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sábado, março 06, 2010

Poesia na moda, de novo

Poesia na moda, de novo


Luiz de Aquino




O primeiro verbo relativo a versos foi “recitar”. Depois, como se ficasse tácito que recitar era coisa de criança, apareceu-me “declamar”. Os poetas daquela pátria dos anos de 1970 preferiram plantar e deixar consolidar, na década seguinte, o “falar poesia”, em vez de declamar, recitar, reclamar...

Bem, reclamar é algo que nos foi vedado por mais de vinte anos. Vai daí, tornamo-nos reclamadores tenazes e formais. Se com toda a repressão já íamos às ruas, imaginem quando deu para sentir que era possível ir às ruas e passeatar sem repressão! Só que o sonho de liberdade não era algo unânime, como pensávamos nós, os mais exigentes. Ou menos aquinhoados.

Já pregamos poesia nos ônibus, feito pastores da palavra. Aliás, pregamos poesia nos ônibus de duas maneiras – discursando, como religiosos insistindo em consolidar suas seitas, e colando os textos para que os passageiros pudessem ler. E os ventos da liberdade, naqueles primeiros anos de 1980, sugeriram-nos uma nova expressão para as récitas: “comício poético”.

O tempo passa, os das universidades já não dizem tanto “a nível de...”, mas teimam nas locuções verbais com gerúndio e na troca de “em que” por “onde”, além de aplicarem erroneamente a palavra “enquanto”. Enquanto isso, a língua portuguesa do Brasil sofre um abalo de onze graus na escala Richter, algo maior que os terremotos no Haiti e no Chile. Doutos letrados ditos imortais acorrem, acodem, tentam explicar o que a gente começa a descobrir: essa reforma é uma lástima. Portugal, o berço da “última flor do Lácio”, torceu-lhe o nariz e as outras nações lusófonas, também. No Brasil, a reforma chegou fácil à imprensa.

Adormeço minha face jornalista, enfatizo as nuanças das letras em mim. Vou a escolas e falo da escrita e da leitura, incentivo crianças e jovens à poesia e ao canto, à contação de causos e à pesquisa em livros. Falo poemas, declamo, recito... Cometo comícios poéticos para professores e alunos (e pais, também) em escolas municipais de Goiânia.

A população está viva, descubro eu. Viva para aprender e exercitar o raciocínio da Língua, seja ela para falar, escrever e, sobretudo, pensar. Crianças gostam das historinhas tradicionais e inventam as suas. Cantam cantigas religiosas e de temas infantis, algumas das velhas e esquecidas brincadeiras de roda. Por que não revivem, nas escolas, as rodas de cantigas, hem?

Mas esse despertar para o lúdico inteligente já acontece. Vejamos: em plena quarta-feira, tive tarde de cantoria e poesia com crianças na Escola Governador Olinto de Paula Leite (conveniada com a Prefeitura de Goiânia); à noite, falei poemas para uma platéia adulta. Acompanhei, neste ofício, as “Marias” reunidas pela psicóloga Maria Luiza de Carvalho (Bethânia, Dóris e Patrícia, entre outras Marias), no Cappuccino Paris.

Nos jornais, o editor Antônio Almeida, mais conhecido como Antônio da Kelps, desperta uma antiga queixa: o descaso com que a Universidade Federal de Goiás trata os escritores locais, ignorando a produção livresca da terrinha em favor de obras de outras origens. Os professores da UFG (e das demais instituições de ensino superior) responderão que nós, goianos, escrevemos muito mal. O assunto tende a esticar: já participei de encontros com departamentos de Letras e Reitorias, sem qualquer resultado que nos fosse favorável.

Retorno à reforma da escrita e imagino que a campanha em terra brasilis, para que fosse implantada de imediato, atendeu apenas aos interesses dos fabricantes de livros, que cuidaram de prover os canais de imprensa e, ato contínuo, reimprimir milhares e milhares de títulos de livros, tudo dentro da nova ortografia.

A briga por livros no vestibular tem duas facetas: os escribas sentem-se prestigiados quando incluídos (mas os das universidades, quando optam por adotar os locais, preferem os de seu meio acadêmico). Já os livreiros, para estes a indicação de obras permite a ampliação expressiva das vendas.

Em suma: o “acordo ortográfico” vale tanto quanto os vestibulares. São belos instrumentos para se vender livros.

Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

7 comentários:

poeta do inverno. disse...

pior é saber que é verdade o que está no texto.

alkymena solares disse...

É verdade Luiz de Aquino, a poesia está na moda. Nunca vi tanta gente escrevendo poesia como ando vendo agora.Nem todos que se aventuram nesta senda tem a veia poética brilhante, porem tudo vale a pena...
Escrever é preciso, para não deixar morrer a língua brasileira, tão intensa em seus vocábulos, tão profunda em sua emoção.
Um grande abraço. Rida

Iracema disse...

