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sábado, junho 10, 2017

Mulheres de versos



Gilberto Mendonça Teles, 56 anos de imortalidade na Academia Goiana
de Letras.





Mulheres de versos



Uma festa de prazer e justiça – a sessão da Academia Goiana de Letras em homenagem ao poeta e crítico literário Gilberto Mendonça Teles, filho de Bela Vista de Goiás (sim, não é só Geraldinho, o contador de causo, que abrilhanta a pequenina urbe nas cercanias de Goiânia), estudante e mestre em Goiás e referência de destaque internacional, com moradia no Rio de Janeiro, a eterna Belacap.

O mais destacado dentre os intelectuais goianos vivos está no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, expulso deste Planalto Central por força das perseguições do sistema de repressão da ditadura, acionado – sem dúvida – por falsos amigos, colegas invejosos.

Profa. Dra. Fátima Lima, uma das palestrantes,

O mal que lhe quiseram fazer transmudou-se em benefícios imensuráveis. E aquele moço que, em 1961, empossou-se imortal na árcade goiana, é hoje o nosso decano. Para homenageá-lo, reunimo-nos (seus confrades e amigos), com uma expressiva participação de amigos literatos e mestres das letras.

GMT, este cronista e o prof. José Fernandes, outro palestrante da noite na AGL.

Gostei particularmente da manifestação da poetisa Beth Abreu, editora, há alguns anos, da Oficina Literária que se dá todos os domingos, com poemas e ilustrações por notáveis artistas. Membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), Beth Abreu lembrou que GMT é, também, por escolha daquela confraria feminina, o Príncipe dos Poetas goianos – e, nesse momento, a presidente Leda Selma, da Academia Goiana Letras, reagiu com inefável felicidade:

– E as princesas?
Escritora Leda Selma, presidente da AGL.
Isso disparou na minha pobre imaginação uma fila bela e expressiva, puxada pela primeiríssima poetisa goiana, a caldas-novense Leodegária de Jesus, pouco lembrada por tantos do meio das letras e ignorada pela mídia, bem como pelas escolas.

Findo o ato solene, puxei de lado a querida confreira Beth Abreu e lhe sugeri, com um monte de palpites mais, que se institua uma premiação às poetisas goianas com o nome da autora de Coroa de Lírios (1906) e Orquídeas (1928). Afinal, esses dois livros da lavra de Leodegária são os primeiros na hoje imensa lista da produção poética das mulheres goianas. A ela seguiram-se Regina Lacerda (1954) e Yeda Schmaltz (1964) – e as demais seguiram-lhes as pegadas.

Disse-lhe mais – que leve meus pitacos, aprimorados pela sua cuidadosa capacidade criadora, às confreiras aflagueanas. Antevejo os louros legítimos às poetisas de ontem, mas sobretudo e especialmente, o reconhecimento temporal às mulheres (não são poucas, não!) que enfeitam nossas vidas com seus versos.



Poetisdas Beth Abreu e Rosy Cardoso com Gilberto Menonça Teles

Grande será, obviamente, a alegria das poetisas conterrâneas, as de nascimento e as adventícias. E são senhoras da minha geração, mescladas às moças de ontem e anteontem, bem como as meninas que despontam com seus conceitos atuais da poesia – a gente as vê nas escolas, nas livrarias, nas bibliotecas... E muitas são as mulheres já portadoras das cãs do tempo (quase sempre cobertas com as tinturas que também lhes dão encantos) que se demoraram a revelar-se autoras, além de musas.

Que a presidente Alba Dayrell, da Aflag, acolha esta minha humilde ideia, que ganhará o primor dos tratos de Beth Abreu, e que também a nossa AGL, capitaneada pela também poetisa Leda Selma, irmane-se às autoras membros da Casa de Rosarita, Nelly e Ana Braga para, então, promovermos algum certame ou evento sob a tutela imortal de Leodegária de Jesus e possamos, a cada ano ou biênio, sei lá, eleger as princesas dos versos nesta terra dos goiases!


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 04, 2017

Viver em vão



Viver em vão


Quem de nós, em sã consciência, nunca se perguntou sobre os propósitos e a qualidade de sua vida? Nascer e morrer, o Alfa e o Ômega – mas a questão não se dá sobre chorar ante a vida ou causar lágrimas pelo ponto final. A dúvida está, sim, sobre a validade geral dos feitos e das palavras.

Sei bem que cometemos o cinismo de justificar nossas escolhas de vida sob a máscara de “uma missão”, ou “a minha missão”. Não creio, mesmo, que a Espiritualidade Superior nos determine “Vá, nasça e faça isso ou aquilo”. A missão é viver em carne para nos aprimorarmos espiritualmente. A missão não é viver para constituir fortuna, mas, caso a tenhamos, fazer dela instrumento de bem-servir ao próximo, de crescermos em entendimento e atos.

Aprendi, muito cedo, valores que me norteiam – e que me trazem alguns sofreres porque a sociedade regida pelo poder e o capital é rigoroso com os que considera faltosos. Sou faltoso porque não juntei bens de matéria. De dentre as coisas que aprendi, cuido bem de não praticar o culto à personalidade dos que admiro – a esses, apenas dedico a admiração por seus feitos ou pelo exemplo deixado.

E são muitos, esses, pela minha ótica. Para não romper divisas e fronteiras, cito uns poucos da nossa mesma lavra, como a pioneiríssima poetisa Leodegária de Jesus (e seus estudiosos Darci França Denófrio e Basileu Toledo França), Léo Lynce, Bernardo Elis, José J. Veiga, Eli Brasiliense, Amália Hermano, Yeda Schmaltz e Joaquim Jayme (evitando listar nomes dentre os vivos).

Envaidece-me o reconhecimento nas ruas e a abordagem de leitores que (como eu também costumo fazer) comentam textos publicados, em livro ou jornais. Mas preocupa-me, porque receio a expectativa desses leitores ante um crescimento para mim inalcançável, mas sempre esperado.

Bom mesmo é ser anônimo – e crítico dos famosos e dos circunstantes. Como me aconteceu em dias finais desta semana, quando tomei a Avenida T-9, no Jardim América, rumo ao Setor Marista. Vali-me de percorrer uns poucos metros na faixa da direita, destinada aos ônibus, enquanto considerava a possibilidade de tomar a pista central – o que fiz tão logo pude. No primeiro sinal fechado, emparelhou-se – ocupando a tal pista dos ônibus, uma jovem e feia piloto de moto. Com a carinha de ferrugem muito fechada, censurou-me – “O senhor não pode usar duas pistas, tem que escolher uma e ficar nela. Isso é falta de respeito com os outros” – e continuou resmungando, até que ao seu lado parou outro motoqueiro – um jovem nitidamente mais velho que ela.

Percebi, pela expressão do moço, que não entendia o que ela vociferava contra mim, estimulada pelos meus talvez passivos cabelos brancos. Foi quando me dei conta de que deveria responder, e o fiz com “muito obrigado, moça!”, que repeti ao ver que ela não se calava. E recomendei, ainda:

– Cuida você de permanecer na sua faixa, motoqueiros gostam muito de “costurar” no trânsito.

A moça se calou, o sinal se abriu. Retomei o curso, cuidando de me manter no limite dos 50 km/h, enquanto via seu vulto cada vez menor à minha vista, numa velocidade certamente na medida dos 80 km/h...


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.