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sábado, junho 18, 2011

Habemus fumum





Habemus fumum

O Supremo Tribunal Federal tem surpreendido a opinião pública por medidas surpreendentes. Nas últimas semanas, legitimou as relações estáveis homo-afetivas, arquivou o processo contra o banqueiro Daniel Dantas, mandou soltar e negou à Itália a extradição do ativista Cesare Battisti e, mais recentemente, autorizou as marchas em defesa do uso de maconha.

Como era de se esperar, a decisão causou um certo “frisson” entre os adeptos da “canabis sativa” e também dos que entendem que tudo deve ser mudado. Conheço pessoas que rejeitam maconha como eu recuso nabo e rabanete, mas defendem com fervor o direito de quem gosta da erva, seja fumando-a, cultivando em vasos ornamentais ou simplesmente curtem o cheiro da fumaça, sem tocar nos baseados.

Dever da Polícia: manter a ordem e a disciplina.
Vejo no noticiário que há limites. Os manifestantes passam a ter o direito de se reunir para discutir o tema a “passeatar” para comunicar ao público os seus propósitos; mas não lhes é liberado o uso da erva em tais movimentos, nem a apologia ao seu uso, entre outras medidas. E atribui à polícia o dever de assegurar esse direito e vigiar as manifestações, evitando os excessos.

Um colega jornalista perguntou-me sobre isso. Disse-lhe da minha posição contrária ao uso e à liberação da produção e comércio. Ele argumenta que é favorável a que se libere tudo, e eu entendo-o não como um simpatizante da droga em si, mas um pregador das amplas liberdades. Fácil de entender: eu tinha 18 anos quando vi – e senti – o total cerceamento das liberdades civis; meu amigo nasceu uns dois anos após, ou seja, durante os tempos de arbítrio e cerceamento. Somos pelas liberdades, mas sou ligeiramente mais conservador. Ou medroso.

Recordo do que conta a História sobre o tabaco, droga que os navios portugueses e espanhóis, e depois os piratas e corsários da Inglaterra e da França, introduziram na curiosa nobreza européia. Houve proibição e muita briga antes que o fumo americano, em cachimbos e charutos, depois em cigarros, ganhasse liberação. Se, em lugar de proibi-lo, as autoridades buscassem o caminho da educação pelo esclarecimento, talvez a nicotina não tivesse causado tantos males. Mas o que esperar daquele tempo, se a ciência só teve tamanho alcance cinco séculos depois?

Agora, a questão será discutida em vários ambientes de estudos, de informação e de alcance decisório, incluindo-se o Judiciário, o Ministério Público, as corporações policiais e os meios de saúde e educação. Melhor assim! Até agora, sabe-se que as pessoas a se posicionar quanto ao tema são poucas, como pais e educadores, profissionais de saúde e de policiamento e controle. Além, obviamente, dos maiores interessados – os traficantes.
Na esteira dessa decisão, muita gente atrela a questão da cocaína e seus dramáticos e cruéis derivados – o craque e o óxi, além de um outro, ainda mais recente, cujo nome não consegui decorar, ainda. Mas a permissão para que se discuta a maconha e que se façam marchas induz-me a propor discussões sobre o uso das drogas lícitas, como o álcool etílico e o tabaco (sobre a nicotina, ouvi de um químico que é a segunda coisa pior a que os seres humanos estão expostos: só perde para a radiação).


Nestes tempos em que nos preocupamos com condutores embriagados e a sempre mais elevada incidência de doenças provenientes do cigarro, devemos, sim, concentrar atenção no problema do álcool e do tabaco. Ou cometeremos o condenável ato de, cinicamente, lustrar os sapatos e ocultar sob a sola o cocô do cachorro pisado na calçada do bairro nobre.




* * *



Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.
Imagens: Internet

22 comentários:

Denise Abreu (DF) disse...

Denise Abreu E agora José? Ou melhor, Luiz? Ou FHC? Ou Dilma?

Odalva Moreira disse...

É isso aí meu amigo...segura que vem chumbo por aí...ou melhor....maconha...afff

Valéria Blessa disse...

Isso me peocupa muito!

Odalva Moreira disse...

Pena que nem todo mundo possui grande cérebro...ou se possui não faz uso dele...:(

Dani Nunes disse...

