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quarta-feira, junho 21, 2023

Ana Braga

 Faleceu ontem, 20/06/23, em Goiânia, a professora Ana Braga, aos 99 anos de idade (completaria o centenário no dia 29 de novembro próximo. Em sua homenagem, proferi, no dia 18 de maio passado, na Academia Goiana de Letras, onde éramos confrades, uma breve fala em sua homenagem, cujo teor transcrevo aqui. 


Ana Braga

Poema de Placidina Siqueira, da Academia
Feminina de Letras e Artes de Goiás, AFLAG.
(placidina.siqueira@gmail.com
)

 

 

Ana Braga,
    ah, Aninha!... 
parece real Bragança,
do Pedro Afonso,
ou Peixe do Tocantins ...

 

Ana Braga,
ah, Aninha!...
     não há Norte, sequer Sul
     que a desarme...
É e será sempre nossa mãe:

 

Estrela de Carne.

 

Ana Braga (acervo: UBE de Goiás).

Demonstrações de afeto são coisas que me emocionam. Em especial quando brotam de um coração mais moço, observador dos feitos que se tornaram meritórios na vida dos que nos antecedem. Neste caso, só não me surpreendo porque conheço a poeta Placidina Siqueira desde os meados da última década do século passado, ou seja, há quase 30 anos. Desde sempre, vi-a atenciosa e disposta a exprimir carinhos às pessoas à sua volta – ao seu saudoso João, aos filhos Júlia e Ocelo e, ainda, a nós outros, os que estivéssemos ao seu redor. É, pois, com indisfarçável emoção que renovo a admiração a essa mulher doçura que é a acadêmica Placidina. Aqui, ela sintetiza magistral e poeticamente o sentimento de que é tocada ante o exemplo de vida centenária e ações indeléveis de Ana Braga pela sociedade goiana, desde os tempos em que a goianidade era horizontalmente imensa – aquele gigantesco cenário que as condições da natureza e das pessoas conduziram à divisão geopolítica, multiplicando gentílicos: aquele Goiás de um quase distante ontem é, neste hoje, tocantinense, brasiliense e goiano.

Refiro-me ao foco dos sentimentos da Placidina Lemes de Siqueira, a intelectual, a professora, a vereadora e deputada, mãe de duas famílias – a da juventude e a da vida adulta, divididas pela viuvez. Em qualquer de seus estados civis, Ana Maria Braga expressou sua força individual como característica de caráter e de escolhas. Ainda criança, destacou-se como oradora na formatura do curso primário – e foi aquele o momento inicial do reconhecimento, por professores e colegas, da capacidade, do talento e da liderança que marcam sua vida até os nossos dias, vésperas de sua festa centenária.

A infância viveu cenários, primeiro em Peixe (então Goiás), depois em Descoberto (a atual Porangatu). Peixe, de Goiás, ainda é Peixe em Tocantins, na margem do grande rio que denomina o novo Estado instalado a 1° de janeiro de 1989; desse eixo provinciano daquela década de 1930, a menina Ana estendeu a vida nômade para outros aglomerados: conheceu Santana (hoje Uruaçu), Jaraguá e Corumbá; morou na católica Trindade, e de lá veio assistir ao despertar do futuro na poeira vermelha que brotava da sangria das artérias da moderníssima Goiânia.

O avô Joaquim Nunes Pinheiro alfabetizou-a aos cinco anos de idade; depois veio a escola primária, o ginasial (complementar) e, no Colégio Santa Clara, em Goiânia, diplomou-se Professora Normalista – em todos esses cursos, foi oradora da turma ao formar-se. Recebeu diploma de Catequista, das mãos do bispo Dom Emanuel; foi professora no Grupo Escolar Padrão (Modelo?) e no Colégio Santa Clara.

Em 1947 foi eleita vereadora em Goiânia; e em 1951, casou-se com seu primo Luís de Queiroz, com quem teve três filhas: Edetina Augusta, Ana Luiza e Efigênia Auxiliadora.

Parêntese: Filho é uma coisa que a gente coloca no coração e pergunta a Deus: Como será? Daí em diante, se vive em constante estado de alerta. Fechando parêntese. (Essa foi uma resposta de Ana Braga ao escritor Célio de Oliveira; está no livro Acima dos 80 rumo à velocidade da luz, de 2018, Kelps, 196 páginas).

Quatro anos depois, seu marido morreu num acidente na estrada que já se prenunciava como a Belém – Brasília – a BR-14, que hoje é a BR-153. Em 1956, bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Goiás (que viria a integrar, a partir de 1961, a Universidade Federal de Goiás), ano em que também obteve grau de Licenciada em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia – embrião da Universidade de Goiás (depois, Universidade Católica de Goiás e, hoje, a Pontifícia Universidade Católica de Goiás).

Elegeu-se, em 1959, deputada estadual; e em 1960, casou-se com o médico Trajano Machado Gontijo Filho, gerando outros quatro filhos: Antônio Paulo, Fernando, José Augusto, e Cláudio.

Logo após o casamento, mudaram-se para Tocantinópolis, onde, em 1962, Ana Braga elegeu seu marido prefeito municipal. Assim, além de deputada, ela era também primeira-dama. A família mudou-se para Porangatu, onde Trajano repetiu a façanha de Tocantinópolis: elegeu-se prefeito, após o casal construir o Hospital Nossa Senhora da Piedade.

Ana Braga desempenhava, ao longo de sua vida, incontáveis papéis na melhoria das condições de vida dos mais carentes. Inquieta e incansável, ei-la novamente em busca de mais uma profissão: a de Enfermeira, título obtido em 1963.

De sua lavra, vários foram os livros, incontáveis os artigos em jornais e revistas, múltiplos e variados, e sempre muito festejados, seus discursos em púlpitos das casas legislativas e eventos mil nos âmbitos acadêmicos e políticos, em cargos desempenhados na AFLAG, na AGL e na novel Academia Tocantinense de Letras, de que é, também, membro fundadora.

