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sábado, julho 12, 2008

A ética, o poder e os esquecidos

Ao que tudo indica, o poder maior do país, desde a segunda metade da última década do século passado, esqueceu-se de vez dos pagadores de impostos. Muito se fala sobre a sobrecarga – a eufonia é intencional, Leda(ê) Selma – dos impostos e alguém já se lembrou de que, hoje, paga-se o dobro do motivo maior da Inconfidência Mineira. Quem pode, busca ganhar mais e escapar da taxação; aos que não podem, resta pagar: pagar impostos e pagar caro por serviços muitas vezes questionáveis.

Ainda que sejam responsabilidade do Estado os serviços de educação, segurança e saúde, a classe média (a que mais paga impostos) tem que custear escolas particulares para os filhos, pagar planos de saúde caríssimos e, em muitos casos, custear segurança privada. Todos sabem disso, inclusive os parlamentares que fazem discursos simpáticos e leis cruéis. Mas uma prática cresce entre os médicos. É assim: o doutor descredencia-se de um plano de saúde, porque essas empresas pagam quantia irrisória pelas consultas e demoram a pagar os profissionais. A partir daí, gentilmente ele, médico, oferece ao assinante do plano de saúde um desconto de 50% no preço da consulta. O paciente, pacientemente, aceita o negócio; paga menos do que o valor da tabela, mas doze vezes mais do que pagaria pelo convênio. Só que não tem direito ao recibo para deduzir no Imposto de Renda e, se for necessária uma internação, o sujeito vai se internar pelo SUS. Aí, já se pode imaginar o final da história.

Aconteceu comigo: depois de oito anos em tratamento com uma mesma médica, fui barrado no atendimento, há dez dias, porque a moça da recepção, informando-me que a “meia consulta” agora é de R$ 125 (não mais os R$ 100 da vez anterior), recusou-se a me conceder quinze dias no cheque. Sim, eu sou pobre. Quero dizer, classe média baixa, com sobrecarga de impostos e onerado demais com juros de quase 10% ao mês numa inflação de 5% ao ano. Pois bem, a zelosa e poderosa e, penso eu, muito rica secretária da médica olhou-me com olhar de desprezo, como quem pensa: “Que chato, mais um pobre a pedir prazo”.

– Mas eu só terei dinheiro daqui a 15 dias, não antes – disse-lhe eu. E ela:

– Então não tem jeito.

– Eu não vou consultar?

– Não! – respondeu-me ela, taxativa.

Tudo bem. Saí de lá e, impossibilitado de falar pessoalmente com a doutora, enviei-lhe um e-mail, terminando assim:

“Estou triste e ofendido, é claro; dependesse de minha vontade, gostaria de morrer aos 90 anos sendo assistido pela Sra., mas isso não será possível – não com esses critérios de sua secretária. Espero, de coração, que não sejam determinações suas, pois continuo crendo que seu propósito é a boa medicina, não a construção da fortuna. (...) Mas não gostei de ser tratado como alguém que quisesse prejudicar justamente a médica da minha preferência e da minha admiração, da minha amizade pura”.

Isso se deu no dia 3; até a manhã desta quinta-feira, dia 10, não tive resposta alguma. Ou seja, a atendente cumpria ordens. Indicaram-me outra médica, na mesma especialidade; fiz a consulta, sem o “benefício” da meia consulta mas com a guia regular do meu plano de saúde; fui atendido com postura e zelo profissionais que pareceram-me nada dever ao da minha médica anterior e sai de lá feliz; certamente, hei de recomendá-la aos que dela necessitarem.Não cito nomes porque poderia não ser ético de minha parte, já que fui vítima (e, depois beneficiado) com atitudes pessoais. Mas aos meus amigos diabéticos, e de viva voz, certamente falarei de personagens.

7 comentários:

Saramar disse...

Meu querido amigo, sofri o mesmo problema, em tudo idêntico ao seu.
E fico me perguntando quem ansceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Sei bem que médicos são pessoas ávidas por dinheiro, com raras, raríssimas exceções.
Também sei que os planos de saúde, enquanto ficam cada vez mais ricos, menos pagam por qualquer provedimento.
Na realidade, a tendência atual é transformar tudo (principalmente os planos de saúde) em um grande SUS, sistema em que todos pagam, a remuneração dos profissionais de saúde é ridícula e ninguém consegue ser atendido.
Os planos de saúde seguem o exemplo do governo, enquanto afotam práticas do pior tipo de mercado: o mínimo de gastos com saúde e o máximo de lucro.
Para ambos, governo e donos de planos de saúde, nossa saúde não interessa. Infelizmente, o que importa é manter a doença.

Mara Narciso disse...

