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quinta-feira, novembro 15, 2012

Retratos de Saudade


Vó Lilita e Vô Israel, em casa, com Lucas, 1995.

Retratos de Saudade





Há alguns dias, senti que me faltavam as forças do sentimento, algo assim como entender a vida sem-graça, triste, e mal vivida; com o agravante de que o tempo restante é mais curto a cada instante e que a capacidade de amor torna-se, igualmente, frágil e quase que desnecessária.

Falam-me do amo maior, esse que não tem limites nem forma, nem cheiro nem rumo certo – o amor cristão, o amor caritativo, sem pieguice mas capaz de transformar o mundo. Há notícias de que o hercúleo trabalho de transposição das águas do Rio São Francisco para minimizar a crueldade natural do agreste nordestino está simplesmente abandonado. Sejam quais forem as razões, esse abandono é um crime – mas os partidários do governo acham-se superiores às leis, estranhamente. E se as leis feitas por seus iguais, ainda que de outros tons políticos, são por eles minimizadas, o que pensarão eles de valores morais fortes no sentimento humano da tradição cristã?

Momento de encostar a política. Momento de esquecer o amor, que já me deu tanta alegria mas não me esqueço também das dores. O amor costuma chegar de súbito, não dá aviso prévio nem mede a nossa resistência. Releio textos em prosa e poesia e me acho amoroso demais. Depressão? Sei lá! Descubro que dois dias e alimentação absolutamente irregular, em qualidade do que comi e nos horários totalmente violentados, deixaram-me capaz de interpretar mal qualquer coisa, e sobretudo capaz de uma agressividade gratuita e triste – mas, evidentemente, irreversível.

Mas os momentos se seguem. Há pouco menos de meia hora, sentia-me estéril, não acreditando no que poderia escrever; preferi reviver uma antiga crônica – tenho feito isso e sinto-me gratificado, opis os leitores que desconheciam o texto, bem como os que o releem, sentem algo de diferente; e é essa razão de alegria do autor, naturalmente. E eis qwue uma jovem e bela poetisa presenteia-me com esse mimo, “Saudade”:

Saudade é casa caiada.
Cheiro de vó
café com pão.

Saudade é febre
chá de alho
terço na mão

Saudade é fraqueza
rosto molhado
carta no chão.

De Renas Barreto (em homenagem à minha vó Vitória Angélica)

Ora! Ontem, meus sobrinhos e filhos ressuscitaram imagens de meu pai, desencarnado aos 89 anos em 14 de novembro de 2011. Fotos dele ao violão e ao bandolim, fotos dele com minha mãe, comigo e meu filho e meu neto... O tempo e as dores ensinaram-me a tratar a saudade de modo a não me causar dor. A dor da ausência incomoda-me quando do rompimento, mas aprendi a aceitar o destino. Entretanto, gosto de curtir um cedê que meu saudoso amigo José Cunha Gonçalves (desencarnado este ano)  presenteou-me: apenas músicas intituladas ou sob o tema da saudade. E “Saudade”, do maestro goiano Joaquim Edson Camargo, era das preferidas de minha mãe (19/09/1923-22/03/2004) e uma das duas escolhidas por ela para que meu pai executasse ao bandolim no momento de seu sepultamento. E foi aproximadamente por essa época, sem a evocação da saudade dos mortos, mas dos presentes idos ou distantes, que compus esse poema, “Saudade certificada”: 

Saudade do teu cheiro. Saudade
do tremor discreto de tuas mãos
porque te beijei sem avisar.

Saudade de beijar teus pés;
e dos teus dedos
a escrever carícias nos meus cabelos.

O tempo e o longe dão-me plena
esta intolerável certeza: a saudade
é certificado incontestável da tua ausência.

Pois é... Se existiu, valeu a pena! Se contribuiu para a minha felicidade, valeu a pena! Se me doeu, valeu pelo que me ensinou – e sou eterno aprendiz. Mas a minha homenagem vai para Renas Barreto. É muito bonito ver alguém com saudade de vó...

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domingo, novembro 11, 2012

Manhã de sonho e esperança



Lucas Leão, escritor; e as professoras Adriana, Agda, Allyne, eu e Ivone.



