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sábado, maio 12, 2007

Na moldura do beijo


Na moldura do beijo


Segundo o que me contam por aí, já atravesso o segundo ano na casa da velhice. Não gosto, nunca gostei!, dos eufemismos que inventaram para nós: terceiridade, melhoridade... Sou mesmo é um velhinho-calouro, com muitos ranços da tal “idade madura”, que se estende, teoricamente, até o último dia dos 59 anos. Então, já me encantam o gris dos cabelos e as rugas na pele. E gosto demais de dizer palavras como “gris” e “cãs” (que um revisor “corrigiu” para “cães” num poema meu, atrapalhando definitivamente a compreensão do verso).

Vejam aí, os que não o sabem: os dicionários contam bem o que são “gris” e “cãs”.

Esse preâmbulo maluco é só para me situar nesse Dia das Mães de amanhã, segundo domingo de maio, dia 13, ano de Nosso Senhor Jesus de 2007. A minha velhinha se foi há três anos. E eu, que tive outras mães, além da que me pôs no mundo, ainda guardo alegrias para este domingo. A segunda, na ordem do tempo meu, foi minha avó Inês, mãe de Dona Lilita; junto com a Vó, as tias-mães: Tia Vanda, Tia Norma, Tia Leda e Tia Miriam (irmãs de Dona Lilita). Vó Inês se foi mais cedo, em 1971, aos 77 anos de vida (das irmãs, a única a morrer tão jovem; todas as outras passaram dos 90 anos e Tia Sinhá, a primeira a nascer, foi a que mais viveu: 101 anos).

Mães demais! Mães dos meus primos, mães minhas por empréstimos. Tia Leda morreu quase menina, pouco além dos 30 anos; Tia Norma, surda de nascença, vive hoje mais alheia ao mundo, ainda, porque uma isquemia lhe toma quase que todo o cérebro; Tia Vanda também não tem mais consciência da vida à sua volta. Nada a lamentar: nascemos com a certeza da morte; e crescemos com as informações de que muitas coisas podem nos complicar a vida.

Fica-me a caçula: Tia Miriam sempre me foi a mais próxima, talvez pelo menor intervalo de anos. Eram todas muito belas, as filhas da Vó Inês e do Vô Chico.Dona Lilita, aos 80 anos, morreu ainda muito bonita; Tia Miriam ostenta, aos setenta, o brilho de menina nos olhos e, neste Domingo das Mães, seus filhos de carne (André Luiz, Cláudio e José Henrique) verão neles o brilho de sua primeira maternidade, aos 17 anos.

Daqui, deste ar seco e frio no prenúncio de inverno no Planalto de Goiás, meus olhos, com menos brilho, umedecem-se ao lembrá-la na distância. De todas aquelas mães que, nos meus dez anos de idade, tentavam suprir Dona Lilita distante, era de Tia Miriam que vinham os mais-carinhos, a mais-compreensão, o apoio, o estímulo, os raros aplausos. É que as mais velhas, receosas do meu insucesso e dos riscos a serem explicados, reprimiam-me; Tia Miriam sorria e me fazia não recuar.

Desde aquele 1956 e até dezembro do ano passado, faltava um toque pequenino e ingênuo: que a Lília, colega de Colégio, notasse o carinho com que, em pontos miúdos, o emblema do Pedro II estava pregado à minha camisa. “Foi minha tia”, disse-lhe eu; e Lília, com a sabedoria de mãe, de filha e amiga, pôs para fora sua experiência de mulher amorosa para definir: “Ah, eu sabia! Amor de tia é muito diferente”.

É, sim. E isso marcou tanto que é a segunda vez que conto isso pro escrito. Aquela costura é um símbolo, tanto quanto o é o escudo do Colégio. Um símbolo pequenino, mas que reproduz estes mais de 60 anos de amor que Tia Miriam nos dá, espargindo-o com abundância, mas sem nos sufocar por ele.

Não tenho inveja dos meus primos, não; como sinto, também, que eles não se enciúmam pelo amor que eu e os demais primos recebemos de sua mãe. Com as mortes de Vó Inês, Tia Leda e Dona Lilita, e com a inconsciência das outras duas tias, sei que o amor das outras transferiu-se para aquele coraçãozinho sempre feliz.