Apesar da época – os anos confusos da década de 1930, que resultaram na Segunda Grande Guerra; os quarenta do desfecho do conflito na Europa e na deposição de Vargas em seu Estado Novo; o pós-guerra ainda teimando em conservar costumes, com a hegemonia masculina nas sociedades... Enquanto tudo isso acontecia, Ana Braga brilhava com seus feitos e conquistas. Não deixou de ser mãe de família enquanto era vereadora e deputada, professora e agente de ações sociais, escritora e líder natural nas ocorrências culturais deste Estado em sua grandiosidade, antes do corte do quadrilátero Cruls e da separação Norte-Sul, colaborando, com seu poder feminino sagaz e persistente, para essas novas unidades federativas e a consolidação do poder que proporciona à mulher do Século XXI o albor da liberdade.

A esta Academia Goiana de Letras, chegou por eleição, em 2006, ocupando a Cadeira 31, que tem por patrona Eurídice Natal e Silva; a primeira ocupante foi Rosarita Fleury, sua parceira, em 1969, ao lado da também saudosa Nely Alves de Almeida, na criação da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, a AFLAG, sodalício que se consolida em breve tempo e representa, com altivez e dignidade, a criatividade feminina cerceada, por quase um século, pelas academias de letras – tanto a Academia Brasileira de Letras quanto as regionais.

A propósito, esse lado de pioneira na personalidade de Ana Braga revela-se também quando, ao lado de Liberato Póvoa e outros, atuou para criar a Academia Tocantinense de Letras.

Nesta Casa, ela foi apresentada, formalmente, em data de sua posse, pelo então presidente Geraldo Coelho Vaz e recepcionada pelo acadêmico Ney Teles de Paula. Coelho Vaz pinçou datas e vínculos da sempre promissora vida política e social de Ana Braga; e Ney Teles de Paula situou-a, geográfica e historicamente, na realidade ancestral da nossa novel confreira, bem como em sua riquíssima biografia, com evidências para pessoas notáveis de seu convívio.

 

*  *  *

 

O carinho com que foi acolhida nesta Academia expressa-se além dos discursos do presidente Coelho Vaz e do orador oficial Ney Teles de Paula, num belo poema, da lavra inspirada de outro confrade, nosso também ex-presidente Getúlio Targino Lima:


SAGA

 

Veio
para vencer
a dor,
o amor,
o fenecer.

 

Veio
para inovar,
na vida,
no ser,
no ar.

 

Veio para crer
mais na força
do que na fraqueza,
mais na dor
do que na moleza.

 

Veio ser.
Ser mulher,
mas valente,
destemida,
desbravadora
de novos caminhos,
a conquistar alturas
impensáveis,
vencendo espinhos.

 

Veio ser mãe,
na ternura do seio
maternal,
e pai,
na fortaleza
do ombro seguro,
largo e puro.

 

Política,
creu em ideias
e praticou ideais.
Carregou laurel,
a que fez jus,
mas ombreou
a cruz.

 

Veio para dizer
que o bem se faz,
não se propala;
e que o mal se enfrenta,
não apenas
se fala.

 

Veio para durar,
durar o tempo
que o exemplo precisa
para ficar.

 

Veio dizer,
falar,
fazer,
mostrar
que, ao fim
e ao cabo,
valeu a pena
amar.

(Para Ana Braga, Ano Cultural de 2015 da Academia Goiana de Letras, GTL).

 

Neste ano de centenário, Bariani e Ana Braga são focos das nossas homenagens: as minhas entidades – a União Brasileira de Escritores em Goiás, na pessoa do presidente Ademir Luiz; a Academia Goiana de Letras, presidida pelo confrade e velho amigo Ubirajara Galli, e o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, sob a liderança do profícuo historiador Jales Mendonça – empenham-se em honrá-los com a dignidade de que se fizeram merecedores, não só pela longevidade, mas por suas vidas profícuas, dinâmicas, criativas e benfazejas.

Agradeço à Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás pela oportunidade que me ofereceu, recentemente, de homenagear tão queridos confrades; confesso-me feliz por participar dessas homenagens – que são também promovidas aqui, entre tão queridas confreiras. E rendi-me ao convite do presidente da AGL, Ubirajara Galli, por designar-me o orador para esse preito de honra à nossa centenária Ana Braga, a despeito das minhas limitações naturais e intelectuais para tão grandioso momento.

Aos confrades da AGL, às confreiras da AFLAG e aos amigos convidados que aqui se fazem presente, muito obrigado!

 

* * *

 

Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras, Cadeira n° 10.



terça-feira, junho 13, 2023

AGL, Cadeira n° 4




Profa. e Acadêmica Moema de Castro e Silva  Olival, que se despediu a 20/03/21m vagando a Cadeira 4


AGL, Cadeira n° 4

 

Em recente decisão para alteração do Estatuto, a Academia Goiana de Letras mudou os critérios para a eleição de novos membros. O critério em vigor, nos moldes anteriores, exigia que, ainda em segunda votação, o eleito apresentasse 19 votos, ou a eleição seria anulada (na hipótese de ninguém atingir esse índice mínimo). E em algumas eleições em anos recentes, sequencialmente, vários sufrágios foram anulados e as novas chamadas para a mesma Cadeira vaga impediam os postulantes não vitoriosos. O fato é que as regras foram flexionadas, de modo a permitir, in fine, um resultado positivo.

Há um bom tempo que se espera preencher a única vaga na Academia, e é justamente a da Cadeira 4, antes ocupada pela Professora Moema de Castro e Silva Olival. O prazo para inscrição de candidatos começa amanhã, 14 de junho, e se estende até o dia 4 de julho. Os candidatos devem preencher as exigências do Edital – a principal delas é que seja autor de ao menos um livro. Os critérios outros serão apreciados, primeiro, por uma comissão especialmente designada, entre os membros atuais, devendo, ao término, emitir parecer que será apreciado pelo plenário da AGL; em seguida, com a eleição marcada, a entidade reúne-se para escolher, em votação secreta e direta, o novo ocupante da Cadeira.

O Edital foi publicado no jornal eletrônico A Redação, conforme divulga o jornalista Jales Naves; e de imediato, dizendo estar com a documentação preparada para apresentar amanhã, dia 14 (como foi dito, o primeiro para as inscrições), ligou-me o poeta e biógrafo Ademir Hamu. 

