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sexta-feira, dezembro 28, 2007

O passado é um quadro na parede...

Matriz de Nossa Senhora das
Dores, Caldas Novas, Goiás.



Janela para o ontem

Na mocidade, era aquilo de esperar a noite apurar o tom mais escuro: prenúncio da autora. E esperar, com os olhos densos de madrugada, a barra do horizonte ganhar tons de garra e mistério ante que a luz abortasse o dia. Então, era só caminhar com passos tensos para casa, na ânsia do sono ao travesseiro de conforto irresponsável e bom. A isso, chamávamos pegar o sol com a mão.

Que gosto, aquele! Uma noite inteira entre poucos amigos, todos na mesma faixa de idade. Ou imaturidade. Namoro ingênuo em caminhadas vagas em torno do jardim da praça... Se o namoro já se consolidava, deixávamos nossa beleza menina num banco de jardim a contemplar a lua a imaginar nosso romance incomparável.... Ah! Nessa idade, todos os romances são incomparáveis, desde que seja nosso.

A praça esvaziava-se por completo antes que fosse dez horas. Os pais da época eram brabos e exigentes, as moças deveriam se casara donzelas e jamais confessariam ter experimentado contato com “as coisas dos homens” senão enquanto dançavam um bolero caliente com um “namorado firme”, e desde que não houvesse por perto pai, mãe ou irmão. Era o tempo em que os primogênitos nasciam “de sete meses”, medindo mais de cinqüenta centímetros. Tempo de moços ingênuos, quando beijo na boca não era vulgar, ainda. Tempo em que não se depilavam os púbis e calcinhas e sutiãs eram chamados de peças íntimas.

Saudosista, de novo, dir-me-á Fleuri Viegas. Coisas dos dias, estes últimos do ano; coisas dos dias, estes que me acometem após a marca dos sessenta anos. Sou dos que ainda se atrevem a cometer mesóclises, mas sei que só o faço porque burlo a vigilância indevida dos revisores radicais e futuristas. Afinal, estou falando de passado, uai!

Final de tarde em horário de verão tem sabor de sol rascante, como os banhos de córrego na infância. Da infância, vem-me Celso Cunha Bastos e revivemos meninice entre goles suaves de vinho e pasta, dividindo lembranças com análises de Wilson, mais moço que nós. Afinal, é fim de ano. Há quantos anos não banho o corpo em cursos dágua? Córrego, riacho, cachoeira, poço... Nem nas ondas atlânticas salgadas. Criei em mim uma paranóia por conta da poluição; incomodam-me os odores no ar e as cores das águas. As calçadas das ruas contaminaram-se de cocô de cachorro, tomei nojo dos sapatos. Aplausos ao pôr do sol, em
Ipanema, Rio de Janeiro, 29/12/2007.

Há quantos anos não pego o sol com a mão? Isso me fazia bem, tanto no Arpoador, no Rio, quanto no Morro do Frota, em Pirenópolis. Ah, os horizontes do Planalto são indescritíveis!




Pirenópolis, Goiás, beijada nas
duas margens do Rio das Almas.

Perdão: qualquer horizonte, do alto, tem lampejos de feitiço e alegria! Adoro olhar o horizonte de cima para baixo.

Sol nascente... Nome de bairro em Goiânia. Sol que nasce merece aplausos, como o pôr-do-sol curtido em Ipanema, os picos Dois Irmãos a acolher a bola de luz. Há muitos anos não vejo o sol nascer; e, das últimas vezes, vi-o no modo inverso: era o dia ao começo, e não a noite ao fim. Agora, acordo tarde: prefiro dormir quando a madrugada vai a meio. Acordo, olho com tristeza minhas paredes que carecem tinta nova; vislumbro as molduras como quem olha o ontem. “Como dói”, definiu Drummond ante o retrato de Itabira. Evoco meu poema:

Instantâneo

É assim: imagino cenas,
mudo-te em mim
e tenho saudade do futuro.

Saudade mesmo? A esta altura da vida e do calendário, o futuro tem sido sempre previsível. Mas, enfim, e para não fugir aos costumes, deixo beijos de alegria e fé nas mãos dos que constroem e nos pés dos que já não caminham: Feliz 2008, Humanidade!

sábado, dezembro 22, 2007

Um corpo que cai, um bisbo em jejum e...


Temas deste Natal


Um baque surdo. Minutos depois, sirenes de bombeiros. Só então, e já se iam uns cinco minutos, dou-me conta de que o tal baque surdo viera da construção de um espigão de uns vinte e cinco andares, aqui perto. E o baque se deu pela queda, de uns quinze metros, de um operário. O operário em construção, imortalizado em poema de Vinícius e canção de Chico.


Apesar do lado trágico, é louvável a ação dos bombeiros, profissionais do salvamento. Os demais operários formam platéia ante o corpo inerte, caído de costas (será isso o decúbito dorsal?), imóvel. Dois bombeiros em farda cáqui cuidam de colocar um colar ortopédico na vítima, e agem rápido. Dois outros, em uniformes azul e branco, também assistem o acidentado. Imóvel. Não fossem os cuidados de colar e prancha, olhando daqui, iria supor-lhe a morte.


Agem rapidamente, mas não saem de imediato; então, o moço deve ter morrido. É possível: a obra está parada desde aquele momento. E uns poucos operários que vi agirem neste período usavam equipamentos de segurança que antes não apareciam.

Triste Natal para a família do moço... Mais uma família a curtir luto nos Natais futuros.


Dom Luiz Flávio Cappio, bispo católico, pôs fim, enfim, à greve de fome de 23 dias, prazo bastante para comprometer sua saúde. Luiz Augusto Sampaio escreve, perfilando-se com a opinião do bispo. E eu escrevo-lhe:

Luiz, meu caro, formo opinião sobre a transposição de águas do Rio São Francisco para alguns pontos do sertão agreste. Baseei-me na informação da História, que nos dá conta da transposição de águas do Rio Nilo (lembra que o São Francisco era chamado "o Nilo Brasileiro"?), mas o nome não era esse, que nos assusta: transposição.

Em 1952, fizeram transposição de um grande volume (acho que 40%) do Rio Paraíba do Sul; a proposta era fortalecer o Rio Guandu, que abastecia, na época, a capital federal e várias cidades da Baixada Fluminense. Hoje, esse volume grandioso (na proporção) continua sendo transposto para o Guandu e é o que permite a dissolução de uma carga monstruosa de esgoto lançado sem tratamento no mesmo Guandu. E o Paraíba do Sul continua portentoso, solene e nobre.