Manhã de sonho e esperança


Um pássaro prisioneiro, de canto dissilábico e repetitivo, desperta-me bem cedo, quando não me pesa o cansado de véspera ou algo me leva a dormir mais cedo. O trinado anuncia o albor e estende-se até perto das oito horas, no circuito natural do sol – ninguém disse à pequenina ave que a suprema autoridade da República impõe-nos um tal horário de verão. Da minha janela, vejo a gaiola de onde vem o som: a primeira nota, curta e una; duas outras compõem a segunda sílaba.

Gosto de ouvi-lo nas manhãs. Curiosamente, pássaros não costumam variar seu canto,  mas não há monotonia na brevíssima melodia. Lamentável é a gaiola. Um mínimo animal que navega os céus e canta em galhos sugere sempre liberdade – e inevitáveis metáforas. Tenho ganas de escalar o edifício em frente, invadir a sacada do terceiro andar e abrir a pequenina porta, ofertando ao passarinho, de volta, o destino que Deus lhe deu – o de voar livre.

Porque as pessoas aprisionam animais? Prendem-nos e alegam um gostar – gostar estranho esse, que tolhe a vida natural em troca de um prazer mesquinho, o de dispor de seu canto. Ora! Há quase um século é possível gravar sons. Gente que se diz “criadora” de pássaros comete contra eles o crime do cerceamento da liberdade... Alguns há que não procriam em cativeiro; e há ainda os que se aprisionam individualmente, cerceando, assim, que aquele animalzinho não se reproduza. Acho que gente assim devia ser castrada.

Lucas e a professoa Allyne Pimenta

Quando queremos ser livres, falamos em voar; se queremos ser felizes, cantamos. Cantava o pássaro – não sei que pássaro é esse, não consigo vê-lo daqui, somente a pequena jaula. Cutuquei o Lucas, que se levantou em silêncio e assim se aprontou, tomou o café da manhã e, sempre calado, acompanhou-me; saímos de casa sob um céu de nuvens plenas. Às sete horas de verão, as ruas já congestionadas de carros em demanda ao trabalho, ao médico, às escolas ou a destinos outros, tal como nós, tomamos o rumo da Marginal Botafogo. E foi aí que a chuva caiu. Percorremos dez quilômetros em cinquenta minutos, alcançamos a rodovia que nos leva a Nerópolis. O trânsito trancado ficou para trás e vinte minutos após chegamos ao Colégio Estadual Mauro Borges.

Ivone, bibliotecária; e Adriana, Coordenadora. E um livro meu...

Foi Ivone, a bibliotecária, quem propôs aquele Chá com Poesia. Uma poetisa da cidade, Divina Cunha, já chegara – e nós tivemos um atraso de quinze minutos, mas este tempo estava inserido nos preparativos. Alunos de séries fundamentais futricaram livros e a Internet, ficaram sabendo da vida do convidado – eu mesmo –, e escolheram poemas para ler e parafrasear, sob orientação e tutela das professoras Agda Santos e Allyne Pimenta. Mas o melhor da festa foi a descoberta, pelos três escritores convidados (Divina, Lucas e eu), das qualidades poéticas dos alunos, sementes óbvias de adultos sensíveis e bem orientados, já detentores de valores que, muitas vezes, julgamos esquecidos.
Enfim: da diretora Fernanda, passando pela vice-diretora Ivanilda, por professores, coordenadores, pessoal administrativo (sempre a postos para que nada falte), uma equipe excelente! Ah! E o lanche? Um beijo à coordenadora da merenda, professora Janete! Mas muitos beijos aos meninos estudantes, pequenos poetas, promessa de um futuro que – Deus me permita! – quero ver melhor.


Um futuro livre, de poetas construtores de tempos melhores, de liberdade para os povos – e os pássaros também.

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sábado, novembro 10, 2012

As flores, em vez de amores


As flores, em vez de amores


Uma oferta de amor à cidade
“Entre as prendas com que a natureza
alegrou este mundo onde há tanta tristeza
 a beleza das flores realça em primeiro lugar”

(Vinícius de Morais) 








Os ipês guardaram as cores, vestiram suas fardas verdes e assim ficarão até as vésperas das chuvas, ano que vem; agora é a vez de buganvílias, resedás e da festa flamejante dos flamboyants africanos que dominam as paisagens tropicais brasileiras como se estivessem em casa.

