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domingo, outubro 15, 2017

Sinais dos tempos... Quais?

Vênus de Milo - obra da Antiguidade, encontrada em 1874 no Monte Esquilino




Sinais dos tempos... Quais?



Sim... Quais? Que tempos são estes, em que um segmento da sociedade, ocasional e oportunamente, se emerge em nome de uma moral reinante nas cercanias das paróquias inquisitoriais?

Vejamos... Vivemos a falência de importantes valores morais, mas não se aplica tal oposição à hipocrisia, ao cinismo e ao descaramento que conduz “ilustres” políticos – parlamentares e ministros, capitaneados por autoridades do Executivo e do Judiciário – à ostensiva defesa, em atos e palavras, sem sequer se corarem!

Adotam atitudes que equivalem a indisfarçáveis confissões de culpa!

Expressam votos “técnicos” que carimbam a decisão com a evidente destinação da atitude assumida – e, repito, não se envergonham por isso!

E então, numa mostra de arte bancada por um banco na capital mais ao sul, Porto Alegre, artista desta época dá ares atuais à arte mais refinada do milenar Kama Sutra. E a moralidade da famigerada (de triste memória) TFP se expressa em defesa “da família, da moral e dos bons costumes”!

À falta de sustentação filosófica, apelam para os clichês de “combate aos comunistas” (o que me remete a um provérbio da roça da minha infância: “Depois da onça morta, qualquer vira-lata quer mijar no couro”).

Davi, de Michelangelo, mostrada ao público em 8 de setembro de 1504.


Na Renascença, a par com o rigor da Santa Inquisição (merece maiúsculas? Não, salvo pela mera identidade com uma fase da História), Michelangelo concebeu nus, em pintura e escultura, admiráveis até hoje!

Outra mostra, com atores em movimento, expõe um homem grisalho nu e uma mãe estimula a filha criança a tocar o homem.

Vozes a favor e contra elevaram-se e ganharam admiradores e contestadores. Divulguei alguns vídeos, sem opinar. Seria necessário? Mas fui acusado de “divulgar o indesejável”. Uai! Minhas práticas sexuais, como as de quem quer que seja, de John Lenonn a Chiquinha Gonzaga, de Madame Satã a Fábio Júnior, são itens individuais. E esta mesma humanidade, há três mil anos, pratica muita coisa no quesito sexo que, quando adolescentes, pensamos que nós os inventamos.

Desde que os textos ganharam formas e imagens poéticas, o erotismo virou literatura. Cínicos são os que torcem narizes a isso, mas enchem o mundo de filhos – como os religiosos que “condenam” os fiéis, mas lambuzam-se de luxúria com mulheres (e homens também, uai!) em suas intimidades.

E aparecem os pregadores da “moral cristã” ou das doutrinas “judaico-católicas”, dos preceitos difundidos por pastores e padres em colheitas seletivas no Antigo Testamento, estimulando seus “fiéis” a demonstrarem que “destruir a família é meta do comunismo, desde Marx e Engles”.

Poxa! Como manipulam a História e deturpam tudo! Digam, pois, que Platão era comunista dois mil e tantos anos antes de Marx, pois ele sugeria uma “república” em que as crianças eram transferidas pelos pais ao Estado para se formarem trabalhadores braçais, profissionais de ofício e até o ápice de poetas e filósofos – a estes cabendo o governo.

E o sexo fora do preceito religioso de “papai e mamãe, e só para a procriação”, tão enfatizado pelos religiosos e falsos moralistas, escapa das artes plásticas, em duas ou três dimensões, da literatura, do teatro e do cinema.

No paralelo, essa estranha “ideologia de gêneros” que contesta a ciência e diz que “todos nascem sem sexo, a escolha vem depois” – e nisso, pelo que se propaga, até mesmo poderosíssima empresa de alimentos e cosméticos pega carona por conta de um antigo trocadilho do vulgo em tono das palavras “homo” e “omo”.

Que tempos, hem? Tempo de péssima escolaridade! E este texto sai no jornal justo neste 15 de Outubro de 2017, Dia do Professor – desta vez, consagrado à heroína de Janaúba, Minas Gerais, a professora e mãe Helley Abreu Batista, por ter conseguido, indiscutivelmente, conter o número de vítimas de um ato de insanidade.

