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domingo, setembro 17, 2017

Versos e vida


Versos e vida


Certa vez, famoso político local convidou a Goiânia a fina-flor (?) de seu partido e, numa festança badalada nos salões do mais festejado hotel da cidade, lançou um livro, sob tema político, engalando as ações de seu partido e banalizando os adversários e as ideias que não se alinhavam nas propostas (eles dizem “programa”) da sua agremiação.

Em dado momento – e sequer considerando um grande número de escritores, especialmente poetas, na plateia – dirigiu-se ao “elenco” (políticos e economistas inventaram até um verbo, elencar, para significar “fazer lista de qualquer coisa”) dos “cartolas” dos votos e das vis promessas, como que os consultando:

– Digam-me os senhores, será que eu faço algo de importante, mas algo realmente muito importante, ou estou aqui repetindo o que fazem os escritores e os poetas, apenas lançando um livrinho comum?

Bom, é claro que eu estava lá. Sentava-me entre dois poetas que gostavam de receber os perdigotos dos políticos, desde que, com o “spray” da baba, conseguissem alguma verbinha (insignificante para os políticos, mas expressivas para os baba-ovos, como salários elevados em troca de pouco trabalho e viagens por alhures, sem que sua economia doméstica ficasse combalida).

Recentemente, presenciei um profissional coleguinha (jornalista, para quem não me conhece) entrevistando um figurão em voga – inevitavelmente, um político desses que, nos últimos dias, vemos “elencado” entre os oportunistas sem escrúpulos que assoreiam os gabinetes e comprometem os filões das medidas que solucionariam os problemas sociais e permitiriam melhor qualidade de vida para a ignara massa votante.

Incrível! Lembrei-me de Chico Anísio, num tempo em que ele fazia comentários aos domingos, no Fantástico. O governo resolveu sobretaxar os produtos considerados supérfluos e Chico, na sabedoria que fez dele o mais notável dos nossos humoristas, deixou bem claro que os cosméticos, as bebidas “de espírito” (uísque, pinga, cerveja e congêneres) não eram supérfluos para as famílias dos trabalhadores que viviam da produção agrícola que subsidiava a indústria, nem para as dos empregados nos transportes, nem para os comerciantes etc. – e teceu outros exemplos assemelhados.

Volto à entrevista com o “notável” escroque que já está entre os alvos da Operação Lava Jato (devia ser Lava-a-Jato, uai!). Em dado momento, o entrevistado chegou a qualificar como sem utilidades coisas como a preocupação com a Educação e, ainda mais, com as coisas da Cultura.

Parei para pensar e analisar, e não consegui evitar a analogia com o nosso deputado-escritor que receava “repetir os escritores” porque fizeram um livro que poderia ser “desimportante” como os livros que nós, poetas e ficcionistas, fazemos “à mão cheia”.

Ora, ora... Já produzi mais de vinte livros “inúteis”, já estimulei dezenas de novos escritores, já promovi incontáveis poetas e amo por demais gastar meu tempo curtindo e aplaudindo os coleguinhas músicos – instrumentistas, cantores, compositores, arranjadores – em suas ações.

Ou seja, eu sou um produtor de inutilidades e aplaudo, com força de músculos e alegrias de coração, as inutilidades em cores e formas, sejam em telas ou esculturas, aprecio sentir qualidades em textos de teatro e cinema, de novelas e xous – essas inutilidades que fazem de nós seres diferentes dos irmãos ditos irracionais, mas também filhos do Pai Criador.

Tenho respeito por alguns políticos, sim! Há trigo nesse joio... Mas antes e sobretudo, são coisas “inúteis” que fazem de nós, produtores e fazedores de arte, diferentes deles – esses políticos tão úteis e, agora, enquadrados entre os que, no tempo certo, verão o sol nascer xadrez.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, setembro 03, 2017

Uniformes e disciplina


Os primeiros uniformes escolares, no Brasil, surgiram em 1854, no Pedro II.



Uniformes e disciplina



Quando ingressei no curso ginasial (era o tempo em que havia o famoso Exame de Admissão), os uniformes copiavam os fardamentos militares. Muitos anos depois, pesquisando sobre o tema, vi que foi na década de 1850 que o Imperial Colégio de Dom Pedro II adotou uniforme, seguindo justamente os padrões militares.