Habituei-me, há 26 anos, a declarar publicamente o meu voto e, em raras ocasiões, aguardei o andamento das movimentações para definir minha escolha. Este, porém, é um momento especialmente diferente, já que o meu convívio literário com Ademir Hamu remonta às primeiras escritas do ano de 1980 – somos admiradores mútuos: ele curte meus poemas e minhas prosas, e eu me delicio com seus versos e biografias. Entre nós, versos e cervejas foram chamariz e visgo, e cuidamos muito bem de, também na linguagem oral, trocar histórias e opiniões, além do compartilhamento de vários amigos da escrita e das tintas, dos palcos e das canções.


Leninha, obra poética de Ademir Hamu

Marquei, já, uma pequena e discreta rodada – claro, claro: irei de táxi, porque aceito, acato e respeito as regras de trânsito – para conversarmos sobre a campanha, posto que os propósitos eu já sei, bem como sei da base das exigências para o ingresso no sodalício maior (por sua natureza) das letras em Goiás.

Eu poderia, dirão alguns, esperar mais alguns dias para, em confronto com os demais nomes, manifestar a minha preferência; por duas vezes, fiz isso e não me dei bem: havia candidatos de igual estima e, na primeira ocasião, viajei, deixando de votar – numa outra, não marquei ninguém, posto que eram apenas dois e os dois me eram queridos por demais.

Assim, haja quem houver na disputa, o meu voto já tem marca e compromisso: é do poeta Ademir Hamu. Acaso surjam outros amigos, igualmente dignos de um espaço vitalício na Casa Colemar, merecerão igual delicadeza e atenção num próximo pleito. E é bom que fique claro: os meus mais-queridos precisam de, quando for o momento, apressar-se com os papéis, os livros a apresentar e o indispensável (e apressado pedido) para que, de igual maneira, eu declare o meu voto, evitando que outros candidatos percam tempo à minha procura.

 

*  *  *

Luiz de Aquino – Cadeira 10 da
Academia Goiana de Letras.



 

terça-feira, maio 02, 2023

José Xavier de Almeida Júnior (Xavier Júnior, poeta)

  Na Sessão Solene de 27 de abril de 2023, em que comemoramos 84 anos de criação da Academia Goiana de Letras, o presidente José Ubirajara Galli Vieira lançou duas antologias, uma em que biografamos os patronos de cada Cadeira do sodalício, outra em que focamos nos presidentes da Casa. 



PRESIDENTE JOSÉ XAVIER DE

ALMEIDA JÚNIOR 

De 26/10/1953 a 29/10/1957


A meu encargo, dados biográficos e considerações
sobre a obra de Xavier Júnior.

 

José Xavier de Almeida Júnior, o poeta Xavier Júnior, nasceu no Palácio Conde dos Arcos, na Cidade de Goiás, no dia 20 de outubro de 1902, filho de Amélia Augusta de Morais e Almeida e de José Xavier de Almeida, então governador de Goiás. Cursou o primário em Morrinhos e, como aluno interno, o Ginásio Diocesano de Uberaba. Na Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro), na capital federal, formou-se em Medicina. Antes, pensou em cursar Direito, talvez por sua vocação natural para as letras. Casou-se aos 39 anos com Domitila dos Santos Fleury de Almeida e teve quatro filhos.

Praticou a medicina por pouco mais de vinte anos. Uma queda de retina afastou-o da clínica, provocando uma aposentadoria precoce – e, assim, dedicou-se ele mais ainda à poesia e, mais tarde, também à crônica e à crítica literária.

Foi membro da Academia Goiana de Letras, membro fundador da Cadeira 13. Ocupou a presidência do sodalício no período de 26/10/1953 a 29/10/1957.

Em seus primeiros meses de vida, a família se transferiu para Petrópolis (RJ) e depois Juiz de Fora (MG), vindo a família a morar em Morrinhos, onde Xavier Júnior começou os estudos e, por conta disso, viveu outros ares até se formar, no Rio de Janeiro. A par dos estudos, dedicou-se à Poesia desde 1920. Viveu, portanto, um período de intensas transformações no Brasil e no mundo: as novidades do após-guerra, a partir de 1918; o golpe que afastou o presidente Washington Luís e impediu a posse do presidente eleito (Júlio Prestes), dando início à “era getulista”, que se estendeu por 15 anos, terminando ao mesmo tempo em que alemães e japoneses se rendiam aos aliados na Segunda Guerra; viveu as grandes inovações tecnológicas – o rádio, o cinema sem sonoridade e até as imensas telas coloridas do “cinemascope”, a televisão, a conquista do espaço, a miniaturização que possibilitou a popularização dos computadores e da telefonia celular.

Inevitável, pois, seria a evolução de sua literatura desde os primeiros versos, antes que completasse vinte anos, até as vésperas de seus últimos dias. E, ainda assim, por integrar a Academia Goiana de Letras e (mais ainda) a sua presidência, sofreu discriminações e críticas desairosas de uma geração mais nova.

A obra, porém, aí está. Sua obra e sua vida. Ao alcance dos críticos que, imagino, silenciam-se pelo arrependimento – mas tal rejeição está em A Poesia em Goiás (segunda edição em 1983, pela Editora da UFG), (pág. 112) do poeta e crítico literário Gilberto Mendonça Teles, o mais antigo membro da AGL (empossado em 11/03/1961).

Obra

Cesareana Segmentar (estudo estatístico) – Tese de doutoramento. Rio, Tipografia Leuzinger,1927.

A Viagem de Frei Trapie – Uberlândia, Tipografia Alvina, 1931.

A Canção do Planalto (poemas) – Rio, Tipografia Emiel, 1942.

Leituras e lembranças – Goiânia, Editora Oriente, 1971.

Apreciações sobre a poesia de Xavier Júnior e, em especial, sobre A Canção do Planalto
(Do livro A Poesia em Goiás , de Gilberto Mendonça Teles, segunda edição em 1983, pela Editora da UFG)

A Canção do Planalto fora publicado em 1937, em edições do jornal Voz do Sul, de Anápolis, sob o título À Margem da Vida. São poemas datados de 1920 a 1942, ano da nova publicação, obviamente, com o acréscimo de poemas publicados entre 1937 e o ano da nova edição.

