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quinta-feira, fevereiro 17, 2022

Semana de 40 anos

 

Para comemorar o centenário da Semana de Arte
Moderna (13 a 18 de fevereiro de 1922), a União
Brasileira de Escritores de Goiás convidou 22
associados a escrever contos sobre o evento na
Pauliceia Desvairada (epíteto de Mário de Andrade 
para a capital paulista).
Este é o meu:


A Semana de 40 anos!


 

O moço Cylleneo em 1914. É o nosso
primeiro poeta modernista.


  

 

De um ponto favorável, ou seja, não sendo visto nem sentido com clareza pelas pessoas, acompanho a vida de um pacato lugarejo no Sul de Goiás. Isso faz de mim um espectador privilegiado e, ao meu modo, sei como e quando interferir em favor de melhores condições nesse povoado.

Contarei, a seguir, aspectos de seu cotidiano, numa realidade carente de recursos e iniciativas – daí os meus palpites, cada um como mola a ativar algum movimento.

 

1920 – Caldas Novas e a ponte São Bento

 

Manhã cinzenta, esta, de céu fechado e chão lamacento. Faz frio e o chão é mole, baboso, escorregadio. As ruas cheias de poças, algumas alongadas pela trilha das carroças com roda de madeira. Tem também os caminhões e dois automóveis, que têm rodas de borracha chamadas de pneus, mas esses carros com máquinas não levam vantagem sobre as carroças e charretes, as máquinas atolam mais – porém, os caminhões que passam às vezes por aqui não ficam presos na lama, porque nos tempos de chuva colocam correntes nas rodas e assim escapam do grude dos atoleiros. Os caminhões levam sacas da produção de arroz, feijão, mandioca e milho para Ipameri, onde tem a estação do trem e de lá essa carga segue para Minas e São Paulo. Na volta, os caminhões trazem produtos das fábricas de São Paulo ou dos portos do Rio de Janeiro e de Santos para as lojas daqui e de Morrinhos.

 

Minha presença é pouco notada. Aliás, ninguém me olha, ninguém me vê. A bem de ser justo e sincero, sou quase imperceptível: alguns me ouvem, não em som aberto e nítido, claro, límpido: costumo soprar sugestões e conselhos, ou apenas palpites ocasionais e determinantes ao ouvido dos seres, em especial dos capazes de impor decisões por novos atos e feitos que venham em favor da melhoria de vida da comunidade.

 

O coronel Bento de Godoy pediu ao governo que fizesse uma ponte no Corumbá, na divisa de Caldas Novas com Ipameri, mas o presidente do Estado disse que não tem recurso para a ponte, por isso o coronel mudou o pedido e trouxe de lá a concessão para construir e aplicar pedágio para recuperar o investimento. A ponte está em construção, estão fazendo as cabeceiras dos dois lados, em alvenaria forte para aguentar o peso. Um engenheiro estrangeiro falou numa ponte pênsil, que vai levar madeira de lei e cabos de aço. Ele explica que não vai ter colunas dentro d´água porque a garganta onde se constrói a ponte é muito estreita e de grande profundidade, por isso a tal de ponte pênsil – que será sustentada por fortes cabos de aço. Por enquanto, os caminhões e carroças grandes levam a produção das roças até a beira do rio e passam para o outro lado na balsa; quando a ponte estiver pronta, vão passar direto, vai ser só pagar o pedágio e seguir viagem.

 

Incomoda-me tanta chuva. Mas, dirão as senhoras e os senhores leitores, se não me molho nem sinto frio, porque me incomodo com a chuva? Simples: muitos são os entraves, os incidentes e mesmo os acidentes em que minha presença, minha quase imperceptível presença, se faz necessária e, não raro, decisiva. Estimulo a criatividade dos que acodem, inspiro força física aos que dela necessitam para solucionar determinados impasses – como uma carroça atolada, alguém ferido que necessite de remoção e não tem condição individual para isso et cetera.

 

O dia está terrível! Ninguém aguenta tanta chuva! Os caminhões que vêm de Ipameri trazem também doentes e viajantes curiosos para tratar ou apenas conhecer as águas. Chegam cheios de dúvidas, não acreditam que há minas d’água quente no leito e nas margens do córrego das Lavras. Este nome é por causa da mineração. Quando chegaram aqui, os bandeirantes batiam bateias pelo aluvião do córrego procurando ouro. Acharam um pouco, pouco mesmo; a riqueza da terra é a temperatura das águas.

