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quarta-feira, setembro 28, 2016

Lorrane e Danillo - a união sob o Amor Total


Os nubentes Lorrane e Danillo, com este poeta celebrante.



Unidos no Amor Total 

Um encontro que antecedeu o crepúsculo e a maviosa luz da Lua Cheia, na Vila das Flores (o recanto encantador de Nei Cardoso em Aparecida de Goiânia), às vésperas da Primavera, foi o modo como o casal Lorrane de Oliveira e Silva e Danillo Souza Santos escolheu para formalizar sua união. Todo o evento ficou a cargo da cerimonialista Klivia Morato (de Morato Assessoria), que convocou os competentes profissionais da Primordial Fotografia). Coube a mim a celebração desse matrimônio - já consagrado sob as leis brasileiras. Cuidei de fazê-lo, pois, ao meu modo.


 14 E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição. (Colossenses cap 3, vs 14)

Uma jovem caldas-novense deixa as tépidas águas e a sombra da Serra de Caldas e vai viver longe, muito longe, em terras do Norte, de outra língua e costumes diferentes. Retornando à Pátria, escolhe a capital.

Um moço baiano, de Eunápolis, deixa sua terra e se instala em Belo Horizonte. Depois de anos, segue os passos do irmão mais velho e se depara com Goiânia, onde não demora a se sentir em casa. Moço e estudante, cheio de vida e alegrias e liberdade, recebe amigos para uma boa rodada de prosa e cerveja. Toca o celular de Rebeca, uma das visitantes – é Lorrane, do outro lado. Rebeca lhe diz “estou na casa do Danillo – a quem Lorrane não conhece – e a amiga já-já passa o telefone a Danillo.

Lorrane não é propriamente uma pessoa tímida, dessas que se escondem ante o desconhecido. Aceita o desafio da conversa, mas diz não poder sair. A conversa continua, livre e agradável, por poucos minutos. E os dois sentiram algo de diferente e bom! Ficou no ar um misto de prazer e curiosidade.
Um mês depois deu-se o aniversário de Lorrane – era a segunda quinzena de setembro. Rebeca e Lorrane saem de um xou e decidem continuar a noite num bar, afinal era aniversário. Sem nada combinado, sem aviso nem esperança, eis que aparece o Danillo. Rebeca mostra-o a Lorrane e define – “é o meu amigo com quem você falou ao telefone”.

Apresentações feitas, pequenas descobertas e breves desafios e os dois jovens começam a se entender. Num período de três meses, são poucos os encontros – mas o anjo Cupido, com suas flechinhas azuis e rosas, o mesmo que soprou intenções no ouvido de Rebeca, este não está descuidado, não... E justo no Ano-Novo, há quase cinco anos, se formaliza o namoro. Outros anjos agem paralelamente – estabelecendo uma excelente harmonia não só entre os dois enamorados, mas também nas duas famílias, que acolheram com alegria a união que se iniciava.

Hoje, cá estamos:
- Do lado de Lorrane, seus pais Luzimar Rosa de Oliveira e Silva e Gilmar Gomes da Silva.  E da banda de Danillo, os genitores Leny José de Souza Santos e José Euvaldo de Souza Santos, e também a filhinha de Danillo, Beatriz Torquato Santos.

Quero, antes, dizer um belíssimo poema de Vinícius de Morais que bem traduz o que se passa nos corações nubentes:

Soneto do Amor Total

(Vinícius de Morais)

  

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante
Amo-te como um bicho, simplesmente
de um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Sim! O que canta o poeta já era dito na Santa Bíblia, como temos em Cânticos, cap. 8, vs 7:

7  As muitas águas não podem apagar este amor, nem
os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.

Para a alegria e os desafios, unem-se hoje esses jovens, ligando suas famílias – é preciso lembrar os irmãos de Lorrane - Rafael e Gislane – que moram em Atlanta, nos Estados Unidos, e mesmo à distância certamente emitem energias boas sobre o par, neste momento.