Este aluno de 1958 sou eu.


Em 1958, o mesmo colégio, que desde 1911 se chamava simplesmente Colégio Pedro II, adotava novo uniforme, menos “pesado” que a farda cáqui (calça e túnica, camisa branca e gravata preta; para as meninas, saia e dólmã também cáqui – mas com o colo totalmente fechado). Instituiu-se, para os ingressos naquele ano, o uniforme de calça azul em tecido tropical, camisa bege (militar, de paletas nos ombros e dois bolsos tampados) e grava azul marinho, como a calça. Para as meninas o mesmo tipo de camisa, com gravata e a saia azul, com a barra abaixo dos joelhos.


Em 2007, propus à Academia Goiana de Letras que realizássemos uma sessão nas dependências do Liceu de Goiânia – estabelecimento secular, fundado em 1846, na antiga capital. Naquele ano, festejamos os 70 anos do Liceu em Goiânia. Ao chegarmos ao pátio, a confreira Ana Braga, no pedestal de sua história de vida – então, cerca de 85 anos, professora desde a adolescência e que, na década de 1940, fora nomeada por Pedro Ludovico justamente para lecionar no Liceu - notou que os alunos não usavam uniformes. Chamou ao lado a então secretária – e ex-diretora, professora Márcia – e lhe recomendou: “Se a senhora quiser melhorar a qualidade do ensino, exija uniforme completo. A educação, na escola, começa com a disciplina e o uniforme é o primeiro item”.

Ficamos sabendo, então, que uma ordem judicial forçou o tradicional colégio goiano a liberar o uniforme, sob o argumento de que o alunado se formava de meninos pobres. O resultado não poderia ser mais desastroso – microssaias e “tops” tomaram conta da preferência feminina. E paro por aqui para não entrar em informes digno do “mundo cão”.

Dez anos após, tomo conhecimento de que o Ministério Público estadual pressiona os gestores escolares para não exigirem uniformes. Alegou um promotor que “não existe tal exigência nas regras da Secretaria da Educação”. Ou seja, o que nos parecia óbvio e decidido pela gestão de cada estabelecimento ganha “status” de crime (“de responsabilidade” ou de “abuso de autoridade”?), aos olhos dos promotores e juízes.

Lembrei-me de fato correlato, na última década do século passado, numa escola particular, em Goiânia. Um promotor de Justiça decidiu que ele e sua mulher educariam o filho único – não o queriam “misturado” a meninos de famílias comuns. E entrou na Justiça pleiteando tal direito, coisa que o juiz indeferiu (felizmente, era um juiz sensível à formação dos cidadãos).

E ocorre-me, também, a onda de militarização das escolas estaduais de ensino fundamental e médio. Nada contra o direito de a Polícia Militar ter sua escola, mas toda uma rede, com cerca de 30 estabelecimentos? (por que não também os bombeiros?).

Sempre entendi que a Polícia Militar é uma instituição, ou corporação, com fim precípuo, fortemente definido como organismo de segurança pública. A educação deve ser afeita exclusivamente à Secretaria da Educação. Só que a sociedade goiana se convenceu de que as escolas da PM são ótimas – e de fato o são –, enquanto as civis pecam pela indisciplina que resulta em agressões de meninos estudantes a funcionários e professores.

“Nós fracassamos, demos atestado de incompetência”, disse-me um professor dentre dezenas ou centenas com os que procuro sempre discutir o tema. Nas escolas da Polícia Militar a disciplina é levada a sério e o uniforme é uma exigência básica – e os promotores e juízes não mexem com eles.

Resumindo: a falseta de eleições para dirigentes escolares, item simpático às práticas democráticas, tornou-se balão de ensaio para quem sonha com a carreira política – afinal, um salário e as regalias de vereador são coisas muito distintas da realidade educacional. E essa onda de “politicamente correto” abraçada por promotores que preferem bem mais os holofotes da mídia resultam na oficialização da indisciplina nas escolas.

