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domingo, maio 21, 2017

"Os Sonhos não Envelhecem"




Relendo Márcio Borges



Sou de uma juventude diferente da que temos agora. Claro, vão-se já os anos de meio século, era o tempo das grandes mudanças, o pós-guerra marcando fundo nossas ideias, opiniões, gostos e atrevimentos. Os Aliados, vitoriosos, deixaram por conta da sociedade americana a vez de fazer graves mudanças – e surgiram os “beatniks” (a definição, segundo algum desses dicionários eletrônicos, é “substantivo de dois gêneros - indivíduo que rejeita o conformismo burguês, os seus costumes e valores convencionais, assumindo uma filosofia de vida e um comportamento pessoal exóticos para o padrão médio”).

O desdobramento fez com que surgissem os “hippies” e, num modo mais comportado – porém revolucionário em sua arte – os Beatles. E as novidades espalhavam-se pelo mundo afora, na literatura dos pioneiros beatniks (grupo constituído a partir de escritores americanos) e na poderosa mídia que “fazia a cabeça” do mundo – o cinema da América.

Em muitos pontos do mundo surgiram os inovadores. No Brasil, tivemos a bossa nova na década de 1960, que juntava grandes exemplos desde Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e Noel Rosa, em cuja esteira despontaram alguns baianos, como Caetano e Bethânia, Gal e Gil e Raul Seixas... Chico Buarque bem representa, entre os cariocas, a marca dessas mudanças.




Algo de altamente revolucionário acontecia, também, na ainda bucólica Belo Horizonte: um grupo de jovens pouco-mais-que-meninos, apaixonados por música, ideias, cinema e poesia (e, inevitavelmente, as essências filosóficas que bem marcam as artes) e tornou-se referência. Tudo em torno de uma família, uma irmandade liderada pelos pais maravilhosos que geraram onze meninos geniais, aos quais juntou-se aquele que se dizia “o filho número 12”. Refiro-me aos irmãos Borges, de Dona Maricota e “sêo” Salomão, ao excelente “letrista” Márcio Borges e ao prodígio Lô Borges... O número 12 era o Bituca, aliás, o crioulo que o Brasil e o mundo conhecem como Milton Nascimento.


Conheci Márcio Borges em Bento Gonçalves, no Congresso Internacional de Poesia, edição de 1997, e trocamos livros. Não tenho dúvida que ganhei na troca, pois trouxe comigo, com um belíssimo autógrafo, o seu “Os Sonhos não Envelhecem”, que li apressadamente e me prometi – “Vou escrever sobre este livro”. Não sei o que houve, sinto que não escrevi ou, se escrevi, não publiquei, e me senti devedor a mim mesmo.


O que fiz, então? Tirei o livro da estante e o reli, estes dias. Às anotações, a lápis, de vinte anos atrás juntei outras, atuais. E o livro, de que eu já gostara em 1997, tocou-me ainda mais, na maturidade atingida após a marca dos 70 anos. Desta vez, a leitura se fez mais mágica, eu consegui fazer paralelos entre os fatos narrados, memorizando o que vivera eu aqui nas marcas cronológicas de Márcio Borges.


Lô, Duca, Márcio e Bituca

Só para exemplificar: em 2005, estive em Três Pontas, a convite da minha amiga querida, a dra. Adélia Maria Batista, que nos levou (Mary Anne e Lucas também) à casa do pai, então viúvo, de Milton, o Bituca. Sentimos saber que o cantor estivera ali até poucas horas antes, ou seja, perdemos a chance de um bom encontro (eu o conhecera aqui, por volta de 1985, na companhia dos irmãos Barra – Rinaldo e Marcelo).



O autógrafo de Márcio



Amei revisitar o Clube da Esquina e, desta vez, pude sentir com mais nitidez a magia do amor de amigos e do carinho de irmãos. Não repetirei nada do livro, somente recomendo aos meus queridos leitores, geralmente pessoas que também amam a boa música e, como eu, idolatraram os meninos do clube da rua Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Beagá, que não percam o prazer e a riqueza dessa obra!

De minha parte, estou com muita vontade de saber o que foi feito de Márcio desde aquele outubro de 1997.

Meu abraço franco e amigo, querido Márcio, irmão de Lô e de...