Daqui, Tia Miriam, envio-lhe um presente simples, possível a todos os que têm em si um pouquinho dessa capacidade amar: duas lágrimas a moldurar um beijo.

É só...

13 comentários:

Madalena Barranco disse...

Que fofo, Luiz! O melhor presente para as mães, mesmo que ausentes, é a indelével lembrança que trazemos no coração. Beijos.

Deolinda disse...

Luiz, sabe que me ocorre? O que seria do mundo sem as tias...As minhas tias, Ely, Irene, Dulce também são a representação da mãe que tomei emprestadas aos meus primos e primas. E claro, ainda tenho o prazer de viver correndo para resolver as confusões da minha mãe, uma parada dura e indomavel aos 81 anos. Será que chego lá?

Isabella Benicio disse...

Ô, Luiz! Fiquei emocionada demais com teu texto. É uma honra ter conhecido algumas de tuas mães pessoalmente. Tia Miriam é com quem mais convivo e também sei que ela tem uma luz diferente e intensamente acolhedora (assim como o amado tio Angelo). Merecidíssima homenagem. Um beijão e um ótimo domingo pra vocês aí também.

Marluci Costa disse...

Que linda homenagem, Luiz. Emociona.
É isso aí, ser mãe transcende o ato de gerar um filho e você mostra isso com propriedade e doçura. Basta ter aquele olhar protetor, a preocupação típica das mães, a firmeza para corrigir e o ralhar na hora certa, além do carinho espontâneo e o cuidar dos nossos “dodóis”.
E tem tias (também aquelas “emprestadas”, como eu tive), que são tudo isso. Também tive uma tia de sangue que criou 3 gerações: minha mãe, minha irmã e meu sobrinho, e nunca gerou filhos.
Dedico a sua crônica a elas, mesmo que a segunda já esteja num plano mais elevado. Tenho certeza que de lá, ela continua cuidando dos seus filhos “dados” por Deus.

Anônimo disse...

Caro Poeta,

Antes de pegar o avião que me levará ao reencontro com nossos amigos petrossecundenses, ponho minha correspondência eletrônica em dia.

Fiquei relapso por bom tempo. Nem vi o magnífico texto sobre o Jubileu de Ouro do CPII Seção Tijuca. Verdadeiro caudal de emoções, traduz o sentimento de cada aluno, seja ele novo ou veterano.

Gostaria de recebê-lo em arquivo do word, para enriquecer o livro.

Os dois textos seguintes estão no mesmo padrão Luiz de Aquino de qualidade.

Sua tia precisa mesmo ter coração forte. Com palavras tão simples e profundas, ao mesmo tempo, você sintetizou o sentimento de quem ultrapassa as fronteiras da linha direta de concepção e envereda na maravilhosa relação que transcende o cordão umbilical. Está certo. Coração pode ser até órgão fraco, mas nos iluminados ele é grande pra caramba.

Forte abraço.

Fernando Quintella

selma disse...

"Que valor teria um grande cérebro sem o calor do coração?"
Seria uma máquina fria, ou uma grande caixa vazia?
E o que seria de nós, se não tivéssemos todos, na vida, uma querida doce tia?"
A minha tia, viúva e sem filhos, com um nome que cheira a leite de rosas, Isaura, foi também co-partícipe da minha educação e, principalmente, da minha formação. Mesmo após a sua morte, aprendi que podemos ser muito mais felizes com tão pouco...
Estudei no CPII e ela, muitas vezes, me acompanhava até o portão.Sinto saudades!
Obrigada, por me fazer recordar.

Heliana disse...

Luiz,
Também não gosto , nem nunca gostei dos eufemismos que inventaram para nós:" terceiridade, melhoridade... "
Mas "velhinho-calouro", Luiz, é de doer ...
Nossa geração reinventou a velhice .... Nós não vamos envelhecer ...... rsrsrs
Que tal seminovo?
Numa crônica mais antiga sua , você já se identificou como seminovo, lembro-me ....
Abraços

primavera disse...

LIndo texto, como os demais. LInda também a sua tia, tem certeza de que ela já fez 70???? Beijos.

Anônimo disse...