Lorrane e Danillo não estão, agora, encantados com aquele encontro primeiro. As surpresas, belas e agradáveis, serviram para uni-los no começo, mas o quotidiano e seus desafios, sim – estes valem como amarras e selos que, pelo prazer e pela alegria, pela sobriedade do compromisso, pela união com que fazem planos e lutam para fazê-los reais – esse conjunto de coisas que este poeta teima em chamar de amor – isto, sim, é o que nos fez vir a esta reunião, festejar este momento de compromisso, de responsabilidade mútua entre Ela e Ele – essa união de sentimentos, fortalecida pelos sentidos e disposta a, em seu momento ideal, começar a família com a vinda de filhos.

Sobre este casal, a nova família que se anuncia e liga suas famílias de origem, há de sempre reinar a aura sublime das bênçãos de Deus Pai, fortalecendo a já presente confiança mútua e isso de se ter sempre as mãos dadas – até para dormir – e a alegria de se acordar lado a lado e tocar a vida a quatro mãos.

Entre o despertar, na manhã, e os afazeres da casa, os deveres lá fora, no trabalho, os compromissos sociais – porque não há o viver sem amigos – e o prazer de se estar juntos, une-os também a presença forte e meiga de uma pequenina criatura. Estou falando da Aisha, a gatinha que Lorrane escolheu e que enche de amor, também, o coração do Danillo.

Os padrinhos os cobrem com uma chuva de pétalas, e um beijo prenuncia a realização dos sonhos.

E um dia – num além que parece remoto no futuro, mas que lhes dará a sensação de que a vida é muito curta para tantos sonhos, tantos prazeres, dores e acertos –, será o tempo de dar graças a Deus pelos dias, pelos amigos, pelos desafetos que nos cobram tanto, pelos pais e irmãos, pelos filhos e suas buscas, seus sonhos e suas descobertas.

Será o momento de, a uma só voz, olhos nos olhos, vocês, Lorrane e Danillo, constatarem que valeu a pena! E na Sagrada Escritura, em Coríntios, cap. 13, vs. 4 a 7, encontramos:

4 O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
5 Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.
6 O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.
7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.


Deus os abençoe, hoje e sempre; sigamos em paz!

sábado, setembro 24, 2016

Palestrando para acadêmicas


 Goia e Márcio Veiga, músicos; acadêmicas Alba Dairell e Elizabeth Fleury; L.deA. e Zanilda Freitas.




Manhã feliz na Aflag



O convite veio da presidente Maria Elizabeth Fleury Teixeira – eu deveria ir à Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás para um repeteco da minha fala sobre José Sisenando Jayme, há alguns meses, na Academia Goiana de Letras.

Repeteco? Estou antigo mesmo... deveria dizer “replay”? Neste ponto estou mais para Ariano Suassuna do que para os que inventam palavras como “empreendedorismo”. Estranhei demais o neologismo e deduzi que o nome foi concebido com uma sílaba a mais – deveria ser “empreenderismo”. Mas, convenhamos, inventa-se muito nestes tempos, sobretudo na área das “ciências do comércio”, como “acabativa” (como contraponto de “iniciativa”), “proativo” para quem tem iniciativa e garra – e por aí vai!

Mas quero contar de minha ida à AFLAG. A casa, é bastante sabido entre nós, foi criada pela “proatividade” de três grandes damas do segmento cultural de Goiás, quais sejam:

- Rosarita Fleury (escritora talentosa, detentora de prêmios de realce, como o Prêmio Júlia Lopes da Almeida, da Academia Brasileira de Letras, com seu romance “Elos da Mesma Corrente”);

- Nelly Alves de Almeida, professora de incontáveis referências e crítica literária de extenso fôlego, admirada por dez entre dez autores locais e a quem muitos dos mais agraciados autores goianos tanto devem por sua orientação segura e análise literária destemida e sábia;

- e a incansável Ana Braga (única sobrevivente desse admirável trio), hoje na vetusta e premiada casta dos nonagenários, professora e ativista política, tendo sido uma das duas pioneiras vereadoras goianienses num tempo em que a presença masculina nesse meio era ainda muito mais marcante.

Leda Selma, presidente da AGL, Beth Fleury, pesidente da Aflag, e eu.
Poucos dias antes da data combinada, liga-me a acadêmica Ana Maria Taveira Miguel e sugere-me expandir o tema – discorrer não somente sobre o meu mestre (na Universidade Católica, a hoje PUC de Goiás) José S. Jayme... Gostei da ideia! Escolhi, então, discorrer sobre os feitos literários de nossa amada terra Goiás, mesmo sob o risco do inevitável erro pela omissão – e omiti muita gente, por esquecimento, por ignorância e também pelo tempo exíguo.

