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sábado, junho 24, 2017

Leodegária, a primeira poetisa de Goiás

Leodegária de Jesus, sob o crayon do mestre Amaury Menezes.


Leodegária de Jesus - II


Recentemente, a professora e poetisa Darcy França Denófrio conclamou-me a insistir em divulgar a poetisa Leodegária de Jesus, caldas-novense como eu, pioneira em Goiás no ofício dos versos e a primeira goiana a publicar livros de poesia (1906 e 1928). Lembrava-me de uma crônica... Ah!, é de fevereiro de 2013 e transcrevo-a aqui:


Cecília Meireles proclamou-se poeta, aplicando o masculino como genérico ou comum de dois, ao versejar 

Eu canto porque o instante existe 
e a minha alma está completa. 
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

 (Motivo, o poema). Não sei se a autora de Canteiros (os dois poemas ganharam músicas de Fagner) valeu-se apenas da liberdade poética para manter o ritmo e valer-se da rima, ou se, ao chamar-se de poeta, levantou uma bandeira feminista. O fato é que muitas poetisas, poetas e críticos de ambos os gêneros, em todo o Brasil, adotaram a forma.

 Leila Micolis poetizou, a respeito de si mesma: 

Poeta. 
Que em poetisa 
tudo mundo pisa.


Darcy França Denófrio, poetisa e pesquisadora

Quero contar aqui de uma poetisa goiana do Século XIX, Leodegária de Jesus. Nasceu em Caldas Novas, cerca de 100 dias antes que substituíssem o Império por esta República confusa que temos agora. Por isso, e porque a minha terra natal ainda não fora emancipada, não existe registro de seu nascimento lá, e os livros da paróquia tomaram rumo incerto. Ela própria é a fonte que afirmava ser caldas-novense, como o poeta Delermando Vieira. E a professora Darcy França Denófrio é a maior estudiosa – portanto, autoridade indiscutível – sobre a vida e a obra da primeira poetisa de que se tem notícias em terra goiana.

Leodegária foi também a primeira mulher a publicar livro em Goiás – Coroa de Lírios, em 1906 –, quanto tinha apenas 17 anos (incompletos). E ao lançar seu outro livro, 22 anos depois – Orquídeas –, nenhuma outra mulher o fizera, também! Outra poetisa goiana surgiu em livro somente em 1954 – Regina Lacerda, com Pitangas.

As poetisas, ou mulheres poetas, despontaram p’ra valer, em Goiás, a partir da década de 60 do século passado, especialmente no Grupo de Escritores Novos – Yeda Schmaltz, Edir Guerra Maragoni, Maria Helena Chein – e muitas outras, entre elas a própria professora Darcy. E já na década seguinte o preconceito de gêneros era um item a desconsiderar-se solenemente – afinal, vivia-se a chamada “revolução sexual” advinda dos ventos pós-guerra na segunda metade dos anos quarenta, o rock and roll mudava costumes, a conquista espacial reforçava o avanço tecnológico e a pílula anticoncepcional oferecia uma nova era.


 
Basileu Toledo França,
Esses avanços, entretanto, não favoreciam a memória. As inovações – coisas que encantam os moços – contribuem para o esquecimento dos feitos anteriores: costumo dizer que quando jovens pensamos que Deus criou o mundo no dia em que nascemos. Leodegária é citada na obra de Gilberto Mendonça Teles – A Poesia em Goiás (1964). Depois, foi a vez de Basileu Toledo França (escritor, pesquisador - foi membro da Academia Goiana de Letras) publicar Poetisa Leodegária de Jesus (1996). Esse livro coincide, em sua feitura e publicação, com o incansável trabalho de Darcy, que me presenteou com três obras muito especiais: um exemplar de Orquídeas (1928, já citado; a grafia da época é Orchideas); Letras em Revista (do ICHL/UFG, Cegraf, 1992), em que se acha um belíssimo ensaio de sua lavra: Entre “Lyrios” e “Orchideas” o Pássaro Ferido); e sua obra Lavra dos Goiases III – Leodegária de Jesus (Cânone Editorial, 2001).

