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sábado, outubro 03, 2009

Livro, palavra que dá medo

Livro, palavra que dá medo

Luiz de Aquino


Há alguns meses, poucos, Batista Custódio produziu um artigo interessante, diferente, questionador. Refiro-me àquele em que o jornalista estranha o fato de a Casa Verde, ou seja, o Palácio das Esmeraldas, não dispor de uma biblioteca. Verdade: a residência oficial do governador de Goiás (e, por longo tempo, também a repartição principal do Poder Executivo) carece de livros.

No citado artigo, o editor-geral do DM buscou envolver os membros da Academia Goiana de Letras e outros escribas literários de Goiás, chamando-os a se movimentarem no sentido de demonstrar ao governador Alcides Rodrigues que ler é muito importante. E que uma biblioteca serviria não só a ele, governador (bem como aos que o sucederem), mas também a seus auxiliares e familiares (enquanto durar o inquilinato na Casa Verde).

O texto despertou discussões. Eu mesmo escrevi sobre ele, e argumentei que um político com boa bagagem de leitura pode vir a ser um homem mais humano, tal como gostaríamos que fossem os mandatários de cargos de realce. Um jornalista amigo contestou-me, recordou que Mussolini e Lênin eram bons leitores, logo os letrados (disse ou insinuou ele) tornam-se sanguinários ditadores. Será? Foi assim o Imperador D. Pedro II? E Juscelino Kubitschek? Deduzi que o colega de ofício, leitor compulsivo, felizmente não é político: viria a ser (em sua própria lógica) um ditadorzinho odiento. Por isso, continuo preferindo políticos com boa leitura. Haja vista, por exemplo, Demóstenes Torres.


Curiosamente, ao ler aquele artigo, entendi que os políticos iriam ignorá-lo, e os intelectuais cuidariam de reagir. Estranhamente, ouvi de alguns intelectuais que um governo não precisa de biblioteca, pois tem assessores etc. e tal... Ah, mas tenho de admitir e confessar: os intelectuais que assim se expressaram já viveram mandatos (uns por voto direto, outros pelo modo “biônico” que caracterizava a “democracia relativa”, assim qualificada pelo “presidente” general Ernesto Geysel).

Pois é... Se é livro, que se jogue fora. Que se pise. Rasgue. Queime.

Uma amiga radialista conta-me que o Ministério da Educação teria emitido um documento a professores de Ensino Fundamental, orientando-os (?) a serem pouco rigorosos quanto a ortografia, regência, concordância e outros itens. Ilustrava dizendo que se o aluno escrever “mensaje”, que o professor considere certo, pois a “mensaje” foi dada. Se isso for verdade, o MEC está nos conduzindo de volta aos ideogramas. Ou às pinturas rupestres.

Em breve, teremos o linguajar esportivo da rádio e da tevê como padrão da Língua. Isso, para não se falar na língua-presa, que se torna coisa oficial. Uma repórter de rádio, comentando as negociações em torno da Celg, citou a estatal federal de energia como “Eletobrás”, em lugar de “Eletrobrás”. E um secretário de Estado também pronuncia assim a mesma palavra.

Faz mal não; eles passaram a “mensaje”. E segundo o escritor ex-político, a política dispensa o bom aprendizado e não quer leitura. De minha parte, insisto no aprendizado, no livro, no bom texto. Rejeito profissionais que não falam corretamente. Sou dos que entendem que quem aprende a Língua, aprende qualquer coisa. E faço valer a antítese.

Com estes argumentos, tenho conclamado personalidades a um debate saudável e sem antagonismos. Quero destacar o valor da informação, do aprendizado, do processamento cerebral dos dados com a finalização no conhecimento. Penso, pois, que o Palácio do Governo deve ter a sua biblioteca (e que seja usada).

Acho que sou bobinho. Ainda acredito que Platão estava certo.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.

5 comentários:

Lílian Maial disse...

Querido amigo,

Para nós, que usamos a língua amplamente (rsrsrsrs), isso é uma tragédia. Porém, o que tenho ouvido por aí é que a língua é que tem que se adaptar ao povo, e não o contrário. Já viu, não é? O "pobrema" vai ser nós nos adaptarmos ao assassinato da lígua.
Bom texto, querido!
Beijos

Ana disse...

Oi Luiz! Como estamos?
É pra te avisar que fechei o Lide Temerária - não sei se mais dá pra ler o pq - e abri o
www.oicomoequee.blogspot.com

beijos

Aparecida Ferreira cardoso disse...

Oi Luiz bom dia. Tem nada de bobinho não, vc está certo certo sim. Só espero q sua mensagem chegue ao destino certo. Sua crítica só tem a contribuir. Q Deus fortaleça a sua luta.
Beijos.

Aparecida Ferreira disse...

Parabéns pela ousadia, Nós precisamos de pessoas q lutem pelo seu espaço e quem consiga deixar uma mensagem de alerta para preservação da nossa cultura.
Beijos.

Zi disse...

Querido amigao poeta!

Sinto honrada em fazer parte do seu grupo de amigos e ter o privilégio de ler artigos (Crônicas e poemas) tão maravilhosos... sucesso sempre... Bjo