Aos moralistas de plantão, só um recado: deixem as artes em paz, escolham vocês, caso sejam pais e educadores, como educar seus filhos para serem felizes e bons cidadãos, livres e determinados, em lugar de erotizá-los antecipadamente ou de impor diretrizes às suas identidades sexuais.  


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 

sábado, outubro 07, 2017

Um beijo nos Andes

Um beijo nos Andes



Tenho muita vontade de cometer, ainda, umas poucas viagens na vida que ainda viverei – com a certeza do tempo mais exíguo a cada dia. Uma delas, a Portugal; outra, a alguns países africanos de onde trouxeram os povos pretos escravizados que, num destino de infinita grandeza, retribuíram deixando-nos a riqueza de sua cultura e o embelezamento da nossa gente brasileira. Mas uma outra encanta-me e, sem dúvida, instiga-me muito – quero conhecer os Andes, mas não por paisagens da janelinha do avião. Quero pisar as pedras e as neves, sentir de perto a floresta amazônica no Peru, conhecer seu povo.

Há em Goiânia um grupo de poetas que, amiúde, viaja para o Chile e o Peru, motivados pela magia que nos causam as viagens, mas com o mote inevitável da poesia. Assim, ora vão os nossos até lá, ora vêm os chilenos e peruanos – ou uns e outros, em separado – até Goiânia.

A cada regresso, são muitas as histórias encantadoras vividas e contadas, com o inevitável toque da poesia a florear os casos – ou causos, que bons goianos somos nós. Ora algum dos nossos é destacado lá com expressiva homenagem, ora um deles nos brinda com um novo livro de poemas que logo ganha versão brasileira e sua competente publicação – ou seja, os poetas de lá e de cá brindam-se mutuamente, com os corações e os atos.

Numa das boas histórias ouvidas dos nacionais viandantes pelas montanhas peruanas, veio a de uma viagem de ônibus. É que no grupo goiano uma das escribas destacou-se por agitar os ambientes: puxava cantoria e, se deixassem, formaria pares para danças, ainda que os seus escolhidos sequer quisessem dançar.

Aquilo fazia a goianinha viajora muito feliz! E na tal viagem, ela já fizera com que os brasileiros no ônibus, naquele trajeto pelo interior do país, cantassem canções escolhidas por ela, ainda que aquilo não fosse do agrado do grupo. Sabe-se bem: as pessoas cedem, muitas vezes, movidas por uma coisa que os jovens dizem ser “vergonha alheia”.

Mas daquela vez a escritora foi um pouco além. Ela viu, num banco mais ao fundo, um peruano típico, com seu traje característico – com chapéu e poncho. Caminhou no corredor e chegou-se ao moço, parece que pretendia trazê-lo para junto dos goianos. E aí veio a surpresa...

Peruanos são de estatura miúda, no geral. E o moço que a professora escolheu levantou-se, evidenciando enorme estatura. Assustada, a mulher estancou-se em silêncio. Foi o tempo bastante para que o rapaz a erguesse do piso, elevando-a até que seu rosto ficasse bem em frente ao dele, à distância mínima.

Assustada, a nossa amiga não sabia o que dizer ou fazer, apenas balançava os pezinhos no ar. E o moço, segurando-a com firmeza, trouxe-a para bem perto de si e aplicou-lhe um prolongado beijo na boca.

Ninguém se meteu! Ninguém achou que seria de bom-tom interferir num ato daqueles, e o moço só a pôs no chão, com admirável delicadeza, quando lhe faltou o fôlego, exibindo um sorriso de felicidade.

E a nossa heroína recolheu-se ao seu lugar, silenciosa e assustada, ante os risos eufóricos dos amigos. Quando conseguiu falar, ela apenas pediu:

– Não contem nada disso lá em Goiânia!

Mas, como é comum acontecer, o fato seguiu a sina das delações que se tenta manter em sigilo – alguém sempre acha um modo de “vazar”.

Alguns dos participantes desse grupo e uns poucos dos que tomaram conhecimento do atrevimento do feliz peruano estão, por estes dias, atentos – muito atentos: buscam saber até quando a pessoa se manterá discreta nos eventos, em lugar de provocar todo mundo para cantar e dançar, como é de seu agrado.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, setembro 30, 2017

Quanta cara de pau!