O resultado é terrível!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, agosto 25, 2017

Os pássaros, o saber e o trabalho

Os pássaros, o saber e o trabalho



Recebi da professora Mara Rúbia (da Rede Municipal de Ensino, Goiânia) o seguinte texto:


“Já era quase viração do dia quando Deus observava aquela cena: duas professoras dando água na colher para uma pequenina ave. Não era nem Primavera nem Verão – quando dizem que é comum as aves jovens caírem de seus ninhos –, mas a frágil avezinha estava lá, na Escola, que não tem um belo jardim cheio de rosas. Lembrei-me – “Olhai as aves do céu”... Fiquei sensibilizada, achei aquela cena interessante e admirável - uma pequena ave, um copo com uma rosa vermelha e duas professoras alimentando quem queria se alimentar. Diferentemente do pequeno homem que na escola rejeita o alimento-saber. Quem deveria ser mais sábio? O homem ou a ave?

No livro O Futuro da Humanidade, Augusto Cury nos remete à seguinte reflexão – ‘Mais sábios que os homens são os pássaros. Enfrentam as tempestades noturnas, tombam de seus ninhos, sofrem perdas, dilaceram suas histórias. Pela manhã, tem todos os motivos para se entristecer e reclamar, mas cantam agradecendo a Deus por mais um dia’. Tanta sabedoria tem um porquê: certamente as aves aprendem em cada voo pelo mundo. E Mário Quintana dizia que os pássaros alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. Penso que pelo menos partem cheios, satisfeitos, saciados.

Imaginei como ficariam as mãos das professoras após a partida do pequeno pássaro! Não se sentiriam vazias, pois o alimento foi consumido. Naquele momento as duas foram árvores para aquele passarinho, o destino dele estava em suas mãos. Vendo aquele pequeno pássaro, fiz analogia com nossos “pássaros pequenos” que não sentem a mínima fome do saber, tampouco desejam alçar voos. Mas, como o sabiá que canta sem esperar quem o escute, ensinemos. Eis que alguém, um dia, irá voar... (Mara Rúbia)”.



Muito bem concebido, professora Mara Rúbia! A analogia é das melhores. O pássaro que as mestras alimentaram voltou à sua rotina, ao seu “habitat”, à sua natureza. Mas dar de mãos humanas o alimento ao pássaro é gesto caritativo, humano; para mim, a cena ensina (perdoe-me pele eufonia sibilante) que devemos ser solidários, mas que se o gesto cristão – ou melhor, o gesto humano – nos emociona e engrandece quem o pratica, o beneficiário segue seu caminho já esquecido da dádiva:  a chance de voltar à vida.

Dar alimento ao animal ferido é, pois, ação humana; até mesmo outro animal da mesma espécie ignoraria a infausta ave caída. Ele, o passarinho, aceitou a água sem compreender que era alvo de uma ação humanitária, solidária. O gesto das mestras despertou em você um sentimento de Primavera ou Verão, vendo na rosa em um copo um completo jardim. O jardim, Mara Rúbia, existe mesmo, mas ele não está no rigor do Inverno nem na áspera transfiguração outonal: existe no seu coração de emoções, esse coração de que tratam os poetas.

A sabedoria não é dos pássaros, nem dos macacos, nem das minhocas ou dos leões; a sabedoria é das pessoas que compreenderam ser fundamental alimentar o animalzinho ferido, como insistem em pôr a água do conhecimento nas mentes dos pequeninos inquietos. Esse não-querer que você destacou nos pequenos humanos ante o aprendizado é efêmero e há de ser contornado; as crianças têm, sim, desejo de saber, mas o que deve estar em desencontro é que nem todos os professores querem dar dessa água aos pequeninos pássaros humanos.

Não entendo como sabedoria o fato de os pássaros reagirem, sobrevivendo, às tempestades. O homem fez e faz muito mais, sempre. Não há sabedoria nos pinguins que navegam banquisas no caminho das correntes marinhas que buscam o Norte e, à medida que o gelo se reduz a some, nadam na mesma corrente em busca de regiões menos frias – isso é o instinto. É como mariposas circulando lâmpadas. Como não há sabedoria nas andorinhas que migram do rigor dos Invernos em busca dos Verões no hemisfério oposto.

Mas quanta sabedoria no seu coração de mestra! E que olhar o seu, capaz de colher imagens que se tornam poemas!


