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O Rio e a saudade |
Rio, meu Rio dos anos 50 e 60, antes do ônibus elétrico e do
golpe militar! Aquele é o meu Rio de Janeiro, rio de gente e de almas felizes,
alegres e plenas apesar da Corte Lusa, apesar do Império e da República nova
que hoje dizemos velha. É o Rio da Cidade Nova na beira do Mangue, mais tarde
puteiro e, mais recente, catedral do samba de escolas.
Rio capital, não a do Catete, e sim o Rio de um Itamarati
nacional, sede nacional para apenas dois presidentes, os marechais das Alagoas;
o palácio era o Itamarati escrito com desinência nacional (em Brasília,
internacionalizaram o Paço das relações externas, com um ridículo e estranho,
insosso e esquelético ípsilon de mãos para o alto, é um assalto; suprimam o i,
aqui é o FMI!).
Rio Guanabara baía, herdeiro capital da velha Salvador doutra
Bahia, rio de Brasil inteiro que a fez na migração carente dos que perseguiam
sonhos: Rio de Norte e Nordeste, Brasil Centro-Oeste, oriental ou meridional
que ao Rio afluía feito afluentes, vertentes humanas a povoar Copa, Ipanema e
ermo Leblon; povos brasilis a mesclar brancos e índios em morros de negros
egressos do cativeiro, matrizes de sambas e crônicas – ah, as crônicas! Machado
e Lima e João do Rio a desaguar em Sérgio Ponte Preta e Rubem (s), Conny e Ruy
Castro et cetera, et cetera...
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Saindo para o colégio (1958) |
Ah, eu, que me fiz escriba de fraldas em farda azul e bege do
Pedro II Colégio da São Francisco Xavier... Sob as bênçãos da Tijuca bairro e
pico, floresta e barra, fiz-me poeta pequeno e triste, saudoso de bondes e
quebra-queixos, cuscus de baiana à porta da escola.
Noel reinara na Vila, Cartola na Mangueira, Candeia era rei na
Portela e tantos mais em tantos Rios de janeiro ao Natal. Mas era no tempo dos
anos dourados: quase homem, mas imberbe, senti a alma da cidade em versos de
sol e de sal criados na areia das praias e em bares da orla Ipanema sob acordes
de Tom: era Vinícius, o de Morais.
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Lapa: Capital nacional da boemia... |
Ele, o poeta, pariu a alma do Rio e do tempo de então, essa alma
molhada e limpa, de azul e calor em versos de luz e harmonia que ainda ecoam
aos nossos sentidos como gotas de uma chuva amena e fresca.
Rio que era a alvura na Esplanada do Castelo e o corredor de
finanças na Avenida Rio Branco; Rio é a boêmia na Lapa, a pressa na Presidente
Vargas e as greves ingênuas contra o aumento de tarifas dos bondes. Rio é a
lembrança dos churrasquinhos de cotia no Campo de Santana, o sarro consentido
nos trens superlotados (ah! Que saudade do riso maroto das garotas dizendo “faz
isso não”, enquanto os olhos traduziam que sim).
E a Praça Mauá, do Cais do Porto e da Rádio Nacional! Boêmios
sambistas poetas de rua, putas solenes ou vulgares, as luzes, a rodoviária
antiga, a polícia em duplas de Cosme e Damião.
Rio dos anos verdes em Marechal Hermes,. Parque de diversões no
campo de futebol defronte à Fábrica Nacional de Vagões, o campo do União
Esporte Clube, que deu lugar ao imponente Botafogo; o Ginásio José Acioli, a
Escola Técnica Mauá, o Campo dos Afonsos e os quartéis da Vila Militar. Coreto
do lado oposto à minha Rua João Vicente (saudade do sobrado 1.495, esquina com
a João Soledade). Velhas limousines-lotação até Madureira, Teatro Zaquia Jorge,
a que morreu na Barra e fez o povo cantar no carnaval de 1957: “Madureira chorou / Madureira chorou de dor /
quando a voz do destino / obedecendo ao Divino / a sua estrela chamou...”.
Era o Rio do jogo-do-bicho, contravenção reprimida à luz do dia,
tolerada e compartilhada à noite. Tevê em preto e branco, novelas de rádio,
futebol de várzea e festa no Maracanã em dia de Fla-FLu. Era o Rio antes das
drogas e de Brizola versus Globo, de meninos emergentes garotos fanfarrões.
Ah, saudade!...
* * *
Nada de mais, leitores queridos! Pincei esta crônica nos meus
guardados, ela é de março de 2005. Republico-a só porque... porque... Ora,
porque me deu saudades do Rio, uai!
9 comentários:
... qualquer que seja a época vivida, a saudade do Rio sempre vai estar rondando os corações e mentes de muita gente.
Beijossssssssss, meu querido amigo poeta !!!
Verdade. No lugar de dizer que é requentada, digo que a saudade nunca se esfria. E dizer boemia, mudando o acento gráfico da palavra, só mesmo Nelson Gonçalves. A palavra é boêmia, como você a grafou, embora ninguém mais diga assim depois de Nelson.
Mara,
Tem razáo ao afirmar que a pronúncia sem acento -boemia - surgiu aos ouvidos brasileiros na música A Volta do Boêmio, gravada por Nelson Gonçalves. O autor é Adelino Moreira e a mudança de acentuaçao tônica se deu para coincidir com a melodia.
Mas a palavra - ao contrário do que você supõe - não morreu com Nelson Gonçalves mas, na esteira do sucesso, ganhou todo o país, que passou a dizer "boemia" para designar o(s) ambiente(s) em que acontece a antiga BOÊMIA (que se tornou substantivo comum para definir "estúrdia; vida airada; vida alegre e despreocupada, com pouco ou nenhum trabalho" - segundo Caldas Aulete.
Logo após, no mesmo dicionário, está "BOEMIA, s.f. (Bras.) boêmia. [É f. e pronúncia muitíssimo vulgarizada}.
E posso lhe assegurar que raíssimos boêmios conhecem a expressáo original, a correta (boêmia).
Abraços,
:L.deA.
Olá Luiz aquino!! Que saudoso texto!
Venho te fazer um convite, para participar do meu blog!
Aceita? Te sigo de volta!
Deixo pra ti um abraço carinhoso!
Aline Santos, autora do blog 'Epífises de uma Pérola'.
Ótima crônica, Luiz. Você e o Rio merecem.
Abraços
Herondes
Uma das crônicas mais deliciosas que já li sobre o nosso Rio de Janeiro! Parabéns, Luiz!
Um abraço, direto de Brasília.
Luiz meu amigo, o Rio de tantas saudades, de outros tempos, de outra era. Mas hoje estão restaurando o Rio antigo com seus cazarões, seus bares, sua gente, e esta ficando lindo, com a velha sempre nova Confeitária Colombo, mas o Rio continua lindo....
Prezado poeta, Luiz de Aquino,
lendo suas inúmeras crônicas e poemas, além da expressão bem característica, aparecem as marcas de leve e agradável nostalgia; e gratidão pela reverência literária aos seus velhos amigos.
Traços inequívocos de escritor talentoso, em harmonia com o que a vida lhe tem proporcionado.
Abrç. J.Martines
Parabéns pelas crônicas e poesias. São inspiradoras pela sutileza e também pela estética.
Até breve, poeta.
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