Versos e vida
Certa vez, famoso
político local convidou a Goiânia a fina-flor (?) de seu partido e, numa
festança badalada nos salões do mais festejado hotel da cidade, lançou um
livro, sob tema político, engalando as ações de seu partido e banalizando os
adversários e as ideias que não se alinhavam nas propostas (eles dizem
“programa”) da sua agremiação.
Em dado momento –
e sequer considerando um grande número de escritores, especialmente poetas, na
plateia – dirigiu-se ao “elenco” (políticos e economistas inventaram até um
verbo, elencar, para significar “fazer lista de qualquer coisa”) dos “cartolas”
dos votos e das vis promessas, como que os consultando:
– Digam-me os
senhores, será que eu faço algo de importante, mas algo realmente muito
importante, ou estou aqui repetindo o que fazem os escritores e os poetas,
apenas lançando um livrinho comum?
Bom, é claro que
eu estava lá. Sentava-me entre dois poetas que gostavam de receber os
perdigotos dos políticos, desde que, com o “spray” da baba, conseguissem alguma
verbinha (insignificante para os políticos, mas expressivas para os baba-ovos,
como salários elevados em troca de pouco trabalho e viagens por alhures, sem
que sua economia doméstica ficasse combalida).
Recentemente,
presenciei um profissional coleguinha (jornalista, para quem não me conhece)
entrevistando um figurão em voga – inevitavelmente, um político desses que, nos
últimos dias, vemos “elencado” entre os oportunistas sem escrúpulos que assoreiam
os gabinetes e comprometem os filões das medidas que solucionariam os problemas
sociais e permitiriam melhor qualidade de vida para a ignara massa votante.
Incrível!
Lembrei-me de Chico Anísio, num tempo em que ele fazia comentários aos
domingos, no Fantástico. O governo resolveu sobretaxar os produtos considerados
supérfluos e Chico, na sabedoria que fez dele o mais notável dos nossos
humoristas, deixou bem claro que os cosméticos, as bebidas “de espírito”
(uísque, pinga, cerveja e congêneres) não eram supérfluos para as famílias dos
trabalhadores que viviam da produção agrícola que subsidiava a indústria, nem
para as dos empregados nos transportes, nem para os comerciantes etc. – e teceu
outros exemplos assemelhados.
Volto à entrevista
com o “notável” escroque que já está entre os alvos da Operação Lava Jato
(devia ser Lava-a-Jato, uai!). Em dado momento, o entrevistado chegou a
qualificar como sem utilidades coisas como a preocupação com a Educação e,
ainda mais, com as coisas da Cultura.
Parei para pensar
e analisar, e não consegui evitar a analogia com o nosso deputado-escritor que
receava “repetir os escritores” porque fizeram um livro que poderia ser
“desimportante” como os livros que nós, poetas e ficcionistas, fazemos “à mão
cheia”.
Ora, ora... Já
produzi mais de vinte livros “inúteis”, já estimulei dezenas de novos
escritores, já promovi incontáveis poetas e amo por demais gastar meu tempo
curtindo e aplaudindo os coleguinhas músicos – instrumentistas, cantores,
compositores, arranjadores – em suas ações.
Ou seja, eu sou um
produtor de inutilidades e aplaudo, com força de músculos e alegrias de
coração, as inutilidades em cores e formas, sejam em telas ou esculturas,
aprecio sentir qualidades em textos de teatro e cinema, de novelas e xous –
essas inutilidades que fazem de nós seres diferentes dos irmãos ditos
irracionais, mas também filhos do Pai Criador.
Tenho respeito por
alguns políticos, sim! Há trigo nesse joio... Mas antes e sobretudo, são coisas
“inúteis” que fazem de nós, produtores e fazedores de arte, diferentes deles –
esses políticos tão úteis e, agora, enquadrados entre os que, no tempo certo,
verão o sol nascer xadrez.
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Luiz de
Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.