A presidente Beth Fleury, como a chamamos carinhosamente, designou minha querida amiga de décadas, a poetisa e acadêmica Placidina Lemes de Siqueira para apresentar-me ao seleto público composto pelas que integram a nobre e aprazível casa de Rosarita (mãe da atual presidente) e por convidados especiais, dentre estes alguns membros da AGL (em especial, ao menos um membro das duas casas, a professora Lena Castelo Branco).


A evidência no decurso da fala não me intimida, aprendi a exercê-la quando professor e nas incontáveis vezes (milhares, por certo) nas visitas a escolas para a mesma prática – falar a professores e estudantes sobre coisas do mundo das letras. E a coragem para enfrentar a plateia de notáveis escritores e artistas vem das minhas interrupções nas sessões das academias de que participo.

Falei de José Sisenando Jayme; discorri brevemente sobre Bernardo e Carmo, finalizei com José J. Veiga. Foram uns raros, mas limitados, minutos de se exercer saudades. Gosto muito de praticar essas lembranças, de pensar, sentir e, principalmente, rir (para doer menos) das coisas que me veem à mente sempre que evoco esses nossos notáveis vultos, hoje centenários, orientadores do nosso ofício – e incluo também aqui o inesquecível e sempre mestre Eli Brasiliense.

Foi, para mim, uma das mais curtas manhãs, aquela de 6 de setembro neste 2016. Gostei tanto que espero ter cumprido o propósito que norteou a razão do convite. E prometo empenhar-me para lá estar outras vezes: sempre será muito bom estar entre as mulheres goianas que fazem versos e artes – as sonoras e as visuais.


*****



Luiz de Aquino é membro da Academia Goiana de Letras, da Academia Letras e Artes de Caldas Novas, da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música e da Academia Aparecidense de Letras. Foi presidente da União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás.

domingo, setembro 11, 2016

Uma festa acadêmica



O recém empossado Nasr Chaul, entre o governador de
Goiás e a presidente da Academia Goiana de Letras



Uma festa acadêmica


Desde junho, a nossa Casa – a Casa Colemar Natal e Silva, sede da Academia Goiana de Letras – está sob trabalhos de restauração, agredida pelo tempo e as intempéries. A obra há de se estender até dezembro e somente em fevereiro, ao retornarmos do indefectível recesso de janeiro, voltaremos à rotina dos trabalhos.

Nossas reuniões ocorrem, agora, na sede da União Brasileira de Escritores, da qual somos todos nós membros (eu, pessoalmente, desmembrei-me por questões circunstanciais em 2002, mas naturalmente não sou estranho a uma instituição que já tive a honra de presidir). Ali, no Auditório Yeda Schmaltz, além das reuniões ordinárias, tivemos a eleição do mais novo dos nossos membros, o poeta Itaney Campos, a empossar-se no dia 24 de novembro, em local ainda a ser definido.

A propósito, na última quinta-feira, dia 8 de setembro, tomou posse o historiador e cancioneiro Nasr Nagib Fayad Chaul, ativista cultural, atual superintendente executivo de Cultura na Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes. A solenidade se deu no Salão Dona Gercina, do Palácio das Esmeraldas, onde os acadêmicos e convidados do novel acadêmico – amigos e familiares – foram recebidos pelo governador Marconi Perillo.


O acadêmico Edival Lourenço
recepcinou Nasr Chaul
A sessão foi magistralmente conduzida pela presidente, acadêmica Leda Selma de Alencar, e secretariada ad hoc pelo acadêmico Getúlio Targino Lima. O acadêmico Edival Lourenço proferiu o discurso de recepção a Nasr Chaul, discorrendo sobre sua vida, sua carreira no magistério da Universidade Federal de Goiás e de autor de centenas de canções, com ênfase para Saudade Brejeira (pareceria de Chaul com o maestro José Eduardo Morais).

