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sábado, julho 02, 2011

Louvação ao Mestre Mário Rizério




Louvação ao 
Mestre Mário Rizério


É da praxe. Ou melhor, é da tradição acadêmica. “Abrir vaga” é jargão fluente nas Academias de Letras, significa que um dos membros encantou-se, ou seja, atingiu o dia imprevisível em que sua cadeira será oferecida para que, em sufrágio entre os “imortais”(ouro jargão das academias brasileiras), um novo membro seja eleito.

Ao tornar-se acadêmico, isto é, ao ser eleito, a ritualística seguinte é a solenidade de posse. Geralmente, e estatutariamente (no caso da Academia Goiana de Letras) cabe ao presidente escolher o acadêmico que discursará para que a Casa receba seu novo membro; na prática, novel acadêmico sugere ao presidente o nome de alguém entre os imortais e o presidente, com inegável gentileza, acata.





Quando do desencarne de um imortal, o presidente convida um dos acadêmicos para proferir o panegírico ao morto. Panegírico é uma palavra erudita, pouco usual, mas costumeira nos sodalícios das letras. A escolha recai sempre sobre alguém que tenha demonstrado grande amizade ou afinidade com o imortal pranteado. E afinidade é uma palavra um tanto ampla, implica amizade, coincidência de gostos, de modo de vida, de perfil social e até mesmo moral. Há casos, obviamente, em que vários dos 39 membros remanescentes enquadram-se entre os que demonstram aptidão para a incumbência, e isso pode sugerir ciúmes ou melindres, mas tal não acontece – no geral, ocorre imediatamente um consenso e é bonito de se ver que, entre os mais cotados, uma espécie de eleição ou indicação informal resulta na indicação rápida de quem proferirá o discurso de homenagem.

O ciúme, muitas vezes, costuma ocorrer quando da posse. Nestes casos, já presenciei alguns cotovelos ligeiramente feridos, para usar um jargão mais comum, frequente além dos limites das medalhas e dos fardões.



Leda Selma de Alencar

O escritor Mário Rizério, padrinho de uma das irmãs de Leda Selma, sabia bem dos dotes e riquezas literárias de Leda Selma. E ela firmou atestado já nas primeiras linhas de seu discurso, ao falar do nascimento do velho mestre:

A lua, em quarto minguante, minguava de luz as noites, porém, uma outra luz, promanada do ventre de Deolinda Rizério de Moura Leite, brilhou: Mário, cujo fôlego, mostrado no chororô vigoroso, indicava uma criança saudável”. 

Na última quinta-feira, a Academia Goiana de Letras reuniu-se em torno da memória do escritor Mário Rizério Leite. Sou capaz de imaginar o velho mestre (que não teve paciência para esperar mais um ano e meio para que festejássemos seu centenário) registrando, numa página de suas últimas vontades, o nome de Leda Selma de Alencar para sintetizar os sentimentos de tantos quanto, vivos ou falecidos, com ele desfrutaram momentos ricos na Casa Colemar, a sede da AGL na esquina da Rua Quinze com a Rua Vinte, no centro histórico de Goiânia.


Nas linhas seguintes, que preencheram onze páginas em Arial corpo 14, Leda contou das vivências estudantis, como colegial interno (contemporâneo de Jorge Amado) e como acadêmico de medicina; pinçou fatos (difícil de ecolher, hem, Leda? Uma vida rica como a dele!...) e deu tons de rica aquarela na palheta que foi a vida de Mário Rizério, baiano de várias cidadanias, goianizado pela determinação e pela prática de médico, músico, escritor ficcionista, marido e pai de goianos (e, obviamente, feliz com os títulos nobres de avô e bisavô... de goianos!).



A prática acadêmica pede liturgias, e uma delas é a Sessão Magna de Saudade; Mário Rizério sabia que vários imortais disputariam a honra de falar sobre sua vida, poucas semanas após a despedida de entre os vivos – mas coube a Leda, uma sobrinha honorária, de origem baiana como ele, e como ele também goianizada por razões semelhantes, a honraria. E se a alguém ficou uma pitadinha de ciúme, a fala de Leda Selma desfez o mau sentir, e ela concluiu o panegírico com nova evocação à Lua (o geógrafo em mim entende que o nome do satélite é substantivo próprio):

A lua, lindamente cheia, velou sua última noite. E, na manhã seguinte, 15 de maio de 2011, o sol, sem nenhuma alegria, fugiu pela janela do seu quarto, para anunciar que, aos 98 anos, Mário Rizério Leite havia se estrelizado. Sua bênção, meu mestre!”.








* * *


2 comentários:

Jô Sampaio disse...

Quando eu trabalhava no Ateneu, o Dr.Mário Rizério Leite era o médico q.atendia aos casos de Educação Física. Ele me achava, menininha inteligente, meiga, bobinha, carente e tinha muito carinho por mim.
Todo dia ele tinha uma piadinha.
Que Deus o tenha!

Nathy Costa disse...

http://paraneura.blogspot.com/
meu blog por favor leia e veja se gosta! obrigada o seu é otimo fiquei fã