Acho que nossa sociedade não está preparada para esse debater esse assunto de maneira mais profunda analisando todos os aspectos e corremos o risco de cair no senso comum.Não temos instrumentos suficientes para lidar com as consequencias advindas de tal prática.

Celso Moraes de Faria disse...

A coisa é realmente complexa, Dani e demais amigos do Face: em certa cidade do interior goiano, um senhor, conhecido meu, foi usuário de maconha desde sempre, mas jamais foi visto em público no ato de consumi-la. Nunca fez apologia. Fumava em casa, e nem mesmo os filhos e a esposa testemunhavam, embora soubessem. O sujeito trabalhou num cargo federal até a aposentadoria, recebeu Honra ao Mérito quando se aposentou ("excelente desempenho no cumprimento do dever"), jamais deu qualquer tipo de escândalo ou vexame, formou os três filhos em boas faculdades, e nunca deixou a Marijuana. Até hoje, embora muitos saibam de seu vício (ou hobby?), é considerado pela sociedade um excelente pai, amigo, cidadão. Mas, pergunto: quantos saberiam separar as coisas e "consumir com moderação"? Ele é exceção, não regra. Há muito o que discutir antes de uma decisão jurídica nacional.

Luiz de Aquino disse...

Beleza, Celso! Esse seu amigo é um referencial para discussões. Certamente, o reflexo social do uso de drogas é o que mais preocupa, depois do estrago que algumas fazem nas pessoas. Primeiro: como no álcool, o uso moderado sugere equilíbrio; segundo, separar os momentos e impedir que quaisquer efeitos (colaterais?) reflitam nas pessoas próximas, sejam elas familiares, amigos ou concidadãos. Num Estado em que a gestao dos recursos públicos mostra-se irresponsável a ponto de acobertar desmandos (vide Sarney, Collor, Delúbio e outros), incomoda-nos saber que grande parte do que deveria ser gasto de saúde será gasto nas tentativas nem sempre bem sucedidas de se resgatar, recuperar ou salvar pessoas viciadas. Melhor seria prevenir e educar.

Mara Narciso disse...

Também sou pela ampla liberdade, total liberdade, mas reservada em relação ao uso do fumo e álcool e das drogas atualmente ilícitas, além de ser favorável a um maior controle das drogas faixa preta, que aliás, já começou. Dizem os neurologistas que os ansiolíticos aumentam a incidência do mal de Alzheimer. Sobre a nicotina, da qual fui dependente por 15 anos,diz Drauzio Varella em "Estação Carandiru", que livrar-se dela é mais difícil, do que do crack. Ele sabe do que fala. Menciono as que conheço. Das ilícitas, só usei lança perfume, num único cheiro, e ri a valer. É esperar para ver.

mm.olive disse...

Não consigo nem reconhecer o cheiro...se já senti não sabia o que era..rsrs
Bem,eu sou contra a liberação e a legalização.É ingênuo(ou estúpido) pensar que um "comerciante" que já é competitivo em um mercado sem regras não o seria em um mercado regulado. Ao legalizar e regular o comércio , muitos limites e padrões seriam impostos por órgãos da burocracia governamental, e a "droga legal" terminaria por sair muito mais cara do que a ilegal, da mesma forma como o tênis vendido em loja é muito mais caro do que o pirata vendido em camelô.

Penso que as pessoas até devem ter garantidos seus direitos de opinarem publicamente , até porquê a proibição sempre "inflama",fomenta ainda mais posiciomamentos favoráveis a liberação geral.

Poeta almaquio disse...

Grande Aquino, acredito que grandes embates ainda surgirão em torno desse tema. Parabéns pelo texto.

Éric (Tirado Viegas) Ponty disse...

Caro Luiz
é o tempo dos viadinhos e maconheiros, mas terá precavido as leis da fundação do Brasil.
Eric

Klaudiane Rodovalho (Professora do Lyceu) disse...