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


domingo, maio 14, 2017

Carmem Gomes, contadora de causos




Carmem Gomes,
contadora de causos (*)



Também sou daquele tempo e desse meio, o tempo em que Goiás era um território imenso e esquecido, mais de 700 mil km² – antes que tirássemos um lote para ser o Distrito Federal e uma gleba, metade do que nos restou, para ser Tocantins. Era um tempo antes, também, que por aqui aparecessem o fogão a gás; e a cozinha era o espaço preferido nas famílias daquele tempo e desse meio que só restam na nossa memória.

Era o tempo em que os quartos eram para se dormir neles e não um recanto onde se isola para curtir mídias sociais, ao computador ou ao celular. As salas eram onde se recebiam visitas; a cozinha, o reduto matriarcal, o espaço onde a mãe reinava plena e senhoril, atuando ou ordenando. E, após “a janta”, quando escurecia e a mãe – auxiliada pela empregada e pelas “meninas” (filhas) – já “lavara os trens” e arrumara tudo, o pai enrolava um pito de fumo picado e palha seca, macia, de milho.

O fogão mantinha um foguinho brando; melhor assim, vai que seja necessário coar um café... melhor atiçar que acender novo fogo. A criançada se juntava à espera. Era comum haver tios e tias, as famílias eram grandes, numerosas e felizes naqueles momentos de se conversar de coisas amenas, apreciar notícias dos distantes e de se praticar o que os professores nos ensinaram ser “a tradição oral”.

Não me lembro bem como começava a contação de causos. Muitas vezes, o mote era uma carta, algum dos parentes “de longe” escrevera e as cartas chegavam cheias de coisas novas. E como uma conversa puxa outra, falar de parentes se estende a outros mais e nem tudo o que se fala ou se conta é fato real. Surgiam as histórias da família e as lendas que as cercam.

Era comum o contador de causos sentar-se na rabeira do borralho. A rabeira é a parte baixa do tradicional fogão, o patamar em que se apoia a lenha a se queimar... puxar para fora o lenho incendiado era amenizar o fogo. As noites daquele tempo eram frias, ficar próximo ao fogo favorecia o bem-estar e estimulava o sono. Ainda mais quando se tinha pai, avô ou tio bom contador.

Carmem Gomes é fruto da mesma natureza que me forjou – éramos meninos à beira dos borralhos, ouvindo algum mais-velho (pai, mãe, tia, avó – tanto faz!) a enlevar-nos naquelas histórias. E havia o momento de induzir a criançada ao sono: era o momento em que algum deles, adultos, emendava uma história sobrenatural, algo de assombração, por exemplo, para nos meter medo e nos conduzir ao quarto.


Ao ler os originais deste Beira de fogão – Histórias do borralho, deixei-me levar às lembranças, sem pretender ligar as histórias ouvidas por mim aos causos que ela vivenciou e reproduz aqui, em texto de boa lavra. Este livro reflete os cenários naturais da Serra da Mesa, em Goiás, naquele atual norte goiano, que ainda era sul de Goiás quando estudávamos os caudais da nossa terra. É por ali que o Rio das Almas se une ao Rio Maranhão para formar Tocantins, que dá nome ao novo Estado. E foi ali que decidiram, os do governo, represar esses rios e formar um dos maiores reservatórios hidrelétricos do mundo – o lago da Serra da Mesa.

Carmem Gomes viu tudo acontecer. A obra, o desmatamento, os caminhões (às centenas) trazendo gente e material, removendo a terra, fazendo a barragem... e tudo isso coincidiu com o surgimento do agronegócio.

A vida prometia, sim, mudar muito! O que lhe restava, além de adaptar-se aos novos tempos?

Escrever, é claro! Ela conta as historinhas dos tempos da elevação das águas, da agitação na mata porque a água subia... enfim, ela conta também de alegrias, da felicidade que se tem no convívio com a natureza.

Feito uma tia ou avó (aquelas mulheres que nos pareciam velhas porque ainda não éramos mais que crianças), Carmem nos conta histórias. Como se fosse, pois, uma saudosa contadora à beira do fogo na antiga cozinha. E nos traz isso que se contaria à Beira de fogão – Histórias do borralho.



Luiz de Aquino Alves Neto, da Academia Goiana de Letras.


