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domingo, julho 29, 2018

O tempora! O mores!


Em tempo de valores morais



Conversava com o escritor Edival Lourenço sobre coisas deste quotidiano – isso que entendemos ser o nosso tempo. Mas, claro, uma vida já vivida não se faz, nos conturbados anos desencadeados pela Revolução Industrial, de um só tempo. Nós, que nascemos nos anos 40 e 50 do século passado, sabemos bem das incríveis transformações da nossa curta existência terrena.

Fomos criados (ou seja, o tempo da nossa infância) sob a batuta de indiscutíveis e fortes valores morais. Coisas como lealdade, respeito, confiança e compromisso eram quase que sólidas, palpáveis – e tinham peso! Tínhamos sonhos de realizações materiais, porém as de cunho axiológico eram-nos mais importantes.

Num tempo mais adiante, fizemo-nos jovens. Não crescemos mais, os pelos no rosto exigiam um cuidado diário para “preservar a boa aparência” e cuidávamos de ter roupas adequadas para o trabalho e para o lazer – cada coisa a seu momento. Cuidávamos também das palavras a usar – afinal, temos um riquíssimo vocabulário à disposição e saber usá-lo fazia (naquele tempo) de cada qual um tipo bem definido.

Éramos cheios de ideais. A origem humilde no campo ou nas pequeninas cidades fazia de nós-moços pessoas crentes naquilo que nossos chefes ou patrões nos diziam. Edival e eu fomos bancários – e éramos convictos de que trabalhávamos em favor da sociedade, iludidos na cantilena doutrinária dos manuais e da “cultura” de nossas empresas.

Ao nos despedirmos do emprego, uns 30 anos após a alegria do primeiro dia, já sabíamos que não era bem assim. A experiência nos demonstrou que servíamos para explorar a sociedade que pensávamos beneficiar.

Sim, somos do tempo em que era dever da criança e do jovem, quando estudantes, respeitar os professores. Não se tratava de uma postura de vã disciplina, mas de procederes que deviam se multiplicar em sociedade pelo restante da vida. Aos pais e avós pedíamos bênçãos – e aos tios também. Aos vizinhos, oferecíamos bons-dias e sorrisos amigos, aos amigos oferecíamos fraternidade.

Contudo, as sementes do mal já existiam, é claro! Só não sabíamos que se multiplicariam de modo tão rápido e insidioso. Os tempos de agora abrigam pessoas da nossa mesma “safra”, mulheres e homens de muitas vivências e, acredito com segurança, formados na mesma doutrina que concebemos. Mas os sóis que raiaram para nós, nestas décadas de grandes transformações parecem diferentes. Ou não teríamos notícias tão decepcionantes nos noticiários de todos os dias, com trapalhadas e mazelas muito bem tramadas na calada da noite ou entre as paredes sólidas (e nem sempre mudas e surdas) dos gabinetes.

A conversa com o confrade Edival deixou-me pensativo: a nação brasileira espera, com ansiedade e confiança, atos de nobreza dos gabinetes do Judiciário, na antítese dos atos escandalosos que advêm dos palácios do Executivo e do Legislativo. Mas a cada novo habeas-corpus a fé nas togas cai alguns pontos.

A confiança se torna menor ante as “tratativas” dos três poderes, em Goiás, na arquitetura de mais um penduricalho judiciário, esse que presenteia os magistrados goianos com licença-prêmio – prêmio estranho para uma classe que já desfruta de dois meses de férias e oportunos recessos, sem considerar os salários nababescos e outros arranjos (como o tal auxílio-moradia, o auxílio-livros e a bolsa de estudos dos filhos).

Quando ainda esperávamos respostas a esse pacto harmonioso, a tevê e as rádios, secundadas pelos jornais e revistas, contam-nos da sanha despudorada, inescrupulosa, do tal Doutor Bumbum, que cobra cerca de 20 mil reais para aplicar silicone nas bundinhas magras de vaidosas insatisfeitas.