Quanta cara de pau!


Quando nos escandalizamos com aquele valor de três bilhões e 600 milhões de reais que os “dignos” parlamentares pleitearam para custear suas campanhas de 2018, respirei fundo repetidas vezes, até me confortar a hipótese de que eles queriam apenas a metade disso.

Opa! Confortar? Apenas a metade? Expressei-me mal, relevem! Na verdade, não me confortei – eu me aproximei, intuitivamente, da real pretensão daqueles crápulas que nós, a nação, elegemos para nos “representar”. E a metade daquilo não é uma verbazinha à toa, não, ora!

Corre nas mídias sociais que o eleitor brasileiro elege (elegemos) essa canalhada outorgando-lhe o direito de nos roubar. E muito se pode acrescentar a isso. Damos-lhes o poder de decidir como querem viver, e eles querem viver como sheiques, formam gabinetes caríssimos. Não, não... não me refiro às instalações suntuosas e muito espaço físico, não, até porque eles, os parlamentares, têm tanto dinheiro (nosso) à sua disposição que acabam superlotando as salas de seu domínio próximo.

Em Brasília, como nas 26 Unidades Federativas, há gabinetes que até parecem as cadeias de qualquer lugar nacional, tantas são as pessoas a ocupá-los. E não nos enganemos: além daqueles que podemos ver nessas repartições há os que ganham sem trabalhar, como a falecida mulher de Lula. E há os que até vivem no exterior, e são regiamente remunerados.

Vamos lá: um deputado do PT paulista acenou com aquele fundo eleitoral de três bilhões e 600 milhões de reais! Os dias se passaram, a nação brasileira se estarreceu e, pasmemo-nos! Um senador de Goiás “salvou a Pátria” ao propor um recurso “mais modesto”, ou seja, “algo em torno da metade”.

Não nos enganemos, compatriotas, a meta era mesmo aquela metade. A proposta em valor dobrado era para causar o choque. Passados alguns dias, o ruralista (imagino-o muito feliz com a conquista de perdões previdenciários em troca de apoiar a salvação de Temer) se desponta humilde – “é só a metade”.

Isso acontece enquanto centenas de deputados se regozijam, na maior cara de pau, para se locupletarem mais ainda, ante a segunda denúncia da Procuradoria Geral da República que nos mostra: somos governados por um presidente que tem muito a explicar – ao povo e à Justiça.

Recordo Hebe Camargo a oferecer “óleo de peroba” para os caras-de-pau. E notem que ela apoiava ninguém menos que Paulo Maluf. E o deputado Maluf, que não pode sair do Brasil para não ser apanhado pela Interpol, nivela-se a um mero ladrãozinho de feira diante do descalabro que assola o país e dilapida o patrimônio nacional.


Ironicamente, bandos de traficantes rivais, dirigidos de indiscutíveis gabinetes instalados nas prisões de qualquer ponto do Brasil, declaram-se em guerra, invadem morros e favelas, provocam o Estado Oficial e demonstram ser, de fato o estado paralelo que tanto receávamos.

Ironicamente, o “príncipe” Fernando instituiu um Ministério da Defesa, medida que permite “um civil a comandar as Forças Armadas” – mas o tempo nos mostra que qualquer dos que já ocuparam a cadeira, até agora, não passaram de porta-vozes dos três comandantes – estes, sim, os ministros de fato.

Ironicamente, um líder do tráfico nomeia negociadores com o propósito de uma possível entrega espontânea em troca de garantias à sua integridade física (e à vida). E seria cômico comparar as prisões ao Congresso: os deputados e senadores esperneiam-se em busca de solução para seu luxuoso “status”. Não vejo diferenças entre o tráfico e o meio político, com o cinismo substituindo – sem escrúpulos da parte deles – a ética que deveria nortear os políticos.

Pois é, Hebe Camargo: onde quer que você esteja, já notou que não há óleo de peroba bastante para lustrar tantos?

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


quarta-feira, setembro 27, 2017

Deixem o Basileu França em paz!




Deixem o Basileu França em paz!



– Sempre que ouço a palavra cultura sinto ânsias de sacar minha arma – teria dito Goebels, o chefão da propaganda de Hitler.