Gilberto Mendonça Teles, na obra acima citada, refere-se a Xavier Júnior como “um dos principais poetas desse tempo” – referindo-se ao período pré-modernista em Goiás. Escreveu GMT: “Nesse livro, que revela um poeta também eclético, com acentos parnasianos, simbolistas e modernistas, Xavier Júnior nos dá bem as dimensões de sua arte, zelosamente construída em qualquer dos rumos ecléticos que se propunha. Ali encontramos pela primeira vez em Goiás a divulgação do haicai, o menor poema de forma fixa, de origem japonesa, de que se tem notícia nas literaturas. Uma análise estética de A Canção do Planalto nos confirma as influências apontadas, as quais, (...) longe de lhe diminuir a obra, dão-lhe uma natureza dinâmica que é afinal de contas o inconformismo, a preocupação com novos roteiros a seguir. Assim, o poema que dá o título ao livro, com arroubos épicos, lembra, pela concepção temática, o ‘Caçador de Esmeraldas’. A linguagem vocabular de muitos poemas corroboram ainda essa aproximação parnasiana, bastando lembrar o verso Sacode o corpo todo ao brônzeo duende, em que, a par de ‘corpo’ e ‘brônzeo’, há toda uma contenção de forças, cuja célula é o ditongo imperfeito de ‘brônzeo’, transmitindo ao verso uma como intensa vibratibilidade plástica, idealizada pelos parnasianos. Há, ainda, palavras como ‘argonautas’, títulos de poemas como ‘Holocausto da Volúpia’, ‘Salamandra’, ‘Pantápole’, e tantos outros que não deixam dúvida quanto à sua filiação literária”.

Gilberto discorre mais sobre o poeta Xavier Júnior: “Os acentos verdadeiramente modernistas são poucos e se encontram nos poemas citados na Antologia” (refere-se à seleção feita por ele próprio, GMT, sob os títulos As Chuvas de Ouro e Coração Vazio). E cita A. G. Ramos Jubé, que escreveu: “Xavier Júnior, ao lado de José Lopes Rodrigues, comandou o grupo de reação ao movimento modernista de 1942”.

Em seguida, traz o que publicou Vítor de Carvalho Ramos ao referir-se a Xavier Júnior: “No seu livro não dita velharias, sonetinhos inexpressivos, de temas banais, ao alcance de qualquer vate medíocre. Nada de monotonia e vulgaridade dos passadistas. Seus poemas, num ritmo novo, são espontâneos, palpitantes de emoção e tomam, por vezes, a cadência épica. Se, em algumas de suas poesias, o sentimento predominante é o da tristeza e do pessimismo, todavia esse sentimento é resignado e compreensivo, sem as exclamações e desespero dos retóricos. O lirismo de Xavier Júnior é em tom menor, sutil, emotivo, às vezes elegíaco. Sua musa é mais descritiva. Prefere refletir algo da graça e da ternura da alma da natureza”.

Também Leo Lynce, no jornal Araguaia, escreveu: “Xavier Júnior, que é, sem favor, a mais completa expressão da cultura literária goiana desses nossos dias de absorventes utilitarismos, dá-me a impressão que tive de Afrânio Peixoto e tenho de José Lins do Rego: mesmo com o consultório a transbordar de clientes e mesmo escrevendo sobre medicina, o doutor passa para o segundo plano e é sempre o escritor que interessa. A ideia da pena e não a da agulha de injeção é que perdura”.

Prosa ficcional

Ponta de Linha (romance) é obra pulicada postumamente pela família quando do centenário de nascimento do autor (2002). Escrito nos primeiros anos da década de 1940, permaneceu inédito, pois, por cerca de 60 anos. Xavier Júnior valeu-se, certamente, da chegada dos trilhos a Anápolis, em de 1937, onde viveu de 1935 a 1952.

A concepção do romance acontece ao tempo em que se construía Goiânia, que substituía a antiga capital de Goiás. O texto, de ótima linguagem e criatividade ficcional, prende o leitor até o final da trama, com uma história de amor e amancebamento de um jovem médico com uma fazendeira, numa pequenina cidade à beira do trem.

Leo Lynce (outra vez o nosso primeiro modernista) assim se expressou sobre Ponta de Linha:

(...) romance que tive a fortuna de ler em forma datilográfica e sem cuja publicação “desaparecerá, sem dúvida, nas diluições da tradição oral” uma das fases mais curiosas da vida goiana, ou melhor, da vida Anapolina (...)

O romance de Xavier Júnior, como o título está a indicar é um depoimento pessoal (desculpada a expressão jurídica), um documento filmado em tecnicolor, todo ele palpitante de vida e de interesse humano, a fixar o milagre operado pela via férrea, ou seja, a transformação da antiga Sant’Ana das Antas em moderna urbe, capital econômica e meca política do Estado – a portentosa Anápolis de hoje.

*  *  *

Ainda nos anos de 1940, a obra, em seu original, recebeu críticas e louvações dos companheiros escritores da época; e ao ser lançada, mereceu referências exaltadas de um ex-aluno de Xavier Júnior – o escritor e também acadêmico José Asmar, bem como comentários favoráveis de tantos quanto tiveram acesso ao livro – eu inclusive. 

*  *  *

Luiz de Aquino, membro da AGL,
 Cadeira 10.



Moisés Augusto de Santana

 Na Sessão Solene de 27 de abril de 2023, em que comemoramos 84 anos de criação da Academia Goiana de Letras, o presidente José Ubirajara Galli Vieira lançou duas antologias, uma em que biografamos os patronos de cada Cadeira do sodalício, outra em que focamos nos presidentes da Casa. 




MOISÉS AUGUSTO DE SANTANA
Patrono da Cadeira 10 da Academia Goiana de
Letras, assento de jornalistas literatos.


Coube-me a missão de discorrer sobre
Moisés Augusto de Santana.



Ainda pranteávamos Carmo Bernardes da Costa, falecido em abril de 1996, aos 80 anos completados em dezembro do ano anterior, quando a Academia Goiana de Letras, na época presidida pela mestra Maria do Rosário Cassimiro, procedeu à Sessão Magna da Saudade, com a Declaração de Vaga da Cadeira n° 10. Eleito em outubro daquele ano, vim a ser seu terceiro ocupante.