Tentei não comentar esses casos. Vivi a vida driblando dificuldades, superei problemas de várias naturezas e algumas vezes perdi o equilíbrio. Pensei que virava as páginas desses fatos e atos, imaginei que para cada mau médico dispomos de centenas de bons doutores. Mas... E a cúpula do Judiciário? Ficou claro, nas matérias jornalísticas, que a proposta fora aprovada, lá entre eles, por unanimidade. Contudo, para ser viabilizada, há que se tornar lei – e vamos ver se a Assembleia Legislativa será unânime. A sabedoria popular afirma que os deputados aprovarão, sim, por maioria.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Mundos Paralelos







Memórias de dois mundos


(Texto de apresentação para o livro
Mundos Paralelos
que saiu do prelo na últim
quinta-feira, 19/07/18, pela Kelps Editora).



Sei de mim, ou por mim, como a vida nos é servida em ciclos, em fases que atravessamos em seu próprio tempo. Minha infância foi povoada de feitos mil, aliás, os feitos possíveis numa minúscula cidade do interior de Goiás. Minhas lembranças remontam ao final da década de 1940, a época em que me tornei estudante para ser alfabetizado no colo da professora. E nunca me esqueci de muitos fatos – mas as contações orais de histórias nas noites, na rabeira dos borralhos, esses saraus marcam fortemente minha memória.

Vem de longe o meu gosto pela leitura e pelas canções. Esses gostares, aliados aos saraus a que me referi, são as bases do homem maduro que me tornei e acredito mesmo que posso ser, num futuro mediano, um velho contador de causos. Sim, um velho (daqui a alguns anos), porque contador de causos já o sou e isso se arrasta por um bom tempo.


Pois foi esta minha faceta que me prendeu a uma das histórias contadas, nas páginas das mídias sociais da Internet, por Bete França Jufer. Ela narra com candidez e ternura histórias de suas lembranças, coisas de uma jovem capital bucólica, uma Goiânia que, no decurso de sua infância e adolescência, marcava pouco mais de 20 anos desde a escolha do sítio onde se concretizou.

Bete França, feito moça, casou-se com Hanz e se tornou cidadã suíça. Gerou três filhos e, já iniciada no requintado ciclo do avonato, associou predicados ao aprendizado em casa e na escola, os bons exemplos dos pais professores, a experiência de mãe e mestra em terra nova-pátria para desaguar toda essa afluência num novo ofício – o da escrita em narrativas adoráveis!

Costumo dizer que só se é bom cronista quem tem a competência de “temperar” a narrativa com pitadas de poesia. E poesia, no caso, não se resume à forma, mas sim à essência do texto. Poesia, num conceito melhor elaborado, é a alma das artes – e dos feitos humanos. Bete Jufer é escritora de bom fôlego e refinado talento – isso o leitor descobrirá em pouco, mal inicie a leitura deste Mundos Paralelos. Ela sabe bem dar ao texto de suas narrativas os toques suaves da essência, como o alecrim nos assados ou o ponto ideal das ervas finas no bom molho.

As lembranças da vida nos anos de 50 e 60 (essas referências, em todo o livro, remontam, obviamente, ao século passado) unem-se às vivências e observações da autora ao ambiente de sua vida nos últimos 30 e poucos anos – as montanhas e bosques da Suíça, inevitavelmente pontilhados de gente: um povo de muitas marcas admiráveis por sua história, sua cultura variada e bela, seus costumes saudavelmente amadurecidos e que hão de nos servir de exemplos.

Estes aspectos, que me encantaram, hão de agradar também os leitores – entre os quais, eu sei, estarão amigos de infância e de juventude da autora, bem como os familiares... Enfim, os goianienses, nativos ou adventícios, que viveram a nossa cidade daqueles tempos de Cine Goiânia, Jóquei Clube, Rua 8, Ateneu e Liceu, Campinas e Setor Oeste, Instituto França e IEG... Ora, um emaranhado de locais e fatos que constituem a nossa saudade.

Da saudade, aprendi ainda moço, devemos extrair o que é bom – o que dói, há de permanecer nos umbrais dos arquivos a serem esquecidos.

Orgulha-me ter sido dos primeiros entre os privilegiados, isto é, os que puderam conhecer antecipadamente estas narrativas de Bete França Jufer. Obrigado, Bete! Você é bem-vinda a este mundo de escribas sonhadores, de saudosistas conscientes – e felizes!