 

Cheguei a vê-los, naqueles primórdios, no afã de bamburrar, colhendo muito de ouro em pó ou, eventualmente, uma expressiva pepita. Deliciavam-se, mesmo, no prazer do banho quente à margem, relaxando a musculatura cansada e sentindo aumentar o desejo sexual, para saciá-lo com a parceira costumeira, com um rapazola que ainda não tivesse sua definição e preferência ou, ainda, dando vazão solitária ao imaginário.

 

Gosto de ver a chegada dos caminhões e carroças trazendo produtos da indústria e viajantes para os banhos. Como disse, uns vêm pela saúde, outros pela curiosidade. Os primeiros são chamados de pacientes, os outros de turistas que, dizem, é algo que vai acontecer muito no futuro. Sei não... Fosse para receber tanta gente aqui e se isso fosse render dinheiro para a cidadezinha, o trem teria vindo p’ra cá, mas preferiram manter a rota e levar a linha para os rumos do Roncador. Estão fazendo lá a estação e já surge por lá um povoado, uma cidade nova. Por isso o coronel Bento teima com a tal ponte; afinal, Ipameri está a umas dez ou doze léguas, nem é tão longe – o problema é o Corumbá.

Viajantes que vêm de Minas e de São Paulo costumam trazer jornais. Ipameri também tem jornal. E todos são interessantes, como o Lavoura e Comércio, de Uberaba, além dos que chegam da capital de São Paulo e da capital federal, o Rio de Janeiro. Comerciantes gostam dos jornais para, depois de lidos por eles e clientes que frequentam suas lojas para os dedos de prosa de todas as manhã, servirem de papel de embrulho.

Em Caldas Novas, os doentes pobres acomodam-se em ranchos simples num alinhamento novo chamado de Rua da Palha, por causa da cobertura dessas casinhas com folhas de palmeiras, que são muitas na região. Os mais afortunados hospedam-se na pensão que tem no largo da Matriz. E é ali, no salão de entrada, que os viajantes vindouros costumam deixar jornais, que leram durante a viagem de vinda. Cadernos e folhas são separados e passam de mão em mão para a leitura de todos, ávidos de novidades e de assuntos para as conversas naquele ermo: um povoado pequeno que, menos de dez anos atrás, ganhou foro de município.

 

Ponte São Bento (sobre o rio Corumbá,
entre Caldas Novas e Ipameri, em 1920).
 


Gostei das ações, das agitações e das reuniões que anteciparam e coincidiram com a outorga legal que fez do arraial de Caldas Novas um município autônomo, em 1911. Fiz zumbidos oportunos e saudáveis nos ouvidos internos do coronel Bento, de seu sobrinho José Teófilo, do coronel Orcalino Lopes de Morais e outros notáveis da pequenina comunidade chamada, na época, de caldense; com o tempo, fez-se necessário aplicar-se o gentílico apropriado, diferenciado de outras localidades que se valiam do mesmo termo, por isso a mudança foi necessária e oportuna, corrigido para caldas-novense.

 

E nestes tempos, seu prefeito é um engenheiro civil, sobrinho do coronel Bento, nascido em Estrela do Sul, em Minas, e formado no Rio de Janeiro. Esse moço é filho de importante figura do Triângulo Mineiro, Teófilo de Godoy, o pioneiro que buscou na Índia uma raça exótica de bovinos, o zebu. O engenheiro José Teófilo só ostentava o nome civil em documentos, como seus autos e lados profissionais, além da papelada da Prefeitura, pois, para toda a cidade, e até sua morte, seria conhecido como Juca. Juca de Godoy, engenheiro e poeta.

Um ano depois dessa invernada de chuvas persistentes, deu-se a inauguração da ponte, no ponto em que o rio Corumbá se estreita e – dizem – torna-se mais profundo o seu leito; o local é chamado de Rochedo, referência óbvia às colunas de pedras escolhidas como alicerces para as cabeceiras da ponte pênsil. Seu nome, Ponte São Bento, é uma evocação ao santo de que o coronel Bento de Godoy é devoto.

 

1922 – A Semana de Arte Moderna e uma nova cidade na ponta da linha

 

Neste ano de 1922, no salão da Pensão Central, no largo da Matriz, diverti-me com os comentários entre sorrisos dos leitores de um exemplar do Correio Paulistano. Era uma reportagem interessante, falando numa tal “arte moderna” que um grupo de escritores, músicos e artistas da pintura e da escultura e outros promoveriam na Pauliceia. E seria no mês que vem, quero dizer, fevereiro. Eu não preciso de ler o jornal, pois basta que estejam próximos e já me informo de seu conteúdo; os leitores na pensão, porém, ficaram curiosos: o que é arte moderna? Se um quadro foi pintado hoje, ou se uma música foi composta ontem, é claro que é moderna. Sei não... – pensavam, intrigados, esses leitores.