Albatênio Caiado de Godoy, advogado e jornalista, homem público e escritor, ocupara a Cadeira 10 desde a criação da AGL, em 1939. O sodalício foi das primeiras instituições culturais surgidas na nova capital, onde já se sediava o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, transferido da antiga capital e instalado em edificação própria na chamada Rua 82, que divide o Centro do Setor Sul, em Goiânia.

Ao criar-se a nossa Academia de Letras, coube à Cadeira 10, como Patrono, o nome do jornalista, professor, advogado e poeta Moisés Augusto Santana Neto, nascido no dia 7 de fevereiro de 1879 na capital do Estado – hoje, a Cidade de Goiás.

Aos 15 anos, quis ser militar. O temperamento irrequieto e a índole de homem livre fizeram-no andarilho. Sua biografia, sintética e muito clara no texto de Humberto Crispim Borges, no livro Retrato da Academia Goiana de Letras, ou a homenagem que lhe prestou o mesmo Crispim em discurso nesta Casa, mostra-nos um jovem autêntico, capaz de vaiar o Presidente da República e o Ministro da Guerra, fato que o afastou do corpo de alunos do Preparatório para a Escola Militar. É aceito depois, para novamente ser desligado por novo ato de indisciplina, sendo integrado à tropa e mandado para o Nordeste, tornando-se combatente aos fanáticos de Antônio Conselheiro em Canudos. Após o fim dessa campanha, dá baixa do serviço do Exército e torna-se escrivão de polícia em São Paulo.

A partir de então, sua vida é uma infindável sequência de registros anuais. Em 1898, inicia o curso de Direito e torna-se jornalista, restaurando o periódico A Nação, mas em 1899 já se realiza nova mudança de moradia ao transferir-se para Belém do Calvário, no interior de São Paulo.

Em 1900, depois de algumas andanças, retorna a Goiás, fixando-se em Santana das Antas, onde foi Procurador de Partes, casou-se com Cassiana Alves de Sousa e se fez professor e secretário do Conselho Municipal, chegando a exercer o cargo de Intendente. É dele a autoria de notas em jornais pelo novo nome do logradouro, após sugestão do deputado Abílio Wolney: Anápolis. Criou uma seção no jornal Lavoura e Comércio, de Uberaba, com o título de Vida goiana. Elegeu-se deputado por Pirenópolis, Corumbá, Antas e Bela Vista, mas não exerceu o mandato.

Em 1905, mudou-se para Vila Boa. Interinamente é Procurador da República e começou, então, um ritmo de vida que o faz mudar de cidade a cada ano, sempre envolvido nas lides jornalísticas. Em Catalão, fundou o Sul de Goiás. De volta à capital do Estado, assumiu a Secretário de Polícia, mas deixou o cargo e mudou-se para Curralinho (Itaberaí); depois, Morrinhos, onde advogava e codificava as leis municipais. Foi morar em Inhumas — vale registrar que é dele o novo topônimo da antiga Goiabeira —; de volta à capital, colaborou no jornal A Imprensa. Depois, foi diretor do Estado de Goiás e iniciou uma sistemática campanha contra o presidente Urbano Gouveia dos Santos, que acabou renunciando. Moisés foi também, nessa ocasião, Promotor Público da capital e professor de Pedagogia e Metodologia na Escola Normal. Voltou a morar em Catalão e, em seguida, Uberaba, onde lançou o Brasil Central.

A partir daí, ele morou em: Barbacena, Uberabinha (hoje, Uberlândia), de novo Barbacena, outra vez Catalão, outra vez mais Uberaba, Ribeirão Preto, Sacramento, Santa Rita do Paranaíba (a atual Itumbiara) e Bonfim (que hoje é Silvânia). Nesse período, que vai de 1913 a 1921, criou, dirigiu e colaborou em vários periódicos, fundou o que se pode chamar de o embrião do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás — a Sociedade Goiana de Geografia, em Santa Rita do Paranaíba, em 1918; com o nome de Sociedade Goiana de Geografia e História, instalou-a em Bonfim, em 1921; e, nesse mesmo ano, a 22 de outubro, a Sociedade ganha sede também no Rio de Janeiro.

Em 1922, volta a morar em Uberaba, onde foi nomeado bibliotecário da Câmara. Por ter publicado versos de sua autoria, mordazes, alusivos ao presidente da Câmara, o médico João Henrique Sampaio Vieira da Silva, foi por este interpelado na redação do Lavoura e Comércio. João Henrique, em atitude covarde, surpreende o jornalista, ferindo-o a bala. Essa tragédia aconteceu três dias após a nomeação, pelo mesmo João Henrique (médico, presidente do Conselho e Intendente Municipal interino, exercendo uma gestão marcada por irregularidades). Moisés Augusto de Santana faleceu na noite do dia seguinte.

 

*  *  *

 

Meu primeiro contato com referenciais de Moisés Santana, além das evidentes homenagens para a posteridade, como nome de logradouros e estabelecimentos de ensino, se deu em 1965, ao ter seu neto homônimo como colega de trabalho, tanto como agentes de venda do livreiro Paulo Araújo quanto como aprendizes de bancários, admitidos por concurso, ao tempo em que essa era a prática para admissão nas instituições do Estado de Goiás. Moisés Santana Neto vinha de ser punido pelo Ato Institucional número 1, o que lhe interrompeu a carreira de oficial da Polícia Militar. Mais tarde, juiz de direito, seria alvo do Ato Institucional número 5, para depois ser reintegrado e tornar-se o mais polêmico de todos os que usaram a toga da magistratura de Goiás, repetindo a sina do avô, sempre afrontando o arbítrio pela Lei e a Justiça. Depois, eu já bancário, por várias ocasiões atendi o desembargador Paranaíba Pirapitinga Santana – filho do jornalista e pai do juiz – na agência do Banco do Estado de Goiás na Praça Cívica.