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Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

domingo, julho 01, 2018

Questão de valores







Meu tio e o relógio 



Corria o ano da graça de mil novecentos e sessenta e não-me-lembro. Amigos leitores, esse introito aí foi feito para provocar o Ranulfo Borges, ele que me qualificou de saudosista, no melhor estilo do meu amigo José Mendonça Teles, hábil nas crônicas sobre a Campininha das Flores, que de cidade aceitou tornar-se o primeiro bairro de Goiânia; e eu exercitei a saudade ao recordar o Rio de eu-menino, antes do Estado da Guanabara, da fusão e do tráfico.

Mas era mil novecentos e sessenta e tantos e – lá vai mais saudade, Ranulfo! – e era Caldas Novas. 

Gente! Caldas Novas era muito mais bonitinha com as ruas de cascalho e as casas com fachadas personalizadas. Eu juro que era! Hoje, cada jardim virou um conjunto de três ou cinco lojinhas. A vida acontecia: os namoros, os fuxicos, os... Claro: acontecia o que a gente via e o que a gente sabia. Os fatos se davam na calada da noite. E a noite, então, era muito mais calada: os namorados não se beijavam diante dos outros e os moços não contavam ter beijado as namoradas; pais, mães, tios e avós vigiavam-nos todo o tempo e a falta de vigilância resultava, sempre, em desvirginamento precoce, o que só se sabia na hipótese de uma gravidez indisfarçável ou diante de um inefável flagrante.

Mesmo naquela época, o sexo proibido não era exclusividade dos moços e solteiros, não. O sexo doméstico – ou familiar – era tido como monótono, daí o nome “papai-mamãe”, que dispensa explicações. Havia os homens sem-vergonha, os que cometiam seus pecados com... com... Com moças pudicas ou recatadas senhoras da mais fina sociedade. Sim, que ninguém é besta de titular uma aparente donzela de galinha, ou uma mãe de família de vagabunda. Então, esses homens ímprobos, esses maridos infiéis, cometiam seus desatinos, dando vazão aos seus “instintos bestiais” com respeitáveis donzelas ou mães de família cujos maridos e filhos, obviamente, estavam na lida, na fazenda.

Um desses desavergonhados era meu tio. E, exercendo sem o saber o pecaminoso tráfico de influência, invadia o quintal da delegacia de polícia para saltar o muro e amancebar-se, furtivamente, às primeiras horas da noite, com uma senhora impecável e piedosa. 

Um dia, muito afoito (era a chegada), deixou cair o relógio de pulso e não notou. Mas gostava do relógio; tanto que pregou em sua loja um cartaz: “Perdi um relógio Mido, de pulso. Gratifico com mil cruzeiros” etc. Pouco depois, chega ao comércio do titio ninguém menos que Romano Crisóstomo, o delegado. Em silêncio, pôs o relógio sobre o balcão; olhava os olhos do meu tio e o cartaz na parede. Alguns dos presentes, mais amigos que fregueses, assistiam e teciam breves comentários. 

Era conhecida também como "abobrinha"...

O tio foi à gaveta, pegou uma nota com a cara de Cabral e indagou:

– Onde estava o relógio?

E Romano:

– Junto ao muro da casa da Dona...

Nem concluiu a frase! Meu tio devolveu-lhe o objeto e pronunciou, solenemente:

Não é o meu! – E guardou os mil cruzeiros. 

Preferiu perder o que lhe era um mimo para não expor a amada clandestina.

 (Fotos colhidas na Internet)


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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras

domingo, junho 24, 2018

Bancário há meio século

José Maria, o Kapitão: bancário há meio século!



José Maria Santos Leal:
50 anos de vida bancária

Eu presenciei seus primeiros passos no ofício!

Naqueles anos finais da década de 1960, no Banco do Estado de Goiás, eram “velhos” os colegas acima de 30 anos, muitos deles já com inacreditáveis dez anos de casa. Na média, erámos perto de 30 bancários na Agência Praça Cívica. E éramos felizes – e sabíamos – por nossa juventude, nossos sonhos de futuro e um estranho e oportuno espírito de equipe que nos marcava como o melhor grupo jamais montado no BEG até então. E essa tônica era contagiante: todos os que ali chegavam eram acolhidos com alegria e companheirismo, o que resultava em fortalecimento da equipe e na formação de novos bons bancários.

Era 1968 ou 69 quando o José Maria Santos Leal – um garotão de 18 anos – chegou para incorporar-se ao time. Como era de praxe, o adventício logo, logo identificou-se como “um de nós” e cuidou, como todos, de bem assimilar o trabalho, aprendendo o passo-a-passo e o rigor das conferências e procedimentos, defendendo com galhardia nosso posto de “os melhores do BEG”.