(Crônica publicada em maio de 2013. Gostei de relê-la e decidi trazê-la outra vez).




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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, agosto 19, 2017

Espaço José J. Veiga, há 10 anos no SESC




No SESC, há 10 anos...


Foram quase oito anos de andanças e pedidos, de portas-na-cara e más-vontades de todas as nuanças. Eu cuidava, desde os primeiros dias após seu desenlace, de instalar com dignidade e boa evidência os livros e objetos que constituem o acervo literário do amigo e autor exemplar José Veiga (para o mundo, há um jota-ponto no meio), como era de sua vontade.

José J. Veira, na pena talentosa de Almir
Ao lado, a amiga Dênia Diniz de Freitas, bibliotecária, incansável e competente, minha orientadora em todo o processo. Foi ela quem, coadjuvada pela filha Marina (então com 12 anos), inventariou todo o material que simplificamos ao chamar de “o acervo”. Do governador Marconi Perillo, naquele marcante 1999, ouvi o compromisso simplificado “Conte comigo”. E Nasr Chaul, presidente da antiga Fundação (que se tornou Agência) Cultural Pedro Ludovico, fez a sua vez. Trouxemos do Rio de Janeiro a “encomenda” e a instalamos numa sala da Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco, da Academia Goiana de Letras, com o apoio do presidente da época, o confrade José Fernandes.


Dona Clérida, a companheira de meio século!

Viagens e mais viagens, visitas e consultas, audiências e conversas informais... uma canseira! E um receio incômodo de “morrer com o mico”, como no antigo jogo infantil. Até que, num flash, naquele abril de 2007, ao deixar o Lucas (então com quase 12 anos) no Colégio SESC Cidadania, eu disse à Mary Anne: “Já sei onde instalar o acervo do Veiga”. E apontei a belíssima estrutura arquitetônica que, mais que isso, era aquela escola que homenageia o saudoso Elias Bufáiçal.

Chegando à casa, liguei para o número de José Evaristo, presidente da Fecomércio goiana. Atendeu-me sua alma-gêmea, a poetisa admirável e amiga especial Sônia Maria Santos. Falei-lhe de minha ideia e já ganhei seu apoio. Liguei para o marido, que já saíra para o trabalho. “Luiz, não sou eu quem lhe dará a resposta, mas você a terá em 15 minutos”. Foram apenas quatro minutos, e ligou-me o Diretor Geral do SESC em Goiás, o também amigo Giuglio Cysneiros:


José Evaristo, a poeta Sônia Santos e Giuglio Cysneiros.
– É verdade que você quer nos dar um presente?

No dia seguinte, reunimo-nos, Giuglio e eu, na Casa Altamiro, da AGL. Ele se fazia acompanhar da equipe de bibliotecários. Avaliaram o que viam, anteciparam sua anuência em receber o presente, e assim se fez. Em pouco mais de 24 horas, a solução começava a ganhar forma.


Bibliotecárias Ana Maria (do SESC) e Dênia Diniz (que organizou o inventário).

Foram menos de cinco meses. Em dias finais de agosto daquele 2007, ligou-me o Cysneiros para contar que “está tudo pronto”, mas que estava proibida a minha visita ao local antes da inauguração. Fui ao Rio, convidei o imortal (da Academia Brasileira de Letras) Antônio Olinto – o primeiro crítico de Veiga, em 1959 – para vir a Goiânia e presidir a solenidade. Ele veio, com sua inseparável secretária Beth Almeida. Dênia veio de Belo Horizonte. Ajudaram-nos a acolhê-los o secretário municipal de Cultura, meu confrade e amigo, irmão e padrinho Kleber Adorno, e o prefeito Iris Rezende Machado regozijou-se por poder receber Olinto, seu velho amigo.

Na noite de 5 de setembro, na Biblioteca do SESC na Rua 19, deparei-me com a surpresa: a montagem da sala que se chamou Espaço José J. Veiga ficou impecável! E para meu regozijo, uma bela placa contava, sumariamente, a razão de tudo aquilo.


