poetaluizdeaquino@gmail.com – é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Choque de gerações

Choque de gerações


Luiz de Aquino

Não bastassem os locutores com problemas de pronúncia, esses que dizem “Petobrás” e “Eletobrás”, nem os mais crassos erros de regência (time que “perde do” e “o clube que eu torço”) e de concordância (“houveram falhas na arbitragem”), agora é a vez da ignorância vocabular. Um radialista, enaltecendo a façanha do Atlético Goianiense ante o Ceará (4x1), disse que perder de 5x1 para o Duque de Caxias “mexeu com o brilho do clube goiano”. Engraçado... Vai ver, esse moço chama tralha de traia, mas corrige brio por brilho. Na mesma emissora, minutos antes, repórter político dizia que “ações em conjuntas devem ser tomadas” (além da sofrível construção com gerúndio, o moço inventou a fórmula “em conjuntas”, híbrido de “em conjunto” com “conjuntas”, certamente).

Como todo mundo, sou sujeito a errar. Mas tento acertar. E costumo agradecer, pois gosto que mostrem meus erros. Consulto pessoas como Leda Selma, Nilson Gomes e (agora, um tanto menos) minha sempre professora Ecléa Campos Ferreira. Mas há algo de inusitado entre os novos profissionais: um descaso sistemático para com o conhecimento. Pergunto-me: o que se ensina, o que se aprende, o que se faz nas universidades além de desfilar as formas plásticas (como Geisy Arruda), de agir ao modo talibã (como os colegas dela na Uniban) e de “fritar” o cérebro com drogas lícitas e ilícitas, como a tevê nos mostra com freqüência?

Felizmente, existe uma expressiva maioria de adolescentes e jovens que não se deixam levar pela propaganda nefasta nem pelos “ensinamentos” das letras de músicas de consumo fácil, as que induzem ao álcool e aos “baratos” de outras práticas. Sem dúvida alguma, o primeiro copo e a primeira tragada são portas para a “boiada”que vem depois. É preferível embriagar-se de poesia e música.

Em meio a isso, tirei duas ou três horas da semana, fui a Anápolis visitar amigos a quem devia uma prosa direta. Guiado por Luciene Silva, estive com Mozart Soares e José Cunha. Conversamos sobre vida e vivências, visitamos as pedras e argamassa com que, décadas atrás, construímos nosso hoje para os risos e a felicidade do reencontro. Mozart contou-me de ter presenteado Cunha com aquele DVD de Toquinho (uma peça inestimável!), e este me homenageou com dois cedês montados por ele próprio: duas antologias, uma sobre a saudade, outra do que ele considera o melhor da música do Século XX. Excelentes seleções que eu, chato, restrinjo apenas no tocante a uns poucos cantores. Questão de preferência pessoal. Mas nenhuma restrição às músicas escolhidas.

Ouvindo essas pérolas do cancioneiro universal (com nítido privilégio para a produção brasileira, que reporto dos mais justos), viajo novamente pela Língua Portuguesa. As boas melodias recheiam-se de boas letras, que muitas vezes nos chegam como poemas perfeitos. Confiro, nos meus amigos, as cãs (para os menos informados, cãs são cabelos brancos, e não o feminino de cão) e as rugas, em meio às boas lembranças. Somos remanescentes de um tempo em que arte era algo que precisava ter qualidade, e não um borderô de bilheteria ou venda. Era o tempo em que o artista cuidava da boa finalização de seu produto, em lugar de correr atrás do saldo bancário.

Curiosamente, associo esse passeio ao livro que leio estes dias, “Leila Diniz”, de Joaquim Ferreira dos Santos. A famosa atriz que revolucionou o comportamento brasileiro nas décadas 1960/70 (faleceu em acidente aéreo em 1972, aos 27 anos), veio de um lar ateu, criado por várias mães, distante da mãe biológica, acometida de doença mental. Aos quinze anos, exercia o ensino em pré-escola, calcando sua prática docente nos ensinamentos de A. S. Neil, o revolucionário pedagogo de Summerhill.

Em plenos “anos de chumbo” do reinado de Médici, na dinastia das estrelas generais, Leila praticava a liberdade até onde lhe era possível. E ela foi muito além do que se imaginava. Escapou da cadeia e do ridículo, mas morreu muito jovem.

Os estudantes da Uniban neste final de ano 2009 agiriam de modo diferente se conhecessem algo daquela moça de ideias e práticas libertárias.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.