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segunda-feira, dezembro 14, 2020

Beijo


 

Beijo

 

Tocar de lábios, roçar de línguas mornas:
soma de salivas doces, acender de hormônios,

ápice de êxtases.

Tatear de peles eriçadas: sonhar o sonho
de meses e luas cheias, a esperança do encanto,

o tremor no encontro.

Algo se move em nós:
sentimos arder no peito

a chama indescritível.

No ventre, em baixo, arde feito calda
alguma coisa boa.

E nos damos de nós por inteiro.


*&*

Poeta Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

domingo, dezembro 13, 2020

Rios

 

Rios

 

Os rios são grandes,
visuais, palpáveis.
Alimentam, dão e permitem
a vida
e correm morosos
às vezes,
às vezes céleres
e só têm um destino.

Rios são valsas Danúbio,
poemas Tâmisa e Sena
e Reno e Pó,
são lendas Amazonas
e esperanças São Francisco,
Araguaia e Xingu.
E ainda certezas Grande,
Paraná, Tocantins.

 

Rio língua e carícia
Tejo sêmen de história Brasil.

Mas há um rio no fundo 
dos olhos 
e à tona de todas as lembranças.

 

Rio de imagens e gente feliz, 
Rio samba, futebol e cachaça, 
Rio trabalho, escolas, ternuras 
e lembranças as mais doces 
dos anos adolescentes.

 

            Conhece o Rio de Janeiro?


* & *


Luiz de Aquino, poeta, da Academia 
Goiana de Letras.

sábado, dezembro 12, 2020

Mars, martis

Mars, martis


Eu beijo o amanhecer:
além do esquadro de vidro e ferro
vem-me a luz que é nova e dia.

 

A luz acorda-me
como o estrondo de canhões e assusto-me
ao tiquetaquear de um relógio frio.

 

Não sei por que me levanto assim
se não tenho compromissos de ponto
nem alguém à minha espera.

 

Ergo o corpo, espreguiço músculos e forço
a retina à aceitação do dia.
Ando à toa.

 

Autômato, vou à máquina; ligo-a em dois botões
e espero a tela alumiar-se de cor
e leio correios quentes, rápidos.

 

Um nome vindo de Marte
indica-me aurora e rotina.
Alegro-me: serei feliz sob o sol.


* * * 

Luiz de Aquino, poeta. Da Academia Goiana de Letras.



sexta-feira, dezembro 11, 2020

Cores do lago

 




Cores do lago

 

Cor do dia e da estrada. Mata castanha, seca
e cerrado; cor do céu feito olhos, cor do fogo
feito lábios, cor da pele feito noite e lua prata.

 

Sol e céu e calor do dia,
vento incolor esfria a tarde
e morre a tarde.

 

Azul de caribe na água do lago.
Corumbá é rio forte; Paranaíba
de graça e grandeza, rompe terras, une povos:

 

moça branca céu nos olhos,
tez morena jatobá, olhos turvos
miscigena, miss ingênua, pés no barro ocre barranca,

 

Afro Índio Gália Espanha
Tejo Itália Trás-os-Montes:
Brasil.

 

Lago azul de Paranaíba
Minas Goiás Corumbá
das Velhas Cumari Catalão

 

Araguari São Simão Rio Quente
Tupã Tupaciguara Centralina
Itumbiara

 

Paraná rio abaixo
Grande e Prata Meia-Ponte:
Pantanal.

 

E de azul se faz o campo no pendão
canário e verde, alvas luzes
de estelares constelações.

 

Brasil Planalto Central peixe
usina luz e força beijos molhados
caudais aliança "de belo" Paraguai

 

(lembranças tristes de guerra,
sangue turvando azul.
Memória pra se esquecer).

 

*&*

Poeta Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, dezembro 10, 2020

Úberes e nádegas

Úberes e nádegas

 

Que nome hei de dar à saudade, Anamélia?
O teu, talvez, sempre lembrado por tudo o
                                                                     [que me falta
e é querido, por tudo o que sonhado não se
                                                                               [fez real.
O que fazer da saudade, Anamélia?,
senão deixar que me torture mais e sempre,
como uma pedra no sapato
ou esta dor sempre presente,
lenta e persistente, a habitar
indiscreta
um cantinho estimado em meu ventrículo 
                                                                          [esquerdo.



No íntimo e na morada
do mais puro sentir, o aconchego
da imagem que seria nossa:
aberçada em meu peito
não eras mais que úberes e nádegas,

           
                    saliências indispensáveis
                    a acalentar meus sonhos
                    de sonhar contigo. 

*&*

Luiz de Aquino, poeta, da Academia Goiana de Letras.




De domingo

 

De domingo

 

É domingo, faço noite.
Quando é noite, colho orvalhos
(molham olhos, são silentes,
brilham quentes).



É noite, sou domingo.
Olho olhos, guardo marcas
de silêncio. Deixo claras minhas mãos,
aguardo as tuas.

 

Deixa ver esse teu riso:
sou inteiro a esperá-lo.

 


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Poeta Luiz de Aquino da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, dezembro 09, 2020

O Sol e eu e o sentido

O Sol e eu e o sentido

 

O Sol nasceu antes de mim,
mas era esperado. Eu também
era esperado
mas contava para muito pouca gente:
mãe, pai, vô, vó... Nem irmão esperava
por mim
porque era eu o primeiro.

 

O Sol nasceu mais cedo que eu
mas morreu noutras horas poucas
e prometeu nascer outra vez
dia seguinte e morrer também
dia seguinte
porque é do ofício do sol
fazer o dia
e sair para deixar chegar a noite
e voltar correndo depois
e renovar os dias
e permitir as noites.

 

Eu, não: tive de nascer e demorar
para crescer
e ver a noite sem direito de morrer
e acordar com o Sol renascente
e crescer depressa porque tinha de ser
assim
e assim por diante.

 

É que, dizem, eu cresci, eu mudei
e não morri todos os dias
porque não sou sol e o Sol
não cresce, não muda a fala,
não lhe crescem a barba e outros pelos 
incômodos.

 

Um dia, e este está mais perto
a cada dia
eu vou morrer de verdade.
Cresça ou não, vou morrer.


E o Sol vai nascer e morrer todos os dias
muitos anos além de mim e de minha morte
porque o Sol não precisa crescer:
basta-lhe existir.


Fotos: arquivo pessoal de L.deA.


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Poeta Luiz de Aquino, da Academia Goiana de Letras.