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sexta-feira, julho 16, 2010

Autoridades, ídolos e mídia

Autoridades, ídolos e mídia


L.deA.



Fé pública. Imagem pública. Autoridade. Ídolos sem essência.


Que tempos, hem? Enquanto a nação de chuteiras vislumbra em telas de plasma, LCD ou LED as cores vivas da alegria africana, exaltando a ênfase em amarelo-ouro que veste os tórax dos mestiços brasileiros em busca do sexto título mundial, uns raros mequetrefes com poses de poder atuam contra a vida.

Atenção, Brasil! O DENATRAN (ou o CONTRAN) resolveu que os agentes de trânsito não precisam parar condutores para notificá-los sobre infrações cometidas, basta anotar e mandar o boleto pelo correio – afinal, os agentes de trânsito têm fé pública. Desde então, a expressão “fé pública” virou varinha de condão. Por trás dessa “fé pública” os agentes tomaram gosto em emitir multas à vontade, à revelia do multado. As mais freqüentes referem-se ao uso de telefone celular e ao não-uso do cinto de segurança.







Conversando com um jovem agente de trânsito, desses que usam, em Goiânia, o uniforme amarelo-ouro sem ser craque da Seleção Brasileira, ouvi dele justamente isso: “fé pública”. A coisa, então,  torna-se o velho jogo de uma palavra contra outra, com a irreversível desvantagem do cidadão multado; e contra a “fé pública” não há defesa. Como provar o contrário? Uma testemunha dentro do carro sempre será passível de suspeição; a constatação de que, no momento da multa, o celular do condutor multado não era usado não prova nada: “Ele pode ter usado um celular de terceiros”, alegou-me o moço que tem “fé pública”.


Ao mesmo tempo da Copa da Mundo, alguns outros brasileiros, imbuídos de um poder que lhes dá a notoriedade na mídia ou o fato de já ter sido agraciado com o benefício da “fé pública”, resolveram matar mulheres: o goleiro Bruno, capitão da equipe de futebol do Flamengo, para evitar o pagamento de pensão alimentícia à mãe de um  provável filho seu, concebido (segundo ele próprio) durante uma orgia; o advogado e ex-policial militar paulista Mizael Bispo, por se sentir incomodado com a imaginável possibilidade de a ex-namorada vir a curtir outro corpo, bem como fazer declarações e juras de amor para outros ouvidos que não os seus. E partiram, ambos, para a matança.


Mizael, ex-policial, talvez não tenha perdido o calor da farda; ou pratica a auto-exaltação por ser bacharel em Direito. Num ímpeto de semideus, decidiu eliminar a ex-namorada. Armou-se de tantas provinhas para constituir um álibi que despertou suspeitas do delegado que investigava o sumiço da advogada Mércia. Bruno cercou-se de amigos, parentes e namoradas para criar uma estrutura intrincada que, tal como no caso Mércia-Mizael, pecou por excesso. E o desaparecimento de Eliza é, agora, muito bem compreendido por quase toda a população brasileira.

Pois é,  Perdemos a Copa! A nação do futebol voltou atenções para os casos das moças trucidadas com requintes de crueldade. E a atenção aos jogos da Copa e aos assassinos do sul-maravilha fizeram com que a Pátria das chuteiras se esquecesse da tragédia que vitimou milhares em Alagoas e Pernambuco. E pelo silêncio de alguns canais de notícias, por pouco a nação viraria as costas também a um caso horrendo em Santa Catarina – o estupro de uma menina de treze anos por dois adolescentes que, também muito jovens, aprenderam cedo a dar carteiradas, desafiando os desagradáveis com o tradicional bordão “Você sabe com quem está falando?”.

Nas multas misteriosas dos agentes goianienses,  nas mortes de Eliza e Mércia e, ainda, no estupro da menina de Florianópolis fica bem nítido esse desafio à lei e à sociedade: os caras estupram, matam e multam porque têm a autoridade da “fé pública” (ainda que o público duvide de sua legitimidade) ou a capa do poder de família, seja ele um distintivo de delegado de polícia do pai de um ou o volumoso patrimônio que dá ao pai do outro um poder capaz de interferir na política. E, neste caso, se bobearmos, até a Justiça pode se tornar esquecida.



* * *



Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

9 comentários:

Romildo Guerrante disse...

Pois é, Luiz, aqui no Rio os "agentes de fé pública" multam com base em "metas", com as quais saem às ruas. Eles têm de aplicar um número mínimo de multas. E a empresa que aluga o aplicador automático de multas, o maldito pardal, decide onde localizá-lo e sua forma de operar (considerando avanço de sinal, por exemplo, completar a travessia na luz amarela). E a empresa fornece equipamentos para as Jaris, os órgãos encarregados de acolher as queixas dos multados. As reclamações são sistematicamente indeferidas. Queixo-me ao bispo, mas ele está distraído com um garotinho...

Yara e Beto disse...

V A L E U !
forte abraço
beto - cabo frio

Romildo Guerrante disse...

Pois é, Luiz, aqui no Rio os "agentes de fé pública" multam com base em "metas", com as quais saem às ruas. Eles têm de aplicar um número mínimo de multas. E a empresa que aluga o aplicador automático de multas, o maldito pardal, decide onde localizá-lo e sua forma de operar (considerando avanço de sinal, por exemplo, completar a travessia na luz amarela). E a empresa fornece equipamentos para as Jaris, os órgãos encarregados de acolher as queixas dos multados. As reclamações são sistematicamente indeferidas. Queixo-me ao bispo, mas ele está distraído com um garotinho...

.guga valente. disse...

A fé pública deveria ser dada um pouco mais ao público, ser um pouco mais questionada às pseudoautoridades e mudar de nome para "bom senso". Sem bom senso, nem ganhando Copa ou multando o infrator vamos confiar nos agentes maiores do nosso país: os estelionat... er, digo, políticos.

Mara Narciso disse...

Ai que foto horrenda Luiz. Quem é essa? Ver já nos dói, imagine quem passou por essa tortura. Hoje você abusou da miscelânea e formou um menu indigesto para os nossos frágeis estômagos, porém com um efeito benéfico: nos levar a indignação. As verdades enfiadas goela abaixo algumas vezes querem voltar. Nós somos maus demais.

jacqueline disse...

A indignação nem mais é suficiênte para nós... é preciso nos levantarmos, fazer alguma coisa! Cada um ao seu alcance. Você por exemplo me deixa orgulhosa, pois põe as cartas nas mesas e não se intimida! Parabéns!

Marília Núbile disse...

"Autoridades, ídolos e mídia"
Luiz de Aquino, você mostrou com maestria, o que a falta de consenso e bom senso desses tres seguimentos da sociedade vem causando a todos nós, vítimas de tantos desmandos, falta de respeito e atenção neste País.
Um abraço,
Marília Núbile

alice morais disse...

Parabéns poeta. Não devemos silenciar diante de tanta atrocidade.

Adriano César Curado disse...

Creio que, proporcionalmente, nenhuma outra cidade supere Goiânia em número de multas. A gana dos agentes de trânsito aqui é enorme, parece até que ganham alguma vantagem financeira. Parabéns pela matéria bem escrita.