Nas ruas de Goiânia, desde os primórdios da primeira década enfeitam-nos os outubros. Encantaram os olhos de minha saudosa Cilene Andrade, filha dileta da virtuose pianista-chorona Tia Amélia, que chegou à nova capital de Goiás num outubro exuberante. O avião estacionava junto à esquina das avenidas Paranaíba e  Tocantins – esta, o caminho do aeroporto de então ao Palácio das Esmeraldas; e à noite, após uma serenata de nunca mais se esquecer, com Júlio Alencastro Veiga ao violino, na sacada do Grande Hotel, olhava a Avenida Goiás rumo ao Palácio, e novamente vislumbrava aquele caminho de flores como caprichosa alcatifa erguida do solo...
E este amarelo, jovem e belo? 
Sim! Goiânia, nesta época, engalana-se das flores de fogo; flamboyant é palavra francesa que quer dizer flamejante. Deliciei-me de documentá-los na Praça do Sol, oficialmente chamada Joaquim Edson Camargo, mas o populacho não sabe sequer que esse nome era de um importante maestro e professor (do Liceu), pai da cantora Eli Camargo. Percorri também trechos de alguns bairros, como Bueno, Pedro Ludovico, Bela Vista e todo o percurso da Avenida Goiás Norte, desde as palmeiras do trecho inicial (dividindo Crimeia Leste de Crimeia Oeste) até deparar-me com as flores alegres no Urias Magalhães, até chegar ao Campus Samambaia, da Universidade Federal de Goiás, onde a festa das chamas continua.

Pensei que escreveria um poema. Para quê? A Natureza, agência de notícias do Pai Criador, dá seu recado em imagens de alegria e escreve poemas em cada pétala, embelezando este domingo já novembro de nuvens chuvosas.
Essas flores pós ipês amarelos, rosas, roxos e brancos, que enfeitaram Goiânia em setembro, tiraram de mim toda a tristeza que me despertou mais cedo num domingo de não-pensar.


Deduzi que é melhor assim. Ninguém capaz de pensar merece sobrepor-se ao encanto da Natureza – recado solene de Deus aos homens de corações sensíveis.






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sábado, novembro 03, 2012

A Língua em que se faz samba


A Língua em que se faz samba


Essa crônica foi publicada em Junho de 2001, no DM, e está no meu livro "Ah, língua brasileira!", de 2011 (Coleção Goiânia em Prosa e Verso). Republico-a como uma homenagem ao amigo Ivair Lima, parceiro das melhores conversas e ideias para novos escritos.


Continuo no tema da língua portuguesa. A língua portuguesa no Brasil, claro. Ou alguma comparação entre o que falamos e o que se fala em Portugal. E as línguas estrangeiras influindo no quotidiano. Tolerem-me, leitores, que terei assunto pelos próximos trinta anos; após esse tempo, não escreverei em jornal. Vale como aviso prévio, Batista: quando fizer 85 anos, aposento-me.

Se vamos brincar ou trabalhar, há sempre um líder (“leader”, do inglês); se temos fome, tomamos um lanche (“lunch”, inglês); antes de namorar, temos o flerte (novamente do inglês, “flirt”); se pegamos um táxi, tem lá um chofer (do francês “chauffeur”); se dominamos uma tecnologia, temos “know-how”; se levamos jeito para alguma coisa que exige mais criatividade ou malemolência, temos “savoir-faire”.

Mas, já se nota, aportuguesamos as palavras estrangeiras ou elas se perdem. Sabe-se que o idioma de Shakespeare, atualmente, tem cerca de três quartos de seus vocábulos originários do latim – por isso, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, estuda-se o Latim; aqui, não precisamos (!?), mas os portugueses não abrem mão da língua dos antigos romanos. As línguas ocidentais flexionam seus verbos em seis pessoas – isso vem do latim. Mas uma malfadada Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro de 1961 e posta em prática imediatamente, a partir de março de 1962, mudou tudo. Sem transição. E ficamos alheios a uma das mais importantes ferramentas para o pleno domínio do idioma – daí o português de quem falei ontem afirmar que nós escrevemos muito mal.

Já disse nestas crônicas que recuso-me a comprar de quem promove “sale” em vez de liquidação, que não aceito “delivery” em lugar da entrega em domicílio e não como “fast food”, mas “Refeições à minuta” (expressão carioca, inexistente em Goiás, do francês “à la minute”).