Fica patente que, dos esforços de Darcy França Denófrio, a obra e a memória de Leodegária – a mulher mais importante de Caldas Novas e uma das mais expressivas figuras goianas de todos os tempos – começam a ser notadas na vida acadêmica brasileira. É a justiça dos tempos acontecendo – mas, há que se dizer, graças ao empenho hercúleo de uma Quixote de saia (sem desmerecer o empenho feminista, mas sobretudo exaltando a garra e a tenacidade femininas).


* * *


Luiz de Aquino é membro da Academia Goiana de Letras


De novo - o jeito de se fazer crônica

A crônica, modo de fazer.


(Republico esta crônica, escrita há quase dois anos, para atender ao pedido de um bom amigo)



Escrevo neste sábado, 31 de outubro, em 2015. Estou nas primeiras semanas de uma nova idade, muito feliz por ter vencido a surpreendida década dos 60 e, pelo óbvio, chegar à marca dos 70. Portanto, sou um septuagenário que dá graças a Deus e aos competentes anjos que tão bem me guardaram para atingir este feliz estágio.

No dia anterior, dia 30, por convocação da mui querida Maria de Fátima Gonçalves Lima, coordenadora do Mestrado em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, participei de uma mesa-redonda para falar de crônica. Comigo, o guru Luiz Augusto Paranhos Sampaio, um homem de muitos títulos de professor (Português, Francês, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Literatura Francesa, algumas disciplinas de Direito no ensino superior, vereador e presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Subprocurador Geral da República, assessor de destacados governadores e ministros etc. e tal, tal e tal! E também a poetisa e cronista Maria Lúcia Félix, que entre suas referências pessoas, acrescentam-se as ligações sanguíneas com uma nobilíssima família de letrados (o pai Domingos, os tios Aída, Afonso e Manoel – respectivamente crítico literário, contista, poeta e compositor, mas todos eles com incursões nos demais gêneros literários – referi-me aos que mais se destacaram em cada um deles).

Falamos para uma plateia de estudantes e professores da PUC, sob a mediação do jornalista (e mestre e doutor em Letras) Rogério Borges. O colega, que por muitos anos atuou em O Popular, sempre com destaque na cobertura literária, é também professor na PUC. E em cada um de nós a alegria de discorrer sobre o ofício da escrita e o inexplicável prazer da crônica, da concepção, escrita, publicação e até a leitura, eis que somos todos dedicados leitores dos que registram o quotidiano e suas impressões várias.

Uma das mais indagadas questões ao cronista diz respeito à escolha dos temas. Acontece, às vezes, que algum leitor nos sugira ou mesmo peça algo sobre determinado assunto, mas até mesmo essa sugestão ou pedido implica não um desejo de ver o tema publicado – mas especialmente a opinião do escriba (Jô Sampaio, excelente cronista, além de poetisa, professora, crítica literária e contista, não gosta deste termo, acha que enquadra o escritor num time de maus escrevedores – mas acho eu que isso não nos diminui, não...). E é a opinião do escritor de sua escolha – razão porque sempre atendemos com alegria.

O ponto alto do nosso encontro ficou por conta justamente do meu confrade acadêmico Luiz Augusto P. Sampaio. Ele estreou no gênero em 1958. Foi ele o primeiro cronista de Goiânia a publicar um livro de crônicas e o fez num elevado respeito à jovem capital, pois o seu livro teve por título (e cenário) justamente o ponto alto da vida sócio-política de então: “Café Central”. 

Em Goiânia das primeiras cinquenta décadas, o Café Central (esquina da Rua 7 com a Avenida Anhanguera) estava para a capital como o Vaticano para Roma. Em lugar de tentar definir isso, sugiro ao leitor que procure ler esse livro, que saiu a lume em 1964 (há 51 anos, pois!) mas tem segunda edição publicada na Coleção Goiânia em Prosa & Verso, que era realizada pela Prefeitura mas o atual prefeito demonstrou seu carinho para com as Letras e a História encerrando sua existência de modo arbitrário, como uma confissão de ignorância intelectual. 