Por outro lado, recordo que há cinqüenta (e mais) anos os professores de Geografia, os Naturalistas e outros interessados (naquele tempo, não falávamos em ecologia nem em ambientalistas) já advertiam para o risco de extinção do Rio da Integração Nacional, mas o Velho Chico (acho que nenhum outro rio, no Brasil, ganhou tantos apelidos) continua solene e nobre.


A captação proposta para suprir duas áreas muito carentes do sertão não chegará a 3%, na época da maior baixa, do São Francisco. A isso podemos chamar de uso racional dos recursos naturais. Além do mais, não se trata apenas de levar a água até aquelas populações, mas junto com ela uma série de itens de desenvolvimento social, permitindo a restauração da dignidade a seres humanos, nossos compatriotas em estado de penúria.

Enfim, cumprimento Luiz Augusto Sampaio pela crônica e pela tomada de posição. Da divergência de idéias é que surgem novas idéias. E os bons textos.

Que o Natal seja um momento de comunhão dos espíritos, suplantando divergências pela busca da Paz e da Harmonia entre os Cristãos, com bênçãos divinas sobre todos os filhos de Deus, especialmente sobre os não-crentes.

Assim seja!

sábado, dezembro 15, 2007

Saudade nos renova; saudade dói. Depende...

Os tons da saudade


Os leitores mais chegados, estes de família ou de amizade longeva, costumam indagar-me sobre um toque de saudosismo que vislumbram nos meus textos. É que passeio o olhar pelos cenários e viajo ao passado, como no caso das edificações que se tornam marcos da História. Mas, digam-me, como não se emocionar ante os prédios que abrigaram vultos e fatos? Como não sentir o efeito do tempo na memória da infância? E como não verter água dos olhos ao encontrar amigos que o tempo manteve afastados?

Dia destes, um recado e uma foto: Luiz Carlos Carlan, menino de Marechal Hermes, o mais bucólico dentre os bairros suburbanos do Rio, colega de Pedro II, chega para contar que vem a Goiânia logo após o Natal. No mesmo dia, Sueli Catão, de Juiz de Fora, intima-me: “Como perder o dia do encerramento do Jubileu?”. Ela se referia ao Jubileu de Ouro da Seção Tijuca do Colégio Pedro II, tema que já badalei aqui algumas vezes.

Fui, é claro! E levei o Lucas. Devia-lhe esta viagem, para meandrar pedaços da Bela Cap, os mesmos que eu menino percorria há quase meio século. Almoço na Confeitaria Colombo, com resquícios de Olavo Bilac, Guimarães Passos e Emílio de Menezes. Gonçalves Dias, Uruguaiana, Ouvidor, Largo da Carioca, Rio Branco, Quitanda, Marechal Floriano...

Na Marechal Floriano, a bela e velha sede do Externato passa por restauro. Lucas encantou-se no Salão Nobre, no pátio que ostenta, ainda, o sino que anunciava as visitas do Imperador, fotografou o busto de Bernardo de Vasconcelos (o regente que criou o Colégio) e, parece-me, saiu de lá contaminado pelo vírus que me acomete desde o Exame de Admissão, em janeiro de 1958.

Dia seguinte, a Tijuca. Festa de encerramento do Jubileu. Sueli, Eni, Rosa, Belassiano, Lídia, Maris... Tanta gente, sei que estou deixando alguns de fora, perdoem-me! Virgília, Fátima, Ângela, Consuelo, Eliane... Os ex-professores, melhor homenageá-los na pessoa de Dona Elza, nonagenária, que nos rege no Hino Nacional e no Hino do Colégio Pedro II (“Vocês ainda sabem a letra?”, desafiou ela; e nós “Professora, como iríamos esquecer algo que a senhora nos ensinou?”).

Mas a saudade não pára por aí. Naquela noite, minha tia Wanda, a mais velha da irmandade de minha mãe, despediu-se do mundo. Silenciosa como foi sua vida de últimos anos, deixou-nos. Contive, ou me tentei, ao menos, num curto poema de despedida:

Mãe e forma

Que pouco este tempo, mulher!
Escassas as décadas
da tua vida entre nós. Viveste anos
de fartura e pobreza, de paz e de sangue.
Houve o tempo de amar e parir – e nascemos.

Aos teus olhos, Mãe, fomos pétalas
da mesma florada. Mas somos cores
de caleidoscópio, ventos
de tantas origens.

Somos o sangue teu
espargido nas ondas sem destino.
Como tu, geramos outros que, feito nós,
conquistam espaços e costumes.

Sonhamos, queremos, erramos,
fazemos e indagamos. Por crescermos,
somos distantes; os anos nos trazem de volta,
mas chegamos tarde, Mãe.

Doeu-nos o teu silêncio. Doeu-nos
a tua voz, que só há no passado. Mas sabíamos-te aqui.
Hoje, não mais teu corpo, pequenino e frágil.
E triste ficamos, por tua ausência.

Mas resta a lembrança, teu nome
e nosso amor,
que agora é saudade.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Entendo que são dois tons de uma mesma cor: a saudade. Saudade doce que enleva os sentimentos, ao sentir a história e ao reencontrar pessoas; e saudade triste de olhar para o futuro com a certeza de que foi esta a última vista.

Felizmente, eu estava lá, com Teresinha e Ana Maria, e senti que, na ausência do Leonardo (os três filhos da minha tia), fiz-lhe a vez. No peito, um desejo que vale a prece: Descansa em paz; se possível, no convívio dos que te recebem, minha Tia!

quinta-feira, novembro 29, 2007

Uma crítica


A professora Maria de Fátima Gonçalves Lima, da Universidade Católica de Goiás, enviou-me a seguinte carta-crítica:


Prezado poeta Luiz de Aquino,

Sempre leio suas crônicas e gosto muito do seu estilo que centrifuga as verdades do meio cultural e político de Goiás. Seus textos se abrem ao mundo exterior e aos seus problemas com "engenho e arte", como diria Camões.

Seu elemento de trabalho é a arte da palavra e a matéria-prima da literatura é a realidade humana. Você, como um poeta e cronista, vive em consonância com o universo e procura ver mais intensamente as coisas-palavras. Sentindo e observando sua realidade, realiza um trabalho lingüístico particular que tem, pelo menos virtualmente, o poder de se tornar social, de exercer influência direta ou indireta sobre outras pessoas. E, acrescentando ainda, algumas considerações sobre o seu trabalho:

Afirmo que o poeta e cronista Luiz de Aquino sente e registra, poética e ensaisticamente (em textos, também, balizados por marcas de artigos jornalísticos e filosóficos) seu tempo com intensidade, lirismo e uma sátira singular.

