Páginas

quinta-feira, julho 22, 2010

Luar sobre ruas tortas




Luar sobre ruas tortas
L.deA.

Gosto de poemas em livrinhos. Ou de livrinhos de poemas. Se o volume for de autor conhecido, a gente já o abre com a consciência do sabor a degustar; se não, concluirá rapidamente se valerá ou não a pena percorrer cada página. Livrões de poemas, só quando já sabemos bem o modo como nossos sentidos e sentimentos acolherão seu conteúdo.



Existem muitos modos de se conceber um poema. Imaginem, leitores, os muitos modos vezes mil de se conceber um livro de poemas. Um deles – eu sei, já o vivi – é palmilhar as pedras dos caminhos de Pirenópolis. Ou da Cidade de Goiás, de Jaraguá, Corumbá, Santa Luzia, Pilar, Bonfim. Se deixarmos Goiás, temos Ouro Preto e Mariana, Salvador, Recife, João Pessoa... Lugares de onde extrair História no percurso das ruas.


Há pouco mais de um século, Machado percorria o Rio e colheu das décadas e das ruas o feitio (ou feitiço) de seus poemas, contos e romances. João do Rio ensaiou sobre a influência das ruas em seus tipos (ou terá sido o contrário? Os tipos humanos são frutos das ruas em que vivem, ou emprestam suas essências para constituir “a alma encantadora das ruas”?).

Sei que as ruas – sobretudo as ruas de pedras, aquelas concebidas para se andar a pé ou, para os de maiores posses, em cabriolés e landaus tracionados por vistosos cavalos – têm o poder de induzir poesia e sons de canções. Especialmente quando se faz noite.

A noite sugere serenata. Serenata é a magia do ócio regado a “espírito” e enternecido por sons de semínimas e colcheias, de acordes e vibratos. Serenata é um modo solene e fácil de se vencer a timidez e declarar à amada o que se nos anda pela alma quando a alma se acha encantada de amor e esperanças muitas.



Cassiano Ricardo escreveu um minúsculo poema chamado Serenata Sintética, e não sei de outro título a ser tão bem traduzido: “Lua morta / Rua torta / Tua porta”. Esses restritos três versos variam apenas na inicial de cada uma das duas palavras que forma cada um deles, mas que universo!... Trocadilho quase que perfeito, este! Três versos a fazer universo, como se nos bastasse apenas um...

Lua morta... Morta? Dizia a ciência de antes, mas o que é a vida de um astro do Cosmo? Basta estar no céu, existir, e por se mostrar todas as noites de forma mutante sugere vida, sim!

Rua torta, a Rua Direita de qualquer cidade colonial... Por que Direitas, tais ruas? Evidência de que o perfeito não é, necessariamente, retilíneo.

Tua porta. Porta? Pode ser a janela, sim! Altas janelas em casarões de estilo, guilhotinas vidraçadas ou folhas de par a abrirem-se como o coração da amada... Uma luz mortiça insinua o sono repousante, interrompido com a delicadeza de alguém enamorado... A serenata tinha a função mágica da busca das bênçãos. Era um modo tímido e poético de se anunciar para o futuro.

Ah, as serenatas! Muita saudade... As ruas são as mesmas, as que ganharam alma quando o nome era ainda Meia-Ponte. Mas corria meio século quando nasci, em Caldas Novas, e nasci ouvindo canções meia-pontenses (ou pirenopolinas) de serenatas, em sons de cordas doces de violão, ou trinados líricos de bandolim. A primeira realização foi cantar em serenata em Pirenópolis. Meu avô Luiz de Aquino liderava: tio (e padrinho) Ismael adornava a noite com sua clarineta, tio Zeco harmonizava com o cavaquinho. Não podia faltar Bidoro, exímio violonista!


Esses, e muitos outros parentes e amigos, instrumentistas e cantores, foram-se. Restam-nos, para a voz, as tias Jerusa e Luizinha, e os violões de Luiz Antônio e Zé de Catirina. Certamente, outros estarão com eles, nessa sexta-feira, dia 30. Por coincidência, nesse dia, meu pai completa 88 aninhos. Estou absolutamente certo de que ele estará também nesse conjunto de seresteiros. Afinal, como não reviver uma serenata sobre ruas tortas, sob a lua morta e em busca de algumas portas?
Meu pai: mais de 80 anos de serenatas...

 & & & 




Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: 







Amigos,


Leiam também a belíssima crônica de Aliene Coutinho sobre Pirenópolis (irresistível convite para se conhecer a cidade): 


http://pbondaczuk.blogspot.com/2010/07/piri-e-ali-por-aliene-coutinho-u-m.html?

14 comentários:

Leda(ê) Selma disse...

Eta belezura, siô! Poesia fluindo de cada palavra, escorrendo, derramando-se corações afora, aflorando sentimentos, resvalando saudades, permeando emoções. Lindo o texto, Luiz, lindo, lindo! Gosto demais dessa sua vertente. Parabéns! Beijão. Lêda

Marília Núbile disse...

Faço minhas, as palavras de Leda Selma, que tão bem poetizaram seu lindo texto. Parece até que estamos a ouvir esses acordes apaixonados!!!! Um grande beijo para o aniversariante seresteiro, nosso Confrade na ALACAN.Para você,minha admiração!!!
Marília Núbile.

blog do sóter disse...

ô, luiz. vc está com uma linguagem apurada demais. será que é porque vc agora é imortal da academia? cadê aquelas observações despretensiosas sobre a vida. num comprica. a beleza do texto tem que fruir e fluir como água de bica.

abraço.

sóter

Maria Lindgren disse...

