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sábado, junho 04, 2011

Pessoas da vida da gente




Pessoas da vida da gente


Em pouco mais de trinta dias, alguns parentes e amigos deixaram mais pobre o meu convívio. Nesta jornada, o primeiro deles foi Odini de Carvalho, marido de minha prima Regina Célia Ríspoli; depois, Delermando Vaz, que deixou Eneida, minha amiga de inf… Não, não é de infância; Eneida é minha amiga de nascença, pois só uns poucos meses nos separam. E aí veio o Zé Reis, parceiro de inúmeras atividades em torno da SOAP e da APLAM – respectivamente, Sociedade dos Amigos de Pirenópolis e Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música.


E não acabou; poucos dias após o desenlace de Zé Reis, foi a vez do meu primo Luiz Augusto Machado, marido da Wanda. Cada caso desses abriu um vazio no coração e na esperança. Fica aquele mal-estar quando a lembrança nos induz a pensar “Vou perguntar isso a ele”, e em seguida damo-nos conta de que ele não nos responderá. Foi assim nos primeiros anos depois que minha mãe se foi; foi assim depois da viagem sem retorno de muitos outros. Está sendo assim novamente.

O remédio é aceitar. Até porque, vencida a metade da minha década de sexagenário, tenho a convicção de que desço a rampa. E como tristeza é péssima companhia, sobretudo para a velhice, decidi que preciso ocupar o vazio que me dão os que se vão com fatos e gente nova. Faço novos amigos, preencho a vida, escrevo coisas novas, curto festar de muitas naturezas.

Gabriel: três anos, dia 2 de junho


Quinta-feira é dia de eu escrever a crônica dos domingos no DM. Nesta quinta, haveria festa – afinal, é aniversário do Gabriel, meu neto mais novo. Ele não está aqui, ao lado; satisfaço-me em imaginar o beijo que não lhe dei e mandar nos sonhos e outras naves da imaginação muitos mimos e carinhos, esperançoso de um futuro bonito e colorido para ele, que tem nome de anjo e que deve fazer jus a isso.

Eu e meu pai, em seu aniversário em
1988: homenagem em Pirenópolis

Outra alegria é em torno de meu pai, a poucas semanas de completar 89 aninhos de peraltices várias. Nativo de Pirenópolis, siô Israel, ou Véi Raé, ou tio Rael (como era chamado por jovens colegas de trabalho) mudou-se para Caldas Novas em janeiro de 1940. Logo, enturmou-se com José Pinto Neto (pai da Eneida, que citei no primeiro parágrafo), dedicando o tempo de folga ao violão e às serenatas – Zé Pinto ao saxofone, meu pai ao violão; depois, o bandolim substituiria o sax.

A gatinha que mexeu com o
coraçao do seresteiro....
Em 1942, minha mãe – Élia Borgese, mineira de nascimento, carioca por vivência – chegaria a Caldas Novas, levada pelo tio Dedeco (pai da Regina, também citada no começo desta crônica); atraída pelos acordes e valsas do moço seresteiro, Dona Lilita (era o apelido dela) deu bola a ele e acabaram por se casar, gerando cinco filhos.

... e já bisavó, pouco antes do
desenlace. (retrato:Amaury Menezes)

Em 1944, casaram-se; em setembro de 1945, nasci eu, primogênito e mais belo que os outros. Nestes quase 70 anos, a única perda na família foi minha mãe, desencarnada em 2004, a poucos meses dos 60 anos de casados. Eu deixei  a família aos dez anos de idade, fui morar com minha avó materna, no Rio de Janeiro; era plano de minha mãe desde o meu nascimento: enviar-me para os cuidados de Dona Ignez para que eu pudesse estudar.

Meu pai, empregado no comércio, tornou-se por uns poucos anos dono de seu próprio negócio; mas faliu e voltou ao “status” de empregado, mantendo-se digno e respeitado por sua honradez para com os compromissos e o modo singelo de ser, tanto ante as pessoas humildes quanto às  poderosas.

É complicado falar da gente; dos muito próximos, também. Dói muito falar dos que partem, e é prazeroso contar que, após 71 anos de vida na cidade, meu pai receberá – como se programou para a próxima quarta-feira, dia 8 –  o título de Cidadão Honorário de Caldas Novas. Meus conterrâneos, disse-me um deles, sequer imaginam que “o Raé  não nasceu aqui”.  Por isso, talvez, tanta demora... Ainda na década de 1990, minha mãe foi agraciada com a mesma honraria, mas nunca a recebeu; primeiro, ela esperava reunir os irmãos, que moram no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul; mas antes que isso acontecesse, ela adoeceu e veio a falecer.

