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A poetisa Leodegária de Jesus, em crayon de Amaury Menezes |
Leodegária de Jesus
Cecília
Meireles proclamou-se poeta, aplicando o masculino como genérico ou comum de
dois, ao versejar “Eu canto porque o instante existe / e a minha alma está
completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta” (Motivo, o poema). Não sei se a autora de Canteiros (os dois poemas ganharam músicas de Fagner) valeu-se
apenas da liberdade poética para manter o ritmo e valer-se da rima, ou se, ao
se chamar de poeta, levantou uma bandeira feminista. O fato é que muitas
poetisas, poetas e críticos de ambos os gêneros, em todo o Brasil, adotaram a
forma. Leila Micolis poetizou, a respeito de si mesma: “Poeta. / Que em poetisa
/ tudo mundo pisa”.
Quero
contar aqui de uma poetisa goiana do Século XIX, Leodegária de Jesus. Nasceu em
Caldas Novas, cerca de 100 dias antes que substituíssem o Império por esta República
confusa que temos agora. Por isso, e porque a minha terra natal ainda não fora
emancipada, não existe registro de seu nascimento lá, e os livros da paróquia
tomaram rumo incerto. Ela própria é a fonte que afirmava ser caldas-novense,
como o poeta Delermando Vieira. E a professora Darcy França Denófrio é a maior
estudiosa – portanto, autoridade indiscutível – sobre a vida e a obra da
primeira poetisa de que se tem notícias em terra goiana.
Leodegária
foi também a primeira mulher a publicar livro em Goiás – Coroa de Lírios, em 1906 –, quanto tinha apenas 16 ou 17 anos, a se considerar o mês do evento. E ao
lançar seu outro livro, 22 anos depois – Orquídeas
–, nenhuma outra mulher o fizera, também! Outra poetisa goiana surgiu em livro
somente em 1954 – Regina Lacerda, com Pitangas.
As
poetisas, ou mulheres poetas, despontaram para valer, em Goiás, a partir da década
de 60 do século passado, especialmente no Grupo de Escritores Novos – Yeda
Schmaltz, Edir Guerra Maragoni, Maria Helena Chein – e muitas outras, entre
elas a própria professora Darcy. E já na década seguinte o preconceito de gêneros
era um item a se desconsiderar solenemente; afinal, vivia-se a chamada “revolução
sexual” advinda dos ventos pós-guerra na segunda metade dos anos quarenta, o rock and roll mudava costumes, a
conquista espacial reforçava o avanço tecnológico e a pílula anticoncepcional
oferecia uma nova era.
Esses
avanços, entretanto, não favoreciam a memória. As inovações – coisas que
encantam os moços – contribuem para o esquecimento dos feitos anteriores:
costumo dizer que quando jovens pensamos que Deus criou o mundo no dia em que
nascemos. Leodegária é citada na obra de Gilberto Mendonça Teles – A Poesia em Goiás (1964). Depois, foi a
vez de Basileu Toledo França publicar Poetisa
Leodegária de Jesus (1996). Este livro coincide, em sua feitura e publicação,
com o incansável (será?) trabalho de Darcy, que me presenteou, há poucos dias,
com três obras muito especiais: um exemplar de Orquídeas (1928, já citado; a grafia da época é Orchideas); Letras em Revista (do ICHL/UFG, Cegraf,
1992, em que se acha um belíssimo ensaio de sua lavra – Entre “Lyrios” e “Orchideas” o Pássaro Ferido); e sua obra Lavra dos Goiases III – Leodegária de Jesus
(Cânone Editorial, 2001).
Fica
patente que, dos esforços de Darcy França Denófrio, a obra e a memória de
Leodegária – a mulher mais importante de Caldas Novas e uma das mais
expressivas figuras goianas de todos os tempos – começam a ser notadas na vida
acadêmica brasileira. É a justiça dos tempos acontecendo – mas, há que se
dizer, graças ao empenho hercúleo de uma Quixote de saia (sem desmerecer o
empenho feminista, mas sobretudo exaltando a garra e a tenacidade femininas).
