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domingo, outubro 15, 2017

Sinais dos tempos... Quais?

Vênus de Milo - obra da Antiguidade, encontrada em 1874 no Monte Esquilino




Sinais dos tempos... Quais?



Sim... Quais? Que tempos são estes, em que um segmento da sociedade, ocasional e oportunamente, se emerge em nome de uma moral reinante nas cercanias das paróquias inquisitoriais?

Vejamos... Vivemos a falência de importantes valores morais, mas não se aplica tal oposição à hipocrisia, ao cinismo e ao descaramento que conduz “ilustres” políticos – parlamentares e ministros, capitaneados por autoridades do Executivo e do Judiciário – à ostensiva defesa, em atos e palavras, sem sequer se corarem!

Adotam atitudes que equivalem a indisfarçáveis confissões de culpa!

Expressam votos “técnicos” que carimbam a decisão com a evidente destinação da atitude assumida – e, repito, não se envergonham por isso!

E então, numa mostra de arte bancada por um banco na capital mais ao sul, Porto Alegre, artista desta época dá ares atuais à arte mais refinada do milenar Kama Sutra. E a moralidade da famigerada (de triste memória) TFP se expressa em defesa “da família, da moral e dos bons costumes”!

À falta de sustentação filosófica, apelam para os clichês de “combate aos comunistas” (o que me remete a um provérbio da roça da minha infância: “Depois da onça morta, qualquer vira-lata quer mijar no couro”).

Davi, de Michelangelo, mostrada ao público em 8 de setembro de 1504.


Na Renascença, a par com o rigor da Santa Inquisição (merece maiúsculas? Não, salvo pela mera identidade com uma fase da História), Michelangelo concebeu nus, em pintura e escultura, admiráveis até hoje!

Outra mostra, com atores em movimento, expõe um homem grisalho nu e uma mãe estimula a filha criança a tocar o homem.

Vozes a favor e contra elevaram-se e ganharam admiradores e contestadores. Divulguei alguns vídeos, sem opinar. Seria necessário? Mas fui acusado de “divulgar o indesejável”. Uai! Minhas práticas sexuais, como as de quem quer que seja, de John Lenonn a Chiquinha Gonzaga, de Madame Satã a Fábio Júnior, são itens individuais. E esta mesma humanidade, há três mil anos, pratica muita coisa no quesito sexo que, quando adolescentes, pensamos que nós os inventamos.

Desde que os textos ganharam formas e imagens poéticas, o erotismo virou literatura. Cínicos são os que torcem narizes a isso, mas enchem o mundo de filhos – como os religiosos que “condenam” os fiéis, mas lambuzam-se de luxúria com mulheres (e homens também, uai!) em suas intimidades.

E aparecem os pregadores da “moral cristã” ou das doutrinas “judaico-católicas”, dos preceitos difundidos por pastores e padres em colheitas seletivas no Antigo Testamento, estimulando seus “fiéis” a demonstrarem que “destruir a família é meta do comunismo, desde Marx e Engles”.

Poxa! Como manipulam a História e deturpam tudo! Digam, pois, que Platão era comunista dois mil e tantos anos antes de Marx, pois ele sugeria uma “república” em que as crianças eram transferidas pelos pais ao Estado para se formarem trabalhadores braçais, profissionais de ofício e até o ápice de poetas e filósofos – a estes cabendo o governo.

E o sexo fora do preceito religioso de “papai e mamãe, e só para a procriação”, tão enfatizado pelos religiosos e falsos moralistas, escapa das artes plásticas, em duas ou três dimensões, da literatura, do teatro e do cinema.

No paralelo, essa estranha “ideologia de gêneros” que contesta a ciência e diz que “todos nascem sem sexo, a escolha vem depois” – e nisso, pelo que se propaga, até mesmo poderosíssima empresa de alimentos e cosméticos pega carona por conta de um antigo trocadilho do vulgo em tono das palavras “homo” e “omo”.

Que tempos, hem? Tempo de péssima escolaridade! E este texto sai no jornal justo neste 15 de Outubro de 2017, Dia do Professor – desta vez, consagrado à heroína de Janaúba, Minas Gerais, a professora e mãe Helley Abreu Batista, por ter conseguido, indiscutivelmente, conter o número de vítimas de um ato de insanidade.

Aos moralistas de plantão, só um recado: deixem as artes em paz, escolham vocês, caso sejam pais e educadores, como educar seus filhos para serem felizes e bons cidadãos, livres e determinados, em lugar de erotizá-los antecipadamente ou de impor diretrizes às suas identidades sexuais.  


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 

2 comentários:

Sueli Soares, professora e advogada. disse...

Pois é!
Sempre pensei na estética como fundamento da Arte e não consigo vislumbrar um simples arremedo dela naquela "exibição" tão discutida. Tenho meus princípios e me recuso a aplaudir o que não gosto, só porque dizem ser manifestação artística. Perdoe-me Paulo Freire, mas a tal da midiatização passa longe de mim. Alienada ou não, sou mais eu!

Mara Narciso disse...

Bem moderna e lúcida a sua visão. Vi manifestações artísticas horríveis, nesses vídeos por aí. Pornografia, deveria ser apenas em salas para adultos. Demais manifestações, nu e erotismo, acho normal. Ainda que a definição de normalidade seja vazia. O radicalismo dos moralistas sem moral, está como sempre foi: acusam a esquerda de querer acabar com a família, como você tão bem mencionou. Agora a acusam também de querer tornar natural a pedofilia. Tais reações beiram a histeria, que está se ampliando de modo coletivo. Não estou gostando do que estou vendo. Que tudo possa voltar à normalidade.