No prefácio ao livro Moisés Santana, vida e obra, obra já citada, Anatole Ramos escreveu:

No princípio (aqui em Goiás) era o Verbo. E o Verbo era Moisés Santana. Isso está, sans dire, neste livro de Humberto Crispim Borges, escritor de pulso (...) e pesquisador paciente e consciente. Moisés Santana não foi um jornalista qualquer, como as muitas figuras inexpressivas, que militaram na nossa incipiente e insipiente imprensa de fins do século passado e começo deste (refere-se aos séculos XIX e XX). Ele foi O Jornalista modelo, o padrão, para todos nós, profissionais desse ofício, hoje e sempre.

Anatole Ramos defende, nesse texto, que se tenha estátua de corpo inteiro, em pedra ou bronze, de Moisés Santana em praças, e que ele deveria estar presente “em todas as formaturas de jornalistas (...) em qualquer gênero de homenagem”. E cobra, a quem de direito (ou de dever) que se cuide de publicar tudo o que escreveu o maior dos nossos comunicadores: “Há tanta coisa ainda para se divulgar do que Moisés Santana escreveu que em valia, agora, editar-se tudo dele, do mais simples dos bilhetes ao mais longo dos discursos num tribunal de júri. Eis o que qualquer inteligente (modéstia à parte) há de desejar” (ao término da leitura da obra de Humberto Crispim Borges).

Em magnífica palestra, quando do centenário de nascimento de Moisés Santana, o acadêmico Jerônimo Geraldo de Queiroz foi lapidar:

Precoce ou prematuro, até mesmo para morrer – qual Hugo de Carvalho Ramos, Alceu e Higino Vitor Rodrigues, Gastão de Deus, Urbano Berquó, Egerineu Teixeira, Americano do Brasil, Joaquim Bonifácio, Antônio Félix de Bulhões Jardim – aos nove anos já era Moisés Augusto de Santana aprovado nos exames de primeiras letras; aos treze, em Instrução Religiosa, Português e Francês; aos 15 já é praça no 20° Batalhão de Infantaria; aos 16, já na Escola Militar da Praia Vermelha, donde é removido para o 5° Batalhão de Infantaria, no Recife, daí para a Bahia, daí para Canudos; aos 19, já jornaleia em A Nação, da capital paulista, e inicia o curso de Direito; aos 20 anos, procurador de partes em Goiás; aos 22, casa-se em conceituada família da então Vila Rica de Santana das Antas, hoje Anápolis. Daí por diante é jornalista habitual, professor público, Secretário do Conselho Municipal da Intendência de Antas, Escrivão de Órfãos, deputado estadual depurando antes da posse, Procurador interino da República, advogado, codificador das leis de Antas, Catalão, Morrinhos, Santa Rita do Paranaíba, hoje Itumbiara; Secretário de Polícia, Promotor Público, Procurador Fiscal, fundador, editor e diretor de jornais e mais jornais; escreve livros, colabora em revistas e periódicos de vários Estados – vindo a falecer em 21 de maio de 1922, pelo médico maranhense João Henrique Sampaio Vieira da Silva, por vermitagem do médico jornalista e político Boulanger Pucci, e lacaísmo do jornalista João de Minas e dobrez sérpea de Monsenhor Inácio, justo por ter tido sempre o despavoro de opugnar as autoridades arbitrárias e desonestas, e de testemunhas sempre a verdade, como dever sagrado do orador e do jornalista autêntico.

A visita do conselheiro (em termos atuais, vereador) e intendente (prefeito) à redação, com o propósito de interpelar Moisés Santana sobre uma nota, em versos, sobre questionável gestão de verba (João Henrique era acusado – e Moisés estava seguro quanto à veracidade do fato – de desviar nada menos que 12 contos de réis). Num poema, o nome Henrique surge, em modo de disfarce, trocado por Henriqueta, o que incomodou de tal forma o edil e médico maranhense. Insuflado por um colega médico, Boulanger Pucci (que era também jornalista e político), pelo jornalista João de Minas e o religioso católico Monsenhor Inácio Xavier da Silva, o ofendido sacou de um revólver e começa a disparar. O diretor do jornal, Quintiliano Jardim, tentou impedir o atentado, atracando-se com o agressor; Moisés Santana, mesmo atingido, conseguiu desarmar João Henrique que, no entrevero, acabou disparando contra si próprio, involuntariamente. O jornalista foi bem assistido por uma equipe médica de Uberaba, cujos membros se revezavam na missão, mas seus esforços apenas adiaram, por pouco mais de 24 horas, o desfecho trágico: Moisés Augusto de Santana faleceu às 21h39min do dia seguinte, domingo, 21 de maio de 1922. “O criminoso, julgado a 21 de junho de 22, foi absolvido, em decisão política. Juiz: Carlos Ferreira Tinoco; Promotor: Cartomano Coelho; Advogados de Defesa: Leopoldino de Oliveira e Tancredo Martins” – como consta do referido livro de Humberto Crispim, nas páginas, 53 e 54.

 

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Menos de uma semana antes, o escritor Coelho Neto esteve em Uberaba, onde proferiu palestra a 15 de maio. Sobre Moisés Augusto de Santana, informado do desenlace por Quintiliano Jardim, o autor de Esfinge e Os Pombos respondeu: “Que desgraça! O telegrama atordoou-me e mais desolado fiquei depois que li, no seu jornal, a minuciosa descrição do crime”.

No entender de Coelho Neto, Moisés Santana "foi o polemista mais audaz e vigoroso de seu tempo". O encontro dos dois autores, como se vê, deu-se às vésperas da dramática morte do mais notável dos jornalistas goianos. Ao término de seu lamento pela morte do amigo, o criador do epíteto Cidade Maravilhosa (para o Rio de Janeiro) pediu um exemplar do jornal, com toda a notícia do atentado e fatos envolventes, entre outros interesses, encerrando assim: “Quero conservá-lo como lembrança do formoso episódio que aí achei em pleno fulgor. Deus o tenha...”. (*)


 

(*) A referência era a um belíssimo texto de Moisés sob o título Taipoca, o nome tupi para o nosso ipê branco. O artigo – uma elegia à solene árvore de folhas brancas – saiu em seguida. Itaipoca é uma palavra indígena que define uma árvore da família das Bignoniáceas, com o nome científico de Tabebuia Odontodiscus, também chamada de ipê branco, taipoca e taipó. Itaipoca, em tupi-guarani significa, literalmente, “planta que estala – ou racha”. L.deA. 



