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sábado, setembro 05, 2009

Escrito na testa?

Escrito na testa?


Luiz de Aquino


Pessoas sensíveis percebem, pelo olhar ou pela sequência de gestos, o que se passa na alma de outrem. Há os que carecem ouvir para entender o próximo. A percepção da alma alheia enseja muito conhecimento. Mas todos somos metidos a entender de tudo, não é mesmo? Qual é a idade dos provérbios? Alguns se perdem na História, estão na Bíblia; outros surgiram no eterno caminhar da humanidade, romperam fronteiras, sobreviveram ao tempo vital de línguas hoje tidas por “mortas”.

Sim... As ideias sobrevivem até mesmo aos idiomas!

Certo é que nos metemos a opinar sobre tudo. Curiosamente, quando mais estudamos um assunto, quanto mais dominamos um tema, menos opinamos sobre ele. Tenho amigos que gostam de aconselhar sobre tudo. Outros, de encontrar defeito em tudo, e incluo-me entre estes. Um quadro torto na parede, uma letra no lugar errado, a completa ignorância da regência e da concordância (quando professadas especialmente por professores e jornalista, dói mais ainda de se ouvir), a gravata torta... Ah, a gente nota, não é?

Gosto de recordar os tempos de escola, quando estudávamos Platão e seu sistema de Educação. Parecia cruel aquilo de o Estado tomar as crianças dos pais, preparando-as para a vida social, submetendo-as a filtros temporários em que se revelavam serviçais, empresários, profissionais liberais ou políticos. Para Platão, as pessoas de governo eram as mais sábias, as que detivessem maior escolaridade (isso seria independente da vontade da pessoa, mas selecionado entre os de melhor aproveitamento).

Nos últimos vinte e cinco séculos, Platão remexeu-se muitas vezes na tumba (para evocar um antigo dito popular). Ou, na possibilidade da reencarnação, as vidas posteriores devem ter aprimorado seu espírito de filósofo. Mas quanta coisa esdrúxula se vê por aí, se considerarmos que o sábio grego estava certo! E devia estar, ou não sobreviveria dois mil e quinhentos anos por suas ideias.

“De médico e de louco, todos temos um pouco”, diz a sabedoria milenar. Os médicos multiplicaram-se em especialidades e mesmo em outras profissões. Em torno da Medicina, surgiram enfermeiros, farmacêuticos, bioquímicos, veterinários, psicólogos... Não sou capaz de enumerar todos os ofícios derivados, mas pode se dizer que desde os nutricionistas até os cabeleireiros e pedicuros (agora chamados de “podólogos”) são crias da Medicina.

Mas a petulância dos “sábios de esquina” é muito maior que a simplicidade científica de um filósofo grego. Isso de se dizer que policial que mata bandido merece medalha é dar poder de julgamento instantâneo e irrecorrível a um agente, a quem compete o policiamento ostensivo, a repressão a distúrbios e encarregados de investigação. Não precisaríamos mais de juízes, promotores e advogados. Se é verdade que bandido traz escrito na testa essa condição, será que os policiais sabem ler isso? Ou apenas os deputados eleitos sabe-se lá por quais artifícios?

Escreveram algo na minha testa, certamente. O que será? Poeta? Puxador de assunto? Intransigente? Intolerante? Carinhoso?

Tudo mentira! Ninguém tem nada escrito na testa. Se o tivéssemos, certamente teríamos políticos de muito melhor qualidade. Poeta também, é claro. Mas ninguém precisa de votos para ser poeta.

Se os policiais soubessem ler isso, aquele brasileiro assassinado pela Scotland Yard estaria vivo.




Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.

15 comentários:

marcia disse...

Realmente es um mestre! Um texto poeticamente objetivo e claro! Parabens. Ainda bem que não sei de quase nada dessa vida, rs.
Mas particulamente, prefiro que escreva sobre Pirinópolis,dos encantos da alma, da beleza da vida,apesar de gostar de Platão, rss.
bju

Márcia disse...

Perfeito...Fantástico como fala sobre coisas sérias,tristes de uma forma tão poética,adoro sua sensibilidade e intimidade com as letras.
Beijos poeta

Anônimo disse...

Caro Luiz
brilhante artigo. Não está escrito na testa mesmo. É duro terminar uma tradução em dodecassilabos e ouvir o nada da tumba de valéry em agradecimento.
Eric

Anônimo disse...

