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sexta-feira, outubro 21, 2016

Caldas Novas, 166 anos



A foto é anterior a 1928, quando se demoliu a torre à direita; deve ser esta a concepção original
da Igreja de Nossa Senhora do Desterro (construção:1848/50)



Caldas Novas, 166 anos


A sexta-feira, 21 de outubro, neste 2016, marcou 105 anos da Emancipação Política de Caldas Novas, meu torrão natal. Nasci ali, numa casinha que não existe mais, a poucos passos da imensa porta da Matriz de Nossa Senhora das Dores – que já foi de Nossa Senhora do Desterro – num sábado de setembro, em 1945.

A mesma igreja, atualmente. A 

Coronal Bento de Godoy
Nunca me esqueço desse aniversário da Emancipação, concedida em 1911, por empenho do benemérito coronel Bento de Godoy e de outros notáveis da minúscula vila do sul de Goiás, onde se multiplicavam por mais de mil as nascentes termais às margens (as duas – não sou estúpido de dizer “margens” para um só lado do rio) do Córrego das Lavras, assim dito por causa das bateias garimpando ouro (mais tarde se chamou Córrego das Caldas). Mas chegaram os anos de 1970, 80 e 90... E as minas desapareceram; surgiram, então, as sondas para cavar as profundezas em busca do lençol termal – e em alguns pontos brotaram água sulfurosa, também.

Isso é muito de Goiás, festejar a data da Emancipação Política. Tudo bem, mas é necessário resgatar o tempo desde a fundação até o benefício dos foros. Caldas Novas, aquela região das águas quentes, já estava ponteada de várias moradias quando, em 1848, Luiz Gonzaga de Menezes destinou “um patrimônio” para se edificar a Igreja em louvor de Nossa Senhora do Desterro.

Acontece um mal-entendido... Muitos católicos menos informados acham depreciativa essa denominação, pois não sabem tratar-se, essa versão da Mãe de Jesus, da que se volta para proteger os viajantes, os migrantes – sim, os que deixam suas terras de origem em busca de outras paragens. E então, por conta do fraco desenvolvimento econômico local, entenderam alguns de atribuir à expressão “desterro” a culpa pela estagnação – e suplicaram a troca por Nossa Senhora das Dores. Alguns acham que a troca não causaria melhoras (afinal, era “das Dores”).

Aos Gonzaga de Menezes e aos descendentes de Martinho Coelho de Siqueira, outras famílias se incorporaram, antes da festejada Emancipação (em 1911, repito). São sobrenomes que povoam minha infância – Lopes de Morais, Santos, Pereira, Rodrigues da Cunha, Ala, Junqueira, Araújo Lima e outras, várias!

Por isso, fiquei feliz com a saudação do apresentador Chico Pinheiro, no “Bom dia, Brasil” de hoje, na TV Globo, mas a citação “pelo seu aniversário de 105 anos” soou-me indevido – indelicado para com os caldas-novenses tradicionais. E acrescente-se, ainda, que em 8 de agosto de 1889 – ou seja, três meses e uma semana antes da proclamação da República – nascia em Caldas Novas Leodegária de Jesus.

Leodegária de Jesus, a primeira
celebridade caldas-novense,
hoje desconhecida na cidade.
Poetisa, amiga de tenra idade da também poetisa Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cora Coralina), Leodegária detém o mérito de ter sido a primeira mulher a publicar livros de poesia entre os goianos – o primeiro, Coroa de Lírios, em 1906 (aos 17 anos incompletos; morava, então, na capital, Cidade de Goiás) e Orquídeas, em 1928. Somente em 1954, oura poetisa, Regina Lacerda, publicaria o terceiro livro feminino nesse gênero, em Goiás.


Festejo, pois, a Emancipação – que vem a ser uma espécie de Certificado de Maioridade para uma comunidade – mas evoco, ao mesmo tempo, a lembrança do período que se estende desde a fundação, que entendo ser o dia de Nossa Senhora do Desterro, em 1850, quando a Igreja foi consagrada. Considere-se, ainda, a grandeza do templo, numa evidência de que havia moradores bastantes para ocupá-lo, e lembremo-nos que a evocação de Nossa Senhora do Desterro tinha por foco a proteção aos visitantes, pessoas sofredoras que viajavam de longe para desfrutar dos poderes curativos das nossas termas.


É assim, pois, que festejo os 105 anos da nossa Emancipação, mas não me esqueço deste tempo de 166 anos desde que a Igreja de Nossa Senhora do Desterro lembrou aos moradores e visitantes que o Criador velava pelo nosso torrão – e pelos que ali chegavam em busca de cura.

A praça Mestre Orlando, antes do surto turístico (foto de 1950, possivelmente).

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

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