Luiz,como você, também quero ficar na moda. Por isso, envio-lhe um pouco de minha poesia.
Um pedaço de mim
Meu rosto
Misterioso.
Impressionista.
De emoções periféricas.
De decisões súbitas.
De esperança.
De zanga sem raiva.
De raiva sem ódio.
Rosto que não vale nada
Sozinho.

Mara Narciso disse...

Elogiável a sua atitude de estimular a leitura entre crianças. A pior maneira é impor leituras de temas que os jovens não entendem numa linguagem inatingível até para adultos. Então, com brincadeiras e temas atuais, há mais chance de convencimento de que leitura não é chata. Sobre a reforma, tenho imensasas dificuldades com o uso do hífen. Li mil vezes e ainda estou no começo. É inquestionável o uso econômico da mudança.
Achei a sua foto ótima, jovial, num lugar agradável e convidativo à leitura. Vi também muitos papéis(tem acento?) na tela. Você caçou mais uma boa briga com essa crônica.

Antônio Americano disse...

Caro Luiz de Aquino,
A respeito da tão falada reforma ortográfica, recentemente terminei a leitura de um livro do SARAMAGO, edição PORTUGUESA, e pude verificar a quantidade de palavras, que se lidas isoladamente fica-nos difícil de entender do que se trata. No contexto da frase, podemos entende-las Mas aí pergunto, qual o motivo da reforma, não era para unificar a linguagem? Com certeza na edição brasileira do livro de Saramago foram feitas as devidas “versões” das palavras para nós desconhecidas.
Abraços
Americano
PS. Quando retornar a Goiânia levarei para vc. alguns livros de autores e edições de Portugal.

Luiz de Aquino disse...

Caríssimo Americano,

O escritor José Saramago não aceita que seus livros, ainda que edições brasileiras, sejam adaptados à nossa linguagem - e, ao meu ver, ele está certo. Vai daí, suas obras, sejam em edições portuguesas ou brasileiras, sempre têm a mesma linguagem, e nossas linguagens são de fato diferentes.
Portugal não aceitou esse acordo (o povo não aceito, nem os escritores, nem a imprensa nem o sistema de ensino). Aqui, a mídia a impôs ao povo goela abaixo, com a tevê e os jornalões e revistas nacionais incorporando de imediato essa coisa.
O que há por trás disso? O interesse das grandes editoras que, consta nas conversas informais que temos com pessoas entendidas, são "brasileiras" de fachada, pois a lei brasileira não permite que editores sejam estrangeiros, mas, como sempre, encontrou-se uma brecha para associações inusitadas, ou seja, os "laranjas" estão na ordem do dia.
O mesmo se dá com os proprietários de jornais e revistas. Há interesses estrangeiros fortíssimos, e o filão se deu na reedição da arrasadora maioria dos livros de consumo imediato. Editores, no Brasil, prestam um desservido à vida brasileira, editando tão-somente livros técnicos ou literatura traduzida. Existem centenas, milhares, de bons escritores de literatura em todo o Brasil. As editoras não editam poesia, porque "não vendem", o que é uma deslavada mentira. O problema é que poesia expõe as almas dos escritores e do povo, chega carregada de filosofia, e isso é perigoso para eles. Então, editam jovens escribas que produzem romances que falam de vampiros e outras bobagens, ou de velhos que se dizem bruxos e escrevem mal, como Paulo Coelho. Dizem que PC é um fenômeno editorial (é, $im), mas fenômeno literário ele não é. Fenômenos literários, temos aos montes, mas os editores não nos querem. Nós, escritores nacionais, podemos apregoar uma identidade própria, podemos nos opor ao domínio do capital estrangeiro (por isso inventaram a ditadura de 64, inventaram que somos comunistas e que comemos criancinhas; não é verdade, as mais novas que tenho comido já passam bem dos 30 anos).
Saramago mostrou-se patriota (sobretudo se levarmos em conta a máxima de Fernando Pessoa, "Minha Pátria é a Língua Portuguesa"). Nós, brasileiros, ficamos escravos da imposição do poder de capital e de mídia dos grandes editores, com o beneplácito (sei lá a que custo) de uns poucos intelectuais sobre os quais mantemos, nós outros, os narizes torcidos.

Luiz Delfino de Bittencout Miranda disse...

O que me fornece esperanças, meu caro poeta Luiz de Aquino, é que a poesia insiste, alguns escritores insistem, em manter a verdade por este meio incrivel que é a magia do escrever.
Não esatmos sozinhos, ainda bem.

Abraços

Luiz Delfino