Sempre que vejo pessoas cometendo atos que resultam em malfeitos, recordo-me de Carmo Bernardes (não, não lhes direi quem foi ele, apenas deixo que imaginem) que, ainda nos meados da década de 1960, num artigo inflamado, afirmou que não escreveria ali o nome da diretora do Instituto de Educação de Goiás que entregara a aluna Olga Pimentel, presidente do grêmio do IEG, à sanha da PM daqueles anos de chumbo.

Não quero, também, escrever o nome do promotor de Justiça que, a cada quinzena, tem de se fazer presente na mídia, lembrando-me a criança que fui lá pelos primórdios de 1950 e poucos: um super-homem, um capitão-marvel, o caubói como Durango Kid ou, se fosse uns anos mais tarde, um espião como James Bond.

O mesmo baluarte da vigilância sistemática contra tudo e todos (às vezes ele acerta, mas sequer se dá conta; importante, parece, é estar sob os refletores da tevê a cada semana) apontou seu fuzil HK contra nada menos que o maior centro de formação em artes do país, o Itego Basileu França. O pretexto, desta vez, seria a baixa formação acadêmica dos dirigentes da OS que administra o Instituto – o Cegecon, Centro de Gestão em Educação Continuada. Com uma canetada, a juíza despachou favorável ao que pretendeu o promotor, levando ao desespero nada menos que 4.800 alunos e 243 professores dos cursos de artes visuais, música (teoria, instrumentos, canto), dança, arte-educação, teatro, arte-inclusão, produção cênica e circo.

Incomoda-me isso! A minha geração lamenta não ter, em seu tempo próprio, algo como esse Instituto Tecnológico. O que a escola regular não oferecia, aprendemos sozinhos. Imagino como terá sido nos tempos dos que me antecederam uns 30 anos, como o já citado Carmo Bernardes, seus contemporâneos, Eli Brasiliense, Bernardo Elis e José J. Veiga, além, obviamente, do igualmente saudoso professor e acadêmico Basileu Toledo França, que dá nome ao Centro e ao seu teatro.

Este Goiás de agora tem tudo isso. Tem o Hugo e o Crer, o HDT e o Hugol, a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes e o Hospital Geral de Goiânia – unidades de saúde muito bem construídas e equipadas com critério, gerenciadas por organizações sociais que proporcionam a qualidade conhecida de tais hospitais. Mas as nossas escolas públicas regulares poderiam, também, estar sob a gestão das ditas organizações sociais.

Montar e manter um núcleo como o Basileu França não é tarefa para amadores – mas o promotor e a juíza entendem que os dirigentes do Cegecon são amadores e sequer lhes deu a chance de serem questionados. Nem o promotor nem a juíza indagaram sobre os talentos ali formados, ora em atuação, em suas respectivas competências, por todo o país e em eventos noutras terras, para outros povos.

Certamente, não consideraram o nome de Basileu Toledo França. Certamente não sabem das orquestras formadas de alunos e ex-alunos daquele Itego. Sem dúvida, jamais pisaram o solo do Teatro Basileu França – cenário para incontáveis peças teatrais e concertos das orquestras, tudo fruto do trabalho “dos de-casa”.

Talvez aí esteja a ojeriza de tais autoridades: costumo dizer que Goiás se faz dos nativos e dos adventícios (pessoas que vieram de fora e aprenderam a gostar de pequi e pamonha, como qualquer nativo, como nós). Infelizmente, temos também entre nós os forasteiros – gente que veio de fora – que se recusam a criar raízes por aqui. Estes nos depreciam, falam mal do nosso sotaque, do nosso jeito roceiro e do nosso típico linguajar... mas como essa gente gosta do dinheirinho que se ganha aqui! E se constatam que começamos a acertar, a aprender como fazer melhor, que começamos a nos destacar em nossos fazeres – especialmente os fazeres da cultura – repetem Goebles e sacam suas armas.

Ora, ora... Cuidem das questões da segurança, do tráfico de drogas, da violência contra as minorias! Não fosse o Itego Basileu França, é certo que o contingente do “estado paralelo” estivesse maior, muito maior, aqui em Goiás. Portanto, não fosse esse centro de formação de arte e cultura, o “estado paralelo” teria muito mais facilidade por aqui.