Lamentável, Luiz, LAMENTÁVEL!
Sabemos que o índice de mortes de jovens entre 15 e 25 anos em nosso país é devido ao uso abusivo das drogas lícitas e ilícitas, o ácool é o lider na tragédia.
Discutir a liberação da maconha é um desrespeito a todos nós... Há tanto o que se discutir e melhorar neste país! Não leio nada sobre leis que garantam escolas cada vez mais bem estruturadas. É tudo um grande circo de horrores, nosso país caminha para ser o paraíso, onde tudo pode, tudo aconte, onde a lei é frouxa, linda na teoria, mas hipócrita nos bastidores da Justiça.
Tudo isso não passa de uma politicagem irresponsável, sem escrúpulos. Droga é droga, faz mal, prejudica quem usa, maltrata quem convive com o usuário, dilacera famílias inteiras. A maconha é só primeiro degrau para o crac ou o óxi, Lamentável, nossos governates estão no poder para favorecer quem mesmo? Acho que não poderemos cantar mais "moro, num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza..." que triste retrato!

Bethânia Loureiro disse...

Penso que nossa sociedade ainda não possui maturidade para esse tipo de ação, não é Luiz?!

Luiz Delfino de Bittencout Miranda disse...

Nobre poeta e escritor, a professora Klaudiane resume tudo numa simples palavra: Lamentável. Não há muito a ser dito vez que a degradação humana já teve seu início nas escolas - e não faz muito tempo - onde os alunos mandam mais que os professores....é lamentável... é triste...

Anônimo disse...

Muito bem escrito, companheiro! Você é mestre na crônica!
Urda Alice Klueger - Blumenau - SC

MARIA COVOLAN disse...

QUERIDO LUIZ....PARABÉNS PELO TEXTO! MAS, MEU CARO AMIGO,SOU A FAVOR DA LIBERDADE, SEMPRE PELA LIBERDADE...PORÉM, NESSE CASO, SOU RESERVADA. NÃO APROVO O USO DE DROGA ALGUMA, POIS CONHEÇO MUITO BEM O ESTRAGO QUE ELA CAUSA, NÃO SOMENTE EM QUEM A USA, MAS EM TODAS AS RELAÇÕES DE QUEM AS USA. COMO PSICÓLOGA, JÁ ATENDI A MUITAS PESSOAS COM INÚMEROS PROBLEMAS...SEVEROS PROBLEMAS, EM
CONSEQUÊNCIA AO SEU USO.
ENFIM, MEU CARO LUIZ, VAMOS VER NO QUE DARÁ TUDO ISSO...MAS TUDO ISSO ME PREOCUPA,COM CERTEZA.

Mirian Oliveira disse...

VOU PROPOR UMA PASSEATA NACIONAL CONTRA A HIPOCRISIA... SERÁ QUE VAI DAR QUORUM?!? NÃO AGUENTO MAIS ESSE BESTEIROL VERDE-AMARELO! OS QUE SE CONSIDERAM PODEROSOS GASTAM/USURPAM O DINHEIRO DO CONTRIBUINTE DISCUTINDO/APROVANDO COISAS MENORES, ENQUANTO NOSSAS CRIANÇAS NÃO TÊM ESCOLA, NEM EDUCAÇÃO E, MUITO MENOS, SAÚDE PARA APRENDER...

Osair de Sousa Manassan disse...

Mirian, claro que vai dar quorum, os hipóclitas estarão na sua passeata hipocritamente contra suas naturezas.
Luiz, o tema é mesmo polêmico, né? Leio os comentários e vejo opiniões honestas, lúcidas, assim como as preconceituosas e desinformadas. É bom ressaltar que, o que o Supremo liberou foi a manifestação pela legalização - não a legalização.
E aos que teem medo e lamentam essa decisão, vale lembrar que esse é o preço da Democracia.
E chega de "fumei mas não traguei", né?
Parabéns pela crônica!

Adriano César Curado disse...

Caro Luiz, parabéns pela sua postagem, que é oportuna e atualíssima, servindo à reflexão.

Somos um país apaixonado por ditaduras.

Antigamente mandava por aqui a tal nobreza, que impunha sua vontade ilimitada ao Império do Brasil.

Depois, com a República, os mandos e desmandos continuaram, agora sob o manto do Executivo, sempre na satisfação dos interesses de um grupo dominante.

Após a Constituição Federal de 1988, a ditadura passou a ser do Legislativo, que criou uma Carta Magna parlamentarista e deixou assim a última palavra sempre com os parlamentares. Um exemplo disso é que podem derrubar os vetos presidenciais e fazer valer sua vontade.