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sexta-feira, abril 07, 2023

A geração que viu antes

 A geração que viu antes

Nossos pracinhas mobilizados, em 1944, para libertar a Itália.

 

A minha geração estava certa. Ou quase. Ou esteve certa, por um tempo. Em grande parte, suponho que a maioria dos que alcançaram os bancos escolares, os autodidatas que se informaram acendendo as próprias candeias e aqueles que, sem a escola e sem o lume, souberam aprender na conversação, à luz do sol e dos luares e na leitura dos sons das vozes de mães e pais, de avós e avôs, de tios e tias, e vizinhos mais próximos. Somos nascidos no segundo quarto do século XX e pudemos contaminar os que viram a luz primeira ainda nas duas décadas seguintes, ou seja, por quase mais uma geração – considerando de 25 anos tal conceito.


Nascemos sob os sons dos canhões da Segunda Guerra – ou ainda percebendo os ecos das batalhas. As guerras exigem muito das ciências, da medicina, da engenharia etc. As artes seguiram – ou antecederam – as ciências. As mentes de todos os cantos aonde chegaram os gritos de ataque ou os gemidos das vítimas abriram-se para tentar mudar o mundo e seus costumes. Grandes reflexos marcam profundamente os tempos que temos como pós-guerra, desde a moda do que vestimos, como tratamos nossos cabelos, como descobrimos o valor dos cosméticos, como passaram a nos tratar os médicos... Precisávamos ajustar nossos costumes, não bastava adequar a moda.


Do meio literário, lá com os irmãos-do-norte, nasceram os beatniks, os baratas-tontas, que logo contaminaram as artes em geral, dos pincéis às partituras; o comércio pediu novidades e as indústrias também agiram, os arquitetos e os desenhistas (hoje chamados designers) inovaram desde nossas calças e camisas, saias e tailleurs, paletós e agasalhos, além de uma nova arquitetura que inspirou Pampulha e Brasília, novos tipos e modelos de automóveis e aviões; do Japão, a “terra do Sol nascente”, veio a miniaturização que nos ofereceu rádios minúsculos, sem válvulas e dependentes de pequeninas pilhas, em lugar da complexa rede da energia elétrica.


O pequenino e cobiçado rádio a pilha, japonês.

O mundo se preparou para sair de casa: se, no começo do século, o homem aprendeu a voar, o sonho aumentou e a ganância também: “Vamos conquistar o espaço além da atmosfera!”.  


Bandas de rock chegaram rápido, e sem timidez, nos anos 1950.


No meu tempo de criança, os rapazes já usavam “calça faroeste”; o brim mesclado, que chamávamos de “brim curinga” – referência à marca oriunda do Moinho Santista – já era comercializado com facilidade nas lojas de tecidos por todo o país; mas a mesma fabricante do jeans (tradução: brim), citado sempre como “blue jeans”, lançou a calça pronta: a Faroeste, com um W bordado em linhas duplas, de contorno, nos bolsos traseiros da nada original five pockets criada pelo antropólogo Levi Strauss. 


A calça de índigo blue cai no gosto nacional

Nos anos que antecederam o golpe de 1964, os navios da maior armada do mundo, atracados no Rio de Janeiro, eram liberados para visitação; estudantes iam lá, muito mais para obter cigarros americanos em troca dos nacionais – mais fortes e muito ao gosto dos mariners. Era comum, também, desde que se dispusesse ao escambo, obter calças do brim azul fabricadas nos EUA – as famigeradas “calças Lee”. A partir dos meados da década de 1960, o produto entrou no Brasil com muita força e intensidade: as calças, confeccionadas sem os cuidados que normalmente se exigem, tinham um defeito – as pernas eram desalinhadas, ou seja, as costuras não tinham a simetria em cada perna; e como era indispensável fazer ajustes, costureiras e alfaiates nacionais ajustaram-se, com relativa facilidade, àquela coisa torta.




Algo, porém, há que se registrar sempre: somos nós, os nascidos naquele segundo quarto do século XX, os que resistíamos ao peso da infiltração norte-americana. O peso da propaganda das agências de propaganda do irmão-do-norte converteu, sei bem, a maioria dos meus contemporâneos: a música, o cinema e até mesmo a “ajuda humanitária” da USAID, que patrocinou por aqui de leite em pó a rodovias – além, claro, do golpe que nos privou de liberdade por 21 anos – aliciaram a opinião pública. Os remanescentes dos enganados refletem-se, hoje, no eleitorado que diz acreditar que “não houve ditadura” ou que “eles só perseguiram e mataram quem não prestava”. Na realidade, os que os aplaudiam, sim, eram “os que não prestavam”, tanto que doutrinaram filhos e periféricos a acreditar nessa balela.


Estou hoje, portanto, no pedestal de quem nasceu poucos meses após o fim da Guerra, em 1945, consciente de que me alinhei do lado certo. Recusei-me a falar inglês, fui parcimonioso em curtir o cinema e a música vindos de lá; andei muito perto de me imiscuir dentre os fanáticos (ou fundamentalistas), mas consegui permanecer nacionalista sem xenofobia, acreditando que o crescimento dos povos passa, sim, pelo intercâmbio das culturas.


Não fizemos tudo, não; e sei, ainda mais, que não conseguimos proteger nossos povos originários, e os militares doutrinados “por eles” (os alienígenas que refugamos) maculam a dignidade da farda do Marechal Cândido Rondon, ao protegerem os genocidas que envenenam os solos, assassinam as florestas e ferem de morte os rios; que corrompem os povos nativos, seduzem-nos com álcool e drogas, violentam suas mulheres e filhas e contrabandeiam inescrupulosamente nossos minérios.


Mais triste ainda, contudo, é ver que muitos – muitos, sim, maioria prejudicada – se deixaram seduzir pelos cantos-de-sereia do imperialista. São pessoas imediatistas, patrimonialistas, curtidoras do que se tem, hoje, por “zona de conforto” e que pagam qualquer preço por tais benesses. Destroem as matas e o cerrado; comprometem o ar e o clima; envenenam os solos e os rios – que estão morrendo de sede – e se enriquecem ao produzir comodities. E, ainda, torcem para elevar o valor do dólar e comprometem a sobrevivência dos mais carentes, ao impor, no açougue da esquina, a dolarização do quilo de coxão-duro.