Luiz Augusto teve o mimo, ou o capricho, de delinear uma classificação para as crônicas, e as intimistas (e piegas) foi o degrau da escala (ou escada) que mais me intrigou. Sim, que a crônica, tida por acadêmicos de menor alcance de inteligência como um “gênero menor” ou mesmo um “subgênero”, é um segmento da escrita que resulta na narrativa curta e leve, muito próxima do conto – mas este pede mais profundidade ou peso – e praticada por quem tem, no mínimo, uma forte sensibilidade ante a história, o quotidiano, o social e o psicológico. Ou seja, não é para qualquer um! Conheço bons poetas e contistas aqui mesmo entre nós que se dobram de inveja dos que a praticam – e não o fazem por total incompetência, por lhes faltar a sensibilidade mínima e, em alguns casos, mais ainda, a verve poética.

Ninguém é bom cronista se não for, ao menos no íntimo, um bom poeta.

E aos incautos e precipitados, eu afirmo, com o coro dos de bom-senso: não existe gênero menor. O que existe – no romance, na crítica, na poesia, no conto e na crônica – é escritor não qualificado.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, junho 10, 2017

Mulheres de versos



Gilberto Mendonça Teles, 56 anos de imortalidade na Academia Goiana
de Letras.





Mulheres de versos



Uma festa de prazer e justiça – a sessão da Academia Goiana de Letras em homenagem ao poeta e crítico literário Gilberto Mendonça Teles, filho de Bela Vista de Goiás (sim, não é só Geraldinho, o contador de causo, que abrilhanta a pequenina urbe nas cercanias de Goiânia), estudante e mestre em Goiás e referência de destaque internacional, com moradia no Rio de Janeiro, a eterna Belacap.

O mais destacado dentre os intelectuais goianos vivos está no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, expulso deste Planalto Central por força das perseguições do sistema de repressão da ditadura, acionado – sem dúvida – por falsos amigos, colegas invejosos.

Profa. Dra. Fátima Lima, uma das palestrantes,

O mal que lhe quiseram fazer transmudou-se em benefícios imensuráveis. E aquele moço que, em 1961, empossou-se imortal na árcade goiana, é hoje o nosso decano. Para homenageá-lo, reunimo-nos (seus confrades e amigos), com uma expressiva participação de amigos literatos e mestres das letras.

GMT, este cronista e o prof. José Fernandes, outro palestrante da noite na AGL.

Gostei particularmente da manifestação da poetisa Beth Abreu, editora, há alguns anos, da Oficina Literária que se dá todos os domingos, com poemas e ilustrações por notáveis artistas. Membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), Beth Abreu lembrou que GMT é, também, por escolha daquela confraria feminina, o Príncipe dos Poetas goianos – e, nesse momento, a presidente Leda Selma, da Academia Goiana Letras, reagiu com inefável felicidade:

– E as princesas?
Escritora Leda Selma, presidente da AGL.
Isso disparou na minha pobre imaginação uma fila bela e expressiva, puxada pela primeiríssima poetisa goiana, a caldas-novense Leodegária de Jesus, pouco lembrada por tantos do meio das letras e ignorada pela mídia, bem como pelas escolas.

Findo o ato solene, puxei de lado a querida confreira Beth Abreu e lhe sugeri, com um monte de palpites mais, que se institua uma premiação às poetisas goianas com o nome da autora de Coroa de Lírios (1906) e Orquídeas (1928). Afinal, esses dois livros da lavra de Leodegária são os primeiros na hoje imensa lista da produção poética das mulheres goianas. A ela seguiram-se Regina Lacerda (1954) e Yeda Schmaltz (1964) – e as demais seguiram-lhes as pegadas.

Disse-lhe mais – que leve meus pitacos, aprimorados pela sua cuidadosa capacidade criadora, às confreiras aflagueanas. Antevejo os louros legítimos às poetisas de ontem, mas sobretudo e especialmente, o reconhecimento temporal às mulheres (não são poucas, não!) que enfeitam nossas vidas com seus versos.



Poetisdas Beth Abreu e Rosy Cardoso com Gilberto Menonça Teles

Grande será, obviamente, a alegria das poetisas conterrâneas, as de nascimento e as adventícias. E são senhoras da minha geração, mescladas às moças de ontem e anteontem, bem como as meninas que despontam com seus conceitos atuais da poesia – a gente as vê nas escolas, nas livrarias, nas bibliotecas... E muitas são as mulheres já portadoras das cãs do tempo (quase sempre cobertas com as tinturas que também lhes dão encantos) que se demoraram a revelar-se autoras, além de musas.

