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terça-feira, setembro 29, 2009

Culpa minha, sim!


Luiz de Aquino


Meus dias, minhas horas, andam a mil. Preciso de alguns dias com trinta e seis horas, ao menos, porque está difícil cuidar das obrigações e dos encargos, dos deveres e prazeres. Edição de livro novo, revisões, correspondência, telefones, e-mails, filas, trânsito, família, amigos, instituições e entidades, viagens... Sobreviver!

Quando deixamos tanta coisa acumular, corremos o risco de deixar de fazer muita coisa e, o que é pior, fazer mal algumas que exigem maior proximidade da perfeição, já que esta é utópica, impossível, inalcançável. Mas isso de se ser humano é complicado: não abrimos mão do sol, das primeiras gotas de chuva, das flores que desabrocham, da Primavera recém-chegada... Gosto tanto de Primavera que não me permito (d)escrevê-la em minúscula.

A imperfeição fica por conta de algumas falhas. Ou trocas. Letras trocadas, num texto, para o escriba, é o mesmo que a cozinheira pôr sal no café. Troquei de computador há quase um ano, e o Mac não é tão eficaz quanto o Microsoft quando se trata de texto (ou, pelo menos, textos em Português). No antigo, eu tinha ao meu dispor dicionários enciclopédicos e corretores ortográficos, o que dava um certo conforto; agora, tenho de me redobrar em atenção. Por exemplo, nesta máquina é difícil escrever “não” e “além”: preciso insistir, ou as palavras saem sem acento. Embora eu avise que escrevo em Português do Brasil, meu computador teima em corrigir diretor para director. Ou transforma Antônio em António.

Ainda assim, ficam os meus erros. Certa vez, troquei aja por haja e só me dei conta do erro quando o material saiu publicado. Fiquei muito triste e constrangido, envergonhado mesmo. Semana passada, ao enviar a crônica de domingo ao DM, apareceu um Ouve em lugar de Houve, e dei-me conta de que o computador havia engolido o H quando eu fazia a revisão mecânica. O pior foi que, ao anexar o texto ao e-mail, escolhi o texto original e penitenciei-me pelo erro na publicação. Felizmente, pude corrigi-lo no blog e em outras edições eletrônicas.

Logo eu, que vivo alertando colegas jornalistas e professores para errinhos triviais... Os que fazem locuções ao vivo são as principais vítimas de si mesmos. Recentemente, uma colega na tevê esclarecia uma matéria, falando do afogamento de uma moça no Rio Meia-Ponte, em Goiânia. Ao referir-se às águas profundas, e tentando ser o mais clara possível ante espectadores menos escolarizados, ela disse, textualmente: “A parte subterrânea da água...”. Lembrei-me de um governador que, há trinta anos, proferiu essa frase: “Estamos sobrevoando de avião as cidades submersas debaixo d’água”.

Como se vê, somos algozes de nós mesmos. E eu, que me ponho à vontade para despertar nos amigos a consciência do erro, exerço essa prática em mim próprio. Apressado e inquieto, ansioso ou, ainda, precipitado, visto a carapuça e me ridicularizo pelas gafes gráficas, erros ortográficos, concordâncias inadequadas ou regências rebeldes.

Fazer o quê mesmo? Vir a público, aos leitores como que em segredo, à página democrática do jornal para dizer que sinto muito, para pedir-lhes que me perdoem, se puderem. Prometo não errar mais, contudo eu próprio duvido do meu compromisso. Digo apenas, pois, que é um propósito, uma profissão de fé.

Quando errar outra vez, voltarei novamente para pedir novas desculpas.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

7 comentários:

Mara Narciso disse...