Um dos recém-chegados, justo o portador do grande jornal paulistano, resolveu esclarecer o tema. O homem, aparentando 30 anos, apresentou-se como “advogado e beletrista”, e começou a discorrer sobre o que vinha a ser a tal arte moderna: nas letras, o escape das formas tradicionais – na poesia, por exemplo, caiu o rigor das métricas e acentuações tônicas, como também as rimas seriam ignoradas ou até mesmo abolidas. No conteúdo, uma drástica transformação na contística, nos romances e também nos versos; qualquer assunto passa a ser interessante e digno da arte das belas letras. No desenho e na pintura, como na escultura, as formas seriam mexidas de modo radical! A figuração perderia muito de sua importância, as cores viriam intensas nos tons e nas variedades, o artista passa a desfrutar de sua plena liberdade criadora etc. e tal, e na música muita novidade viria, também, pois o admirado maestro Heitor Villa-Lobos era um dos mais animados dentre os participantes do importante evento.

Não faltou quem questionasse: mas isso vai continuar se chamando arte? O beletrista, em defesa de sua adesão ao tema, afirmava que sim; e como advogado, evocava o direito às liberdades da criação, pelo fim dos rigores escravagistas que cerceiam os voos da imaginação e exaltava “o abuso dos sonhos em seus voos sem limites”.

 

Esse beletrista doutor em leis e processos foi meu escolhido nesse fim de tarde, comecinho de noite. Ele próprio surpreendeu-se por tão espontânea e eficaz inspiração, buscando palavras apropriadas e de modo a ser bem compreendido por aquele público, no qual, sem dúvida, haveria pessoas sem alcance acurado ante um discurso pomposo; era preciso falar claro, de modo a ser bem compreendido e, convenhamos, era esse um dos propósitos nos argumentos de Oswald de Andrade.

 

Na capital do Estado, a antiga Vila Boa que, agora, se chama Goiás (na escrita da época, Goyaz), uns poucos letrados destacam-se por seus feitos estampados em parcos jornais locais. Nos primeiros anos do século, por volta de 1905, circulava até mesmo um jornal feminino, A Rosa, no qual destacavam-se duas meninas-moças, Leodegária (de Jesus) e Aninha (Ana Lins dos Guimarães Peixoto), poetisas.


Em 1922, poucos letrados – quase sempre advogados e alguns farmacêuticos, que, por extensão e necessidade da sociedade, eram também professores – praticavam as letras. Poucos eram também os artistas plásticos em lides de escultura e pintura; um grau de artesanato marcava os afazeres de costureiras, alfaiates e finalizadores das construções civis.


Lá em São Paulo, capital de província – depois Estado – importante na política e na economia desde os tempos coloniais, a vida cultural se agitava sob ações dos escritores Oswald e Mário, ambos de Andrade (sem parentesco), Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida, entre outros. Também de realce era a participação de vários artistas plásticos, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Victor Brecheret e Tarsila do Amaral. O maestro Heitor Villa-Lobos há de ter sido a maior referência entre os músicos.

 

1922 em Goiás: um poema diferente, fora dos prumos românticos e parnasianos

 

Contudo, o movimento não atingiu Goiás. Soube-se do acontecido, comentou-se a novidade. A mudança – como toda mudança – amedronta; e amedrontou. Tanto é que, seis anos depois, o juiz de Direito Cylleneo de Araújo, ao publicar seu único livro (em vida), Ontem, foi tido como o pioneiro do modernismo em Goiás. Cylleneo, em seu ofício de poeta, construiu um codinome com um diagrama de seu prenome: Leo Lynce.


Obelisco - marco de fundação de Pires do Rio, Goiás, 1922.


Nascido em Pouso Alto, recebeu o nome de Cylleneo Marques de Araújo Valle. No ano de completar o décimo aniversário é internado no Seminário de Ouro Fino, pequena e importante localidade bem próxima a Vila Boa, capital do Estado. Em breve o seminário era transferido para Uberaba, em Minas; o menino segue para Bela Vista de Goiás, nova residência de sua família após a morte do pai. O menino – ele diz isso em um poema – teria herdado da mãe os dons que o levaram à escrita literária.

 

Caldas Novas voltara a um estressante marasmo após a inauguração, em 31 de janeiro de 1921, da Ponte São Bento, que a aproximava da estação ferroviária de Ipameri. Alguns jovens como Oscar e Celso, liam notícias sobre os artistas modernistas de São Paulo, mas não tinham nada a fazer senão trocar ideias entre si. E o coronel Bento, por volta de 1925, procurou seu adversário político Luís José Pereira e propôs-lhe uma sociedade, uma empresa para construir uma usina hidrelétrica que, em 1927, iluminaria a pequenina cidade das termas. E eu, na existência etérea, troquei o foco; percebi a inquietação daquele Cylleneo e não o perdi em minhas observações.