Que a presidente Alba Dayrell, da Aflag, acolha esta minha humilde ideia, que ganhará o primor dos tratos de Beth Abreu, e que também a nossa AGL, capitaneada pela também poetisa Leda Selma, irmane-se às autoras membros da Casa de Rosarita, Nelly e Ana Braga para, então, promovermos algum certame ou evento sob a tutela imortal de Leodegária de Jesus e possamos, a cada ano ou biênio, sei lá, eleger as princesas dos versos nesta terra dos goiases!


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 04, 2017

Viver em vão



Viver em vão


Quem de nós, em sã consciência, nunca se perguntou sobre os propósitos e a qualidade de sua vida? Nascer e morrer, o Alfa e o Ômega – mas a questão não se dá sobre chorar ante a vida ou causar lágrimas pelo ponto final. A dúvida está, sim, sobre a validade geral dos feitos e das palavras.

Sei bem que cometemos o cinismo de justificar nossas escolhas de vida sob a máscara de “uma missão”, ou “a minha missão”. Não creio, mesmo, que a Espiritualidade Superior nos determine “Vá, nasça e faça isso ou aquilo”. A missão é viver em carne para nos aprimorarmos espiritualmente. A missão não é viver para constituir fortuna, mas, caso a tenhamos, fazer dela instrumento de bem-servir ao próximo, de crescermos em entendimento e atos.

Aprendi, muito cedo, valores que me norteiam – e que me trazem alguns sofreres porque a sociedade regida pelo poder e o capital é rigoroso com os que considera faltosos. Sou faltoso porque não juntei bens de matéria. De dentre as coisas que aprendi, cuido bem de não praticar o culto à personalidade dos que admiro – a esses, apenas dedico a admiração por seus feitos ou pelo exemplo deixado.

E são muitos, esses, pela minha ótica. Para não romper divisas e fronteiras, cito uns poucos da nossa mesma lavra, como a pioneiríssima poetisa Leodegária de Jesus (e seus estudiosos Darci França Denófrio e Basileu Toledo França), Léo Lynce, Bernardo Elis, José J. Veiga, Eli Brasiliense, Amália Hermano, Yeda Schmaltz e Joaquim Jayme (evitando listar nomes dentre os vivos).

Envaidece-me o reconhecimento nas ruas e a abordagem de leitores que (como eu também costumo fazer) comentam textos publicados, em livro ou jornais. Mas preocupa-me, porque receio a expectativa desses leitores ante um crescimento para mim inalcançável, mas sempre esperado.

Bom mesmo é ser anônimo – e crítico dos famosos e dos circunstantes. Como me aconteceu em dias finais desta semana, quando tomei a Avenida T-9, no Jardim América, rumo ao Setor Marista. Vali-me de percorrer uns poucos metros na faixa da direita, destinada aos ônibus, enquanto considerava a possibilidade de tomar a pista central – o que fiz tão logo pude. No primeiro sinal fechado, emparelhou-se – ocupando a tal pista dos ônibus, uma jovem e feia piloto de moto. Com a carinha de ferrugem muito fechada, censurou-me – “O senhor não pode usar duas pistas, tem que escolher uma e ficar nela. Isso é falta de respeito com os outros” – e continuou resmungando, até que ao seu lado parou outro motoqueiro – um jovem nitidamente mais velho que ela.

Percebi, pela expressão do moço, que não entendia o que ela vociferava contra mim, estimulada pelos meus talvez passivos cabelos brancos. Foi quando me dei conta de que deveria responder, e o fiz com “muito obrigado, moça!”, que repeti ao ver que ela não se calava. E recomendei, ainda:

– Cuida você de permanecer na sua faixa, motoqueiros gostam muito de “costurar” no trânsito.

A moça se calou, o sinal se abriu. Retomei o curso, cuidando de me manter no limite dos 50 km/h, enquanto via seu vulto cada vez menor à minha vista, numa velocidade certamente na medida dos 80 km/h...