Puxa vida, até que enfim chegou um sábado calmo prá eu poder vir aqui e matar as saudades da sua prosa tão saborosa (rimou, o que se há de fazer). Essa coisa toda me lembrou daquelas vendedoras de shopping que te tratam mal só porque você anda meio assim, digamos,"despojada" e de todos os porteiros que abrem a porta para ladrões bem apessoados. Realmente meu amigo, não está na cara não. Está lá dentro,tudo escondidinho...
Bjk Lilia
PS Nunca consigo postar nessa coisa, sabe DEus por que.

Valéria Aureo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Maria José Lindgren Alves disse...

Gostei muito de sua crônica. Sábio Platão, sábio Luiz Aquinol
Maria Lindgren

Silvia Azevedo disse...

Luiz, Gostei tanto de “Escrito na testa” que resolvi escrever sobre algumas impressões que tive, ei-las:
Posso afirmar, com aprimorado espírito de “filósofa”, que “Escrito na testa” está um texto primoroso por causa dos temas diversificados capazes de aguçar nossa percepção crítica no decorrer da leitura. Lembrei-me dos provérbios, dos gestos, histórias lidas com fantasias, tentei visualizar os episódios e algumas informações sobre as línguas “mortas” e em transformações.
“Enquadrei” pessoas que me deixam completamente aborrecida por olhar detalhes como uma costura torta, organizar golas de vestidos, em outras pessoas, como se fossem “experts” em alta costura, ou comentar sobre cor de batons, cabelos, peso, protuberância na barriga, tipo de nádegas, falar da vida pessoal, mesmo não tendo interesse nenhum em saber se você “deixou de viver ou deixou de morrer”.
Eu não noto a gravata torta, mas noto a falta de regência existente no país junto à falta de concordância para tomada de decisões que beneficiem ao bem comum. Por mais que eu leia as regras de regência e concordância não consigo aplicá-las com esmero, mas me esforço muito. As que eu uso, cotidianamente e informalmente, representam meu meio, minhas raízes e para mim são valiosas porque indicam pertencimento.
Concordo com o autor que Platão remexe na cova e se arrepende por ter imaginado que a sabedoria atribuída por ele, a políticos daquele tempo, seria usada como argumento para dar crédito a uma classe, que ao invés de promover um trabalho eficiente, eficaz e confiável, está se sobressaindo pelas mentiras e corrupções não só pelo discurso, mas também pelas ações.
Quanto à escolaridade somos cientes de que alguns educandos não possuem motivação pessoal e não se esforçam para adquirir conhecimentos. Será se o conhecimento é para todos? Conhecimento é uma tarefa árdua que requer disciplina, leitura e humildade para compreender que sempre haverá alguém mais sábio que poderá nos ensinar algo. E o melhor aproveitamento? Platão, caso levantasse da cova, ficaria estupefato diante das reivindicações de alguns educandos. Muitos deles querem somente nota e diploma, afirmando com veemência que não irão exercer aquela profissão.
Não tem filosofia mais realista do que a proferida pelos “sábios de esquina”. Eles desenham os fatos com palavras ferrenhas, falam o que vêem, pesquisam, descobrem as proezas do dia-a-dia, emitem opiniões, criticam e ajudam mudar o “status quo”. Eles não vêem a realidade com olhos utópicos. A poesia é nua e crua. Quem é o poeta para o “sábio de esquina”? “Puxador de assunto? Intransigente? Intolerante? Carinhoso?” Não. Eu sei, mas não respondo.
Ah! Luiz de Aquino! Que crônica excelente! Obrigada por ter me proporcionado uma leitura tão agradável.

José Carlos Barbosa disse...

Estando escrito na testa é fácil, né Luiz?
Abraços do Zecarlos.

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Luis, escrever sobre o nada e de quebra ainda dizer tudo, é obra de quem consegue fatiar fino até o abtrato. Você se fez gênio nesse texto. Realmentre ninguém tem nada escrito na testa, mas você bem que percebe mais que nós... Parabéns. Fiquei fã. Tornarei, com certeza.

abs. Bom domingo junto aos seus.

P.S.: já estou linkando-o.

Mara Narciso disse...

Luiz,
Dentro da disciplina “Ética e Legislação da Comunicação”, estou lendo o livro “Mídia e Violência” de Sílvia Ramos e Anabela Paiva. Ainda estou pelo meio, mas já vejo a assustadora arbitrariedade da polícia e de como ela manipula a imprensa para mandar recados aos bandidos ou aos formadores de opinião. Assim, embora a voz rouca das ruas mostre sua revolta com “os direitos humanos para bandidos e faltas desses mesmos direitos para gente correta que está trancada em casa”, em todas as situações prudência e cautela não fazem mal, nem mesmo para a polícia. Quando somos vítimas diretas dessa violência, como já fui, é um desafio mudar a nossa forma de pensar. É preciso tirar a viseira e analisar com calma para não sermos nós a massa de manobra.
Boa noite!
Abraço,Mara

Antonio Americano disse...

