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terça-feira, setembro 01, 2009

“Piri Jazz” e Cristóvão Bastos



“Piri Jazz” e Cristóvão Bastos

Luiz de Aquino


Quando dói o corpo e a cabeça parece sob pressão, quando as juntas se recusam a flexionar normalmente, os olhos ardem e os nervos parecem sobrecarregados, é hora de ligar o carro e escolher a estrada. Adoro estradas! Se asfaltadas e sinalizadas, oferecendo segurança, melhor ainda. E quando nos sentimos desgastados, tanto faz seguir sem rumo quanto definir o destino e se por a caminho.

Fiz isso na sexta-feira. Escolhi Pirenópolis, de novo. Motivava-me o luar em quarto crescente e as cores do casario no centro quase tricentenário, muito em especial a Rua do Rosário. Até uns sessenta anos atrás, essa rua ligava a Matriz de Nossa Senhora do Rosário (sim, a mesma que foi incendiada pouco tempo após a reforma geral) ao Largo de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Esta, menor e mais bela que a Matriz, foi demolida por razões não muito explicadas. Mas as pesquisas de jovens estudantes que se prestam a ouvir pessoas quase centenárias, bem como debruçar-se sem preguiça sobre alfarrábios empoeirados vem trazendo, devagar, a verdade à tona.



Cheguei quando a noite começava a debruçar-se sobre o verde de matas, as feridas nos montes (a que chamamos jazidas) e o traçado sem esquadro das ruas das antigas serenatas. Estacionei na Rua do Rosário, caminhei poucos metros até o trecho de comércio que, há algumas décadas, seriam “de secos e molhados”. Fiz ponto na Confraria do Boxexa – nome comercial da cafeteria, tabacaria e espaço cultural do meu amigo Bochecha. Ou Boxexa, já que, no Brasil, cultivamos a liberdade extralegal de grafar como bem entendemos os nomes próprios, sejam de pessoas ou marcas comerciais.

Na parte baixa da rua, um palco. O pano de fundo dá-me conta de que acontece ali (não foi o que me atraiu, pois eu não sabia antes) a segunda edição do Piri Jazz, festival de música que levou de volta os que lá estiveram no ano passado. Da ponta do balcão, vi que descia a rua o meu amigo Dimerval, que ninguém conhece. Ou melhor, era o Bororó, baixista genial, marca histórica na música de boteco em Goiânia, instrumentista de um sem-número de grandes nomes do meio musical contemporâneo deste Pais.

“Amanhã (sábado, dia 29 de agosto) vou tocar com Cristóvão Bastos”, disse-me ele. Bororó falava do Quarteto Brasil. Algo de virtuoso, impecável, genial. O grupo atua há quatro anos e, em 2007, lançou na Europa um disco... Ah, vejam o que encontrei na Internet:

O Quarteto Brasil reúne Cristovão Bastos (Piano), Jurim Moreira (Bateria), Bororó (Contra-Baixo) e Zé Canuto (Sax). Ele surgiu a partir do projeto 4 x Jazz, realizado no CCBB, quando o maestro Cristovão Bastos foi convidado a prestar uma homenagem ao pianista Dave Brubeck. Em 2007 lançou exclusivamente na Europa o CD “Bossa Nova – Delicado“, pelo selo Kind of Blue, com composições de Cristovão Bastos, Bororó, Waldir Azevedo, Luis Gonzaga e Dave Brubeck”.


Zé Canuto, Bororó, Cristóvão Bastos e Jurim Moreira, o Quarteto Brasil


Lá, na Rua do Rosário, o Quarteto Brasil mostrou isso aí. Música de mexer com a platéia, fazer o sangue correr mais morno e ativo, altivo. Senti um orgulho indisfarçável, pois metade daquele quarteto estava, muito antes, no meu coração: Bororó, velho amigo das andanças de música e poesia em Goiânia; Cristóvão, amigo de infância, era o garoto do acordeão, referência maior nas festas da inesquecível Escola Evangelina Duarte Batista, em Marechal Hermes, quando o Rio ainda era Capital da República.

Emocionante revê-lo! Melhor ainda foi exercer a tietagem e ganhar um autógrafo no cedê “Curtindo a gafieira”, que cuidei de ouvir logo e reouvir tantas vezes. Um abraço de “até a próxima”, seguido de um pacto: “Indo ao Rio, aviso-o para marcarmos um encontro em Marechal Hermes”.

Ele sorriu aceitando. Espero ir logo.



Luiz de Aquino ( poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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10 comentários:

Anônimo disse...

Quero conhecer Pirenópolis!
Urda Alice Klueger
Blumenau-SC

Sônia Marise disse...

OI, poeta!
muito gostoso esse seu passeio. Pirinópolis é mesmo encantadora. Nese contexto, então...deve ter sido bem gratifiacnte reencontrar essas pessoas que lhe são caras e que, por uma razão ou outra , fizeram bater mais alegrinho o seu coração. Viver é isso: desfrutar bons momentos, onde e com quem se estiver feliz.
Um abraço,
Sônia marise

Márcia Filgueiras disse...

Puxa, fiquei encantada que me deu vontade de sair agora de brasilia e pegar a mesma estrada e ir a Pirinópolis. Pirenópolis lida em suas palavras se tornou poética e convidativa. Parabens!Abraços a Pirenópolis e a você também!

marcia disse...

Como disse anteriormente, Pirinópolis ficou poeticamente atrativa!
bju
ah..vou add o seu blog no meu ok.

nilson disse...

Excelente texto. Além do atrativo das palavras, a diagramação está ótima.

Maria Helena Chein disse...

Tão gostosa essa crônica: a estrada, Pirenópolis, o quarteto, música em noite
bem especial!... E, de quebra, informação para enriquecer a gente.

Beijão.
Maria Helena

Mara Narciso disse...

Luiz,



Pirenópolis tem sempre um rol de surpresas até para você que sempre passa por lá. Imagino quantos “oh” ouvirá de forasteiros em primeira viagem. Cada pedra do caminho( eu já vi as fotos belas) oculta pegadas de três séculos, e cuida de não desapontar quem chega. Ainda apareço por lá!



Boa noite!



Abraço, Mara

CMS disse...

Salve, Aquino!
Meu dia ficou mais alegre por encontrá-lo, após tantos anos de distância - mas nunca de esquecimento!
Gostei do jeitão amigo do seu blog e de ver que sua verve continua radiante.
Um abraço apertado deste seu longínquo camarada do CPII,
Celso Serq eira

Luiz de Aquino disse...

Muito obrigado, querido Celso! Poxa, moço, você sumiu, hem? Participei de vários encontros, no Rio, com ex-alunos CPII...

Grande abraço!

Luiz de Aquino disse...

Comentários colhidos no blog "Discutindo Literatura Crônicas" (http://discutindoliteraturacronicas.blogspot.com/2009/09/piri-jazz-e-cristovao-bastos-luiz-de.html#comments)

Luciana Pessanha disse...
Bela a Pirinópolis do texto, meu amigo! Seus textos são belíssimos!
Abraço

2 de Setembro de 2009 11:58
Eliana f.v. - Li Andorinha - disse...
Deliciosa a tua decisão poeta Luiz de Aquino...
Belo texto e ilustração...fica em nós a energia boa desse amor bonito que tem por esta cidade e mais lindo ainda o carinho pelos amigos! Grata pelo passeio colorido que nos ofereceu
E que vontade me deu de conhecer a poética cidade de Pirenópolis!

abraços com carinho agradecido
da Eliana