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sábado, janeiro 14, 2012

O Rio e a saudade



O Rio e a saudade


Rio, meu Rio dos anos 50 e 60, antes do ônibus elétrico e do golpe militar! Aquele é o meu Rio de Janeiro, rio de gente e de almas felizes, alegres e plenas apesar da Corte Lusa, apesar do Império e da República nova que hoje dizemos velha. É o Rio da Cidade Nova na beira do Mangue, mais tarde puteiro e, mais recente, catedral do samba de escolas.

Rio capital, não a do Catete, e sim o Rio de um Itamarati nacional, sede nacional para apenas dois presidentes, os marechais das Alagoas; o palácio era o Itamarati escrito com desinência nacional (em Brasília, internacionalizaram o Paço das relações externas, com um ridículo e estranho, insosso e esquelético ípsilon de mãos para o alto, é um assalto; suprimam o i, aqui é o FMI!).

Rio Guanabara baía, herdeiro capital da velha Salvador doutra Bahia, rio de Brasil inteiro que a fez na migração carente dos que perseguiam sonhos: Rio de Norte e Nordeste, Brasil Centro-Oeste, oriental ou meridional que ao Rio afluía feito afluentes, vertentes humanas a povoar Copa, Ipanema e ermo Leblon; povos brasilis a mesclar brancos e índios em morros de negros egressos do cativeiro, matrizes de sambas e crônicas – ah, as crônicas! Machado e Lima e João do Rio a desaguar em Sérgio Ponte Preta e Rubem (s), Conny e Ruy Castro et cetera, et cetera...

Saindo para o colégio (1958)
Ah, eu, que me fiz escriba de fraldas em farda azul e bege do Pedro II Colégio da São Francisco Xavier... Sob as bênçãos da Tijuca bairro e pico, floresta e barra, fiz-me poeta pequeno e triste, saudoso de bondes e quebra-queixos, cuscus de baiana à porta da escola.

Noel reinara na Vila, Cartola na Mangueira, Candeia era rei na Portela e tantos mais em tantos Rios de janeiro ao Natal. Mas era no tempo dos anos dourados: quase homem, mas imberbe, senti a alma da cidade em versos de sol e de sal criados na areia das praias e em bares da orla Ipanema sob acordes de Tom: era Vinícius, o de Morais.

Lapa: Capital nacional da boemia...
Ele, o poeta, pariu a alma do Rio e do tempo de então, essa alma molhada e limpa, de azul e calor em versos de luz e harmonia que ainda ecoam aos nossos sentidos como gotas de uma chuva amena e fresca.

Rio que era a alvura na Esplanada do Castelo e o corredor de finanças na Avenida Rio Branco; Rio é a boêmia na Lapa, a pressa na Presidente Vargas e as greves ingênuas contra o aumento de tarifas dos bondes. Rio é a lembrança dos churrasquinhos de cotia no Campo de Santana, o sarro consentido nos trens superlotados (ah! Que saudade do riso maroto das garotas dizendo “faz isso não”, enquanto os olhos traduziam que sim).

E a Praça Mauá, do Cais do Porto e da Rádio Nacional! Boêmios sambistas poetas de rua, putas solenes ou vulgares, as luzes, a rodoviária antiga, a polícia em duplas de Cosme e Damião.


Rio dos anos verdes em Marechal Hermes,. Parque de diversões no campo de futebol defronte à Fábrica Nacional de Vagões, o campo do União Esporte Clube, que deu lugar ao imponente Botafogo; o Ginásio José Acioli, a Escola Técnica Mauá, o Campo dos Afonsos e os quartéis da Vila Militar. Coreto do lado oposto à minha Rua João Vicente (saudade do sobrado 1.495, esquina com a João Soledade). Velhas limousines-lotação até Madureira, Teatro Zaquia Jorge, a que morreu na Barra e fez o povo cantar no carnaval de 1957: “Madureira chorou / Madureira chorou de dor / quando a voz do destino / obedecendo ao Divino / a sua estrela chamou...”.

Era o Rio do jogo-do-bicho, contravenção reprimida à luz do dia, tolerada e compartilhada à noite. Tevê em preto e branco, novelas de rádio, futebol de várzea e festa no Maracanã em dia de Fla-FLu. Era o Rio antes das drogas e de Brizola versus Globo, de meninos emergentes garotos fanfarrões.

Ah, saudade!...

* * *

Nada de mais, leitores queridos! Pincei esta crônica nos meus guardados, ela é de março de 2005. Republico-a só porque... porque... Ora, porque me deu saudades do Rio, uai!

9 comentários:

Liana Miranda disse...

... qualquer que seja a época vivida, a saudade do Rio sempre vai estar rondando os corações e mentes de muita gente.

Beijossssssssss, meu querido amigo poeta !!!

Mara Narciso disse...

Verdade. No lugar de dizer que é requentada, digo que a saudade nunca se esfria. E dizer boemia, mudando o acento gráfico da palavra, só mesmo Nelson Gonçalves. A palavra é boêmia, como você a grafou, embora ninguém mais diga assim depois de Nelson.

Luiz de Aquino disse...

Mara,

Tem razáo ao afirmar que a pronúncia sem acento -boemia - surgiu aos ouvidos brasileiros na música A Volta do Boêmio, gravada por Nelson Gonçalves. O autor é Adelino Moreira e a mudança de acentuaçao tônica se deu para coincidir com a melodia.

Mas a palavra - ao contrário do que você supõe - não morreu com Nelson Gonçalves mas, na esteira do sucesso, ganhou todo o país, que passou a dizer "boemia" para designar o(s) ambiente(s) em que acontece a antiga BOÊMIA (que se tornou substantivo comum para definir "estúrdia; vida airada; vida alegre e despreocupada, com pouco ou nenhum trabalho" - segundo Caldas Aulete.
Logo após, no mesmo dicionário, está "BOEMIA, s.f. (Bras.) boêmia. [É f. e pronúncia muitíssimo vulgarizada}.
E posso lhe assegurar que raíssimos boêmios conhecem a expressáo original, a correta (boêmia).
Abraços,

:L.deA.

Memórias do meu £u disse...

Olá Luiz aquino!! Que saudoso texto!
Venho te fazer um convite, para participar do meu blog!
Aceita? Te sigo de volta!

Deixo pra ti um abraço carinhoso!

Aline Santos, autora do blog 'Epífises de uma Pérola'.

Anônimo disse...

Ótima crônica, Luiz. Você e o Rio merecem.
Abraços
Herondes

Mirian Oliveira disse...

Uma das crônicas mais deliciosas que já li sobre o nosso Rio de Janeiro! Parabéns, Luiz!
Um abraço, direto de Brasília.

mc-consul@hotmail.com disse...

Luiz meu amigo, o Rio de tantas saudades, de outros tempos, de outra era. Mas hoje estão restaurando o Rio antigo com seus cazarões, seus bares, sua gente, e esta ficando lindo, com a velha sempre nova Confeitária Colombo, mas o Rio continua lindo....

J. Martines Carrasco disse...

Prezado poeta, Luiz de Aquino,
lendo suas inúmeras crônicas e poemas, além da expressão bem característica, aparecem as marcas de leve e agradável nostalgia; e gratidão pela reverência literária aos seus velhos amigos.
Traços inequívocos de escritor talentoso, em harmonia com o que a vida lhe tem proporcionado.
Abrç. J.Martines

José Chadan disse...

Parabéns pelas crônicas e poesias. São inspiradoras pela sutileza e também pela estética.

Até breve, poeta.