Caro Luiz,



Como sempre sua crônica demonstra que você está ligando a todos os temas. Um deputado dizer que a polícia deveria ganhar medalha por matar bandidos, então se matar deputado ladrão deveria ganhar o que? Estátua em praça pública?

Abraços

Americano

Antonio Americano disse...

Caro Luiz,



Como sempre sua crônica demonstra que você está ligando a todos os temas. Um deputado dizer que a polícia deveria ganhar medalha por matar bandidos, então se matar deputado ladrão deveria ganhar o que? Estátua em praça pública?

Abraços

Americano

marcia disse...

Caro e Nobre Poeta, cade Pirinópolis! Estou aguardando versos e prosas.
bj

Luiz de Aquino disse...

Márcia querida,

Pirenópolis vem aí, em livro! Dia 6 de outubro, em Pirenópolis (ainda não sei o local e o horário), lançamento de "Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis"- mais um livro meu (desta vez, de crônicas).

Luiz de Aquino

Luiz Bento Pereira disse...

Comentário colhido do Diário da Manhã (Opinião do Leitor), com que não concordo (está claro), mas divulgo aqui em nome da liberdade de expressão:

Luiz Bento Pereira em 06/09/2009
Poeta Luiz Aquino, meu amigo virtual, pois não lhe conheço pessoalmente, embora acompanhe seus "posts" desde que abracei essa terra para morar (1985). Saúdo-o pois, com a admiração que sempre lhe devotei, mas não resisto hoje, diante de sua indignação avêssa e de antemão perdoe-me erros de concordância verbal e nominal, pois não sou acadêmico e pelo que me conheço e pelo que sei de mim mesmo, "nasci" para escrever, entre outras coisas. Acho que um homem de qualidade, deve e pode se meter em todo tipo de assunto e digo até que partindo daquela premissa de que, quem não discute futebol, politica e religião, não necessàriamente nessa ordem, já morreu e so falta deitar. Pra encurtar o assunto, eu acho que o nobre amigo, misturou alhos com bugalhos, pois aquele cidadão Brasileiro que morreu em Londres (onde não precisaria estar, porque o Brasil é um pais maravilhoso e um dos melhores lugares do mundo para se viver...) foi um lamentável engano da policia ingleza, certamente apavorada com os recentes acontecimentos no mundo de terrorismo e pronto, foi assim. Quem tá na chuva, como se diz, é pra molhar. Tomou um avião, subiu numa moto, você tem que estar preparado para a morte. Quanto ao fato do policial receber medalhas por matar bandido, ao que parece alguma proposta oficial, que não tomei conhecimento na integra, também até certo ponto, não estou muito de acordo, mas, porém, contudo, todavia, seria o caso de "não tirarmos o chapeu" para os advogados picaretas de porta de cadeia que, com seus argumentos esfuziantes e mirabolantes, conseguem fazer a cabeça dos Juizes que dizem cumprir a Lei (ipsis-liperis) mas na verdade, alguns se comportam como juizes de futebol, tomam decisões de acordo com as lágrimas que correm nos tribunais. Se for um negro é preconceito, se for um pardo, também, se for um branco o dinheiro pode fazer a diferença, se for parente de um politico, vém o corporativismo e se for um policial que se desvia do bom caminho, não pode ser julgado pela justiça comum. Por favor, meu amigo, não me venha com essa conversa fiada de que bandido é uma vítima da sociedade. Então todos os comunistas no principio do século estavam certos? Eu já fui muito mais vermelho por dentro do que a candidata Marina, mas que me perdoem os comunistas eu não concordo com isso. Bandido é bandido e nasce bandido e infelizmente o Deus que inventamos não chama para "recall". E, se Deus não chama para "recall e a nossa justiça, "interpreta" de forma abusiva, algumas Leis muito claras, em favor do réu, se rendendo aos argumentos mercenários de advogados de defesa, estamos mesmo então, nas mãos do Diabo. E se algum policial, mais exaltado, ali no flagra, resolve no calor da emoção, executar um ou outro, que me perdoe todos os leitores, eu também não concordo, mas se for bandido mesmo, meus olhos "se fecharão" e como se diz, porque não "lavar as mãos". A sociedade precisa do rigor e a policia precisa de mais liberdade de ação e mais autonomia, pois a cada instante que um bandido é solto, o primeiro pensamento dele é se vingar do policial pessoalmente ou ameaçar a sua familia. Por isso a nossa sociedade está totalmente nas mãos de bandidos.