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segunda-feira, março 24, 2008

Disciplina, ritual e resultados


Disciplina, ritual e resultados


A palavra Liturgia era restrita a sociedades como igreja e maçonaria, até que José Sarney a trouxesse ao populacho, pelo canal inevitável da imprensa: “Liturgia do cargo” de presidente do Brasil, disse ele. E o fez com a mais disfarçada ironia, referindo-se a antecessores e alcançando também os pósteros.

Liturgia. Ritual. Cerimonial: coisas que implicam disciplina. E disciplina é indispensável. Onde houver duas pessoas, uma lidera ¾ isso já foi dito e é repetido à exaustão nos famigerados cursos de “chefia e liderança”. Mas a máxima é irrefutável. Dela se pode extrair muito aprendizado, sim.

Em novembro de 2007, a meu pedido, a Academia Goiana de Letras realizou sessão solene no Liceu de Goiânia, em homenagem aos 70 anos do colégio na nova capital, como filial do Liceu de Goiás (fundado em 1846, Por equívoco, no emblema consta 1847; que se corrija, em respeito à História). Ana Braga, educadora a vida inteira e ex-professora do Liceu, nomeada e recomendada por Pedro Ludovico, chamou a professora Márcia Rezende, ex-diretora e atual secretária do Colégio: “Para melhorar o ensino, cuide da disciplina”. E acrescentou, sem pausa: “Restabeleça o uniforme e a senhora vai ver que tudo melhora”.

Que sábio conselho, aquele!

A professora Márcia esclareceu: há uma ordem de cunho judicial no sentido de não se exigir uniformes na rede pública de Goiás; e que o aluno seja aceito na escola com qualquer roupa. Dizem que a intenção da Justiça é nobre, ou seja, não impor aos estudantes o sacrifício dos custos financeiros. Mas, parece, alguém se esqueceu de dizer ao juiz que um uniforme há de custar sempre mais barato que as roupas que os adolescentes escolhem. Calças de brim azul, que chamamos “jeans”, quando rasgadas, custam mais caro que a peça com aparência de nova, por exemplo.

O assunto foi matéria do telejornal “Bom dia, Brasil” da terça-feira, 18 de março, para vergonha de Goiás. Os garotos que “não podem gastar com uniformes” usam seus celulares caros para fotografar coxas e umbigos, passando pelo indefectível “cofrinho” (nome que se dá hoje à fenda entre as nádegas) que sobressaem das saias que não integram uniformes escolares. Os pais das meninas vão, agora, às escolas pedindo que os uniformes proporcionem o conforto que as micro-saias e “beibeluques” (blusas femininas sumárias, ocultam quase que só os mamilos) não permitem.

Pois é! O poder público obriga professores a se aposentarem aos 70 anos (Ana Braga vive a casa dos 80). Escolas particulares quase sempre exigem uniformes, mas muitas vezes permitem o desfile de moda entre seus clientes, quero dizer, alunos. Mas as particulares recusam professores com mais de 30 e poucos anos (professores maduros, só se forem donos, ou pais dos donos, dessas escolas). Com isso, esvai-se a disciplina, a ritualística, a liturgia da Educação. E experiência, para os jovens executivos e empreendedores, é página virada que, daqui a duas ou três décadas, será evocada por eles próprios, os que a rejeitam hoje.

Observo, nas ruas, jovens em ternos elegantes, bem cortados e riscados, com gravatas bem enlaçadas. Trabalham em empresas exigentes, certamente; ou são meninos empreendedores. E eu me pergunto: por que outros moços da mesma geração rejeitam a disciplina? Será que precisam ser pagos para isso? Respondo-me apenas com a certeza: a imposição do uniforme, com modelos e medidas, como se fazia antes, é, sim, um excelente reforço à tão sonhada volta da qualidade do ensino na rede pública.

4 comentários:

Madalena Barranco disse...

Olá querido Luiz, sua crônica me levou de volta aos bancos escolares... Onde o aluno tinha orgulho de usar uniforme! E você está certo: saía mais barato e havia um cuidado especial para não estragá-lo. Depois, aqui em SP, foi adotado o avental com o bolso da escola, o que foi uma ótima solução, porque eliminava o problema de usar roupas inadequadas a um ambiente de ensino, onde a disciplina equilibrada faz parte de uma boa educação. Eu gostei também de suas palavras a favor dos professores experientes, que merecem ser valorizados. Beijos.

Gisele disse...

Pois é, Luiz. Lá ia eu pra escola, antigo ginasial, impecavelmente vestida: camisa branca com escudo da escola bordado no bolso, saia pregueada (pelo menos quatro dedos acima do joelho), cinto de verniz vermelho, meia branca 3/4, sapato preto. Qualquer detalhe fora do lugar (mesmo uma meia um pouco mais curta) e simplesmente voltava-se pra casa. O que parecia um exagero era apenas um reflexo do que se pretendia numa escola: o respeito às regras, a noção de que ali eram todos iguais e, acima de tudo.. ESTUDANTES. O respeito aos professores era indiscutível. Hoje é comum lermos nos jornais casos de agressão a professores nas escolas públicas.. e.. quanto às particulares, os professores são vistos como empregados dos clientes, ops.. digo, estudantes...
beijos, parabens pelo texto.

Mara Narciso disse...

Há que se respeitar a ordem para que ela nos respeite. Pois que a liberdade total, antes tão desejada, mostrou-se desastrada em ensinar e colher bons frutos. Os filhos dos pais jovens na década de 1960/1970,foram em boa parte criados sem freio algum, e quando adultos fecharam o cerco sobre seus pais, reclamando a maneira como foram criados e criando seus filhos de modo oposto. Pensou-se que a falta de lei ajudasse, mas provou-se um grande equívoco. A produção está diretamente ligada à organização.

Agradável crônica, com ponto de vista delicada e engraçadamente defendido. O bom-humor usado mostra a facilidade de argumentar sendo severo sem ser carrancudo.
Mara Narciso

graca disse...

Achei maravilhosa a sua crônica.
O uniforme ensina ao aluno que há um tipo de roupa para cada ocasião.
Hoje vemos pessoas com trajes inadequados em casamentos,formaturas,igrejas,velórios etc
O pior Aquino é que o professor também não sabe que existe roupa certa para usar na sala de aula.
O que falta na nossa atual educação
é educação.
Parabéns pela sua crônica.
Um abraço,
Graça Tostes