Dênia (à esquerda), a cerimonialista, eu e Giuglio, no Centenário de José J. Veiga.
Hoje, a Biblioteca está em novo espaço, na Rua 15, ao lado do Teatro SESC, ainda mais bonita e, com ela, o Espaço José J. Veiga. E já beiramos o décimo aniversário. Há dois anos, e justamente ali, recebemos Carla e Gabriel Martins, sobrinhos herdeiros do escritor, para os festejos do Centenário de José.

Sou grato ao SESC e seus dirigentes, meus amigos diletos, pois foi ali que encontrei guarida, com zelo e competência – e isso justifica a presente memória. E estou certo de que Veiga e Antônio Olinto também, de onde estiverem, abrem-se em sorrisos de gratidão.


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Fotos do meu acervo.




Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


quinta-feira, agosto 17, 2017

Emoções da Caminhada

Emoções da Caminhada, ainda...



Sempre me intriguei com as medidas. Elas, ainda que traduzidas num mesmo número, mostram-se variáveis, nunca são iguais.

Explico (ou tento): tomo por base a largura da minha rua, de muro a muro, o de cá e o do lado oposto. Sei que são 12 metros, aproximadamente, e noto que se trata de uma estreita faixa entre as construções. Certa vez aprendi que rua não é só a faixa onde transitam os veículos, mas incluem-se as calçadas, isto é, a rua é integrada também pelos imóveis edificados, daí não ser correto dizer que certa casa ou edifício está “à rua X”, mas sim “na rua tal”.

Bem, eu falava de medidas e não de conceitos. E disse dos 12 metros horizontais que são a largura da minha rua. Ocorre-me que a mesma medida, na linha vertical, parece ser bem maior, tanto para quem olha do alto ou ao que avalia de baixo para cima.

O mesmo se dá com a medida do tempo. “Daqui a 15 dias” (ou dez anos) é algo distante, remoto, em dadas circunstâncias parece algo inalcançável – mas o mesmo tempo, quando referente ao passado, torna-se algo bem menor. O que está por vir pode nos causar ansiedade, mas o passado mostra-se pequenino.

Tudo isso para chegar, uma vez mais, à tradicional caminhada, como que romaria, de Goiânia a Aruanã, nos meses de julho de todos os anos, há 26 anos. Desta vez, sem que eu jamais me imaginasse naquela troupe, vi-me envolvido! O professor Antônio Celso, coordenador técnico da caminhada, envolveu-me emocionalmente ao contar coisas de sua experiência com os “andarilhos da natureza”.

O foco da nossa conversa era a casa de Dona Maria do Uru, mãe do meu saudoso amigo João Batista Rodrigues de Morais. Viajei ao passado, há uns 40 anos idos, e achei muito pouco aquele tempo. Aceitei seu convite para estar com os atletas e equipe no momento do almoço da quarta-feira, o segundo dia da marcha, justo na fazenda Uru, à margem do rio do mesmo nome, à beira da GO-070, a Rodovia Jaime Câmara.

Aquele período de poucos dias entre o convite e o feito pareceu-me uma eternidade. Alcancei o grupo a poucos quilômetros da ponte do Uru e já, já paramos o carro diante da casa. Emocionei-me ao encontrar pessoas queridas que não via há mais de três décadas! Eram Mariquinha, Izabel, Sônia, Marcelo... muitas lembranças, referências a pessoas queridas e ainda mais emoção quando os andarilhos chegaram, ao inaugurarem a placa (a matriarca falecera em abril, isto é, há cerca de três meses) e ao trocarem as prosas no intervalo de um ano.

Valeu viver aquilo! Surpresas, alegrias, lembranças... E a tradição iniciada pelo Cristo, isso de se reunir para a refeição, o prazer dos sabores e da boa conversa. Gostei muito de conhecer Paulo Lacerda, o coordenador geral da histórica empreitada de todos os anos, “o homem d’O Popular”, liderando uma expressiva e competente equipe da qual depende todo o êxito da logística indispensável.

A mim, não bastava apenas emocionar-me no reencontro de bons amigos de um ontem distante. O pensamento é, nessas ocasiões, ágil veículo de outra viagem, de partida e chegada instantâneas, essa que nos conduz à mocidade e causa reencontros que só a mente define. Lembrei-me do patriarca criador da (antes) Organização, hoje Grupo Jaime Câmara – um homem de visão empresarial, expert em comunicação, mas diletante na arte apreciável dos que nasceram para servir.