(*) Prefácio para o livro Beira de Fogão - Histórias do borralho", a ser lançado brevemente. 

segunda-feira, maio 01, 2017

BELCHIOR

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (26/10/1946 – 30/04/2017)



O cartunista Henfil escreveu, num texto forte e triste na despedida de Elis Regina (janeiro 1982) uma confissão de culpa em nome de toda uma geração, que “nós, os nascidos nos quarenta, te matamos”. Os “nascidos nos quarenta” eram o que dizemos ser “a nossa” geração, as pessoas que começaram a se despontar, nas artes e nas liberdades, na década agitada dos sessenta, sob os sons da bossa nova, a nostalgia do choro e o tumulto da jovem-guarda, aqui, e dos Beatles, no mundo.

Aquele janeiro de 1982 ainda vivia sob os rigores da ditadura – ainda que a anistia já mostrava resultados desde o setembro anterior. A morte de Elis foi um marco não apenas de dor e lamentos, mas o símbolo de uma chave que começava a fechar um período para abrir o seguinte, mudando o país. E o Brasil se agitou em comoção, a Pimentinha se calava mas deixava no acetato e nas mídias seguintes a imortalidade de sua voz.

Foram muitos os “nascidos nos quarenta” que “saltaram do bonde em movimento” ou, no dizer de Rolando Boldrin, “despediram-se antes do combinado”. Nara Leão, Gonzaguinha, Torquato Neto... Ih, muita gente! Tanta gente que, com a média de 70 anos de idade, aquela geração vem se rareando na vida brasileira não só pelo silêncio que a velhice sugere, mas por não mais “ocupar lugar no espaço”.

Este final de semana, o feriadão do Dia do Trabalho, trazia já a tensão dos conflitos nas ruas, com a ação de vândalos oportunistas e a repressão severa e desmedida, proporcionada por policiais despreparados – ou afoitos, ou ansiosos, ou doentes mesmo. A vivência sugeria um noticiário de acidentes e mortes no trânsito das ruas e das estradas, os abusos de velocidade e do uso de bebidas e de drogas.

Belchior (foto colhida na Internet)
A surpresa veio do sul, na manhã de domingo. Morreu Belchior, o cantor das letras poéticas, autor de letras e melodias, o poeta culto e diverso, que não se preencheu só de canções, mas praticou leituras várias, exerceu a poesia e produziu peças de artes plásticas.

Era um dos preferidos de Elis, de Bethânia... E era ele amado por nós, ouvintes ansiosos e exigentes. O moço que se definiu “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes”, o moço que fez a Transversal do Tempo e disse de nós que “apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.


Queria escrever sobre Belchior, contar coisas dos encontros relâmpagos, de sua estada (nessa eu fiquei de fora) em Catalão, num sempre lembrado encontro de poesia e poetas promovido por Vicente Humberto, homem de versos e de cálculos, que o poeta Valdivino Braz gosta de recordar, qualificando o autor de Velas do Mucuripe como um expert em Vladimir Maiakóvski.

E por não conseguir falar de Belchior, valho-me dos versos recém brotados da lavra e do talento de uma querida confreira – Sônia Elizabeth Nascimento Costa:

 

Um dia Belchior se ausentou, de forma provisória.

De vez em quando os poetas, os loucos, se ausentam. É preciso.

Todos procuram onde andarão os poetas, os loucos, os do verbo expandido.

Todos querem saber de seus passos, seus caminhos. 

Provisoriamente se ausentam. É assim.

Chega um dia, porém, inevitável, 

em que os poetas, os loucos, se ausentam em definitivo. Também por que é preciso.


Sônia Elizabeth, poeta.

Sônia Elizabeth falou por mim. Um beijo, minha querida!


Luiz de Aquino

 



domingo, abril 30, 2017

Greve geral em Goiás



Viva essa vagabundagem!


(Fotos colhidas na Internet, de arquivos de O Popular e TV Anhanguera)


A nação brasileira não aguenta mais! A reforma trabalhista, sobre a qual Michel Temer diz ter havido “um amplo debate no parlamento” é desconhecida por nada menos que 70% dos associados à FIESP. Pasmem! A coisa foi empurrada goela abaixo, sob a batuta do ministro que defende o sistema bancário, e os deputados votaram conforme seu fisiologismo.