Chaul discorreu sobre o patrono da Cadeira 3 – a que passa a ocupar – e seu último ocupante, o escritor Humberto Crispim Borges, dois nomes marcantes na História de nosso Estado e das letras que aqui praticamos. E ao encerramento, já investido da nova condição, recebeu o diploma de Membro Efetivo das mãos de Leda Selma e o Colar Acadêmico, que lhe foi colocado pelo governador Marconi Perillo.


Marconi entrega o colar
acadêmico a Chaul
O ritual de uma Academia de Letras costuma ser rígido e por isso somente dois discursos são proferidos – o de boas-vindas e o do empossado. Contudo, dentro do que lhe possibilitava tal rito, Leda Selma simbolizou em Marconi Perillo sua saudação às autoridades presentes, com destaque para a secretária da Educação, professora Raquel Teixeira, e escolheu o médico Sid de Oliveira Reis, um dileto mecenas e amigo do nosso sodalício, para representar nele os convidados presentes.

Marconi Perillo tem uma história de ações e atitudes beneméritas para com o universo das artes, no qual se insere o segmento literário, objetivo maior da AGL. E Sid de Oliveira Reis, médico renomado e desportista apaixonado, é proprietário e gestor do Laboratório Núcleo, prestador de serviços inestimáveis no segmento médico, incluindo-se métodos e equipamentos únicos no Estado.

Como presidente do Goiás Esporte Clube, abriu uma importante janela nas rotinas do famoso clube ao convidar para diretora de ação cultural a escritora acadêmica Leda Selma – nunca vi, antes, um clube de futebol aliar ao seu ofício ações de arte e letras. Em sua gestão, os muros da sede esmeraldina, no Setor Bela Vista, ostentavam poemas de autores goianos – até eu, vila-novense, tive um poema exposto na quadra do Verdão da Serra.

Desde outubro, Dr. Sid aplica em favor da AGL seu gosto pelas letras da nossa terra. E demonstra apreço à música erudita ao programar a apresentação da Orquestra Sinfônica de Goiânia, sob a regência do maestro Joaquim Jayme, no próximo 23 de setembro, no Teatro Goiânia – evento que marca os 30 anos de atividades de seu Laboratório Núcleo.

Parabéns, dr. Sid, por sua história dentro da vida de Goiás! Parabéns ao Núcleo! E boa festa com a Sinfônica de Goiânia!

*****


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, setembro 05, 2016

Lara Câmara e Guilherme Costa

O amor começou ao pé dos Montes Pireneus; o casamento se deu na encosta do Morro do Frota; os nubentes são escaladores de montanhas e o celebrante, um poeta pirenopolino. 


O amor na pele da montanha

Por Luiz de Aquino 

Guilherme Costa, engenheiro civil, e Lara Câmara, estudante universitária, conheceram-se ao pé dos Montes Pireneus, montanha que dá nome a Pirenópolis, praticando o esporte a que se dedicam – a escalada. Os primeiros olhares e falas resultaram no namoro. Não demorou quase nada e decidiram-se pelo casamento, também realizado sem delongas (no civil). Mas as famílias e os amigos queriam um evento à altura da importância deles, e o resultado foi essa festa, num local caprichosamente escolhido – o Casarão Serra do Ouro, em Pirenópolis, no sábado 27 de agosto deste 2016. Nara Simo, cerimonialista; Fotografias por Nós 3 Fotos; e os DJ Daniel de Melo e Mário Pires asseguraram o perfeccionismo o som. E este poeta, Luiz de Aquino, foi chamado para a celebração, que se deu assim:

Boa noite, mães e pais de Lara Bragança Donato Câmara e de Guilherme César Rodrigues Costa!
Boa noite, amigos e familiares presentes!

Esta é a montanha que se fez para proteger o Rio das Almas e sua vertente de riachos e córregos, miúdos e aconchegantes, musicais e telúricos – indispensáveis à vida porque, como cada um de nós, os seres vivos racionais ou não, contribui para o que vem a ser grande: riacho que alimenta o rio, que se une a outros e forma o mar oceano, como nosso olhar desenha paisagens e formas várias, como as árvores e os outros bichos. E são os nossos olhares desenhistas que projetam de nós a luz-energia que afasta ou atrai o próximo!