Publicitários, mais que jornalistas, fazem concessões permissivas, como que um estupro à Língua – escrevo em maiúscula, para não dar duplo sentido à frase. “Muda Brasil” em vez de “Muda, Brasil!” tomou conta do país nos anos de 1980, junto com o “Vota Brasil” (seria “Vota, Brasil!”). Órgãos públicos como secretarias de Educação e de Cultura e instituições responsáveis (será?) como academias de letras engolem o que a mídia – publicidade e imprensa – impõe. Emissoras de rádio e televisão cometem coisas agressivas à estrutura da língua – já viram como, nas novelas e nos telejornais, a expressão “há anos atrás” se tornou “correta”? Seria correto, mas redundante, dizer que “há ânus atrás”.

O “economês” chega a irritar. Inclua-se aí publicidade, comércio de varejo, área de investimentos, bancos, indústrias, bolsas de valores etc. Mas o Ivair Lima, competente repórter, psicólogo e poeta sensível, não teme esse tipo de coisa e me tranquiliza: “Lula (por que ele me chama assim?), esse dialeto não vinga, só existe no meio empresarial. Enquanto houver escola de samba, o português do Brasil estará salvo. Em que outra língua seria possível se compor um samba?”.



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O Estado e as OS


O Estado e as Organizações Sociais


É sabido que as maiorias resistem com notada energia a toda e qualquer novidade, mormente quando a novidade implica mudanças. Ao tempo de Osvaldo Cruz, há quase 110 anos, a população do Rio de Janeiro resistiu com força, registrando-se conflitos entre o povo e a polícia por conta da obrigatoriedade da vacinação contra o tifo, moléstia mortal. De lá para cá vieram duas guerras mundiais e os expressivos avanços científicos, tanto na área tecnológica quando na medicina; as vacinas deixaram de ser motivo de conflito, a população as aceita e acompanha com esperançosa ansiedade a descoberta de novas, como as que prevenirão o câncer, a AIDS, o diabetes e outros males.

Nos tempos de hoje, esta segunda década de um novo século, acompanhamos o contraditório: partido político que criticava e se opunha radicalmente a severas medidas na década de 1990 não só as aceita e as adapta à realidade do momento, mas também inova – como se viu com a adoção das PPP, as parcerias público-privadas.

Foi de um governo do PSDB que surgiram as agências modernas em lugar de antiquadas autarquias; e num governo do PT novas autarquias foram instituídas, com buscas à agilidade administrativa, vez que a burocracia arcaica não apenas compromete a qualidade dos serviços públicos prestados aos pagadores de impostos, como também retardava de moto drástico medidas que exigiam soluções imediatas, sobretudo na área da saúde.

No atual governo, o aparecimento das Organizações Sociais para administrar alguns órgãos públicos surgiu como medida saudável, especialmente nos hospitais, com ênfase para o Centro de Reabilitação Henrique Santillo – CRER – e o Hospital de Urgências, o HUGO. E, estranhamente, vemos parlamentares do PT organizando resistências ao que vem funcionando bem, com um argumento que se tem por legítimo – a defesa dos interesses de funcionários públicos que vêm a ser dispensados.

O bom senso sugere o aproveitamento de todo o pessoal em novas funções, sem prejuízo de sua capacitação profissional, pois certamente a grandeza da máquina funcional e administrativa há de absorvê-los – isso é coisa a ser acertada sem perdas para o Estado nem para os trabalhadores. Mas aí aparece o Ministério Público, instituição indispensável e eficaz, como bem tem demonstrado, no  aparelhamento do moderno conceito de Estado Democrático.

Acredito que é momento de breves mudanças de atitudes. A primeira delas com vistas a preservar empregos, aproveitando boa mão de obra em novas atividades afins; a outra, o reconhecimento claro de que as chamadas Organizações Sociais vêm atuando com expressiva economia para o Poder Público e, obviamente, para o contribuinte; a outra, o acompanhamento e o reconhecimento, pelos legítimos representantes populares – os deputados – de todas as ideologias, da eficácia das novas medidas, tudo isso sob a indispensável supervisão do Ministério Público em todas as fases, não somente como instrumento de cancelamento de medidas já comprovadamente valiosas.

Com o tempo, a chamada “máquina do Estado” estará, sim, enxuta e mais eficiente; por outro lado, as Organizações Sociais, que possibilitam a agilidade que todos esperamos, mostrarão eficiência e forçosamente haverão de aproveitar em seus quadros funcionários excedentes, propiciando-lhes melhores rendimentos e mesmo mais segurança profissional, com vantagens para todos.