Do seu posto de intelectual, de homem observador e sensível, Luiz de Aquino testemunha e registra o drama e a comédia do meio cultural e político de Goiás e do Brasil de sua época. Suas crônicas documentam acontecimentos sociais, encontros dos intelectuais, estado lamentável do sistema educacional do Estado, os caminhos da cultura, as incoerências e o avesso dos pensamentos ou mentes que dominam o nosso sistema político ou intelectual e outras situações dantescas que são hilárias para uns, mas trágicas para aqueles que acreditam em valores, ética e bom senso.

Assim, a crônica do Luiz de Aquino tem a astúcia de satirizar e de quebrar o bloco do imutável e normal dos acontecimentos da nossa sociedade, os escândalos da palavra inconveniente, os gracejos, os desmascaramentos, as paródias, situações inusitadas ou insólitas. Sua crônica é fundada numa visão que filosofa ao mesmo tempo em que apresenta uma carnavalização do cotidiano na cultura goiana. No entanto, o ludismo da crônica de Luiz de Aquino atenua o que poderia ser dramático e acrescenta colorido e alegria aos contrastes que marcam a vida humana.

Maria de Fátima Gonçalves Lima

quarta-feira, novembro 28, 2007

Poeta não têm importância, pensa o ex-deputado





“Escritores são inúteis”

Ou: escrever é coisa de desocupado. O conceito ficou cristalino no discurso que ouvi até esse ponto, do professor Wilmar Rocha, numa festa formal, severa, em auditório cheio de agentes de seguranças. Afinal, havia lá uma “plêiade” (políticos adoram essa palavra, que Antônio Houaiss assim define: “PLÊIADE s.f. Reunião de poetas, de homens ilustres”), desde Jorge Bornhausenn até o anfitrião, que lançava seu livro “O fascínio do neopopulismo”, com selo editorial do Instituto Tancredo Neves, impresso em gráfica de Petrópolis, Rio de Janeiro.

O líder “democrata” Jorge Bornhausenn (democrata atual; no passado, foi simpatizante do “regime” militar; uma espécie de ACM do Sul) concluiu seu discurso (ah, foram vários discursos!) enfatizando a análise política do ex-deputado goiano com uma certeza: a de que, após esse livro, Wilmar Rocha não poderia jamais ir à Venezuela. Em seguida, o governador do Distrito Federal completou o pensamento do veterano Jorge Bornhausenn: “Espero que você possa continuar vivendo no Brasil”. Esses vaticínios (engraçado... vaticínio, tal como plêiade, também tem algo a ver com poetas).

Jogar com palavras não é um esporte em que os democratas e afins se sobressaiam; como se vê, seus discursos não resistem à análise comezinha de um poeta de província, cronista obstinado (eu mesmo, se algum “democrata” não entender). Mas a frase crucial estava por vir. Afinal, o escritor (desculpem-me os coleguinhas; é que, no Brasil, costumamos chamar de escritor todo aquele que publica em forma de brochura ou encadernado um texto com mais de 50 páginas) ainda não havia falado.


Professor universitário na área de Direito, Wilmar Rocha deixa evidente, ao falar, que não tem formação didática; ou, se a teve, não a assimilou bem. Como também não assimila o conhecimento de expressões definitivas, ou rejeita respeitar o ofício de alguns que lhe pareçam distantes. Estranhei, e muito: pessoalmente, ele até nos trata bem; é amigo de longa data de José Mendonça Teles, homem bastante identificado com o meio cultural a que se integra. A mim mesmo, Wilmar Rocha já prestou uma gentileza, que se tornou dívida de gratidão.

Às tantas de sua fala, o ex-deputado, emocionado, questionou se, além do fato de reunir tantos amigos famosos, o fato de ele “lançar um livro tinha alguma importância ou se seria algo assim como fazem os escritores e poetas”. Nesse momento, dei por quitada a minha dívida de gratidão para com o deputado. Deixei o ambiente, indignado. Não preciso desfiar aqui centenas de nomes de poetas importantes. Já de políticos...


Volto alguns dias na memória escrita dos jornais. Encontro Euler Belém comentando minha crônica sobre uma biblioteca em Palácio. Euler me contesta com uma análise engraçada (não fosse trágica). Vejam:

O poeta Luiz Aquino escreve no Diário da Manhã de domingo, 11: “Se a nossa gente lesse mais, certamente não teríamos ‘homens públicos’ tão despreparados”. Convém lembrar que os três líderes mais sanguinários do século 20 eram grandes leitores: Stálin, Hitler e Mao Tsé-tung. Franklin Delano Roosevelt não leu, provavelmente, 20 por cento dos livros lidos por Stálin, que também era poeta, mas, sem dúvida, era um político de uma estirpe muito melhor, a democrática, do que a do georgiano.

Sofismático, o Euler. De tudo, concluí que Wilmar Rocha deve, à luz de Euler Belém, continuar refugando os poetas. Assim, caso venha ele a ser governante, que ao menos não seja um ditador. E que Euler Belém jamais seja um político. Com a carga de leitura que acumula, o jornalista poderia ser tão terrível quanto Médici, Costa e Silva e outros sanguinários, ainda que não-letrados.

sábado, novembro 24, 2007

O adeus e a caminhada

O adeus e a caminhada


Segunda-feira sempre foi um dia chato. Dia de voltar ao trabalho; dia que a gente escolhe para começar regimes ou tomar providências que são novamente adiadas; dia de correr ao banco... Isso, sem falar no trânsito, na cara do chefe, nas manias do chefe, nas piadinhas do chefe...



Bom de piada era o Paulo Gonçalves. Ou melhor: Phaulo Gonçalves. Aquele H após o P insinua F, não é mesmo? Não, não é, contestava ele. “Mas, moço, o som é de F, sim; tanto que, antigamente, se escrevia pharmácia”. E ele: “Antigamente! Mas, hoje, a gente sabe que o H é letra muda, morta. Logo; o H é só partícula de realce; meu nome é Paulo; só que, agora, eu escrevo Phaulo, com H mudo”.

Investimento, lembrou-me o Ivan Mendonça, era com ele mesmo: “Invisto tudo em gado; meio quilo de carne de segunda, todo dia”. Conheci-o pelas páginas do Cinco de Março, o semanário que não teve medo da ditadura. Phaulo escrevia o Pára-choque, a coluna de humor que o DM herdou. Quando nos conhecemos pessoalmente, nasceu entre nós uma amizade que, mesmo nova, é amizade de infância, sim. Por isso, não me lembro de nossos primeiros contatos; sempre me pareceu que o conhecia de nascença.