Lara e Guilherme, Deus fez a Terra, o esqueleto que se veste das águas dos mares, e pôs o Homem com os pés no chão, no barro e no pó. Inquieto, o Homem olhou o alto e quis subir aos píncaros, aos cumes... quis ser lagartixa ou aranha e palmilhar os paredões rochosos, porque ser Homem apenas não basta, não basta apenas pisar o chão de pó e pedras, não basta mergulhar nas águas das torrentes e dos mares.

Aqui, somos filhos do rio e da montanha. Somos Pireneus Meia-Ponte, dos nativos herdeiros dos garimpos, das Minas de Nossa Senhora do Rosário da Meia Ponte, somos Pireneus e veneramos a montanha dos três picos, somos o rio que lambe as margens e garimpa ouro, como nossos ancestrais. Ou escalamos as rochas pois sabemos que é bom.

Talvez seja assim que pensam vocês, Lara e Guilherme, moços de encantos cruzados, porque seus olhares decidiram trocar energias e fundiram suas almas e corpos num processo de atração e descobertas, de cumplicidade e de sonhos, de desenhos e parceria.

Há de ser, sim, muito bom compartilhar a vida com quem se entende ao ter prazer nos mesmos gostos e escolhas! Foi na prática de seus gostos e vontades que se acharam, e eram muitos os moços na escalada dos Pireneus. E as horas passavam, e o dia se despedia anunciando o ocaso que convida a noite a proteger os moços aventureiros.

Faltou luz, e a solidariedade ofereceu uma lanterna. Com ela, a companhia que o moço gentil proporcionava, e a menina de sonhos sonhados e sonhos que inspirava se deu conta de que a bateria não lhe dava luz como dia. E uma vez mais Guilherme foi a solução, compartilhando a sua própria luz para que, juntos, fizessem aquela curta caminhada – sem saber que era não só uma breve caminhada, mas o início de uma jornada rumo ao sempre!

Permitam-me dizer-lhes, eu entendo que o amor acontece assim – duas pessoas, formas e hormônios, as vozes e os aromas – aromas dos corpos, aroma das folhas e flores, a luz lusco-fusco porque o Sol se despede e convida a Noite. Lembram? Ver a boca que fala ou sorri, unir o som e a imagem e deixar que os corpos se aceitem porque há almíscar no ar! E posso afirmar sem medo de enganos que um anjinho, levado e sorridente, refletindo as luzes azuis e rosas, disparou duas setas e não errou seus alvos!





E aquelas se-tas fizeram brotar canções de seus corações, tal co-mo nos ensina o escritor tcheco, naturalizado francês, Milan Kundera: 
Enquanto as pessoas são ainda mais ou menos jovens, e as partituras de suas vidas ainda estão nos primeiros compassos, elas podem juntas fazer a composição e trocar os temas, (…), mas quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras musicais estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo de diferente na partitura do outro.

Essa transformação, como define o autor de A Insustentável Leveza do Ser, é fruto da maturidade, não a maturidade do indivíduo, mas o amadurecimento do casal – unidos e jovens, conseguem fazer juntos uma composição “e trocar os temas”. Mas o caminhar da vida faz amadurecer a canção de cada um, ainda que juntos, e saberão, ambos, distinguir qual é a nota ou a frase de um na partitura do outro.

A caminho, nestes primeiros compassos de sua partitura da vida, há acordes de uma nova vida. Falo de Cecília, que já é referência natural entre vocês e seus familiares, como a visita muito amada que chegará para o próximo Natal! E nela, meus queridos nubentes, faz-se a carne única de que nos fala a Sagrada Escritura, fruto do encontro do homem e da mulher que deixaram pai e mãe para se tornarem, à sua vez, pai e mãe!

Deus os abençoe! Os anos próximos lhes parecerão mudados, porque a sua família mudou, ficou na esquina da última rua atravessada, quando vocês dois, de mãos dadas e mirando o mesmo futuro, saíram das casas de seus pais e caminharam ao encontro de Cecília.