Três ministros do STF já votaram por conceder liberdade a alguns corruptos presos em decorrência do Mensalão e da Lavajato, Nenhuma surpresa – Gilmar, Lewandovski e Tofolli posam de “libertários” (entre os agraciados, José Dirceu).
Sequência de fotos mostra que cassetete de PM quebrou durante agressão ao estudante Mateus Ferreira da Silva (33 anos), em Goiás (Foto: Arquivo pessoal/Luiz da Luz)
Há quantos anos acompanhamos as vidas dessas pessoas? Lula e seus mais chegados; sua cria Dilma, seu antecessor FHC com a pose principesca e o outro Fernando, o play boy brasiliense nascido no Rio, criado em Alagoas; o clã de Sarney, que – dizem – saqueou o Maranhão (e o Amapá deve estar incluso também), seu assecla Jucá, que espolia o menor Estado (Roraima); o chefe da tropa-de-choque de Collor, Renan, e o escroque carioca Eduardo (o que devemos esperar de seu sucessor, a esta altura, quando não podemos mais confiar em ninguém?).

Mateus é atendido pelos colegas, antes que chegassem os bombeiros

Bem! Recebi, na manhã deste sábado (29 de abril, 17), um texto produzido na véspera das manifestações, pelo Professor Cássio Diniz, como se vê:


Sobre os Vagabundos

Amanhã, dia 28 de abril, vagabundos de todo o Brasil participarão da greve geral em protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária. Ainda bem que existem vagabundos para defender os seus direitos. E, claro, os meus também. Afinal, os vagabundos tiveram papel importante na construção dos direitos em todo o mundo.

Foram vagabundos que, com as greves do início dos anos 80, forçaram os grandes empresários a apoiar a luta pela volta da democracia, pondo fim a uma ditadura de 20 anos. Eram também vagabundos aqueles hippies que iniciaram uma revolução cultural nos anos 60 e culminaram na emancipação feminina e no respeito ao direito das minorias. Naquela época, lá nos Estados Unidos, um pastor vagabundo liderou milhares de outros vagabundos pelo reconhecimento dos direitos dos negros e pelo fim do apartheid naquele país.

Por falar em apartheid, quem não se lembra do vagabundo que ficou preso na África do Sul por quase toda sua vida e que acabou derrubando um regime racista com suas greves e boicotes a produtos produzidos pelos brancos? Foram também vagabundos que, no início do século XX, iniciaram uma onda de manifestações na Europa e na América pelo reconhecimento dos direitos trabalhistas e pela redução da jornada de trabalho. Assim como as vagabundas que foram queimadas em uma fábrica norte-americana chamaram a atenção do mundo para a equiparação dos direitos femininos àqueles dos homens.

Foi em um 8 de março, mais tarde reconhecido como dia internacional da mulher. Se eu fosse lembrar de todos os vagabundos que lutaram e perderam a vida para que eu e você tivéssemos uma vida melhor, não bastaria um textão na internet. Eu precisaria escrever uma enciclopédia. Portanto, termino com uma pequena frase: ainda bem que existem os vagabundos! ” (Prof. Cássio Diniz). 


Ou seja, muitos são os que sentem no ar um cheiro de “revolução francesa”. A classe política não dá a mínima à opinião pública, o segmento do extremo à esquerda culpa a imprensa, os da direita jogam tudo no colo do PT – mas a nação está magoada, sofrida, injuriada! E essa gente desvinculada dos extremos é, sempre, quem paga por tudo.



Dá para sentir que o estopim está aceso. E não é, definitivamente, o cassetete de um capitão da PM goiana que apagará essa revolta, suprimirá ideais e impingirá silêncio ao grito que não nos cabe mais na boca.





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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 

quarta-feira, abril 26, 2017

Maestro Joaquim Tomás Jayme

Este artigo foi publicado na edição de hoje do Diário da Manhã (capa do caderno Opinião Pública), de Goiânia.



Joaquim Tomás Jayme, o
maestro da cidade


Por Luiz de Aquino



Era outubro ou novembro, 1979. As massas das ruas, pelo Brasil afora, com o apoio da Anistia Internacional e cantando como se fosse um hino a canção O Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, imortalizada por Elis Regina, pedia mudanças. O presidente era o quinto dos generais que se revezaram no “comando” durante os 21 anos do regime de exceção. E a Anistia chegou!

Chegou a Anistia e, logo após, um a um, os anistiados! Todos os dias, bandos de bons repórteres revezavam-se no saguão do aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, para receber os exilados e os clandestinos que retornavam à cidade. O Papa João Paulo II beijava o solo dos países visitados tão-logo desembarcava – alguns dos anistiados repetiam o gesto, mas todos se emocionavam e emocionavam-nos ao desembarcar. Sentíamos que o Brasil começava a mudar, e mudou!