Caro Luiz
Adorei ver um pouco de suas memõrias, de seu romantismo à moda antiga. Como o meu. Em Pirenópolis ou em Niterói, a mesma alma cantora e poética
Um abraço
Maria Lindgren

Mara Narciso disse...

Pirenópolis, com a sua estética agradável e fotogenia inconteste é prato cheio para sons, fotografias e poemas. Partindo de você, que poetiza naturalmente, o resultado foi essa graça de crônica: uma ode ao trio cidade, pai e poesia.

Sonia Marise disse...

Que lindo! Parabéns para você e para o papai seresteiro.

Bj.

M. A. COVOLAN (Campinas, SP) disse...

BOM DIA LUIZ....

E CÁ ESTOU, BATENDO NA TUA PORTA....
SERÁ DA RUA TORTA? NÃO SEI...
E A LUA? ACHO QUE ESTÁ MUITO VIVA... MAS,
TAMBÉM NÃO SEI, AGORA, NEM A VEJO...
MAS, QUERO DIZER QUE GOSTEI MUITO DA SUA
CRÔNICA E ADOREI VER A FOTO DO SEU PAI.
QUE LINDO!
TRABALHO COM IDOSOS NA UNIVERSIDADE....
CREIO QUE NÃO SE LEMBRA DISSO, PORÉM
SÓ QUERO LHE DIZER QUE TENHO GRANDE
AFINIDADE COM OS IDOSOS. E OS AMO!
ME FEZ FELIZ VER A IMAGEM DO SEU PAI AÍ,
NA SUA CRÔNICA, E FIQUEI LEMBRANDO-ME DO
MEU, QUE SE FOI AOS 84 ANOS, .E ISSO FEZ
UM ANO, NO ÚLTIMO ABRIL. E FAZ MUITA
FALTA! DEIXOU MUITAS SAUDADES E
LINDAS LEMBRANÇAS. MAS, E ASSIM... É
A VIDA, NÃO É?

DÁ UM ABRAÇO NO SEU PAI POR MIM,OK?

BEIJÃO,
MARIA

M. A. COVOLAN (Santa Bárbara d'Oeste, SP) disse...

OI LUIZ!

Obrigada por postar o meu comentário
lá no seu blog. Só faço uma pequena
correção....sou de Santa Bárbara d´Oeste/SP,
e não de Campínas, ok?

beijos,
Maria

alejandro mejia disse...

Grande Poeta Luiz de Aquino! Que bela crônica! Mas não seria poesia? É poesia sim, é música, como a música de seu pai – o exímio violonista e bandolinista Israel que já tive a honra de ver tocar aqui em Caldas Novas! Grande abraço! Alejandro Mejia

Maria Helena Chein disse...

Luiz,
Que bonita crônica "Luar sobre ruas tortas"! Ela é todinha um poema.
Parabéns para o seu pai, um abraço pelo aniversário. Sei agora de onde vem sua veia poética, sua
alma enamorada e toda a paixão que o impulsiona.
"Autoridades, ídolos, mídia" é um tapa pra valer nesses homens imbecis e covardes que sangram, até
matar, uma mulher.
"Medo do futuro" é sinônimo de "dar murro em ponta de faca", assim me parece. A imbecilidade aqui
novamente.

Beijos.

Maria Helena

Marcos A. G. Carneiro disse...

Como sempre sugerindo, tacitamente explícito, o brilhantismo pela simplicidade.
..
Abraço, poeta.
E a abraço de poetas se dá pelos versos.

Hannah Jenner Rosas disse...

Luiz, me encanta teu olhar poético refletido nas palavras precisas sobre as cidades históricas.... Olinda aguarda teu querer....

Adriano César Curado disse...

Luiz, meus parabéns pela saudosista crônica sobre os saraus ao luar, que são as serenatas, de Pirenópolis. Li e gostei. Foi como se entrasse numa máquina do tempo e revesse ali, bem na minha frente, a glória de tempos memoráveis que não voltam mais. Escutei claramente o violão de Bidoro, com seus retornelos harmônicos, acompanhando a flauta de Clóvis Nominato num chorinho que acabaram de compor. Os casarões sonolentos assistiam a tudo silentes mas atentos, com alguns curiosos em espiadelas pelas gretas. As candeias douradas, derramando ouro sobre as calçadas de pedras, davam o tom romântico que a noite reclamava. Até quando escreve prosa você faz poesia.

Camila Senna disse...

Encantada com seu blog, com sua poesia, e com esse texto lindo e importante que escreveu, retratando sensivelmente um pouco de sua história.
Quanto a “Lua morta / Rua torta / Tua porta”. Que íntimo.
E o seresteiro, seu Pai, que lindo de ver... o mesmo é filho do vento, das tempestades, um guerreiro.

ps: adoro ler e pronunciar essas palavras "ruas tortas".

Assim é Paraty...

Chão de pedras tortas...
Cheia de histórias e estórias.
Janelas que se abrem para admirar e receber o mundo...
Aonde o barulho são os idiomas, os dialetos.
Aonde a vida vira cantiga numa roda de viola,
Ou no chorinho da bossa nova.

Verde que não se cansa de receber seus colibris...
Que não se cansa de ser o fundo nos retratos da vida,
que convida,
que ilustra,
tema sofrido ou tema feliz.

Cidade que emociona com suas esquinas...
Barcos que navegam no mar, nas correntezas, nas ilhas desertas...
De cada profeta,
De cada artista,
De cada poeta.

Trilhas que pessoas sem destino encontram abrigo...
Encontram no vento e nas árvores, seu acalento, até seu destino.
Assim é Paraty, lugar lindo de se sentir.

((Camila Senna))


Saudações, Luiz.