Com Jorge Braga, formamos um trio harmonioso; éramos tão unidos que fomos parar nos arquivos da repressão com uma nota na minha ficha: “Atua em conjunto com Paulo Gonçalves e Jorge Braga”. Vai ver, na ficha de cada um havia esse “aval” de compadrio. Fazer o quê, uai? Um dia, Phaulo foi com a família a Caldas Novas. Eu não iria. Mas ele fez questão de ir à casa de meus pais, conhecê-los. Isso nos aproximou ainda mais e ele me alugou um apartamento na Vila Jaraguá. E esclareceu: “Sua mãe disse que se preocupa muito com essa sua história de morar no automóvel” (Ih... fui falar nisso! Outro dia eu conto essa passagem. Aliás, foram duas).

Pois é. Segunda-feira é um dia desagradável. Esta última, 19 de novembro, aniversário de outro amigo de infância, o Paulo Fernando Cardoso... Eu felicitava o aniversariante ao telefone celular; então, tocou o fixo e era o Nilson Gomes a me contar que Phaulo se fora para a outra vida. Pelo que sei dele, estou certo de que, lá em cima, cuida de nós.

* * *

E aí, chega a quinta-feira. A alma anda triste, como se vê. Mas a vida continua. Pela manhã, visita de alunos e professores do Colégio Zenite,de Itumbiara. Manhã alegre, feliz, porque estar com estudantes é assim, sempre. A não ser quando algum desajustado inventa, como é moda lá no “primeiro mundo”, de fazer baderna, como atirar nas pessoas ou espalhar drogas. Como não é esse o nosso caso, participei do encontro dos estudantes com a Academia Goiana de Letras, na Casa de Colemar Natal e Silva.

À tarde, a mesma Academia realizou uma sessão solene, no auditório do Lyceu. Motivo: homenagear o colégio, o segundo mais antigo do Brasil, pelos seus 70 anos em Goiânia. O Liceu, fundado em 1846, desdobra-se em duas unidades, a de Vila Boa e a de Goiânia. Têm, pois, a mesma história. Modesto Gomes, presidente, escalou-me para ser o orador e eu, ex-aluno e ex-professor da Casa, emocionei-me. Mas cumpri a missão e, ao término, tirei gravata e paletó, mostrando o uniforme dos anos 60.

Pena que algumas pessoas indispensáveis tenham faltado. A AGL fez a sua parte, e continuará fazendo.

Sexta-feira, manhã de letras na Escola Municipal Castelo Branco, na Vila Militar do Exército. Estive lá, antes; voltei, pois, para renovar alegrias: é sempre bom estar em escolas. E antes que o ano acabe, estarei de novo (de novo) na Escola Municipal Pedro Ciríaco, na Vila Concórdia. E, quem sabe, de novo no Colégio Pedro II, nos festejos dos 170 anos.

E Deus, que abençoa quem estuda e quem ensina, acolheu o Phaulo. Certamente, com muito bom humor!

Lyceu: 70 anos em Goiânia


O Liceu em Goiânia

1937 – 2007

(Discurso proferido por mim na Sessão Solene da Academia Goiana de Letras, realizada no próprio colégio, em homenagem aos 70 anos do Liceu em Goiânia. Luiz de Aquino)


Eu vim aqui para falar de amor. E amor começa na auto-estima; o segundo passo é o amor aos que nos cercam e contribuem para o nosso bem-estar, oferecendo-nos ensinamentos e alegrias, obstáculos e, com estes, as chances de vitórias.

Assim, venho falar de amor. De amor e de tempo.

Este era um país de homens rudes, afeitos às lides do campo, fosse a criação de gado para o leite e a carne, fossem as lavouras de alimento e vestuário. As letras e as ciências eram ocupações da nata citadina. Surgia, naqueles anos da Regência, a preocupação dos governos, tanto na Corte quanto nas províncias, de se dotar o país de escolas. Ou de Liceus, como era a moda na Europa que nos servia de exemplo.

Em 1837 o Ministro do Império Bernardo Pereira de Vasconcelos apresentou ao Regente Pedro de Araújo Lima uma proposta para a organização do primeiro colégio secundário oficial do Brasil. Pereira de Vasconcelos acreditava que a instrução pública seria melhor do que a particular, que se mostrava inadequada, por ser oferecida em salas precárias e por professores mal preparados. Assim, no dia 2 de dezembro daquele mesmo ano, era instalado o Colégio de Pedro II (era esse seu nome original).

O colégio concebido por Bernardo Pereira de Vasconcelos sobrevive, festejando, daqui a dez dias, 170 anos de existência, tendo sucedido ao Seminário de São Joaquim, criado por Frei Guadalupe em 1739.

A Província de Goiás, nove anos depois, criaria o seu Liceu de Goiás, por iniciativa do presidente Joaquim Inácio de Ramalho.

Recorro à monografia Lyceu de Goiás, da Fundação ao Tempo Presente, da professora Kátia Rodrigues de Morais e ao livro História da Instrução Pública em Goiás, do professor Genesco Ferreira Bretas, que, em anos da década de 1960, dirigiu este educandário. Não nos surpreende saber que criar o Liceu foi um atrevimento e mantê-lo, um desafio que se estendeu por muitas décadas. Não havia um imóvel onde se instalar a escola; nem dinheiro para a construção. Por isso, o Liceu funcionou, nos primeiros, em uma sala e uma varanda da Inspetoria da Fazenda.

Mais de uma vez, falou-se em encerrar as atividades do Liceu. Mas ele se tornou, na capital goiana, naquele Século XIX, um referencial indispensável à vida da cidade: tudo o que se passava na cidade, refletia no Liceu. E vice-versa. Os bons alunos eram citados e respeitados em sociedade; os maus alunos, ignorados, numa sanção social que, certamente, influiria nos resultados dos estudantes em exames e mesmo em sua vida profissional, ao seu tempo.

A República exigiu que o Colégio de Pedro II não ostentasse o nome do imperador deposto; assim, e por cerca de duas décadas, o colégio da então Rua Larga, no Rio de Janeiro (hoje, Avenida Marechal Floriano) chamou-se Ginásio Nacional. Desde sua fundação, o Colégio Pedro II (nome atual) era referência de ensino, isto é, era o Colégio Padrão de Ensino para todo o país. E em 1904 o Liceu de Goiás começou um processo de equiparação ao Ginásio Nacional.