O semanário Cinco de Março era a minha casa, na avenida 24 de Outubro, no bairro de Campinas (o berço de Goiânia). As idas ao aeroporto eram o momento de fazer fotos dos recém-chegados e também de marcar entrevistas – luxo típico dos semanários, já que os jornais diários têm pressa, a matéria “tem que sair amanhã”, e nós podíamos processar devagar qualquer tema.

Meu parente Jesus de Aquino Jaime, escritor virtuoso em prosa e poesia, ligou-me e disse: “Luiz, meu irmão Joaquim está chegando, quero que você o entreviste”. Contei ao Batista Custódio, que gostou da novidade – nós, do CM, éramos, sem dúvida, os que tratávamos melhor as entrevistas com nossos conterrâneos de regresso. Lembro-me bem daquela manhã, Joaquim e Jesus comigo, e eu escarafunchando a vida do parente ilustre! Joaquim Jayme é um dos três...

Bem: seu avô era Joaquim Tomás de Aquino, clarinetista na Banda Fênix, em Pirenópolis, lá pela virada do Século XIX. Três dos netos do pirenopolino Quim Tomás ganharam o nome do avô – Joaquim Tomás Lopes, Joaquim Tomás de Aquino Lopes e Joaquim Tomás Jayme (os dois primeiros faleceram antes do esperado). Em todos notei o orgulho de ostentarem o nome do avô – fato de que também me orgulho, pois aqueles antigos Aquino deixaram-nos, sim, belos exemplos.

O parente maestro sofreu o primeiro expurgo ao ter que deixar Goiânia – e daqui foi para Campinas (SP), onde atuou como professor universitário e deixou marcas. De lá, teve de deixar o país e exilou-se no Chile, como vários outros brasileiros. Mas em 1973 o golpe de Pinochet mostrou-se ainda mais sangrento que o havido no Brasil, nove anos antes. E o maestro Joaquim Jayme se foi para a Alemanha.

Voltando, ele atuou na Orquestra Sinfônica de Goiás, sendo um de seus maestros fundadores (ao lado de outro maestro pirenopolino, Brás Wilson Pompeu de Pina Júnior). Idas e vindas na história de música erudita em Goiás fizeram com que Joaquim Jayme fincasse pé na Secretaria de Cultura da cidade de Goiânia, sendo o maestro regente da Sinfônica de Goiânia, sempre.

Há alguns meses sofreu um AVC e está internado, em tratamento, no CRER, o nosso hospital de recuperação. Seu olhar pareceu-me o único meio de ligação com o mundo exterior, e nos passa duas sensações – ele está lúcido e triste.

Incomodou-me profundamente o sentimento que me impediu de ficar mais alguns minutos ao seu lado. Naquele olhar triste, acho eu, senti por ele. Senti que vivemos uma sociedade mal-educada, ingrata, indiferente. O homem que há tantas décadas ensinou Música e elevou bem-estar de multidões, enriqueceu corações e deu à capital de Goiás a excelsa condição de ter a sua orquestra sofre o menosprezo desse nosso povo.

Aliás, o povo e tudo o mais! O DM cuidou de produzir matéria jornalística (de Hélmiton Prateado), no afã de avaliar reações. Debalde (diria um velho mestre dos meus tempos ginasiais). Nem mesmo o meio literário, o das artes plásticas e, sobretudo, o da música se mexeu. Leda Selma, poetisa e presidente da Academia Goiana de Letras, pediu-me – “Luiz, você que é parente, visite-o em nome da Academia”.

Indigna-me tal indiferença! Fosse ele um deputado Eduardo Cunha ou um senador Renan, um batalhão de áulicos estaria pelos corredores do hospital na tentativa de aparecer como papagaio-de-pirata em fotos de jornais ou vídeos da tevê. Fosse ele um cantador sem estudo e sem domínio da Língua e da Teoria Musical, até vice-presidente da República estaria aqui (ah, essa figura não há mais! Menos mal...).

Ministros da Cultura e da Educação deveriam pedir notícias dele. Entidades como o Sindicato e a Ordem dos Músicos certamente não sabem notícias dele, caso alguém de longe ligasse para se informar. E o maestro mais ativo dentre os tantos contemporâneos – no que toca a representar Goiás – já está esquecido por sua gente.