Haverá choro e escuro, algumas vezes. Haverá o nascer do sol sob o canto de pássaros, mas virão também as tempestades de ventos e raios de chuvas e trovões. Um abraço forte e duradouro, as vozes que se harmonizaram ao pé dos Pireneus e sob a tênue luz de uma frugal lanterna, a certeza dos beijos e das mãos dadas fortalecerão o casal e a família! Haverá as dores e a paz, e está em vocês a força para saltar obstáculos, segurar a rocha com firmeza, pisar com segurança e acreditar na escalada. E vão sentir, ambos, que a jornada iniciada a dois reunirá outras almas e personalidades, sempre muito diferentes – mas capazes de se aninhar sob o mesmo abrigo, porque tempo virá de novos voos – ou diferentes escaladas.

Agora, receberemos o Joaquim Francisco, que trará as alianças dos nubentes.


Deus os guarde e abençoe. E lhes permita muito – como é de seus sonhos. 




sábado, setembro 03, 2016

Bonita e só; é madrugada!

Bonita e só; é madrugada!


Helena é uma bela e jovem mulher. Filha de amigos, conheci-a nos primeiros anos de sua adolescência e há um bom tempo não nos falamos. Preparava-me, nesta manhã de sábado, para redigir minha crônica domingueira quando, pelo Facebook, saltou-me aos olhos o seguinte texto desabafo:

Imagine a cena: uma mulher, nos seus trinta e poucos, voltando pra casa, no carro dela, as quatro da manhã, de uma sexta (ou sábado). Qual o maior perigo que ela poderia enfrentar? Talvez um bêbado descontrolado furando sinal? Mas não. Não em Goiânia.
Aqui, ela tem que negar, veemente, que não quer sair com um desconhecido pra tomar uma no Caldos 24 horas, que a persegue pela T-9 quase inteira e que não aceita um não como resposta. Aqui, ela tem que temer, pois um 'homem' (e aqui vai entre aspas, porque, pra ela, esse homem não passa de um moleque) não admite que uma mulher NÃO QUER qualquer que seja a coisa que ele quer. Aqui, ela tem que dar uma desesperada básica, pois o cara supõe que uma mulher sozinha precisa, desculpe a expressão, de pica. Aqui, o ‘não’ não tem sentido e a vontade alheia não é respeitada. Aqui, infelizmente, a liberdade não é tão liberta assim.
Ah, vão dizer, o que uma mulher sozinha estava fazendo na rua uma hora dessas? Respondo: o que ela quiser!
E assim, perpetua-se a cultura do machismo, pois uma mulher sozinha TEM O DIREITO DE IR E VIR A HORA QUE ELA QUISER! Apenas precisamos de uma cultura em que ela possa se sentir tranquila e que não será assediada no exercício dessa liberdade, que é dela.
E não, não é da violência urbana que tenho medo, e sim da violência de gênero, que, infelizmente, viola muito o meu ser”.

***


Lamentavelmente, Helena, esse mal é nacional – passível de acontecer em qualquer cidade brasileira! Os desprovidos de boa índole veem aí não uma pessoa – mas uma caça desejosa de ser abatida.

É revoltante! Esse mesmo sujeito, noutro momento, é bem capaz de discutir questões sócio-políticas e econômicas, falar de moral e bons costumes e mostrar-se racional e respeitável entre os amigos, os conhecidos e seus familiares. Haverá ele de, numa situação similar (mas envolvendo sua irmã ou filha), se indignar com a afronta que um "imbecil" proporciona à mulher sozinha e haverá de "aliviar" o drama repreendendo a mulher perseguida com o que você, Helena, evidenciou – "O que você estava fazendo sozinha na rua a essa hora?".

É um delinquente! Ele está por um fio de cabelo para enquadrar-se entre os meliantes que agridem, assaltam, quebram vidraças ou, pior ainda, matam mulheres pelas ruas apenas por serem jovens e belas, como esse satânico Tiago que já acumula perto de 200 anos de condenação (e faltam cerca de 30 homicídios pelos quais ainda será julgado).

A questão não é de leis - estas existem, sim. O problema é a educação, a formação moral, o aprendizado em casa, que precisa ser refinado na escola e controlado pela sociedade. Esta, infelizmente, professa a defesa da liberdade indefinida, ou absoluta e ampla, o que leva um tipo desses a escudar-se no argumento de que "ele quer", então "pode fazer". Viver em sociedade implica a prática do respeito a todo tempo.