Leo Lynce por Amaury Menezes




 

Aos 15 anos, publica seus primeiros versos. Nesse mesmo ano, 1900, o jornalzinho de sua estreia deixa de ser desenhado e entra na fase impressa; Cylleneo cria um Grêmio Instrutivo, com rapazes (como ele) ávidos de conhecimentos; e passa a ser publicado nos jornais Araguari, Gazeta de Uberaba e Lavoura e Comércio (também de Uberaba). Fez-se, ao fim da adolescência um peregrino sem receios, pronto a deslocar-se e adaptar-se a novos sítios e ares. Tais andanças por Goiás (ele gosta de escrever Goyaz) e outras terras, umas meio distantes, outras distantes demais, rendem-lhe um valoroso conhecimento – o que se tem por autodidatismo. E o natural, em tais casos, é um aprendizado espontâneo, processo que assegura, mais que a memorização, a fixação indelével do que se viu (e se assimilou). Antes dos 20 anos, é nomeado Juiz Municipal para a Comarca de Bela Vista – que cobria uma grande área no Sul de Goiás, um Estado cujo território supera os 700 mil quilômetros quadrados e uma extensão superior a dois mil km, de Norte a Sul. Funcionário hábil em questões de terras, assume direções de jornais aos 21 anos e abrevia seu nome para Cylleneo de Araújo. Ato contínuo, adota o nome literário pelo qual se faz conhecido – Leo Lynce (anagrama de seu nome). Envolve-se em política, é perseguido, muda-se para o Rio de Janeiro, depois para Uberaba, retorna a Goiás e vive em várias cidades (Jataí, Palmeiras de Goiás, Catalão; elege-se deputado e, na capital (Cidade de Goiás), começa o curso de Direito. Vive, por curto tempo, em Campos de Goitacazes, no Estado do Rio, retorna a Goiás.

Vida muito ativa, pois, com intensa atividade no jornalismo e na Instrução. Em 1922, empolga-se com as notícias acerca da Semana de Arte Moderna – é nesse mesmo ano que produz o poema Goyaz (que não pode ter seu título mudado para a grafia Goiás, pela exaltação do Y na terceira estrofe. O poema, com estrofes ora de seis versos, ora de cinco e, ainda, com sete versos, tem nítida integração com os propósitos dos literatos do movimento, em especial com as ideias dos Andrade – Mário e Oswald.


 

1945 – Resolvi nascer, que a vida
etérea impedia-me de praticar 
a escrita com grafite ou 
 tinta sobre o papel


Viriam outros tempos tediosos: um golpe político em 1930, uma efervescência em 1934, muito barulho em 1937 e. no final da década, uma guerra por demais sangrenta na Europa, com reflexos inevitáveis no Novo Mundo. O conflito teve reflexos amplos, chegando a perturbar a paz dos pachorrentos sertões de Goiás. Por tantas assim, decidi por outra coisa – materializar-me por estes cerrados e veredas, com prioridade para as tépidas águas das Caldas – as Velhas, as Novas e as de Pirapitinga.

Nasci, então.

 

Alguns estudiosos entendem como marco da modernidade literária em Goiás com sendo 1928, ano da publicação do único livro, em vida, pelo autor: Ontem. O poema Goyaz, porém, foi escrito em 1922, nas proximidades de 9 de novembro – data de fundação da cidade de Pires do Rio, nascida em torno da nova estação “no fim da linha” da Estrada de Ferro Goiás.

Aqueles seis anos de intervalo entre A Semana e a publicação de Ontem foram ignorados pelos poetas locais, ainda fixados nas marcas do Romantismo e do Parnasianismo.

 

Apenas 41 anos...

 

E a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, refletiu-se em 1922 na pena sensível de Leo Lynce, quando um pequeno grupo se reunia em torno de um obelisco para marcar o surgimento de uma nova cidade em ponta de linha férrea, nestes confins de Goiás; críticos e pesquisadores precisaram de um livro em 1928 para saber dessa estreia, que só encontra eco, de vez, a partir de 1963, com a surpreendente revoada de versos livres por um bando de jovens impertinentes que se identificavam como Grupo de Escritores Novos.


Leo Lynce em livros, ad imortalitatem!

Ainda assim, e ainda desde 1963, não são raros os prosadores que insistem num linguajar anacrônico, com palavras em desuso desde os antecessores de Machado e Lima Barreto. Também ainda surgem poetas que elaboram uma narrativa curta o bastante para não passar de cinco linhas de prosa que, a esmo, são cortadas em supostos versos e espalhados na página – muitos deles, em nome de uma modernidade personalíssima que nada tem a ver com modernismo, sem pontuação e sequer com o uso de maiúsculas.