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, maio 29, 2017

Pérolas midiáticas

Pérolas midiáticas



“Um posto de combustíveis às margens da rodovia”. – Fim de semana ou final de semana? – “O nome das vítimas”. – “Empreendedorismo”. – “Acabativa”.

Grande parte das excrescências linguísticas que lemos ou ouvimos não está apenas na mídia – jornais e revistas, noticiários de rádio e tevê e nas peças publicitárias presentes nos veículos citados e também em “folders”, bâneres e flyers, além do que se vê em outdoors e vidros traseiros dos ônibus urbanos etc.

Sim, muitas coisas absurdas são ouvidas nos cursos e palestras ministrados no meio empresarial – ou de negócios. Uma das que mais me intriga, e é das preferidas pelos “coaches”, é “acabativa”. A ideia é “conclusiva”, isto é, a “outra ponta” da iniciativa – mas a “explicação” desses “trainers” geniais equivale a dos que condenam a expressão “final de semana” – quando aplicamos um adjetivo substantivado em lugar do substantivo “fim”. Estes “sábios” argumentam assim: “Se não existe inicial de semana, não há como ser correto final de semana” (este exemplo, colhi-o do professor Pascoal Cipro Neto, na Rádio CBN, estes dias).

Pois bem! Os “gênios” que inventaram “acabativa” como substitutivo de “conclusiva” devem ter estudado na mesma escola. São estes, também, os que gostam de ilustrar suas palestras e cursos com “cases” (que enchem a boca para falar “queises”, sem talvez se atinarem para o fato de que temos uma palavra antiga e bonita – caso – que quer dizer isso mesmo – caso). Mas como explicar isso a essa gente?

Os coleguinhas que falam “num ponto às margens da rodovia” não atentam para isso – estradas, como rios, têm duas margens, e tal ponto está em uma delas. Usa-se, com propriedade, “às margens” quando de referência à vegetação dos dois lados da estrada – ou do rio, por exemplo. Uma repórter carioca referiu-se a uma cidade “às margens da baía de Guanabara”. Ora, baía e lago têm orlas, e não margens. E, para os goianos, Aruanã fica à margem (direita, ou seja, o lado goiano) do rio Araguaia, e não “às margens”, pois o lado de lá é Mato Grosso.

Outro vício que incomoda tanto quanto cheiro de cigarro queimando é “o nome das pessoas”. Dá-me a impressão de que todas as pessoas têm o mesmo nome. Mas, convenhamos, o que esperar de quem não sabe que “onde” não é sinônimo de “quando” ou “então” – a primeira palavra é advérbio de lugar, e as outras duas, de tempo.

Outro neologismo que incomoda é “empreendedorismo” (ah, mas “empoderamento” é pior!). Se bem atentasse, quem propôs esse termo devia considerar que a referência é ao ato de empreender, e não a um improvável ato de empreendedor. Então, o certo seria “empreenderismo”.

A questão é que, há meio século, ainda éramos analfabetos ou medianamente escolarizados, na maioria. Hoje, somos diplomados e até mesmo mestres e doutores – mas conheço doutores que falam e escrevem errado e, se alguém lhes mostra um erro, respondem com “minha área não é a língua portuguesa”.

Não desistamos, porém! Se ignorarmos esses ignorantes, ainda que pós-diplomados, habilitamo-nos a tolerar os crimes dos drogados que matam por cinco reais num assalto de rua ou – pior ainda – a roubalheira que, há até bem pouco tempo, tínhamos por “crimes de colarinho branco” (antítese aos macacões azuis dos operários). Podemos vir a tolerar as falcatruas denunciadas nos conluios dos políticos com os que se apresentam como detentores de “expertises” na arte de burlar o Erário, ou aceitaremos por normais os trambiques dos políticos com seus patrocinadores.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, maio 21, 2017

"Os Sonhos não Envelhecem"




Relendo Márcio Borges



Sou de uma juventude diferente da que temos agora. Claro, vão-se já os anos de meio século, era o tempo das grandes mudanças, o pós-guerra marcando fundo nossas ideias, opiniões, gostos e atrevimentos. Os Aliados, vitoriosos, deixaram por conta da sociedade americana a vez de fazer graves mudanças – e surgiram os “beatniks” (a definição, segundo algum desses dicionários eletrônicos, é “substantivo de dois gêneros - indivíduo que rejeita o conformismo burguês, os seus costumes e valores convencionais, assumindo uma filosofia de vida e um comportamento pessoal exóticos para o padrão médio”).

