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sábado, novembro 24, 2007

O adeus e a caminhada

O adeus e a caminhada


Segunda-feira sempre foi um dia chato. Dia de voltar ao trabalho; dia que a gente escolhe para começar regimes ou tomar providências que são novamente adiadas; dia de correr ao banco... Isso, sem falar no trânsito, na cara do chefe, nas manias do chefe, nas piadinhas do chefe...



Bom de piada era o Paulo Gonçalves. Ou melhor: Phaulo Gonçalves. Aquele H após o P insinua F, não é mesmo? Não, não é, contestava ele. “Mas, moço, o som é de F, sim; tanto que, antigamente, se escrevia pharmácia”. E ele: “Antigamente! Mas, hoje, a gente sabe que o H é letra muda, morta. Logo; o H é só partícula de realce; meu nome é Paulo; só que, agora, eu escrevo Phaulo, com H mudo”.

Investimento, lembrou-me o Ivan Mendonça, era com ele mesmo: “Invisto tudo em gado; meio quilo de carne de segunda, todo dia”. Conheci-o pelas páginas do Cinco de Março, o semanário que não teve medo da ditadura. Phaulo escrevia o Pára-choque, a coluna de humor que o DM herdou. Quando nos conhecemos pessoalmente, nasceu entre nós uma amizade que, mesmo nova, é amizade de infância, sim. Por isso, não me lembro de nossos primeiros contatos; sempre me pareceu que o conhecia de nascença.

Com Jorge Braga, formamos um trio harmonioso; éramos tão unidos que fomos parar nos arquivos da repressão com uma nota na minha ficha: “Atua em conjunto com Paulo Gonçalves e Jorge Braga”. Vai ver, na ficha de cada um havia esse “aval” de compadrio. Fazer o quê, uai? Um dia, Phaulo foi com a família a Caldas Novas. Eu não iria. Mas ele fez questão de ir à casa de meus pais, conhecê-los. Isso nos aproximou ainda mais e ele me alugou um apartamento na Vila Jaraguá. E esclareceu: “Sua mãe disse que se preocupa muito com essa sua história de morar no automóvel” (Ih... fui falar nisso! Outro dia eu conto essa passagem. Aliás, foram duas).

Pois é. Segunda-feira é um dia desagradável. Esta última, 19 de novembro, aniversário de outro amigo de infância, o Paulo Fernando Cardoso... Eu felicitava o aniversariante ao telefone celular; então, tocou o fixo e era o Nilson Gomes a me contar que Phaulo se fora para a outra vida. Pelo que sei dele, estou certo de que, lá em cima, cuida de nós.

* * *

E aí, chega a quinta-feira. A alma anda triste, como se vê. Mas a vida continua. Pela manhã, visita de alunos e professores do Colégio Zenite,de Itumbiara. Manhã alegre, feliz, porque estar com estudantes é assim, sempre. A não ser quando algum desajustado inventa, como é moda lá no “primeiro mundo”, de fazer baderna, como atirar nas pessoas ou espalhar drogas. Como não é esse o nosso caso, participei do encontro dos estudantes com a Academia Goiana de Letras, na Casa de Colemar Natal e Silva.

À tarde, a mesma Academia realizou uma sessão solene, no auditório do Lyceu. Motivo: homenagear o colégio, o segundo mais antigo do Brasil, pelos seus 70 anos em Goiânia. O Liceu, fundado em 1846, desdobra-se em duas unidades, a de Vila Boa e a de Goiânia. Têm, pois, a mesma história. Modesto Gomes, presidente, escalou-me para ser o orador e eu, ex-aluno e ex-professor da Casa, emocionei-me. Mas cumpri a missão e, ao término, tirei gravata e paletó, mostrando o uniforme dos anos 60.

Pena que algumas pessoas indispensáveis tenham faltado. A AGL fez a sua parte, e continuará fazendo.

Sexta-feira, manhã de letras na Escola Municipal Castelo Branco, na Vila Militar do Exército. Estive lá, antes; voltei, pois, para renovar alegrias: é sempre bom estar em escolas. E antes que o ano acabe, estarei de novo (de novo) na Escola Municipal Pedro Ciríaco, na Vila Concórdia. E, quem sabe, de novo no Colégio Pedro II, nos festejos dos 170 anos.

E Deus, que abençoa quem estuda e quem ensina, acolheu o Phaulo. Certamente, com muito bom humor!

4 comentários:

Mara Narciso disse...

Gostei muito de conhecer Phaulo, ainda que apenas de passagem e na despedida dele. A história do investimento em gado é para estar cunhada nos anais eternos. Todos deveriam conhecê-la e você nos deu essa oportunidade.

Apreciei o excelente estado de humor nessa crônica. Foi-me possível rir algumas ves. Muito boa!

Mara Narciso

Madalena Barranco disse...

Luiz, sua crônica é como uma balança: de um lado pesa as tristezas da semana e do outro, as alegrias. Aí, você mexeu com a alma das letras e transformou-as em: saudade do que não voltará e saudade do que renasce todos os dias no saber de uma escola... Beijos da fã.

Nairte disse...

Oi Luiz, tudo bem? gosto muito de ler suas crônicas... como eu fiquei fora uns dias, hoje lí todas que não tinha lido...e fiquei sabendo da morte do P"h"aulo....
Um grande beijo.
Nairte

Wanda disse...

Conheci o Phaulo... Teve uma época lá atrás em que eu e amigos tomávamos cerveja nos bares de Goiânia e ele tomava leite. Eu achava um barato aquilo.
Adorei a crônica.
Abraços!