E a estes, surpreendentemente, retornam comentários e críticas feito alvíssaras em tons de retardos, expondo críticos sem lastro intelectual nem apego à arte das letras. Menos ainda a princípios os mais comezinhos da Última Flor do Lácio, conceito que tais beletristas podem bem atribuir a Bandeira – ou a Neruda, sabe-se lá!

 

*    *    *

Retrato por Rosy Cardoso, 2021


Luiz de Aquino, 

da Academia Goiana de Letras. 


 

terça-feira, dezembro 07, 2021

Pérsio Forzani, em encantamento

Pérsio Forzani, o mais expressivo e decantado artista plástico de Pirenópolis, despediu-se da matéria ontem, 6 de dezembro, 2021. A notícia bateu como um murro de baixo pra cima, feito um murro no queixo para arrancar a cabeça; lembrei-me de de um dos nossos últimos encontros. Aqui está a crônica, enfeixada por um poema especial para a festa aí narrada e que, caso eu me disponha a produzir um novo livro de poemas, este não será olvidado. 


Quando a Tocha Olímpica passou por Pirenópolis (2016),
Pérsio foi um dos indicados a  portá-la, com solenidade...

As mãos, sem firmeza, pediram ajuda; o sobrinho
Jerônimo, solícito, acudiu.



Pérsio, o de Pirenópolis







Imagino que quase todos os jornalistas tiveram, ao escolher o ofício, o mesmo estímulo que eu: a curiosidade ante o fato e o desejo de contá-lo. Mas isso, feito sem o efeito da boa escrita, é coisa de fofoqueiros. A diferença está justamente no amor ao texto.
Desculpem-me os leitores por essas costumeiras divagações quando me ponho a escrever. Produzir uma crônica é um dos meus grandes prazeres e não posso simplesmente imaginar que um gol é apenas um pênalti, sempre o concebo como uma articulação demorada, ziguezague que começa lá na área de defesa, evolui-se no meio do campo e se conclui na área adversária, no excitante desafio a zagueiros e goleiro, no balé de corpos e pernas, no malabarismo improvisado em frações de segundo para ver balançar a rede e erguer-se a torcida... (Poxa! Até para pedir desculpas eu divago; tudo bem, a culpa é da Copa do Mundo!).


O que me motiva, hoje, é Pérsio Forzani, artista plástico com documentos que nos mostram um homem de 79 anos. Na sexta-feira, dia 4 deste junho de 2010,  Pérsio foi homenageado em Pirenópolis, sua cidade de nascer e viver sempre. Não se tratou, porém, de uma festa antecipada das oito décadas, mas dos setenta anos em que Pérsio se dedica à arte de desenhar e pintar. Luiz Antônio Godinho, ao telefone, passa-me um recado:
– Você também está escalado para saudar Pérsio...

Quem exigia? José Nominato Veiga, idealizador da festa que envolveu desde este poetinha até o prefeito Nivaldo Melo, passando por pessoas de destaque na cidade, como o artista Elder Rocha Lima e o desembargador Joaquim Henrique de Sá.



Pois é! Pérsio, de tanta vivência, tem no olhar um brilho instigante: é a luz da juventude. As pernas, imobilizadas e contidas pela pólio na tenra infância, não o impediram de jogar futebol quando menino, como contaram os amigos e o vice-prefeito Tassiano Brandão, companheiros naquela infância. Falou-se lá em outros números: são mais de três mil telas espalhadas pelo mundo, a maior parte mostrando Pirenópolis. Num só projeto, há cerca de vinte anos, Pérsio reproduziu quatrocentas casas históricas da cidade. A encomenda foi do saudoso professor José Sizenando Jaime para sua obra em dois volumes sobre as vetustas construções da antiga Meia-Ponte do Rosário.


E eu, movido pela emoção ao ser convocado, juntei camisa, calça e outras peças numa maleta, convidei a cantora Regina Jardim a acompanhar-me à terra de seu tataravô Veiga Vale e, antes de sair, concebi um poema em homenagem ao amigo e ídolo, assim: 






Pérsio Forzani (o homem que pinta poesia)


Espalho-me ao tempo 
ao sol que define os dias, 
à Lua que benze as noites.


Nos anos mais verdes, 
colhi serenatas plantadas nas ruas
de pedras, sem régua ou compasso.


Ouvi versos cantantes 
e acordes dolentes; vi moças bonitas
nas janelas, silentes...


Era um tempo de estrelas 
e risos sem censura. A gente vivia
vertigens, e era feliz.