O desdobramento fez com que surgissem os “hippies” e, num modo mais comportado – porém revolucionário em sua arte – os Beatles. E as novidades espalhavam-se pelo mundo afora, na literatura dos pioneiros beatniks (grupo constituído a partir de escritores americanos) e na poderosa mídia que “fazia a cabeça” do mundo – o cinema da América.

Em muitos pontos do mundo surgiram os inovadores. No Brasil, tivemos a bossa nova na década de 1960, que juntava grandes exemplos desde Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha e Noel Rosa, em cuja esteira despontaram alguns baianos, como Caetano e Bethânia, Gal e Gil e Raul Seixas... Chico Buarque bem representa, entre os cariocas, a marca dessas mudanças.




Algo de altamente revolucionário acontecia, também, na ainda bucólica Belo Horizonte: um grupo de jovens pouco-mais-que-meninos, apaixonados por música, ideias, cinema e poesia (e, inevitavelmente, as essências filosóficas que bem marcam as artes) e tornou-se referência. Tudo em torno de uma família, uma irmandade liderada pelos pais maravilhosos que geraram onze meninos geniais, aos quais juntou-se aquele que se dizia “o filho número 12”. Refiro-me aos irmãos Borges, de Dona Maricota e “sêo” Salomão, ao excelente “letrista” Márcio Borges e ao prodígio Lô Borges... O número 12 era o Bituca, aliás, o crioulo que o Brasil e o mundo conhecem como Milton Nascimento.


Conheci Márcio Borges em Bento Gonçalves, no Congresso Internacional de Poesia, edição de 1997, e trocamos livros. Não tenho dúvida que ganhei na troca, pois trouxe comigo, com um belíssimo autógrafo, o seu “Os Sonhos não Envelhecem”, que li apressadamente e me prometi – “Vou escrever sobre este livro”. Não sei o que houve, sinto que não escrevi ou, se escrevi, não publiquei, e me senti devedor a mim mesmo.


O que fiz, então? Tirei o livro da estante e o reli, estes dias. Às anotações, a lápis, de vinte anos atrás juntei outras, atuais. E o livro, de que eu já gostara em 1997, tocou-me ainda mais, na maturidade atingida após a marca dos 70 anos. Desta vez, a leitura se fez mais mágica, eu consegui fazer paralelos entre os fatos narrados, memorizando o que vivera eu aqui nas marcas cronológicas de Márcio Borges.


Lô, Duca, Márcio e Bituca

Só para exemplificar: em 2005, estive em Três Pontas, a convite da minha amiga querida, a dra. Adélia Maria Batista, que nos levou (Mary Anne e Lucas também) à casa do pai, então viúvo, de Milton, o Bituca. Sentimos saber que o cantor estivera ali até poucas horas antes, ou seja, perdemos a chance de um bom encontro (eu o conhecera aqui, por volta de 1985, na companhia dos irmãos Barra – Rinaldo e Marcelo).



O autógrafo de Márcio



Amei revisitar o Clube da Esquina e, desta vez, pude sentir com mais nitidez a magia do amor de amigos e do carinho de irmãos. Não repetirei nada do livro, somente recomendo aos meus queridos leitores, geralmente pessoas que também amam a boa música e, como eu, idolatraram os meninos do clube da rua Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Beagá, que não percam o prazer e a riqueza dessa obra!

De minha parte, estou com muita vontade de saber o que foi feito de Márcio desde aquele outubro de 1997.

Meu abraço franco e amigo, querido Márcio, irmão de Lô e de...