Olhei em silêncio meu interlocutor Paulo Lacerda... Compreendi a harmonia entre ele e o mestre Antônio Celso, a liderança saudável que proporciona segurança a cada um daqueles 29 atletas e revi “seu Jaime” – capaz de firmar-se líder naquele silêncio dos sábios.

Três dias depois, no sábado, aguardei com uma feliz ansiedade a matéria nos telejornais, atestando o que todos esperávamos – a caminhada chegara ao seu destino com todos os itens planejados já realizados. Restou somente a renovação do sonho para a próxima.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, agosto 13, 2017

Lírios e Orquídeas

Leodegária de Jesus, na arte de Amaury Menezes


Lírios e orquídeas

Estive em Caldas Novas para contar e convidar para festejar – afinal, era 8 de agosto, o aniversário de Leodegária de Jesus, a poetisa pioneira de Goiás. Por 48 anos (1906-54) somente ela, dentre as mulheres versejadoras, publicara livros de poesia em Goiás. Nasceu na vila de Caldas Novas da Rainha (era assim que ela se referia ao vilarejo) em 1889, viveu em Jataí, Rio Verde e na Cidade de Goiás. Depois em Catalão e de lá para Minas – Araguari, Uberlândia e Belo Horizonte. Houve ainda breve passagem por Rio Claro, SP.
Com a decidida participação da bibliotecária Helena Carvalho, da presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, a musicista Stella Fleury, da secretária de Cultura Profa. Ms Gabriela Azeredo Santos e da radialista e acadêmica de Letras Naftali Gomes, pude curtir um dia em que proferi três palestras e concedi três entrevistas - ao radialista Tomatinho, ao âncora da TV Caldas Juscelino Silva e ao casal amigo Adriana Martins e Tyrone Saunders.
À mesa-redonda na Biblioteca Professor Josino Bretas compareceu o vereador Léo de Oliveira, contanto que tem pronto um projeto para instituir, a partir da Câmara Municipal, a data de 8 de Agosto como o Dia Municipal do Poeta e outras providências – com ênfase para a Comenda Leodegária de Jesus, destinada a personalidades de realce no meio cultural de Caldas Novas.
Listam-se em Caldas Novas alguns nomes expressivos da nossa história, como o do fundador Luiz Gonzaga de Menezes. Em algum momento, foi ensinado nas escolas que o tabelião Orlando Rodrigues da Cunha fora o primeiro professor da cidade – mas há aí um equívoco, pois José Antônio de Jesus, sim, pode ter sido o primeiro mestre em nossa terra.
Coroa de Lírios foi publicado em 1906
Como já narrei noutra crônica, a adolescente Leodegária produziu poemas suficientes para enfeixá-los em livro. Coroa de Lírios, o livro de estreia, foi lançado em maio de 1906, três meses antes que a autora completasse 17 anos. O libelo foi enviado a críticos literários de jornais pelo Brasil afora e assim obteve a mocinha expressiva fortuna crítica (gosto de destacar o fato de que Osório Duque Estrada, o autor do poema do nosso Hino Nacional, foi um dos que se manifestou sobre a obra).
As análises dos poetas-críticos levavam em conta a pouca idade (e, obviamente, pequena experiência) da menina poetisa. E a única restrição se fazia ao fato de que, em tempos de despertar-se o modernismo, ela escrevia na linhagem do romantismo e do parnasianismo – o que é facilmente explicável: as naturais condições da comunicação da época e a escassez das obras disponíveis mantinham as dificuldades de acesso às novas práticas.

Ganhei da profa. Darcy França Denófrio o Orquídeas, que foi publicado em 1928.

Seguiram-se anos de dificuldades para a família. A poetisa formou-se professora e aprendeu a costurar, ofícios de que se valeu para manter a família ante a invalidez do pai (uma cegueira incurável). Por isso, somente em 1928 ela voltou a publicar – foi o momento de Orquídeas.