Sol, luar, orvalho! 
No verde, mais luz; mais vida
sob os astros.


Meus olhos desenham os morros, 
perfis sob azul infinito, moldados 
aos traços das línguas dos rios.


A ponte, o amor clandestino. 
Carmo, Bonfim, Matriz do Rosário, 
Lembranças de eu-menino...


Meus olhos colheram paisagens, 
Memória transforma em saudade, 
Pincel faz arte e riqueza.


Terra e gente meia-pontense:
Hino e presépio, história em imagem:
Obras de Pérsio, joias da terra.





Luiz de Aquino, poeta e
admirador, esperançoso
de reencontrá-lo no
outro Plano.

* * *

terça-feira, novembro 02, 2021

Não "Risque... meu nome do seu caderno..."

 
Há um ano, isto é, a 2 de novembro de 2020, publiquei meu poema "Dói de Dentro" (https://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/2020/11/doi-de-dentro.html) neste blog; e o evoquei hoje, como um pequeno texto a homenagear nossos idos. 
A professora e poetisa SANDRA QUEIROZ (da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, AFLAG) comentou-o com um anexo, de sua lavra, que estampo aqui: 


Não "Risque... meu nome do seu caderno"
(Canção e melodia de Ary Barroso)

quarta-feira, outubro 20, 2021

Intimidades literárias

 

Os amantes, de René Magritte


Intimidades literárias

 

O homem é mais, muito mais, que um ser semovente, pensante e inquieto. Busca sempre os espaços, muitos espaços, e, com igual frequência, aglomera-se, associa-se, organiza-se, faz o bem e faz o mal. É um ser de dois gêneros – e suas variáveis – que primordialmente vive para a reprodução, ciente de que sua vida tem um começo e uma única determinante – a morte.


Entre o nascer e o desenlace, é-lhe dado todo o direito às escolhas. E o ser humano, em ambos os gêneros, faz tais escolhas todos os dias, a cada instante, motivado por fatos adjacentes ou por suas ideias – ou por ambos, concomitantemente. E, nesse fazimento de novos caminhos, comete feitos lícitos e alguns nem tanto, que ele, esse ser, mulher ou homem, busca preservar sob a pecha de “a minha intimidade”.


Aos escritores, como a outros artistas, é dado o direito à escolha de evidenciar seus ‘bem-feitos”, sem que se lhe cobrem a vida íntima, que, por óbvio, é do interesse exclusivo dos que compartilham dessa tal intimidade.


Ocorre-me um escritor. Um dos muitos que li com avidez, com quem aprendi muito por lê-lo e, para minha felicidade, de cuja companhia me enriqueci e pude considerar amigo; não porque eu tivesse algo a propiciar-lhes, mas por desfrutar de um aprendizado pessoal, com a liberdade de mostrar-lhes meus escritos e colher opiniões.


Goiânia, naqueles 1960 e tantos, era ainda uma cidade pequena. E seu pequenino universo literário, minúsculo. Era comum espalharem-se os escritores – e seus leitores – pelas calçadas que circundam o quarteirão do Grande Hotel. As quatro faces dessa quadra – as avenidas Goiás e Ahanguera e as ruas Três e Sete – eram os pontos mais agitados da cidade sob a luz solar. Além do primeiro hotel da nova cidade, tido ante a História como “uma das cinco primeiras arquiteturas”, ali estavam a companhia telefônica, o Banco do Estado, o Hotel Lord e seu afamado salão de barbeiros, o Café Central – ponto de efervescência pela aglutinação de políticos, comerciantes e fazendeiros, além de uma turba de aspecto duvidoso, tido pela boca-miúda como pessoas contratáveis para serviços escusos e condenáveis – pela moral vigente e pelas autoridades constituídas. Havia ali, também, no trecho da Rua Sete – a dos fundos do Grande Hotel – a sede de uma importante livraria, a Cultura Goiana. Chegou a ter três lojas no mesmo quarteirão – as demais estavam na Rua Três e na Avenida Goiás, ao lado do famoso hotel pioneiro. Por isso, a aglomeração de escritores e leitores naquelas calçadas. Essa massa de intelectuais espalhava-se também para os rumos da esquina da Avenida Anhanguera com a Rua Seis e o lado oposto da avenida Goiás, em frente ao famoso hotel já referido – as duas lojas do Bazer Oió, a única livraria fechada pela ditadura de 1964 a 85 em todo o país.