Com a mudança da capital, o Liceu ficaria na Cidade de Goiás. Pelo menos, fora essa a promessa de Pedro Ludovico Teixeira, interventor federal e fundador de Goiânia, aos vilaboenses. Mas, na prática, a permanência ficou inviável: os estudantes, em sua grande maioria, eram filhos de funcionários estaduais, transferidos para a nova cidade. O colégio precisava, pois, ser também transferido. Vale dizer que, ao criar Brasília, o presidente Juscelino Kubitschek não teve necessidade de medidas assim radicais. As escolas, e até mesmo uma universidade, eram novos estabelecimento, permanecendo no Rio, antiga capital, não só o Colégio Pedro II como, também, a Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas o Estado não teria condições financeiras, nem recursos humanos à altura, para manter dois colégios, um na Cidade de Goiás, outro em Goiânia.

E este solene sobrado da Rua 21, tombado pelo Patrimônio Histórico, é o que festejamos hoje. Inaugurado no dia 27 de novembro de 1937, sob a direção do professor Iron Rocha Lima, ele abrigou, também, o Grupo Escolar Modelo, do qual o artista José Amaury Menezes foi aluno neste prédio.

O velho Liceu, que na cidade de Goiás foi escola para Pedro Ludovico e seu filho Mauro Borges Teixeira, servira também de formador de centenas de outros goianos ilustres nas mais variadas profissões. Por ele, na antiga capital, passaram escritores do quilate de Bernardo Élis e de José J. Veiga, além de juristas, médicos, arquitetos e engenheiros, artistas de pincel e partitura.

Em Goiânia, o Liceu não só continuaria sua vida de glórias, mas seria consolidado como um dos mais importantes estabelecimentos na história da educação pública do País. E enquanto nos formava para as letras e as ciências, éramos também forjados na luta de consciência social. Pelo Grêmio Félix de Bulhões, agimos em greves, passeatas e outras manifestações de nítido comprometimento com a nossa comunidade. Herdamos deste colégio a fibra da resistência e da lucidez como cidadãos de verdade.

Lamento que Goiás, sua gente e seus governos, não atentem para essa importância. Se o fizessem, o Liceu seria um referencial majestático do ensino brasileiro. Educadores da mais fina afinidade com o futuro, que simbolizo na figura do meu conterrâneo de Caldas Novas e meu diretor, quando aluno, o Professor Genesco Bretas, sabem disso. E bem o sabe a Professora Teresinha Vieira, que sucedeu o Professor Bretas e a quem me reportava quando professor de Geografia e de Educação Moral e Cívica, nos anos duros em que a democracia tinha sobrenomes. Era o tempo da “democracia relativa”, no dizer de um dos generais presidentes.

Ainda é tempo!

Senhora Secretária da Educação, Professora Milca Severino!

Senhor Governador de Goiás, Doutor Alcides Rodrigues!

Resgatemos a História do Liceu de Goiás. Esta unidade de ensino não é diferente daquela que Pedro Ludovico trouxe de Vila Boa. Este é o Liceu fundado pelo Barão de Ramalho em 1846, o 12º dentre os liceus criados no Brasil naquele tempo das Regências do Império. O bom senso devolveu o Liceu à Cidade de Goiás; mas um descuido fez com que as duas unidades ficassem distanciadas.

Hoje, com o fechamento de todos os demais liceus e colégios criados antes de 1846, à exceção do Colégio Pedro II, somos o segundo mais antigo dentre todos os educandários do Brasil.

Em mim, ex-aluno e ex-professor do Liceu de Goiânia, mora uma alegria múltipla: fui aluno dos dois mais antigos colégios brasileiros. Talvez seja eu o único brasileiro a desfrutar deste privilégio, o de ter concluído o curso ginasial no Pedro II e o Clássico no Liceu.

Eu proponho, Senhor Governador e Senhora Secretária, Senhores Deputados, que se restaure a história, editando-se uma Lei, pela Assembléia Legislativa, definindo que o Liceu de Goiás, fundado por Joaquim Inácio de Ramalho, pela Lei nº 9, de 20 de junho de 1846, constitui-se de duas unidades – Unidade Vila Boa, na Cidade de Goiás; e unidade Goiânia, na capital do Estado.

Esta é a nossa casa. A casa de dois presidentes do Banco Central do Brasil: Gustavo Loyola e Henrique Meireles. A casa de vários parlamentares de todos os níveis, de prefeitos e governadores. A casa de um sem-números de professores, profissionais liberais da saúde, das comunicações, das construções e do direito. A casa de Íris Rezende Machado, de Irapuan Costa Júnior, de Alcides Rodrigues, de Pedro Wilson, de Wander Arantes, de Iran Saraiva e de poetas Afonso Félix de Sousa, Gilberto Mendonça Teles, Martha Azevedo Panunzio, Emílio Vieira, Ciro Palmerston... Perdoem-me aqueles que omito: não tenho todos os nomes, mas não me furto ao risco da injustiça para com tantos; apenas os simbolizo nestes homens públicos que, na mocidade, usufruíram de convivência feliz neste pátio.

Enfatizo ainda, senhores professores, estudantes, colegas da Academia Goiana de Letras, autoridades e amigos convidados, que se restaure também a dignidade deste Colégio, fortalecendo-o pelas medidas que norteiam a boa educação. O Liceu já viveu muitos momentos de crise, mas sempre sobreviveu. Sua águia, às vezes, é uma fênix. E a nós, que absorvemos deste Liceu centenário os ensinamentos científicos, artísticos, culturais e morais, havemos de fortalecê-la para resistir às chamas.

Por isso, eu vim aqui para falar de amor. É que falar de amor é uma das poucas coisas que faço bem. Sou muito amor. Sou amor ao próximo e a todos os que contribuíram para que eu, hoje, fosse feliz. E o Liceu me ensinou boa parte deste caminho.

E, para concluir, desfaço o laço da gravata e tiro o paletó. Neste momento, volto a ser o aluno do Clássico daqueles anos 60.


domingo, novembro 18, 2007

Conversa comigo e com o tempo


Conversa comigo e com o tempo





Olhar a paisagem é um exercício de tão saudável e proveitoso quanto conversar com crianças. Tenho isso de remexer memórias ao olhar o longe. Olhar o longe é bom; faz com que busquemos velhos registros na memória e nos surpreendemos a fazer a justaposição de visões de anos passados. Constatamos, então, as mudanças que os homens e o tempo causam nos cenários, sejam eles urbanos, naturais ou “beneficiados” nas ações das atividades ditas produtoras.


Já viram o quanto a paisagem urbana de São Paulo está bonita? O prefeito teve uma atitude corajosa e atrevida, com o indispensável apoio da Câmara, e removeu o entulho publicitário. Agora, nossos olhos ganharam de volta a arte de milhares de arquiteturas. Nessa esteira, várias cidades brasileiras fizeram o mesmo. E, para nossa agradável surpresa, muitos empresários apoiaram as iniciativas e a qualidade de vida, então, agradece.


