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sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Leodegária de Jesus


A poetisa Leodegária de Jesus, em crayon de Amaury Menezes


Leodegária de Jesus


Cecília Meireles proclamou-se poeta, aplicando o masculino como genérico ou comum de dois, ao versejar “Eu canto porque o instante existe / e a minha alma está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta” (Motivo, o poema). Não sei se a autora de Canteiros (os dois poemas ganharam músicas de Fagner) valeu-se apenas da liberdade poética para manter o ritmo e valer-se da rima, ou se, ao se chamar de poeta, levantou uma bandeira feminista. O fato é que muitas poetisas, poetas e críticos de ambos os gêneros, em todo o Brasil, adotaram a forma. Leila Micolis poetizou, a respeito de si mesma: “Poeta. / Que em poetisa / tudo mundo pisa”.

Quero contar aqui de uma poetisa goiana do Século XIX, Leodegária de Jesus. Nasceu em Caldas Novas, cerca de 100 dias antes que substituíssem o Império por esta República confusa que temos agora. Por isso, e porque a minha terra natal ainda não fora emancipada, não existe registro de seu nascimento lá, e os livros da paróquia tomaram rumo incerto. Ela própria é a fonte que afirmava ser caldas-novense, como o poeta Delermando Vieira. E a professora Darcy França Denófrio é a maior estudiosa – portanto, autoridade indiscutível – sobre a vida e a obra da primeira poetisa de que se tem notícias em terra goiana.

Leodegária foi também a primeira mulher a publicar livro em Goiás – Coroa de Lírios, em 1906 –, quanto tinha apenas 16 ou 17 anos,  a se considerar o mês do evento. E ao lançar seu outro livro, 22 anos depois – Orquídeas –, nenhuma outra mulher o fizera, também! Outra poetisa goiana surgiu em livro somente em 1954 – Regina Lacerda, com Pitangas.

As poetisas, ou mulheres poetas, despontaram para valer, em Goiás, a partir da década de 60 do século passado, especialmente no Grupo de Escritores Novos – Yeda Schmaltz, Edir Guerra Maragoni, Maria Helena Chein – e muitas outras, entre elas a própria professora Darcy. E já na década seguinte o preconceito de gêneros era um item a se desconsiderar solenemente; afinal, vivia-se a chamada “revolução sexual” advinda dos ventos pós-guerra na segunda metade dos anos quarenta, o rock and roll mudava costumes, a conquista espacial reforçava o avanço tecnológico e a pílula anticoncepcional oferecia uma nova era.

Esses avanços, entretanto, não favoreciam a memória. As inovações – coisas que encantam os moços – contribuem para o esquecimento dos feitos anteriores: costumo dizer que quando jovens pensamos que Deus criou o mundo no dia em que nascemos. Leodegária é citada na obra de Gilberto Mendonça Teles – A Poesia em Goiás (1964). Depois, foi a vez de Basileu Toledo França publicar Poetisa Leodegária de Jesus (1996). Este livro coincide, em sua feitura e publicação, com o incansável (será?) trabalho de Darcy, que me presenteou, há poucos dias, com três obras muito especiais: um exemplar de Orquídeas (1928, já citado; a grafia da época é Orchideas); Letras em Revista (do ICHL/UFG, Cegraf, 1992, em que se acha um belíssimo ensaio de sua lavra – Entre “Lyrios” e “Orchideas” o Pássaro Ferido); e sua obra Lavra dos Goiases III – Leodegária de Jesus (Cânone Editorial, 2001).

Fica patente que, dos esforços de Darcy França Denófrio, a obra e a memória de Leodegária – a mulher mais importante de Caldas Novas e uma das mais expressivas figuras goianas de todos os tempos – começam a ser notadas na vida acadêmica brasileira. É a justiça dos tempos acontecendo – mas, há que se dizer, graças ao empenho hercúleo de uma Quixote de saia (sem desmerecer o empenho feminista, mas sobretudo exaltando a garra e a tenacidade femininas).