Se em lugar desse imbecil fosse um sujeito educado o bastante para oferecer-lhe um sorriso, um boa-noite (na madrugada não se diz bom-dia) e uma rosa, talvez um verso, e se se prontificasse a segui-la em caráter de proteção (se necessário), certamente brotaria daí uma amizade ou uma história romântica.

Mas isso, infelizmente, é para muito poucos.


*****


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, agosto 29, 2016

Bares e saudade







Bares e saudade



Houve o tempo da juventude, em especial os tempos de solteirice jovem, porém responsável, em que minhas noites equivaliam ao período das 20 ou 21 horas até as primeiras das solenes madrugadas, quando o corpo pedia cama e a responsabilidade, o despertar antes das 7 horas para o batente bancário.

Houve o tempo do magistério, mesclado com a universidade em curso e o período bancário entre 12 e 18 horas, com aulas matinais e noturnas e por pelo menos nove horas-aulas de sábados – este foi um tempo de sóbrio hiato, evidentemente. Mas o período de maior ocorrência nas lides jornalísticas era da boemia inevitável, pois o jantar se dava nas chamadas altas horas, quando todas as matérias já eram “descidas”, páginas fechadas, situação geral checada com diagramação, composição e a certeza de que as impressoras estavam lubrificadas, ajustadas e já ligadas para os cadernos previamente fechados (como o de Cultura, de finalização precoce).

A cidade não oferecia outro lazer senão o bar, a esquina, alguma festa em comemoração a aniversários, casamentos e outros afins. E os bares eram a marca mais evidente de Goiânia nas décadas de 70 e 80 daquele século em que nascemos nós todos com mais de 16 anos neste 2016. Os bares eram a nossa sala de visitas, o ambiente familiar e festivo de moças e rapazes – a ponto de acontecer, de modo pacífico e ordeiro, pelas ondas da Tamandaré e adjacências, um movimento de viva voz – mas em tom de conversa, não de protesto – em busca de “um bar para maiores de 30 anos”.

Numa movimentação “evolutiva”, o agito da Tamandaré com seus bares e restaurantes, que ao se fecharem davam vez aos pegas de carros e motos, migrou para outros pontos. Surgiu uma espécie de “footing” motorizado na extensão da bela avenida Ricardo Paranhos – nome de poeta catalano, visual de cedros e as luzes da noite feliz dos que não tinham medo das madrugadas, pois que andar em grupos inibia os raros assaltantes.

Ah, os ladrões da noite! Eram muito diferentes dos punguistas dos ônibus. Eu, repórter com missão específica de cobrir as delegacias naqueles anos finais de ditadura, conhecia praticamente todos os praticantes do que hoje simbolizamos com um duplo Perdeu!. Eles circulavam os pontos das cercanias dos bares e abordavam bêbados sem-noção e namorados distraídos. Tomavam dinheiro e joias, casacos e calçados e, às vezes, levavam documentos, cheques e cartões de crédito – naqueles tempos, pouco usuais.

Aquela juventude, hoje, chega perto dos 60 anos ou já passou dos 70 e mesmo 80 primaveras. Mas há as lembranças, as saudades e, para a alegria de agora, alguns reencontros para papos memoriais! Éramos grupos quase que definidos, alguns com afinidades – como jornalistas e escritores, poetas e pintores, músicos e poetas e, circulando entre todos, uma lista infinda de admiradores das artes, cantores de mesas (que faziam coro a muitas das canções de época, com nítida preferência para Andanças e O Bêbado e a Equilibrista, sucessos que interrompiam conversar, beijos e desatenções para fazer backvoice, respondendo ao cantor na parte de entoar o refrão 

– Amor... Me leva, amor...

... ou, no “hino da anistia”, participando em uníssono 

– E um bêbado com chapéu coco 
 fazia irreverência mil...




Pois é, meu amigo Roos de Oliveira! Saudade de Bira Galli ainda cabeludo, de Tagore vivo, de Marieta Teles Machado com aquele sorriso contagiante, Yeda refinando um verso, Aidenor saboreando um gole e exaltando a poesia, Gustavo Veiga cantando De Dois, Fernando Perillo, Pádua, Bororó, Fafá (ela sumiu!)...