Goiânia devia fazer o mesmo.


Notei, percorrendo devagar a Avenida Anhangüera, num dia de feriado, que muitos imóveis comerciais estão vazios; com isso, muitas fachadas comerciais foram removidas, devolvendo à paisagem a arte de muitos arquitetos. Assim, pude ver que há muito mais de “art déco” do que as mídias nos mostram.


Toda casa de moradia ou de comércio, bem como os edifícios, deviam ostentar o nome de seus autores arquitetos. É de justiça e nos prestaria uma informação valiosa.


Senti saudade das guarirobas que separavam as duas pistas de trânsito. O plantio de palmeiras imperiais nas esquinas da Anhangüera, no Centro, não são o bastante. Continuo entendendo que remover os coqueirinhos foi mais uma tentativa de apagar de Goiânia as referências ao fundador da cidade.


Ver a cidade com algumas mostras de sua arquitetura original fez-me viajar no tempo. Recordei a Banca do Alemão, o Bar Tip-Top, a Casa Clark no Lord Hotel e o Tagliatelle Bolognese do Hotel Monte Carlo. Revi os figurões da época, de terno e gravata, falando de política, de negócios ou de amizade na calçada do Café Central. Mas revi a cidade de muitas casas familiares, senhoras solenes e belas em passeios vagarosos nas calçadas, olhando as vitrinas com olhares consumidores e críticos.


A juventude à toa marcava presença na Rua Oito, justo no trecho que ganhou um calçadão. E a juventude ocupada ornava as ruas do Centro com as cores de uniformes Ateneu, Instituto, Assunção, Liceu, Auxiliadora, Escola Técnica, Santo Agostinho...


Sim, aquele diálogo entre mim e eu foi o confronto de agora com um adolescente dos anos da década de 1960. A lembrança e a vista de agora. Um modo de olhar e aprendizado lento e eficaz. Foi como conversar com criança. Ouvir dos tios, na minha infância, informações sobre os meios de transporte dito antigos. E antigo, para mim, seria tudo o que antecedia meu nascimento. E os tios contavam que os trens de subúrbio, na velha capital federal, eram puxados por maria-fumaça. Um deles lembrava ouvir do pai histórias do tempo dos bondes puxados por burros (hoje, revejo fotos do chamado Rio Antigo, com ônibus e bondes de que me servi na infância; antigo, agora, sou eu).


Antigo e feliz. Afinal, vivi a minha história e, lembrando de mim, tenho imagens de povo em ação, rejeitando tentativas de golpes político-militares (até que não foi possível conter o que veio com mais intensidade; era 1964). Lembro aviões em rasante sobre Goiânia, num episódio que, sabe-se hoje, o capricho de um general determinaria uma carnificina para vingar a insubordinação de um tenente-coronel reservista que, por ser governador eleito, recusava ordens calçadas em coturnos.


Tudo bem... são lembranças, afinal. E a história, esta se faz dos escritos dos historiadores. Mas nós outros, os que lançamos grãos de areia na construção dessas imagens, podemos fazer mais no que dizemos ser nossa parte. Para começar, podíamos muito bem remover as falsas fachadas e racionalizar as placas publicitárias.


O futuro agradece.

domingo, novembro 11, 2007

Trânsito e letras




Trânsito e letras


É mesmo revoltante o que se vê, às noites, na Alameda Ricardo Paranhos. Meia-dúzia de “mauricinhos” e “patricinhas” invadem as pistas de automóveis; nas ilhas, não mais as barracas, mas mesas de plásticos e alguns prováveis professores acompanham os atletas noturnos. A imprensa já constatou que tais professores são de academias luxuosas e os atletas, parte da clientela pagante que, ao que tudo indica, não quer se misturar aos usuários da pista do Parque Areião, a poucos metros dali.


Pois bem: a imprensa já observou, identificou, mostrou e cobrou das autoridades. A Superintendência Municipal de Trânsito, parece-me, está acima do bem e do mal: não dá satisfações à sociedade. Faz ouvidos moucos, não age, não atua, não impede. A qualquer momento, já que a SMT não controla também a velocidade naquela região, uma tragédia vai acontecer. E aí, coronel-diretor, como é que fica?

Fica pintando a pista nas imediações da rótula da Avenida 85 com a Avenida T-63. Trabalho desnecessário, já que anunciam para breve o início das obras de mais um viaduto. E deixa-se de instalar sinais luminosos nos cruzamentos da Avenida 136 com a 145; e na Avenida Quarta Radial com a Rua 1037 – esquinas que vêm exigindo providências há tempos.


Enquanto isso, Batista Custódio sacode os brios de todos os governos de Goiás, desde Pedro Ludovico: é que o Palácio das Esmeraldas, em cujos aposentos e salas o Poder goiano instalou-se em 1937, completou 70 anos sem que disponha, até hoje, de uma biblioteca.


Incrível! Nós, escribas teimosos, frutos não da escolaridade, mas de nossas próprias vocações, criamos lastros pelos nossos esforços. O vetusto Liceu de Goiás, em sua unidade goianiense, completa também 70 anos agora (o Liceu transferiu-se da antiga capital para cá em 22 de novembro de 1937), que gerou alguns governadores (entre eles, Alcides Rodrigues, Íris Rezende e Irapuan Costa Júnior; Irapuan é, dentre todos os alunos do Liceu em Goiânia, o que detém as melhores notas dentre todos nós). Nem mesmo o Liceu, tradicional colégio, o segundo mais antigo do Brasil e, por muitas décadas, o padrão de ensino do Estado, detém uma biblioteca digna, pois algum(ns) diretor(es) de passado recente deram sumiço a livros raros e obras de arte de inestimável valor.


Uma amiga leitora indaga-me, estendendo a questão aventada pelo editor-geral do DM: “E o Paço Municipal? Tem biblioteca?”. Excelente e oportuna indagação! Não tem; o novo Paço Municipal não tem biblioteca, a sede da Prefeitura jamais a teve, em Goiânia. E, entre os secretários de governos, de qualquer nível (em Goiás) e em qualquer tempo, é comum encontrarmos secretários totalmente avessos à política dos livros. Se me cutucarem, cito nomes.


Aliás, e a bem da verdade, já tivemos aqui um prefeito a quem eu quis outorgar o título de “Inimigo Número Um da Literatura”. Não o fiz porque o meu amigo Ubirajara Galli me convenceu do contrário: o prefeito em questão receberia o título como honraria... É nisso que dá elegermos forasteiros para cargos tão importantes.