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segunda-feira, abril 03, 2023

Sessenta anos em Goiânia



Aerofoto do Palácio das Esmeraldas; as duas grandes placas claras, na parte baixa, são as primeiras lajes do Centro Administrativo, em construção (1962 ou 63).


Sessenta anos em Goiânia

 

O espelho é parceiro constante, peça mágica de encantamento e autoidolatria (para os narcisistas). Mas é, também, um amigo disponível que, enquanto nos satisfaz o ego com as chances de autoadmiração, aconselha-nos a tomar medidas e decisões, sempre que necessário: “Corte o cabelo; barbeie-se; erga os ombros; cuidado com a alimentação” etc. e tais. O espelho costuma, muitas vezes, sugerir-me uma visita a velhas caixas de fotografias – e, na versão contemporânea, a arquivos digitais.

Gosto da minha idade (sempre gostei); e gosto do passado, esteio do agora e trampolim para o futuro. Divirto-me com as imagens que despertam lembranças, e transformo esses momentos em fabulosos exercícios da memória. Isso me desperta sorrisos e risos, muitas vezes – noutras, surpreende-me com furtivas lágrimas incontidas, valorizando as emoções que tais lembranças cutucam.

Cheguei à fase em que raríssimas são as pessoas da minha vivência a quem consultar; tornei-me, eu próprio, fonte de informações para os mais moços (amigos e familiares), mas as perguntas dos filhos e netos, dos sobrinhos e primos nem sempre encontram respostas em mim. Mas, penso eu, de uns tempos para agora: “Isso não tem mais importância, ficou perdido naquele passado, foi sepultado com os que se esqueceram de me contar”. É um modo de me perdoar por não saber – ou de me poupar de alguma culpa, visto que, em tempo adequado, não me ocorreu de tentar saber.

Bem: não quero bater na tecla insistente de que “os velhos sabem tudo”; sabemos, sim, de muita coisa, mas vejo e ouço o quanto os moços andam desinteressados; pensam que tudo da vida está no gúgol, esse que quebra tantos galhos na internet e que, erroneamente, vem substituindo as enciclopédias, tolhendo-nos das melhores ferramentas tira-dúvidas; em breve, estaremos com muito mais informações, porém muito menos bem informados do que seria possível.


Pelo mesmo ângulo: na década de 1950 e  em 2011.

Para não perder o fio de meada, ou a luzinha no fim da escuridão, estala em minha memória meus primeiros dias em Goiânia (em agosto próximo, festejarei – sozinho, pois sei bem que isso só interessa a mim – 60 anos de minha chegada.

Bom goiano, “de pé rachado”, asseguram-me a goianidade a tradição na família paterna, com raiz na senzala do Engenho de São Joaquim, na vetusta Meia Ponte que se tornou Pirenópolis. A famosa Fazenda Babilônia – nome que recebeu do Padre Simeão, que a adquiriu dos herdeiros do velho engenho – teve o leito em que o comendador Joaquim da Costa Teixeira ‘coabitou’ com a mucama Eufêmia de Gouveia. Sua filha Maria Jesuína da Costa Teixeira casou-se com Luís Tomás de Aquino, bisavós de meu pai. A outra vertente da minha concepção é a mestiçagem de duas raízes italianas com caboclas bem nacionais: minha mãe era filha do Vô Chico (Francisco Borgese) e da minha avó Inês, cuja pai era também italiano (o Vô Donato, que alcancei; faleceu duas semanas após minha chegada a Goiânia, tinha 97 anos). Acredito que essa miscigenação variadíssima me dá a composição genérica do bom brasileiro. 


Dois tempos, pelo mesmo ângulo: 1952 e início dos anos 2000.

Voltando a 1963, mais precisamente ao dia 31 de julho... Era pouco mais de meio-dia quando desembarquei, ao lado de meu primo Rogério Cunha Ríspoli, na rodoviária que, hoje, é um quartel do Corpo de Bombeiros. Estávamos ambos muito corados, ou seja, a pele e a roupa cobertas com o pó vermelho da estrada desde Caldas Novas até alcançar o asfalto da BR-14 (hoje, BR-153), nas proximidades de onde hoje está a praça de pedágio, no povoado Floresta. Na manhã seguinte, inaugurei minha condição de aluno do Liceu de Goiânia – nos papéis, Colégio Estadual de Goiânia, nome esse que a população nunca assimilou; o nome Liceu de Goiânia, extra oficial, constava até mesmo em algumas insígnias do colégio – um braço do Liceu de Goiás, criado na antiga capital em 1846.

Minha alegria só era compreensível para mim mesmo: eu vinha do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, o mais antigo dentre todos os colégios do país em atividade ininterrupta; e o Liceu de Goiás ocupava, sem que muitos de seus alunos e mesmo professores soubessem, o honroso papel de “o segundo mais antigo” na mesma condição – a de jamais ter fechado suas portas.


O Liceu era assim e nos enchia de orgulho; aí fui aluno e, algum tempo
depois, professor.

Aqueles cinco meses restantes, isto é, o segundo semestre letivo, foi de descobertas valiosas para mim. Eu deixava o Rio em ano pré-vesperal de seu quarto centenário e chegava à novíssima Goiânia, que festejou, em outubro, 30 anos de sua Pedra Fundamental; integrei-me (com alguma rejeição por parte de alguns colegas) ao novo colégio, convivi com jovens poetas na mesma sala de aula (Emilio Vieira e Ciro Palmerston) e descobri-me aprendiz de ator com Otavinho Arantes.

Tempo de adaptação, de descobertas e aprendizados... Coisas que se plantaram na minha memória; na época pareciam de menor valor, mas hoje têm a função de um alicerce no começo da vida adulta.

 


L.deA.

Luiz de Aquino (da AGL, do ICEBE , do IHGG e da UBE). Especial para a Revista Cultural Sicoob Unicentro BR.