Vó Lilita e Vô Israel, em casa, com Lucas, 1995.
Retratos de
Saudade
Há
alguns dias, senti que me faltavam as forças do sentimento, algo assim como
entender a vida sem-graça, triste, e mal vivida; com o agravante de que o tempo
restante é mais curto a cada instante e que a capacidade de amor torna-se,
igualmente, frágil e quase que desnecessária.
Falam-me
do amo maior, esse que não tem limites nem forma, nem cheiro nem rumo certo – o
amor cristão, o amor caritativo, sem pieguice mas capaz de transformar o mundo.
Há notícias de que o hercúleo trabalho de transposição das águas do Rio São
Francisco para minimizar a crueldade natural do agreste nordestino está
simplesmente abandonado. Sejam quais forem as razões, esse abandono é um crime
– mas os partidários do governo acham-se superiores às leis, estranhamente. E
se as leis feitas por seus iguais, ainda que de outros tons políticos, são por
eles minimizadas, o que pensarão eles de valores morais fortes no sentimento humano
da tradição cristã?
Momento
de encostar a política. Momento de esquecer o amor, que já me deu tanta alegria
mas não me esqueço também das dores. O amor costuma chegar de súbito, não dá
aviso prévio nem mede a nossa resistência. Releio textos em prosa e poesia e me
acho amoroso demais. Depressão? Sei lá! Descubro que dois dias e alimentação
absolutamente irregular, em qualidade do que comi e nos horários totalmente
violentados, deixaram-me capaz de interpretar mal qualquer coisa, e sobretudo
capaz de uma agressividade gratuita e triste – mas, evidentemente,
irreversível.
Mas os
momentos se seguem. Há pouco menos de meia hora, sentia-me estéril, não
acreditando no que poderia escrever; preferi reviver uma antiga crônica – tenho
feito isso e sinto-me gratificado, opis os leitores que desconheciam o texto,
bem como os que o releem, sentem algo de diferente; e é essa razão de alegria
do autor, naturalmente. E eis qwue uma jovem e bela poetisa presenteia-me com
esse mimo, “Saudade”:
Saudade é casa caiada.
Cheiro de vó
café com pão.
Cheiro de vó
café com pão.
Saudade é febre
chá de alho
terço na mão
chá de alho
terço na mão
Saudade é fraqueza
rosto molhado
carta no chão.
rosto molhado
carta no chão.
De Renas
Barreto (em homenagem à minha vó Vitória Angélica)
Ora!
Ontem, meus sobrinhos e filhos ressuscitaram imagens de meu pai, desencarnado
aos 89 anos em 14 de novembro de 2011. Fotos dele ao violão e ao bandolim, fotos
dele com minha mãe, comigo e meu filho e meu neto... O tempo e as dores
ensinaram-me a tratar a saudade de modo a não me causar dor. A dor da ausência
incomoda-me quando do rompimento, mas aprendi a aceitar o destino. Entretanto,
gosto de curtir um cedê que meu saudoso amigo José Cunha Gonçalves
(desencarnado este ano)
presenteou-me: apenas músicas intituladas ou sob o tema da saudade. E
“Saudade”, do maestro goiano Joaquim Edson Camargo, era das preferidas de minha
mãe (19/09/1923-22/03/2004) e uma das duas escolhidas por ela para que meu pai
executasse ao bandolim no momento de seu sepultamento. E foi aproximadamente
por essa época, sem a evocação da saudade dos mortos, mas dos presentes idos ou
distantes, que compus esse poema, “Saudade certificada”:
Saudade do teu cheiro. Saudade
do tremor discreto de tuas mãos
porque te beijei sem avisar.
do tremor discreto de tuas mãos
porque te beijei sem avisar.
Saudade de beijar teus pés;
e dos teus dedos
a escrever carícias nos meus cabelos.
e dos teus dedos
a escrever carícias nos meus cabelos.
O tempo e o longe dão-me plena
esta intolerável certeza: a saudade
é certificado incontestável da tua ausência.
esta intolerável certeza: a saudade
é certificado incontestável da tua ausência.
Pois
é... Se existiu, valeu a pena! Se contribuiu para a minha felicidade, valeu a
pena! Se me doeu, valeu pelo que me ensinou – e sou eterno aprendiz. Mas a
minha homenagem vai para Renas Barreto. É muito bonito ver alguém com saudade
de vó...
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