Somente em 1954 outra poetisa goiana – Regina Lacerda, vila-boense – surgiu em livro (o próximo livro foi de Yeda Schmaltz, em 1964 e, em 1965, surgiu Cora Coralina, amiga de Leodegária desde a primeira década do Século XX).
Estive, logo pela manhã, na Escola Padrão Século XXI, e à noite, na UEG. Pouco após meu retorno ao lar, no dia seguinte, recebi de Naftali Gomes a notícia de que os vereadores Léo Oliveira e Saulo Inácio apresentaram o Projeto de Lei 130 que, uma vez aprovado pelo plenário e sancionado pelo prefeito Evandro Magal, institui-se a data de 8 de agosto como Dia Municipal do Poeta em Caldas Novas, e a Comenda Leodegária de Jesus, destinada às pessoas que se destacarem na área cultural do município.
Em breve, espero festejar esse feito com meus conterrâneos.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, agosto 10, 2017

Anotações hodiernas



Anotações hodiernas



As semanas, parece-me, estão com apenas cinco dias. Tanto a fazer e tão pouco realizado, a cada dia alguns itens programados são adiados – ou apagados – e a perspectiva continua a mesma, sempre a nos cobrar mais agilidade, racionalidade, objetividade...

Convenhamos, porém, que os percalços são sempre o que nos dão alegrias. Contornar obstáculos, superar dificuldades e sentir que mesmo diante das pedras do caminho alcançamos nossos propósitos. Isso me lembra sempre o ensinamento antigo que compara a vida aos rios, que têm o mar por objetivo; no caminho há retenções, desvios e restauros, mas sequer a grandeza das montanhas inibe os cursos d’água. Em seu caminhar ocorrem a infiltração e a evaporação, mas o afluxo de outros caudais os fortalecem e o destino é sempre alcançado.

Brinco com essa ideia para contar aos leitores das minhas lutas. Talvez não tenham qualquer importância para muitos (ou todos), mas sei que elas são o tempero desta minha curta existência (sim, que sete décadas só parecem muito quando estamos no comecinho da caminhada; o tempo vivido, quando se olha para trás, mostra-se curto e tudo parece ter acontecido ontem).

Chegamos à segunda semana de agosto neste 2017 de tantas surpresas e decepções nacionais, contudo renovamos as esperanças a cada dia e mostramos nossa resistência – eles, os malvados, que se cuidem, já que o tempo é determinante e as mudanças virão – não necessariamente ao modo deles.

Falo de mim e conto que festejarei o dia 8, terça-feira, com a intenção de uma festa de aniversário – os 128 anos (sim: cento e vinte e oito anos) do nascimento da mais ilustre das mulheres nascidas em Caldas Novas e, sem dúvida alguma, em Goiás – a poetisa Leodegária de Jesus. Essa festa envolve minhas queridas amigas Gabriela Azeredo Santos e Stella Fleury, respectivamente secretária da Cultura (de Caldas Novas) e presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, bem como os membros efetivos da nossa ALACAN.

Claro, claro... darei notícias dessa festa.

Outro evento de boa monta será em Goiânia, dia 11 (sexta-feira), na Pizzaria Casablanca (Rua 3, em frente à Vila Cora Coralina, entre a avenida Tocantins e a Rua 31). Será o nosso segundo Sarau, com vários poetas já inscritos, sob a coordenação da poetisa Zanilda Freitas, auxiliada por mim e pelas Versejantes, as poetas Ana Cárita, Sônia Elizabeth, Rosy Cardoso e Sônia Prado.

A partir das 19 horas, estaremos lá para a cantoria e as declamações, com Itamar Correia, Maria Amélia Trindade, Lady Foppa, Sinésio Dioliveira, Carlos Edu (será que virá?), Antônio da Costa Neto e outros mais!

De resto, registro meu abraço de carinho ao secretário da Cultura de Goiânia, o poeta e acadêmico Kleber Adorno – um acerto do prefeito Iris Rezende na montagem de seu secretariado. Intelectuais e artistas goianienses (de nascimento ou de escolha) festejam a volta do Goiânia Canto de Ouro, do Festicine, do Chorinho às sextas-feiras no Grande Hotel e, em breve, a coleção Goiânia em Prosa e Verso.

Como se diz, “é vida que segue”!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.