Roos! Já não há mais bares como os do nosso tempo... Mas esta lágrima, ah! É como as que nos benziam o rosto na esperança da Liberdade!



*****



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, agosto 24, 2016

A boa ação do Lanterninha




Benevides de Almeida (*)





A BOA AÇÃO DO

 LANTERNINHA


(Subsídios campineiros para o depoimento do meu amigo Luiz de Aquino sobre os cinemas antigos de Goiânia)










Nos anos 50, o Cine Tocantins, que ficava na Praça Coronel Joaquim Lúcio, passou a compartilhar a sala de projeção com os programas de auditório da Rádio Difusora, que funcionava no andar de cima.

Não tinha o mesmo luxo dos Cine Eldorado, este intensamente clareado pelas 55 sofisticadas (para a época) luminárias que destacavam o vermelho forte do tapete que pavimentava os corredores entre as poltronas; e do Cine Campinas. Ambos exigiam o uso do paletó dos frequentadores, como acontecia no Cine Casablanca e no Cine Teatro Goiânia.

Em tudo, Campinas queria ser igual Goiânia, até nisso. O Cine Campinas era o preferido pelos campineiros por causa da seleção mais apurada dos filmes que exibia. Tinha uma clientela mais elitizada e somente depois de alguns anos é que aboliu a obrigatoriedade do paletó, seguindo decisão semelhante tomada pelos cines de Goiânia. Essa frescura de paletó nunca foi exigida no Cine Tocantins, frequentado mais pelos moradores da região de influência da Praça da Matriz e das proximidades da Joaquim Lúcio. Ele também exibia os grandes clássicos de Hollywood. Foi lá que assisti, por exemplo, o primeiro filme Maria Antonieta, produzido em 1938, estrelado por Tyrone Power e Norma Shearer.

Lembram-se da figura do lanterninha, o funcionário encarregado de encontrar poltronas vazias para os que chegavam depois que a sessão já havia iniciado e de vigiar a conduta dos espectadores, com poder de chamar a polícia para retirar o bagunceiro pra fora?




Pois bem, o Cine Tocantins contratou um jovem cheio de boa vontade para esta missão. A primeira recomendação do gerente ao novo funcionário foi: tratar o público com educação, mesmo os barulhentos e, se possível, até mesmo resolver algum problema, como troca de lugar porque uma madame de coque alto sentada da frente estava atrapalhando a visão ou indicar o banheiro, os mais comuns numa sala de cinema.

O lanterninha cumpria à risca a orientação do chefe. Ele sempre ficava junto à porta de entrada da sala de projeção, encostado na mureta que isolava o corredor de circulação das poltronas. 

Um dia, numa sessão com pouca gente, estava sendo exibido um filme em que a atriz Ester Willians se insinuava sensualmente em algumas cenas. O lanterninha escutou perto dele os gemidos sussurrantes de um único espectador sentado na última fila de poltronas, justamente a que ficava encostada na mureta onde se encontrava. Discretamente, acendeu a lanterna para baixo, e em seguida virou o foco para a cadeira ocupada pelo rapaz solitário e deparou-se com ele masturbando enquanto fixava os olhos para as coxas de Ester Willians de maiô numa piscina. 

O lanterninha lembrou-se da orientação do gerente: "Trate bem o público. Ajude-o no que estiver ao seu alcance". Discretamente, ele foi até o homem e disse que precisava falar com ele. Pego em flagrante na prática onanista, o desconhecido acedeu sem nenhuma reação e acompanhou o funcionário, que o levou ao banheiro masculino. Sem dizer nada, o lanterninha baixou as calças e virou o trazeiro para o indignado sujeito. Foi quando falou:

– Use e abuse.

É claro que o cara não perdeu a oportunidade. Mandou ver.
Praticada a boa ação, o lanterninha levou o assistente de volta à mesma poltrona e lhe explicou:

Não pense que sou viado. O que fiz foi apenas cumprir uma norma da casa.


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(*) Benevides de Almeida, jornalista precoce (desde a década de 1950), repórter-referência cheio de talento e competência, além de grande ser humano, por seu caráter e qualidades excepcionais de amigo e parceiro. Enfim, alguém que qualquer de nós se orgulha de chamar de amigo.