Demorou-se pouco conosco. Em poucos anos, mostrou-se um profissional bem preparado e competente. Carregado de uma brancura justificada pelas invasões francesas lá por seus rincões maranhenses, fazia ecoar aquele sotaque típico, compartilhado com o também maranhense José Raimundo – este “goianizado” há mais tempo, pois já estava em Goiânia desde o final dos anos 1950. Logo, logo o Zémaria – só o chamávamos assim, abreviando o José e incorporando “Maria” numa só palavra – prestaria concurso para a Caixa Econômica Federal.

No nosso penúltimo encontro, numa agência da CEF na Rua 7 (Centro de Goiânia), ele me contou que já beirava os 40 anos de vida bancária e não pensava em aposentar-se. Há poucos dias, Zémaria me telefonou para contar como quem cobra: “Luiz de Aquino, está quase pronto o meu livro e você tem que escrever também, meu amigo! Você é testemunha da minha passagem pelo BEG da Praça Cívica”.

Pus os olhos p’ra dentro do crânio e fucei os arquivos da memória. Sorri prazeroso ao recordar coisas do Zémaria – o Kapitão da CEF – e achei mesmo muito dele essa teimosia de permanecer bancário por quase 50 anos! Certamente, só se aposentará quando a empresa o expulsar, por força de Lei. Mas, sem dúvida, terá vivido feliz, tal como o conhecemos nos ambientes do nosso trabalho bancário.

A importância da leitura


Sobre o ler e o escrever


Esta semana – terça-feira, dia 12 – estive no Colégio Vicare, em Hidrolândia (a minha cidade atual) para um bate-papo com professores, pais de alunos e estudantes, a convite dos dirigentes Sirlene Xavier e Luiz Fernando Martins. Ser apresentado à plateia, formada por vários amigos, tive de Luiz Fernando a graça de uma lição rica e feliz: a leitura (sintetizando) é a atividade que ativa todo o cérebro, desde a ação motora até a criatividade, com todas as etapas de tal caminho – se assim posso dizer.

Falei-lhes da minha própria experiência: os primeiros anos de vida, sendo acalantado pela voz da mãe que nos lia Histórias da Carochinha e os acordes do pai, ao violão ou ao bandolim, ao realizar saraus com os companheiros, ocasião em que eu aprendia a cantar canções maviosas – para usar uma expressão que poucos conhecem hoje.

O Vicare é um colégio dotado das mais modernas técnicas educacionais e equipado com tecnologia de ponta, sob o exemplo de instituições internacionais. Com as práticas de Meditação (publiquei matéria sob o título “Colégio adota meditação escolar”, em março de 2017).

É sempre muito bom, é salutar conversar com pais de crianças e adolescentes, e muito importante renovar com os professores esse tema, indispensável no processo de aprendizagem e, sem exagero, de melhorias nas práticas profissionais de quaisquer dos ramos das atividades humanas. Pessoas que leem relacionam-se melhor, compreendem melhor o próximo e, como resultado final, vivem melhor.

Ainda que, entre os menos esclarecidos, a palavra museu exerça certo mal-estar, insisto em contar que não há visita melhor a se fazer do que a esses verdadeiros templos que, ao pé da letra, significam “casa de musas” – e musas, qualquer néscio sabe bem, são as deusas que inspiram poetas e outros artistas. As bibliotecas são, ao seu modo, uma espécie de museu: museu dos livros e, naturalmente, museu das letras e das línguas faladas e escritas pelo mundo afora.

Mostrei aos ouvintes fotografias de duas grandes bibliotecas instaladas no Rio de Janeiro – o Real Gabinete Português de Leitura e a Biblioteca Nacional. E vali-me de estar em Hidrolândia, berço de José Mendonça Teles, recentemente falecido, e de Marieta Teles Machado, que se foi em 1987, precocemente. Ela foi a pioneira da biblioteconomia em Goiás, deixou-nos um legado de livros de excelentes histórias e a lembrança de um tempo feliz, enriquecido pelo sorriso sempre presente num rosto amigo e muito amado. Infelizmente, o atual prefeito hidrolandense mandou encaixotar os livros da Biblioteca Marieta Teles Machado, prejudicando a saúde intelectual da cidade e a boa formação das crianças locais. Em compensação, em Goiânia ela é uma escola estadual, a biblioteca municipal da Praça Universitária e um Centro Cultural na Praça Cívica – uma das primeiras três arquiteturas goianienses, ao lado do Palácio das Esmeraldas.