Em Anápolis, um prefeito construiu um Centro Cultural. Seu sucessor entendeu que a cidade não precisava de cultura e, sim, de um novo Paço. Expulsou a cultura e fez de lá um palácio. Que se danem livros e artes...


Olho os desmandos dos condutores no trânsito; vejo os abusos da Classe AA do Marista nas noites da Ricardo Paranhos; relembro o despreparo de alguns para cargos importantes e concluo: realmente, há que se fazer muito pela qualidade do ser humano em Goiás. As bibliotecas têm de existir, sim, nos palácios e nas escolas, para não dizer em cada lar. Um pé-rapado, como eu, tem em casa muito mais livros que as sedes dos Poderes Públicos goianos.


Se a nossa gente lesse mais, certamente não teríamos “homens públicos” tão despreparados.

domingo, novembro 04, 2007

Hesitar ante o êxito


Israel, meu pai



Hesitar ante o êxito


Minha amiga, que é avó precoce (tem apenas 41 aninhos), separou-se do marido flatulento; a casa foi vendida e a renda, dividida. Com a parte que lhe coube, e levando em conta que os filhos, aos poucos, vão se instalando na vida ou nas esquinas do tempo, comprou uma casa menor, que exigiu uma rápida reforma.

Tudo bem, foram apenas três semanas de “faixa-de-gaza”, que ela passou na casa dos próprios pais, ambos na faixa próxima do fim da sétima década. Lá pelo décimo dia, liga-me ela: “Agora eu me lembrei a razão por ter me casado tão nova... É que eu não agüento meu pai”. Claro, há aí um exagero: ele tem lá suas manias, que não combinam com as manias dela, nada mais que isso.

Depois, mais calma, envia-me um e-mail: “Pois é, tive de voltar a viver no lar original para me lembrar que conviver com meu pai é impossível; não “exitei” em aceitar o pedido de casamento”...


Esse “exitei” pediu de mim uma correção: “hesitei”, respondi-lhe. Ela agradeceu e continuamos a conversa. Ao término, confiro minha caixa de correio e vejo um lembrete de uma colega:

– Luiz, você escreveu “ofença”...

Corri a corrigir. Logo eu, que vivo criticando os que escrevem e não lêem... Mordi a própria língua. Lembrei-me que, há anos, décadas, eu redigia para um colunista. Ele ditava as notas, eu dava forma escrita. Numa dessas, escrevi: “O bebê que embeleza o bersário”...Sim, cometi o mesmo erro, na letra contrária: agora, troquei S por Ç; no passado, a outra mão da via de erro.

Equívocos são rotina. Vazar um sinal fechado; esbarrar e não pedir desculpas; bater a canela no pé da cama; queimar-se ao fogão ou ao ferro de passar; dizer palavras ou frases inadequadas; escrever com grafia errada; atravessar na concordância ou na regência; misturar as coisas. Achar que o pai é ultrapassado e chato, neurótico ou inconveniente...

E aí, enquanto vislumbro os erros de troca-letras, que atribuo aos vícios de gestos ao teclado (aniversário, verso e anverso... palavras que escrevo demais; vai daí, “berSo”, ou melhor “berSário”. E, ainda, “ofença”, que segue a linha de licença etc. Ah, tem agravante: o computador sublinha as palavras com grafia errada, todos sabem; mas há escribas menos atentos, feito eu, que não lêem o que escrevem. E aí vem à mente o velho adágio: “Escreveu, não leu, pau comeu”.

Do pai, recordo o tempo em que não eram minhas as contas. Naquele tempo, ele não era chato nem antigo, era pai. Agora, é um velho que a sociedade menospreza, por ser velho (mas a sociedade é isso aí; eu, que ainda sou filho, isto é, sou novo-velho, já sou dispensado em muitos ambientes); mas os sensíveis vêem nele um exemplo de saudável teimosia: a sobrevivência.

Olho o velho pelos olhos; só depois vislumbro a pele de rugas e manchas. Ouço-o agora em palavras, mas antes só lhe ouvia o vibrar de cordas sonantes e dissonantes, ao violão ou ao bandolim de valsas e choros. Agora, ouço-lhe histórias e provoco-lhe a verve de humor e sabença.

E a ortografia toca-me os sentidos, como os olhos dos pais velhos. Vejo a intenção de mudança, o fim do trema... Recuso-me a comer “linguiça” ou pronunciar “engüiça”. Afinal, não sou radialista esportivo, que inventou “cirqüito” para não se confundir com “curto-circuito”.

– Pai! Diga-me, quando você estava na escola, como se escrevia saúde?

E ele, solítico e sorridente, escreve, com letra firme como os acordes de antes: “Sahude”.

Por essas e outros, mando um recado à minha amiga:

– Menina! Aceite as manias do velho... Em pouco tempo, você estará onde estou; e eu, agora, ando a poucos passos de seu pai.

sábado, outubro 27, 2007

Semana de tanta poesia...





Semana de tanta poesia...


Noite de segunda-feira, 8 de outubro. Desembarco no Aeroporto Tom Jobim; como sempre, com a melodia e a letra de alguma canção maravilhosa do Maestro Antônio Brasileiro na cabeça. A demora na fila de espera para estacionar o avião; a demora na chegada das bagagens à esteira; a demora, a demora... Religo o celular. Um recado: “Sarau poesia erótica, Bar do Adão, Botafogo, Rua Dona Mariana...” – sei onde fica. Chego a Copacabana, deixo a bagagem na portaria do prédio da minha sempre hospitaleira Tia Miriam, aproveito o mesmo táxi e retorno a Botafogo.

Irreverência e performance. Não sou performático... Isso é coisa para o Gabriel Nascente e o Marcos Caiado. Mas contam da minha presença (coisa do poeta Luiz Fernando Proa, é certo) e atrelam-me à Academia Goiana de Letras; Cairo Trindade, o poeta que, ao lado da mulher Denises (assim mesmo, no plural) dirige o evento, anuncia-me com certo tom de estranheza: “Bem, ele é de Academia, mas há de compartilhar conosco...”. Rimos todos e surpreendi os poetas com meu modo de ser não-acadêmico (ou, ao menos, contrário ao conceito do que têm eles por “acadêmico”).

Foi Luiz Proa quem me avisou: “Amanhã, terça-feira, a partir das seis e meia (noitinha, é claro), tem sarau no Teatro Gláucio Gil”. Sei onde fica, também; pertinho da morada da minha tia. Fui lá. Conheci poetas, encontrei Sergio Pietroluongo, localizei ex-alunos do Colégio Pedro II ao responder à organizadora a razão de minha estada por lá.

