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sábado, abril 16, 2011

Cadernos inacabados



 Cadernos inacabados


Sabem a expressão “pinto no lixo”? Pois é, sou eu neste cantinho de sete metros quadrados que apelidei de “Sala José J. Veiga”, com placa e caricatura do homenageado, assinada pelo talentoso Almir. A este espaço, Mary Anne chama de escritório; Francisca, a moça que nos assiste em casa, evita até mesmo entrar aqui, deixando por minha conta os cuidados menores com a organização (?) e a limpeza dos livros e objetos que entulham este quartinho que os arquitetos apelidam de “reversível”. Pois bem! Há dois dias, resolvi reorganizar três prateleiras com discos (cedês) de músicas, fotos e textos. O resultado...


Bem, o resultado foi bom; essas pranchas – duas em vidro e uma em madeira e fórmica, ganharam um ar de organização e localizei, ao mudar muitas peças de lugar, nada menos que dezessete blocos e cadernos de anotações, todos eles parcialmente usados. Não incluo nessa conta as agendas de endereços, que tal como estão, já se constituem, por si mesmas, em arquivos valiosos. Mas esses blocos e cadernos, ah! Quanta surpresa, quanta lembrança boa! Anotações de reportagens, de entrevistas, de compromissos a cumprir, de pagamentos a fazer e alguns feitos, muitos poemas... Sobre poemas, são cadernetas em brochura ou espiral, a maioria delas instrumentos indispensáveis nas viagens, pois, quando a leitura me cansa, troco o livro pelo caderno. Alguns desses poemas integram livros já publicados, outros aguardam afinidades para livros futuros.

Indispensáveis nas viagens
E os nomes? Nomes e telefones, e-mails e endereços físicos, muitos de pessoas queridas que, de um contato simples por qualquer razão, tornaram-se amigos de muitas ocorrências, encontros, alegrias e confidências. Mas aqueles de quem são nos lembramos, dos quais esquecemos totalmente o motivo da anotação; e geralmente nenhum esforço mental traz de volta o momento que nos esclareceria a dúvida.

Ao folhear os vários cadernos e blocos e descobrir tantas maravilhas do passado, busquei separar os que vão para a estante, ao lado de outros quase tantos similares, e sobre a mesa, ao lado do monitor, os que voltarão a ser utilizados no quotidiano. Ficaram treze para este uso, os demais alinharam-se aos que para mim já são história. Um registro digno: de todos, apenas quatro foram comprados; os demais chegaram-me como brindes ou presentes.

Brindes sempre bem-vindos...


E justo no dia seguinte, participei de uma reunião em que discutimos vários tópicos de um projeto de trabalho; um dos itens foi justamente que brinde oferecer; a decisão, unânime, foi por bloco de anotações – coisa indispensável a qualquer profissional. Evidência incontestável: apesar dos “note books” ligados, todos tínhamos blocos e cadernos em que anotávamos o que achávamos necessário.


E, o principal nisso tudo aí, para mim, é constatar que a tecnologia pode evoluir o quanto for possível, nossos lápis e caderninhos serão sempre indispensáveis. Cadernos não carecem de tomadas e pilhas, lápis não ressecam o grafite, não estouram nos bolsos, permitem que apaguemos os erros, não dependem da gravidade como as canetas esferográficas. E se nos são indispensáveis, eles são, entre si, companheiros inseparáveis. Daí a lembrança de sugerir, sempre, brindes como canetas esferográficas, lápis e... caderninhos (repórteres adoram blocos verticais, em espiral, com espessura farta o bastante para durar; e que, em brinde, venham preferencialmente em dupla).

Muitas anotações, mas até as páginas em branco
sugerem saudade; ou novas notas...

Ih, eu falava dos cadernos inacabados e, como sempre, divaguei! E retomo o tema para confessar duas coisas: a primeira delas é que sempre me preocupo em tomar nota do que acho necessário; em pelo menos metade das vezes deixo de anotar. E do que anoto, boa parte fica nas páginas desses cadernos que se confundem com livros na estante. Certa vez, porém, buscava um livro e deparei-me com um envelope grande, cheio de folhas avulsas; eram contos e começos de contos, dos tempos ainda da máquina de escrever. Ao digitá-los para salvar em disquetes (era 2001), acabei por reescrevê-los, já revisando; nasceu aí meu livro “A noite dormiu mais cedo”, premiado na Bolsa Cora Coralina (prêmio literário anual que desapareceu na Agepel da gestão passada), com prefácio do saudoso Antônio Olinto (da Academia Brasileira de Letras) e apresentação de Brasigóis Felício (da Academia Goiana de Letras.