Contudo, e para minha alegria, para gáudio deste poeta das mesmas raízes – telúricas e genealógicas – senti naquele olhar triste e silente uma qualidade que sempre o marcou: Joaquim Jayme mantém, contudo, a altivez do artista que teve a coragem de insurgir-se contra a ditadura, aceitou com bravura e determinação o exílio, retornou à terra trazendo mais conhecimento ainda e não se dobrou aos poderes.

Muito menos aos ingratos.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, abril 22, 2017

Os 70 anos do meu irmão



O tio Bené (o mais velho entre os três caçulas) à esquerda, tia Beti à direita - e tome cantoria "das boas"!




Festa em família


Feriado em cidade turística é inverso ao trivial nos centros maiores. Falo de Caldas Novas, onde os dias de folga atraem visitantes e a população flutuante se torna muito superior à massa residente. Com isso, há intensa atividade comercial e dos serviços públicos – em especial pelos que cuidam da segurança e da emergência.

Era manhã, nesta sexta 21 de abril, quando tomei a BR-153 para, logo, acessar a rodovia estadual que demanda a Caldas Novas (aqui em Goiás, a imprensa tem o péssimo hábito de dizer “gê-ó-duzentos-e-trinta e seis” sem dizer a tradução desse código, como se cada leitor, ouvinte ou telespectador soubesse de cor essas cifras dos órgãos de construção e gestão das estradas). Pouco depois de deixar Piracanjuba, peguei trânsito intenso e lento, algo no ritmo dos 60 km/h – ou menos – e somente após uns 40 minutos apareceu a causa – uma batida de quatro veículos, que ficaram sem condições de trafegar.

Cheguei à terrinha natal pouco antes do meio-dia – chovia um chuvisco constante, que exigia ligar e desligar o limpador do para-brisa. E cheguei para surpresa do meu irmão Edmar, aniversariante de 70 anos neste domingo, 23 de abril. Disse-lhe “não poderei vir para o seu aniversário, então vim lhe dar meu abraço”, ao que ele emendou “Ah! então fique até domingo”. A surpresa deu certo – ele só percebeu que festejávamos com antecedência quando outros começaram a chegar.

A ideia da antecipação foi da Leda, filha mais velha do Edmar e da Irani. E logo chegaram nosso irmão mais novo, o Ângelo, apelidado de Xiu (não me perguntem), e a outra filha, Regina. E os netos, um bando de sobrinhos e primos, e ainda nossos tios Geruza e Benedito (irmãos de nosso pai). Tia Geruza não conseguiu, em momento algum, atender aos nossos pedidos para que cantasse: ao violão, o tio Bené, lembrava meu avô (que se foi sem pedi licença, aos 78 anos) e de meu pai. E cantamos, todos juntos, canções compostas por eles. Era a alegria pelo encontro, mas com a tristeza da saudade sem solução – e reafirmo que somos todos masoquistas.

Tia Geruza: a emoção trava a garganta... 

Faltaram nossas irmãs – Eliane ficou em Goiânia e Auxiliadora em Uberlândia, cada qual envolvida com suas coisas de vida. Bené, o primeiro dos meus tios caçulas (são três os meus tios mais novos que eu), disse-me que todos os dias, ao se levantar, “conversa” com seu irmão mais velho (meu pai, falecido em 2011), pedindo-lhe: “Israel, ajude-me a tocar tão bem quanto você”. A tia Beti, viúva do Rui, dá-se ao luxo e nos dá a alegria de sua voz bonita, afinadíssima e imutável! E ali estava ela com quatro gerações – filha, netos e bisnetos!


O selo Boteco Aquino é para que nenhum
vereador, em qualquer lugar do Brasil, me
encha paciência. Somos, sim, de boteco.

Edmar, meu irmão mais velho (entendam: eu sou o primogênito, ele veio logo em seguida, ou seja, ele é o mais velho dentre os meus irmãos) marca, pois, 70 anos! E o tio Bené já anuncia, para 2018: “Quero comemorar o meu Ano 70 lá em Pirenópolis”.


Olhei meu irmão, sem comentar nada. Seus cabelos, mais brancos que os meus, eram claros como os de espiga de milho, loiros na infância, castanhos na juventude e precocemente grisalhos e, enfim, brancos, bem antes que minha cabeça se tingisse de cinzas. Recordei nossas brigas de infância, nosso exílio de adolescência no Rio de Janeiro, com nossa avó, tios e tias da banda materna. Nosso retorno a Goiás – eu fiquei em Goiânia, ele escolheu Caldas Novas; revi os nascimentos de nossos filhos – enfim, este nosso envelhecer em torno da casa da família maior, sempre agregando nossas próprias proles e companheiras...