Pronto! O ambiente está demonstrado – ao menos o ambiente urbano em que praticávamos nossa vida social à luz do dia. Então, é hora de falar da personagem. Usava um boné de pala curta, modelo comum na Europa de ingleses, portugueses e italianos; dificilmente era visto em “mangas de camisa” ou sem dois ou três livros sob o braço. De pouca conversa, ligeiramente gago, não recusava prosa. Nesse modo de ser, acolhia também os moços curiosos, ansiosos da atenção de alguém famoso – e esse autor era, sim, já famoso: os jornais contavam de suas correspondências com grandes vultos do Brasil das Letras, da publicação de um conto seu num jornal alemão, do interesse de uma grande editora do Rio de Janeiro interessada em publicar suas obras.


Contista exímio, capaz de narrativa encantadora, desses que nos prendem desde a primeira frase até o suspense ao final, quando a mente continuava a supor os momentos após o ponto. Uns tempos após a estreia, com alguns livros de contos já por demais divulgados, aqui e além do rio Paranaíba, atreveu-se ele a um romance – e repetiu o sucesso que o marcou na jornada dos contos. Houve uma experiência em versos, mas não foi tão feliz na forma poética: voltou à prosa, tão rica de imagens e construções poéticas que os leitores o perdoaram pela tentativa nas sendas de Bilac, Bandeira e Drummond.


Aos poucos, inteirei-me de sua vida; soube da tentativa de viver na antiga capital federal, entre o mar e o maciço da Tijuca, ou num subúrbio da Zona Norte; importante mesmo seria estar na efervescência dos notáveis das Letras. Não conseguiu viver longe do cerrado, dos rios Corumbá e das Almas, Vermelho e Paranaíba. A escrita, porém, persistiu no seu tempo – afinal, desde sempre era de sua essência, de seu propósito de vida. Fez-se servidor público municipal, depois professor, escreveu para jornais, orientou principiantes, atendeu sempre ao apelo de professores de todos os níveis para falar aos jovens e às crianças.


Gostar dele sempre foi muito fácil. Era gentil com as pessoas, ouvia críticas – uma elogiosas, outras nem tanto – e a elas respondia como quem esclarecesse algo; tinha muito a ensinar, mas preferia conduzir o leitor à descoberta.


Discreto sempre, cuidava de isolar-se para as leituras e as escritas – como fazemos todos os que trabalhamos textos. Nessas ausências e silêncios, nem todo o tempo era consumido no ofício – algo de peraltice (ou de pecado) estava nas preferências do meu herói de causas literárias. O nosso ídolo mantinha, com a possível discrição, um miúdo apartamento num grande edifício ao lado do Mercado Central. Morei ali por cinco anos, e foi por isso que descobri dele algumas peraltices (quase falei “levadices”). Gostava muito, meu velho amigo, de dois tipos de mulheres – as negras e as loiras. Não se interessava pelos tipos indígena, morena ou oriental, mas sim pelas “escandinavas” e as do “navio negreiro”.


– O preconceito de cor foi criado pela mulher branca, quando percebeu que a preta lhe era superior – dizia ele.


Morava eu no mesmo andar da garçonière do velho escriba. Certo dia, sabia eu que ele estava em casa (o tapetinho com a inscrição Bem-vindo estava do lado de fora). Ao sair do elevador, vi uma mulher jovem e bonita, ligeiramente gorda; batia na porta, insistia, teimava... Entrei em casa; a moça continuava batendo na porta e tocando a campainha; saí de novo e decidi “informar”:


– Moça, desculpe-me, devia ter dito antes, ele viajou.


A mulher me olhou com desdém: abaixou a cabeça, empurrou o pequeno capacho com a ponta do pé e desistiu: caminhou para o elevador sem me olhar nem dizer tchau. Mais tarde ele passou por mim, junto à portaria; contei-lhe sobre quem chamava à porta e ele: “Não podia mesmo atender, estava com uma escandinava”.


Este foi um caso que presenciei; e, aos poucos, habituou ele a confidenciar-me algumas histórias. Havia as pitorescas e as complicadas, como a de uma “aventura catalana”, no dizer dele mesmo. Sempre que se via liberto, por dias ou semanas, das amarras do casamento, enviava dinheiro para a namorada que, no decurso de uma noite, tomava o trem para Goiânia. Ele não a esperava na estação, seria arriscado expor-se, mas a moça tinha consigo a chave do “rendez-vous” particular do contista.


Pois bem! Aconteceu, para surpresa do rái soçaite local, a separação, que logo virou divórcio, conforme a evolução das leis. A moça do interior alimentou esperanças, mas o amado decidiu-se por outra alternativa. Foi então que ela, incitada por invejosos e estimulada por um jornalista desses que, à falta de notícia, inventa uma polêmica – ou um escândalo – publicou um livro, contando particularidades de suas vindas secretas a Goiânia. E lá, do meio para o final da obra, em texto sofrível, a traída contou das lembranças:


– Você com seu bonezinho típico, as pontas dos cabelos escapando dos beirais do chapéu, totalmente nu passeava pelo apartamento com minha calcinha dependurada no...