Agora, o meu velho, o Véi Raé, recebe essa distinção!



Estou muito feliz por isso, e agradeço a iniciativa dos amigos e confrades da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas – especialmente a professora Marília Núbile e o presidente, dr. Albery Mariano. E, também, aos vereadores de minha terra, especialmente o presidente da Câmara, André Rocha, e o autor da proposta, Celso Guaíra.

Até por aí, Caldas Novas; quarta-feira, sem falta!



* * *

Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. 
Fotos: do meu arquivo.


11 comentários:

Wanda disse...

Amigo mui querido... adoro seu jeito de escrever...linda crônica... dá um bj no seu pai... outro pra vc.

Papepi disse...

Amigo poeta, após curtir suas palavras não pude deixar de me manifestar sobre as diversas coincidências existentes em nossas vidas, além termos passado as nossas infâncias bem próximos, sem nos conhecermos, o que aconteceu, somente agora, através do Orkut. Bem, o único que desencarnou da minha família foi meu pai, com pouco mais de 60 anos. Meus pais casaram em maio de 44 e eu vim para este mundo em 1945, maio também. Um abraço pra você e outro para seu querido pai pela merecida homenagem. Paulo

Maria Helena Chein disse...

Oi, Lu,
Há quanto tempo não nos falamos, mas agora acabamos de ter uma
prosa boa, você bem perto, nas crônicas, e eu lendo e ouvindo,
escutando mesmo, tantas histórias cheias de lembranças: seus amigos
que partiram, Pirenópolis e sua liderança cultural, seu pai amado e o
título de cidadão que agora recebe com tanto mérito, dê-lhe um forte abraço
por mim, e tanta novidade, umas alegres, outras não.
Obrigada pela companhia. Saudades.
Beijos.
Maria Helena

Eliana Leal Matos disse...

Gostei muito da cronica. Eu tb me emociono com amigos e familiares. SEU PAI ME FEZ LEMBRAR DO MEU. São estes bons momentos com eles que ficam abs

Vânia Rosa disse...

Amigo Poeta, é dose ter que encarar as perdas. Sabemos que é uma coisa inevitável, mas ficamos torcendo para que não aconteça... Há duas semanas perdi meu pai e ainda estou meio abobalhada sem saber como calar aquele alô, aquele papo, enfim, todas as coisas que não virão mais. Beijos

Jô Sampaio (Porangatu) disse...

Um poço de sentimentos e de nostalgia, sua nova crônica. Você ainda tem pai, que bom!

Lyzbheth disse...

Caro Luiz, ainda bem que depois de vários acontecimentos tristes acontecem tantas coisas boas. É justamente para aliviar e ajudar a nossa caminhada. Parabéns pela homenagem recebida pelo seu pai. Que seja um dia inesquecível e de muita alegria. Abraços para você e seu pai.

Mara Narciso disse...

Esse buraco que fica quando a mãe da gente morre, tem por característica inicial o susto ao imaginar conversas que nunca ocorrerão. Vai-se ao telefone e lembra-se que ela já não poderá nos responder. Então vêm as outras perdas dos demais parentes e amigos. Feliz de você que ainda tem seu pai e seus netos. Aproveite cada instante e parabéns pela homenagem!

Klaudiana Rodovalho disse...

Nossos queridos que nos deixam...
A chegada é sempre um festa, os pais comemoram, a família fica em êxtase, é um ser que veio compartilhar a vida conosco! E quando eles partem, Pai Maior, que saudade, mas esteja certo Poeta, é só uma pausa, um descanso da convivência, na verdade continuam compartilhando a vida conosco. Continuam a nos amar como os amamos, nenhum amor fraterno morre, nenhum. Eles continuam num plano de Luz cultivado pelas nossas orações, e pelo carinho que ainda demonstramos por aqui, nós sabemos disto. Alguns tem coragem de acreditar, outros ...

Adriano César Curado disse...

Luiz, essa sua postagem é muito bonita e romântica. Meus parabéns. Que Deus mantenha sua pai ao seu lado ainda por muitos anos, lúcido e alegre, participando das homenagens merecidas.

Na janela disse...

Luiz,
Fiquei sensibilizada com este texto. Tem um tom deliciosamente emocional e muito sensível.
Perdas e ganhos é a nossa caminhada!
abraço
Marlene