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


domingo, maio 14, 2017

Carmem Gomes, contadora de causos




Carmem Gomes,
contadora de causos (*)



Também sou daquele tempo e desse meio, o tempo em que Goiás era um território imenso e esquecido, mais de 700 mil km² – antes que tirássemos um lote para ser o Distrito Federal e uma gleba, metade do que nos restou, para ser Tocantins. Era um tempo antes, também, que por aqui aparecessem o fogão a gás; e a cozinha era o espaço preferido nas famílias daquele tempo e desse meio que só restam na nossa memória.

Era o tempo em que os quartos eram para se dormir neles e não um recanto onde se isola para curtir mídias sociais, ao computador ou ao celular. As salas eram onde se recebiam visitas; a cozinha, o reduto matriarcal, o espaço onde a mãe reinava plena e senhoril, atuando ou ordenando. E, após “a janta”, quando escurecia e a mãe – auxiliada pela empregada e pelas “meninas” (filhas) – já “lavara os trens” e arrumara tudo, o pai enrolava um pito de fumo picado e palha seca, macia, de milho.

O fogão mantinha um foguinho brando; melhor assim, vai que seja necessário coar um café... melhor atiçar que acender novo fogo. A criançada se juntava à espera. Era comum haver tios e tias, as famílias eram grandes, numerosas e felizes naqueles momentos de se conversar de coisas amenas, apreciar notícias dos distantes e de se praticar o que os professores nos ensinaram ser “a tradição oral”.

Não me lembro bem como começava a contação de causos. Muitas vezes, o mote era uma carta, algum dos parentes “de longe” escrevera e as cartas chegavam cheias de coisas novas. E como uma conversa puxa outra, falar de parentes se estende a outros mais e nem tudo o que se fala ou se conta é fato real. Surgiam as histórias da família e as lendas que as cercam.

Era comum o contador de causos sentar-se na rabeira do borralho. A rabeira é a parte baixa do tradicional fogão, o patamar em que se apoia a lenha a se queimar... puxar para fora o lenho incendiado era amenizar o fogo. As noites daquele tempo eram frias, ficar próximo ao fogo favorecia o bem-estar e estimulava o sono. Ainda mais quando se tinha pai, avô ou tio bom contador.

Carmem Gomes é fruto da mesma natureza que me forjou – éramos meninos à beira dos borralhos, ouvindo algum mais-velho (pai, mãe, tia, avó – tanto faz!) a enlevar-nos naquelas histórias. E havia o momento de induzir a criançada ao sono: era o momento em que algum deles, adultos, emendava uma história sobrenatural, algo de assombração, por exemplo, para nos meter medo e nos conduzir ao quarto.


Ao ler os originais deste Beira de fogão – Histórias do borralho, deixei-me levar às lembranças, sem pretender ligar as histórias ouvidas por mim aos causos que ela vivenciou e reproduz aqui, em texto de boa lavra. Este livro reflete os cenários naturais da Serra da Mesa, em Goiás, naquele atual norte goiano, que ainda era sul de Goiás quando estudávamos os caudais da nossa terra. É por ali que o Rio das Almas se une ao Rio Maranhão para formar Tocantins, que dá nome ao novo Estado. E foi ali que decidiram, os do governo, represar esses rios e formar um dos maiores reservatórios hidrelétricos do mundo – o lago da Serra da Mesa.

Carmem Gomes viu tudo acontecer. A obra, o desmatamento, os caminhões (às centenas) trazendo gente e material, removendo a terra, fazendo a barragem... e tudo isso coincidiu com o surgimento do agronegócio.

A vida prometia, sim, mudar muito! O que lhe restava, além de adaptar-se aos novos tempos?

Escrever, é claro! Ela conta as historinhas dos tempos da elevação das águas, da agitação na mata porque a água subia... enfim, ela conta também de alegrias, da felicidade que se tem no convívio com a natureza.

Feito uma tia ou avó (aquelas mulheres que nos pareciam velhas porque ainda não éramos mais que crianças), Carmem nos conta histórias. Como se fosse, pois, uma saudosa contadora à beira do fogo na antiga cozinha. E nos traz isso que se contaria à Beira de fogão – Histórias do borralho.



Luiz de Aquino Alves Neto, da Academia Goiana de Letras.


(*) Prefácio para o livro Beira de Fogão - Histórias do borralho", a ser lançado brevemente.