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quinta-feira, outubro 25, 2012

Vinícius de Morais, ano 100


Vinícius de Morais (Foto:Internet)


Vinícius de Morais, ano 100


No dia 19 deste outubro de 1913, nasceu, no Rio de Janeiro, o poeta e compositor Vinícius de Morais, uma das maiores e principais referências da bossa nova. Bacharel  em Direito, jamais exerceu profissões do ramo; jornalista, crítico de cinema, diplomata, poliglota, apaixonado por música e poesia, veio a ser, segundo o contemporâneo Carlos Drummond de Andrade, o poeta brasileiro que efetivamente viveu como poeta.

Em 1980, três meses antes de completar 67 anos, faleceu. Deixou, como sabemos, vasta obra em poesia, prosa e música. Neste segmento, ele compôs sozinho, mas notabilizou-se pela enorme variedade de parceiros, com ênfase para Tom Jobim, Baden Powell e Toquinho. A tais parcerias duradouras, Vinícius se referia como casamentos de arte.

E se variou tanto nos casamentos musicais, o mesmo se deu quanto aos casamentos como os definem os dicionários. Foram nove as mulheres com quem esteve casado – pelas leis brasileiras da época, casou-se com a primeira; as demais foram esposas de fé e paixão.

No começo de sua carreira musical, precisava equilibrar-se entre o Ministério das Relações Exteriores, simbolicamente chamado pelo nome do palácio da Avenida Marechal Floriano, no centro da antiga capital da República, palácio esse que sediou os dois primeiros governos da República – Itamarati. Num dado momento, sei lá por qual razão exibicionista, alguém trocou o I final por Y. As autoridades diplomáticas não viam com bons olhos um diplomata de carreira subindo em palcos de bares e boates, cantando e contando piadas. Vinícius fazia isso, sim. Até que o segundo dos ditadores de plantão do chamado regime militar determinou, ao seu modo cavalar: “Demitam esse vagabundo”.

Essa “demissão” se deu com um processo demorado e se deu de modo ajeitado – uma aposentadoria proporcional. Quase 30 anos após a morte do poeta, o governo federal redimiu-o nas hostes do Itamarati (insisto com a grafia original e correta), atribuindo-lhe, post mortem, o cargo de Embaixador.

Desde quando ouvi, pela primeira vez, lá pelos meus dez anos de idade “Tristeza não tem fim / felicidade, sim”, versos esses seguidos de uma série de conceitos lindos para felicidade. Ouvi por sem-números de vezes as incontáveis canções de  Vinícius com seus parceiros e também as que ele compôs sozinho. Li algumas biografias e muitas, muitas referências – numa delas, descobri que a música que me encantara tinha duas letras, mas só conheci essa, a mais famosa. Encantei-me, logo em seguida, de uma canção muito alegre, feliz, chamada Rancho das Flores. No disco, estava escrito que o parceiro do poeta, o compositor da música, era um tal Johann Sebastian Bach, e que este dera outro nome à sua obra – Jesus Alegria dos  Homens. Sentia-me muito feliz com aquele recital de flores: 

Olhem bem para a rosa 
Não há mais formosa 
É flor dos amantes 
É rosa-mulher... – cantou ele.

Quantos casais, quantos amantes, quantas pessoas felizes – e infelizes, também – não se deleitaram de seus versos. Tom Jobim dizia que ele era ubíquo, ou seja, capaz de estar em vários lugares ao mesmo tempo; e Millor Fernandes ratificava, indo um pouco além “Ele é plural, por isso se chama Vinícius de Morais; se fosse um só, seria Vinício de Moral”. Por ou pelo outro, havemos de convir: viveu tão intensamente que é complicado entendermos que em apenas 66 anos tenha vivido tanto, produzido tanto, trabalhado tanto e se casado tanto. Chico Buarque e Toquinho, homenageando-o, compuseram Samba pra Vinícius: 

Poeta, poetinha vagabundo 
Virado, viramundo, 
Vira e mexe, paga e vê 
Que a vida não gosta de esperar 
A vida é pra valer 
A vida é pra levar 
Vinícius, velho, saravá. 

Uma alusão debochada à pecha que a ele atribuiu o presidente que legou ao Brasil o famigerado AI-5.