Capa de "A noite dormiu mais cedo"
A outra confissão é, talvez, mais grave: em 1988,comprei um gravador para, quando em viagem, anotar as ideias que tinha sobre textos enquanto dirigia; jamais fiz isso. Desde então, tive três gravadores, dois deles de microfitas (um desapareceu misteriosamente) e um eletrônico – que jamais usei, está aqui sobre a mesa, ao lado dos indispensáveis cadernos inacabados.

Leitores, isso não define a importância entre objetos tecnológicos e tradicionais; mostra apenas o meu modo de ser. Concordam?


* * *

Luiz de Aquino, jornalista e escritor.




8 comentários:

Pedro Du Bois disse...

Meu bom Aquino, como ser escritor - ou, pelo menos, tentar ser - sem cadernos e cadernetas de anotações? Excelente crônica. Abraços, Pedro.

Wanda disse...

Está muito organizado o seu cantinho, poeta...
Bj e bom domingo.

Maria Dulce Loyola Teixeira disse...

Oi, Luiz,

hoje li duas crônicas suas, esta e a outra que diz "eu vi"...
O que acho bom é a sua capacidade de sair de assuntos polêmicos como foi o texto sobre os policiais e ser "poeta" em outos assuntos como esta de hoje.
Estou sempre atenta aos textos que você escreve.
Eu esta semana e a outra passada passei envolvida com a Paróquia que eu frequento eventualmente, pois acompanho é o Padre Alcides, mas meus filhos frequentam a Paróquia Sagrada Família, que o Arcebispo está - já decidiu e vai enfiar goela abaixo - fazendo a transferência do Padre Luiz Augusto. Não sei se você o conhece. Ele é polêmico, zelador de sua paróquia e muito, mas muito trabalhador. Enfim, eu o considero um exemplo que deveriam copiar - mas infelizmente, a inveja, a cobiça, perseguem as pessoas de sucesso, em qualquer área.
Se a transferência acontecer, quem perderá é a cidade de Goiânia, porque os vários abrigos que a Paróquia tem, são mantidas com o dízimo, e a grande maioria dos dizimistas irá com ele aonde ele for.
Essa minha Igreja Católica é muito atrasada em administração, são espertos para enriquecer, mas para distribuir... Por isso que o Vaticano sempre foi tão rico. Credo, falei demais....
Mas, é verdade, até mudar o nome da Igreja de Jesus, os espertos dos romanos mudaram - ela nasceu Igreja Universal Cristã - com São Pedro. Aí o Império Romano do Oriente estava em decadência, assumiu, com Constantino a Igreja Cristã e mudou o seu nome para Igreja Católica Apostólica Romana - para justificar a obediência aos Bispos, Arcebispos e Papas.
Chega, vc não tem nada com isso.
Gosto muito de seus textos, sempre leio.
Grande Abraço.
Maria Dulce Loyola Teixeira
Visite meu blog c/ historias goianas: http://familiapioneira.blogspot.com
"Deus dê-me serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para saber a diferença."

Mariana Galizi disse...

Lu, adorei a crônica!
Interessante é ver o quanto sentimos nossas tantas vidas em uma só. Quantos cadernos são inacabados? E quanto aos amores?
Abandonam-se por trás de belos exemplares de livros e são notados quando se faz necessária uma "faxina" no que armazena as lembranças em papéis amarelecidos, elas que vem em forma de turbilhões e questionam: "Há ainda àquele que em mim escreveu?" Sim, há o homem que deslizou a ponta grafitada, tonalizando páginas margeadas e hoje, ao ler o que escreveu há um tempo, lembra do amor que sentia ao feito.
Gostei muito!

Beijos.

Violeta Vênus disse...

Bela crônica!Já tive muitos cadernos assim. Inacabada é a vida, eterna. Abraço.

Marília Núbile disse...

É isso ai, menino! Gostei do texto, do "puxadinho" e do novo look. Um forte abraço

MARILENE disse...

A faxina não propicia apenas arrumação, acaba mexendo com o coração.
Suas palavras permitem leitura
agradável e deixam um sabor doce.

Tetê Lacerda disse...

Oi Luiz !
Como disse Wanda, seu cantinho está muito organizado... Suas palavras me troxeram à lembrança uam conversa que tivemos em Niterói sb Marechal Hermes e algumas ilustrações, Andei esboçando algumas imagens, mas não prestou. V. e eu não falamos mais da idéia, a qual retomo aqui. Poeta, vamos colaborar quando os estados da alma estiverem em consonancia com nossa vivência daquela época? Poucos são maus comentários sb seus escritos, mas v. sabe que os admiro muuito... Meijos saudosos e até a próxima. Teresa