Luiz,



Tenho um colega de faculdade, Girleno Alencar, que é formado em História e trabalha como jornalista há uns 30 anos. Ele escreve bem, preenche as necessidade profissionais, sendo o chefe da Sucursal do Jornal Hoje em Dia no Norte de Minas. Ele é avesso à poesia e escritos literários, criticando aos colegas que tentam fazer um texto palatável. Ele afirma que não existe o texto perfeito. Acredita que sempre é possível melhorar aqui e dali. Então ver o erro quando o texto está na tela, nos dá um susto tremendo, pois achamos que é tão gritante que seria impossível não tê-lo visto. Após fazer a revisão, peço ao meu filho que leia para mim, e só então envio para os demais. Como não tenho revisor, recorro a este expediente. Mas os erros continuam aqui e ali. Assim, acalme-se, tranqüilize-se e sorria. Não é preciso um mea culpa publico desse tamanho. Atividades dessa natureza necessitam remendos aqui e ali. No seu caso, uma mera troca de letrinhas.

Boa noite!

Abraço, Mara

Saramar disse...

Ai, Luiz, e quem poderá cumprir tal promessa? Ainda mais nos dias de hoje que, como você contou no início, são assoberbados de coisas por fazer?
Eu, que tenho como um dos ofícios, a revisão de textos, tão elegantemente denominado por você, nesta crônica, ando cometendo todos os erros mais pueris nos meus escritos...

Como disse Mara Narciso, quando o texto aparece, seja no papel, seja na tela (e quando todos já leram), aí sim, vamos nos perguntar como foi possível cometer tal bobagem.

É a lida com as palavras, difícil e cansativa, mas encantadora, não?

beijos

Urda Alice Klueger disse...

Bem, deliciei-me com sua crônica nesta quase magrugada gelaaaadaaa... brrr...
Urda.

Anônimo disse...

Parabéns, belo texto! Vc nunca erra, grande poeta.Mais um livro, um lindo presente para nós leitores. Ireci maria

Anônimo disse...

O maior erro da vida é ter medo de errar.

Como sempre, você foi divinal. Parabenizo o seu gesto de humildade, descrevendo e, por que não?, justificando sua falha. Eu não faria tamanha façanha, pois erro tanto que ficaria mais tempo justificando o injustificável, não me sobraria tempo para desenvolver algum texto. Há pouco tempo li um texto (estou a procura deste, para pedir uma explicação) em que o Ministério da Educação orientava os professores a não serem tão severos perante erros ortográficos, concordância e escrita, que o importante, sim, era passar a mensagem. Concluía: se o texto transmitiu a mensagem, não importa se esteja com j, mensajem. Não concordo, e jamais concordarei. Com isso, estaremos caindo numa geração de Vanuzas e antiprofissionais. Estou sempre pedindo ajuda, quero melhorar sempre, mas de vez em quando um erro, ou outro, é ate charmoso. rsrrs

E como é bom errar, como é ótimo aprender!... Pode ter uma certeza, quero que você me corrija bastante.

Hoje, mais que nunca, escrevo também, PRIMAVERA em letras maiúsculas...

LUCIENE SILVA

Anônimo disse...

Desculpe Mestre!..Mas me levou a um gostoso sorriso...rs
Me soou até terno sua preocupação! Sou tão desponjada com as palavras(isso para ser delicada comigo mesma)(acho que acabei de cometer outro erro..pleonasmo) sei lá!..Não importa! O que importa que tudo que escreve saboreio com prazer!
bju
Marcia

ps:peço desculpa pelo meus erros!

si_monefs disse...

Luiz poeta ou Poeta Luiz, vc errar?
E nós, fazemos o que com tantos erros? Vc está tão acima desses mínimos erros, pois suas cronicas são de tamanha grandeza e sabedoria que nem percebemos esses pequenos detalhes.
A sua correria com certeza é para nos presentear com mais um maravilhoso e delicioso livro que espero com muita ansiedade.
Parabéns!!!
E me desculpe os erros.
Minha sogra com certeza adoraria estar presente no lançamento, assim como todos nós da familia Arantes.
Grande abraço.

Sua admiradora,

Simone