Poeta, Poetinha? Ah, o Poetinha... O apelido teria sido coisa de um de seus amigos – fala-se em Pedro Nava, em Antônio Maria e Tom Jobim como um dos possíveis autores. O fato é que a coisa pegou. E, pouco antes de seu desenlace, um jornalista quis saber a razão do diminutivo – Vinícius era, ele próprio o maior usuário de diminutivos no Brasil – e o poeta, pilheriando, resumiu mais ou menos assim: “Não sei, deve ter sido coisa de algum marido enciumado”.

Pois é! É tempo de disparar o Centenário de Vinícius de Morais!


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sexta-feira, outubro 19, 2012

Endereço: Maverick vinho, 74...

Se a memória ainda estiver fiel, a placa era EF-4070. Deixou muita saudade! Anos depois, comprei outro, branco, 76...


Endereço: Maverick vinho, 74...



Que tempo era aquele, hem? Ora, eu sei, final dos Setenta, começo dos Oitenta, Século XX (vinte, para os que não chegaram à escola que ensinava assim). Eu vinha de uma boa fase profissional, deixara o banco, estava na telefônica nos últimos trinta meses, ganhava bem e em dia (o salário caía na conta no dia 20 de cada mês, e era mês a vencer).

Era Dia do Índio, 19 de abril, em 1979. Cochichei ao ouvido de Wilmar Alves, jornalista, ex-aluno no Liceu: “Estou desempregado”. E ele, segundos após, olhando-me com severidade: “Está não; segunda-feira você começa lá comigo”. Esse “lá comigo” era a editoria de política do Jornal Opção, em sua fase diária.

Naquele momento, começava a fase romântica no conceito das profissões que exerci desde a adolescência. Foi um período grave, de quase dez anos, com salários irrisórios e pagamentos atrasados. Mas foi uma fase bonita – claro, descontando as dores e constrangimentos naturais.

Wilmar, amigo desde os tempos do Liceu, foi pessoa de minha relação mais bonita, a da amizade livre de expectativas. Gostávamos de nos encontrar, de acompanhar a vida um do outro: filhos que nascem e crescem, novas funções profissionais, novos livros.... Mal-educado, ele: foi-se muito antes da hora, nem se despediu de todos!

Aquele ano, 1979, foi muito marcante... Empreguei-me no jornal, com horários malucos – das 17 horas até o fechamento total da edição – e muita boemia, cumprindo o após-expediente nos raríssimos bares que só se fechavam ao nascer do sol, fiz-me solteiro outra vez; comecei a namorar uma linda jovem, namoro de pura paixão e muitos arroubos. Durou pouco, sete meses, apenas.

Nos dias de namoro, vendi uma máquina de escrever, eletrônica; consegui, lembro-me bem, quarenta mil cruzeiros! Acrescentei cinco mil e comprei, à vista, um Maverick 74, cor de vinho, muito bonito! A exposição ao sol comprometeu a pintura, a tinta soltava-se a cada lavada.

Quando recebi o título de Cidadão Goianiense, pedi e a vereadora Célia Valadão homenageou alguns
amigos meus; entre eles, o Benevides.

Na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Goiânia, fiz companheiros que se tornaram grandes amigos. Entre estes, Benevides de Almeida, uma espécie de repórter-símbolo da Folha de Goiás, que aparecia como “Goiaz”. Bené, para os íntimos, foi o colega com quem mais briguei em toda esta jornada. Nossas discussões duravam muito pouco, acabavam sempre no bar mais próximo.

Pois é ele quem, volta e meia, cobra-me esta homenagem: uma lauda em louvor do velho e bom Maverick. E por quê? Por quase nada... É que, empolgado com aquele novo e inusitado ofício sem horários, sofrido com o término do casamento e, logo em seguida, do namoro apaixonado, decidi esvaziar o pequenino apartamento alugado na Vila Brasília. Entupi o Maverick com coisas inevitáveis, como roupas, livros e uma prosaica máquina de escrever, portátil – sucessora da imponente IBM “de bolinha” e ganhei a vida e as ruas! As noites – parte delas –, passava-as no encerramento do jornal, à porta de algum bar sob a vigia do guarda noturno (meu amigo) ou no estacionamento da “Folha” – no prédio que hoje é do DM, na Praça da Bíblia.

Pois é! E vem o Benevides a cobrar-me gratidão ao velho e bom Maverick... Devo contar, ainda, que esse proceder eu repeti poucos anos após, num distinto e eficiente Passat 79, que se prestou ao mesmo destino do saudoso Maverick de seis cilindros.

Tempo bom mesmo, hem, Bené?

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