Um beijo, meu irmão! Sabemos, agora, que o tempo é curto. Aproveitemo-nos mais vezes!

Edmar é o da direita. Entre nós dois, o caçula dos homens - Ângelo (ou, simplesmente, Xiu).


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, abril 14, 2017

Diretas-Já em Goiás, por Iuri Godinho

Iuri Godinho conta: 

O jornalista Iuri Rincon Godinho, membro da Academia Goiana de Letras, autor de Diretas Já em Goliás. 



Diretas Já em Goiás



Um dia, o Brasil parou para ver Goiás. Era 1984, vivíamos um tempo em que as mudanças não podiam mais ser adiadas. O próprio Partido Democrata Social, PDS (nome novo para a Arena, Aliança Renovadora Nacional), sentia que seu valor na avaliação popular estava mais baixo que ação da Petrobrás após o escândalo das propinas. O segundo partido era o PMDB (ao nome Movimento Democrático Brasileiro, antepôs-se a palavra Partido – antes proibida pelos militares, e agora exigida).

O sonho “votar para presidente” incendiou o país como um rastilho de pólvora em torno de um imenso tanque de gasolina. Um jovem deputado federal de Mato Grosso, Dante de Oliveira, apresentou uma emenda constitucional para restaurar o voto direto, que o Congresso, manipulado pelo comandante da República, conseguiu evitar. Meses depois, o mesmo Congresso elegeu, por voto indireto, o candidato que o povão teria elegido na eleição direta.

Os primeiros anos da década de 80 foram marcados pelas decisões das massas, em todo o país, pelas mudanças – e as queríamos já!

Havia - para nós, goianos – um fator fortíssimo para nos mobilizarmos no empenho pelas Diretas-Já, naqueles anos de 1983 e 84: a eleição fragorosa do governador Iris Rezende Machado, em 1982 e as expressivas figuras dos senadores Henrique Santillo, pela sua verve e coragem oposicionista, e Mauro Borges, um ícone desde 1961, quando enfrentou os generais que pretendiam impedir a posse do vice-presidente João Goulart quando da renúncia de Jânio Quadros.

Iris era, mesmo, o grande capitão. No dizer de Tancredo Neves, “é só o governador assobiar que o povo (goiano) atende correndo”.



Mas estou chovendo no molhado. Toda essa minha fala é, na realidade, para contar do último feito do meu amigo e confrade acadêmico Iuri Rincon Godinho, jornalista e poeta. Há poucos dias, ele lançou o livro “Diretas Já em Goiás”, no qual ele narra, em ótima linguagem jornalística, o fato da mobilização em Goiânia, considerada “a maior mobilização popular no país, em termos proporcionais”, daquele 12 de abril de 1984.

Para nossa vergonha, algum segurança barrou o compositor Braguinha (João de Barro), autor de Carinhoso e As Pastorinhas, de subir ao palanque – ele viera de Brasília especialmente para cantar no comício, no palanque em que reinou Fafá de Belém ao cantar o Hino Nacional Brasileiro à capela, com um arranjo especialmente feito para ela.


O livro de Iuri é, para mim, um dos melhores livros jornalísticos que já li – e já li muitos, e muito bons! Ele tem não só a competência técnica que se exige de um bom jornalista – técnica em que se incluem conhecimentos de História, de Geografia, de “realidade regional” (apelido que os professores criaram para suprir carências na formação básica), com forte percepção política e sociológica dos fatos. A isso, acrescente-se o indispensável talento literário de Iuri Rincon Godinho, do que resultou um texto conciso, mas límpido e claro, “com molho e tempero”, como diria Brasigóis Felício.



Justo por isso, o nonagenário romancista, político e jurista, membro efetivo e ex-presidente da Academia Goiana de Letas, Ursulino Leão, discursou, menos de 48 horas após o lançamento de Diretas Já em Goiás, em sessão ordinária da AGL, exaltando o feito do confrade, conclamando seus pares a fazerem como ele, que leu “de uma só sentada” todo o livro.

Faço coro ao confrade Ursulino:

– Leiam, caríssimos leitores! Vale a pena!


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.