![]() |
Se a memória ainda estiver fiel, a placa era EF-4070. Deixou muita saudade! Anos depois, comprei outro, branco, 76... |
Endereço: Maverick
vinho, 74...
Que
tempo era aquele, hem? Ora, eu sei, final dos Setenta, começo dos Oitenta,
Século XX (vinte, para os que não chegaram à escola que ensinava assim). Eu
vinha de uma boa fase profissional, deixara o banco, estava na telefônica nos
últimos trinta meses, ganhava bem e em dia (o salário caía na conta no dia 20
de cada mês, e era mês a vencer).
Era
Dia do Índio, 19 de abril, em 1979. Cochichei ao ouvido de Wilmar Alves,
jornalista, ex-aluno no Liceu: “Estou desempregado”. E ele, segundos após,
olhando-me com severidade: “Está não; segunda-feira você começa lá comigo”.
Esse “lá comigo” era a editoria de política do Jornal Opção, em sua fase
diária.
Naquele
momento, começava a fase romântica no conceito das profissões que exerci desde
a adolescência. Foi um período grave, de quase dez anos, com salários
irrisórios e pagamentos atrasados. Mas foi uma fase bonita – claro, descontando
as dores e constrangimentos naturais.
Wilmar,
amigo desde os tempos do Liceu, foi pessoa de minha relação mais bonita, a da
amizade livre de expectativas. Gostávamos de nos encontrar, de acompanhar a
vida um do outro: filhos que nascem e crescem, novas funções profissionais,
novos livros.... Mal-educado, ele: foi-se muito antes da hora, nem se despediu
de todos!
Aquele
ano, 1979, foi muito marcante... Empreguei-me no jornal, com horários malucos –
das 17 horas até o fechamento total da edição – e muita boemia, cumprindo o
após-expediente nos raríssimos bares que só se fechavam ao nascer do sol,
fiz-me solteiro outra vez; comecei a namorar uma linda jovem, namoro de pura
paixão e muitos arroubos. Durou pouco, sete meses, apenas.
Nos
dias de namoro, vendi uma máquina de escrever, eletrônica; consegui, lembro-me
bem, quarenta mil cruzeiros! Acrescentei cinco mil e comprei, à vista, um
Maverick 74, cor de vinho, muito bonito! A exposição ao sol comprometeu a
pintura, a tinta soltava-se a cada lavada.
Quando recebi o título de Cidadão Goianiense, pedi e a vereadora Célia Valadão homenageou alguns amigos meus; entre eles, o Benevides. |
Na
Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Goiânia, fiz companheiros que se
tornaram grandes amigos. Entre estes, Benevides de Almeida, uma espécie de
repórter-símbolo da Folha de Goiás, que aparecia como “Goiaz”. Bené, para os
íntimos, foi o colega com quem mais briguei em toda esta jornada. Nossas
discussões duravam muito pouco, acabavam sempre no bar mais próximo.
Pois
é ele quem, volta e meia, cobra-me esta homenagem: uma lauda em louvor do velho
e bom Maverick. E por quê? Por quase nada... É que, empolgado com aquele novo e
inusitado ofício sem horários, sofrido com o término do casamento e, logo em
seguida, do namoro apaixonado, decidi esvaziar o pequenino apartamento alugado
na Vila Brasília. Entupi o Maverick com coisas inevitáveis, como roupas, livros
e uma prosaica máquina de escrever, portátil – sucessora da imponente IBM “de
bolinha” e ganhei a vida e as ruas! As noites – parte delas –, passava-as no
encerramento do jornal, à porta de algum bar sob a vigia do guarda noturno (meu
amigo) ou no estacionamento da “Folha” – no prédio que hoje é do DM, na Praça
da Bíblia.
Pois
é! E vem o Benevides a cobrar-me gratidão ao velho e bom Maverick... Devo
contar, ainda, que esse proceder eu repeti poucos anos após, num distinto e
eficiente Passat 79, que se prestou ao mesmo destino do saudoso Maverick de
seis cilindros.
Tempo bom mesmo, hem, Bené?
*
* *
3 comentários:
Saudades de teu blog, querido amigo Luiz,
Amei a história do Maverick vinho.
Beijos, com carinho
Os carros conseguem marcar tanto quanto fotos, músicas ou cheiros. São companheiros de boas e más jornadas e tornam-se quase amigos. O Maverick era um carrão, bem macio. Ele flutuava sobre o asfalto. Meu irmão Helder tinha um desses por esta época. Olhando-o, vemos como o belo torna-se com estética superada. Somos levados a mudar o gosto e acordo com os designers e as modas.
Luiz, quase tivemos uma história igual. Em 1976, eu tava no JB ganhando bem, tinha deixado o Banco do Brasil e resolvi trocar meu Fuscão 73 que tirara Okm da loja, ainda lindo. Pois pensei em comprar um Maverick. Tava quase tudo certo, eu ia dar o Fuscão de entrada quando cruzo na redação com Waldyr Figueiredo, que editava o Carro & Moto. Falei do Maverick e ele me desaconselhou. Compra o Polara, acabei de rodar 3 mil km com ele. Tá maravilhoso. Comprei o Polara 76 branco, ficou 8 anos comigo, rodei o Brasil com ele. Hoje, como no poema do Frost, "The road not taken", não tenho como saber se teria sido melhor ter comprado o Maverick. Que ainda namoro quando vejo, cada vez mais raramente, passar por mim nas ruas.
Postar um comentário