 *   *   *

Este conto integra a coletânea O escritor como
personagem
, idealizada e coordenada pelo
jornalista Euler Belém e pelo escritor Ademir
Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores
de Goiás, e foi publicado em 18 de outubro
de 2021 no
JornalOpção, de Goiânia.

Luiz de Aquino

quarta-feira, setembro 15, 2021

Aves das termas

 



Aves das termas



Palmas bailantes ao vento, 

palmas de buritis, frutos 

envernizados. Escamas lustrosas, 

convidativas ao toque. 


Buriti


 Entremeado, corre o riacho manso 

de água límpida, a dessedentar o solo e 

desenhar arabescos 

em terras úmidas de boa cultura.


 

Anta


Veredas nos vergéis do cerrado, caminhos 

de emas, antas e veados, palco de sonoros 

pássaros de penas várias, como 

as manchas vivas de paletas aquareladas.


Veados


 

Juriti, sabiá e pomba-rola, 

inhambus-xintã e chororó, bem-te-vi e socó, 

joão-de-barro e sanhaço; canarinho-da-terra... 

Feito uma orquestra de fartos ensaios. 


Serra de Caldas

 

Aves a povoar o alvorecer na serra, aquela 

Serra de Caldas, berços das termas 

das longínquas paragens ermas dos gentios 

a fugir em desvios do invasor entrante. 

 

Fogo-apagou


O vento agita palmas; como coqueiros 

a aplaudir os cantos das aves. Hora de o sol 

se pôr a Oeste, além do platô elevado; triste, 

uma rola diz adeus... fogo-pagô... fogo-pagô! 

 


Luiz de Aquino,
poeta

domingo, agosto 08, 2021

Pelo Dia dos Pais

 

Pelo Dia dos Pais



Léo, Élia Maria, eu, Lucas e Fernando (Dia dos Pais, 2019)

 

Gosto de datas comemorativas – comemorar é lembrar juntos. Gosto de Natal, de Ano-Novo, Dia das Mães, Dia dos Pais, feriados e aniversários. Algumas pessoas dizem-se avessas às datas, entendem que são artimanhas do comércio para faturar mais. E daí?

Daí que é legítimo, sim, comemorarmos as datas, sejam quais forem. Presentear é questão de escolha, ninguém é obrigado a isso. Quanto a ser pressão comercial, também não questiono porque, ao contrário dos negativistas do gênero, eu gosto de comércio, de propaganda, de promoções et cetera – alguém poderá dizer-me o que seria da vida sem o comércio? Só sei que as famílias se regozijam nas datas festivas e junto a elas vêm os cardápios especiais para tais ocasiões, algumas marcadas pela tradição generalizada, outras pelos gostos familiares.

Assim, temos as datas da coletividade, como o Natal e o Ano-Novo, bem como as datas cívicas. Existem as que se resumem aos casais, como o Dia dos Namorados e os aniversários de namoro, de noivado e de casamento (esta, com alcance aos filhos e netos). Mas temos também as que se voltam para a família, como o Dia das Mães e o Dia dos Pais.

Considero sempre que o Dia das Mães é “o dia dela”, porque não se lhe alcançamos jamais! A mãe reina sobre a família, soberana e única, e no segundo domingo de Maio fechamo-nos todos em torno da mãe e, conforme o caso, da matriarca, quando os filhos casados vêm com seus cônjuges e temos como que uma festa cigana! Mas o Dia dos Pais é o dia de toda a família, porque é por demais comum o fato de as mães se duplicarem ante o vazio de alguns pais (ausentes de presença ou por omissão).

Todos nós, penso eu, tem histórias de mães que realizam seu papel natural, intuitivo e sacro de bem-criar, com carinhos e atenção, com assistência e repreensão – cada coisa a seu tempo e intensidade -, mas a ausência do pai, por razões de morte ou separação, exige mais dessas mulheres. Muitas eu vi, de muitas eu sei, do redobrado empenho e também redobrado sacrifício para a plena cobertura das carências dos filhos. E ainda piores são os casos em que o pai atua em silêncio e omissão.

E assim, minhas saudações, no Dia dos Pais, vão um pouco além: acho de bom tom cumprimentar os pais, sim, mas sem me esquecer das mães; e por um dever de referência e estímulo, saúdo também cada filho: ao fazê-lo, recordo o Mandamento que nos obriga a atitudes dignas: Honrar Pai e Mãe.

 


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Luiz de Aquino