* * *
6 comentários:
Ressuscitar uma poetisa caldas-novense (é assim que se escreve,
mesmo?), nascida no século XIX, não é tarefa para amadores. Através do
seu trabalho, elegi Goiás o Estado onde gostaria de ter nascido, caso
o fato não tivesse ocorrido no então Distrito Federal, em 23 de
janeiro de 1950. Palavra de uma carioca, brasileira da gema!
Gosto do nome Joana Querubina, conheço uma mulher chamada Orquídea, e amei a grafia antiga. Orchidea. Ficou chique demais. E mais importante ainda, por nomear o livro de uma desbravadora. Bato palmas para essas loucas mulheres, e mais ainda para Leodegária de Jesus. Nem imaginamos o que foi, para elas, numa época de pouquíssimos leitores chegar lá. Impensável publicar um livro. E ela fez isso. Pena que não nos deixou nenhum exemplo de sua produção, Luiz. Fica aqui a minha crítica. Queria ao menos um aperitivo. E que você continue a não nos deixar esquecer dessas mulheres-fenômeno.
Mara Narciso, veja o que me escreveu Tânia Maria Barreto Rocha, que etudou no Instituto de Educação de Goiás...
Luiz, foi esse o poema da poeta Leodegária De Jesus, que conheci no IEG, nos idos anos de 1970,graças a nossa querida D. Maria Adélia Bretas,nossa mestra para sempre!
MEU DESEJO
Não quero o brilho, as sedas, a harmonia
Da sociedade, dos salões pomposos,
Nem a falaz ventura fugidia
Desses festins do mundo, tão ruidoso!
Prefiro a calma solidão sombria,
Em que passo meus dias nebulosos;
Sinto-me bem, aqui, à sombra fria
Da saudade de tempos mais ditosos.
Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.
Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro.
Querido Luiz,
Leodegára De Jesus: a primeira vez em que ouvi falar dessa mulher escritora foi no IEG-INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DE GOIÁS-Anos 70. Nossa querida D. Maria Adélia Bretas,professora e diretora à época, tinha uma maneira especial de punir os alunos quando estes faziam alguma traquinagem. Ela dizia: "Você tem uma hora para ler e aprender um poema" - e citava algum poeta. Naquela época, o IEG tinha uma biblioteca de primeira, e lá íamos nós, como eu,que matei aulas pra ver um jogo de vôlei na Esefego. Tive que decorar em pouquissimo tempo um poema, no meu caso foi Gonçalves Dias - Canção do Exílio. Mas não eram só castigos que faziam a nossa querida mestra falar de poesia, falar de poetas e de escritores, Foi Dona Maria Adélia Bretas que nos apresentou a poetisa Leodegária De Jesus. Essa escritora goiana talvez pouco conhecida viveu um momento em que as mulheres eram tão somente para casar, cozer, criar os filhos... Dona Maria Adélia leu na sala de aula um poema dela - Meu Desejo. Essa homenagem do nosso poeta Luiz De Aquino à poeta Leodegária De Jesus despertou-me a lembrança de tê-la conhecido estudando em uma escola pública, e me fez refletir muito; quanta diferença entre a escola daqueles anos e a de hoje!
Ah, poeta!, obrigada por esta crõnica, por esta lembrança! Lembrar pessoas como D. Maria Adélia Bretas e seu esposo, o o também professor Genesco Bretas, é um resgate, uma alegria e um prazer enorme! Foram pessoas que fizeram pela educação a grande diferença! na formação de muita gente!
Um abraço, poeta Luiz De Aquino.
http://fabianofernando.blogspot.com.br/
LEODEGARIA DE JESUS, UMA DAS GRANDE POETISA DO ESTADO DE GOIAS
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