Enfatizei, para professores e pais, bem como para os alunos ali presentes, a importância do exemplo a se dar. Pais que leem estimular, por seus atos, os filhos no bom caminho. Professores que usam livros para ilustrar suas aulas e mostrar aos pequenos como se pesquisa, estes se tornam os mestres inesquecíveis, e um aluno que assim se desenvolva será, no futuro, um bom exemplo para filhos, discípulos e “tutelados”.

Destaquei algumas frases: “Uma casa sem livros é um corpo sem alma” (Cícero, orador e senador romano); “Um país se faz de homens e livros” (Monteiro Lobado, escritor paulista); “Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e faz o povo pensar; o livro caindo n’alma é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar” (Castro Alves, poeta baiano); e, ainda, “Ler é mais importante que estudar” (Ziraldo, escritor e humorista mineiro).

Despedi-me a contragosto, pois o tempo era, naturalmente limitado e eu diria mais, muito mais, por tudo o que gosto de contar e pela alegria de estar novamente entre professores amigos e alguns alunos remanescentes dos poucos dias em que atuei ali, no Colégio Vicare. Contudo, a vida se repete sempre, ainda que em novas cores, ambientes e sentimentos – e hei, sim, de renovar bons sentimentos sempre, se cercado de pais, mestres e estudantes.

Obrigado, Sirlene e Luiz! Até já, professores queridos!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 10, 2018

Notas inusitadas






Notas inusitadas



A primeira veio de longe e já chegou traduzida: Funcionária de um lar de idosos, ninfomaníaca, é acusada de abusar sexualmente de moradores de ambos os sexos. A mulher é Giselle Horney, de 49 anos. A história se passa em Oklahoma, na América (Estados Unidos). Consta que ela abusou de homens e mulheres com idade entre 72 e 103 anos. Parkview Nursing Center

A acusação detalha que ela dava Viagra a muitos idosos que lá viviam e os forçava a fazerem sexo com ela. Elise Wood, gerente do lar, conta que começou a desconfiar quando os funcionários narravam que muitos dos velhinhos mostravam-se em “estado perpétuo de ereção”. As câmaras de vigilância confirmaram as suspeitas.

Segundo os funcionários, Giselle Horney não só dava Viagra aos internos, como fazia sexo com mais de 24 homens por dia. Alguns dos “abusados” declararam-se satisfeitos com a prática, pois houve um acordo consensual, mas outros reclamaram não ter gostado dos “brinquedos sexuais” e das “brincadeiras anais”. Um desses homens abusados por Giselle contou:“Ela foi a melhor coisa que me aconteceu desde a morte de minha mulher, há 35 anos, mas admito que ficar 16 horas por dia com uma ereção era um pouco aborrecido”.

Giselle Horney está detida e pode ser condenada a até 10 anos de prisão.

O amigo que me enviou essa notícia forneceu o site: http://tafeio.com.pt/funcionaria-um-lar-ninfomaniaca-acusada-dar-viagra-aos-idosos-os-forcar-sexo/ . E manifestou-se: “Descobri onde quero passar a velhice”.

A outra novidade partiu de um amigo meu, quarentão e solteiro, ou seja, um sujeito invejado por muitos dos de sua idade que, há anos, optaram por viver a vida a dois e multiplicar-se. Sem exageros, meu amigo é um homem feliz, mas, como é natural no ser humano, a felicidade pode doer. Então, ele se inquieta, em alguns momentos, pergunta-se se é essa uma boa escolha.

Os mais próximos são seus interlocutores quase confidentes. Ele diz que “é hora de encontrar uma companheira com quem compartilhar a vida”. Um dos amigos decidiu apresentar-lhe uma jovem culta e bela, moradora em plagas distantes (não vou mudar a palavra, não... quem não souber que procure no Aurélio – “plaga”. E, cuidado, não é “praga”). A tecnologia ajudou – Facebook, Instagram, WhatsApp etc. – e logo, logo os dois “trocavam figurinhas” na esteira da contemporaneidade das correspondências instantâneas.

