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sexta-feira, maio 16, 2008

Cada macaco no seu galho

Professores e "ensinantes"


Programa Mais Você, da Ana Maria Braga... Bons temas, boas entrevistas com gente famosa em que, como quem não quer nada, a apresentadora mostra o lado “gente” dos notáveis. E a gente, que é gente comum, encanta-se de saber que os famosos têm as mesmas carências e necessidades, as mesmas preocupações que nos afligem.

Esses programas de tevê, mais que as matérias escritas em revistas e jornais, mostram-nos a realidade da diversificação social no país. Não falo dos estratos sociais, da pirâmide da renda nem das camadas de poder, mas dos tons culturais das regiões e sub-regiões do Brasil. E entre o fogão e as falas, temperos e cheiros, as palavras mandioca, macaxeira e aipim surgiram, nesta ordem, para contar a todo o Brasil do que se tratava.

Palavras, palavras, palavras... Vendo aquele movimento todo, avalio o país continental que é nosso berço e sua riqueza idiomática. Ah!, esta Língua Portuguesa do Brasil, um dos maiores vocabulários de todo o mundo... E ainda que não pareça necessário, estendemos alguns substantivos a funções assemelhadas. Como chamar de carteiro todo e qualquer funcionário dos Correios, tão simpática nos é a função. Ou chamar de professor a todo o que ensina algo. Médico... Não, este não. Médicos são só os que se formaram em medicina; nada de estender o título a dentistas, farmacêuticos e fisioterapeutas.

Pois é, taí: em se tratando de professor, o título virou apelido. Vamos ver: nas ruas, no comércio etc., é comum as pessoas mais simples, como camelôs, feirantes e vigias de carro nos chamarem de “doutor”. Escuto a palavra com cuidado: olho bem para quem a diz a mim e mantenho-me em defensiva, pois sempre adivinho a ironia na fala da pessoa... Pois o mesmo acontece com a palavra professor.

Antes de se criarem as faculdades de filosofia no Brasil, era professor todo aquele que, sabendo alguma coisa, postava-se entre uma turma de estudantes e o quadro-negro e expunha o que sabia. Mas aí surgiram as escolas de universidades que ensinavam conteúdos (para ensinar, há que se ter conteúdo) e disciplinas didáticas (para ensinar, há que se ter didática). Mas a figura do “ensinante” ganhou o apelido genérico de “professor”.

Estranhamente, muito poucos apresentam-se nos vestibulares com o propósito “quero ser professor”. Eu fui um desses: queria, sim, ser professor e estudei para isso. Sempre me orgulhei muito do título que adquiri pelas vias regulares e legais. E entendo que professor não é só a pessoa que se põe em pose de ensinar: há que ter obtido grau de licenciatura. Os demais, ainda que em nível universitário, não são professores. São instrutores. Ou “ensinantes”.

Mas professores, por tradição nacional, exercem algo que sempre chamamos de “sacerdócio do ensino” (a categoria que melhor simboliza isso é a das normalistas, as tradicionais professorinhas de primário, formadas em estabelecimentos chamados de “instituto de educação” ou “escola normal”). Muitas ainda existem delas, em várias camadas... E surgiram os professores de licenciatura, os que se formavam para lecionar nos ginásios e colégios.

Infelizmente, ainda hoje, muitos são os que conseguem furar o bloqueio das escolas e tornam-se “professores” sem licenciatura. Nas universidades, então... Estas acolhem os formados que não se adaptam (ou receiam) o mercado de trabalho; cursam mestrado e doutorado e vão ser “ensinantes”, usando o título de “professor” sem jamais terem assistido uma aula ou aberto um compêndio sobre Educação. Estes não deviam ser chamados de professores, não.

Engraçado é que, nas mais variadas gamas das atividades acadêmicas, tornam-se mestres e doutores, mas ignoram com solenidade a língua pátria e cometem falas condenáveis até por bons alunos de oitavo ano fundamental. São os que, no meio acadêmico, já são chamados de “doutores peões”. Ou, ainda, de “professores”. Infelizmente.

5 comentários:

Sinvaline disse...

Vou enviar "professores e ensinantes" para os professores conhecidos meus das universidades e escolas públicas por aqui. Bravo! Gostei muito, parabéns! Me senti orgulhosa de te-lo como amigo!
Grande beijo
Sinva

Fátima Paraguassu disse...

Ser professor

É despertar a magia do saber é abrir caminhos de esperança
desvendar o mistério do cálculo da fala e da escrita.
É criar o real desejo de ser.


É promover o saber universal especializar políticos,
médicos, cientistas, técnicos, administradores, artistas...
É participar profundamente do crescimento social...

É trabalhar em grande mutirão lançando as primeiras bases
que transformarão idéias em projetos executados em terra
firme ou em imensidão.

É não se dar conta da amplitude de um trabalho que é missão
mover o mundo através do operário ou presidente
que um dia passou por sua mão.


Autor Desconhecido
Fonte Mensagens e Poemas
http://www.mensagensepoemas.com.br/professores/ser-professor-2.html



Respondo usando este belo poema. Pena não ter o nome do autor.
Encontrei minha primeira professora em Santa Cruz, nos dias da festa do Divino. Essa mulher me abraçou tanto, mas tanto..., foi emocionante!

Fátima

Mara Narciso disse...

Um professor da faculdade de jornalismo me disse que hoje, diante do fim dos títulos de duque e duquesa, entre outros, há os títulos substitutos de mestre e doutor. Assim, ao ler o currículo de alguém, sabe-se exatamente(?) com quem se está falando. A sociedade se ajeita como pode, e os que têm poder, ou dinheiro ou conhecimento são os que mandam. Todas essas posses têm a capacidade de gerar uma quantidade imponderável de arrogância. Essa sim, mais do que o não saber deveria ser motivo de discussão. Do outro lado, é nosso deve exigir o saber dos que ensinam. E que deixem de ser ensinantes para ser professores: pessoas que muito admiro.

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, para essa crônica que eu chamaria de “utilidade pública” eu me utilizo da palavra de meu irmão, professor e físico-cientista reconhecido no Brasil e no exterior, ou seja, um verdadeiro doutor com Ph.D. Ele costuma dizer que a educação no Brasil é paternalista e o doutorando ou o mestrando muitas vezes é protegido pelo sistema. Já, em Londres, por exemplo, onde ele estudou, apenas leva o título quem sabe de verdade e prova que sabe andar com as próprias pernas. E eu digo: que esse é um dos motivos pelos quais os estudantes, no futuro, acabam sendo “ensinantes”. Beijos - parabéns pela crônica!!

Ligia disse...

Luiz ...Vc é real/te um mestre!! E eu q. há 40 anos trabalho nas escolas públicas do Rio sinto essa diferença entre profs e ensinantes...
Abrçs