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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, setembro 25, 2017

Prof. Nion Albernaz

Prof. Nion Albernaz, três vezes prefeito de Goiânia. - Foto da pág. de seu neto Thiago Albernaz, no Facebook



Primavera, para sempre!



Numa bonita festa matinal, na última quinta-feira, a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – Aflag – cumpriu a rotina anual de festejar o tempo, quero dizer, a mudança de estação. Tudo começou há mais de dez anos, quando Augusta Faro presidia a entidade e deu início a um evento, no Equinócio da Primavera, com uma atividade na pracinha em frente à sede. Sua sucessora, Heloísa Helena de Campos, inseriu o evento no calendário e o levou para o auditório. Ali, as acadêmicas leem crônicas e declamam poemas acerca do tema, com ênfase para suas produções.

A prática vai se tornando tradição, pois teve continuidade na gestão de Elizabeth Fleury e a atual presidente, Alba Dayrell, deixa claro que, para o seu gosto e alegria de todas, a festa ficará para a posteridade.

E eu, o que fazia lá? Bem, fui seguindo minhas amigas Rosy Cardoso, Zanilda de Freitas e Sônia Elizabeth (feliz, feliz, foi contemplada com o primeiro lugar no gênero Poesia, pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, da UBE). E assim pude, com prazer, representar a Academia Goiana de Letras e nossa presidente Leda Selma (reeleita, na mesma quinta-feira, para novo mandato de dois anos).

As oradoras, todas dignas de destaque pelos temas trazidos – todos alusivos à Primavera e à Árvore – mas quero falar, em especial, do que nos disse a poetisa Sônia Ferreira. É que, além de seu poema comemorativo, ela se manifestou no sentido de se homenagear, naquele momento, “o jardineiro de Goiânia”, o recentemente falecido professor Nion Albernaz – perfeito da cidade por três vezes!

Foi em seu segundo mandato que Nion Albernaz decidiu florir a cidade. Ele chamou o arquiteto e urbanista Ailton Lelis, que fora presidente do Country Clube. Ailton deixou, em todos os cantos do “mais fechado” dos nossos clubes, infindáveis jardins, apreciáveis mesmo de fora, à distância, por quem transitava pelo trecho sul da BR-153.

Em poucas semanas a cidade se coloria! O Departamento de Parques e Jardins ganhou um expressivo contingente de jardineiros, que atuavam em todos os espaços – praças e canteiros centrais das avenidas – para a alegria do goianiense. Não raramente, algumas pessoas se atreviam a furtar plantas para seus jardins; nessas ocasiões, um funcionário sem uniforme se aproximava, conversava com delicadeza e ajudava a pessoa a colher as mudas. E oferecia um cartão com o nome do órgão – cujos viveiros de mudas eram oferecidos:

– Visite nossos viveiros, temos muitas mudas de várias espécies e será um prazer doá-las à senhora!

Em pouco tempo os furtos não aconteceram mais. E, contrariando os sempre insatisfeitos, as flores chegaram à periferia. Atos de vandalismo, tão comuns naquela época (final da década de 1980), diminuíram sensivelmente – havia uma incessante quebra de lâmpadas, causando prejuízos enormes à prefeitura. Pois a iluminação pública nunca esteve tão preservada quanto naquela época. E a própria Telegoiás, vítima da depredação injustificada dos incontáveis “orelhões”, registrou expressiva queda nas perdas de tais aparelhos.

Testemunhei tudo isso como jornalista da Secretaria de Comunicação (Assessoria de Imprensa). Já guardávamos, dos primeiros anos da década de 1970, o lema do prefeito de então, Manuel dos Reis Silva: “Goiânia, onde a Primavera tem 12 meses”. O professor Nion Albernaz fez valer aquele dístico!

Não quis escrever sobre o seu passamento para a esfera superior, não... ando triste demais com tantas perdas. Nion foi o prefeito mais animado com a função, demonstrava uma alegria contagiante ao apreciar a cidade, detectar problemas e já partir para a solução. Gostava de receber visitas – especialmente dos antigos prefeitos, dentre eles o professor Venerando de Freitas Borges e o médico Hélio de Brito. Festejava com largos sorridos aquelas visitas e contava caos, pedia opiniões, escutava conselhos e valia-se deles. E aos funcionários, oferecia a mesma fidalguia no trato.