Quando em trinta dias após passar mal, Milena,a minha mãe e ginecologista, morreu, migrei para a Dra Fátima Lacerda,da mesma especialidade, e que com ela dava plantões de obstetrícia. Fui e levei toda as mulheres da minha vasta família, além de todas as minhas pacientes. Sou cliente que muito médico joga o tapete vermelho para me ter, por que não vou sozinha. Mas a irmã e secretária da Dra Fátima, cruel, por infeliz no amor, não gosta de mim. Liguei para marcar uma consulta e soube que, pelo meu plano, só daqui a dois meses. Ligação direta com a médica, por mim na sequência, e brigas lá embaixo--trabalhamos no mesmo prédio. Resultado: recebo telefonema para ir consultar-me imediatamente. Só que ocupada, adiei para o dia seguinte: consulta já efetuada.

Solirarizo-me com você, Luiz, pois pagamos alto preço, e exigimos ser tratados como clientes classe "A". Quem não gostar do preço que paga o convênio, saia, deixe o lugar para outro, mas não invente falsos benefícios usando inadequada e indecorosamente o nome do convênio--imoral, ilegal e engorda( a conta bancária dela). Denuncie!
Mara Narciso

Paulo Rubem disse...

Caro Luiz,
Ótima crônica, colocando a infeliz realidade do nosso país. Tivéssemos um serviço público de medicina decente, com médicos bem remunerados, e com condições dignas de trabalho, essa médica passaria a ser um exceção.

Madalena Barranco disse...

Querido Luiz,

Aproveitar-se da necessidade do outro para acumular bens materiais é um ato cruel... Nas leis da Física "toda ação provoca (...)". Você fez muito bem em colocar esse caso em uma crônica e publicá-lo.

Que bom que você encontrou uma profissional honesta. Nosso planetinha azul ainda tem jeito.

Beijos.
P.S.: me perdoe duas vezes, amigo querido, primeiro porque não consegui assistir sua entrevista hoje pela manhã... Minha conexão é discada e não é sempre que posso ver o que quero; e segundo, porque quando fui responder ao Google a tal conexão não funcionou.

Sueli do Carmo disse...

Olá! Suas crônicas sempre muito bem elaboradas e realistas. Já passei por um caso médico parecido só que com uma dentista. Um pouco diferente do seu pois não me tratava com ela há muito tempo. Mas tive esse tratamento da secretária por motivo de atraso meu. Ora, todas, eu disse TODAS as vezes que eu ia ao consultório depois de um dia exaustivo de trabalho, aguardava 1h a 1h e meia para o meu atendimento. No dia que me atrasei 15 minutos, a secretária disse que ela não poderia mais me atender porque depois do meu horário, ela ia fazer um procedimento demorado e como eu "tinha me atrasado"... não conversei! Falei que sempre esperei por ela e que ela ia me atender sim e que não me importava de, mais uma vez, aguardar por mais de 1 hora!!! A dentista e a secretária me fuzilaram com os olhos, mas ela foi profissional e não arrancou meu dente, rsrsrsrsr. PARABÉNS PELA CRÔNICA! SEMPRE BRILHANTE!

Celinha, RJ disse...

Gosto de ler suas crônicas. São sempre oportunas, atuais. Só não me sinto muito à vontade para comentá-las. Não me julgo capacitada para tanto. Mas, lá vai! A última, mais uma vez, condiz com a triste realidade do nosso país. Foi esquecida pelo poder público que, além de não arcar com o que é de sua responsabilidade, omite-se em TUDO que diga respeito ao nosso tão sofrido povo (leia-se: classe média e os pobres, ainda mais desprotegidos. E nós, que pagamos a mais alta carga tributária do mundo, estamos abandonados. A saúde no Brasil é um dos exemplos. Grande parte dos médicos está se tornando mercenária, insensível ao sofrimento alheio. O inadmissível é que a vida humana tenha tão pouco valor para outro humano(?!).
Porém, a sociedade, a menos favorecida, tem, também, sua parcela de culpa. Se o médico desconhece o papel que deveria exercer, o paciente deveria procurar outro, da forma como você o fez. Se agíssemos assim, os consultórios ficariam vazios e eles teriam que se adaptar às regras impostas por nós.

CARMEM CONRADO disse...

É DE TIRAR O CHAPÉU, MEUS PARABÉNS,É A REALIDADE.
JÁ ME VI EM TAL SITUAÇÃO. É DEPRIMENTE QUANDO VOCÊ DESCOBRE ESSE OUTRO LADO DO SEU MÉDICO, QUE ATÉ ENTÃO TU O TINHAS COMO PARCEIRO E AMIGO.QUANDO NA VERDADE O MESMO ESTÁ EM BUSCA DO VIL METAL. SE DANE A SUA SAÚDE, O QUE É PIOR: O SEU CORAÇÃO.
UM FORTE ABRAÇO