Páginas

sexta-feira, abril 10, 2009

Moeda ou livro

Moeda ou livro


Luiz de Aquino


Já havia escrito um parágrafo quando, sem querer, cliquei na página de e-mail. A cantora carioca Irinéia Ribeiro mandou-me uma crônica de Rodrigo Ratier, do site http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml, com o títuloVale mais que um trocado”:

"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão (…). Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais”.

O autor continua, entusiasmado: “Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo…”.

Sugestão minha: Leitor, visite o site indicado e conheça todo o texto! É certo que Você, como eu, olhará de modo diferente para os pedintes das ruas. Talvez os distribuidores de panfletos não se incluam nesse perfil, pois são profissionais empregados e não trabalhadores autônomos das esquinas.

A vida atual, a que não mais podemos chamar de moderna, tem características muito estranhas. Se ontem (há pouco mais de uma década) entendíamos que os que rejeitam livros são pessoas mal-informadas - e, pior, mal-formadas -, hoje sabemos que um adolescente fuçando em centenas de páginas da Internet, sem limites de gêneros, está, sim, em pleno exercício da leitura. Ou, se preferirem, do aprendizado. Mesmo que indisciplinado (aquilo que já se chamou autodidatismo).

Nós, os mais velhos, somos detentores de uma erudição muitas vezes desnecessária e, em alguns casos, pedante. O aprendizado que se tem nos computadores é qualificado como perigoso, porque a “rede” se alimenta de qualquer coisa, sem critério seletivo etc. E daí? Nossas conversas de recreio, de botequim, dos salões de beleza e das esquinas é diferente?

Mas é muito bom constatar que, nas esquinas, há pessoas que gostam de ganhar um livro. Gostei! Gostei da ideia, também vou pôr uma caixa de livros variados no meu velho Fiat e testar a receptividade. Vamos ver se os malabaristas, os coletores de donativos para igrejas e abrigos de recuperação de drogados, vendedores de canetas e balinhas e os mendigos em geral receberão o brinde com um sorriso. Vamos lá, poetas! Vale a pena testar.



11 comentários:

Judô e Poesia disse...

Como diria poeta: a gente não quer só comida, a gente quer comida diversção e arte! Abraços, Domingos.

Mara Narciso disse...

O resultado à oferta foi surpreendente. Aceitar livros? Difícil imaginar essa resposta. Ainda podemos ter fé no ser humano.

Simone Araújo disse...

É bom oferecermos livros e ver a satisfação por parte de quem os recebe,principalmente de quem a medo pensamos de não a ver.
Um abraço.
Simone

CARLOS MÁXIMO disse...

Meu querido poeta!

Simplesmente ótimo o artigo de hoje!

Mais uma vez, meus aplausos!!!

Grande abraço!!!


CARLOS MÁXIMO

Leda(ê) Selma de Alencar disse...

Legal, Luiz, sua crônica! Que bom, fazer a intertextualização com o Rodrigo Ratier! Lerei a crônica dele.

Olhe, já faço isso (não colocando os livros em caixas), ou seja, doar livros (meus), assim como aqueles bloquinhos poéticos e os cartazes grandes com o poema VOA: faço-o nas ruas, a certos pedintes, a catadores de papéis; nos postos de gasolina, aos frentistas e calibradores de pneus; aos balconistas de supermercados, padarias, lojas. Acho ótimo que você o faça também. Não gosta de livro quem não tem acesso a ele. Dê um livro e ganhe um leitor (a não ser no caso de certos colegas nossos, né?).

Irinéia Ribeiro disse...

Fico feliz, querido poeta! Eu gostei tanto dessa idéia, que já penso em andar com livretos na bolsa!
Não há nada que me entristeça mais do que pequenas criaturas pedintes....
beijo

Irinéia

Irinéia Ribeiro disse...

Oi, poeta,
Recebi de meu amigo José a cronica que tanto nos emocionou! Em resposta, leia o que ele escreveu. É mais um no seu blog!
Beijos.
Segue o texto do José:

"Caramba, Irinéa, fiquei até emocionado! Que bacana, quando a receptividade a uma boa mensagem é positiva, influenciando até um escritor a mudar a sua crônica!
E fico satisfeito mais ainda porque o texto "Vale mais que um trocado" eu não recebi de ninguém. Eu o li, no site da revista Escola Abril, e achei que os meus amigos gostariam de conhecê-lo, por isso copiei o trecho inicial e enviei.
Recebi algumas respostas, mas a sua realmente me faz ficar mais convicto de que vale a pena perder alguns minutos para coletar as coisas boas da internet e repassar para os amigos.
Dei uma olhada rápida no blog do seu amigo Luiz de Aquino. O cara é bom, hem? Mais um que eu vou me obrigar a ver de vez em quando!

Abraços,
José Matos

Irinéia (segundo comentário)

Mara Narciso disse...

Luiz,

O resultado da oferta foi surpreendente. Aceitar livros? Difícil imaginar essa resposta. Ainda podemos ter fé no ser humano.
Boa tarde!


Abraço, Mara

Alda do Crítica... disse...

Gente! Uau! Quem ama as letras fica emocionado com uma receptividade assim surpreedente.
E tem gente que dá livro? Preciso contar esta a um velho amigo, ao qual um dia eu pedi um livro de informática emprestado e ele disse que jamais empresta um livro, com medo de não recebê-lo de volta. Se eu contar esta boa ação brasileira de doar livros creio que ele vai dizer que é mentira.
Amei e vou fazer o mesmo.
Beijo poeta amigo, goiano roxo.
Alda

Irinéa Maria disse...

Poeta

Sua divulgação é importante. Às vezes recebemos "trecos"pela internet que nos fazem ter o trabalho de abrir(sempre imaginando uma coisa boa)e deletar imediatamente,perdendo um precioso tempo de informação!
Mas, quando recebemos imêios inteligentes, como nosso sorriso íntimo agradece!!!
Passar p/ o maior número de amigos é o ato seguinte.
E assim, colocamos coisas novas em nossa rotina, e damos chance à divulgações culturais importantes.
É assim que percebo seu blog, e agradeço por seu carinho com ele!
Luz

Luiz de Aquino disse...

REVISÃO

Minha mão à palmatória: O nome dela é IRINÉIA, e não Irinéia.

Luiz de Aquino