Luiz, eu ia lendo a crônica e lembrando aqueles pontinhos perfeitos no seu escudo. Até que vc citou a cena outra vez. Sei muito bem o que é amor detia...
Minha mãe é filha única e meu pai foi separado dos irmãos quando pequeno. Minhas grandes tias eram tias avós: Maria e Arlete. Tia Maria, uma gaúcha forte como o que e de uma sabedoria ímpar, ao me ver ingressar no quarto casamento aos 28 anos me deu o único e maior conselho: Tá tudo ótimo, agora: Paciência, minha filha!
Lembrei dela outro dia porque funcionou e já dura 28 anos... A outra, Tia Arlete tinha uma alegria e meiguice nunca vistas. A risada dela estará etrnamente em meus ouvidos. Mais legal que TER tia só SER tia, o que comecei aos 9 com muito carinho. São cinco filhos em parceria que muito me orgulham e completam a minha vida. Tia Miriam tem do que se orgulhar, seu texto é lindo, humano e carinhoso como você. Lília

Anônimo disse...

Querido primo Luiz
Embora já tenha enviado mensagem, não posso me furtar de falar mais um pouco sobre sua mensagem do Dia das Mães, sobre nossa tia querida, tia Mirian ,amiga,cúmplice, companheira e plena de amor para doar. Os comentários que li refletem bem o quanto você com sua capacidade de dizer em palavras escritas o que nos passa no coração. Como filha de uma destas suas tias, que foi a Mãe-Grande de nosso primo André, muitas lágrimas mais foram por mim derramadas, sabemos todos porquê. Ao acompanhar minha mãe neste final de seu percurso nesta esfera tem sido uma lição de vida a mais que ela me transmite. O coração aperta, dói, mas o que fica está naquilo que ela construiu à sua volta, enquanto a Da.Wanda era braba e sofrida, ao mesmo tempo que nos envolvia a todos que convivemos com ela aquele braço protetor e preocupado de quem ama aos seus e muitas vezes se vê sem condições de poder fazer mais e melhor do que já fazia. Meu beijo.
Teresa

Adélia Maria disse...

Nossa Luizzzzzzzzz,que sucesso! Chorei sabia? Vc é mesmo o poeta! E todas as tias Mirians devem ficar orgulhosas de vc...te amo!

Adélia Maria

André Luiz V. de Campos disse...

Querido primo Luiz:

Fiquei muito emocionado com o texto "Na moldura do beijo". Afinal, sou personagem da linda história que você descreveu.
Assim como você, também tenho a minha "tia-mãe", Wanda, a quem chamava de "mãe-grande" na primeira infância. De todas as tias filhas da vó Ignez, foi a mais próxima. Minha madrinha, tia Lêda, partiu cedo quando eu era menino. Tia Lilita, desde que vim ao mundo, já morava em Caldas Novas (e como Goiás era longe naquela época). Tia Norma, embora muito presente até os meus 14 anos, mudou-se para a casa de tio Ângelo, no Sul, depois da morte da vó Ignez. Aqui no Rio, ao lado de minha mãe, Miriam, ficou a mãe-grande, sempre poderosa até os meus trinta e muitos anos e hoje tão pequenina e fágil numa cama.

Abraços e parabéns pela bela crônica.

André.

ps. não se preocupe que não me incomodo de dividir minha mãe Miriam com você.

Luiz de Aquino disse...

Teresinha, prima querida,

A "Mãe-Grande" não era apenas braba, não; era protetora, forte e presente. Nunca me esqueci dos abraços quase sufocantes, das manifestações ruidosas de alegria e dos almoços de domingo em que a macarronada, os frangos e peixes, as saladas eram motivo para nos demorarmos à mesa em rituais quase que romanos. Lembra? Era eu o "fiel escudeiro" para a feira: cuidava das sacolas, para não incomodá-la (grávida duas vezes: em 1956, pelo Léo; em 58, pela Anabi); e cuidava de fazer contas mentalmente, calculando preços e trocos. Tia Vanda orgulhava-se do meu raciocínio matemático.

Olha, Tetê, você me compreende bem quando digo que tenho mil razões para orgulhar-me desta família! Pena que, agora, as coisas vão se tornando saudade...

Te amo, Tetê!

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Luiz de Aquino