Passado e
futuro
(Fotos: Internet)
Estou a poucas semanas de um
novo aniversário.
Novo? Ou velho? O número das
translações da Terra em que marquei presença é marcante, insere-me na
estatística dos idosos. Gosto disso, porque tenho histórias para contar, tenho
fatos e memórias acumulados e boa parte de tudo isso eu registrei em escritos –
uns correspondentes aos fatos, outros “enriquecidos” das minha impressões,
interpretações e… versões, obviamente.
Ultimamente, e estou certo
de que isso é resultante de todo o aprendizado ao longo das minhas décadas,
olho firme para o presente; o retrovisor do tempo, uso-o poucas vezes porque
sei que o passado existe, sim! Não me apego a ele, pois fui prevenido por Mário
Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente”. E cuido
pouco do futuro porque ele se constrói a cada instante. Preservo, por instinto
e sabedoria, a integridade física – e a dignidade também.
![]() |
Helena Jobim com o irmão, o "maestro soberano" Tom, na juventude |
No quesito “passado”, gosto
muito de ler biografias. Claro, tenho ídolos a quem apreciar e referências
humanas a considerar. Estes dias, em meio a revisões de quatro livros em fase
de prelo, releio Antonio Carlos Jobim –
um homem iluminado, de Helena Jobim (irmã do maestro maravilhoso). A autora
não se preocupou em ser muito rigorosa com a cronologia; comete idas e vindas
que tornam o texto ainda mais gostoso ao meu paladar de leitor. E insere dados
e ditos maravilhosos, como frases lapidares de Tom.
Pincei: “Estou numa idade em que começo a olhar para
trás. Acho que vai virar saudade”.
E também: “O ouro do Brasil são os jovens”.
Ressalvas naturais em meu
pensar, nuanças do meu modo de ser: nada que é linear me interessa. Para mim,
as pessoas são como colchas de retalhos, ao modo das antigas costureiras;
nenhum retalho escapa, todas as cores e tons são indispensáveis. Somos, cada um
de nós, frutos de tudo o que vivenciamos, das companhias – amigos e desafetos –
que passaram e passam por nossas vidas. Somos forjados (ou formados) de tudo o
que vemos e ouvimos, dos odores e têmperas de tantos verões, outonos, invernos
e primaveras.
Estou, ainda, na idade em
que morreu Vinícius de Morais; e em vésperas da última de Tom Jobim. “Não
pensava na morte. Até Vinícius morrer”- disse, também, o maestro Brasileiro de
Almeida (partículas do sobrenome de Tom). Dos livros em revisão que citei
acima, dois são meus – um de poemas, outro de crônicas referenciais a três
boêmios muito queridos de mim. Isso é fazer para o futuro, o futuro imediato ou
remoto, sei lá. E, a este tempo, também, ando juntando muitos escritos sobre
mim. Inicialmente, textos sobre mim e meus escritos constantes de prefácios,
orelhas e comentários outros nos meus livros.
Sim... sinto que o presente
é a mais perfeita mistura entre passado e futuro; pena que se torne passado com
a mesma rapidez com que agrega o futuro. Por isso, conto que estou juntando esses textos para atender
indagações de jovens estudiosos de literatura – uns moços e moças amantes das
letras que acham nos meus escritos alguma coisa de seu agrado.
![]() |
Tom e o jovem Chico Buarque |
Repito: “O ouro do Brasil são os jovens”. Demoro-me
nessas poucas letras, uma frase de ouro do genial compositor que, tão íntimo
das artes, mostrava-se bom em prosa, em verso, em letras de canções, em desenho
e muito capaz de conceber, demonstrando que teria sido um grande arquiteto –
não fosse tudo o que foi e não tivesse abandonado a faculdade no primeiro ano.
Pois é! Escrevo para satisfazer meu presente;
reviso livros que preparo par ao futuro; e releio obras porque o passado é
forte, ainda – e sei que vai virar saudade.
Agora, digam-me: um aniversário
de 67 anos é novo? Mesmo que sendo uma data velha?
* * *
![]() |
"Acho que vai virar saudade". Virou, sim, Maestro! |
Um comentário:
Estar com 67 anos é novíssimo, é novidade. Nunca antes foi assim para você.Viver seis décadas mais sete, encaminhando-se para sete décadas, é privilégio não vivido por muitas pessoas. Declarar a idade é um instrumento imbatível para reduzir o preconceito contra o envelhecer e a velhice. Congratulo a você pela longevidade, pelo clamor aos anos idos e do seu sem medo ao futuro. Parabéns, Luiz de Aquino. Creio que não chegarei aonde você chegou. E falo isso lamentando.
Postar um comentário