Mais recentemente, com a introdução na Constituição Federal da chamada Súmula Vinculante, passamos para a ditadura do Judiciário. Agora a moda são as decisões do Supremo Tribunal Federal. Seus ministros, escolhidos por critérios políticos da presidência da República, com aprovação do Senado, não medem esforços para editar decisões polêmicas. Será que são mesmo doutores da lei, com notável saber jurídico? Decidem lá, em última instância, na qualidade de guardiães constitucionais, e a sentença se estende a todos os brasileiros. É ou não é uma ditadura estabelecida? Veja o caso Battisti, a união entre homossexuais e, mais recentemente, a “liberação” da tal Marcha pela Maconha.

Eu me pergunto: depois que os três poderes experimentaram o sabor do absolutismo, quando será a vez da democracia do povo?

Lindalva Costa disse...

Belíssima crônica, Luiz.
Excelente tema sobre a liberação das drogas no Brasil. Fico imaginando se isso realmente acontecer, o que acontecerá com os educadores em uma sala de aula? Pergunto: como seria ensinar a matéria com alunos drogados assistindo aulas? Sabemos que as drogas causam reações de agressividade em alguns indivíduos, e em outros não, depende do organismo de cada um. Respeito aquele senhor que fica no seu canto sem prejudicar ninguém, com certeza deve haver mais casos, mas são poucos, porque a droga causa muitos e muitos danos, inclusive na saúde do próprio individuo.
Acredito que as autoridades neste País deveriam se preocupar mais com a saúde do povo, poderiam começar melhorando o lanche dos alunos nas escolas para algo mais saudável, digamos assim, pois uma alimentação saudável melhora a concentração, algo contrário as drogas, que dificultam a concentração.
Tanta coisa melhor para se preocuparem!...


Luiz. Acabei de lembrar das conversas de alguns alunos do Colégio(...), aquele colégio onde te conheci, lembra?? São alunos bastante pobres, e muitos não tinha o que comer em casa, a maioria iam para a escola somente para comer, e muitos diziam que queriam se tornar bandidos para comer na cadeia, porque ficaram sabendo que na cadeia tinha comida boa. Olha, cansei de ouvir isso, e meu coração partia cada vez que ouvia. Por isso acredito que os políticos deveriam se preocupar em dar mais condições ao povo, porque muitos se tornam bandidos porque não têm o que comer em casa.
Nós, os educadores, lutamos contra as drogas, sim, porque se está difícil trabalhar com alunos normais, imagina com drogados. Peço a Deus que isso nunca aconteça no Brasil. no país. Sou totalmente contra.


Abraços!
Lindalva

Heliany Wyrta disse...

Ser contra ou a favor da liberação da maconha é tão ínfimo frente a total desesperança e perspectiva de vida dos jovens que assistem atônitos tanta imoralidade ser considerada completamente normal.
Se não fizermos urgentes mudanças na sociedade e no nosso sistema político, onde impera a mentira, a luta desleal pelo poder, a falta de ética e moral, a corrupção, a falta de responsabilidade e solidariedade...
de nada adianta proibir ou liberar a maconha!
O que destrói verdadeiramente o ser humano é a falta de fé, de esperança no futuro, de certeza de que tudo pode melhorar amanhã, sem esse sentimento tudo o mais é banalidade! Infelizmente!

Na janela disse...

Foste corajoso ao abordar um tema de tal complexidade e que promete muitos embates.
Li os comentários aqui expostos; alguns bem ponderados, outros deixa-me deveras triste, tanto pela desinformação, como pela concepção preconceituosa. Porém, esta constatação não significa dizer que eu seja a favor ou contra mudança na legislação.
Sabemos, entretanto, que a ilegalidade leva a caminhos que estão aí postos: o tráfico e a violência. Sabemos também que o álcool (legalizado) tem sido, senão o maior, um dos maiores destruidores de neurônios e esfacelamento das relações familiares e de trabalho. No entanto, a preocupação e leis proibitivas tem sido, hipócritamente, com o fumo.

São questões a serem ponderadas, sem dúvida, e não sei se a nossa sociedade está preparada para fazer esta discussão com o necessário equilíbrio, considerando que saímos de uma ditadura e estamos engatinhando neste processo democrático. E democracia também é isto: dar voz a todos. Aprovar, discriminalizar já é outra história.
Qualquer que seja o desfecho, consequências haverão. Há que se perguntar a quais delas estamos mais dispostos ou menos indispostos a enfrentar.