Quarta-feira, o dia dos meus saraus no Colégio, e já falei neles em outra crônica, há dois domingos. Então, vamos à quinta-feira, dia 11, véspera de feriado nacional. Ouço, numa mesa-redonda, os acadêmicos Antonio Olinto, Antônio Carlos Secchin e Ivan Junqueira, mais o professor Ivo Barbieri, em homenagem aos 150 anos de nascimento do poeta fluminense (e membro fundador da ABL) Alberto de Oliveira.

No sábado, novo sarau de poesia. Dessa vez, no Barteliê, um apartamento-bar em Ipanema, em endereço que diz muito à poesia e à bossa-nova: Rua Vinícius de Morais, esquina com Nascimento Silva. Pude, finalmente, conhecer pessoalmente a poetisa Chris Hermann, carioca residente na Alemanha, com quem forcei uma parceira, ao não resistir ao encanto de um poema seu. E salvei novos contatos, entre eles Clauky Saba e Soraya Vieira, além do maestro Cláudio Mendes, que teceu notas, tons e acordes em torno de um dos meus poemas, com o “auxílio luxuoso” (com licença de Luiz Melodia) de Clauky. Ah, inesquecíveis: a sempre presença de Luiz Proa, poeta e ativista cultural, filmando e fotografando tudo... E o também visitante Carlos Gurgel, poeta potiguar.

Mas havia mais... Havia, na segunda-feira, 15, data consagrada aos professores, uma outra festa; agora, de Antonio Olinto, o imortal da ABL e amigo de Goiás que, a meu convite (e com o apoio da Prefeitura de Goiânia), prestigiou a inauguração, no SESC da Rua Dezenove, em Goiânia, o Espaço Literário José J. Veiga. E o palco dessa festa foi uma belíssima unidade do SESC no Rio de Janeiro, na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo. O palacete de arquitetura mourisca abriga, desde aquela noite, a exposição de máscaras africanas da coleção de Antonio Olinto e Zora Seljan. Momento bom de rever Antonio Olinto, Ivan Junqueira, Gilberto Mendonça Teles (mas não nos encontramos, naquela multidão), Elizabeth Almeida, Edir Meireles, Astrid Cabral...

Semana rica de fatos e pessoas. Tal como eu gosto, tal como qualquer mortal gosta: viver o que nos dá prazer e conviver com os que amamos.


terça-feira, outubro 23, 2007

Pedro, a Pedra e a cidade.

Pedro, a Pedra e a cidade.




(Especial para ojornal Tribuna do Planalto; publicada na Edição de 20/10/07 - http://www.tribunadoplanalto.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=4378&mode=thread&order=0&thold=0)



Pedro Ludovico foi posto no poder, em Goiás, em 24 de outubro de 1930, e o informe de sua nomeação, pelo vitorioso Getúlio Vargas, logo após “amarrar os cavalos no Obelisco”, veio em telegrama. Um informe que equivaleu a alvará de soltura (Pedro, preso, era levado de Rio Verde para a capital, Cidade de Goiás).

A tomada do poder, nas pedras da vetusta Vila Boa, não foi plácida como um mar de baía, não... Houve resistência. O novo governante notou que a cidade não oferecia condições de melhoria nem de expansão. Era preciso uma nova capital.

“Fiat”: faça-se. E se fez. E o começo se deu exatos três anos após: em 24/10/1933, a Pedra Fundamental de Goiânia. Desde então, tudo se repete: a cidade imaginada para conter cinqüenta mil pessoas extrapolou os primeiros limites. A antiga Campinas tornou-se bairro e, entre os dois pólos, desenvolveu-se uma trilha de avenidas e ruas... Esses bairros esticaram-se para os quatro pontos cardeais. Migrantes de todo o país trouxeram suas culturas de comidas e falas. E veio Brasília, desde 1956, a fomentar Goiânia (JK, presidente e depois senador por Goiás, escreveu a Pedro Ludovico dizendo que o êxito de Goiânia estimulou-o a fazer Brasília). Em 1960, Goiânia já era maior que duzentos mil viventes.

Vamos ler nos jornais, e ouvir das rádios e tevês, a indefectível afirmativa: “planejada para cinqüenta mil habitantes...”. Vamos ver imagens de verde e de flores em cores, depoimentos otimistas de moradores nativos e adventícios, todos cheios de alegria e esperanças (inevitável: aniversário é tempo de alegria e otimismo, uai!). Mas haverá também os chatos a exigirem mais providências, mais ações de governo. Não basta o asfalto, é preciso esgoto de chuva e sanitário; não bastam salas de aulas, carecemos de bons professores, bem remunerados; não bastam sinais luminosos de alta tecnologia, é preciso que sejam respeitados. E não bastam multas de trânsito, queremos disciplina.

Penso nisso e caminho por aí. Ora de carro, ora a pé... Percorro vias e namoro fachadas. Gosto de ver o toque em “art decó”, mas gostaria mesmo que a cidade imitasse São Paulo e removesse cartazes e placas que ocultam a arquitetura. E que se plantassem mais árvores, novas árvores, de modo que nenhuma outra monguba caia sobre os automóveis nem que as cores dos jardins públicos não se limitassem ao verde das folhagens.

Subo a Rua Sete, no Setor Oeste; ultrapasso o contorno da Praça Tamandaré, a rua se curva ao traçado do projetista e atravessa a República do Líbano... Mas não é mais a Rua Sete e, sim, a Rua Cinco, em curva simétrica; e a Rua Cinco desce paralela à Rua Sete, até seu limite na mesma Avenida Alfredo de Castro onde começou a Sete...

Escrevi num poema, há alguns anos: “Aqui as paralelas se encontram: / Goiânia é cheia de infinitos”. E aqui, as praças não caem na tradução simplista do Inglês “square”, pois as nossas praças são, como a parisiense “Place d'Etoile, circulares, e em profusão no Parque Amazônia, onde quase sempre me perco por achá-las muito iguais. Nas calçadas, churrasqueiras recendem o espetinho saboroso; nos bares, murmúrios de luz e alegria, um “parabéns” infalivelmente desafinado; nalgum palco de botequim, um cantor canta bossas e um poeta derrama versos de revolta, ou de amor (que ainda se ama por aqui).

Olho ao alto. Agradeço e peço licença... Licença aos céus para continuar vivendo; ou sendo. Dizem que é pecado, mas o que é o não-pecar, se padres e pastores conseguem ser menos cristãos que os monges do Dalai Lama? Aqui e alhures, porque minha cidade é mais que algum lugar: é Goiânia, uma síntese brasileira. De dores e de cores; de vícios e amores; de pecados...

E de flores, uai!