Nion foi aquele de quem sempre se dirá: “Um tipo inesquecível!”.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



domingo, setembro 17, 2017

Versos e vida


Versos e vida


Certa vez, famoso político local convidou a Goiânia a fina-flor (?) de seu partido e, numa festança badalada nos salões do mais festejado hotel da cidade, lançou um livro, sob tema político, engalando as ações de seu partido e banalizando os adversários e as ideias que não se alinhavam nas propostas (eles dizem “programa”) da sua agremiação.

Em dado momento – e sequer considerando um grande número de escritores, especialmente poetas, na plateia – dirigiu-se ao “elenco” (políticos e economistas inventaram até um verbo, elencar, para significar “fazer lista de qualquer coisa”) dos “cartolas” dos votos e das vis promessas, como que os consultando:

– Digam-me os senhores, será que eu faço algo de importante, mas algo realmente muito importante, ou estou aqui repetindo o que fazem os escritores e os poetas, apenas lançando um livrinho comum?

Bom, é claro que eu estava lá. Sentava-me entre dois poetas que gostavam de receber os perdigotos dos políticos, desde que, com o “spray” da baba, conseguissem alguma verbinha (insignificante para os políticos, mas expressivas para os baba-ovos, como salários elevados em troca de pouco trabalho e viagens por alhures, sem que sua economia doméstica ficasse combalida).

Recentemente, presenciei um profissional coleguinha (jornalista, para quem não me conhece) entrevistando um figurão em voga – inevitavelmente, um político desses que, nos últimos dias, vemos “elencado” entre os oportunistas sem escrúpulos que assoreiam os gabinetes e comprometem os filões das medidas que solucionariam os problemas sociais e permitiriam melhor qualidade de vida para a ignara massa votante.

Incrível! Lembrei-me de Chico Anísio, num tempo em que ele fazia comentários aos domingos, no Fantástico. O governo resolveu sobretaxar os produtos considerados supérfluos e Chico, na sabedoria que fez dele o mais notável dos nossos humoristas, deixou bem claro que os cosméticos, as bebidas “de espírito” (uísque, pinga, cerveja e congêneres) não eram supérfluos para as famílias dos trabalhadores que viviam da produção agrícola que subsidiava a indústria, nem para as dos empregados nos transportes, nem para os comerciantes etc. – e teceu outros exemplos assemelhados.

Volto à entrevista com o “notável” escroque que já está entre os alvos da Operação Lava Jato (devia ser Lava-a-Jato, uai!). Em dado momento, o entrevistado chegou a qualificar como sem utilidades coisas como a preocupação com a Educação e, ainda mais, com as coisas da Cultura.

Parei para pensar e analisar, e não consegui evitar a analogia com o nosso deputado-escritor que receava “repetir os escritores” porque fizeram um livro que poderia ser “desimportante” como os livros que nós, poetas e ficcionistas, fazemos “à mão cheia”.

Ora, ora... Já produzi mais de vinte livros “inúteis”, já estimulei dezenas de novos escritores, já promovi incontáveis poetas e amo por demais gastar meu tempo curtindo e aplaudindo os coleguinhas músicos – instrumentistas, cantores, compositores, arranjadores – em suas ações.

Ou seja, eu sou um produtor de inutilidades e aplaudo, com força de músculos e alegrias de coração, as inutilidades em cores e formas, sejam em telas ou esculturas, aprecio sentir qualidades em textos de teatro e cinema, de novelas e xous – essas inutilidades que fazem de nós seres diferentes dos irmãos ditos irracionais, mas também filhos do Pai Criador.

Tenho respeito por alguns políticos, sim! Há trigo nesse joio... Mas antes e sobretudo, são coisas “inúteis” que fazem de nós, produtores e fazedores de arte, diferentes deles – esses políticos tão úteis e, agora, enquadrados entre os que, no tempo certo, verão o sol nascer xadrez.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, setembro 03, 2017

Uniformes e disciplina


Os primeiros uniformes escolares, no Brasil, surgiram em 1854, no Pedro II.