* * *

6 comentários:

Sueli Soares disse...

Ressuscitar uma poetisa caldas-novense (é assim que se escreve,
mesmo?), nascida no século XIX, não é tarefa para amadores. Através do
seu trabalho, elegi Goiás o Estado onde gostaria de ter nascido, caso
o fato não tivesse ocorrido no então Distrito Federal, em 23 de
janeiro de 1950. Palavra de uma carioca, brasileira da gema!

Mara Narciso disse...

Gosto do nome Joana Querubina, conheço uma mulher chamada Orquídea, e amei a grafia antiga. Orchidea. Ficou chique demais. E mais importante ainda, por nomear o livro de uma desbravadora. Bato palmas para essas loucas mulheres, e mais ainda para Leodegária de Jesus. Nem imaginamos o que foi, para elas, numa época de pouquíssimos leitores chegar lá. Impensável publicar um livro. E ela fez isso. Pena que não nos deixou nenhum exemplo de sua produção, Luiz. Fica aqui a minha crítica. Queria ao menos um aperitivo. E que você continue a não nos deixar esquecer dessas mulheres-fenômeno.

Luiz de Aquino disse...

Mara Narciso, veja o que me escreveu Tânia Maria Barreto Rocha, que etudou no Instituto de Educação de Goiás...

Luiz, foi esse o poema da poeta Leodegária De Jesus, que conheci no IEG, nos idos anos de 1970,graças a nossa querida D. Maria Adélia Bretas,nossa mestra para sempre!


MEU DESEJO


Não quero o brilho, as sedas, a harmonia
Da sociedade, dos salões pomposos,
Nem a falaz ventura fugidia
Desses festins do mundo, tão ruidoso!

Prefiro a calma solidão sombria,
Em que passo meus dias nebulosos;
Sinto-me bem, aqui, à sombra fria
Da saudade de tempos mais ditosos.

Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.

Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro.

Tania Maria Barreto Rocha disse...

Querido Luiz,
Leodegára De Jesus: a primeira vez em que ouvi falar dessa mulher escritora foi no IEG-INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DE GOIÁS-Anos 70. Nossa querida D. Maria Adélia Bretas,professora e diretora à época, tinha uma maneira especial de punir os alunos quando estes faziam alguma traquinagem. Ela dizia: "Você tem uma hora para ler e aprender um poema" - e citava algum poeta. Naquela época, o IEG tinha uma biblioteca de primeira, e lá íamos nós, como eu,que matei aulas pra ver um jogo de vôlei na Esefego. Tive que decorar em pouquissimo tempo um poema, no meu caso foi Gonçalves Dias - Canção do Exílio. Mas não eram só castigos que faziam a nossa querida mestra falar de poesia, falar de poetas e de escritores, Foi Dona Maria Adélia Bretas que nos apresentou a poetisa Leodegária De Jesus. Essa escritora goiana talvez pouco conhecida viveu um momento em que as mulheres eram tão somente para casar, cozer, criar os filhos... Dona Maria Adélia leu na sala de aula um poema dela - Meu Desejo. Essa homenagem do nosso poeta Luiz De Aquino à poeta Leodegária De Jesus despertou-me a lembrança de tê-la conhecido estudando em uma escola pública, e me fez refletir muito; quanta diferença entre a escola daqueles anos e a de hoje!
Ah, poeta!, obrigada por esta crõnica, por esta lembrança! Lembrar pessoas como D. Maria Adélia Bretas e seu esposo, o o também professor Genesco Bretas, é um resgate, uma alegria e um prazer enorme! Foram pessoas que fizeram pela educação a grande diferença! na formação de muita gente!
Um abraço, poeta Luiz De Aquino.

Fabiano Fernando disse...

http://fabianofernando.blogspot.com.br/

Anônimo disse...

LEODEGARIA DE JESUS, UMA DAS GRANDE POETISA DO ESTADO DE GOIAS