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terça-feira, setembro 15, 2009

Datas de riso e de siso

Datas de riso e de siso


Luiz de Aquino


“Muito riso, sinal de pouco siso”, diziam os avós dos meninos da minha geração. Demorei a entender o que era “siso”. Tinha um certo pudor de perguntar demais, receava broncas, receava que alguém já me ensinara num momento de meus devaneios, e como eu devaneava!

Siso. Juízo. Dentes do siso. Dentes-siso. Dia desses, li numa página de Internet, de propaganda de uma clínica dentária (eles preferem “odontológica”), a palavra “ciso”. Ou terá sido “cizo”? Lutei contra meus princípios, entre eles o de rejeitar categoricamente profissionais de nível universitário que não sabem grafar corretamente palavras do seu próprio ofício. Como aquele pediatra que escreveu “fraudas” (sim, ele se referia àquele paninho que se dobra formando vestimenta para a genitália e o bumbum das crianças). Vislumbrei naquele médico uma vocação para estelionatário (ou político sem escrúpulos, que os há).

Carrego comigo, por conta daquele malfadado provérbio da infância, o receio de rir em momentos sérios, já que evito ser grave nos instantes do riso. O siso. Ah, o siso! Meu filho Lucas, trazendo da escola os aprendizados de intervalos e recreios, soltou-me essa: “Não crio juízo porque não sei o que ele come”. Gostei! Ah, esses garotos escolares, sempre cheios de novidades!

Costumo festejar o 15 de setembro como uma data feliz. Afinal, marca o aniversário do poeta lusitano Manuel Maria Barbosa Du Bocage e, também, da brasileira admirável e decantada Lya Luft. E as vésperas me dão aniversários marcantes, como o de meu primo Léo (10), o do mais brilhante dos nossos presidentes, Juscelino (dia 12, dividido com a minha médica amada Mara Narciso e a jornalista Sueli Arantes); dia 14, meu filho Léo e meu irmão Ângelo. Daqui a alguns dias (19), minha mãe completaria 86 aninhos (que falta nos faz, Dona Lilita!). Como não festejar?

O sábado passado, dia 12, prometia ser feliz. Sempre evoco JK, o maior de todos os bandeirantes, o mineiro com alma gigantesca e olhar profundo não para o longe, mas para o futuro. Bocage, o de versos exatos, viajando do lírico ao erótico e ao chulo, sem perder a técnica, a graça e o talento. Lya, a que expõe com maestria a alma feminina, compondo o time de Gilca Machado, Cecília Meireles, Clarice Lispector e tantas outras menos referidas, mas não isso menores.

Foi Leda Selma, poetisa e contista de fina pena, quem me ligou quase acordando. Contou-me que acabara de ler na Internet: faleceu Antônio Olinto. Sim, o nosso amigo, autor de A Casa da Água e dezenas de outros belos livros de poesia, contos, romance, dicionários, gramática etc. O professor, diplomata, jornalista, crítico etc. e tal. Aquele que, há dois anos, convidado por este poeta, com apoios como os do secretário Kleber Adorno, do prefeito Iris Rezende, dos líderes do Comércio José Evaristo e Giulio Cysneiros, veio inaugurar o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC.

Antônio Olinto nos deixou, pois. O Brasil sente. O Rio de Janeiro e Minas Gerais sentem (especialmente Ubá, dele e de Ari Barroso). Sentem os leitores e escritores de Goiás. Sente mais a Beth Almeida, sua alma-viva. A Cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras será declarada vaga nesta quinta-feira, 17 de setembro.

Nos últimos dez anos, tive com ele bons momentos de prosa sobre poesia e vida. Contava da África e dos Bálcãs, de Ubá e do Rio de outras décadas. Perguntava pela Academia Goiana de Letras, contava da Brasileira, recordava goianos vários e realçava: “Precisamos eleger o Gilberto”. Falava de Gilberto Mendonça Teles. Agora, sinto que Olinto sorrirá feliz se Gilberto vir a ocupar a Cadeira 8 da ABL.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



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4 comentários:

marcia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mara Narciso disse...

Ah Luiz, você é terrível! Quando hoje já é quase ontem venho a internet e leio a sua crônica de aniversário. Mixa temas desconjuntados num conjunto agradável e sensato. É para quem sabe em todos os graus. Mais uma vez, parabéns, e obrigada pela referência generosa.

mm.olive disse...

Pode não ser meu parente mas os gostos pela leitura o são...
Parabéns por essa crônica...gostei.

Luiz de Aquino disse...

Obrigado, MM.OLIVE!

Poxa, tentei localizar você para responder diretamente... Não consegui.

Caso queira, escreva para o meu e-mai: poetaluizdeaquino@gmail.com

Obrigado!!