Uniformes e disciplina



Quando ingressei no curso ginasial (era o tempo em que havia o famoso Exame de Admissão), os uniformes copiavam os fardamentos militares. Muitos anos depois, pesquisando sobre o tema, vi que foi na década de 1850 que o Imperial Colégio de Dom Pedro II adotou uniforme, seguindo justamente os padrões militares.

Este aluno de 1958 sou eu.


Em 1958, o mesmo colégio, que desde 1911 se chamava simplesmente Colégio Pedro II, adotava novo uniforme, menos “pesado” que a farda cáqui (calça e túnica, camisa branca e gravata preta; para as meninas, saia e dólmã também cáqui – mas com o colo totalmente fechado). Instituiu-se, para os ingressos naquele ano, o uniforme de calça azul em tecido tropical, camisa bege (militar, de paletas nos ombros e dois bolsos tampados) e grava azul marinho, como a calça. Para as meninas o mesmo tipo de camisa, com gravata e a saia azul, com a barra abaixo dos joelhos.


Em 2007, propus à Academia Goiana de Letras que realizássemos uma sessão nas dependências do Liceu de Goiânia – estabelecimento secular, fundado em 1846, na antiga capital. Naquele ano, festejamos os 70 anos do Liceu em Goiânia. Ao chegarmos ao pátio, a confreira Ana Braga, no pedestal de sua história de vida – então, cerca de 85 anos, professora desde a adolescência e que, na década de 1940, fora nomeada por Pedro Ludovico justamente para lecionar no Liceu - notou que os alunos não usavam uniformes. Chamou ao lado a então secretária – e ex-diretora, professora Márcia – e lhe recomendou: “Se a senhora quiser melhorar a qualidade do ensino, exija uniforme completo. A educação, na escola, começa com a disciplina e o uniforme é o primeiro item”.

Ficamos sabendo, então, que uma ordem judicial forçou o tradicional colégio goiano a liberar o uniforme, sob o argumento de que o alunado se formava de meninos pobres. O resultado não poderia ser mais desastroso – microssaias e “tops” tomaram conta da preferência feminina. E paro por aqui para não entrar em informes digno do “mundo cão”.

Dez anos após, tomo conhecimento de que o Ministério Público estadual pressiona os gestores escolares para não exigirem uniformes. Alegou um promotor que “não existe tal exigência nas regras da Secretaria da Educação”. Ou seja, o que nos parecia óbvio e decidido pela gestão de cada estabelecimento ganha “status” de crime (“de responsabilidade” ou de “abuso de autoridade”?), aos olhos dos promotores e juízes.

Lembrei-me de fato correlato, na última década do século passado, numa escola particular, em Goiânia. Um promotor de Justiça decidiu que ele e sua mulher educariam o filho único – não o queriam “misturado” a meninos de famílias comuns. E entrou na Justiça pleiteando tal direito, coisa que o juiz indeferiu (felizmente, era um juiz sensível à formação dos cidadãos).

E ocorre-me, também, a onda de militarização das escolas estaduais de ensino fundamental e médio. Nada contra o direito de a Polícia Militar ter sua escola, mas toda uma rede, com cerca de 30 estabelecimentos? (por que não também os bombeiros?).

Sempre entendi que a Polícia Militar é uma instituição, ou corporação, com fim precípuo, fortemente definido como organismo de segurança pública. A educação deve ser afeita exclusivamente à Secretaria da Educação. Só que a sociedade goiana se convenceu de que as escolas da PM são ótimas – e de fato o são –, enquanto as civis pecam pela indisciplina que resulta em agressões de meninos estudantes a funcionários e professores.

“Nós fracassamos, demos atestado de incompetência”, disse-me um professor dentre dezenas ou centenas com os que procuro sempre discutir o tema. Nas escolas da Polícia Militar a disciplina é levada a sério e o uniforme é uma exigência básica – e os promotores e juízes não mexem com eles.

Resumindo: a falseta de eleições para dirigentes escolares, item simpático às práticas democráticas, tornou-se balão de ensaio para quem sonha com a carreira política – afinal, um salário e as regalias de vereador são coisas muito distintas da realidade educacional. E essa onda de “politicamente correto” abraçada por promotores que preferem bem mais os holofotes da mídia resultam na oficialização da indisciplina nas escolas.

O resultado é terrível!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.