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terça-feira, junho 29, 2010

A briga entre a verdade e o mito

A briga entre a verdade e o mito


Mara Narciso*


Uma moça brasileira esteve nos Estados Unidos participando de um intercâmbio. Na casa onde se hospedou, havia quatro moradores, e não tinha chuveiro, apenas uma banheira. As pessoas usavam toalhinhas para fazer a higiene corporal. Ao final do dia molhavam as tais e as passavam nas axilas e nas partes íntimas. A moça, mal chegou, recebeu o codinome de Miss Clean, em alusão aos dois banhos de imersão que tomava diariamente.
Um ginecologista reclamava da falta de banho de algumas mulheres, e ainda, que nem todos os humanos se utilizavam de papel higiênico, assim, durante o exame local, exalavam um odor (para usar uma palavra suave), tão asqueroso, que desencadeava ânsia de vômito no examinador. A cena dantesca vista e sentida parece ter saído de um pesadelo. No século XXI é difícil imaginar que isso ainda possa existir.
Os índios brasileiros, no seu ambiente natural, pulam na água diversas vezes, tomando uma série de banhos diários, e desse hábito resultou um povo limpo. Dizem vir deles o costume de os brasileiros tomarem banho todos os dias.
Um homem foi expulso da cama do casal devido ao rastro de gordura deixado sobre os lençóis no lado onde dormia. A mulher não suportou a crescente falta de banhos, deixando os cabelos fedendo e pregados de gordura. O quarto exalava um mau-cheiro nauseabundo. Melhor nem mencionar as cuecas que ela lavava.
Alguém gasta duas horas ao dia em dois banhos, no começo e no fim do dia, se utilizando de um sabonete inteiro de cada vez. O resultado de tanta limpeza é alguém inodoro, insípido e colorido, pois a cor da pele não sai na água. Apenas que o planeta reclama de tamanho desperdício de água.
O rapaz bonito, não trabalhava. No começo de um dia frio, já recendia um horrível cheiro de corpo. Pelo fedor que exalava, não via água há muitos dias. Não há odor humano que não desapareça com água e sabão.
Algumas compulsões podem escravizar o corpo e a alma das pessoas. Uma mulher tomava banho, trocava de roupa, descia as escadas do prédio e, chegando à rua, voltava para outro banho e outra troca de roupa, até a total exaustão física.
Uma reportagem gravada na porta do banheiro dos aviões mostrou que boa parte daqueles que viajam voando não lavam as mãos após usar o sanitário. Nessa linha, olhar dentro dos sapatos de algumas pessoas expõe uma cena inesperada: muita terra molhada pelo suor e seca ao vento, pelo fato de pisar no chão e depois calçar os sapatos sem lavar os pés. Inacreditável!
Os japoneses, que têm fama de ser o povo mais limpo do planeta, desenvolveram a arte do banho, e quando podem, mergulham no ofurô. Por outro lado, a fama de pouco afeitos ao banho persegue os franceses. Estrangeiros reclamam do cheiro desagradável nos locais públicos, como o metrô, por exemplo, e dizem vir da falta de banho a inspiração para a imbatível indústria de perfumes.
Nas localidades de clima quente, o problema da fuga ao banho cresce quando chega o inverno. O gasto com água se reduz pelo abandono desse saudável hábito. Há quem fique um mês sem lavar a cabeça. Troca de roupa, mas não toma banho.
Ninguém em sã consciência vem a público falar desse tema. Melhor fazer de conta que todos seguem os ditames da civilização, que esconde o nosso lado animal com exigência de limpeza total. Vamos abraçando com tal vitalidade essas regras, que os americanos chegaram ao cúmulo de produzir a “pílula de perfume”. Devem ser tomadas duas vezes ao dia, e após duas semanas, a mulher - sim, é para o sexo feminino-, exalaria odor de rosas em sua genitália.
Boa parte da população toma dois banhos ao dia, lava os cabelos quase todos os dias, lava as mãos dezenas de vezes, escova os dentes quando come, usa fio dental, lava as partes pudendas após usar o banheiro, utiliza desodorante, xampu, sabonete íntimo, e perfume, pois a indústria precisa faturar. Então se assusta ao imaginar os reis e rainhas, de outrora. Pessoas muito chiques, vestidas com toda aquela pompa, no meio de ouros e preciosidades, sendo abanadas por plumas, não devido ao calor, mas para disfarçar o mau-cheiro corporal, pois não se utilizavam desses recursos.
A saúde humana melhorou com a higiene dos corpos, das casas e dos alimentos. E antes de colocarmos o corpo de molho, vem a pergunta: afinal, nossa fama de brasileiros asseados é real ou imaginária?



*Mara Narciso é médica e faz jornalismo – 27 de junho 2010

8 comentários:

José Aloise Bahia disse...

Parabéns Luiz: gostei muito... Abraçosempre do amigo Josealoisebahiabhzmg

Rosaly Senra disse...

A fama dos brasileiros de asseados é real. Impossóvel viver sem banho. Se herdamos isso dos índios, benditos sejam!
Visite o blog Quitandas de Minas!

LiLa BoNi disse...

AMei estar aqui...
Obrigada pelo convite!
Parabéns p todos !!!!

Poeta Lêda Selma disse...

Dizer o quê?! Eca, eca, eca!!! O artigo da Mara bota o dedo na sujeira corporal (humana poderia ficar ambíguo)do primeiro mundo. Por aqui, o banho é sempre muito bem-vindo; que continue, pois para o brasileiro, que gosta tanto de "coisa importada", imitar os gringos, nada custa. "Se é francês, é chique", não é assim que pensam muitos? Eu, hem?! Lêda Selma

Mara Narciso disse...

Difícil alguém vir a público dizer que não gosta de banho.
Luiz, obrigada pela oportunidade; e aos leitores, agradeço a atenção da leitura e do comentário.

Willians Rodrigues disse...

Interessante, gostei muito, do ritmo ao conteúdo, e obrigado pro fazer-me lembrar dos índios.

Madalena Barranco disse...

Olá Mara,

Seu texto cheira bem! O hábito do brasileiro é um dos motivos que o torna gente calma e simpática, pois a água além de lavar, também acalma.
Abraços.

Maria Helena Chein disse...

Luiz,
Li suas duas últimas crônicas: sobre o ilustre Gomes Filho e sobre assuntos da Copa,
e também vi a de Mara Narcisa com a questão dos banhos em diferentes culturas.
Ao lado dos conteúdos dos três artigos, minha observação: Mara tem seu estilo correto, direto;
você tem sua verve de cronista que fica bem próximo do leitor e interroga (o leitor ou você mesmo ou um terceiro), afirma categoricamente, brinca e expõe sentimentos.
Como dizem (inclusive Fernanda, neta de cinco anos): cada um é cada um.
Beijo.
Maria Helena