Por razão que desconheço, algo impediu a vinda da moça a Goiânia para o esperado – e muito divulgado – encontro inicial. E o meu amigo, proseando com uma das amigas mais próximas, em tom de muita sobriedade, definiu o impasse:
– Não deu, ela não pôde vir e a coisa esfriou. E você deve saber, as pessoas são como os cachorros: para saber se se gostam, têm que cheirar o fiofó. 

(Claro... a amiga explodiu numa gargalhada, surpreendida com tal conceito, emitido em tom de grave circunstância).


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, junho 03, 2018

Imprensa torcendo fatos

A mídia a serviço do mal


Só elogia uma ditadura quem dela se valeu, quem dela teve permissão para se locupletar – como, inclusive, alguns peemedebistas que, em público, esbravejavam contra o regime, mas na calada das noites e dos gabinetes recebiam ordens para votar assim ou assado, conforme o interesse do regime. Entendo o capitalismo e a democracia como escolhas menos ruins, já que tudo o que a humanidade experimentou traz imperfeições (algumas cruéis), e ainda não temos nada melhor.

Ditaduras são cruéis e burras. Cruéis pelo mal que causam à maioria das nações sob seu jugo, favorecendo um nicho de pessoas e grupos, como as empreiteiras que hoje estão investigadas rigorosamente pela operação Lava-Jato. Muitos não sabem que sua hegemonia empresarial e financeira vem dos anos de chumbo.

Todos os regimes precisam dos meios de comunicação. As ditaduras também. Os governos de canalhas, também. A recente paralisação dos caminhoneiros foi transformada, a partir de – dizem – uma ordem do Palácio do Planalto, em ação demoníaca nas pautas das emissoras de rádio e tevê. As redes Record e Globo esmeraram-se no esforço de atribuir a eles, os manifestantes, até mesmo a eterna falta de insumos e medicamentos nos postos de saúde e hospitais (públicos). Num passe de mágica, tudo o que elas, as emissoras, noticiam todos os dias, em especial no campo da saúde pública, passou a ser culpa dos caminhoneiros, como se fossem personagens de uma ficção científica: sua ação de dez dias neste maio de 2018 foi responsabilizada pelo descaso dos governos nos últimos vinte anos.

E o desabastecimento nos supermercados e postos de combustíveis, além dos pontos de distribuição de gás de cozinha? Estranhamente, os grandes supermercados de Goiânia não registraram a crise de modo tão áspero como definiam os repórteres e âncoras das emissoras locais.

O jornalista e escritor Iuri Godinho observou, num paralelo, que nenhum de nós fica sem comida e suprimentos em casa por conta de dois dias de paralisação de caminhoneiros ou de supermercados fechados. As unidades de saúde sabem muito bem o que estocar e as casas comerciais administram bem suas reservas, mas as tevês e rádios, seguindo a ordem do governo federal, elaboraram pautas para difamar os manifestantes. Quando tudo parecia dar certo, registrou-se a infiltração criminosa para tumultuar, promover agressões e estabelecer o conflito.

Há uns 40 anos, Benevides de Almeida me recorda (éramos repórteres em pleno regime do arbítrio militar), achávamos meios de divulgar e analisar fatos. Várias vezes presenciamos policiais à paisana infiltrando-se nas passeatas e comícios estudantis; seu propósito era provocar baderna e, assim, justificar a ação dos fardados com seus escudos, cassetetes e bombas de gás de efeito moral. Desde 2013 surgiram os black bloks, os mascarados que chegam para tumultuar, agredir, incendiar, quebrar e, assim, facilitar a intervenção policial. Nenhum deles foi apreendido, preso, identificado pelas forças policiais estaduais e federais. Parece que são mais poderosos que o conjunto de forças da repressão, não fossem eles parte delas. Na minha opinião, são elementos das P2, a “inteligência” das polícias militares.

As forças de repressão sabem o que fazem e conhecem muito mais do que nos parece. A Polícia só não finaliza o que a política não deixa. Se dependesse da Polícia, o tráfico sequer teria se tornado a superempresa que entendemos como Crime Organizado – ligado por fortes correntes a várias outras atividades, como contrabando de armas, máfia dos combustíveis, roubo de cargas etc. e tal.

O que a Globo e a Record – bem mais que a Band – vêm noticiando é uma farsa que envergonha o jornalismo brasileiro.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.